- Eu sinto muito. – Foi a primeira coisa que ouviu quando saiu do buraco da sala comunal, na conhecida voz pastosa e macilenta. Tudo o que conseguiu lançar ao rosto estranhamente familiar foi um olhar enojado.

- Eu não estou interessada. – Lily respondeu em um tom amargo.

- Eu sinto muito. – Lily cruzou os braços.

- Poupe-me.

- Eu somente vim porque Alice me disse que você estava ameaçando dormir aqui. – Ela o encarou e ele pareceu diminuir alguns centímetros. - Mas percebo que não há motivos para eu ficar aqui.

- Eu estava. – Severus se apressou em falar. - E eu teria dormido. Eu nunca quis chama-la de sangue-ruim, eu apenas...

- Deixou escapar? - Não havia misericórdia na voz de Lily.

- Está muito tarde – Ele responder, mas ela levantou o dedo e continuou falando. - Eu produzi desculpas por você durante anos. Nenhum dos meus amigos entende porque eu falo com você. Você e seus preciosos amigos Comensais da Morte - pra você ver, você nem ao menos nega isso. Você não nega porque você é tudo o que aparenta ser! Você mal pode esperar para se juntar a Você-sabe-quem, não é mesmo? - Ele abriu a boca, mas fechou sem dizer uma palavra. - Eu não posso mais fingir. Você escolheu o seu caminho, e eu escolhi o meu. – Ela pendeu os braços do lado do corpo e fez menção de voltar para a sala, mas ele reuniu toda a coragem que tinha e segurou o braço direito de Lily, prendendo-a.

- Não, escute, eu não quis te chamar... – Os olhos verdes o encaravam com deboche e ele sentiu toda a acidez do estômago em sua boca.

- Me chamar de sangue-ruim? Mas você chama todos com linhagens iguais a minha de sangue-ruim, Severus. Porque comigo seria diferente? – Ela levantou uma sobrancelha e olhou para onde o seu braço estava preso, e ele, tomado por uma onda maior ainda de determinação, a puxou para mais perto, onde podia ver as suas sardas.

- Porque você é diferente. Você é especial. – Um leve choque passou pelos olhos verdes e se perdeu.

- Foi uma maneira legal de demonstrar isso, se referir a mim com o insulto mais ofensivo do mundo bruxo na frente de toda a escola.

- Eu já disse que eu não quis te chamar...

- E eu já disse que não me importo, Severus. – Ela subitamente abandonou o tom amargurado e adotou o simples e caloroso que geralmente mantinha com ele, que por sua vez se assustou e soltou o braço dela no mesmo instante, quando teve certeza que ela não ia fugir.

- O que você quer dizer com isso? – Snape perguntou intensamente.

- Eu não me importo de ser chamada de Sangue-Ruim. Porque é o que eu sou. – Um leve assombro passou pelo rosto do garoto, e Lily pensou que nunca tinha o visto tão pálido na vida, iluminado como estava, apenas à luz da lua cheia.

- Não se refira assim a você mesma. – Ela levantou uma sobrancelha.

- Ah, você pode e eu não? – Ela revirou os olhos e ele segurou enfiou a mão direita no bolso e segurou algo, o que levou um leve temor à Lily. – Mãos onde eu possa ver. – Ele retirou a mão do bolso, deixando ambas a vista. – Mas o fato é, que eu não me importo. Você diz que sente muito, e eu acredito em você. E eu acredito em você porque eu gosto de você. – Ela adotou uma expressão tranquila e encostou uma mão no ombro esquerdo dele. – Você é como família. – Ele fez uma careta. – O que foi?

- Eu não sou sua família, Lily, e você tem que começar a se acostumar com isso.

- Eu não vejo o porquê. – Respondeu ela teimosamente.

- Porque em dois anos nós vamos embora. Em dois anos, nos separaremos, de verdade. Cada um vai tomar o seu caminho. – Ele retorquiu amargurado. Um lampejo passou pelos olhos desesperados de Lily.

