- Ele ainda está lá, Lily. – Alice abriu a cortina da cama de Lily e encarou-a sugestivamente, como se esperasse uma decisão de vida ou morte.
- E o que eu teria a ver com isso, exatamente? – Lily questionou a amiga, sem retirar os olhos do livro que estava tentando ler desde que havia chegado ao dormitório. Ela apenas bufou.
- Ele quer falar com você. – Lily suspirou e fechou o livro com um baque surdo.
- E se eu não quiser falar com ele? – Alice sorriu mediante a aparente rendição, e se sentou na ponta da cama, descansando a mão direita sobre as pernas cruzadas da amiga, como se quisesse afaga-la por um machucado.
- Escuta. Eu sou sua colega de quarto desde o primeiro ano, e já passamos por muita coisa juntas. Não nos tornamos melhores amigas a toa. – Ela sorriu encorajadoramente e Lily suspirou, colocando uma das mãos sobre a testa e massageando-a. - Eu conheço você. – Alice sorriu mais amplamente e a ruiva sentiu-se obrigada a sentar ao lado da amiga na cama. – E mesmo conhecendo você tão bem, eu não consigo entender por qual razão obscura e misteriosa, você deu tanto voto de confiança para o Ran... – Lily lançou lhe um olhar advertente e Alice engoliu a palavra. – Desculpe, Frank se refere assim, apenas força do hábito. – Ela gesticulou e Lily não pôde deixar de sorrir. Desde que tinham finalmente deixado as brigas e discussões constantes e assumido que foram feitos um para o outro, no final do quarto ano, Alice Johnson e Frank Longbottom, um grifinório um ano mais velho que ambas, tinham se tornado inseparáveis. E ela não podia culpar a amiga: Alice realmente aparentava estar muito feliz. – Enfim, para o Snape. - Ela contorceu os lábios como se estivesse se referindo a um inseto que tivesse colado na sola do seu sapato.
- Ele foi o primeiro bruxo que eu conheci, Alice. Ele me mostrou tudo isso – Gesticulou com a mão livre em seu redor e Alice ergueu uma sobrancelha em sinal de descrença. – e todo o resto. Eu devo isso a ele.
- Ele é um idiota e você sabe que não deve nada para ninguém. Você é uma bruxa como qualquer outra, - Lily sentiu-se impelida a interromper, mas Alice lançou-lhe um olhar fulminante e continuou falando. - e seria tudo igual se ele não tivesse explicado nada para você.
- Eu duvido muito. Ele foi muito bom para mim. – A conhecida sobrancelha se ergueu novamente.
- Tanto faz. – Ela deu de ombros. – O fato é que se você ainda tinha alguma esperança de que ele não fosse um idiota, a sua comprovação veio hoje, assinada por ele. – Lily suspirou, cansada, e mesmo assim, pronta para protestar. – E não me venha com desculpas como os NOM's. Todos nós estamos passando por eles, e, sabe, alguns de nós estamos com muita pressão para conseguir boas notas, - Lily não pôde deixar de sorrir perante a ideia de a sua melhor amiga, tão tagarela e despreocupada, porém peculiarmente inteligente, se tornar uma Auror. – Do que você está rindo? Enfim, não interessa. O que interessa, é que todos os alunos do quinto ano estão passando por isso, e eu não soube de ninguém chamando um colega de coisas... – Lily ergueu uma sobrancelha e Alice pareceu estar procurando pelas palavras corretas. – Ofensivas.
- Ser chamada de Sangue-Ruim não me machuca. – Respondeu calmamente, enquanto Alice arregalava os olhos. – Como diz o nosso brilhante diretor, ao refutar a ideia de chamar Voldemort de Você-Sabe-Quem, o medo de um nome só aumenta o medo da coisa própria. – um leve sorriso se esboçou no rosto dela. - O cara pode ser estranho, mas ainda é considerado um gênio.
