V
Mana abriu os olhos lentamente. A primeira coisa que percebeu... foi aquela dor no corpo. Em todo o corpo. Nas pernas, nos braços, no abdômen, nos músculos... parecia que havia passado por uma sessão de exercícios muito forte.
Depois, sentiu um peso em cima de si. Era o corpo de alguém... quente e adormecido. Ao virar o rosto pra ver quem era... tomou um susto.
Közi!
Em seguida, percebeu enfim que estava nu e deitado no sofá de sua sala de estar. Mas isto já não significou muito mais pra si... a surpresa de ter a Közi ali lhe deixou completamente alheio a todo o resto.
Que diabo...! Não resistira! Fora pra cama - ou melhor, pro sofá - com o ex, e agora ele teria isso como motivo de orgulho pro resto da vida!
De repente, começou a lembrar de certos... "detalhes" da noite. Havia sido muito, muito selvagem...! Olhou pras costas dele. Arranhões! Chupões no pescoço! Tudo...! E finalmente, percebera aquela... ardência... "lá". Indicando que havia utilizado, e muito bem, aquela determinada parte do corpo durante a noite...
Tentou afastar ao amante de cima de si, mas ele continuava dormindo. Mil vezes droga! Fora uma sucessão de erros! Não devia tê-lo convidado pra passar a noite em sua casa! Não devia ter bebido tudo aquilo de cerveja - nem ter dado toda aquela cerveja a ele! Não devia... não devia sequer ter cogitado que era possível ter contato com ele como amigo sem... sem arriscar cair naquilo!
Continuava tentando afastá-lo, ainda sem sucesso. O sono dele era realmente pesado! E então viu que ainda estava... de pernas abertas... com Közi encaixado no meio delas... dormiram na posição do "negócio" mesmo, sequer indo escovar os dentes ou nada parecido!
Suspirou de desgosto. Diabo! O que ele evitara de acontecer com Gackt tão bem, durante quatro anos, acontecera facinho assim com o outro!
Enfim, após tanto empurra-empurra do corpo de Mana se remexendo embaixo do seu, Közi começou a acordar. Mas... ainda se encontrava meio "em transe".
- Un... Mana...
- Que "Mana" nada! Levanta, Közi!
Porém, o que ouviu em seguida o exasperou ainda mais...
- Uhn... Megumi, pára de se mexer assim...!
Megumi?
Quem diabos era Megumi?
Então Mana lembrou. O cheiro de mulher que sentira no corpo dele no dia anterior. Ela... devia ser a tal de Megumi!
Parou um pouco de se mexer, a fim de escutar o que mais Közi diria... e ele disse:
- Hun... Megumi, eu já disse pra não dormir comigo na minha cama... mas cara, a gente não tinha combinado de não sair mais...?
Aquilo estava ficando interessante... continuou quieto, a fim de tentar ver se ele revelava mais alguma coisa. E revelou:
- Hun, Me-chan, sabe que hoje eu sonhei que transei a noite toda com o meu ex...?
Aquilo deixou Mana estarrecido!
Ele falava de si pra tal mulher? Com que direito ele se sentia de fazer isso?
- Caaaara, que merda, né...? Eu transei contigo de novo pensando no cara... isso não tá certo... vamos parar com isso. Sei que sou um cara gostoso, mas você tá se machucando demais com essa história...
Totalmente desapontado, Mana ia afastar ao corpo do amante de si de uma vez e acordá-lo, quando... antes de fazê-lo... sentiu a mão direita dele em seu peito.
- Hun... Me-chan, cadê seus peitos? Sei que você tem pouco, mas assim também... parece peito de homem, cara! Parece... o peito do Mana...
- KÖZI!
A voz grossa despertou completamente ao outro, o qual ainda "delirava" que saía com Megumi pensando em Mana. E quando abriu os olhos afinal... viu o ex namorado ali, embaixo de si, com uma expressão facial que misturava raiva, indignação e tristeza.
- Mana...?
- É claro que sou eu!
- Não é a Megumi...?
- NÃO!
Közi olhou em volta. Era a casa do Mana! O sofá do Mana, o Mana, o cheiro do Mana, o suor do Mana...
- Mana, a gente transou ontem...?
- Infelizmente, sim!
- Oh, cara, eu não posso acreditar!
Ao contrário do crossdresser, Közi estava completamente feliz. Abraçou ao parceiro, beijou-lhe a face mil vezes, riu, apertou-lhe nos braços...
- Mana, cara, que bom! A gente tá junto de novo...!
- Para com isso, para com isso, Közi! Me larga!
- Meu amorzinho comigo de novo...! Oh cara, como eu estou feliz!
- Eu NÃO estou com você!
- Como...? Mas a gente transou ontem, cara!
- Tá, e daí? É, foi só uma transa, nada mais!