- Você gosta de mim? – Ela escorregou a mão pelo seu braço e segurou a mão dele.

- O que? – Snape perguntou assustado e segurou a mão dela de volta.

- Você gosta de mim? – Ela repetiu e ele arregalou os olhos mas se forçou a assentir. – Eu quero dizer como mais do que amigos. – Os olhos negros do garoto se arregalaram. – E não se atreva a mentir para mim. – Severus se transformou em uma estátua e Lily se aproximou mais ainda dele. – Me deixe te ajudar, por favor. – Lily se viu em um beco sem saída, quase como estivesse se afogando e precisasse se agarrar no mais quebradiço dos galhos para se salvar. – Vamos ficar juntos. Larga essa história de artes das trevas e fica comigo, de verdade. – Lily reuniu o máximo de sentimentos que pôde dentro dos seus olhos para salvar o seu amigo, e antes que pudesse conter, estava chorando, enquanto o garoto via uma Lily desesperada, que estava jogando o mais baixo que podia para trazê-lo para perto dela mais uma vez. – Eu sei que você não é assim. – Ela o encarou profundamente. – Eu conheço você. Mais do que Avery e Mulciber. Mais do que a Sonserina inteira. Mais do que Lord Voldemort. – Snape arregalou os olhos.

- Como você se atreve...

- Me atrevo sim. Ele não vai deixar de me torturar ou me matar só porque eu falo o nome dele. – Os olhos negros a fitaram e Lily apertou a mão gelada de Severus. – Eu quero ficar do seu lado.

Se tivessem lhe contado até um ano atrás, quando tudo o que Severus Snape pensava e respirava era Lily Evans, que ela estaria ali, implorando para ele mudar por ela, para ele ficar com ela de verdade, como ele sempre sonhara, ele provavelmente ficaria dividido entre a incredulidade e a excitação. Ele amara Lily desde o primeiro instante em que a vira, naquele parquinho trouxa deplorável, e mesmo agora, quando haviam declaradamente se separado, ficava feliz por ter conseguido para sempre um pedaço físico dela junto dele, mas havia abandonado as esperanças à muito tempo, mais precisamente naquele longínquo primeiro de setembro, em que Lily Evans havia sido escolhida para a Casa da Grifinória e Severus Snape para a adversária das trevas, Sonserina.

Os tempos eram outros, e ele apenas ao fitar aqueles olhos verdes incertos, sabia que ela estava dizendo qualquer coisa para salvá-lo de si mesmo.

E ele já tinha crescido o suficiente para trilhar o seu próprio caminho. Mesmo que lhe condoesse tanto de esse caminho ser completamente oposto e perpendicular ao da menina pela qual era apaixonado.

- Eu sinto muito, Lily. – Ele respondeu em uma voz mecânica e a surpresa passou pelos olhos verdes, deixando uma expressão pasma no rosto bonito da garota. Ela não esperava por aquela resposta. – Nós crescemos. Nós estamos muito distantes um do outro...

- Se você diz isso por causa da história das casas, isso não é nada, daremos um jeito. – Ela respondeu rapidamente e ele apenas lhe deu um sorriso fraco, apertando a mão pequena e quente dentro da sua por uma última vez e soltando-a.

Naquele instante, mais do que nunca, ela soube.

Ela soube que não tinha volta.

Que agora, Severus Snape estava indo para lado oposto da estrada, e que não ia voltar, não importava se ela tirasse toda a roupa naquele instante, ou se ameaçasse se atirar da Torre de Astronomia.

Ele não somente tinha ido para o lado negro da força. Ele a abandonara completamente. Vinha dando sinais disso há algum tempo no último ano, e o "Sangue-Ruim" vindo de sua boca mais cedo naquele dia colocara o ponto final.

E essa percepção, a de perda, a primeira perda real que ela já tinha sofrido, doeu como nenhuma outra dor no mundo. Ele tinha ido embora e não ia mais voltar.

