- Ei, - Lily sentiu uma mão cuidadosa levemente cutucar o seu ombro, - Ev... Lily. Acorde. – A voz era cautelosa, e a mão continuava vigorosa em seu ombro. Ela não sabia onde estava e muito menos o que estava fazendo, mas tinha a absoluta certeza que demorara muito para conseguir uma posição confortável e que não queria sair dali tão cedo.

- Ora, me deixe... – Tentou puxar o ombro, mas a mão continuou ali, impassível. Tentou estapeá-la, mas esquecera-se de como mexer as mãos.

- Sinto muito, Pontas. – Disse uma voz grave e cadente, em um tom falsamente pesaroso. – Ou deveria parabenizá-lo? – A voz agora tinha um tom zombeteiro.

- Do que você está falando? – A outra voz parecia confusa.

- Parece que hoje será finalmente o dia em que você vai tocar em Lily Evans. – A voz grave respondeu inocentemente, e então risadas a acompanharam.

O que está acontecendo? E por que, por Merlin, não me deixam dormir em paz? Quando Lily apenas lançava murmúrios indecifráveis para o grupo visitante, mãos firmes se encaixaram na dobra dos joelhos e no encaixe dos braços, levantando-a do lugar gelado e duro em que ela estava deitada. Era bom ser carregada, pois quem quer que estivesse a levando, era suficientemente quente e macio, além de ter uma respiração leve e que esquentava o seu rosto e pescoço. Então, entrou em um ambiente fracamente iluminado, e foi largada em algo bem macio e perto de uma fonte de calor, que agora, quando sua mente estava um pouco mais lúcida, pensou ser uma lareira. Permitiu-se sair da posição fetal em que se encontrava e relaxar os músculos, um por um, deixando o calor penetrar em cada centímetro de sua pele. Não tinha percebido o quanto estava sentindo frio até efetivamente esquentar-se. Depois de alguns minutos espreguiçando-se e tomando forças para se levantar, abriu lentamente os olhos e surpreendeu-se com o que viu: quatro cabeças sentadas à sua frente, no chão, observando-a em um misto de preocupação e curiosidade.

- Agora você está mesmo acordada? – Perguntou uma cabeça de cabelos muito bagunçados e com óculos redondos.

- Houve muitos falsos alarmes? – Lily, perguntou, ainda deitada, zonza de sono.

- Nah. – Respondeu uma cabeça de cabelos ondulados e particularmente bonita. – Apenas o suficiente para o nosso Pontas aqui pular inúmeras vezes.

- Você está bem? – Perguntou um rosto conhecido e amigo, de bonitos olhos âmbar emoldurado por cabelos castanho-claros. Lily esfregou os olhos mais uma vez, dessa vez tentando realmente focalizar onde estava e de quem pertenciam aquelas cabeças, cabelos e rostos. Depois de longos minutos, ela conseguiu vencer os olhos estranhamente inchados e enxergou quem eram as pessoas que lhe ajudaram.

Ótimo.

Lily não pôde deixar de fazer uma careta e proferir um murmúrio de desdém ao reconhecer os rostos de James Potter, Sirius Black, Remus Lupin e Peter Pettigrew, ou como eles se chamavam, Marotos.

- Depois de termos te tirado daquele chão de pedra e salvado vários pontos da Grifinória caso Filch te encontrasse, tudo o que recebemos é uma careta digna de quem entra na Borgin & Burkes? Que legal. – James parecia levemente irritado, mas seus olhos castanhos ainda continham preocupação. Lily se surpreendeu como aquela fora a primeira vez que realmente encarara James Potter nos olhos tempo o suficiente para notar a cor de suas íris. E como era interessante o fato de que ela podia dizer o que ele estava sentindo apenas por esse detalhe, mesmo que a sua voz e o seu corpo lhe dissessem o contrário.

- Não se preocupe, meu caro Pontas, quem desdenha quer comprar. – Sirius respondeu com um sorriso zombeteiro nos lábios, batendo solenemente nos ombros de James. – Ditado trouxa.

- Ora essa. – Lily fechou as sobrancelhas e Lupin arqueou uma das dele.

- Eu achei que você fosse ser mais grata a nós por tirar você de lá, em especial ao James, que te carregou até aqui dentro. – Remus tinha um tom repreensivo em seus olhos, excessivamente doentes naquela noite em especial, e Lily apenas abaixou a cabeça, envergonhada. De todos os ditos Marotos, o único por quem ela verdadeiramente tinha algum tipo de apreço era Remus Lupin, já que dividiam as tarefas de monitoria desde para o início deste ano. Ele era correto e estudioso, além de estar sempre com uma aparência de doente, causando uma simpatia e compaixão maternais em Lily. Ela gostava e ouvia Remus.

