Equilíbrio Instável

I want something
That's purer than the water
Like we were

It's not there now
Ineloquence and anger
Are all we have

Ele fechou os olhos e respirou fundo, tentando processar a informação e manter a ira sob controle, mas aquilo era quase impossível.

Sabia que a situação desagradava Katara profundamente e ele ainda se lembrava de quando ela havia sugerido uma forma prática de lidar com o possível problema, mas até então Zuko não acreditava que ela teria coragem de arriscar.

Aquilo era alta traição. Ele a havia alertado para os riscos de uma manobra como aquela. Acreditou que um aviso seria o bastante para que ela entendesse que aquilo não era uma opção a ser cogitada e que o melhor jeito de lidar com a situação era esperar o decurso dos três meses, mas aparentemente ela era teimosa de mais para dar ouvidos ao que o Senhor do Fogo dizia, ou no mínimo tinha tendências suicidas.

Seu tio o encarava, preparado para deter o sobrinho, caso Zuko se descontrolasse além da conta. Não fosse por Iroh, só os deuses poderiam dizer o que teria acontecido e, mesmo assim, Zuko não tinha certeza se Katara havia conseguido ou não beber o chá de Dragão da Lua. E se ela tivesse, há quanto tempo ela vinha fazendo o uso da substância?

Outra questão delicada era saber como ela teve acesso àquilo. Zuko suspeitava que as folhas chegaram a ala do harém através de uma das damas de companhia de Katara. Restava saber se a dama em questão havia levado o chá por livre e espontânea vontade, ou a pedido de sua senhora. No caso da primeira opção, a mulher em questão responderia sozinha pelo crime de alta traição, enquanto Katara seria inocentada. Entretanto, a segunda opção era a que Zuko mais temia.

O saquinho de seda cheio se consumiu numa chama única, estralando à medida que as folhas que continha viravam pó na palma da mão do Senhor do Fogo.

- Eu peço para que não tente resolver isso agora. – Iroh implorou ao sobrinho – Está nervoso e a raiva é sempre uma péssima conselheira.

- E qual outra opção eu tenho, tio? – Zuko disse se levantando do trono de uma vez – Não há como ter certeza se neste exato momento mais deste chá está sendo servido a ela. Quem está levando isso até o harém, quem conseguiu e por que? E principalmente, se Katara tinha ou não conhecimento do que estava prestes a fazer!

- Acredita que ela teria coragem? – Iroh perguntou – Ela conviveu tanto tempo com o Avatar que eu tenho minhas dúvidas se ela teria coragem de fazer algo assim. Bem ou mal, seria uma agressão não só ao corpo dela, mas também um desrespeito a outra vida.

- Eu não sei, tio. – Zuko disse enquanto andava de um lado para o outro como uma fera enjaulada – Aparentemente eu não sei nada do que se passa na cabeça daquela louca! Ela passou de todos os limites! Isso é traição contra mim e contra a Nação do Fogo!

- Essas são palavras perigosas para serem ditas em voz alta. – Iroh o advertiu.

- Ela devia ter pensado nisso antes de se valer de algo tão baixo pra se livrar de mim! – Zuko rosnou, fazendo as chamas que rodeavam o trono atrás re si se erguerem por mais de um metro.

- Você ainda não sabe se ela tinha ciência do que estava fazendo. – o general insistiu.

- Não posso provar, caso ela fosse levada a julgamento, mas ela sugeriu...Em uma de nossas conversas ela chegou a sugerir uma "solução prática" para o problema. Eu a avisei, disse que apenas a sugestão poderia ser considerada como alta traição, mas acho que Katara preferiu me ignorar. – ele fechou os olhos com força – É como se a cada hora que passa eu estivesse perdendo mais e mais o controle.

- Se isso for verdade, o que pretende fazer? – Iroh perguntou consternado.

- Eu tentei ser flexível com o acordo. Disse que ela poderia voltar pra casa se minhas suspeitas estivessem erradas e ela tentou trapacear! – Zuko disse firme – Tentei ser compreensivo, tentei agradá-la e é isso o que recebo em troca. Uma palavra positiva de Hakoda, e eu ignoro todas as minhas promessas a ela. Katara não terá chance de escolha em relação a isso! – os olhos dourados agora estavam vermelhos – Se a idéia de permanecer aqui como minha esposa parece tão repulsiva, ela terá que agüentar isso como forma de punição.

