Capítulo Dois: Colegas de Toca.
Entrei numa velharia estranha - Que mais tarde descobri que se chama carro e que era um artefato trouxa. Vi o Weasley tirar da boca um charuto. Estava diferente. O cabelo um pouco acima do ombro, olhos ameaçadores, voz grossa e marcante:
— Olá Malfoy.
— Olá.
Ligou o carro. Weasley mulher estava ao meu lado, olhando para Azkaban e sua torre atentamente. Qualquer pessoa, sem uma em especial, gruda os olhos naquele amontoado de pedras. O sentimento sombrio que cobre o coração ao observar enormes e inúmeros dementadores é realmente... supérfluo. Um monte de nada. Total vazio. Um arrepio corre a espinha e o coração acelera. Você se pergunta "Quando vou sair deste lugar?" sendo que acabou de botar os pés ali e nem sequer entrou.
Olhei para a janela de vidro do carro e tudo passava como um borrão. Desejei somente uma cama.
Chegamos a um lugar realmente fascinante. A paisagem, quero dizer. A casa dos Weasley continuava feia por fora. Alguns cachorros e gnomos rondavam pela grama alta e verdíssima, e eu não estava gostando deles desamarrando minha bota. Ao andar pelo ar livre e ver o sol se por deixando tudo alaranjado, senti-me liberto.
— Seja bem vindo, querido. Isto é o minimo que podemos oferecer-lhe ao julgá-lo tão mal.
A velha rechonchuda matriarca dos Weasley continuava a mesma, mas um pouquinho mais magra. Estava vestida normalmente, e eu não estava sentindo absolutamente nada ao entrar ali. Nem mesmo nojo.
Logo que vi toda aquela comida na mesa, meu estômago passou a roncar. Ainda que não fosse um banquete como eu costumava em Azkaban, estava ótimo.
Ok, talvez devesse ser menos irônico.
Ela nos guiou à mesa e sentei-me na ponta. A vi trazer pratos flutuando com magia, e assim que botou-os na mesa sua voz delicada e suave disse claramente:
— Coma, filho. Deve estar com muita fome!
Pois é. A senhora nem imagina!
Anotei mentalmente que estava agradecido pelo Weasley mais novo ter chegado rápido em casa. Mentalmente não. No estômago.
Eu comia devagar para mostrar que me sentia forte e sem tanta fome, mas a cada garfada a vontade de enfiar tudo na boca aumentava. Depois do término do primeiro prato, ainda não estava satisfeito. Um pouco encabulado repeti, mas ninguém estava reparando muito em mim, a não ser a senhora Weasley, que me olhava com um sorrisinho no rosto. Desviei os olhos dela imediatamente.
Sentia-me estranho ao ver a pena nos olhos de alguém ou a satisfação por conseguir ajudar. Eu me sentia um intruso ali, e não podia negar, eu o era de uma forma educada. A porta da frente se abriu com um clique. Eu estava terminando de comer, mas achei interessante fitar a Granger entrando. Estava diferente. Mais bonita. Ao seu lado estavam os dois Weasleys gêmeos que carregavam um sorriso brincalhão no rosto, enquanto a garota sangue sujo tinha uma carranca e os braços cruzados abaixo do peito.
— O que foi, Mione? - Era até nojento ouvir a voz de Ronald Weasley tão grossa chamar a garota daquela forma.
Ela aproximou-se do menino e sentou em seu colo, dando um demorado selinho e o deixando um tanto avermelhado.
— Olá tia Molly.
Voz doce.
— Olá querida. Almoce conosco.
— Não, obrigado. Almocei com meu pai e minha mãe. - Falseou um sorriso e me olhou de esguelha. — Vejo que saiu de lá, Malfoy.
Ou talvez seja um fantasma meu. Revirei os olhos.
Pois é, Granger.
— Acho bom que te mostre um quarto. - A menina Weasley cortou as próximas alfinetadas. Talvez tenha notado meu tom ácido. Apenas assenti.
Estávamos subindo a enorme escada devagar. Ela na frente e eu em seu encalço. Bunda bonita. Acordei dos devaneios no momento em que ela parou alguns degraus antes do fim e virou-se para mim com um sorrisinho amarelo.