- Obrigado por terem me trazido, garotos. – Os quatro rostos se iluminaram mediante as palavras envergonhadas de Lily. Ela suspirou e mirou o garoto de óculos e cabelos arrepiados. – Obrigado por ter me carregado até aqui, Pot... James.

- Agora estamos bem, ruivinha. – Sirius sorriu amistosamente para Lily e Remus afagou o seu ombro, enquanto James apenas a observava, intrigado.

- De nada. – Ele respondeu arrogantemente. – Nada que você não faria por um de nós. – Ele sorriu e gesticulou para os amigos. Então, ficou sério subitamente e a fitou mais intensamente do que nunca. – Não quero, sabe, me meter na sua vida, nem nada do tipo... Mas por que você acabou, hm, cochilando na entrada da torre da Grifinória, estando a poucos metros de entrar no seu dormitório? – Lily sentiu suas orelhas pegarem fogo e franziu o nariz.

- Ah isso não foi nada... – Ela respondeu em um tom displicente demais e os quatro garotos se entreolharam como se soubessem de algo. - Eu apenas fiquei lá para pensar um pouco, longe da barulheira habitual da Sala Comunal, e... – Então, ao olhar os quatro sorrisos condescendentes, soube que não estava enganando ninguém.

- E os olhos inchados de chorar seriam explicados como? – Sirius perguntou com um leve sorriso e ela não pôde deixar de retribuí-lo.

- Isso não é uma coisa muito educada de se dizer a uma dama.

- Esse choro tem algo a ver com... – James parecia lutar com as palavras. – com o que aconteceu hoje, mais cedo? – Lily suspirou e assentiu. – Ele veio aqui te procurar? O que mais ele falou pra você? – James parecia pessoalmente ofendido por algo que nem Lily entendia o que era. – Viram? – James perguntou, voltado para os três garotos que o observavam atentamente. - Eu disse para vocês! Eu disse que tinha visto uma bolha de oleosidade indo para as masmorras quando nós fomos para, vocês sabem onde...

- Severus veio aqui sim, e nós conversamos. – Ela respondeu, sentindo-se na obrigação de contar o que acontecera para aqueles que tinham lhe tirado de uma possível enrascada há instantes atrás.

- E o que ele falou pra você, Lily? – Lupin engatou, com uma voz quase ressentida de tanto amargor. - Que desculpa de Sonserino, – Ele cuspiu a palavra como se fosse uma doença contagiosa e Sirius baixou discretamente a cabeça. – Ora essa Almofadinhas, não me venha com culpa alheia. Você nunca pertenceu e nem nunca pertencerá àquele lugar.

- Mas toda a minha família... – Protestou Sirius e os três outros garotos reviraram os olhos.

- Você não é a sua família, você é melhor do que eles. Você é mais do que um saco de sangue-puro, e você sabe disso. Se não soubesse, não estaria aqui, sentado conosco na sala comunal da GRIFINÓRIA. – James o encorajou, dando tapinhas nas costas do amigo.

- Mas enfim, Lily, - Lupin retomou. – Qual desculpa de Sonserino dissimulado e covarde ele teve a ousadia de te dar para justificar o comportamento preconceituoso dele hoje à tarde?

- Eu nem sei porquê ele teve coragem de apontar o dedo para você desse jeito, - Peter falou pela primeira vez e Lily se surpreendeu com o fato de o como a voz dele soava aguda e miúda, quase como um rato fazendo barulho. – já, que pelo o que eu saiba, ele é mestiço.

- Isso não vem ao caso, Rabicho. – James cortou o amigo, e voltou a olhar intensamente nos olhos de Lily, que estremeceu e ruborizou. – Queremos saber o que ele falou para ela.

- Bom, ele disse que não tinha a intenção de me chamar de Sangue-Ruim. – Ela ouviu bufadas e risadas irônicas dos quatro garotos a sua frente, mas continuou, antes que perdesse a coragem. – E disse que sentia muito.

- É obvio que ele sente muito, passou o dia todo sendo azarado. – Disse Sirius, divertido. – Mas não se preocupe, Malagueta. Amanhã ele vai engolir tudo o que disse pra você. Promessa de Maroto. – Sirius ergueu uma mão no ar e todos os outros assentiram solenemente.