- Ouça o que está dizendo, Zuko! – Iroh o repreendeu firmemente – A moça está desesperada! Quer que ela o ame, ou o tema a ponto de preferir cortar os próprios pulsos?

- A esta altura eu começo a achar que meu pai tinha razão ao dizer que eu sou um fraco. – ele disse cerrando os punhos – Eu não nasci para ter amor, tio. Eu perdi todas as chances de conseguir isso, não importa quanto poder eu tenha, ou quanta riqueza.

- Não diga bobagem. – disse o tio – Você foi muito amado nesta vida. Por mim, pela sua mãe, pelos seus amigos...

- Eu duvido que meus amigos continuarão me amando quando a notícia do que aconteceu vazar. Minha mãe permanece desaparecida e eu já não tenho tanta esperança de reencontrá-la. O senhor é a única coisa que me resta. O único conselho sincero que eu terei na vida e eu fico pensando quanto tempo ainda me resta. – Zuko disse – Se eu fosse como meu pai, Katara jamais teria ousado tentar.

- Se fosse como seu pai, ela o odiaria para sempre. Beberia veneno, cortaria os pulsos, se atiraria nas chamas, ou se jogaria do alto de uma torre. – Iroh insistiu – Não ache que a resposta está no caminho que meu irmão escolheu. Veja onde Ozai está hoje e o que sua maldade lhe trouxe. – Zuko tocou a queimadura com a ponta dos dedos, enquanto fechava os olhos, sentindo a sensibilidade alterada da pele queimada.

- Uma maldição. – Zuko sussurrou – Isso tudo até parece uma maldição lançada por ele.

- Não deixe a raiva turvar seu discernimento, ou macular a sua honra. – Iroh suplicou.

- Eu perdi discernimento e honra na noite em que me deitei com ela. – ele disse dando as costas ao tio e deixando a sala do trono.

Like Saturn's rings
An icy loop around me
Too hard to hold

Lash out first
At all the things we don't like
Or understand

Sua raiva o levaria a cometer verdadeiras atrocidades se permitisse que ela saísse do controle. Se fosse qualquer outro, sem o mínimo de preocupação com o que poderia acontecer com as pessoas dentro do palácio, Zuko sairia queimando tudo o que visse pela frente, tamanha sua fúria.

Uma coisa era certa. Katara não poderia escapar impune, tão pouco poderia escapar o responsável por entregar as ervas a ela.

Qualquer um que caminhasse pelos corredores do palácio veria estampada a ira no rosto dele. Para muitos o temperamento explosivo de Ozai e Azula ainda era lembrado com grande temor e não eram raros aqueles que carregavam marcas de queimaduras como forma de punição. O próprio Zuko carregava a sua, mas isso não impedia os servos de se afastarem dele ao ver no rosto do filho a mesma cólera que um dia marcou o rosto do pai.

Os guardas recuaram imediatamente ao vê-lo entrando no harém e Zuko não fez questão alguma de ser silencioso ao pisar nos domínios de Katara. Queria que ela o ouvisse chegando, que sentisse o coração acelerar e que tivesse medo de tudo o que ele poderia fazer. Ao menos uma vez ele conseguiria arrancar dela outra reação que não indiferença.

Quando a última porta foi aberta num estrondo, ele ouviu o grito das mulheres assustadas. As damas de companhia correram para trás da figura quase divina que se erguia alta e confiante, vestindo o vermelho, o negro e o dourado da Nação do Fogo, como se fosse a própria chama.

Katara abriu os braços como se tentasse esconder todas aquelas mulheres atrás de si. Em momento algum ela desviou o olhar, ou demonstrou temor diante dele. Sua expressão era firme e convicta. Zuko podia até mesmo prever o que ela faria. Ela assumiria a culpa, como a garota boa e leal que acompanhou o Avatar em sua jornada e se recusou a ter sua vingança contra o assassino da própria mãe.

- Que bom encontrá-las todas reunidas. – ele disse venenoso – Assim meu trabalho se torna muito mais fácil. – ele podia ouvir os soluços de algumas – Alguma de vocês pretende confessar, ou eu vou ter que interrogá-las uma a uma? Acreditem quando eu digo que a segunda opção não será nem um pouco agradável! – ele disse lançando grandes labaredas sobre a copa de uma das árvores do jardim, transformando-a numa grande tocha.

