CAPÍTULO 02 – DEAR MISS KOTLER

Subúrbio de Londres, Inglaterra.

Cada vez mais em pânico, Lutessa Kotler olhou-se no espelho enquanto a criada amarrava-lhe a faixa na cintura. Logo deixariam o quarto de toalete das damas e seria tarde demais. Por que jamais havia dinheiro suficiente?

― Não posso fazer isso, mamãe. A senhora disse que não temos escolha, mas não posso!

― Pode sim e o fará. Você é a única coisa que me resta e eu não morrerei na miséria ― respondeu a mãe no tom irritado que Tessa se habituara nas duas últimas semanas.

Não confiando na voz, ela assentiu com um gesto de cabeça. Caso chorasse, os olhos ficariam vermelhos e nenhum cavalheiro haveria de querê-la. Mas que cavalheiro se interessaria por ela vestida dessa forma? O vestido de seda estampada, um dos velhos da mãe e reformado para ela, deixava-lhe expostos os seios mal formados ainda. Apenas uma estola de gaze disfarçava o rosado escuro dos mamilos. O espartilho apertado dificultava a respiração e os pés doíam apertados nos sapatos bicudos e de salto alto que deveriam emprestar graciosidade aos passos.

O cabelo ruivo, liso e sedoso, estava preso em caracóis ajeitados à custa de água açucarada. Tessa tinha proibição de tocar o penteado rígido. As jóias - reluzentes de encontro à pele alva eram tão falsas quanto o resto, especialmente o rosado das faces à base de carmim e os círculos de kohl preto à volta dos olhos. Teve de lutar contra a vontade renovada de chorar. Ela lembrava uma boneca barata de cera a quem ninguém daria valor e, muito menos, amor e carinho. Nem mesmo a mãe se lembrava de que ela, hoje, completava quatorze anos.

Angelina Kotler segurou o braço da filha e também olhou no espelho. A semelhança entre ambas era óbvia, mas apenas nos ossos molares altos e nos olhos azuis. A enfermidade, que logo ceifaria a vida da mãe de Lutessa, a tinha deixado com as faces encovadas. Nem o cabelo tingido de preto disfarçava o desgaste físico. A vida desperdiçada de Angelina, uma cipriota sempre dependente dos favores de cavalheiros, há muito havia destruído o encanto inocente como o da filha.

― Você está muito alta e magra, Tessa! ― começou, mas foi interrompida pela tosse. Levou o lenço de renda à boca e, depois, guardou-o depressa na bolsinha, mas não a tempo de Tessa não ver a mancha de sangue. ― Veja só, bem mais alta do que eu. Foi tolice minha desperdiçar dinheiro durante esses anos todos para mantê-la no campo.

Com grandes saudades, Tessa lembrou-se da casa com telhado de sapé, em Hampshire, onde havia morado até o mês anterior. Sentia falta da Sra. Thompson que a tratava como se fosse um dos filhos, dos campos ensolarados, do leite fresco, das frutas e até dos gatos no estábulo. Lembrou-se também das fantasias criadas sobre os pais. Ele, um atraente oficial do exército, morto na defesa do país, mas antes de poder se casar com a mãe, a bondosa e linda senhora em Londres. Todos os meses, ela enviava dinheiro para seu sustento e prometia ir buscá-la tão logo as circunstancias permitissem.

Fantasia linda que a embalara noites a fio e tão distante da realidade da mulher gananciosa e paupérrima a seu lado. Angelina havia ido buscá-la, de fato, mas não para proporcionar-lhe a vida familiar sonhada. Não. Nos quartos miseráveis onde a mãe morava agora e cujas peças de valor tinham sido vendidas para comprar alimento e remédios, não havia um mínimo de afetividade. Mais uma vez, os olhos de Tessa encheram-se de lágrimas.

― Nada de choro, menina. Sir Elliott a quer para aliviar os próprios problemas e não para sobrecarregar-se com os seus ― advertiu Angelina.

― Não precisamos viver dessa forma, mamãe. Sei costurar muito bem e poderia trabalhar para uma modista.

― O quê? Desperdiçar o único dom dado por Deus? Seu rosto é sua fortuna e, com ele, você poderá ganhar mais dinheiro em uma semana do que uma costureira conseguiria em vinte anos ― afirmou a mãe rindo com amargura.

― Mas mamãe...

― Não me contradiga, menina tola. Você é tudo que tenho. Preciso lançá-la à nova vida enquanto posso. Se você conseguir agradar sir Elliott Wright esta noite, ele a tratará bem, muito mais do que merece.

Firmando os dedos no braço da filha, conduziu-a rumo ao salão.

A entrada, Tessa recuou. Para ela o aposento tinha uma aparência faustosa demais, com a pintura dourada, uma infinidade de espelhos e de velas. Os grupos de mulheres lindas e de homens elegantes a apavoraram. Todos gesticulavam muito, falavam e riam tão alto a ponto de quase abafar a música. Não importavam os argumentos da mãe, ali não era seu lugar.