- Não façam isso! – Lily só não gritou porque não tinha voz o suficiente, mas falou em um tom de urgência. – Não quero que a Grifinória perca mais pontos por minha causa.

- Você não entende, não é? – Lupin aquiesceu os olhos azuis, e aquilo lhe deu um ar de maturidade. Ela se sentiu como se estivesse recebendo conselhos de seu pai. – Isso tem que parar. Essa intolerância para com os trouxas, - Ele puxou o ar, tentando se acalmar – e contra qualquer outra criatura mágica que eles julguem inferior aos bruxos está tomando o mundo lá fora, com Você-Sabe-Quem. Se nós aceitarmos esse tipo de comportamento dentro da escola, estará tudo realmente acabado. – Lupin despejara tudo como se aquilo estivesse ardendo dentro de si há muito tempo, enquanto os outros quatro presentes na sala o observavam com um olhar preocupado. Lily suspirou e aproximou o tronco de Remus, pegando uma de suas mãos. Aquela situação lembrava muito várias outras com Severus, quando era constantemente alvo de pregações de peça.

- Está tudo bem... – Ela começou e ele balançou a cabeça.

- Não Lily, não está... Você não sabe...

- Eu sei, Remus. – Ela apertou a sua mão, enquanto Remus lhe olhou incrivelmente assustado, o pavor emanando dos olhos azuis.

- Co-Como? – Ele gaguejou apavorado e ela apenas sorriu.

- Digamos que eu tenha uma inteligência acima da média. E que eu saiba ler um calendário e notar que os dias que você fica terrivelmente doente caem exatamente no ápice de lua cheia. – Ele arregalou os olhos e ela passou a mão pelos seus ombros, abraçando-o o mais apertado possível. Lily havia aprendido com Alice que às vezes em uma situação onde as palavras não podiam esclarecer, um carinho físico acalmava. Um abraço como aqueles o fazia entender que ela estava do seu lado e não contra ele. – Se já estamos no quinto ano e você não machucou ninguém, não vejo porque ter medo de você. Sem falar que você é um dos melhores alunos do nosso ano. Por cinco anos seguidos. – Ele sorriu timidamente e ela o apertou contra si uma última vez, voltando para o sofá.

- Então, - retomou Sirius, incerto das palavras que ia usar. – ainda estamos curiosos. Eu não acredito que Severus Ranhoso Snape tenha abalado o seu grande ego preconceituoso e seboso apenas para dizer que não queria ter te chamado de S-Sangue-Ruim hoje à tarde.

- Acreditem ou não, foi exatamente para o que ele veio aqui. – Lily respondeu sinceramente e os quatro garotos levantaram as sobrancelhas, surpresos. – E para dizer que sentia muito.

- Ah, e pode acreditar que vai sentir. – Os olhos de James brilharam.

- Não vai não. – Ela ralhou austeramente e lançou olhares severos aos quatro garotos.

- Ah tá bom então, querida Monitora. Agora, só porque você nos proibiu, - Ele frisou - não iremos fazer nada contra ele. Pode deixar. Está bem na nossa índole respeitar as ordens que nos dão. – James desdenhou e ela revirou os olhos.

– Sabe, Potter, ao que me consta, de acordo com o Regulamento de Hogwarts, monitores são capazes de dar detenções tanto quanto qualquer membro do corpo docente. E seria realmente péssimo para a Grifinória se você precisasse estar preenchendo arquivos com Filch no próximo sábado, quando, oh, que horror, é a final da taça de Quadribol, e você, meu querido, é o apanhador do time. – Lily sorriu vitoriosa e James apenas bufou, derrotado. Sirius rolava de rir enquanto os outros amigos pareciam controlar as gargalhadas.

- Ouch, Pontas. Parece que ela realmente sabe como te dar o troco.

- Uma coisa que eu não compreendi, - James retomou o tom sério, tentando tirar o foco de si. – foi o porquê de ele ter feito aquilo. Pelo o que eu sempre entendi, vocês são amigos desde antes de Hogwarts, não é? – Lily assentiu, com a garganta apertada.