- Pare de gritar e agir como uma criança mimada. Está assustando elas. – Katara retrucou, dobrando a água do lago ornamental para apagar o fogo lançado contra a árvore – Se precisa gritar com alguém para se sentir satisfeito, então grite comigo.

- Acha que vai conseguir protegê-las pra sempre? – ele desafiou – Você e elas sabem muito bem o que aquelas folhas de chá significam. Qualquer mulher que ocupe um dos aposentos reais nesta ala está proibida de beber aquilo. Cada uma delas foi avisada disso no momento em que foram chamadas ao palácio e eu me lembro de ter avisado você pessoalmente.

- Eu pedi pelas ervas, eu o desafiei. Se alguém deve ser punido, então esteja à vontade para descontar em mim a sua raiva, mas deixe-as em paz. – Katara retrucou firme.

- Já esperava essa atitude vinda de você e pode ter certeza de que vai receber sua punição, mas se eu não souber neste exato momento quem trouxe as ervas, então todas as suas damas sofrerão as conseqüências pela sua atitude impensada!

- Está sendo irracional. – Katara respondeu – Não há porque fazer uma coisa dessas. Todas elas são nobres de alto nascimento. Seus pais são ministros, conselheiros, generais e até mesmo parentes seus.

- Nada disso muda o que uma delas fez. Seja quem for, cometeu um crime e deve pagar por isso! – ele insistiu.

- Fui eu quem cometeu o crime aqui, não elas. Se é que a mera intenção basta para configurar o crime de alta traição, como você diz. – ela afirmou – Eu nem mesmo senti o gosto do chá.

- Não muda nada. – ele insistiu.

- Muda tudo. – ela revidou – Torna toda sua demonstração da raiva ainda mais desnecessária e infantil.

Zuko caminhou até ela a passos firmes, enquanto as damas soluçavam desesperadas. Ele levou a mão até o pescoço de Katara e com um único puxão arrancou o colar da Tribo da Água.

And it's beginning to get to me
That I know more of the stars and sea
Than I do of what's in your head
Barely touching in our cold bed

Are you beginning to get get my point
They're always fighting with aching joints
It's doing nothing but tire us out
No one knows what this fight's about

Os olhos dela se arregalaram em resposta e Katara se atirou contra ele, tentando recuperar a jóia até Zuko conseguir segurá-la pelos pulsos.

- Nunca mais vai usar isso. – ele disse raivoso – Como insiste em dizer que estou sendo infantil e que nem mesmo chegou a beber o chá, então a sua punição será esta. Ver o colar da sua mãe reduzido a pó.

- Não... – ela disse quase numa súplica, encarando-o diretamente nos olhos – Por favor, Zuko. Você sabe o quanto isso é importante pra mim.

- Devia ter pensado nisso antes. – ele disse irredutível enquanto a chama brotava de seus dedos, consumindo o colar aos poucos.

- NÃO! – ela gritou. Nem mesmo sua dobra de água poderia salvar o colar a tempo. A tira de couro macio e o pingente entalhado se transformaram em carvão diante dela e Katara caiu de joelhos no chão, chorando.

- Quanto às suas damas, todas serão dispensadas e substituídas por novas, a menos que alguém tenha o bom senso de confessar, ou dizer quem trouxe as ervas. – ele insistiu. Uma das meninas se adiantou e se ajoelhou diante dele.

- Senhor... – ela disse – As ervas foram mandadas para a senhora por uma dama que me abordou no mercado, quando fui buscar doces que a senhora me pediu. A dama disse que era amiga de minha senhora e que a pedido desta havia conseguido um bom chá calmante.

- Sabe dizer quem era esta dama? – Zuko perguntou incisivo.

- Lady Mai, meu senhor. – a garota disse – Como ela era uma dama importante e amiga de sua família, imaginei que ela estivesse falando a verdade e obedeci.

- Muito bem. – ele disse sentindo a raiva se extinguir como uma chama de vela no meio da chuva – As damas permanecem e por sua confissão e por não saber do que se tratava, pode ficar também.

- Obrigada, meu senhor. – a dama agradeceu.

- E quanto a mim? Há mais alguma punição? – Katara disse se erguendo e secando os olhos.