Közi levantou de cima do parceiro. Sentou no sofá, ainda meio confuso pelo sono e pelo efeito posterior da cerveja.
- Mas cara... você não transa em casual, esqueceu?
- Eu não transava! Agora, decidi transar. É, eu usei seu corpo pro meu prazer. Só isso!
Aquilo deixou a Közi surpreso. Sim... pois ele, apesar de também ter sido meio "selvagem", indo nos embalos do Mana, havia transado com amor, apaixonado por ele como ainda estava... e Mana não. Mana, desta vez, fora quem se dera ao luxo de ser frio, de ser casual... como Közi sempre fizera com as mulheres.
Agora ele sabia como elas se sentiam: usadas!
É, ele se sentia usado! Por mais que houvesse gozado junto com ele, por mais que também houvesse aproveitado o sexo, por mais que houvesse utilizado aquele corpinho apetecível para satisfazer a seus desejos... ele não queria, simplesmente, "uma transa e nada mais". Porque ele amava o Mana...! E quando se ama, se quer muito mais do que isso!
- Mana...
- E tem outra coisa: que negócio é esse de me confundir com mulher?
- Ahn... a Megumi?
- Isso mesmo! Você sabe que, apesar de eu me vestir de mulher, nunca gostei de ser confundido com uma! E muito menos com uma que existe de fato!
- Cara, foi mal...!
- "Foi mal" nada! Eu até poderia apostar... que você me trocou por essa mulher há um ano atrás! Não é?
- Não, cara, deixa eu explicar...
- É sim! Você fez o mesmo que o Gakuto fez, me trocou por uma mulher!
Közi viu nos olhos do outro um rastro de lágrimas... mas não deu tempo de ver muito mais. Envergonhado e confuso, Mana saiu do sofá e se trancou no banheiro de hóspedes. Közi ainda tentou ir atrás dele, com chamados de "Cara, espera!" e coisas do tipo, mas foi em vão. Mana se fechou lá, e logo Közi ouviu um barulho de chuveiro sendo aberto.
Não lhe restando outra coisa a não ser esperar que o amante terminasse o banho, Közi sentou-se no sofá, ainda nu, escondendo a cabeça entre as mãos. Aquela transa fora muito precipitada...! Eles podiam vir a brigar de novo e nunca mais se falarem! Mas que droga... devia ter rumado direto pra casa, por mais cerveja que tivesse tomado...
Esperou pacientemente pelo final do banho dele. Quando o ex namorado saiu do banheiro, com um kimono azul - como costumava usar - Közi se manifestou:
- Cara... deixa pelo menos eu tomar um banho e me vestir!
- Tudo bem - Mana falou sem sequer olhar nos olhos do outro - Vá lá.
Közi tomou suas roupas e rumou ao banheiro. No espelho do mesmo, viu a maquiagem que fizera pro show do dia anterior... já toda borrada, toda disforme.
Tomou a liberdade de pegar um pouco do demaquilante do Mana e retirá-la. Em seguida, tomou o banho, deixando que a água refrescasse um pouco de suas ideias... deveria pensar muito bem no que falar pra ele quando saísse daquele chuveiro! E ainda por cima aquela bobagem de confundir ele com a Megumi...!
Quando saiu do banho, Mana estava sentado meio "de lado" num sofá de um lugar só - o sofá onde eles transaram estava... er... "sujo demais" pra ser utilizado antes de ser devidamente higienizado. Afinal, foram várias trepadas durante a noite... nenhum deles lembrava exatamente de quantas, mas mais de duas, com certeza...
Aliás... Mana se encontrava sentado meio "de lado" provavelmente porque estava... com dificuldade de sentar devido àquela "maratona". Közi sentiu vontade de rir, mas achou que ia queimar mais ainda o filme. Respirou fundo, e enfim falou:
- Mana...
- Já tomou seu banho?
- Já. Mas...
- Então pode ir.
- Mas cara, tem umas coisas que eu ainda quero falar com você...
- Falar o que? Você já conseguiu o que queria...
- Como assim, cara?
- Oras! Você conseguiu o que o Gakuto tentou em quatro anos e não obteve sucesso... você transou comigo em sexo puramente casual após ter terminado comigo! Agora pode ir.
- Peraí! Você tá insinuando que eu só queria te comer, é isso?
- E não é o que todos vocês querem afinal...?
- Peraí, cara! Não, peraí! Que negócio é esse de "vocês"?
Meio confuso, Mana respondeu de forma quase aleatória:
- Vocês, homens...
- E você é o quê? Mulher? Oras, acabou de me dizer que usou meu corpo, logo, fez exatamente o que acabou de condenar em "todos os outros homens"! Qualé, cara, santo você não é!
