Diplomacia e Flexibilidade

Shame on you
Seducing everyone
Faded you
Your diamond in the rough

Uma semana. Foi o tempo que levou para que Zuko fosse visitar Katara pela primeira vez em seus novos aposentos. A mensagem havia chegado logo pela manhã, avisando que o Avatar estava a caminho da capital da Nação do Fogo. Isso colocava ambos numa posição extremamente delicada.

Os guardas abriram a passagem para que o Senhor do Fogo entrasse na ala do antigo harém. Detestava a idéia de ter que alojá-la naquele espaço em particular, mas tinha que admitir que aquela era a parte mais fortificada e segura de todo palácio, sem mencionar a decoração primorosa.

Por muitos séculos, aquele pedaço do pavilhão real ficou responsável por abrigar as esposas e concubinas do Senhor do Fogo, quando ainda era possível que o soberano tivesse mais de uma companheira. Ao longo dos séculos essa visão foi mudando, até que toda ala fosse convertida em um espaço designado para as mulheres da família real. Vários jardins, galerias cobertas por tapeçarias e quadros, vasos de cerâmica fina, painéis e mosaicos dos mais variados temas compunham a decoração da área destinada à Senhora do Fogo e suas filhas. Sua própria mãe e Azula haviam ocupado quartos ali, mas até então, em mais de mil anos nenhuma mulher que não pertencesse à família real por nascimento, ou casamento, habitou aquele espaço.

O portão principal, feito de metal fundido, formando desenhos e arabescos delicados, foi aberto dando passagem até o centro do harém, onde estavam localizados os aposentos das princesas reais e da própria Senhora do Fogo e o jardim central. Zuko não permitiu que Katara fosse acomodada nos aposentos que haviam pertencido à mãe dele, pois isso não teria sido apropriado para alguém que até então era uma pretendente ao posto. Preferiu colocá-la nos aposentos que pertenceram à falecida esposa de seu tio Iroh.

Não demorou muito para que ele a encontrasse. Katara estava sentada no jardim, de baixo de uma árvore cujas folhas estavam amareladas por causa do outono. Vestia trajes da Nação do Fogo e seu cabelo estava parcialmente preso, num estilo bem parecido com aquele adotado pela mãe dele no passado. A única jóia que usava era o colar com o pingente entalhado que havia pertencido a mãe dela. Naquele contesto, a jóia parecia totalmente fora de lugar, como um corpo estranho a tudo o que existia dentro daqueles muros.

Damas de companhia se ocupavam de ensiná-la a jogar algum jogo de cartas que ela não conhecia. Ela sabia que ele estava ali, mas não se virou para encará-lo até que Zuko tivesse dispensado todas as damas. Sumiram como um bando de ratos que se escondem em suas todas, sumindo das vistas dele. Aquela seria mais uma conversa delicada.

- Seus aposentos lhe agradam? – ele perguntou se sentando junto dela.

- Este lugar é muito bonito, pra uma prisão. – ela respondeu seca.

- Não seja tão severa. Esta não é uma prisão, é a ala destinada às mulheres da família real. Minha mãe e minha irmã ocuparam este lugar, seria bom demonstrar algum respeito. – ele disse num tom cansado. Ela se calou por um instante.

- Há algum motivo para vir até aqui? – ela perguntou de forma impertinente.

- Visitá-la é um bom motivo, eu imagino. – Zuko respondeu – Saber como tem passado, se lhe falta algo, ou se deseja alguma coisa em particular. Além disso, vim trazer notícias.

- A respeito do que? – ela se virou para encará-lo diretamente nos olhos.

- Aang e seu irmão devem chegar ao fim do dia. – ele disse mostrando a mensagem – Já tem idéia do que dirá a eles?

- Por alguma razão, eu tinha a esperança de que você permitiria que eu fosse embora. – Katara fechou a mensagem outra vez – Acho que isso é uma idiotice minha, não é?