- Ele era meu vizinho e foi ele quem me disse pela primeira vez que eu era Bruxa. Foi ele quem me disse que eu era especial e não uma aberração. – Ela tentou lutar com as lágrimas, perdendo vergonhosamente. – É por isso que me dói tanto. Não me dói a palavra, de verdade. Eu sou Sangue-Ruim mesmo, o que pode-se fazer? – Os quatro garotos lhe lançaram olhares contestatórios. – Ora essa, não me olhem assim. Me chamar de Sangue-Ruim é a mesma coisa do que me chamar de Nascida-Trouxa. E é o que eu sou mesmo, não vou negar, não tenho sangue puro e não me importo com isso. – Ela respirou fundo, tentando encontrar forças para dizer o que ela tinha certeza mas não tinha coragem de aceitar ainda. – O que doeu, e acho que vai doer para sempre, é que no momento que ele me chamou de Sangue-Ruim, ele me colocou no mesmo lugar dos outros. Eu virei comum aos olhos dele. – Lily fungou e limpou as lágrimas dos olhos, abraçando os joelhos, então encontrou quatro pares de olhos preocupados e ao mesmo tempo confusos.

- Lily, eu sei que ele foi o seu primeiro amigo e coisa e tal, mas você não acha que está exagerando? Quero dizer, é só o Ranhoso. – James tentou consolar e recebeu um olhar fuzilante da ruiva.

- Como você se sentiria se Sirius te chamasse da coisa mais ofensiva do mundo bruxo em frente a todo o castelo? – Ela respondeu, magoada.

- Eu achei que você não se importasse com o insulto. – Remus respondeu perdidamente.

- Não é isso, será que vocês não entendem? ELE FOI EMBORA! – Lily se irritou e levantou-se do sofá, cruzando os braços e caminhando em círculos na sala comunal. – Eu o perdi. Para sempre.

- Como você sabe disso? – James se levantou e se aproximou dela, os olhos castanhos queimando. – Eu sempre tive a impressão de que ele gostava de você. – Ele engoliu em seco. – Mais do que como amigo, eu quero dizer.

- Você e todo o Vilarejo de Hogsmead, se quer saber. – Sirius adicionou zombeteiramente e se levantou, ficando ao lado de James. – Não sei por que, mas tem mais alguma coisa aí, - Ele perguntou, encarando temerosamente a garota em lágrimas à sua frente. – não tem Lily?

- Sim, Sirius, tem. – Ela respondeu, amarga. – E sim, Potter, não era segredo para ninguém que Severus gostava de mim. - Ela acrescentou, desta vez com a voz esganiçada. Com medo de mais uma tempestade de lágrimas, Remus e Peter se juntaram aos amigos. Ela apenas suspirou, deixando os braços caírem inertes ao seu lado. – Eu disse para ele que eu queria ficar com ele. De verdade. Ser um casal. – James ofegou e os quatro outros apenas arregalaram os olhos.

- Por essa eu não esperava. Golpe baixo o seu, não? – Sirius apenas sorriu e ela revirou os olhos.

- Eu o senti escorrendo pelos meus dedos e me agarrei à única coisa pela qual eu achava que ele ficaria. E ele me rejeitou. – Ela tentou dar um sorriso, mas tudo o que conseguiu foi projetar uma careta. – Eu segurei a sua mão e disse tudo o que eu sabia que ele gostaria de ouvir. Disse que largava tudo, que não me importava. Mas mesmo assim, ele me deixou.

- Tem três motivos para ele ter feito isso, se você quer saber. – James irrompeu inesperadamente, com os olhos um tanto quanto desfocados ao captar as ideias. – a primeira, é a mais óbvia e mais provável: ele é um idiota. Se importa com sangue puro e todas essas bobagens. Não consigo ver alguém que em santa consciência deixaria Lily FUCKING Evans, a Monitora-Chefe mais jovem de Hogwarts em 243 anos, primeira da classe desde o primeiro ano, que consegue fazer todos os feitiços requisitados pelos NOMS desde o terceiro,

- Sem falar nos lindos e sedosos cabelos ruivos... – Sirius acrescentou sonhadoramente e passando um dedo pelo cabelo de Lily.

- No corpo belo e longilíneo... – Disse Remus, gesticulando para as laterais dela.

- E nos grandes e luminosos olhos verdes, iguais às esmeraldas de Slytherin. – Concluiu Peter, abrindo e fechando as mãos sobre seus próprios olhos, como se fosse um pisca-pisca.

Lily não conseguiu deixar de rir. Ao ver que atingiram o objetivo, os quatro marotos sorriram largamente, e James parecia levemente ruborizado.

- Então Rabicho e Aluado, conseguimos imitar bem? – Sirius perguntou zombeteiramente em dúvida.

- É, acho que sim. – Respondeu Lupin, vagamente.

- Você tá brincando? Foi igual ao Pontas! Quase atingimos a mesma voz que ele faz. – Disse Peter, animadamente. Lily apenas revirou os olhos.