- Eu a espero em meu apartamento esta noite. – ele disse sério, fazendo Katara recuar um passo, enquanto as damas se curvavam diante dele em submissão.

Zuko deixou os domínios dela sabendo que agora a relação com Katara era ainda mais delicada. Onde estava com a cabeça quando queimou o maldito colar? Era a coisa mais importante do mundo para ela. Reclusão total pelos próximos meses estaria de bom tamanho para que ela não escapasse impune, mas o colar era golpe baixo.

Não que ela tivesse sido leal em sua forma de agir, mas ele era obrigado a admitir que ao queimar a única recordação que ela tinha da mãe, Zuko incinerou qualquer possibilidade de conquistar a afeição dela. Sua própria mãe teria tido vergonha da atitude dele e Zuko nem mesmo teria um argumento bom o bastante para se defender.

Mas ela o havia desrespeitado e se ele não fizesse algo para puni-la de algum modo, logo muitos questionariam a capacidade dele de comandar o país. Por isso ele teve de tomar uma atitude e deixar as damas como testemunhas. Qualquer Senhor do Fogo anterior a ele teria sentenciado Katara a pelo menos uma dúzia de chibatadas, ou dado a ela uma boa amostra de quem usava a coroa. Era uma reação irracional, na opinião dele. Zuko a respeitava por tudo o que havia passado para ajudá-lo e valorizava a inteligência e capacidade dela, mesmo que em momentos de raiva ele tivesse tomado decisões infelizes.

Nenhuma justificativa traria paz à consciência dele agora, mas ele precisava falar com ela a sós para ao menos tentar se justificar. Que o mundo pensasse que ele a desejava em sua cama, ao menos ele teria uma noite de prazo para tentar minimizar os estragos e evitar que aquela guerra psicológica se prolongasse.

Preferiu se ocupar da papelada referente ao tratado com as Tribos da Água neste meio tempo. Ao menos o serviço burocrático o pouparia da falação sem fim de seus conselheiros. Seria ótimo receber uma resposta de Hakoda e usar a benção do chefe da Tribo da Água do Sul para convencer Katara de que uma união de sangue entre as duas nações era de grande interesse para o povo dela.

Ele desconfiava que a demora em receber uma resposta estava relacionada com Aang e o apoio de Sokka. O Avatar não deixaria o Pólo Sul para se meter em assuntos políticos da Nação do Fogo, mas isso não o impediria de intervir no assunto à distância, afinal ele era o queridinho de Hakoda, enquanto Zuko era o filho de Ozai, neto de Azulon, com uma linhagem que muitos considerariam digna de ser extinta.

Quando anoiteceu, Zuko ordenou que o jantar fosse servido nos aposentos dele. Tão logo a refeição foi trazida, Katara foi anunciada e entrou nos domínios dele como se fosse uma condenada a caminho da forca.

The answer phone
The lonely sound of your voice
Frozen in time

I only need
The compass that you gave me
To guide me on

And it's beginning to get to me
That I know more of the stars and sea
Than I do of what's in your head
Barely touching in our cold bed

Era de se estranhar aquela postura. Ela caminhou até ele de cabeça baixa, com o cabelo solto, os ombros encolhidos encobertos pelo longo manto vermelho que ela usava. Zuko desconfiava de que o roupão era a única peça de roupa que ela trazia.

Ele próprio estava vestido sem qualquer formalidade, usando apenas calças folgadas e um manto parcialmente aberto. Katara evitava até mesmo olhar para ele, o que tornava o momento extremamente desconfortável e constrangedor.

- Sente-se. – ele pediu e ela o fez sem dizer uma única palavra – Pedi para que nos servissem o jantar aqui, espero que goste.

- Como queira, meu senhor. – ela retrucou num tom apático e submisso. Ótimo! Era tudo o que ele precisava para melhorar sua crise de consciência. Katara sendo uma cópia submissa de Mai. Não tinha como ficar pior. – Gostaria que eu ficasse nua também? Apenas para proporcionar-lhe uma vista agradável? – Correção. Tinha como ficar pior.

- Não seja tão absurda. E pare de agir como se fosse uma serva, isso é perturbador. – ele disse nervoso.

- Me perdoe, meu senhor. Achei que este era meu papel, ser uma serva do grande Senhor do Fogo. – ela disse em resposta.