- Eu sinto muito. – ele parecia quase envergonhado.

- Sente mesmo? Você determinou que eu ficasse aqui, contra a minha vontade. – ela retrucou.

- As coisas fugiram ao controle, sabe disso. – Zuko retrucou rapidamente – Acha que eu sinto algum prazer em mantê-la aqui? Acha que me agrada tê-la aqui por uma obrigação? Acredite, é torturante tanto pra mim quanto para você, mas isso é necessário, pelo menos no momento.

- Ainda que eu esteja grávida... – ela abaixou a cabeça. Seja lá o que ela queria dizer, era algo tremendamente difícil para ela – Existem meios de...De resolver isso.

- Nem pense nisso! – Zuko esbravejou – Apenas a mera insinuação destes "meios", como você diz, é considerada alta traição! Se estiver mesmo grávida, a criança tem sangue real, sangue do Senhor do Fogo.

- Seria mais simples. – Katara sussurrou quase envergonhada – É horrível pensar nisso, mas seria tão mais fácil.

- Fácil pra quem? – ele a encarou severo – Sua consciência a atormenta porque por uma noite você admitiu que não tinha certeza de seus sentimentos por Aang e aceitou o que eu tinha oferecer, mas incrivelmente você não tem problema nenhum em sugerir um absurdo desses.

- Você não entende. – ela secou os olhos com a manga do vestido.

You don't have to tell me
I know where you've been
Shinning once again

- Não entendo? – Zuko segurou a mão dela entre as suas – Aang é meu amigo, a pessoa que me salvou do meu próprio ímpeto destrutivo. Eu o respeito e me martirizo por ter me deixado levar pelos meus sentimentos em relação a você sabendo que vocês estavam juntos. Estou aqui, sentado ao seu lado, pensando num jeito de resguardá-la, caso queira voltar pra ele ao fim dos três meses, mesmo que para isso eu tenha que mentir para o meu amigo e vê-la indo embora. Acredite, você não é a única que tem vivido em um inferno particular nos últimos dias. – ela parou de chora, apertando a mão dele em resposta.

- O que eu posso dizer a ele? – ela perguntou perdida – Ele não vai acreditar em mim.

- Daremos a ele uma mentira que o palácio inteiro poderá confirmar. – Zuko disse quase otimista – Diremos que você ficará os próximos meses aqui como emissária da Tribo da Água do Sul, enquanto as negociações do tratado definitivo de paz com as Tribos da Água estão sendo finalizadas. Peça a ele pra voltar ao Pólo Sul e ajudar seu irmão e seu pai a reconstruir o que foi destruído em sua aldeia, até que o acordo esteja feito e possa voltar pra casa.

- E o que acontecesse se eu...Não puder voltar pra casa? – ela perguntou desconfiada.

- Então você será o próprio desfecho do acordo. A garantia final ao seu povo de que a Nação do Fogo jamais se virará contra as Tribos da Água. – ele respondeu – Tornará o tratado muito mais forte.

- Então, ficar aqui seria o ideal para o meu povo. – ela fechou os olhos – Você pensa em tudo mesmo, não é? Até numa maneira de me obrigar a encarar um possível casamento como algo ideal a um bem maior.

- Se isso a fará se sentir melhor, esteja à vontade para pensar assim. – ele disse se levantando – Estive pensando...Faz algum tempo que não vê sua terra natal. – ele comentou – Pensei que talvez gostasse de provar a comida de lá outra vez, então contratei um cozinheiro do Sul para atendê-la. Peça o que quiser e ele poderá preparar. Acredito que esta noite, teremos um último jantar antes de Aang e seu irmão voltarem para o Pólo Sul, seria sábio encorajá-los a não estenderem a visita à Nação do Fogo.

- Estará presente no jantar? – ela pareceu surpresa.