- Enfim, meus queridos marotos, - Retomou James, ainda ruborizado. – Eu não vejo alguém que largaria uma garota assim, vocês não concordam? – Os três assentiram. – Então, há a segunda opção: Ele não ficou com você porque ele te conhece. Se vocês são realmente amigos há tanto tempo, ele teria reconhecido se você estava mentindo ou não. E isso seria o suficiente. Mas ainda deixa a lacuna de: por que ele não quis continuar sendo seu amigo? Eu venho lutando por isso há anos, acredite. – Lily bufou em resposta.

- Seja menos arrogante, e eu vou pensar no seu caso.

- É É É, eu sei, sou arrogante, ridículo e imbecil, o único colega de Casa que você odeia. Todos sabemos disso. – Lily arqueou as sobrancelhas, tentando se lembrar de quando tinha falado isso para ele. Lembrava apenas de ter confessado isso para Severus, mas nunca para James. Como ele poderia saber disso?

- Nã-Não é bem assim... – Ela se sentiu rude por algo que nunca tinha falado a ele, e mesmo assim, ruborizou.

- Não tem problema. Já me acostumei, de todo modo. – Ele respondeu num dar de ombros. – Mas enfim, por Merlin, me pergunto quantas vezes eu vou repetir isso hoje para concluir um pensamento, há a terceira opção, que é a que eu julgo mais viável. Para uma pessoa normal, eu quero dizer. Mas como estamos falando do caso de Severus Snape, acho pouco provável. Ele sabe que é um idiota metido com as trevas, e sabe também que nunca vai desistir daquilo, então resolveu sair de perto de você antes que você se machucasse como dano colateral. – Ele encarou Lily significativamente, que se surpreendeu com o quanto podia sustentar aquele olhar. – E se você quer saber, eu o acho um idiota por fazer isso. Trocar você por magias quaisquer. Não que eu não achasse antes, não me entenda mal. Agora eu apenas acho Severus Snape, mais conhecido como Ranhoso, um coitado digno de pena. Porque ele tinha você na vida dele, e te jogou fora. – Ela assentiu e encolheu os ombros, como se tivesse sido acertada por algo.

- Escute, Lily. – Sirius começou, chegando perto dela, e colocando uma mão em seu ombro direito, afagando-o. – Eu sei que você disse que não se importa com o Sangue-Puro, e não tem porque se importar mesmo. Isso não quer dizer nada. Você é uma bruxa extraordinária, que vai fazer coisas extraordinárias pelo mundo bruxo, e não precisa de tataravós bruxos para fazer isso. – Ele estreitou os olhos por alguns instantes. – Se você quer saber, na casa dos meus pais tem uma jarra com o sangue do meu avô. Cada vez que um patriarca morre, alguém tira todo o sangue dele, não me pergunte como, e coloca-o em uma jarra enfeitiçada, até o próximo patriarca morrer e ter todo o seu sangue tirado. – Ele revirou os olhos e apertou o ombro de Lily. – O meu ponto é: isso é doentio! E ainda se ORGULHAM. Que tipo de gente faz isso? – Ele acrescentou revoltosamente. – E são todos Sangue-Puros. – Seus lábios se contorceram ao falar a palavra, como se ela lhe causasse nojo. – Como se ter uma linhagem de bruxos de mais de 1000 anos fosse uma explicação para fazer coisas absurdas. Eu prefiro muito mais ter gente como você, nascida trouxa, o Pontas aqui, filho de um aborto, ou o Aluado, que é um Lobisomem, perto de mim, do que aqueles lunáticos. – Ele respirou fundo, assustado com o próprio desabafo. Lily deu um passo em sua direção e colocou a mão esquerda em seu braço, com um sorriso calmo no rosto.

- Está tudo bem. Você pode contar com a gente, e sabe disso. – Ela afagou o seu braço mais uma vez, e encarou-o profundamente. – Se você precisar de algum dia longe da jarra de sangue ou de quaisquer outras bizarrices que tenham na sua casa, pode ir passar uns dias na minha. Às vezes, algum tempo fazendo apenas atividades trouxas, como assistir televisão ou ir a um parque de diversões, pode trazer um esquecimento dos problemas.

- O que diabos é um parque de diversões? – Perguntou Peter em um tom de assombro, mas ninguém lhe respondeu.

