III

Foi assim, flutuando, que Közi continuou se sentindo ao chegar em casa. De repente, se viu com a predisposição de sorrir a toa, de ficar contente somente porque Mana... lembrara que ele existia.

De repente, tudo ganhou um significado diferente... um propósito diferente... a vida ficou mais leve... e Közi pensou que aquilo se dava tão-somente por ele ter voltado a ter contato consigo...! Não eram namorados, não eram um caso, não eram sequer amigos... apenas tiveram um contato superficial!

E aquilo já lhe trazia tanta alegria...! Até mesmo tivera um doce pensamento... de que se ele houvera recebido convite cortesia, talvez ainda fosse especial para Mana... dado que outros teriam de pagar...

Ficou com aquele sentimento quase infantil, porém muito bom... o coração flutuando dentro do peito... e quando revisou o trabalho para a banda, viu que, com o ânimo ruim que estava antes, não havia feito o serviço direito... não, precisava revisar tudo!

E foi o que fez. Revisou, colocou tudo de uma forma que, segundo seu espírito atual, lhe ajudava a ver os erros melhor e corrigi-los de forma a refletir no trabalho (ainda que obscuro e gótico) o que ele sentia naquele momento.

Nada poderia ter dado mais certo. Alguns dias depois, quando os membros do grupo foram procurar Közi para receber a parte dele do trabalho, viram que estava muito bom. Até ficaram surpresos. Ao ver a reação dos companheiros de trabalho, Közi sorriu...

- Mas você até parece que tá apaixonado, cara!

Ainda sorrindo, Közi lhes replicou:

- Ah... eu estou sim.

- Você dizia que era bobagem isso de "se prender"...

- Sim, e é. Mas... sabe como é, no coração não se manda.

Os caras riram. Discutiram mais um pouco do trabalho a ser feito, e então programaram os dias de ensaio antes da turnê.

Mas... após a reunião acabar, a última coisa na qual Közi pensava era na turnê, ou no trabalho. Ele só pensava... no show de Mana que seria logo em breve.

E foi aquela energia, aquela esperança de vê-lo novamente, mesmo que apenas como artista... que o fez sorrir e viver com alegria nos dias que o separavam daquele reencontro em forma de show. Justamente quando ele estava embalado por aquele clima de otimismo e esperança, recebeu um telefonema nada esperado.

Era Megumi.

Quando Közi olhou aquele número em seu identificador de chamadas, teve um espasmo de surpresa. Nada agradável. Ora, eles não haviam combinado de não sair mais...? E justo agora que Közi havia retomado o contato com Mana, era aquilo...?

Atendeu. De má vontade, mas atendeu.

- Olá, Megumi.

- Oi, Közi.

- Me-chan, me desculpe ser direto, mas... a gente não combinou de não sair mais?

- Ah, sim. Mas eu não estou te ligando pra sair...

- Não?

- Não. É que... sabe... apesar de a gente ter saído apenas em casual, eu penso que, comparado aos outros homens, você entende melhor os sentimentos das mulheres...

Pronto. Era só o que faltava. A menina estar gamando nele.

- Olha, Megumi, eu serei direto. Isso pode te magoar, mas pelo menos é de uma única vez. Mas você não tem chance comigo, entende? Eu amo o meu ex, não tem jeito!

- Eu sei. Não, não te procuro pra isso. É que, como achei que você entende um pouco melhor dessas coisas, e parece ser mais confiável pra isso do que a maioria dos homens, gostaria de te dizer... que estou saindo com outro cara.

- Ah, sim...?

- É. Só que... ele anda me ignorando. Não me diz nada, sequer que não me quer mais.

- Ah, cara... homem é assim mesmo. Se ele não te ligou no dia seguinte, deixa pra próxima.

- É... só que... agora eu queria procurar algo mais sério. Cansei da fase de gandaia... o que você me sugere?

- Hum...? Ah, cara, vai pedir conselho disso justo pra mim?

- Você não teve um namoro sólido...?

- Eu tive. Mas vê a merda que fiz... atolei o pé na jaca bonito, e acredite, ele foi meu primeiro namoro sério. Aconteceu quase por acaso. Antes eu vivia só na farra, não me importava... mas parece que depois de ter conhecido o que era o sexo num ambiente estável, de namoro, nunca mais consegui ser o mesmo. Sério.

- É...?

- É. E sei lá, se quer algo sério, tente dizer isso pros caras. Não a ponto de assustá-los com algo como "quero casar amanhã", mas...

Ela riu.

- Eu entendo. Bem, vamos ver no que dá isso... e você? Chegou a tentar manter contato com seu ex?

- Ah! Não acredita... ele que me procurou!

- Sério? E aí, reataram?