- Eu achei que você me amasse. – Lily falou inquisitorialmente antes que pudesse se controlar, e imediatamente arrependeu-se, corando com intensidade da base do pescoço até a raiz dos cabelos. – Me desculpe. Eu não quis dizer isso. – Snape deu um sorriso tristonho, e tomado por um impulso, a abraçou, passando a mão pelos cabelos ruivos recém-cortados e inebriando-se com a sua essência doce. Por um instante, Lily ficou imóvel, assustada com o gesto íntimo do amigo, mas depois pendeu o rosto em seu peito.

- E eu amei. E ainda amo. – Ele confessou em um tom quase inaudível.

- E por que você me chamou daquilo hoje? – Snape se retesou por um instante, como se tivesse se lembrado de algo que lhe causasse dor.

- Eu não quis te chamar daquilo. – Ele insistiu e ela caiu em si, empurrando o peito do garoto e caminhou em direção ao retrato da Mulher Gorda.

- Se acabou mesmo, você tem que ir e não pode olhar pra trás. – Ela se despediu em um tom amargo, baixando a cabeça para fitar os seus sapatos.

- Lily, olhe para mim. – Ele se aproximou, e ela levantou os seus grandes olhos verdes para fita-lo ressentidamente.

- Sabe, já foi ruim o bastante perder Petúnia por ser uma bruxa. Eu não esperava que fosse perder você também. – Ele apenas deu de ombros.

- Me escute, Lily. – Ele disse em um tom firme, mas ao mesmo tempo carinhoso. – Você vai ser grande. Desde pequena você demonstrou que era forte. Você não tem medo de se sacrificar para salvar uma causa. E acho que é por isso que eu sempre te quis tanto. – Ela ia objetar, mas ele continuou falando, aproveitando a súbita loucura que lhe ocorrera. – Mas eu não sou assim. Eu, como o Chapéu gosta de se referir à Sonserina, sou ambicioso e ao mesmo tempo covarde. Mas eu quero que você saiba que você é única. Que não importa quanto tempo demore, saiba que eu vou gostar de você. – Ele despejou tudo em um olhar cansado. - Sempre. – Ele adicionou com intensidade.

- Vá embora. Eu não quero mais que você fique aqui. – Ela teria gritado se tivesse alguma voz em sua garganta estrangulada. - A cada segundo parece que eu vejo você afundar em um lago obscuro e não consigo te puxar de volta. – Ele sorriu fracamente e, reunindo todo o resto da sua força, coragem e loucura, foi tomado por um ímpeto e a beijou no rosto, e depois a encarou por alguns instantes, encantado.

- Eu gostei do cabelo novo. Mas preferia como era antes. – Ele disse pensativamente, ao passar os dedos pelos fios ruivos. – Olhe para mim. – Ele repetiu e ela ergueu o queixo novamente, fitando longamente o rosto macilento do amigo. - Adeus, Lily. – E deu as costas para o retrato e para aquela que, embora ainda não soubesse, seria a única mulher que ele seria capaz de amar durante sua vida.

Lily olhou para a Mulher Gorda que lhe esperava com uma expressão sonolenta e tentou se lembrar da senha, mas tudo o que lhe vinha na mente foram as últimas palavras de Severus para ela.

- Minha querida, eu conheço você. Você é a Monitora-Chefe. Se não se lembra da senha, pode trocá-la. – Lily sorriu fracamente e encostou-se na parede, sentindo-se escorregar até o chão. Não tinha forças para entrar na Sala Comunal e encontrar todos os colegas de casa a observarem curiosamente, e ouvir os burburinhos especulativos sobre o seu nariz vermelho e seus olhos inchados. Temia especialmente Alice e Natalie, que provavelmente estariam esperando-a para ouvir em primeira mão toda a conversa, e depois que soubessem de tudo, odiariam ainda mais o seu melhor amigo.

Ex-Melhor Amigo.