- Claro que sim. – Zuko disse encarando o lago ornamental uma última vez – A minha ausência levantaria suspeitas. Aliás, eu estou me responsabilizando pela sua segurança e bem estar. Aang tem que sair daqui com a certeza de que você estará em perfeita segurança e feliz em ajudar o seu povo.

- Vai me dizer o que devo usar também? – ela perguntou contrariada.

- É costume dos emissários usarem roupas da Nação do Fogo enquanto estão hospedados no palácio real. A última moda, alguma coisa em tons de vermelho, preto e dourado. – ele disse calmo, enquanto atirava uma pedrinha no lago provocando ondas na superfície.

- Posso usar o colar da minha mãe? – ela perguntou num tom acuado.

- É claro que pode. – ele disse encarando-a mais uma vez – Acho até que deve.

- Vai dar mais veracidade à mentira, não é? – ela concluiu, se levantando e encarando o lago, dobrando a água para causar suas próprias ondas.

- Acredite, ou não, Katara. Eu não sou um tirano e definitivamente não gosto do papel que estou fazendo, mas se há uma razão para tudo isso é amá-la pelo que é. – ele se virou para ela e levou a mão ao seu rosto acariciando-a – Nunca teve medo de me desafiar, foi a primeira pessoa a confiar em mim, estava ao meu lado no dia que Azula caiu e eu não estaria vivo se não fosse por você. Não quero que mude, só a quero ao meu lado, para me ajudar a manter o país que você me ajudou a conquistar. – ele segurou o entalhe e o avaliou com cuidado – Esse colar sempre esteve entre nós, não é? É parte de quem você é, só te dei o meu pingente porque é assim que os homens fazem nas Tribos da Água quando propõem casamento. Achei que seria mais apropriado.

- A tradição diz que você tem que esculpir o seu entalhe, não pedir a um artesão que o faça. – ela disse.

- E obrigar a Senhora do Fogo a usar a jóia mais horrível da história da Nação do Fogo? Eu não a exporia ao ridículo desse jeito. – ele disse rindo.

- Está muito confiante de que eu serei a Senhora do Fogo. – ela comentou.

Will you do
The thing you've always done
Tell me true
I think you know the one
One that makes me blurry
Colors start to run
Everytime I wonder
I go under

- Não pode culpar um homem por ter esperança. – ele respondeu – Só posso dizer que o mundo precisa de equilíbrio e eu também. Sol e Lua, Positivo e Negativo, Masculino e Feminino, Tui e La... – ele segurou a mão dela avaliando o contraste dos tons de pele – Água e Fogo. Não pode culpar um homem por desejar ter um pouco de paz, ou tentar escrever o próprio destino.

- Vai sempre tornar as coisas tão difíceis pra mim? – ela perguntou num fio de voz – Como posso distinguir certo e errado com você falando essas coisas?

- Só espero que se for pra errar, que eu seja o seu erro constante. – e aos poucos os lábios se tocaram com pesar e receio. Para ele era um conforto passageiro, para ela era um acréscimo às dúvidas e à confusão. Estava se tornando um erro recorrente.

Foi Zuko quem partiu o beijo ao sentir o gosto de sal das lágrimas dela sobre os lábios. Pensou por um momento qual seria a razão para o choro dela e não soube dizer se eram as dúvidas, ou o arrependimento. O único conforto era a certeza de que todas as vezes que a havia beijado, Katara correspondeu, mesmo que brevemente, com paixão.

Ele secou o rosto dela e com uma breve reverência ele a deixou sozinha no jardim enquanto as folhas secas caiam sobre o gramado do jardim. O inverno chegaria logo e haveria neve por alguns meses. Talvez a neve fizesse com que Katara sentisse que aquela era sua nova casa.

O restante do dia transcorreu normalmente e a única coisa da qual Zuko poderia reclamar era da ansiedade. No meio da tarde chegaram notícias de Ba Sing Se. Seu tio Iroh estava a caminho e isso era um grande alívio.