- Não...! Ele me procurou pra ver umas apresentações dele, me recebeu em casa e tudo...! Mas sequer chegou a falar de voltar... bem, eu não quero forçar nada!

- Sei. Vai indo, com o tempo quem sabe ele não percebe... bem, se ele souber o quanto você o ama... com toda a certeza o saberá valorizar.

- Tomara...! Não dizem que "elas" gostam é dos que não prestam? Meu ex pode ser homem, mas era o lado mais... "feminino" da relação, se é que me entende.

- Sim... mas isso não tem muito de verdade. Muitas vezes, os "que não prestam" se fazem de bonzinhos no começo, nos envolvem emocionalmente... e quando eles se demonstram da forma "ruim", já estamos presas a eles. Aí pra se livrar deles é osso... mas esse seu ex, que parece gostar das coisas bem direitas, vai ver que você não é como ele estava pensando.

- Tomara...! Bom, só de ele me procurar... já é algo positivo!

- Quem sabe ele não estava com saudades também?

- É... bom, Megumi, boa sorte a você... eu vou indo nessa, ainda tenho que cuidar dos gatos!

- OK, boa sorte!

- Pra você também, tchau!

Após desligar o fone, Közi enfim pensou... que aquilo era uma surpresa. Afinal, nem antes nem depois de Mana, em sua vida de sexo puramente casual, havia chegado a ser amigo de uma "peguete"...

OoOoOoOoOoOoO

O dia da apresentação enfim chegara. Közi estava nervoso... afinal, até então, durante anos a fio, ele vira a Mana apenas como colega de trabalho. Tocava com ele no palco, e portanto jamais fora expectador dele...

De qualquer forma, para tudo na vida havia uma primeira vez, não...?

Arrumou-se da melhor maneira "roqueira" possível, tacando pancake na cara, fazendo uma maquiagem bem pesada nos olhos... e dando um jeito de esconder os traços principais do rosto a fim de não ser assediado como "O Közi do ex-Malice Mizer" no local.

Saiu de casa, dirigiu até a casa de shows e nem com o manobrista falou muito. Mana iria se apresentar numa das casas que fora o "berço" do Malice Mizer, o Shibuya O-West¹. Quando deixou o carro no estacionamento, sequer pro manobrista deu muita trela... um dos motivos de ele agir assim é porque estava realmente nervoso pra ver o Mana, e o outro era o fato de não querer ser reconhecido.

Ao chegar no local, a esmagadora maioria do público era composto de mulheres² - e isso o constrangeu ainda mais. Apenas chamaria a atenção ainda mais para si por ser homem.

Sentou em uma das cadeiras da "ala social" do barzinho da casa e pediu uma cerveja, esperando que ninguém viesse sentar junto com ele. De fato, ainda não tinha muita gente no local... e as meninas que já lá se encontravam vestiam roupas "lolita" da grife do Mana. É... ele sabia bem como conduzir os negócios! Roupas e ingressos vendidos numa tacada só...

Logo, um homem com "pinta" de ser segurança do local se aproximou de Közi.

- O senhor é o Kouji-san?

- Hum...? Quem me procura?

- Aqui está um recado do senhor Mana.

- Hun...? Do Mana?

Sem mais pedir informações, ele tomou o bilhete das mãos do tal segurança, o qual foi embora sem lhe dizer mais nada. Közi leu o bilhete... vendo que havia lugar marcado pra ele pertinho do palco... com direito a assento e bebidas servidas por conta da casa.

Nossa!

Que diferença do anterior Mana, que sequer queria falar consigo!

Levou o bilhete, foi até a área VIP do local e o apresentou. Deixaram-lhe entrar sem titubear. Depois, tomou mais uma cerveja, apreciando a vista toda "de camarote", bebericando a cerveja... e vendo cada vez mais "gothic lolitas" chegarem.

Não demorou muito e a casa enfim encheu. Estavam todos ansiosos (na verdade, aquilo estava mais para "ansiosas") e Közi também se sentiu assim... de repente, pensou que seu amor estava prestes a subir no palco... e ele ali, observando tudo, como quem estava de fora...

Sim. Finalmente estava de fora da banda do Mana, e isso... o fez se sentir mal.

Uma lágrima rolou de seu olho, mas para que a maquiagem não borrasse, ele se esforçou pra não mais chorar.

Assim que a cortina se abriu, Közi pôde ver um ambiente todo obscuro. No teto, cruzes com correntes penduradas. No palco, cruzes e crânios de animais. Na parte de trás do palco, um emblema que parecia diretamente vindo de algum ritual oculto, emblema esse que representava o Moi dix Mois. Céus...! Mana realmente não brincara quando dissera que ia fazer um negócio bem obscuro...!