Essa expressão fez o estômago de Lily se revirar, ao se lembrar de que nunca mais se falariam. Nunca mais sentariam juntos na aula de Poções. Nunca mais tentariam se divertir nas festas horríveis do Clube do Slug. Ele não iria ao seu casamento. Ele não conheceria os seus filhos. Ela não receberia mais os presentes irônicos de natal dele. Ela não faria mais ovos de páscoa para ele. Nunca mais passariam as tardes preguiçosamente ao lado do lago, jogando comida para a Lula Gigante. Nunca mais falariam mal da Lufa-Lufa juntos. Ou de Petúnia. Ou de James Potter. Nunca mais se olhariam nos olhos. Nunca mais ririam juntos. Fim de papo.

Tudo o que Lily Evans foi capaz de fazer foi abraçar as pernas, abaixar a cabeça nos joelhos e chorar até soluçar, sob a luz da grande lua e os olhares inquietos dos retratos.

Por que você fez isso, Severus? Por quê? Por tanto tempo, ela foi tudo o que você sempre quis. Tudo o que você sempre sonhou. Quantas vezes você se pegou fantasiando cenas ao observá-la rindo nas festas daquele idiota do Slughorn, imaginando tirá-la dali naquele instante, leva-la para um canto escuro e confessar tudo? E segurar a cintura fina dela em suas mãos e beijá-la? Sabia que ela estava namorando com o capitão de quadribol idiota da Lufa-Lufa do sexto ano, alguma coisa McMillan, mas o que isso importava? Era Lily, sua Lily.

Tudo o que podia se ouvir nos corredores vazios eram os barulhos constantes e ritmados dos sapatos de Snape. Ele caminhava tão rápido que quase corria, apertando no bolso aquilo que lhe dera constância e segurança durante o tempo que estava em Hogwarts, quando as coisas ficavam difíceis e ele achava que não ia conseguir.

Como da primeira vez, no terceiro ano, que viu Lucius Malfoy se referir à Voldemort como Lorde das Trevas à Rodolphus Lestrange perto da lareira, sondado pelos olhares constantes de Bellatrix Black que os observava do sofá. Ouvira-os conversando sobre como a Nova Ordem estava próxima, e como os Sangues-Ruins seriam em breve extirpados. Ele lembra-se exatamente de como o seu estômago revirou ao lembrar da linhagem da sua melhor amiga e decidiu se aproximar, para descobrir como protege-la desta tal ordem.

O problema é que ele descobriu o quanto o poder lhe caía bem. Juntou-se aos discípulos de Malfoy, Avery e Mulciber, e começaram a cometer pequenos delitos, como rasgar mochilas de nascidos-trouxas ou deixá-los nus no jardim em pleno inverno, entre outros. Até o dia em que viu Mulciber lançar a Imperius em uma menina do primeiro ano da Corvinal, fazendo-a derrubar todos os pratos da mesa dos professores em um café da manhã. Soube que estava ficando perigoso, mas continuou, curioso pelo o que viria a seguir. Cruciatusem um sextanista da Grifinória, pela sua coruja ter esbarrado na cabeça de Avery em um café da manhã.

Soube que era demais quando, depois de tortura-la inúmeras vezes, viraram Mary McDonald de cabeça para baixo no saguão anterior ao Salão Principal, com um feitiço que a fazia vomitar aranhas sobre a ampulheta da Grifinória. Para qualquer pessoa normal, aquilo teria sido a gota d'água, já que ele se sentia cada vez mais pressionado a fazer as mesmas coisas, mas não se sentia preparado, se sentia enojado. Precisava conversar com Lily, contar a ela os seus medos.

- Lily, posso conversar com você? – A garota se virou, sobressaltada pela voz conhecida que vinha por trás de suas costas enquanto tomava café da manhã na mesa da Grifinória, em uma manhã ensolarada de sábado, no final do quarto ano.

- Claro, Sev. O que você precisa? – Ela respondeu prontamente e ele se viu ainda mais encabulado em ser alvo dos olhares fuzilantes dos colegas de Lily.

- Se importa se for a sós? – Lily ergueu uma sobrancelha e se levantou da mesa, caminhando ao lado dele para fora do salão.