O sol estava se pondo quando Zuko pode avistar Appa cruzando o céu da capital a caminho do palácio. Ele respirou fundo e massageou as têmporas. Trocou de roupas para receber os convidados de honra.

Aang era o tipo de pessoa que parecia trazer sempre uma multidão consigo. Não importava onde estivesse, ele era capaz de encher o ambiente e Sokka não ficava muito atrás. Por um momento Zuko imaginou como seria pertencer à mesma família que o guerreiro da Tribo da Água. Seria no mínimo algo incomum, mas até então o Senhor do Fogo desconfiava que seu provável futuro cunhado não apreciaria a idéia.

O Avatar trouxe presentes e uma porção de histórias a respeito de como a tempestade quase havia destruído a vila que ainda estava fragilizada por causa da guerra. O caminho de Aang parecia sempre repleto de perigos e aventuras inacreditáveis, sem qualquer sinal de monotonia. O que ele podia pensar é que nem de longe a rotina de um Senhor do Fogo era tão emocionante e por isso se pegou pensando em qual opção Katara preferiria. A vida livre e aventureira, ou o rigor do protocolo real e as exigências políticas?

Estavam todos sentados saboreando chá, enquanto Sokka exibia seu novo facão e Momo tentava roubar um pedaço de fruta da mão de Aang, quando o Avatar finalmente perguntou pelo paradeiro de Katara.

- Ela se juntará a nós em breve. Deve estar se trocando neste momento. – Zuko respondeu – Sugeri a ela que escolhesse o cardápio desta noite, então imagino que teremos um jantar típico da Tribo da Água do Sul, se meus cozinheiros forem habilidosos o bastante.

- Acho que nem o melhor cozinheiro do mundo consegue deixar as ameixas do mar cozidas comestíveis. – Aang disse fazendo uma careta.

- O que são ameixas do mar? – Zuko perguntou arqueando a sobrancelha que lhe restou.

- A comida favorita do papai e provavelmente a coisa que o Aang mais odeia depois de suco de cebola com banana. – Sokka respondeu – Comida de casa. – ele suspirou.

- Nem por isso é boa. – Aang retrucou baixinho e Zuko teve que abafar o riso.

A conversa transcorreu tranqüila durante mais ou menos uma hora quando o mestre de cerimônias anunciou que o jantar estava servido na sala reservada à família real em ocasiões informais.

Era uma sala confortável, mas consideravelmente menor do que os ambientes destinados à grandes recepções de Estado. A comida já estava servida e por um instante Zuko quase se arrependeu da idéia de ter permitido que Katara planejasse o jantar, devido a total incapacidade dele identificar o que estava sendo servido.

Assim que se sentaram, Katara foi anunciada e adentrou a sala causando, no mínimo, uma pequena comoção.

Aang encarava a figura vestida com trajes de seda em tom de vermelho sangue, bordados a fios de ouro que traçavam o contorno de uma fênix. O cabelo parcialmente solto caindo como uma cascata negra contra o tecido. As unhas manicuradas também levavam o tom vermelho e, para compor melhor a imagem, ela usava jóias discretas e maquiagem leve.

Sokka a encarava confuso, enquanto Aang parecia bestificado. Zuko foi o único a se levantar para ajudá-la a caminhar até seu lugar à mesa. Tantas camadas de roupa dificultavam a movimentação e era dever de um bom cavalheiro ajudar uma dama a caminhar, sua mãe sempre insistiu em ensiná-lo estes detalhes da etiqueta.

Katara aceitou a ajuda só até Sokka se levantar de uma vez.

- O que aconteceu com você? – ele praticamente berrou de uma vez – Que diabos de roupa é essa? E essas jóias? ABDUSIRAM MINHA IRMÃ!

- Cala a boca, Sokka! – ela retrucou em seu tom habitual – São roupas novas que o Zuko me deu. O que há de errado em querer andar na moda, já que eu estou na Nação do Fogo?

