Capítulo 17 - Russet

Era cedo de manhã e pela primeira vez na semana Dave se levantava animado. Machop havia finalmente sido liberado pela enfermeira Joy depois de uma lenta e penosa recuperação. O Pokémon havia ficado, à principio, desolado com a perda da luta e do titulo do campeonato, mas a perspectiva de uma revanche foi tentadora de mais, de modo que Dave o convencera a voltar a treinar assim que tivesse condições. De acordo com o menino, o ginásio de Russet não ficava a mais de um dia de viagem, de modo que a partir do momento em que se julgassem prontos, poderiam desafiar o ginásio e o grande Machamp que levara o cinturão para casa.

Sem titubear, o garoto de Grené saiu do quarto sorrateiramente, fazendo esforço para não acordar Jake ou Eevee, que continuavam mergulhados em um confortável sono. A sua corrida matutina também serviria de desculpa para escapar de sua outra amiga, que estava impaciente por ter de ficar toda a semana parada na cidade, estando o próximo ginásio tão próximo. Ela não reclamava abertamente, por compreender que a outra opção seria deixar Machop para trás e isso seria inaceitável, mas seu humor nos últimos dias dava claros sinais que ela não estava satisfeita.

Dave cumprimentou a enfermeira de cabelos rosa, que lhe entregou sua Pokebola com um agradável sorriso no rosto e, por um momento, o rapaz admirou a sua capacidade de se manter alegre, simpática e prestativa tão cedo de manhã. Nem ele, que estava acostumado a se levantar antes do sol, conseguia manter um sorriso tão sincero enquanto o sol não despontasse no horizonte.

Ao sair ele contemplo mais uma vez o desagradável aspecto daquela cidade ao amanhecer e se lembrou de todo o seu brilho a noite. Desde que fora ao clube Nine Colors ele não havia mais saído para se divertir. Nem mesmo Mindy e Jake saiam mais todos os dias, por algum motivo que eles não explicaram ao amigo. Talvez tudo houvesse ficado repetitivo depois de tantos dias, ou talvez eles tivessem percebido que se prezassem pelo bem estar de seus tímpanos, era melhor descansar no quarto do Centro Pokémon.

- Como está se sentindo Machop? – perguntou Dave ao liberá-lo da Pokebola.

- Chop – fez o Pokémon, com um firme aceno breve da cabeça.

Dave sorriu ao ver o amigo pronto para retomar a rotina, mas Machop corria ao seu lado em silencio, sério e concentrado. As feridas que a batalha lhe havia proporcionado já haviam sido curadas, mas aparentemente o peso da derrota ainda não o havia abandonado. O treinador estava preocupado com o amigo e não sabia o que fazer. De certo modo a culpa por ter desistido ainda o assolava, mesmo aceitando que a decisão tinha sido necessária. A única coisa que lhe animava era a possibilidade de revanche contra Tyler, e era a essa esperança que ele se agarrava para se reerguer.

A corrida foi quase rotineira, apesar de anormalmente silenciosa, mas o menino sentiu que a semana que havia ficado sem aquele exercício regular lhe fizera falta. O cansaço lhe atingiu antes que tivessem voltado para o Centro Pokémon, e ele teve que se esforçar para não ficar muito atrás de Machop. A chegada foi, por um lado, um alívio, e o rapaz logo se encaminhou para o refeitório em busca de um copo d'água.

Ao entrar no largo salão onde se servia o café da manhã, porém, ele se arrependeu. Eevee, Mindy e Jake, sentados a uma mesa não muito distante da entrada, pareciam estar esperando a entrada do amigo, e não lhe deram nem tempo de fingir que não havia visto.

- Dave, o Machop já está bom mesmo? – disse a menina, ficando de pé e se aproximando do menino. Jake continuara sentado e sequer olhava para o garoto.

- Sim, está – O tom de Dave não era muito animado perante as constantes tentativas da menina de agiliza a viagem. Havia, entretanto, algo a mais na reação do rapaz. Desde o que acontecera na noite anterior a final, por algum motivo, ele não se sentia muito feliz ao lado da amiga.

- Ah, que bom não é? – perguntou ela, tentando esconder a preocupação na voz. Ela percebera a mudança de comportamento do amigo, apesar de também não entender.

- É...

E com isso, ele a deixou sozinha perto da porta, enquanto se dirigia para a mesa onde poderia se servir de um copo d'água. O rosto perplexo da menina o acompanhou por uns instantes e depois ela o deixou cair, se encaminhando para o quarto e abandonado seu café da manhã pela metade.

Dave e Machop se serviram e se encaminharam para a mesa, se sentando de frente para Jake, que só então levantou os olhos para eles. Eevee estava ao lado de seu treinador, estudando cuidadosamente o seu rosto.

- Que bom que você está bom Machop. Estávamos realmente preocupados.

- Chop! – agradeceu o Pokémon lutador, acenando a cabeça e dando um breve sorriso.

- São realmente boas noticias, não são Dave? – perguntou Jake, olhando curioso para o amigo.

- Realmente são. Mal posso esperar para voltarmos a treinar. Aquele Tyler vai ter o que merece.

Eevee abaixou a cabeça em um gesto negativo enquanto Jake arregalou um pouco os olhos. Percebendo a reação dos amigos, Dave olhou de um para o outro perplexo, enquanto tomava um grande gole d'água.

- O que foi? É verdade! O cara é forte, mas a gente pode vencer!

- Eu sei, não é isso Dave – disse o menino mais novo.

- Então o que é? Por que está me olhando desse jeito?

- É que você está assim a semana toda, e eu to tentando entender porque – Jake olhava para ele com certo despontamento e o garoto se sentiu ainda mais confuso. Ele olhou para Eevee buscando um pouco de compreensão, mas o Pokémon apenas pulou para seu colo como era costume, e se aninhou por lá.

- Jeito? Que jeito? Eu estou normal...

- Comigo, está – disse Jake, como se fechasse a questão – Mas quando a Mindy está por aqui você fica estranho... Ela já percebeu isso, mas estava achando que fosse preocupação com o Machop. Pelo visto não é...

Machop olhava de um menino para o outro tentando compreender o que estava acontecendo.

- Estranho? Mas eu não estou estranho! – mentiu Dave. Ele realmente se sentia diferente perto da amiga nos últimos dias, mas não sabia muito bem explicar o que havia acontecido. Não quisera ver ninguém no dia da final, e só voltou a falar com ela no dia seguinte. Desde então alguma coisa havia mudado. Não era raiva que ele sentia, nem vergonha, mas toda vez que chegava perto da menina um desanimo inexplicável o assolava.