- Ótimo, pelo menos ainda consegue debochar de mim. – ele provocou – Sei que está furiosa e com todo direito de estar. Eu perdi a cabeça, não devia ter queimado o colar.

- Mas queimou. – ela disse rancorosa – A única recordação que eu tenho da minha mãe, Zuko! Como se sentiria se estivesse no meu lugar? Achei que pelo menos isso você respeitaria.

- Acho que você não entendeu em que se meteu quando conseguiu aquelas folhas. – ele disse sério enquanto se sentava – Katara, se essa informação tivesse chegado aos ouvidos de qualquer um dos meus conselheiros, um colar queimado não é nada em comparação ao que eu teria que fazer com você. Eu precisava ser enérgico, eu precisava fazer aquilo em frente às suas damas, para que não passasse a idéia de que eu a deixaria impune.

- Vai fazer algo contra Mai também? – ela questionou mal humorada.

- O marido dela é um funcionário de alto escalão. Eu poderia mandá-los para alguma localidade remota, se isso agradar minha senhora. – Zuko provocou.

- Faça como quiser. – ela disse seca.

- Só uma coisa não ficou muito clara até agora. – ele disse respirando fundo – Eu acredito que você não beberia o chá, a menos que tivesse algo a temer. Há uma possibilidade de que esteja mesmo grávida, não há?

- Você perde muito tempo com perguntas das quais já sabe a resposta. – ela disse ainda mais ríspida.

- A idéia de se casar comigo é assim tão ruim a ponto de você achar que arriscar uma condenação por alta traição preferível? – ele perguntou num misto de indignação e amargura – Eu sei que não sou exatamente um príncipe encantado, ou tão virtuoso quanto o Avatar, mas nunca imaginei que pudesse causar tanta repulsa em alguém.

- Pare com isso. – ela disse encarando-o – Você nuca teve vocação pra vítima, então não aja como uma.

- Então me diga o que eu sou! – ele ordenou – O vilão, mesmo depois de ter colocado o assassino da sua mãe aos seus pés e ter recebido um raio pra salvar sua vida? Olha pra mim e vê meu pai estampado na minha cara, é isso? Não tenho culpa de ser filho dele e acredite quando digo que preferia não ser.

- Você não entende. – ela disse abaixando o rosto mais uma vez – Eu não consigo olhar pra você e ignorar que o que aconteceu foi algo errado. Eu ao menos devia ter tido a coragem de terminar tudo com Aang e não dar esperanças a ele, ao invés de me deixar levar por você. Zuko, você não faz idéia do quanto dificulta as coisas.

- Eu poderia dizer o mesmo de você. – ele disse sério – Foi desleal com Aang e isso te atormenta, até ai eu consigo entender. Mas quando você vai criar coragem pra dizer o motivo pelo qual você ficou comigo naquela noite? Eu fui apenas o idiota que estava à disposição?

- Não, Zuko. – ela disse rapidamente – Eu não seria capaz de fazer uma coisa dessas!

- Mas é o que está fazendo! É exatamente isso! Você vem me usando pra escapar do Aang, mas a idéia de ficar comigo de uma vez por todas nem mesmo passa pela sua cabeça. Eu não vou ficar aqui sentando, esperando pelo dia em que você vai me trocar pelo Aang outra vez, ou até mesmo por outra pessoa. Eu não posso me dar ao luxo de ficar preso às suas indecisões e mudanças de opinião e eu acho que sabe disso.

- E aonde esta discussão nos leva? – ela perguntou seca – Se eu estiver mesmo esperando um filho seu então você vai ter o que quer.

- O que você quer? – ele disse encarando-a com olhos duros – Eu juro que queria ser capaz de ignorar minha consciência e arrastá-la pra cama para que pudesse fazer o que bem entender de você. Queria poder conviver com a idéia de que você gostar de mim é algo irrelevante, mas não posso. Se for pra ter você ao meu lado, quero que seja de forma plena, de comum acordo e vontade, e não porque você está sendo obrigada a isso.

- Eu não quero viver sem escolhas. – ela disse séria – O que Aang estava fazendo era exatamente isso. Uma dúzia de planos, como se a minha opinião e vontade nunca tivessem importado. Eu me sentia sem saída, encurralada, e agora é isso o que está acontecendo outra vez!