- Obrigado. – Sirius lhe respondeu com um sorriso significativo. Então, deu um passo para trás. – Só não fique triste, meu caro Pontas, se eu fizer essa pequena viagem até a casa da nossa pequena Malagueta aqui, certamente te levarei junto. – Sirius deu um sorriso zombeteiro e acotovelou o amigo. Lily apenas revirou os olhos.

- E, Lily, talvez essa tenha sido a hora para Snape ir embora. – O tom de rato a sobressaltou. Dessa vez era Peter quem falava e ela não esperava que ele também fosse dar conselhos. – Eu quero dizer, o Ranhoso está claramente envolvido com Artes das Trevas, não? – Todos assentiram. – Então é melhor você ficar longe mesmo. Nunca sabemos o que essas coisas podem realmente fazer. Por agora, apenas tiraram o seu melhor amigo, mas e depois? Quando ele estivesse muito enterrado e você ainda ligada nele, não podendo se excluir? Talvez seja para o melhor vocês se separarem agora. – Peter concluiu e antes que Lily percebesse, estava com o rosto cheio de lágrimas que não pudera controlar perante às sensíveis opiniões de Peter. – Oh Merlin, me desculpe, Lily, você está chorando? O que foi que eu falei? – Peter se desesperou a sua volta e ela lançou a ele um sorriso cansado.

- Está tudo bem. Você não falou nada de errado. – Ela suspirou. – Mas é que continua sendo difícil. É como se eu tivesse perdido quase uma parte de mim. E não fui eu que não quis, foi ele quem disse adeus. Tudo isso porque aparentemente eu não me encaixo mais como amiga dele. É quase como ter que olhar Petunia me odiar todos os dias das minhas férias. – Uma risada amargurada saiu pelos seus lábios. – A única diferença é que antigamente eu tinha para onde correr do ódio inexplicável da minha irmã. – Ela se sentou no chão e abraçou os joelhos, chorando sobre as pernas. – Vocês sabem o que ele me disse uma vez, quando éramos crianças? Logo antes de entrar para Hogwarts eu perguntei se fazia alguma diferença ser nascida-trouxa, e ele olhou nos meus olhos e disse que não fazia diferença alguma.

- Que idiota. – James se sentou ao lado dela e colocou a mão sobre seu joelho esquerdo. – É óbvio que faz diferença. – Os três amigos o observavam atônitos, enquanto Lily apenas lançou a ele um olhar interessado. – Ele obviamente está errado. Você é ótima porque você é Nascida-Trouxa. Ou S-Sangue-Ruim se preferir. Isso mostra o quanto você é especial para ser comum. Para ser como sua irmã. – Ele sorriu e limpou uma lágrima que insistia em escorrer dos olhos confusos dela. – Você não entende? Deixa eu te explicar. Por alguma razão mística, e você tem que reconhecer que há uma bela mágica aí, você nasceu bruxa. Você, a irmã mais bonita e mais inteligente da casa. A mais bondosa e com mais paixão por tudo o que faz. Não é você que merece o mundo bruxo, porque você se daria tão bem no mundo trouxa. É o mundo bruxo que precisa de você, Lily. De outra maneira, isso tudo, - Ele gesticulou para o seu redor – não seria tão brilhante sem você. Hogwarts não seria a mesma sem você. Ser Sangue-Ruim, Lily, é a melhor coisa que te aconteceu. Isso significa que você era especial demais para ser apenas trouxa. Não que ser trouxa seja algo ruim, não me entenda mal. Mas é que você era demais para estar lá fora. Você tinha que vir para cá. – Lily fungou mais uma vez e ele tocou na mão dela mais próxima por alguns segundos e afastou-a, incerto do que poderia acontecer se transpassasse os limites. Então, ela vencendo todos os seus preconceitos e todos os seus instintos, que gritavam para ela ficar o mais longe possível daquele garoto arrogante, ridículo e imbecil, ela venceu a distância e segurou a mão dele, olhando profundamente em seus olhos.

- Obrigado, de verdade. Por tudo o que você fez hoje de noite. – Então algo estranho aconteceu. Os dois pares de olhos, que durante cinco anos raramente se encontraram, entraram em uma conexão estranha, que nunca nem James e nem Lily tinham experimentado. Era como um choque entre o verde e o castanho e que ao mesmo tempo fundia os pensamentos e sentimentos dos dois, fazendo-os um só. Consciente de que estavam em público e em uma situação constrangedora, Lily virou o rosto imediatamente, e limpou as bochechas úmidas, levantando-se rapidamente, seguida por James, que também parecia desconcertado, e fitou calmamente cada um daqueles rostos, agora queridos, que tinham lhe consolado naquela sombria noite de primavera. – Obrigado por tudo, rapazes.