As imagens dela se divertindo durante a noite na cidade o visitaram em sonho duas vezes aquela semana, nas duas únicas noites que ela resolvera sair. Jake havia ficado para lhe fazer companhia nas duas vezes, e apesar de se sentir grato por isso, ele sabia que o menino usava aquilo como uma desculpa para não acompanhar Mindy e, ao mesmo tempo, não desapontá-la. A vida noturna não era muito agradável para um menino daquela idade. Isso porém, não servia de consolo para Dave, que ficava imaginando a menina sozinha no meio de tanta gente, dançando sozinha, ou, não tão sozinha assim.

- ...ela não para de falar nisso, tentando adivinhar o que aconteceu. Está até começando a ficar repetitivo... Ei, Dave! – chamou o garoto mais novo, um pouco mais entusiasticamente. Pelo visto ele havia entrado em um de seus longos discursos, mas o devaneio do treinador mais velho o havia deixado aéreo. – Você me ouviu? Ah eu desisto – disse o menino, bufando. Ele se levantou e ameaçou se encaminhar para a porta que levava ao hall de entrada, mas Mindy voltou a aparecer por lá, com a sua mochila nas costas e a dos seus amigos nas mãos.

Ela deu a de Jake nas mãos do garoto, e jogou a de Dave no colo do rapaz, assustando-o. Eevee teve que pular de lado para não ser atingido pela bolsa.

- Já que o Machop está bom, podemos seguir viagem. Vamos, quero dormir em Russet hoje.

- Mas eu queria treinar e... – tentou argumentar Dave, assustado, mas a menina já lhe dera as costas e agora saia para o hall. Jake o olhou significativamente, como se dissesse "eu te avisei" e saiu em disparada atrás da amiga. Conformado, o menino deixou a cabeça cair e se levantou.

- Acho que vamos ter que treinar em Russet, Machop – disse ele e, com o aceno do amigo concordando, ele o recolheu na Pokebola, deixou Eevee pular em seu ombro e se levantou para voltar à estrada.

A viagem definitivamente não foi a mais agradável que o grupo já fizera. O silencio reinava entre Dave e Mindy e só não era absoluto por que Jake parecia ser incapaz de ficar mais do que dez minutos sem achar algum assunto para tratar. O que mais fez sucesso fora o da coloração diferente de sua Butterfree, que fez com que a menina parasse para admirar a borboleta durante o almoço e participasse mais ativamente da conversa com o amigo mais novo.

Dave, por vezes, se sentia cansado e tinha vontade de parar, fosse para comer alguma coisa ou simplesmente para respirar, mas não se expressava por saber que iria encontrar forte repressão da amiga. Desde que chegaram a Brass os dois ainda não haviam voltado à passar tanto tempo juntos, e o dia pareceu se alongar juntamente com o desconforto entre eles. Os dois já haviam brigado diversas vezes antes, mas ainda assim aquela era uma situação nova. Dave se sentia inquieto, acuado e desanimado, enquanto Mindy seguia decidida a ignorar a atmosfera pesada, como se fosse forte de mais para ser atingida por ela.

Quando, depois de uma longa caminhada, eles começaram a perceber pequenas construções à frente, o alivio foi geral. A cidade de Russet era bem menor do que eles esperavam que fosse, com poucos prédios baixos e dominada por construções familiares, praças arejadas e ruas estreitas feitas de pedra. Aparentemente era um pequeno reduto de tranqüilidade e o grupo achou que aquele era um lugar bem inapropriado para um ginásio de Pokemons lutadores. O centro Pokémon parecia ser um dos maiores prédios da cidade, e com certeza era o que tinha a aparência mais moderna, mesmo sendo tão normal quanto todos os outros que eles haviam visitado.

Já era noite quando adentraram pelas portas e logo se encaminharam para seus quartos.

- Bom, então, boa noite – disse Jake, olhando com carinho para Mindy, que se encaminhava para seu quarto.

- Boa noite – disse ela, sorrindo tristemente para o menino. Voltou então seu olhar para Dave, que já abria a porta do quarto e disse como se por educação. – Boa noite Dave.

- Ã? Ah... boa noite – disse o menino, que não esperava que a menina se incomodasse em falar com ele.

Ela deu as costas e os meninos entraram no quarto.

- Por que você está fazendo isso? – Jake parecia irritado com o amigo agora que fechara a porta a suas costas – Qual é o seu problema?

Dave pensou em desconversar, mas sua paciência já estava gasta de mais depois do longo e cansativo dia de viagem. Além do mais, ele percebeu que não havia mais como negar o clima que reinava, então decidiu, finalmente, se abrir com o amigo – Não sei – disse ele, subindo nas escadas do beliche com Eevee no sem ombro – Realmente não sei.

E, com isso, ele foi dormir.

O dia seguinte começou do mesmo jeito que o anterior havia começado. Dave se levantou cedo, animado, e saiu para correr. A diferença, porém é que já não estava em Brass, e o ambiente para a corrida tinha sofrido uma mudança drástica. Os altos prédios e a sujeira não mais tornavam o ar sufocante e a respiração ficava naturalmente mais leve enquanto ele e Machop contemplavam o céu azul e o cheiro de terra na pacata cidadezinha.

Nas pequenas casas, quase todas com algum tipo de jardim ou horta, já se podiam ver movimentos matutinos de um povo que levantava cedo. Pequenas padarias e mercearias já abriam suas portas, e seus donos sorriam e cumprimentavam Dave à medida que esse ia passando. O rapaz estranhou o primeiro senhor que lhe acenara sorrindo, mas logo começou a sorrir de volta ao ver que a simpatia e a educação era uma característica da grande maioria da população.

Ao final da hora de exercício, eles tinham percorrido quase a totalidade da cidade e, por incrível que parecesse, ele se sentia mais aliviado e feliz, pronto para outras horas de exercício. Entrou, entretanto, no Centro Pokémon para se informar onde poderia encontrar algum lugar para treinar. Aquele poderia não ter a mesma estrutura que o centro de Brass oferecia, mas com certeza deveria ter uma arena básica que Machop pudesse utilizar.

Ao passar pela porta ele viu Mindy, sorrindo abertamente, mostrando alguma coisa na mão para Jake e Eevee. O garoto mais novo parecia surpreso, mas retribuía o sorriso da amiga que, distraída, ainda não havia percebido a presença do outro rapaz. Dave se aproximou e, há poucos passos dos outros dois, estancou no mesmo momento em que Eevee corria em sua direção e Mindy tomava consciência de sua chegada. Ela fechou a mão, escondendo o que segurava, mas o movimento foi um segundo lento de mais, e o rapaz percebeu o pequeno broche reluzente no formato de uma luva.

O olhar assustado de Mindy passou despercebido ao rapaz enquanto ele tentava se lembrar de onde conhecia aquele símbolo. Foram necessários alguns segundos a mais, onde a menina e o garoto mais novo puderam respirar e se recompuseram do susto, até que Dave se lembrou do quimono azul de Tyler carregando aquele mesmo brasão no peito.

- Isso é uma insígnia? Você foi ao ginásio? – perguntou Dave, surpreso. Mindy não esperava que o rapaz houvesse visto, mas o estrago já estava feito.