- Ninguém encosta um dedo no meu prato. Eu vou voltar. – Ela lançou um olhar austero às amigas e voltou-se para Snape. – O que aconteceu? – Mas foram interrompidos por uma voz conhecida e que ambos desprezavam.

- Aí Evans, vai finalmente ceder ao Ranhoso? – James Potter se levantou da mesa, falando em um tom que podia ser claramente ouvido por qualquer um do salão. Lily apenas revirou os olhos. – Se você for a Hogsmead com ele hoje à tarde, lembre-se de levar alguns guardanapos, para secar a gordura de sua pele.

- Cale a boca. – Ela revidou, parando na porta e virando-se para o colega de casa. – Me deixa em paz. Deixa o Severus em paz. Esquece que nós existimos, por favor. – adicionou, em um tom de voz cansado.

- Me deixa levar você a Hogsmead hoje, e você nunca mais vai querer que eu te esqueça. – James falou em um tom arrogante e que revirou o estômago de Snape, cuja varinha estava em punho antes mesmo que pudesse perceber, dentro do cós da calça jeans puída. Lily percebeu a tensão do amigo e apenas suspirou, saindo do salão batendo os pés, e parando em frente às ampulhetas, de braços cruzados.

- Arrogante. Ridículo. Imbecil. – Ela murmurava irritadamente enquanto Severus a observava divertidamente.

- Problemas no paraíso? – Ele perguntou zombeteiramente, muito mais satisfeito que estivessem em um lugar quase deserto.

- Eu adoro todos os meus colegas de casa, - Ele ia objetar, mas ela ergueu um dedo. – não importa o que você diga. Mas eu odeio aquele filho da...

- Olha o linguajar! Você não quer ser uma monitora que faz a própria casa perder pontos.

- E quem vai descontar? – Ela ergueu uma sobrancelha e ele sorriu inocentemente.

- Não se esqueça que quando chegou a carta de monitora na sua casa, chegou à Rua da Fiação também.

- Ora essa, vá se catar. – Ela deu uma risada e bateu levemente no ombro de Snape. O toque levou um tom levemente ruborizado ao rosto pálido. – Então, o que você queria?

- Ah é... – A conversa leve e divertida com a amiga o fizera esquecer por alguns minutos da sua vida miserável. – Eu preciso conversar com você. Você pode me encontrar no Três Vassouras hoje, às três horas? – Ele perguntou esperançoso e ela fez uma careta. – Se você não puder às três, pode ser outra hora também! Quando você puder...

- É realmente estranho dizer isso, especialmente pra você... – Ela parecia estar procurando as palavras certas para falar o que quer que ela precisasse falar. – Mas eu tenho um encontro hoje.

- Com quem? – A pergunta de Severus escapou antes que ele pudesse se conter, e ambos enrubesceram naquele instante.

- Eu não sei se você vai gostar ou se você conhece. É o Justin McMillan, da Lufa-Lufa.

- O mais jovem capitão de Quadribol de Hogwarts do século? Pode acreditar, já ouvi falar. – Ele respondeu tristemente.

- Saiba que ele só é o capitão porque é o único que joga razoavelmente bem e que tem a capacidade de conciliar os estudos com os afazeres de um capitão. – Ela desdenhou e sorriu, conseguindo arrancar um sorriso do rosto de Severus também. – Me desculpe, Sev. – Ela o observava com os olhos apreensivos e caminhou em direção à ele, segurando as suas mãos. – Podemos conversar outro dia?

- Está tudo bem. – Ele tentou consolá-la, mas a voz saiu um pouco mais fria do que esperava. Ela sentiu isso e se afastou rapidamente. – Podemos conversar na festa de fim de ano letivo do Slug, na próxima semana? – Ele perguntou esperançoso, tentando se redimir da frieza de momentos antes.

- Encontro marcado! – Lily respondeu animadamente, deu um beijo em seu rosto e voltou para o Salão Principal saltitando, enquanto Snape só se atinha a observá-la afastar-se de longe, com a sua bochecha ainda formigando.