— Malfoy, não somos ricos, mas nossa situação melhorou um tanto. Desculpe-nos pela humildade.
Mais um pouco, e alcançamos o último quarto. Eu não sabia exatamente o que responder. A vi girar a maçaneta vagarosamente e notei a pressa para entrar. Ela não estava esperando alguma resposta, e isso me agradava. Acendeu a luz do quarto e me deu passagem. Pude observar que o cômodo era grande e aparentemente confortável. A primeira coisa que fiz ao sentar na cama mole foi me livrar da botina.
— Não se preocupe. Está tudo bem.
Foi só o que respondi depois de um tempo. Surpresa nos olhos dela. Sorriu docemente e apontou para algumas mudas de roupa ao meu lado, na cama.
— Sinta-se a vontade para um banho. As roupas são do Rony e provavelmente cabem em você. - Mais um sorriso. Ela andou até a porta e ficou ali, me observando. Quis saber porque os olhos dela brilhavam em minha direção. - Acho que quer descansar agora. Fique bem.
Fechou a porta. Mergulhei no meu próprio mar de confusão. Na minha própria história. O tratamento deles estava me enjoando. Não por ser tratado bem. Estava enjoado por minha causa. Porque não conseguia olhá-los sabendo que me tiraram de Azkaban a toa. Porque eu sabia que devia pagar pelo que cometi. Porque eu não havia matado Arthur Weasley, mas havia matado cinquenta e sete homens e sessenta e duas mulheres comuns iguais a ele.
E embora eu soubesse de tudo isso, voltar não era o que eu queria.
Adormeci daquela maneira: Sujo de todas as formas possíveis.
As horas se arrastavam e eu ainda estava preso em um pesadelo. Deitado no travesseiro de algodão e coberto por um lençol gostoso, revirava na cama pequena demais com as torturas que sofria numa ilusória cela em Azkaban. Naquele momento estava comendo ratos, de tanta fome. Merlim sabe como tudo parecia real e como o gosto grotesco descia mal por minha garganta. Acordei horas depois de muita tortura.
Andei pelo quarto a procura das mudas de roupa para um banho. O sol nascia. Madrugada. Constatei que havia dormido em cima de tudo, provavelmente na pressa de um descanso. Sempre acordei cedo, não conseguia dormir muito mais que uma noite. Apanhei as vestes e me dirigi à pequena "suíte". A banheira ao menos era grande. Liguei a água no quente. Quente seria bom. Estava um tanto friorento de tempos para cá. Despi-me e puxei o pano em volta da banheira, cobrindo a vista para o quarto. Deitei e me espreguicei. Uma noite bem dormida? Relaxante.
Nos seguintes trinta minutos eu estava quase dormindo lá dentro quando bateram na porta.
— Malfoy?
— Sim? - Gritei.
— É a Ginny. Trouxe seu café e tenho uma notícia importante!
— Só um minuto! - Respondi. Atônito, me apressei para estar apresentável.
Não que pelado eu não seja. Ao contrário. Mas talvez não fosse uma boa hora para atender um Weasley sem nenhuma roupa.
A roupa ficara um pouco larga. Os ombros do Ronald pareciam um tanto maiores que os meus, mas ao menos eu estava confortável. Ao sentar na cama, apanhei as meias e permiti que Ginevra Weasley entrasse, e ela o fez — Diga-se de passagem, muito graciosamente.
— Panquecas, ovos com bacon, pãozinho com geléia de doce de leite e um café forte. O que me diz? Ah, também tenho uma ótima notícia.
De repente senti como se pertencesse àquela situação. Como se nada estivesse errado naquela cena.
— Ótimo. - Sorri de lado abandonando toda a cordialidade. - Obrigado, Weasley.
— Ginevra, se não se importa. - Ela riu sentando-se ao meu lado e colocando a bandeja em seu colo. - Prefiro Ginny, na verdade.
- E eu prefiro que me atualize.