- É, bem, eu fui...

- E você venceu?

- Venci – respondeu ela, ameaçando um sorriso. Sabia que o momento era delicado, mas queria que o rapaz demonstrasse um pouco mais de sua reação. Era a primeira vez em alguns dias que eles se dirigiam um ao outro tão diretamente. Dave, porém, ficou alguns momentos sem ação.

- Quando você foi? – disse, finalmente, se recuperando da noticia inesperada.

- Bom, acabei de voltar. Ontem a enfermeira me falou que o líder acordava cedo, então eu fui lá... – explicou a menina.

Dave não sabia o que pensar. Esquecera completamente que Mindy também lutaria contra Tyler, que ela também disputaria a insígnia, que ela era também sua rival. O choque o trouxe de volta a realidade de uma maneira que ele não esperava. Ela vencera o líder e conquistara a insígnia. Aparentemente não precisou de mais de uma luta para isso, enquanto Dave fora obrigado a desistir no campeonato. Naquele momento, ele se sentiu inferior, diminuído.

- Bom, parabéns... – Sem saber o que falar, ele se voltou para o lado de fora mais uma vez, deixando os amigos plantados no hall de entrada, sem ação. Ele ouviu Mindy ameaçar ir atrás dele, mas a voz de Jake a refreou.

- Deixa ele, você tem mais o... – foi só que o garoto conseguiu ouvir o menino dizer, antes que a porta se fechasse. Não se importou. Com Eevee nos ombros, ele recolheu Machop na sua Pokebola e se encaminhou para uma praça que ele sabia estar logo depois da esquina do Centro. Sentou-se em um de seus bancos e sentiu a leve brisa cobrir o seu rosto serio e pensativo, enquanto relembrava tudo o que acontecera até o momento.

Em sua mente vieram milhares de flashes que se misturavam de modo confuso e repetido. Vira as luzes do clube "Nine Colors" e as mãos do Jake loiro segurando as de Mindy; vira a menina em seus braços, chorando pelo pai enquanto ele nada podia fazer; lembrara se seus pais desesperados por noticias suas depois de terem sido ameaçados pela equipe rocket; a imagem de Mary Jane vencendo Eevee em Cardo lhe viera logo em seguida, enquanto a voz do professor ecoava na sua mente, lhe cobrando mais Pokemons por que seu outro neto já estava muito adiantado; por ultimo, vira a imagem da toalha branca voando, tocando o chão quase em sincronia com Machop desmaiado no ringue de batalha de Brass.

Nunca ele havia se sentido tão derrotado. De repente aquele sentimento de inferioridade começou a se transformar em um ímpeto que ele desconhecia possuir. Uma lágrima havia fugido-lhe à face e ele sentiu vergonha enquanto a enxugava com as mãos. Tremendo ele engoliu as outras e se levantou. Eevee tomou um susto com a reação do seu treinador e parecia incapaz de entender o que estava acontecendo.

- Eu cansei de perder Eevee! – esbravejou ele, entre dentes – eu cansei de ficar para trás! O Rusty tem mais Pokemons, a Mary Jane já provou que é melhor do que eu, e agora até a Mindy tem mais insígnias. Eu não consegui cumprir a minha promessa ao Machop e já foram varias as vezes que a Equipe Rocket quase te pegou. Eu cansei disso Eevee. Está entendendo? CANSEI!

Eevee parecia assustado e tocado pela emoção de seu treinador. Antes que pudesse reagir, Dave continuou.

- Isso vai mudar entendeu? Hoje. Agora! Eu vou provar que posso vencer o Tyler!

O menino abriu largas passadas e logo começou uma leve corrida, decidido a chegar ao ginásio. Não sabia exatamente onde era, mas durante a corrida alguns momentos antes ele passara por uma placa indicando que o lugar ficava ao fim de uma pequena ruela. Eevee foi atrás de seu treinador e pulou em seu ombro, lambendo-lhe a face. O menino levantou um de seus braços e fez uma breve caricia no pelo macio de seu amigo, sem diminuir o ritmo.

- Obrigado por estar sempre ao meu lado – disse ele, ainda com raiva na voz.

- Uee! – sorriu Eevee em resposta.

Devido ao tamanho da cidade, foram breves quinze minutos até que ele chegassem ao ginásio. Ele era bem diferente dos outros que Dave visitara. Parecia um grande galpão, com portas de ferro que rolavam de cima, típicas das pequenas lojas e mercearias que lotavam a cidade a cada esquina. As portas porem, estavam recolhidas, de modo que só se podiam ver as pontas enroladas no topo das largas entradas. Do lado de dentro ele via vários sacos de pancada espalhados a um canto onde Pokemons e humanos treinavam seus golpes. Tyler não podia ser visto.

O menino teve que admitir que o ambiente lhe surpreendera, tamanha a simplicidade da construção. Na parede, apenas a palavra "GYM" confirmava que aquilo era mesmo o lugar que ele procurara, e o ímpeto que ele sentia diminuiu um pouco, enquanto ele entrava lentamente examinando seus arredores. Liberou seu Machop para que as pessoas não estranhassem sua presença no meio de tantos lutadores, mas ainda assim os olhares eram atraídos enquanto ele passava pelos primeiros sacos de pancada, pisando no chão de cimento. Machop olhava maravilhado para toda a estrutura de treinamento do local. Para um Pokémon que fora acostumado a treinar em um ringue de terra no frio cortante da madrugada, aquilo era um paraíso. Do fundo Dave ouviu uma voz conhecida.

- Dave! Sabia que você viria rapaz...

O menino se virou para ver Tyler e o ímpeto lhe voltou subitamente. Fechou o rosto para o homem mais velho que caminhava em sua direção. Seu quimono dessa vez era branco, com o mesmo broche que vira na mão de Mindy preso ao peito. Na cintura, uma faixa preta o prendia fechado no corpo. Ele tinha um breve sorriso no rosto e se encaminhava lentamente na direção do menino.

- Imaginei que lhe veria logo, principalmente quando sua amiga veio aqui mais cedo. Achei, porém que tomaria mais tempo para treinar... – completou.

Dave não se conteve.

- Eu não preciso treinar mais para te vencer. Vim aqui provar isso!

- Nossa, tudo bem, fica calmo Dave – a expressão no rosto do menino assustara o líder de ginásio, que percebeu que o rapaz estava alterado – nunca duvidei de você. Apenas acho que seu Machop poderia ter um pouco mais de treinamento. Se quiser, até lhe permito usar as instalações do ginásio. Não são muito luxuosas, mas aposto que lhe servira melhor que o centro Pokémon – disse ele apontando para o ambiente ao redor.

- Eu não preciso da sua ajuda, obrigado. Eu preciso que você me mostre onde é o ringue de batalha e lute comigo. – Dave não queria perder tempo e decidira ignorar a boa vontade do líder com ele. Poderia vencer por si mesmo.