Mana baixou as pestanas, ficando em silêncio logo em seguida. Era verdade... mas logo arrumou uma réplica que julgava ser decente:
- Mas não é tudo o que vocês querem...?
- É, é o que a maioria dos homens quer, comer e sair fora - mas eu não! Não, não desta vez, não com você! Mana... você pode até não acreditar... mas... eu ainda amo você!
O outro sorriu, um sorriso incrédulo e cínico.
- Se tudo isso é verdade... como tem coragem de vir aqui cheirando a mulher? E como tem a coragem de me confundir com essa mulher? Közi, você acha que eu sou idiota?
Közi estranhou... aquilo parecia com ataque de ciúmes de namorado, não de alguém que só tinha "trepado e pronto". As atitudes de Mana traíam suas palavras...
- Olha, cara, eu posso te explicar a história da Megumi. Você pode não acreditar, mas eu vou explicar mesmo assim. OK?
Mana suspirou e fez sinal de que estava ouvindo.
- Ao longo desse ano em que estivemos separados... eu... Mana... é verdade, eu transei com algumas mulheres... mas a maioria das vezes... incluindo essa Megumi... era pensando em você! E não, eu não "troquei você por mulher", como o Gakuto fez... não! Você pode até não acreditar, mas depois que terminamos eu até fiquei um tempo considerável sem ninguém!
Mana riu alto. De um jeito que não costumava rir.
- Não me venha com essas, Közi!
- Pois é, eu sabia que você não ia acreditar... mas enfim, eu disse a verdade! Estou com a consciência tranquila sabendo que é a verdade. E é verdade também que... eu parei de sair com ela. É, eu achava sacanagem fazer ela de "holograma" pra imaginar você.
- Hum. Pois se parou de sair com ela... por que ainda está com o cheiro dela em suas roupas ao menos?
- Sei lá, cara! Nem eu tinha reparado! Você repara, com esse nariz... eu não! De qualquer forma, se seu narizinho abençoado é tão preciso assim... deve ter te indicado que faz mais ou menos uma semana que saímos pela última vez. De lá pra cá, não tive ninguém...
- Guardando-se pelo resto da semana para amar-me no dia de meu show? Ora, Közi, vá contar contos de fada a outro!
- Bem... sei que você não acredita, mas não foi exatamente com a intenção de "me guardar". Até porque... eu não planejava transar com você. É, eu realmente não planejava! E eu ia continuar respeitando a sua negativa, ia dormir no quarto de hóspedes e tudo... se você não me agarrasse com tudo, me jogasse no sofá e viesse com um "Cala a boca e me fode logo"! Foi isso que você fez, não se omita! Não pode dizer que eu simplesmente o seduzi, porque não foi esse o caso!
Mana baixou as pestanas de novo... e lhe respondeu afinal:
- É... você tem razão. Mas nada disso me demove do fato de que não quero mais nada com você. Vá embora, sim?
- Nem... a amizade?
- Não sei. Quem sabe a gente não pode se ver mais algumas vezes, acompanhar o trabalho um do outro...
"E depois dos shows trepar loucamente como se não houvesse amanhã...! Humpf! Isso é tão 'não-Mana'!", pensou Közi, ainda surpreso por Mana não estar nem um pouco arrependido em ter feito somente casual consigo. Mas pra arrematar, falou-lhe afinal:
- É, cara... que seja. Mas saiba... saiba, cara, que eu ainda gosto de você. De verdade. E me arrependo muito de ter terminado contigo. Logo... se você desejasse voltar... eu estaria aqui. É sério, mesmo após todas as suas negativas, todo o seu desprezo... eu voltaria. Porque o culpado pelo nosso término fui eu... logo, eu mereço isso.
Mana evitava olhar direto nos olhos do ex namorado, bem como não queria demonstrar emoções. Após ele dizer tudo... enfim disse:
- Acabou?
- Sim.
- Então pode ir.
Közi ainda não se conformava. Mana podia ser bem filho da puta quando queria! Ora, queria ver nele ao menos um traço de emoção, alguma coisa... mas somente vira desprezo. A não ser, claro, aqueles ciúmes estranhos que ele tivera da Megumi... então, resolveu rematar com mais esta:
- Cara... só me desculpe por ter vindo aqui "cheirando a mulher". A partir de hoje... eu só quero aparecer pra você "cheirando a Maninha". É sério...
- Faça o que quiser.
Közi o reverenciou, tomou a chave de seu carro e foi embora. Mana fechou a porta sem sequer olhar pra trás... porém, assim que ouviu o amante dar partida no veículo e ir embora, arriou-se no sofá e chorou copiosamente.
Usado! Comido! Fodido pelo ex, enquanto esse mesmo ex ainda estava com cheiro de mulher pelo corpo! Mas que ódio!