- Então escolha! – Zuko vociferou – Eu estou farto de esperar por um sinal seu, por um movimento, qualquer coisa! Eu quero fazê-la feliz, mas toda vez que tento você se afasta mais! Quer voltar pra sua casa? Ótimo, você sabe o que a espera lá. Quer ir pro Reino da Terra e viver como uma sombra? Esteja à vontade! Quer se isolar do mundo em um dos Templos do Ar? É uma opção também. Ou pode esquecer tudo isso e ficar aqui, comigo. Vá em frente, escolha o que quiser e eu a deixarei ir, mas se estiver com um filho meu na barriga pode ter certeza de que ao menos a criança vai ficar aqui. Disso eu não vou abrir mão!

- Não faria isso! – ela se levantou de uma vez e ele fez o mesmo.

- Não? – ele disse em desafio. – Suas opções são essas. Sua preciosa liberdade de escolha. Só tome sua decisão com cuidado, porque vai ter que conviver com as conseqüências pelo resto da vida. Agora saia daqui! Eu não sei se consigo olhar pra você neste momento! – ele disse passando a mão pelo rosto como se isso pudesse espantar o cansaço.

Are you beginning to get my point
They're always fighting with aching joints
It's doing nothing but tire us out
No one knows what this fight's about

It's so thrilling but also wrong
Don't have to prove that you are so strong
Cause I can carry you on my back
After our enemies attack

Ela ficou muda por um momento, mas não se moveu do lugar. Ela era impossível! Se continuassem daquele jeito acabariam se matando uma hora, ou destruindo um país inteiro. Hakoda mandaria uma resposta em breve e se ele exigisse a filha de volta Zuko já não tinha certeza se a mandaria na mesma hora, ou se a trancaria de uma vez por todas dentro daquele palácio.

Não notou quando ela se aproximou, mas quando abriu os olhos Katara estava de pé diante dele, encarando-o com olhos consternados e piedosos. Aquilo era pior do que receber uma faca nas costas. Ele queria tudo dela, menos piedade.

- Já disse pra sair daqui! – ele praticamente rosnou – Você ultrapassou todos os limites hoje, me deixe em paz agora!

- Eu não queria deixá-lo assim. – a voz dela era baixa e quase gentil agora.

- Não, o que você quer é me deixar maluco! – Zuko a agarrou pelos braços com força – Grita comigo, me acusa de crueldade e tirania, me fala de suas preciosas escolhas e agora fica me olhando como se o que eu sinto importasse pra você! Vá embora daqui! Volte pro Aang, ou seja lá o que você quer fazer, porque eu dispenso esse olhar de piedade vindo de você!

- Mas importa. – ela disse calma, levando a mão ao rosto dele e tocando a cicatriz de Zuko – E eu nunca conseguiria ter pena de você, não importa a situação.

- Você quer mesmo me enlouquecer, mulher! – ele resmungou, enquanto fechava os olhos em resposta – Saia daqui...Não desafie meu autocontrole ainda mais.

- Você me deixaria ir, se eu quisesse? – ela perguntou ainda acariciando o rosto dele.

- Foi o que eu disse, não foi? – Zuko abriu os olhos e levou a mão até a nuca dela, segurando-a – Não tenho interesse em uma mulher que não tenha interesse por mim, mas se continuar aqui eu posso acabar me esquecendo disso.

Ela deslizou a mão pelo abdômen exposto dele e depois até as costas, por debaixo do manto de ele usava. Zuko jogou a cabeça pra traz e fechou os olhos.

- Então se esqueça. – ela sussurrou antes de beijar o pescoço dele. O que recebeu em resposta foi um beijo faminto, como se a vida dele dependesse daquilo. As mãos dela enlaçaram o pescoço dele, aprofundando ainda mais o beijo.

Depois de tantas idas e vindas, ele não estava disposto a ter paciência. Ele a agarrou pela cintura com força, subindo-a até que estivesse na mesma altura dele. Katara o enlaçou pela cintura com as pernas, enquanto Zuko sustentava todo peso agarrando-se as coxas dela. E ele estava certo, o manto era a única peça de roupa que ela usava.

Ele a carregou até a cama, tendo muita sorte em não tropeçar em nada. Zuko a jogou no centro da cama e desatou os nós que prendiam o manto dela, deixando Katara totalmente exposta diante dele. Sua boca caiu sobre os seios dela, beijando-os e sugando-os, deixando marcas avermelhadas sobre a pele e depois provocando os mamilos até que estivesse rijos e sensíveis ao extremo.