Tyler o olhou profundamente e suspirou, como se decepcionado.

- Se é isso que quer. É por aqui – disse ele, e guiou o desafiante por uma porta na parede dos fundos do ginásio.

Normalmente o rapaz teria estranhado, uma vez que a estrutura não aparentava ser maior do que aquele espaço onde eles estavam, mas ele estava concentrado de mais para perguntar qualquer coisa. Ao cruzar a passagem ele se viu em um enorme campo aberto, com uma grande arena de concreto no chão, ao ar livre. Ela era mais larga do que o normal, mas Dave não se incomodou. Ao fundo se estendia uma longa paisagem livre de construções. Aparentemente aquele era o limite da cidade.

Um dos lutadores que treinava do lado de dentro os seguiu e se posicionou no centro da arena enquanto Dave e Tyler se encaminhavam para as pontas. Agora era o momento que Dave estava esperando. De fato, chegara mais cedo do que ele contava, mas em momento nenhum ele se sentiu despreparado. Estava concentrado de mais para isso.

- Essa será uma batalha de dois contra dois, sem limites de tempo, valendo a insígnia do punho. Lutadores tomem suas posições. – disse o homem que os acompanhara. Aparentemente, serviria de juiz.

- Obrigado – disse Tyler, enquanto Machop entrava em campo. Aparentemente o desafiante não queria perder tempo – Bom, se você vai com o Machop, vamos começar com o meu Primeape.

Tyler sacou uma Pokebola, fazendo-a crescer de tamanho na mão a jogando no ar, liberando seu Pokémon primata. Dave se assustou.

- Não! Eu quero lutar com o Machamp! – disse enfurecido.

- Tudo à seu devido tempo rapaz. Quem decide que Pokémon usar sou eu. – o tom de Tyler era firme e decisivo.

O garoto não acreditou no que ouvia, mas não podia mais discutir. Realmente era pretensão de mais querer escolher os Pokemons do adversário, mas ele não se sentiria satisfeito enquanto não vencesse Machamp. Aparentemente, teria que passar por esse primeiro obstáculo peludo. O juiz anunciou o início da partida e Dave não perdeu tempo.

- Mega Soco, agora!

Mas Tyler tinha outras idéias, e, enquanto Machop corria confiante na direção de Primeape, ele ordenou.

- Primeape, use o derrubar ao chão!

Para a surpresa do rapaz de Grené, um orbe dourado surgiu entre as mãos de Primeape e logo foi arremessado contra Machop, que vinha diretamente em sua direção. O Pokémon foi lançado para trás e caiu de costas no chão, assustado.

- Não estamos mais no campeonato, Dave. Enquanto lá é uma tradição que se predominem os golpes físicos, isso é um ginásio.

Dave cerrou os dentes. Estiver tão acostumado com a luta corpo a corpo que se esqueceu que mesmo os Pokemons lutadores poderiam utilizar outros tipos de habilidades. Naquele instante, ele desejou ter ensinado a Machop algum daqueles golpes, mas isso nunca lhe ocorrera antes. Seu Pokémon se levantou rapidamente, e já estava pronto para continuar a luta.

- Tudo bem, Machop, isso não vai ser problema. Se aproxime dele.

- Não permita, Primeape! Continue com o ataque. – Machop mais uma vez vinha correndo na direção do primata lutador, mas ele voltou a lançar sua esfera dourado.

- Machop, evasiva!

O Pokémon azul mergulhou para o lado e logo continuou sua corrida. O ataque adversário atingiu o chão levantando uma grande quantidade de poeira, e Dave aproveitou a oportunidade que teve.

- Rápido, uma seqüência de Mega Socos e termine com um Arremesso Sísmico!

Machop acertou o primeiro golpe no alvo, fazendo–o recuar. Dando um passo à frente ele acertou mais três Mega-Socos seguidos, mas quando se preparou para segura o braço do adversário e finalizar a combinação de golpes, ele se deixou cair no chão, ao mesmo evitando ser agarrado e utilizando uma Rasteira.

- Muito bom Primeape, agora use o Mega Chute!

Dave se surpreendeu com a reação de Tyler, mas não se deixou abater. Raramente ele esteve tão concentrado. Sentia-se até mesmo capaz de derrotar Machamp, e era para isso que estava se preparando.

- Segure o pé dele e o derrube!

Machop obedeceu prontamente e com um reflexo incrível, recuperou-se da queda, girou o corpo, e aparou o golpe do oponente com as mãos, fechando-as em torno do tornozelo. Com um forte puxão, Primeape caiu de costas no chão da arena.

- Levante-se e, agora sim, use o Arremesso Sísmico.

Tyler observava levemente surpreso enquanto Machop, sem largar os pés de seu Pokémon, se levantou de um pulo e começou a girar o adversário por cima da cabeça. De onde ele havia tirado toda aquela força, nem mesmo Dave sabia dizer. Depois de duas voltas, com um enorme esforço, o Pokémon fez um movimento para baixo, fazendo com que Primeape fosse brutalmente jogado contra o solo de concreto.

Tonto depois de ser girado no ar, e diretamente atingido pelo golpe poderoso do competidor, o Pokémon do líder não resistiu e ficou no chão, incapaz de se levantar. O juiz levantou a mão apontando para Dave, e confirmou a vitória.

- Primeape está fora de combate. Machop é o vencedor.

Dave fechou os olhos e respirou aliviado, mas, antes que pudesse se preparar para a luta seguinte, sentiu Eevee, ao seu ombro, prender a respiração. Abrira então os olhos rapidamente e se viu cego por um brilho intenso, que parecia vir de seu Machop. Ele estava crescendo, ficando visivelmente mais forte e robusto. Quando a luz cessou, Dave teve que piscar varias vezes para acreditar no que via.

- Machoke! – deixou escapar, quase como um sussurro por entre os dentes.

- Choke! Machoke! - respondeu o grande Pokémon azul escuro e, de repente, Dave respirou triunfante um grande gole de confiança. Agora não lhe restava duvidas de que poderia vencer Tyler, qualquer que fosse o próximo Pokémon escolhido.

Vendo a cena, o líder de ginásio sorriu.

- Muito bem Dave, você fez um bom trabalho criando seu Pokémon. Acho que a evolução foi merecida, não?

O menino não se deu o trabalho de agradecer. Torcia silenciosamente pela escolha de seu próximo oponente. Nenhum, a não ser Machamp, o faria feliz. E ele não se decepcionou.

- Bom, tendo em vista os recentes acontecimentos, acho que podemos ser justos. Vai Machamp! – disse Tyler, e o grande monstro de quatro braços foi liberado da Pokebola

Mesmo comparado ao recém evoluído Pokémon de Dave, o adversário ainda era consideravelmente maior e mais largo. Decididamente Tyler havia dado seu melhor para criá-lo, e não seria uma tarefa fácil, para qualquer um, derrotar aquele incrível oponente. Dave, porém, não se intimidou.