E ainda por cima vinha com aquela história de transar com a mulher "pensando nele"...! Ora, que mentira deslavada! Quando ia penetrar a vagina dela, pensava nele, se nem vagina ele tinha?
Tinha ainda mais ódio de si ao surpreender-se com... ciúmes de Közi. Tinha de esquecê-lo! Tinha de deixá-lo afinal! Talvez ainda falar com ele... mas pra sexo? Pra romance? Não! Tinha de ser forte. Não ia mais sair com ele!
Porém, a lembrança daquela noite... de como haviam transado gostoso... huuuun, seria assim tão fácil resistir...?
Tentou não pensar nisso... e, ainda com alguma dor no corpo, levantou-se a fim de preparar algo para comer.
OoOoOoOoOoOoO
Ao chegar em casa, Közi ainda estava abalado. Claro que havia sido simplesmente maravilhoso ir pra cama de novo com o Mana, algo que ele sequer cogitava antes... mas aquela reação dele! Sem nenhum laivo de emoção, de saudades, de entrega, nada! Sem nenhum "amour"! Sem nenhuma das palavras em francês que ele costumava proferir após as transas!
Foi comer alguma coisa, dado que o ex sequer havia lhe oferecido algo para comer... e quando começou a fazer o chá, o telefone tocou.
Era Megumi. De novo. Mas que momento chato pra ela ligar!
Atendeu.
- Oi, Közi! Como estão as coisas?
- Oi, Megumi... bem, as coisas não andam nada bem pra mim.
- Por que?
- Porque... olha, é uma história longa. Meu ex... a gente se viu ontem. Eu fui ao show dele...
- Sério? Ele trabalha com música como você?
- Sim... e, cara... oh, cara, a gente bebeu cerveja, papo vai, papo vem... e fomos pra cama!
- É?
- É, cara... mas ele não quer mais nada comigo! Disse que foi só casual, não quer mais nada... estou me sentindo um lixo!
- Ah, sim... mas você não transava sempre em casual com mulheres como eu?
Aquilo pegou a Közi de surpresa. Ora, o que Mana fizera consigo, ele também fizera - e diversas vezes - com outras pessoas! E com Megumi mesmo, com quem desabafava naquele exato instante!
- Bem... eu sei disto. Mas o problema é que eu amo o Mana... o único problema é esse!
- E será que nenhuma das mulheres com quem você saiu em casual... será que nenhuma delas chegou a te amar também?
- Ah, não sei... por isso que decidi parar com essa vida! Mas se o Mana só quiser trepar e mais nada... e aí, que é que eu faço?
- Não há muito o que fazer... a decisão é dele. Ou você se afasta dele, ou aceita tê-lo somente como amante.
- Entendo. Bem... e você, como está?
- Ahn... aquele cara com quem eu estava saindo, sumiu. Também não tenho sorte no amor...
- É, pois é... parece que estamos ferrados, né?
- Mas é isso... agora vou tentar procurar alguém mais sério, mas não sei onde achar.
- Vá tentando... a gente nunca tem um "carimbo" de "ser sério" ou "só curtição" na testa... é melhor conhecer antes, entende?
- Entendo. Bem... boa sorte a você em sua empreitada pra reconquistar seu ex. E... me desculpe por estar tratando você como o "amigo gay"...
- Hahahahahaha, "amigo gay"! É um barato mesmo. Na verdade, como eu já saí com homem, não deixo de ser gay... apenas faço o papel mais "macho" da coisa!
Megumi também riu.
- É verdade... mas eu acho que mesmo assim dá pra conversar sobre algumas coisas.
- Dá sim... ligue aí quando se sentir a vontade.
- OK. Olha, vou lá que preciso ir trabalhar!
- Tá certo. Até mais tarde!
- Até!
Assim que desligou, Közi ficou pensando se fizera a alguma mulher infeliz, tal qual Mana o estava fazendo. Afinal... ele jamais se apaixonara por ninguém além de Mana. E, bem... anteriormente, ele tivera um namoro com ele, portanto não se decepcionara. Mas agora que o casual havia sido justamente com alguém que ele amava...
E ficou pensando no tanto de sofrimento que causara às demais mulheres... precisava parar com aquilo...
Mas e Mana? E o contato que teriam a partir daí, seria baseado no que? Eles só "sairiam"? Seriam amigos? O que seria feito deles dali pra frente...?
Durante alguns dias ficou pensando naquilo, bem como se preparando para a turnê que faria. Porém, alguns dias depois, sem aviso, seu telefone tocara. Ele, displicente, não olhara quem era no identificador... e atendeu normalmente.
- Alô?
- Olá, Közi.
O coração dele deu um salto no peito. Era Mana, de novo...!
To be continued
OoOoOoOoOoOoO
Maninha não aguentou ficar sem o Közi! Rs!
Beijos a todos e todas! Vou tentar atualizar o mais rápido possível!