- Lembre-se sempre que nós temos muito orgulho de você, Lily. Você é, realmente, uma das mais brilhantes bruxas da nossa idade. Sendo que você tem só 15 anos. – Disse Lupin, sorrindo com os seus olhos azuis paternais.

- Eu posso dizer o mesmo de você. – Ela sorriu de volta para o colega de monitoria. – Você é ótimo, e nunca se importe com o que os outros digam. – Ela suspirou. - Você pode confiar em uma pessoa por tanto tempo e mesmo assim ela te decepcionar.

- Isso faz dela uma idiota, se você quer saber. – Sirius retorquiu, estranhamente zombeteiro. – Mesmo que seja do seu próprio sangue. – Ele sorriu mais abertamente para Lily. – E é por essas e outras que eu não consigo confiar nessa baboseira de sangue. Apenas seja quem você é, e, no seu caso, minha querida Malagueta, é uma bruxa e tanto.

- Obrigado, Sirius. E se você quer saber, acho você muito melhor do que o seu irmão. É melhor no Quadribol e...

- Sem nem comentar a beleza, por favor. – Sirius revirou os olhos e passou a mão lentamente pelos seus cabelos ondulados.

- Eu ia falar em desempenho escolar, mas você me cortou... – Ela sorriu com uma sobrancelha levantada e ele gargalhou.

- Isso serve também.

- Ora Almofadinhas, finalmente conseguimos trazer a Lily para o nosso lado e você já quer afastá-la? – Peter indagou e piscou um olho para Lily. – Pontas não vai gostar disso. – Ela sorriu e ele retribuiu. – Esquece esse idiota. Conte com a gente, garanto que somos amigos muito melhores.

- Absolutamente. – James acrescentou com um sorriso e aproximou-se dela mais uma vez, secando a área embaixo dos olhos dela, que insistia em ficar molhada. – Se você quiser, podemos até promover você à Marota Honorária. Não precisa participar de tudo o que fazemos, mas sempre que quiser sair um pouco da linha, terá a nossa ajuda incondicional. – Ele sorriu sugestivamente para ela, e ela não pôde deixar de rir.

- Por Merlin, não! O que iam achar de uma monitora fazendo marotagens com os quatro garotos mais bagunceiros da escola? – Ela fingiu estar ultrajada e Lupin ergueu uma sobrancelha.

- Digamos que o corpo discente já está acostumado com esse tipo de atitude. – James sorriu e piscou para ela. – Agora é sério, Evans. O Ranhoso, – Ela fez uma careta, mas não objetou. – está bem, o Snape, - Ele corrigiu em uma voz contrariada e ela sorriu para ele. – não merece ser seu amigo. Você fez praticamente tudo que estava em seu alcance para salvá-lo, para trazê-lo de volta para você. Mas não conseguiu, e eu não te culpo por nenhuma atitude impensada que você tenha tomado hoje. A questão é: ele não mediu esforços para te humilhar publicamente. Ele não quis você. – Lily baixou a cabeça, assentindo, e James se aproximou, passando uma mão pelas costas dela. – Eu não quis... Dizer isso. Não é que você não seja desejável, mas é que por mais que ele gostasse de você, ou até mesmo te amasse, ele preferiu fazer o que quer que ele esteja fazendo com as marionetes de Você-Sabe-Quem do que ficar ao seu lado. – Ele entrelaçou os ombros dela com o braço livre e, quase que por instinto, a abraçou fortemente, e ela, como se conhecesse aqueles braços a sua vida toda, aceitou-o, e encostou a cabeça no seu peito, deixando as derradeiras lágrimas rolarem. Em seguida, sentiu a cabeça de James se movimentar, e então, outros três diferentes pares de braços a circundaram, como se a segurassem para não cair. Ficou ali por alguns instantes, notando como a aura dos quatro garotos era morna e irresistível, enquanto a de Snape sempre fora um tanto gelada e espaçosa. Odiava pensar assim do seu melhor amigo, mas ali, na sala comunal, ser abraçada por garotos que a aceitavam completamente e não a julgavam pelo seu sangue, parecia que ela nunca pertencera ao mundo em que Severus Snape vivia.

Depois de alguns instantes abraçados, a voz cadente e brincalhona de Sirius os afastou.