O juiz tomou ar e, com um silvo do apito, deu início ao que prometia ser uma grande disputa.

- Machoke, comece com a Rasteira, e siga com o Quebra-telhas e o Golpe de Caratê!

O musculoso Pokémon azul escuro seguiu em grande velocidade e, com um giro de corpo rápido, desferiu uma perigosa rasteira, que obrigou Machamp a dar alguns passos atrás para evitá-la. O golpe, porém, tirara atenção do imenso Pokémon de suas defesas superiores, e o Quebra-telhas atingiu o ombro direito do adversário. Mas, antes que o Golpe de caratê pudesse terminar a combinação, o braço inferior esquerdo atingiu um Mega Soco na costela do Pokémon de Dave, fazendo-o recuar e apertar a barriga com as mãos.

Tyler, mais uma vez, caíra em silencio profundo, e apenas observava seu melhor Pokémon batalhar. Essa, com certeza, era uma batalha mais justa do que a que ocorrera no campeonato.

- Tudo bem amigo, não se deixe abater – encorajou Dave, mas logo viu que não era necessário. Machoke parecia manter o mesmo espírito teimosamente insistente de sua forma anterior e já estava novamente de pé, sorrindo, como se degustasse cada sabor diferente daquele desafio. Sorrindo tamb;em, seu treinador voltou a ordenar ataques.

-Machoke, Focalize Energia!

Por um momento Machoke pareceu respirar fundo e se concentrar. Sem soltar o olhar de seu oponente, ele parecia completamente concentrado em seu próprio corpo e em cada movimento que fazia. Era como se cada inspiração e expiração fossem completamente controladas. Machamp demorou alguns segundos para perceber a inércia de seu combatente e, só então decidiu dar combate. Mas Machoke, agora, estava um pouco mais forte.

O primeiro golpe de caratê foi facilmente desviado, e o segundo, vindo da mão inferior contraria, foi antevisto antes mesmo de ser desferido contra o punho que já estava lá para fechar a guarda. Dave ficou espantado com o reflexo apurado de seu Pokémon quando viu o braço superior descer em mais um golpe, mas ser segurado pelo pulso e impedido de continuar. Naquele momento, ele não teve duvidas.

- Arremesso Sísmico!

Com um pulso firme apertando um dos braços superiores do adversário, Machoke girou rapidamente o corpo, para a surpresa tanto de Machamp e de seu treinador, e projetou o incrivelmente grande Pokémon por cima das costas, arremessando-o contra o chão com tamanha força que o impacto fez o concreto rachar.

Impressionado, Tyler finalmente ordenou.

- Machamp, levante-se! – e seu Pokémon obedeceu, atordoado tanto pelo golpe quanto pelo comando de seu treinador, que já não lhe era uma coisa comum em batalhas. Dirigindo-se a Dave, o líder continuou – Parabéns Dave, você realmente me surpreendeu. Não são todos os treinadores que me fazer realmente comandar o Machamp. Normalmente ele consegue dar conta do recado sozinho.

O menino ouvira os supostos elogios sem saber se ria ou se ficava preocupado. Como assim? O que ele quer dizer com isso? Mas logo Dave viu a resposta para sua pergunta na arena.

- Machamp, continue sua seqüência como da ultima vez.

Mais uma vez o grande monstro de quatro braços avançou e desferiu um Golpe de Caratê que foi facilmente evitado por Machoke. Dave ficou perplexo. Por que ele está repetindo o ataque? Já até sei que a próximo ataque vira do lado oposto, por baixo. Tyler nada mais disse e, sem duvida, o menino acertara. Seu Pokémon mais uma vez bloqueou o golpe desferido pelo braço antes previsto. Em seguida, o mesmo golpe pelo braço de cima veio, e Machoke mais uma vez segurou firme no pulso do oponente. Mas, enquanto Dave se preparava para ordenar o mesmo ataque que utilizou da última vez, a voz firme do líder deu um comando.

- Agora a Rasteira, e depois lhe mostre o Arremesso Sísmico de verdade.

Em um movimento de incrível agilidade, Machamp pegou o adversário desprevenido e atingiu uma de suas pernas, fazendo-o perder o equilíbrio. Em seguida, com muita força, fez com que o braço que antes estava sendo segurado se girasse, de modo que agora era ele quem segurava. Tirou então o Pokémon de Dave do chão, e, com a ajuda da outra mão, o levantou acima da cabeça, deu um incrivelmente poderoso salto no ar, e arremessou Machoke de costas no chão.

O menino de Grené ficou boquiaberto com o movimento igualmente veloz e poderoso de Machamp, e principalmente, com a calma e a frieza de Tyler ao ordená-lo, como se soubesse exatamente o que fazer. Machoke agora se contorcia no campo, enquanto seu adversário voltava ao chão com um grande estrondo, ao seu lado. Ele ainda não entendia como um Pokémon daquele porte conseguia desferir movimentos tão igualmente ágeis e fortes. Aparentemente, a incrível força e peso não atrapalhavam sua velocidade e flexibilidade. Nunca antes ele havia visto algo daquele tipo.

- Chooke – gemeu o Pokémon de Dave, e o menino ficou preocupado. Apesar de tudo, essa nova demonstração de força apenas servira para alimentar o animo do garoto, que agora, fazia de tudo para fazer seu amigo levantar. Ele sabia que a luta ainda não havia acabado.

- Vamos lá Machoke. Você é mais forte que isso! Nós podemos vencer, vamos!

Dave observou apreensivo enquanto seu amigo lutava contra si mesmo para conseguir se levantar. Ele já o vira tantas vezes naquela posição que não tinha duvidas de que a luta ainda não acabara. Dessa vez, pelo menos, não tem o juiz com a contagem regressiva pensou o menino, tentando se encorajar tanto quanto seu Pokémon.

Aos poucos Machoke se levantou, e Dave ficou surpreso pelo fato de Tyler não ter acabado com a luta enquanto tinha o adversário caído. Por um momento ele admirou o senso de justiça do homem que o encarava do outro lado da arena, mas o momento passou com a mesma velocidade que durou, pois seu amigo estava novamente de pé, e, mais uma vez, o menino pensava em um jeito de ganhar a insígnia.

Se eu defendo por cima, ele ataca com os braços inferiores, e se eu defendo esses, ele ataca com as pernas. Eu precisaria sair do chão para vencer essa luta, ou então... E então, com um repentino acesso de inspiração, Dave finalmente achou uma estratégia.

- Machoke, rápido, combine Mega Socos e Golpes de Caratê o mais rápido que puder!

O Pokémon obedeceu e, sem demora, estava a desferir diversos golpes seguidos, ora com os punhos fechados, ora com eles abertos, alternando os ataques e os pontos do corpo do adversário em que ele mirava. Machamp precisou usar de sua agilidade para aparar os golpes, mas com dois braços a mais, a tarefa não trazia grande dificuldade, e Tyler se viu intrigado pela confiança de Dave no movimento.