O problema é que Lily esquecera-se completamente da promessa que tinha feito à Snape, e levara McMillan como acompanhante à festa de Slughorn, (tarefa que pertencera a Snape desde que ambos foram convidados ao Clube do Slug, no segundo ano) e Lily parecia estar se divertindo tanto com o novo namorado que Snape não teve coragem de conversar com ela.

Esse fora o seu erro: ter escondido o grande segredo por trás de sua entrada na magia negra, e agora tinha escondido tanto que escondera de si mesmo, e entrara de cabeça nessa história de Nova Ordem. Sabia que era errado, e tinha se provado ainda mais amaldiçoado quando a garota mais especial do mundo tinha se derretido aos seus braços vinte minutos atrás, e ele tinha rejeitado-a, pois sabia que se tornara demais sujo para sequer estar ao lado dela como amigo, quem dirá como namorado?

Ao chegar à porta oculta na parede de pedra que dava a passagem para a masmorra da Sonserino, Severus se viu chorando e apertando a mão no seu bolso o máximo que julgava fisicamente possível. Bateu levemente com a cabeça várias vezes na parede tentando afastar a dor que sentia ao pensar que Lily tinha o deixado para sempre. Ela merece alguém melhor.Ele queria gritar, queria se livrar da dor, mas não conseguia achar a sua voz. Queria voltar para a torre da Grifinória e pegá-la nos braços, pedir desculpas e chorar em seus ombros. Queria ficar do lado dela como ela quisesse, e por mais que doesse em seu peito, ele sabia que seria como amigo. Queria protege-la. Queria leva-la à festa de Slughorn e rir da cara de todos os nerds que se encontravam lá por invejarem o garoto que tinha Lily Evans como acompanhante.

Mas ele não era digno dela.

Ela vai ser feliz.

Ela vai se formar, vai conseguir um NIEM de curandeira e vai conseguir um emprego no St Mungus assim que colocar os pés para fora de Hogwarts, é o que ela sempre quis.

Ela vai se casar com alguém digno dela. Alguém não idiota de preferência. Poderia ser até McMillan, já que o namoro deles estava durando mais de um ano. Mas ele é da Lufa-Lufa.

Ela vai ter filhos.– O estômago dele se revirou. – Ela vai ter muitos filhos. Ela vai criar cada um deles com a doçura e educação que sempre teve. O cabelo dela é lindo, mas se pudesse escolher, gostaria que algum deles tivesse os olhos dela. Verdes como esmeraldas.

Mas a vida é difícil. E quase sempre não é como a gente quer.

E eu preciso abandonar Lily Evans de vez.

Snape bateu a cabeça na parede de pedra mais uma vez, deixando escorrer uma última lágrima. Então, apertou a mão direita mais uma vez e puxou o seu artefato secreto de dentro do bolso: uma mecha de cabelos ruivos de Lily, dentro de um frasco de vidro protegido por um encantamento que impediria qualquer um de vê-lo ou senti-lo, além de Severus.

Ele vez o frasco levitar à sua frente com a varinha em punho. Diga adeus, Severus.Ele segurou a varinha com toda a firmeza que pôde na mão esquerda. Ia lançar o feitiço mas a garganta falhou. Vamos lá, Severus! Você consegue destruir um simples frasco. Você conseguiu manter Flitwick sob a Imperius por quase uma hora e depois obliviá-lo. Você consegue.Snape respirou fundo mais uma vez e limpou a garganta, apertando mais ainda a varinha sob os dedos.

- INCENDIO! – Ele gritou com uma voz esganiçada para o frasco, que ardeu em chamas um segundo depois.

E assim Severus Snape deu adeus à Lily Evans, extinguindo a única parte dela que fora sua durante todo esse tempo: uma mecha de cabelo que tinha voado da residência dos Evans naquela longínqua manhã de primeiro de setembro, quatro anos atrás.

Ele suspirou, guardou a varinha nas vestes, limpou o rosto com a manga da camisa e murmurou a senha para a gárgula que guardava a masmorra dos discípulos de Slytherin.