- Nada...Eu acho. – Sokka disse se sentando novamente – É que por um momento eu achei que você estava treinando pra ser a Senhora do Fogo. Essas roupas não...Não parecem com você. – talvez o plano fosse muito mais falho do que Zuko imaginava.

The deeper the blues
The more I see black
Sweeter the brew the feeling starts coming back
All the deepest blues are black
How my mind is spinning
And my head is going numb
Right from the beginning
Our ending had begun
I can be your trouble
Shiver into you
Shaking like the thunder
Sinking under

- Eu gosto. – Aang disse num tom quase tímido – É imponente, diferente das coisas que você usa, mas...Você fica bonita de vermelho.

- Obrigada, Aang. – ela sorriu para ele sem graça, quase como uma virgem corada. Ao menos isso Zuko tinha certeza de que ela não era. Tinha que admitir que ela era uma mentirosa muito melhor do que ele podia imaginar.

Mais uma vez ele a ajudou a caminhar até seu lugar à mesa, o lugar de honra ao lado dele.

- Eu tenho que admitir que nesse curto tempo de governo, acho que essas roupas foram o meu melhor investimento. Nenhuma obra de arte do palácio poderia ser mais agradável aos olhos. – Zuko disse enquanto ela se sentava. Pelo canto dos olhos ele avaliou a expressão contrariada de Aang.

- Não precisa me bajular, Zuko. – ela disse tentando disfarçar o constrangimento.

- Só estou dizendo a verdade. Aposto como Aang concorda. – ele disse encarando o Avatar.

- Concordo plenamente.

- Espero que gostem do jantar que eu pedi pra prepararem. – ela disse falsamente entusiasmada – Eu senti tanta falta da comida de casa! É uma pena que Toph não esteja aqui.

- Há algum motivo para comemoração e eu não estou sabendo? – Sokka perguntou abruptamente, enquanto enchia o prato com um punhado de ameixas do mar cozidas – Isso aqui é um banquete!

- A vitória do Aang. A coroação do Zuko. O fim da guerra. – ela disse enquanto bebia um pouco de chá – Há muitas razões pra comemorar.

- É! – Sokka disse animado – E agora podemos comemorar também a nossa volta pra casa! Amanhã partimos e em alguns dias estaremos no Pólo Sul, não é de mais? – o sorriso morreu no rosto de Katara por uma fração de segundos.

- Achei que ficariam mais alguns dias. – ela disse.

- Nada. Já passamos muito tempo longe de casa, quanto mais rápido voltarmos, melhor. – Sokka disse convicto.

- Então eu espero que vocês dêem um abraço no papai por mim e mandem lembranças. – ela disse abaixando o copo de chá e escondendo as mãos de baixo da mesa.

- Como assim? – Sokka perguntou estridente.

- Achei que estivesse louca pra voltar pra casa, Katara! Que história é essa de mandar lembranças ao seu pai? Você vem com a gente! – Aang disse rapidamente.

- Aang, eu não vou poder ir. Pelo menos não agora. – ela disse calma.

- Então me dê um bom motivo pra isso! – o Avatar retrucou nervoso e foi a vez de Zuko interferir.

- A culpa é minha, Aang. – o Senhor do Fogo disse – Como sabe, estamos prestes a finalizar o tratado de paz e cooperação com as Tribos da Água. Por esta razão eu pedi à Katara que permanecesse aqui por mais alguns meses, só até o tratado ser finalizado. Ela é filha do chefe da Tribo da Água do Sul e influente na Tribo da Água do Norte, ela é a embaixadora ideal.

- Embaixadora? Eu sou o mais velho da família, essa posição devia ser minha! – Sokka disse.

- Sou mais diplomática que você, irmãozinho. – ela retrucou – Eu aceitei a proposta, então não há muito o que possa fazer.