- Machamp, fique atento!

Mas Dave já sabia bem o que fazer. Vira Tyler executar a mesma estratégia alguns minutos antes e aprendera que desviar a atenção do alvo verdadeiro podia ser muito efetivo.

- Agora, com força, use um Chute Baixo no joelho.

Mudando completamente o foco da parte superior para a inferior do corpo do adversário, Machoke fez com que um dos joelhos de seu oponente se dobrassem ao ser atingido pelo chute. Dave sorriu ao ver que seu plano havia dado certo. Machamp agora estava desguarnecido.

- Agora, Submissão!

- O que? – Exclamou Tyler, surpreso.

O forte Pokémon de Dave segurou-se firmemente nos braços inferiores do desequilibrado Machamp e girou seu corpo, de modo que seus pés prenderam o pescoço do adversário. Ele fez força para girar e arremessar o seu oponente, desferindo o seu poderoso golpe, mas Tyler, em um movimento de reflexo, ao ver que sua luta estava ameaçada, surpreendeu a Dave.

- Machamp, explosão de fogo!

Dave arregalou os olhos ao mesmo tempo que Machoke quando viu, ainda girando no ar, Machamp inspirar profundamente e soprar pela boca uma imensa torrente de fogo, na forma de um símbolo conhecido com kanji, que tinha tamanho poder que propulsionou Machamp para o alto, enquanto pressionava o oponente no chão. O menino de Grené ficou sem ação quando viu seu Pokémon desacordado no chão da arena, com uma grande queimadura no peito. O concreto ao seu lado parecia perigosamente liquido, devido ao forte e repentino aquecimento que sofrera. Apenas depois de alguns segundos Machamp caiu no chão, ainda de pé, sendo declarado vitorioso pelo juiz.

Dave recolheu seu Pokémon e caiu de joelhos, desolado. Não acreditava que havia perdido, que havia novamente sido derrotado por Tyler. O ímpeto que o havia animado até ali, de repente, saia por ele enquanto ele suspirava, ainda com o olhar vidrado no nada, como se o observasse evaporar de sua pele e sumir diante de seus olhos. Mais uma vez se sentiu incapaz, fraco e derrotado.

-Ei Dave! O que você ta fazendo no chão? Levanta daí! – disse uma voz que ele rapidamente reconheceu.

Dave olhou para o lado assustado e, sem sombra de duvidas, lá estava ela, com seus negros cabelos presos em um rabo de cavalo que lhe caia até a metade das costas. A pele branca contrastava com a jaqueta vermelha que usava e ressaltava a expressão séria que a menina tinha no rosto. Lembrou-se de vela no ginásio de Etton, torcendo por ele, e por um momento o menino sentiu falta de vê-la sorrindo.

- Levanta Dave, você ainda pode usar outro Pokémon! – disse Jake ao lado de Mindy.

E era verdade. A luta era de dois contra dois e Dave ainda podia usar um segundo Pokémon. Ele ainda não havia perdido. Mas por que então o sentimento de derrota continuava tão fortemente impregnado?

Dave se pôs de pé ainda desanimado, levando a mão a uma de suas Pokebolas. Antes disso, porém, Eevee entrou no campo de batalha.

- O que? Não, Eevee, volte! Eu não vou deixar você enfrentar o Machamp, é perigoso de mais! Você é muito pequeno! Me deixe usar o Pidgeotto, que possui uma vantagem!

Mas o pequeno Pokémon de pelugem marrom não lhe deu ouvidos e continuou parado, imóvel, com se decidido a vingar a derrota de seus amigos.

- Eevee, você tem certeza? – certificou-se Dave, ao perceber que seu Pokémon não aceitaria outra opção. Por um momento, ele temeu pela integridade de seu melhor amigo, enfrentando um oponente tantas vezes maior e comprovadamente poderoso. Eevee apenas assentiu com a cabeça, sem olhar para Dave.

Tyler, com certeza, era o mais surpreso na arena, e fez questão de parar o juiz quando este estava preste dar a início ao combate.

- Dave, você percebe que eu não irei pedir cuidado extra ao meu Pokémon. A escolha é de total responsabilidade sua... – disse o líder, visivelmente preocupado, mas Dave não via outra saída.

Se a escolha fosse realmente minha, eu teria escolhido o Pidgeotto... pensou o rapaz, para si mesmo. Mas ele não deixou...

Percebendo o silencio do desafiante, Tyler fez que sim com a cabeça e o juiz apitou.

Antes que um suspiro pudesse ser dado Eevee avançou em um ataque rápido que atingiu Machamp diretamente na barriga. O Pokémon levou uma das mãos ao local atingido, mas sequer se mexeu. Eevee, porém, já estava a alguns metros de distancia, inalcançável, inatingível e incrivelmente decidido a vencer.

O movimento se repetiu diversas vezes, atingindo alvos diferentes no corpo do grande Pokémon lutador. Vários pontos distintos do largo tórax do adversário foram atingidos, ambos os ombros também sofreram golpes, e sempre Eevee voltava a se distanciar antes que o oponente tomasse consciência de onde fora atingido. Tyler estava pasmo. Dave também.

Quando Eevee acertou a parte de trás de um dos joelhos de Machamp, esse se dobrou, fazendo o Pokémon se desequilibrar. Logo em seguida, Dave viu Eevee dar um salto por cima do oponente, girar o corpo em volta de si mesmo, com a cauda brilhado, e atingir um forte cauda de ferro no rosto do Pokémon de Tyler, que parece finalmente sentir o golpe.

- Nossa... – exclamou Tyler, extasiado.

- Eevee... – disse Dave, tentando acompanhar com os olhos os movimentos de seu pequeno amigo.

Machamp parecia realmente enfurecido e se pôs de pé sacudindo a cabeça. Eevee o olhou fundo nos olhos com desafio e o grande lutador bufou.

- Calma! – ordenou Tyler, mas não havia como acalmá-lo agora. Ser humilhado por uma criatura tão pequena parecia ser uma afronta ao seu grande poder e ele partiu para cima de Eevee com toda sua raiva canalizada em um Mega Soco.

Eevee, porém, agilmente saltou e atingiu o rosto do oponente mais uma vez com o cauda de ferro. Dave o viu cambalear e Tyler se assustou, mas o Pokemon se recuperou e voltou a atacar. Era incrível a resistência daquele Machamp. Ele acabara de enfrentar uma dura luta e sofrera inúmeros ataques diretos nos últimos minutos. Dave até desconsiderou os ataques rápidos de Eevee, que apesar de saber que causaram dano, pareciam realmente pouco eficientes contra a grande camada de músculos do oponente. Já em relação à Cauda de ferro, ele nunca vira um oponente que tivesse resistido a dois seguidos, principalmente no rosto.

