II

Közi ficou estático. Sem reação. No começo, pensou que se tratava de outro sonho e, muito em breve, acordaria dele para se ver nos braços de alguma mulher avulsa... mas não. O telefone continuou tocando, e portanto ele precisava atender...

Estava nervoso. Teve medo de falar com a voz tremida, falhada. Que fazer? Tomar uma água? Só que... se ele tomasse uma água, ou mesmo pensasse um pouco mais... Mana ia esperar demais, a ligação poderia cair... e ele poderia pensar que Közi não atendia "por despeito" e... nunca mais ligar!

Podia ser sua última chance de falar diretamente com o Mana!

E aí, voltar praquele terrível limbo de vida sem Mana!

Pensando apenas nisso, atendeu o telefone. Que a voz saísse como saísse... o importante era falar com ele!

- Alô...?

- Oi, Közi.

Aquela voz.

Aquela voz. Céus... o que era aquilo? Somente o som dele lhe dizendo "oi" após um ano...! Dava-lhe quase ganas de chorar...!

Mas teve de se controlar. Respirou fundo, tentando não fazer barulho... e enfim respondeu:

- Oi, Mana. Como está?

- Estou bem. E você?

Ele estava tendo uma conversinha casual com o ex namorado, após um ano de silêncio, como se nada houvesse acontecido...! Mas como assim?

Közi sentiu vontade de lhe dizer que não, que não estava bem...! Que estava péssimo, que queria a Mana mais do que tudo...! Que somente a alegria que tivera em escutar sua voz lhe mostrara, de repente, num vislumbre, o grande sofrimento e vazio que ele passara nos últimos tempos... mas teve de se controlar.

Fazer uma "novela" no telefone apenas faria com que ele se afastasse mais facilmente. Logo, tentou responder de maneira polida.

- Eu... estou bem sim. Trabalhando, né...? Logo vou sai em turnê...

- Que bom! Olha, Közi, era justamente a respeito disso que eu queria falar com você.

- É...?

A mente de Közi não resistiu em fazer um "flashback". De 1987 até 2001, ele e Mana trabalharam juntos. Primeiro no karaokê, depois em bandas... e depois aquele rompimento de merda, bem como o hiatus da anterior banda que ambos fundaram juntos, a Malice Mizer. E agora... ele lhe procurava pra trabalho?

Antes a trabalho do que pra nada. Se era esse Mana que ele teria - bem, já era lucro!

- Sim, Közi. Eu tenho um projeto novo, chamado Moi dix Mois. Tem muito de gótico, e como eu sei que você gosta dessas coisas... queria te convidar pra ver os shows que vou fazer.

Közi engoliu em seco. Shows... e lá se veriam como? "Amiguinhos"?

Era melhor ir devagar. Era melhor segurar as lágrimas. Era melhor ser discreto, por mais que aquele calor de nervoso, aquela febre neurastênica, pudesse vir a se espalhar por debaixo de sua pele, e ele quase adoecesse depois.

Era melhor até mesmo ficar mal - se isso significasse mais alguns momentos na companhia de seu querido Mana... já não havia feito besteira o suficiente ao terminar com ele? Que pagasse o preço, pois!

- É... seria bem... bem legal! Quando vai ser, cara?

- Semana que vem. Eu te dou um convite de cortesia. Quer vir aqui em casa buscar?

As mãos de Közi tremeram. Ele piscou algumas vezes, e a respiração falhou... ele... voltando pra casa de Mana...

- Hum... pode ser... mora ainda no mesmo lugar, né?

- Sim. Vem quando?

- Eu... pode ser daqui uns dois dias, quando eu tiver terminado de arranjar algumas coisas aqui pra banda da qual faço parte! Que é que cê acha?

- Por mim tudo bem. Venha na hora do almoço, sim?

- Tudo bem... vou sim. Obrigado... por me chamar.

- De nada. Até daqui há dois dias!

- Até!

Mana desligou o telefone. E aquilo fora como se uma entidade mágica, um deus ou algo do gênero, houvesse se comunicado com Közi, tal era a falta que ele sentia do ex namorado.

Desligou o telefone e o colocou de volta no lugar. Após isso, as lágrimas puderam começar a correr. Primeiro uma, depois outra, e uma verdadeira enxurrada de lágrimas se formou. Chorou de forma intensa, como não fazia há tempos... pois parecia que antes sua alma estava semi-morta, e Mana havia enfim despertado a ela dentro de si.

- Ele me ligou...! Me ligou, me chamou pra ir aos shows dele...! Céus, o que deu na cabeça dele pra me dar atenção de novo?

Não importava a razão. O que importava é que havia uma chance de reatar pelo menos a amizade com ele... e essa chance não deveria ser perdida.