- Podemos ficar aqui com você. – Aang se apressou em sugerir, visivelmente consternado. Katara acenou negativamente com a cabeça.

- Não, Aang. – ela disse num tom bem definitivo – Há muito trabalho a ser feito na Tribo e eu preciso que você e o Sokka voltem pra casa para poder ajudar o papai. Com você por lá, eu ficarei tranqüila para permanecer aqui enquanto for necessário. Zuko disse que não deve demorar muito. – ela estendeu a mão para segurar a de Aang em sinal de encorajamento, o que fez Zuko trincar os dentes – Três meses, quatro no máximo, e eu volto pra casa. É o melhor para as Tribos. Nós já nos separamos antes, não é o fim do mundo.

- Não é, mas... – Aang tentou argumentar, mas Katara não permitiu.

- É o certo a fazer, Aang. Eu só posso confiar em você e no Sokka pra reconstruir a Tribo e pra ajudar o papai por lá. Foram muitos anos de guerra e há muito o que fazer. – ela insistiu encarando o jovem Avatar com olhos quase suplicantes. Olhos mentirosos, era o que Zuko pensava. – Tem que fazer isso por mim, Aang.

- Por mim tudo bem. Acho que você tem razão. – Sokka respondeu – Assim podemos garantir melhorias significativas a longo prazo e eu imagino que muita gente precise ver com os próprios olhos os esforços da nova Nação do Fogo para manter a paz.

- Se você insiste, então eu vou com o Sokka. – Aang respondeu conformado – Já sabe onde vai ficar?

- Quanto a isso não há com o que se preocupar. – Zuko interveio – Eu insisto para que Katara permaneça como minha convidada de honra na corte. Este tratado é importante para todos nós, mas muita gente pode não ficar satisfeita com tantas mudanças repentinas. Aqui ela terá toda proteção dos dobradores de fogo imperiais e guardas altamente treinados.

- Nossa, é como se minha irmã tivesse se tornado uma princesa de uma hora pra outra. Gente importante! – Zuko se perguntou se por um acaso Sokka estava apenas brincando, ou se ele era realmente muito mais perspicaz e observador do que o Senhor do Fogo poderia imaginar.

Estranhamente, Aang perdeu o apetite e Sokka ficou muito mais silencioso do que de costume, razão pela qual Zuko chamou os músicos da corte para entreter o grupo com um breve recital enquanto terminavam o jantar.

Quando terminaram a refeição, Aang pediu um tempo a sós para conversar com Katara e Zuko sentiu toda tensão aflorar de uma só vez.

Não a queria perto dele. Não queria ter que se afastar para não ver a troca de carícias e promessas que ele próprio se encarregaria de destruir na primeira oportunidade. Não queria que ela tivesse ainda mais motivos para se arrepender e voltar atrás, mas ele estava roubando tudo que ambos haviam construído durante o ano que havia passado e uma parte de Zuko, aquela em que repousava sua honra e todo o seu senso de justiça, insistia em dizer que Aang e Katara tinham direito a alguns minutos, nem que fosse para por um ponto final em tudo aquilo.

Levou um tempo até que ele ouvisse os passos dela seguindo em direção a ala do harém. Não foi atrás dela. Não tinha a menor vocação para carrasco ou para apreciar o próprio sofrimento. Katara precisava de espaço, ao menos naquela noite. Um tempo para gritar sozinha, se arrepender, se revoltar e chorar sem que ninguém presenciasse aquilo.

The deeper the blues, the more I see black
The sweeter the bruise, the feeling starts coming back
All the deepest blues are black
When it comes closing in
Reject
Cause I gotta move
And the simple things get in the openings
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Quando o sol nascesse ele falaria com ela. Seria um novo dia e Aang estaria voando em direção ao Pólo Sul. Quando o sol nascesse, as coisas começariam a se ajeitar de uma forma menos turbulenta.