- Está bem, Marotos. Acho que vamos querer dar um espacinho para Lily respirar. – Sirius bateu levemente nos ombros dos amigos, que foram lentamente soltando Lily, porém James ainda mantinha o olhar preocupado e um braço em seu ombro, com medo de que ela fosse desabar novamente. – Está tudo bem, Pontas. Nossa Malagueta aqui é uma menina crescida e vai ficar bem, não é?

- Exatamente. – Lily sorriu sinceramente para os quatro rostos afáveis que ainda a observavam. – Vai ficar tudo bem. Eu só preciso de um tempo, para sabe, me acostumar. – Ela olhou para James mais profundamente e este tirou a mão de seu ombro, com um suspiro. – Obrigado, garotos. Ou melhor, obrigado, Marotos. - Ela tentou colocar o máximo possível de significado naquelas palavras. Vocês me ajudaram muito hoje, e eu serei eternamente grata a isto.

- Desde que se lembre disso da próxima vez que nos vir enfeitiçando os balaços contra a Sonserina e fingir que não notou nada, ficaremos extremamente agradecidos. – Sirius sorriu inocentemente e ela revirou os olhos.

- Pode deixar. Agora eu vou dormir, estou muito cansada e deve ser muito tarde. – Lily se encaminhou à escada que levava ao dormitório feminino. - Acho que temos que agradecer que amanhã é sábado.

- Durma até quando precisar. – Remus disse. - Não se preocupe se perder o café da manhã.

- Traremos alguma coisa para você e deixaremos aqui na sala comunal. – Peter adicionou.

- Eu não quero nem saber como vocês conseguiriam isso. - Ela revirou os olhos e lançou beijos aos quatro meninos. – Boa noite para vocês.

- Lily! – A voz urgente de James a chamou e ela se virou instintivamente.

- Sim? – Os olhos dele pareciam nervosos e o rosto ruborizado, então ele passou uma mão nervosa pelo cabelo, bagunçando-o.

- Eu realmente gostei do seu cabelo novo. – Lily sentiu o calor subindo pelo seu pescoço e enrubesceu antes que pudesse fazer alguma coisa contra isso.

- Obrigado. – Ela sorriu de volta pra ele e viu que ele estava tão embaraçado quanto ela. JAMES POTTER ENVERGONHADO? Esse mundo deve estar acabando mesmo. – Digamos que eu enjoei de ter o mesmo cabelo há 15 anos. – Ela sorriu timidamente e tomou o rumo das escadas, mas foi tomada por uma loucura súbita e se virou para ele mais uma vez. – Pot-James? – Ele, que já estava conversando em voz baixa com Sirius, virou-se surpreso para a garota.

- Sim? – Ele perguntou incerto.

- Você prefere antes ou agora? – Ele pareceu confuso com a pergunta. – O meu cabelo. Você prefere como sempre foi ou como está cortado agora? – Ela olhou esperançosa para ele e ele fechou as sobrancelhas. – Não ouse mentir para mim. – Ela sustentou o olhar austero por mais alguns momentos e ele suspirou, passando a mão mais nervosamente pelo cabelo.

- Sinceramente? – Ele ficou sério por alguns segundos, depois sorrindo abertamente para ela. – Assim está bem melhor. Não que algum dia tenha sido feio, mas... Assim você fica ainda mais bonita, se é que isso é possível. – Ela sorriu radiantemente para ele, toda a vergonha fugindo, deixando apenas uma leve alegria lisonjeada. – Não acham, marotos?

- Com certeza. – Sirius falou rapidamente. – Não é querer dar concorrência ao Pontas, mas você está absolutamente fantástica com esse cabelo.

- Eu não poderia concordar mais. – Respondeu Remus, com o maldito sorriso paternal no rosto.

- E quem seria eu para discordar? – Questionou Peter, com um leve sorriso nos lábios.

- Obrigado garotos. – Lily sorriu amplamente, realmente satisfeita com as respostas que obtivera. – Boa noite. – Lançou um último olhar a todos os rostos, agora estranhamente amigos, e parou no último par de olhos, os castanho-esverdeados, parcialmente oculto por óculos redondos. E de novo, aquela conexão estranha aconteceu, e era como se, apenas por aquele olhar, ele pudesse dizer o quanto ele se importava com ela, e ao mesmo tempo como não importavam coisas idiotas como um corte de cabelo ou a linhagem sanguínea, ela seria sempre especial para ele. Tudo o que ambos conseguiram fazer foi lançar um sorriso tímido um ao outro.

- Boa noite, Lily. – James respondeu simplesmente, com um leve piscar de olhos.