Primeiro, entraram os membros de apoio da banda. Todos estavam com muito negro nas roupas, cabelos arrepiados, botas de salto plataforma... mas o mais incrível, para Közi, ainda estava por vir.

Logo, Mana entrou. Estendeu os braços de forma que seu corpo ficasse em formato de cruz, depois fez uma reverência à platéia. As meninas gritaram, e Közi não pôde deixar de sentir uma ponta de ciúmes por isso...

Sentiu ciúmes, aliás, de tudo. Das meninas, dos caras que agora trabalhavam com ele... até do palco em que ele pisava.

E sentiu ainda mais isso porque o ex namorado estava, realmente, magnífico...

Também estava, assim como os outros, de cabelos arrepiados, roupas e coturnos negros e o famigerado "dix" pintado na testa... mas era uma coisa quase surreal. Mesmo todo gótico, todo obscuro, ele estava feminino. Usava longas saias rendadas, um espartilho negro atado na frente do corpo, vários anéis nos dedos, brincos de "strass" em forma de cruz que, sim, Közi conseguira ver mesmo estando no camarote... e a maquiagem primorosamente feita, como sempre.

Era obscura, com bastante pancake no rosto, e todo o resto - sombra, delineador, etc - bem negro. No entanto, seus olhos... lhe demonstravam ser, ainda, do seu ex namorado. Do seu amigo, do seu amante... daquele que prometera lhe amar.

Suspirou de prazer e nostalgia.

Logo depois, Juka, o vocalista, abriu o evento e as músicas começaram a tocar. Céus...! O que era aquilo! Közi simplesmente não reconhecia nele o Mana doce e delicado do Malice Mizer.

Mesmo que nos últimos tempos antes de entrar em hiatus a anterior banda de ambos já mostrasse ares obscuros, agora a coisa era escancarada. Havia muito headbanging, uma bateria de rotação bastante rápida, sinais dos "chifres" com as mãos... e Mana se movendo loucamente no palco, dançando de um lado pro outro, agitando o povo...

Mas ele era tímido! Como conseguia fazer aquilo...?

É que aquele era seu "habitat". Lá, ele era compreendido e amado. Não o julgavam por usar saia, salto e maquiagem. Ali ele podia ser quem era... logo, a insegurança sumia.

Foi neste ambiente de catarse louca, de luzes e sombras, de meninas vestidas de "lolita" e de Mana encarnando o próprio Imperador das Sombras, que Közi também iniciou a fazer "headbanging", relembrando naqueles momentos a adolescência dele e de Mana, quando eles sonhavam em ter uma banda juntos... e em como nada daquilo morrera no coração do ex amante... pelo contrário, continuava bem vivo.

OoOoOoOoOoOoO

Após o show, muito headbanging e algumas cervejas, Közi se sentia exausto. Porém... a noite ainda lhe reservava uma surpresa especial.

Assim que ia sair do camarim, embriagado com toda aquela atmosfera que seu amado preparara para os seus expectadores, o homem parecido com "segurança" o procurou de novo...

- Senhor Közi... mais um recado do senhor Mana.

O coração dele pulou no peito. Mais um...?

Desta vez, estava escrito a mão... com a caligrafia de Mana, que ele conhecia tão bem.

"Közi,

Venha me ver no camarim. É só ir para a parte direita logo atrás do palco, e lhe abrirão a porta. Estou te esperando.

Mana"

To be continued

OoOoOoOoOoOoO

¹Essa casa de shows existe de fato em Tóquio, e Mana disse que inúmeras vezes se apresentou nela com o Malice Mizer (na verdade, se apresenta até hoje com o Moi dix Mois, por isso coloquei a casa de shows na fic, pra ficar mais "realista"). Dizem q o local não comporta mta gente, mas o Moi dix Mois nunca foi "mainstream"... rs!

A, qq tem? Não é mta gente mesmo que consegue apreciar "gothic symphonic metal". :P Não dá pra ser "coisa do povo". Rs.

²O público de Mana, ao menos no Japão, é massivamente composto de meninas. Acho q é pq o povo japonês ainda é mto conservador, e os homens "macho man" não aceitam o fato de caras se vestirem de forma andrógina no palco. Acham que ver esse tipo de show os transformará em "menos machos"... :P

Isso até q me surpreende um pouco, dado q androginia no Japão é padrão de beleza masculina - vide Afrodite de Peixe, Shun de Andrômeda e por ae vai... esse preconceito não faz sentido algum, uma vez q em bandas ocidentais como Kiss e Mötley Crue, os kras tbm se pintavam. :P

Mas e agora? Maninha tá realmente dando muita corda pro Közi na fiqui, hein? Rs!

No mais, beijos a todos e todas!