- Está liberado para aparatar. Aliás, está liberado para tudo. A carta de aviso está com o Harry. - Segredou, misteriosa. - Finja cara de surpresa quando te contarem. - Ela sussurrou, desta vez.
Quase sorri. Eu estava, definitivamente, intrigado com o comportamento desta garota. Deixei de lado as análises e abocanhei aquela comida, que era mais que bem vinda. Até assumo: Muito gostosa!
Eu achava que estava pronto para viver ali, mas horas depois, mudei de ideia completamente.
Assim que ela abandonou o quarto, Potter e Ronald Weasley entraram. Senti-me desconfortável. Mexi com os dedos nervosamente na janela, tamborilando-os. Claro que não estavam ali a toa.
— Sabemos que não matou meu pai, Malfoy. Sabemos também sobre você ter exterminado a comunidade à leste de onde vocês comensais estavam escondidos. - Ronald foi direto. A voz com um tom ameaçador, até mesmo para mim.
— Nada até agora é uma surpresa, Weasley.
Na verdade era. Não sabia que os dois, Potter e Weasley, sabiam sobre o que fiz.
— Imagino. - Este de voz ácida era Potter. Finalmente virei para encará-los com um pequeno sorriso no rosto. Apenas o de costume. Sem provocações.
— O que querem saber, então? - Retruquei, cruzando os braços e levantando uma das sobrancelhas.
— Sobre Voldemort.
— Não sei muito.
— Sabe da parte que estava sob a maldição Imperius quando matou sem dó todos os pobres da região?
— Sei. - Eu soube que por segundos meu rosto avermelhou. - Mas antes que diga alguma coisa, tenho controle o suficiente para aguentar um Imperius. Não fiz porque não quis.
— Malfoy, nós sabemos de tudo. Não é necessário nos explicar. Você estava sendo torturado e obrigado. Sua mãe morreu para que aceitasse matar, e mesmo assim você não foi capaz. Não se faça de forte.
Não se faça de inteligente. Para falar sobre o que ocorreu, você deveria estar lá. Não estava. Eu estava. - Devolvi ao Potter, calando-o momentaneamente.
— Nosso propósito não era este vindo até aqui. Gostaríamos que nos explicasse sobre o esconderijo de vocês. Portas, passagens, buracos, magias ocultas...
Agreguei as lembranças do esconderijo onde ficávamos antes (Nós, comensais) buscando imagens que poderia ceder ao Potter, mas nunca vi nada secreto. Só algumas armadilhas básicas.
— Acho melhor que eu os acompanhe.
Ronald assentiu.
- Não hoje, Malfoy. Tire para um descanso. Saíremos um pouco... Você parece destruído. - Ronald riu, tirando um envelope do bolso. - A propósito, aí está sua carta. Está liberado para suas atividades normais.
Finjo cara de surpresa? Não. Só tomo as cartas da mão dele.
Vesti um blusão escuro e verde e depois calcei um tênis, que foi deixado por Ginevra a pedido de um dos gêmeos Weasley, que espero saber o nome de cada um e diferenciá-los um dia. Descemos as escadas devagar, sendo que Potter era o primeiro, Ronald o segundo e eu o último. Os degraus não acabavam nunca.
Antes que pudessemos chegar à porta, duas pessoas nos abordaram. Ambas de cabelo vermelho e olhos expressivos e claros. Uma delas segurava a varinha enquanto flutuava um prato grande com pequenos pedaços de bolachinha recheada.
— Onde vão? - A outra perguntou.
— Dar uma saída. - Potter respondeu. Estava impaciente.
- Vamos tomar umas, Gi. Até depois. - Ronald Weasley aproximou-se com um sorriso um tanto derretido nos lábios e beijou a testa da irmã, que um pouco vermelha, assentiu.
Algo me dizia que teria novas surpresas.
Sair pra tomar uma? Tá bom.
Ao saírmos da velha e torta casa, virei-me para observá-la. Curiosa. Alguns pontos da estrutura estavam um tanto danificados dando um ar desengonçado. A última janela era a minha, onde uma cortina perfeitamente branca balançava de um lado a outro. À direita havia uma outra janela, que imagino ser do porão. Abaixo uma de detalhes rosa. Provavelmente de Ginevra. Sorri.