Aang também se retirou para um dos quartos preparados para hospedar os convidados mais importantes do reino. Nenhuma palavra foi desperdiçada e nenhuma faísca de suspeita foi acesa. Era melhor que o silêncio reinasse onde havia tantas mentiras.

Na manhã seguinte todos estavam de pé bem cedo. Aang e Sokka carregaram Appa com todos os suprimentos necessários, sendo observados de perto por Zuko e Katara. Quando tudo estava pronto, ela se despediu do irmão com um abraço apertado.

Aang se aproximou dela com passos inseguros e também recebeu um abraço apertado. Zuko pode ver os olhos vermelhos dela, tentando segurar as lágrimas de indecisão e parecer forte. Ela beijou a bochecha do garoto monge, mas esse foi o máximo de afeto demonstrado. Aang sorriu para ela sem graça e coçou a cabeça sem saber o que dizer.

- Então...Até longo. – ele disse – Vou estar esperando você na Tribo da Água e pode ficar tranqüila, eu vou dar o meu melhor pra ajudar Hakoda e Sokka na Tribo.

- Tenho certeza que vai. – ela disse forçando um sorriso – Vou sentir saudade.

- Eu também. – Aang admitiu.

- Façam uma boa viagem. – Zuko disse, tentando parecer o mais natural possível.

- Obrigado. Cuide bem dela enquanto estou longe. – Aang pediu.

- Eu vou. – Zuko se curvou numa reverencia respeitosa, que foi retribuída por Aang.

Aang se ergueu e num salto acrobático subiu em cima do enorme bisão voador. Um último aceno e logo Appa levantou vôo, seguido de perto por Momo. Não demorou muito até que tivessem desaparecido completamente no horizonte rubro da Nação do Fogo.

Katara estava silenciosa e de cabeça baixa. Sabia que ela estava chorando pelo que devia ser a milésima vez em uma semana. Às vezes se perguntava se todo choro era por causa do remorso, ou porque a idéia de ficar atada ao Senhor do Fogo para o resto da vida era simplesmente insuportável.

- Satisfeito agora? – ela perguntou com voz embargada.

- Não exatamente. – ele respondeu sincero – Era pra você se sentir aliviada. Pelo menos vai poder voltar pra ele se nada der errado nos próximos meses, isso se sua consciência permitir.

- Aang pode ser desligado, mas sente que tem algo errado aqui. Ele pediu para que eu tomasse cuidado e principalmente prestasse atenção em você. – ela disse levando as mãos ao rosto.

- Ele não tem provas. – Zuko disse – E eu não entendo a razão de tantas discussões e lágrimas quando você não reclamou enquanto estava na cama comigo. Sentimento de culpa e a sensação de deslealdade eu entendo, mas o que não dá pra avaliar é até que ponto é só isso e até que ponto você gosta do Aang. Também não posso ter certeza de que você gostou do nosso momento juntos, ou se estava mentindo pra mim assim como mentiu pra ele durante todo o jantar.

Depois disso Zuko voltou para dentro dos salões do palácio enquanto Katara foi levada de volta à sua ala, aonde ela permaneceria os próximos três meses, salvo decisão contrária do Senhor do Fogo. O tempo começou a correr...Três meses.

The deeper the blues, the more I see black
The sweeter the bruise, the feeling starts coming back
All the deepest blues are black

Nota da Autora: ! Que capítulo monstro! Teve bafão de tudo que é modelo e pra todos os gostos! E como a Katara tá bandida! E agora resta saber o que acontecerá nestes três meses. Façam suas apostas, pq no próximo capítulo teremos uma visita especial do tio Iroh, regada à muita chá e conselhos que o Zuko levará uma vida pra decifrar. Música do capítulo é The Deepest Blues Are Black, do Foo Fighter (pq só Deus sabe pq eu decidi ouvir essa banda hj. Eu nem sou chegada nela).

Bjux

Bee.