Lavou o rosto, e as lágrimas se foram. Porém, no resto daqueles dois dias, o coração dele não parou de bater de maneira furiosamente intensa. E era bom... talvez a primeira emoção genuinamente boa que tinha em um ano.

Tentou trabalhar naqueles dias, sem muito sucesso no entanto. Arrumou as coisas do jeito que pôde, porém sua cabeça se concentrava somente naquilo... no dia em que veria a Mana de novo.

Quando o dia chegou afinal, sua apreensão chegou a um limite inacreditável. Arrumou-se da melhor forma que podia, no entanto de maneira bastante "casual", pois Mana poderia pensar que ele estava querendo lhe "reconquistar" - e ele queria mesmo... no entanto, não podia deixar isso explícito.

Saiu de casa, mal prestando atenção nas coisas a sua volta na rua. Se quisessem lhe assaltar, lhe atropelar, tudo isso... seria tão fácil... felizmente nada disso aconteceu.

Ao passo que se aproximava da casa do ex amante, a adrenalina no sangue só subia. Quando se colocou na frente da casa dele então, teve de respirar fundo e tentar se controlar. Enfim, foi até o batente da porta e tocou a campainha.

- Já vou.

A voz. De novo. Céus, se só a voz já fazia aquilo... como então seria vê-lo...?

Mana abriu a porta. E de dentro de sua casa, veio um aroma que Közi não sabia explicar, mas que lhe trazia a lembrança daqueles seis anos de idílio apaixonado o qual vivera com ele.

Era um aroma de rosas, de maquiagem logo pela manhã, de arroz com curry, de centenas de vestidos e rendas bem guardados e dobrados no enorme armário do crossdresser.

E era aquele cheiro de homem... aquele cheiro que ele sentia ao acordar nos braços de Mana de manhã.

Era aquilo... e suas pernas bambas, praticamente chumbadas no chão. Como conseguiria dar alguns passos a frente, não saberia...

Mana lhe sorriu e respondeu, casualmente:

- Ah, já veio? Venha, pode entrar.

Ele estava vestindo uma blusa comprida, que ora lembrava uma túnica, ora um vestido de saia curta. Um fino cinto de tecido lhe cingia a cintura, e por baixo disto ele usava uma calça comprida negra. Nos pés, chinelas macias que pareciam pantufas. No rosto, como quase sempre, inclusive em casa, a maquiagem.

Leve, mas era maquiagem. Um pouco de pó de arroz pra uniformizar o tom da pele, delineador negro, lápis, batom cor de boca. E só. Os longos cabelos negros de oriental não muito diferentes do que Közi vira um ano antes.

Com alguma dificuldade, sorriu de volta ao ex amante e fez as pernas andarem. Entrou na casa dele. Fez-lhe uma formal reverência à moda dos japoneses, e foi respondido da mesma forma.

- Vamos para a cozinha. Lá tem chá verde, que eu sei que você gosta.

Chá verde... naquela cozinha. Naquela cozinha onde anos antes eles se embriagaram com whisky, e Mana enfim lhe pedira em namoro¹. Naquela cozinha, que quando Mana estava cozinhando, lá vinha Közi por trás lhe bolinar ou ainda falar alguma safadeza no ouvido. Naquela cozinha, onde eles, num arroubo de tesão inesperado, transaram várias vezes... antes, depois, e por incrível que pareça até durante algumas das refeições que faziam durante o dia.

É... tinha de ir pra lá - e pior, sem demonstrar sentimentos.

Sentou na mesa. Mana serviu o chá e algumas torradas.

- Se quiser almoçar aqui... estou fazendo um prato novo com carne de enguia².

- É...? Deve ser... diferente, né?

- É gostoso. Já experimentou?

- Enguia...? Não.

- É bom. Vou fazer um pouco pra gente daqui há pouco. Mas então, Közi... me conte. Como vai a vida?

Como ia a vida?

Ora diabos, como ia a vida!

Fodida, cacete!

Totalmente encaralhada e fodida! Ora, ele achava mesmo que Közi estava bem sem ele! É, talvez se ele fosse outra ordem de ex namorado... mas não era! Nunca fora! Sempre amara a Mana desde que se conheceram, e continuava amando... e ele, no tom mais casual possível, lhe perguntava como ia a vida!

- Vai-se levando...

- Seu projeto está bom?

- Está sim... bem, parece que o povo aqui no Japão não aceita muito esse negócio de gótico... não curtem, entende? Então... a gente tá planejando alguma coisa pra Europa.

- Mesmo...? Ora, eu também penso em ir pra Europa. Quem sabe daqui uns dois ou três anos... por enquanto ainda não dá.

- Entendo... mas e aí, mesmo com esse negócio todo de gótico você consegue boas vendas...? Digo, de ingresso e tal?

- Razoáveis... não é muita coisa, principalmente se comparado ao "mainstream"... mas dá pra viver.

- E a loja de roupas...?