Katara fechou os olhos em resposta, arranhando os braços dele e mordendo os próprios lábios toda vez que ele a tocava em algum ponto sensível. Zuko beijou o vale entre os seios dela, descendo a boca pelo abdômen exposto até chegar a seu objetivo escondido entre as pernas dela.

O gemido escapou dos lábios de Katara no meio do susto. Sentiu a língua dele, úmida e quente, provocando aquele pequeno ponto de prazer enquanto os dedos dele a preenchiam e estimulavam com movimentos contínuos. As pernas dela repousaram sobre os ombros dele, enquanto Zuko continuava provocando-a. Sentia a respiração quente dele, cada vez mais quente à medida que os movimentos se tornavam mais rápidos e a língua mais ávida.

E o prazer veio com toda intensidade de uma força da natureza, como se Zuko provocasse um maremoto dentro dela. Katara se agarrou aos lençóis da cama, enquanto jogava a cabeça pra trás e de sua boa um gemido prolongado denunciava todo poder que ele tinha sobre ela.

Era como música para os ouvidos dele, mas aquilo ainda parecia uma relação desigual. Queria sentir o corpo dela envolvendo-o, queria sentir seus braços, pernas e o coração acelerado, prestes a explodir dentro do peito.

Zuko se livrou de suas calças e sua boca buscou a boca dela mais uma vez antes que ele se enterrasse entre as pernas de Katara.

Não foi gentil, nem mesmo cuidadoso. Ainda sentia a raiva borbulhando em suas veias, temperada com aquele desejo descontrolado que sentia por ela e a vontade ridícula de fazê-la feliz. O corpo de Katara se chocava contra o seu, como as ondas do mar se chocavam contra uma muralha, à medida que ele investia contra ela.

Puxar e empurrar. Puxar e empurrar. Puxar e empurrar...Tui...La...Yin...Yang...

Ela era a sua Lua, seu equilíbrio e sua fonte de caos. Ela o dominava e só os espíritos poderiam dizer o quão facilmente ela conseguia fazê-lo implorar por atenção e perder a cabeça. A Senhora Absoluta da Noite, uma feiticeira controlando o sangue dentro dele.

Por um breve momento, ela abriu os olhos e o encarou. Seu rosto afogueado, cabelos desgrenhados, mas seu olhar era firme. Viu oceanos dentro daquele azul. Viu o céu de verão.

Enquanto o encarava nos olhos, Katara viu estampado naquelas íris cor de âmbar o nascer e o pôr-do-sol, a chama fundamental, aquele temperamento apaixonado que movia Zuko em cada atitude e cada palavra. Não havia espaço dentro dele para serenidade, para temperança. Ele era o fogo, imperativo e enérgico ao ponto de ser cruel, mas aquele calor que ele despertava nela...Aquele calor era gentil.

Ele levou uma das mãos entre as pernas dela mais uma vez, pressionando-a mais uma vez em seu ponto de prazer e obrigando-a a se render a mais um orgasmo antes que ele alcançasse seu próprio prazer.

Já não conseguia se lembrar porque estava com raiva dela. Não se lembrava nem mesmo do motivo de suas ansiedades diárias. Naquela noite Zuko conseguiu dormir em paz, como não conseguia a quase um mês.

I tried to tell you before I left
But I was screaming under my breath
You are the only thing that makes sense
Just ignore all this present tense

We need to feel breathless with love
And not collapse under its weight
I'm gasping for the air to fill
My lungs with everything I've lost

We need to feel breathless with love
And not collapse under its weight
I'm gasping for the air to fill
My lungs with everything I've lost

Nota da autora: AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! Barraco sem fim! Achei que não ia acabar isso nunca! Não, esse não é o último capítulo, pq cá pra nós, falta um Avatar, um irmão mala e um pai preocupado pra despachar. Então... Se segurem nas cadeiras, pq tudo o que eu posso dizer é que haverá terremotos logo à frente. E eu preciso comentar sobre a música desse capítulo, pq ela simplesmente deu todo tom da coisa. It's beginning to get to me, do Snow Patrol. Super recomendo! Espero que gostem e comentem.

Bjux

Bee