- Enfim, minha cara Lily, mesmo você não se sentindo ultrajada, tal expressão ainda é considerada ofensiva e de baixo calão em basicamente todo o mundo bruxo, e o seu querido amigo não foi especialmente discreto ao proferi-la em frente a uma grande parte do corpo estudantil.
- O que aconteceu? – Lily perguntou assustada e Alice afagou a sua mão.
- Digamos que Severus Snape não tem uma fama invejável nesta escola, e que ele foi alvo de azarações durante o dia todo. – Alice respondeu sugestivamente.
- A Grifinória perdeu muitos pontos? – Lily perguntou, subitamente preocupada com uma grande perda de pontos tão perto do final do ano letivo. A ampulheta recheada com rubis estava na frente da ultima vez que olhara, no café da manhã, e detestava a ideia de ser o pivô da perda do campeonato das casas, que poderia ser conquistada pela Casa pelo terceiro ano consecutivo.
- Não se preocupe, várias safiras e topázios também sumiram hoje. – Alice sorriu mediante a expressão surpresa de Lily. – Por que o espanto? Você sabe que é bem quista, além de ser uma aluna inteligente e uma monitora-chefe muito responsável e cuidadosa. Você é admirada, Lily. Além disso, você não é a única nascida-trouxa dessa escola, sabia? Muita gente, incluindo os amigos e namorados de pessoas com o registro sanguíneo como o seu, ficou tremendamente ofendida com o que o seu amigo disse. – Ela deu um sorriso travesso.
- Eu não acredito que você fez algo também! – Lily arregalou os olhos para a amiga.
- Oras, eu vi como você ficou. Você nunca o chamou de Ranhoso antes, e para tê-lo feito nessa tarde, devia ter se sentido mal pelo o que ele fez. Então, quando o vi sozinho, tentando pegar um livro na biblioteca, em uma estante que ele não alcançava, não pude deixar de aplicar um Feitiço das Pernas Bambas. – Ela deu uma risada divertida. – Frank, que me esperava no final do corredor, viu o que eu tinha feito e encostou a varinha na prateleira mais próxima, fazendo todos os livros caírem em cima dele.
- Vocês são um casal ousado, hein? – Lily mexeu com a amiga, dando uma leve cotovelada nas suas costelas. Alice riu mais um pouco e assentiu, então virando-se para encarar a amiga firmemente.
- Você vai falar com ele? – Alice foi direta e Lily sabendo que algo assim a esperava, fez uma careta.
- Não estou afim. – Lily respondeu, esquivando-se. A amiga lhe apertou as mãos, como que se tentasse passar um pouco de sua própria força para ela.
- Eu sei que doeu quando ele falou aquilo. Mas ele quer conversar com você, e quando eu passei pelo retrato, ele me disse que ia dormir ali se fosse preciso, mas que ia falar com você de qualquer jeito. – Lily revirou os olhos. – Eu, na minha reles e singela opinião, acho que o que ele fez não tem desculpa. Principalmente por ele, você sabe... Ter sentimentos por você. – Lily a encarou assustada. – Ora essa, não me olhe com essa cara! Qualquer um que já esteve presente em uma conversa entre vocês dois, sabe pelo simples olhar dele que ele quer ser muito mais do que seu amigo.
- Maneira interessante de mostrar isso. - Lily murmurou.
- Eu sei, ruivinha, eu sei. – Alice suspirou, e voltou a encarar Lily. – Mas eu acho que você tem que ouvir o que ele tem a dizer.
- Pensei que você o julgasse um verme sem escrúpulos.
- Ah não, não me entenda errado! – Alice pareceu levemente ofendida. – Os seres queridos e amáveis que servimos como refeição aos explosivins não merecem a comparação a Severus Snape. Eles são inofensivos – As duas se olharam e por um breve momento, gargalharam juntas. – O fato é que, apesar de ser um estúpido arrogante idiota nojento e, sem esquecer da parte do Sonserino, ele ainda é humano, e erra. Você precisa escutar o que ele tem pra dizer.