- Está bem. As meninas, pelo menos... são a minha maior "fanbase". E elas compram bastante coisa, principalmente aquelas que adoram perambular em Harajuku.

Meninas.

Será que ele estava saindo com alguma...? Ou algumas?

Era melhor não perguntar. Afinal de contas, ele mesmo, Közi, saíra com mulheres depois que terminara com Mana... mas ciúmes é uma coisa complicada, ainda mais quando se ama tanto quanto ele amava a Mana.

- É... Maninha...

O crossdresser olhou de maneira um tanto quanto inusitada. Aquilo de "Maninha" soava como intimidade demais... e Közi percebeu.

- Ahn... Mana... eu tenho uma pergunta meio "assim" pra te fazer... é... que é que te fez me procurar após esse tempo todo?

Talvez aquilo não fosse hora, nem lugar, pra fazer uma pergunta daquelas... mas enfim, estava feito. Mana abaixou as longas pestanas, ficou um tempo girando a colher na xícara de chá... e enfim respondeu:

- A gente se conhece há quinze anos. Não acho que seria bom continuar completamente sem contato com você. Pode não parecer... mas você significou muito na minha vida.

O coração de Közi ficou apertado dentro do peito. Céus, que vontade de abraçá-lo ali mesmo... e beijá-lo com volúpia, e arrancar aquela roupa, e...

Tentou reprimir o pensamento. Ora! Se queria continuar tendo algum contato que fosse com o Mana, era melhor se controlar...

- Mas e aí, cara, como que é seu show?

Teve de desconversar pra esse assunto. Se não desconversasse, era capaz de revelar somente com o olhar o que sentia por ele...

- É bem obscuro! Você vai se surpreender, eu tenho certeza...

- Hum. E os caras da banda, tem dado muito trabalho?

- Ah, não... sabe, eu como coloquei as coisas como "projeto solo", não pretendo mais sofrer com "membros fixos" como... como o Gakuto foi.

Mais uma vez, Mana baixou as pestanas. Közi pensara que somente por causa daquele ciúmes bobo eles já não estavam mais juntos... e quase de forma involuntária, perguntou:

- Não tem mais mantido contato com os ex membros do Malice, Mana?

- Não. Somente alguma coisa com Yuki, mas muito pouco... e hoje com você.

- E os cantores...?

- Közi... se você pretende saber se ainda mantenho algum contato com o Gakuto, ou ainda se saí com ele nos últimos tempos... a resposta é não. Desde que aquilo aconteceu, não falo mais com ele. É como se ele houvesse morrido totalmente pra mim. Entendeu?

"Aquilo" era quando ele terminara o relacionamento de forma abrupta com Gakuto, após uma traição descarada. E vejam que coisa, aquilo fora em 1995... eles não se falavam desde então.

E ele, o idiota, terminara o relacionamento por causa daquilo!

- Tudo bem, cara... eu não sou ninguém pra interferir na sua vida pessoa.

Mana deu mais um sorriso esmaecido... e acabou levantando.

- Gostou dessa entradinha?

- Entradinha...?

Aquela palavra... para a mente totalmente pervertida de Közi, o fazia pensar bobagens. Mas não era aquela espécie de "entradinha" a qual o ex amante se referia...

- O pão, o chá...?

- Ah! Gostei sim, cara, muito obrigado!

- OK. Então vou fazer o prato de enguia pra gente!

Közi o ficou observando... não podia deixar de admirar aquele corpinho bonitinho, os contornos que ainda apareciam sob a roupa... e ficar pensando que perdera tudo aquilo à toa.

E pior que ele lhe encantava tanto...!

Quando Mana cozinhou, eles continuaram a falar sobre trivialidades. E Közi reparou... nas mãos de Mana. Não, nenhuma aliança. Provavelmente estava solteiro... ou namorando porém sem usar nada. Enfim...

Tinha de esquecer aquilo. Se Mana quisesse algo consigo, já teria ao menos tocado no assunto...! Mas... o que era aquilo, afinal, de lhe dizer que... não estava saindo com Gackt? Parecia ser uma satisfação de namorado...

Era hora de parar de imaginar coisas...

Comeram o tal prato de enguias, falaram sobre mais alguma coisa trivial... e enfim, quando foi a hora de Közi ir embora, Mana lhe entregou os ingressos. Despediram-se com a reverência corrente dos japoneses e... Közi saiu de lá quase flutuando.

Se quando falara com Mana ao telefone, fora como se tivesse contato com uma entidade sagrada... ao sair da casa dele, era como se houvesse estado num templo transcendental.

To be continued

OoOoOoOoOoOoO

¹Vide a fic "Mizérable".

²Mana já falou em algumas postagens no blog que come enguia...

Iiihhhhhh, será que rolou um clima? Que que ceis acham? Rs!

Próximo cap em breve!