Enquanto Machamp perseguia Eevee, o Pokémon de Dave continuava a se afastar, atingindo ainda mais dois ataques diretos, até que, em um movimento inesperado, a pequena raposa marrom atacou um dos tornozelos do oponente com um Ataque Rápido. O ataque surtiu efeito e fez com que o grande oponente perdesse o equilíbrio, disponibilizando o tempo que ele precisava para preparar o golpe seguinte.

Se afastando, Eevee fez o queixo de Dave cair enquanto começava a brilhar com uma aura levemente dourada em volta de seu corpo. Suas patas deixaram o chão e, por alguns instantes, o Pokémon flutuou concentrado, enquanto pequenos círculos de energia branca se formavam a sua volta.

Dave achava que era impossível arregalar mais os olhos, até que os círculos foram disparados em seqüência na direção de Machamp, que, caído, não conseguira desviar, recebendo o golpe direto.

- Machamp, não! Exclamou Tyler, mas já era tarde de mais. Com um incrível baque surdo no chão de concreto, o enorme guerreiro finalmente caiu.

Eevee voltou ao seu normal, pousando com graça no chão, e olhou para seu oponente derrotado sem expressar felicidade. Se Dave havia perdido o ímpeto que conquistara mais cedo, aparentemente ele ainda não. Vencera, e agora, assim como seu amigo durante a semifinal do torneio de Brass, ele sentia acima de tudo a sensação de dever cumprido.

Sem reação Dave apenas observou enquanto seu Pokémon voltava calmamente para seu lado. Se abaixou então para cumprimentá-lo.

- Eevee, o que você fez? Como você fez isso? – Como ele derrotara um oponente tão forte de maneira tão simples era o que o menino queria mesmo perguntar, mas as palavras lhe fugiam em meio à perplexidade.

-Uee, ueevee... – disse o Pokémon, recebendo o leve carinho na nuca que Dave lhe dava e se calando, como se não quisesse discutir o assunto.

O menino então levantou os olhos para observar Tyler caminhar em sua direção, também claramente surpreso. Ele desabotoou o broche de seu quimono e estendeu a mão, entregando o prêmio pela vitória.

- Meus parabéns Dave - cumprimentou – foi incrível o que o seu Pokémon fez agora. Esse movimento de Poder Oculto realmente me pegou de surpresa. Você fez um ótimo trabalho treinando ele.

Eu não fiz nada foi o que o rapaz pensou. Eu estou tão surpreso como você... mas ele ficou calado e apenas recebeu a insígnia e os cumprimentos em silencio. Tyler continuou.

- Você lutou muito bem, e foi realmente interessante ver seu Machop crescer e evoluir. Tenho certeza que serão grandes lutadores um dia.

- Obrigado – disse Dave, ainda tentando olhando para Eevee.

- Você ainda tem muito o que crescer rapaz, e foi um orgulho poder travar essas lutas com você. Sei que não tenho muito para oferecer, mas saiba que as portas do meu ginásio estarão sempre abertas para você, e seria uma honra se, um dia, você e seu Machoke quisessem treinar conosco.

- Obrigado, mas eu não posso ficar parado – a súbita lembrança da imensa capacidade de Eevee parecia ter assustado o menino, e ele se lembrou do por que deveria continuar viajando sempre que pudesse – ainda pretendo conseguir outras insígnias – apressou-se a dizer, quando viu a confusão no rosto do líder.

- Claro, entendo. Bom, se um dia quiser voltar, o meu convite continuará válido. Foi um prazer – então, com um sorriso e um breve tapa amigável nas costas do menino mais novo, Tyler se retirou.

Com Eevee de volta a seu ombro, Dave se voltou para Mindy e Jake, que ainda estavam sentados a borda da arena de combate. O rapaz olhou para a amiga e sentiu uma grande vontade de lhe abraçar, mesmo sem motivos. O choque com a atuação de seu Pokémon parecia ter anestesiado o que o menino vinha sentindo, e ele desejou que, por um momento, aquilo nunca mais o voltasse a perturbar.

Lembrou-se então de como a ultima semana havia discorrido e de como ele mal falara com a garota, e subitamente, sentiu culpa. Fora intratável, desagradável e nem sequer sabia explicar o por que. Precisava se desculpar. Quando se aproximou, porém, foi ela a primeira a falar, também preocupada.

- Dave, me desculpe por vir aqui mais cedo. Eu achei que você iria querer a sua revanche sozinho, e não queria que a minha luta atrapalhasse. Não era para você ficar chateado.

Jake arregalou os olhos, sem acreditar no que ouvia. Ver Mindy se desculpando não era uma cena comum no cotidiano do grupo de viajantes. Dave sorriu com a idéia de que ela pensara nele ao tomar a atitude, mesmo que ele não viesse sendo merecedor de muita consideração.

- Olha, eu que devo pedir desculpas pelo que venho feito. Não sei o que deu em mim. Acho que depois de perder eu... não sei... me desculpe...

O silencio reinou por segundos incrivelmente longos até que foi interrompido, obviamente, por Jake.

- Vocês dois me enchem a paciência sabia... – disse o menino, se levantando, claramente irritado, e se dirigindo para a saída.

Dave e Mindy riram juntos da reação do amigo, finalmente quebrando a tensão que existia entre eles. Se sentindo incrivelmente mais leve, o garoto seguiu seu amigo mais novo e a menina veio logo em seguida. Aparentemente, tudo estava bem entre eles mais uma vez.

Depois de uma tarde agradável no centro Pokémon, o grupo mais uma vez estava pronto para sair. De acordo com a enfermeira Joy, em algumas poucas horas de caminhada eles poderiam atingir uma área de acampamento na borda da estrada e Mindy estava ávida para partir mais uma vez.

- Tome, aqui está seu Machoke, pronto para outra luta – disse a sorridente mulher, estendendo uma pokebola na direção de Dave. – Boa viajem para vocês!

- Obrigado enfermeira – disse o menino, antes de sair pelas portas automáticas. Ele olhou para a Pokebola longamente e suspirou. Desculpe Machoke. Eu não cumpri minha promessa, e também não consegui te ajudar a vencer o Machamp... O peso da ultima derrota ainda estava sobre os ombros dele, apesar de ter conseguido a insígnia do punho. Eevee fora o maior responsável pela vitória, e se ele conhecia seu Pokémon, Machoke ainda estava precisando de uma vitória para levantar seu moral. Assim como o menino, ele contava com o triunfo sobre o líder de ginásio para se recuperar do titulo perdido em Brass. A diferença é que para Dave ele viera, e para Machoke, não.

- Vamos Dave, você está ficando para trás! – disse Mindy, bem a frente do menino. Ele olhou para os lados e percebeu que já havia saído do centro Pokémon e havia caminhado até ali absorto em seus pensamentos. Quando olhou para frente de novo viu uma placa que sinalizava uma luva de boxe, e apontava para a ruela que o levaria até o ginásio. Ele a observou profundamente, e, com um aperto no coração, virou-se e seguiu a sinalização.