Draco Malfoy analisando a toca e ainda a achando digna...
Draco Malfoy na toca...
Quem diria?
Fomos ao Caldeirão Furado. Sentamos numa mesa torta, e tive a impressão de que a perna da cadeira rangeu. Engoli a seco quando me lembrei que estava sem dinheiro. Precisava ir ao Gringotes.
Ronald já havia chamado um garçom, que devo acrescentar, parecia mais um mendigo. Não estava muito diferente de mim.
- Três uísques de fogo, por favor.
E silêncio.
Até que Potter começou a falar. Algo em sua voz me alarmou.
- Malfoy, estamos contando com a sua ajuda. Nos prove que podemos confiar em você nos ajudando a desativar as armadilhas de onde vocês comensais residiam.
- Pensei que tivesse deixado claro que iria, Potter. Acontece que não sei nem de metade das magias escondidas naquele lugar. Precisamos contratar um especialista, e eu conheço o melhor deles.
- Blaise Zabini. - Ronald sussurrou, procurando com o olhar o garçom que havia nos atendido minutos atrás.
- Sim. - Devolvi, surpreso por conhecerem o Blaise.
- Namorado da Luna? - Potter fez um movimento na cadeira, que achei que esta cederia, mas não cedeu. - Não sabia que ele era especialista em desarmar.
- Mas é, Potter.
E quando pensei que os copos nunca chegariam, me surpreendi com eles flutuando por trás de mim, até pousar em minha frente, sobre a mesa.
Sem falarmos mais nada, tomamos. Potter pagou a dos três, e agradeci mentalmente. Saímos. Estávamos indo até o Olivaras, e eu não sabia porquê, mas algo me dizia que coisa boa não era.
Saber o que aquilo significava estava fora do meu alcance. Eu e Ronald tivemos que ficar fora da loja, e ele parecia tão curioso quanto eu.
- Pronto, resolvido. Vamos ao seu cofre, Malfoy.
Opa! No meu cofre não! No meu cofre no Gringotes. Pois é, galera. Abriram as portas da creche e eu acabei escapando. Seguimos para o banco.
Chegando em frente, ouvi Potter perguntar:
- Ginny tem te paparicado, Malfoy? Ela gosta do seu jeito. Todos conversamos sobre isso hoje de manhã. - O garoto da cicatriz sorriu sincero.
Olhei para as linhas de expressões dele. Totalmente relaxadas. Significava que estava tranquilo de falar comigo. Estava confiante.
Uma barreira de bloqueio caiu, naquele momento. Somente um desbloqueio. Apenas.
- Paparicado não, mas têm sido atenciosa. - Sorri de lado, tirando um rosnar da garganta do Weasley. Outra queda de barreira.
Me senti, repentinamente, mais leve.
No Gringotes, acabei por visitar os cofres da mamãe e do meu pai. As chaves estavam em poder dos duendes, e eu estava autorizado a retirá-las. Óbvio que passei por alguns exames para terem certeza de que era eu e que eu estava limpo de qualquer feitiço dominante, mas me senti ultrajado.
Saímos de lá nós três, e passamos a andar tranquilamente pela rua.
Eu estava indiferente.
O resto do dia fora muito cansativo. Fui - Sem Potter e o Weasley resolver a história da mansão Malfoy e dos meus direitos, e eu nem preciso dizer que não estava com cabeça nenhuma pra esse tipo de burocracia.
Por volta das onze da noite fui bater na porta de casa, preparado para dar a notícia de que finalmente poderia voltar para a minha mansão.
A casa estava limpíssima, e a mesa estava carregada de gostosuras. Claro, foi a primeira coisa que enxerguei. Depois observei Ginevra sorrir, segurando a maçaneta.
- Boa noite.
Falei.
Estranho como não senti vergonha nem receio ao tratá-los bem. Senti apenas... Nada.
Entrei total desavergonhado, sorri, e fui direto para a mesa.
xXx
N/A: Será que essa alegria do Draco dura?
Dois capítulos seguidos! Boa leitura.