- Merlin, você simplesmente não odeia quando se obriga a escutar à Alice? Ela é indiscutivelmente a voz da razão! – Disse Natalie Wood, ao entrar no nosso dormitório. Lily suspirou ao ver a amiga, agora sabia que ambas não iam descansar enquanto ela não fosse resolver o problema com Severus. – E nada de bufar para mim, Senhorita Evans. – Natalie sentou-se do outro lado de Lily, segurando a sua outra mão. Enquanto Alice era alegre, tagarela, baixa e sem nenhuma beleza em especial, porém com uma vida amorosa invejável, Natalie conseguia ser exatamente a mistura de austeridade e irresponsabilidade, além de ser linda. A beleza perfeita, aquela invejável: Ela era alta, loura, de olhos profundamente azuis, a pele era branca como leite, mas graças a alguma poção especial que sua mãe lhe mandava, tinha um tom estranhamente perolado, que às vezes podia ser visto nos seus cabelos claros, e além da beleza facial e capilar, ainda tinha o corpo perfeito, graças aos treinos constantes de Quadribol, pois fazia parte do Time da Grifinória desde o segundo ano, e jogava como Artilheira, ao lado de Sirius Black e Marlene McKinnon. Alice e Lily tinham a completa certeza que os batedores dos times adversários geralmente tinham o hábito de concentrar os balaços em Sirius pois eram completamente absortos pela beleza de Natalie. – Me ouve, Lily. – Disse Natalie com os olhos azuis muito perseverantes nos olhos verdes de Lily. – Eu sei como você se sente em relação a ele. E acho que você tem que ir. Apesar de eu achar que se você deixar para ir amanhã, e o Ranhoso dormir aí na frente, há a grande probabilidade de Filch encontra-lo nas rondas noturnas e, depois dessa tarde, eu não acharia nenhum problema que algumas esmeraldas sumissem de uma certa ampulheta no salão principal.
- Ai meu Deus, você também fez algo! – Disse Lily, assombrada.
- Não acho que alguém que tenha sido criado por trouxas deixou de fazer algo hoje. Um pequeno feitiço de maquiagem e depois de selagem, e ele não vai conseguir tirar aquele batom por uma semana. – Natalie sorriu e piscou para a amiga, que não pôde deixar de sorrir para ela. Lily nunca havia se sentido tão amada e protegida como naquele dia em que havia sido renegada pelo seu mais antigo amigo, principalmente quando soube que pessoas que mal a conheciam tinham arriscado alguns pontos da sua casa por uma causa maior.
- Moral da história, - Alice começou, abraçando Lily com um braço, e ainda segurando a sua mão com o outro, e Natalie a imitou. – o cara é um idiota, mas ainda é quase parte da sua família. Vá falar com ele.
Lily suspirou e apertou a mão das suas amigas, beijando ambos os rostos.
- Obrigada, meninas. Vocês são demais. – Alice se limitou a sorrir e Natalie revirou os olhos, assentindo.
- Me diga algo que eu não saiba ainda, por favor. – Lily mostrou a língua e fechou os últimos botões da camisa do pijama, antes de calçar o chinelo. Se olhou no espelho e tentou encorajar à si mesma, se fitando longamente, até que suspirou, vencida por seu próprio reflexo, soltou o cabelo recém-cortado e chacoalhou-o á sua volta, ainda naquela fase de se acostumar com o novo corte.
- Uau! – ouviu Natalie sibilar, e quando virou para as amigas se deparou com olhares de admiração. – Eu gostei. E você, Alice?
- Sem comentários. Se o seu cabelo podia possivelmente ser mais lindo, ele ficou com esse novo corte de cabelo. – Ambas a fitavam com grande admiração pela mudança drástica de visual, enquanto Lily apenas lançou lhes uma careta.
- É, às vezes é bom ouvir o Flitwick fora da sala de aula. – Alice revirou os olhos enquanto Natalie apenas sorriu.
- E onde você acha que eu tinha aprendido o feitiço do batom? – A loura respondeu com um sorriso brincalhão nos lábios.