- Ei, onde você está indo? – esbravejou Jake quando viu o amigo se direcionar ao ginásio – você acabou de ganhar essa insígnia Dave!

Mas o menino não lhe deu atenção. Liberou Machoke da Pokebola e seguiu em direção ao ginásio. O Pokémon pareceu surpreso, mas nada disse, e seguiu o treinador. Eevee, no ombro do rapaz, parecia entender perfeitamente bem o que estava acontecendo.

Ao chegar a entrada do ginásio, respirando pesadamente e sentindo seu coração palpitar, ele chamou alto pelo líder.

- Tyler! Tyler!

As poucas pessoas que ainda estavam lá dentro se assustaram e olharam para fora curiosos, mas quando o menino voltou a chamar, rapidamente se agitaram e foram buscar o dono da academia de lutas.

- Tyler! – voltou a chamar Dave.

- Sim – respondeu o homem, aparecendo por uma das duas entradas, claramente surpreso. – O que quer Dave?

- Vim saber se o seu convite era mesmo para valer... – disse Dave para a confusão de todos. Mindy e Jake agora alcançavam o amigo. O rapaz mais novo estava indubitavelmente confuso e a menina tinha pesar nos olhos.

- O que ele está fazendo? Do que ele está falando? – perguntou ele a Mindy.

Esta, entretanto, parecia, assim como Eevee, ter entendido perfeitamente bem e apenas pediu que o menino mais novo se calasse.

- Claro. Você e o Machoke podem treinar aqui por quanto tempo quiserem... – respondeu o líder – mas achei que você iria quere seguir viagem rapaz.

- E quero, mas... – começou ele, mas as próximas palavras eram muito difíceis de se dizer. O menino suspirou longamente e tomou coragem – Mas o Machoke não precisa vir comigo.

As últimas palavras saíram com mais dificuldade do que ele imaginara, e foi difícil manter-se olhando para frente quando Machoke pulou de susto ao seu lado. Ele sentia as maças de seu rosto queimarem e um impedimento na garganta que dificultava a respiração. Ele arfava e fazia um grande esforço para não chorar.

- Como assim rapaz?

- Ora não é muito difícil de entender – disse Dave, que queria que aquele momento acabasse o mais rápido possível – Você é um especialista, e eu sei que o sonho do meu Pokémon é ser um campeão. Seria realmente melhor para ele ficar com você. Você o aceita?

Tyler sorriu e olhou para o Pokémon ao lado de Dave, paralisado de susto. Ele assentiu com a cabeça positivamente como se para digerir melhor o que estava acontecendo antes de voltar a falar – Meu convite foi sincero e continua de pé, rapaz. Seria uma honra receber um lutador valoroso com o seu Machoke. Mas acho que antes você deveria perguntar ao seu Pokémon o que ele prefere...

O treinador de Grené tomou um pequeno susto com as palavras do líder, mas respirou aliviado em saber que poderia fazer o que queria. Tomando então coragem para olhar para Machoke, a primeira lagrima já escorrendo, ele virou-se para o seu amigo.

- Machoke, eu realmente acho melhor você ficar aqui para treinar...

- Choke, choke... – disse o Pokémon, claramente segurando as lágrimas. Dave não entendeu o que ele quis dizer e apenas deu uma pequena risada nervosa. Tomando um grande gole de ar, mais uma vez ele voltou a falar.

- Você viu o que esse cara ai é capaz. Você viu a força do Machamp dele. Você pode ser assim Machoke! Não diga que você não quer, porque eu sei que é mentira. Quando eu te conheci você era um Machop que fazia de tudo para treinar e se tornar um campeão, e eu te trouxe comigo para que você realizasse esse seu sonho. Mas eu não pude cumprir a minha promessa. Agora a melhor coisa que eu posso fazer por você é te deixar nas mãos da pessoa mais capacitada a fazer isso por mim... - As lagrimas agora escorriam pelas faces tanto do Pokémon quanto do treinador. Dave pegou a Pokebola e a entregou na mão grande do Pokémon azul escuro. Vendo que seu amigo estava prestes a protestar – Por favor, não discuta comigo. Eu não te capturei para ganhar insígnias, e sim para te ajudar. Fiz o máximo que pude, e agora chegou a hora de nossos caminhos se separarem, por que eu sei que você ainda pode muito mais... Foi uma grande honra lutar com você e treinar com você. Acho que nunca vou poder agradecer o suficiente o quanto você me ensinou. Agora é a minha vez de te deixar aprender com alguém que realmente possa te ajudar...

E com isso, o menino abraçou fortemente o Pokémon, que ainda estava perplexo com a mudança drástica em seu destino. Ele recebeu o abraço e o retribuiu com força, claramente emocionado.

- Ai! Espera, cuidado! – disse Dave, esmagado entre os braços do Pokémon, que o soltou rapidamente, sorrindo – faz isso no Machamp, não em mim! – riu-se o rapaz

- Choke... – disse ele, sorrindo.

- Vai logo, amigo. E não desista nunca de ser feliz.

E então Machoke se virou e caminhou na direção de Tyler, dando as costas para Dave. As lágrimas escorriam sem fim pelo rosto do rapaz, que observava sem forças para nem mais um passo. Mindy então chegou ao seu lado e segurou sua mão, entrelaçando seus dedos. O gesto surpreendeu o rapaz, que olhou rapidamente para o rosto sorridente da menina. Um sorriso que ele sentia tanta falta.

- Vem – disse ela, baixinho ao seu lado – vem comigo... – e puxou o amigo de volta pela rua em que eles haviam entrado.

Eles caminharam até a esquina, e todas as lembranças passaram com um filme na cabeça de Dave. O pequeno Machop, correndo no frio cortante, na vila de Walter; os dois lutando contra o Hitmonchan pela primeira vez, em um ringue de terra e cercado por correntes; as corridas matutinas diárias que eles davam juntos; as vitorias no torneio de Brass; a evolução. Cada uma das lembranças era pontuada com uma lágrima, enquanto o rapaz seguia puxado pela mão por sua companheira. Eevee parecia soluçar ao seu ombro.

Quando chegou a esquina, ele olhou para trás apenas para ver Machoke ainda parado ao lado de Tyler, na entrada do ginásio. Com um braço acima da cabeça, ele acenou em despedida e o gesto foi repetido por seu Pokémon, já longe. Você me ensinou mais do que eu pude te ensinar amigo. Você me mostrou que o verdadeiro caminho para a vitória está na luta, na perseverança e, principalmente, na força de vontade. Eu nunca vou ser capaz de te agradecer tudo o que passamos juntos... Pensou. E então, ele deu as costas e seguiu viagem, virando a rua e perdendo seu amigo de vista.