― Ai, mamãe, não vamos entrar, por favor ― suplicou.

― Quieta. Não me envergonhe. Já não podemos voltar atrás. Você precisa tirar proveito de sua beleza e de sua juventude, Tessa. Reze para que isso seja suficiente para sir Elliott.

Se não fossem os dedos firmes da mãe no braço, Tessa teria fugido correndo. Sentia os olhares curiosos das pessoas envolvendo-a e, embora fosse jovem, não era tola. Ao entrar no salão, sua inocência e bom nome estariam perdidos. Esta seria a pior noite de sua vida e rezava para ter forças a fim de sobrevivê-la.

A seu lado, Angelina distribuía cumprimentos num tom de voz agradável e afetuoso, jamais usado com a filha.

― Então, esta é a sua menina valiosa? ― perguntou um homem em voz ansiosa, deixando Tessa petrificada. ― Por Deus, Angelina, ela é uma belezinha, mais do que você disse. Venha cá, mocinha, não precisa se sentir acanhada. Quero olhá-la bem.

De maneira rude, segurou o queixo de Tessa e a forçou a fitá-lo. Ele era velho, com rosto enrugado e de expressão vulgar. Os olhos quase desapareciam nas dobras da pele e, quando ria, mostrava uns poucos dentes escurecidos pelo uso contínuo de tabaco. Embora as roupas fossem caras, não disfarçavam a obesidade do corpo. Ela havia sido vendida para este homem. Teria de compartilhar sua cama e entregar-lhe o corpo de boa vontade.

Que Deus a ajudasse, mas jamais faria isso. Não conseguiria. Com um soluço, puxou o rosto e recuou. Sir Elliott e Angelina não esconderam um grande aborrecimento.

― Temores de mocinha, meu senhor ― garantiu a mãe segurando Tessa pelos ombros a fim de impedi-la a se afastar mais. ― Eu lhe disse que ela chegou do campo há apenas duas semanas.

― Só duas? Então, jura que ainda é virgem? ― indagou ele com um repulsivo olhar de luxúria.

― Nunca foi tocada por homem algum, meu senhor. Nem mesmo beijada ― disse Angelina lutando para não tossir.

― Nesse caso, vamos comigo, mocinha. Eu lhe ensinarei tudo que precisar saber.

Passando o braço por sua cintura, sir Elliott puxou-a para mais perto e Tessa, retorcendo-se, lançou um último olhar para a mãe. Viu-a apertar o lenço manchado de sangue na boca, a pluma no seu cabelo balançando um pouco acima do rosto de expressão indiferente.

A música e o vozerio continuavam enquanto sir Elliott puxava Tessa rumo às portas para o jardim. Deus do céu, o homem pretendia ficar a sós com ela já. Nem esperaria levá-la para casa. Tentou esquivar-se, mas prendeu o salto do sapato na bainha da saia e, com um gritinho, caiu para frente.

Praguejando, ele a forçou a erguer-se.

― Vamos embora, menina. Vivacidade numa mulher é uma coisa, desafio, outra bem diferente. A não ser que esteja brincando. Já sei. Você se faz de mocinha rebelde e eu a corrijo, não é?

Com olhar desesperado, Tessa o encarou.

― Não, senhor, me perdoe. Não foi minha intenção fazer brincadeira alguma com o senhor.

De maneira inesperada, sir Elliott torceu-lhe o pulso fazendo-a gemer de dor.

― Vamos brincar o tempo todo, não é, minha gatinha?

― Solte a menina, Wright ― soou uma voz grave e suave atrás deles e Tessa, ainda com o coração disparado pelo medo, virou-se para ver quem a defendia.

De aspecto taciturno, alto, forte e imponente... Ele parecia um herói. E aos olhos de Tessa, ele merecia todas as ordens de Merlim disponíveis.

― Não creio que ela queira sua companhia por nem mais um minuto.

― O que ela quer não interessa, Snape. É a filha de Angelina e comprei seus serviços da própria mãe ― resmungou sir Elliott.

O homem grisalho franziu a testa.

― A própria mãe lhe vendeu a filha?

― Isso mesmo. Angelina executou uma transação digna de um agiota. Paguei uma soma exorbitante por esta rameirazinha virgem.

― Ora, se é virgem, não pode ser uma rameira ainda. Pelo que vejo, ela é muito novinha para qualquer atividade venal. Desde quando passou a preferir crianças, Wright?

― Desde a semana do Natal passado em Gloucester, com aquela atriz infernal. A maldita me deixou com a sífilis francesa. Até um puritano sabe que a única cura se consegue deitando-se com uma virgem. Para ter certeza, o jeito é arranjar uma meninota.

Incrédulo, Snape encarou o outro.

― Você tem coragem de, em sã consciência, passar sua doença a ela na esperança vã de se curar?

― Ela será muito bem paga pela amolação.

― Não vou permitir que faça isso, Wright. Não importa o quanto você pagou à mãe desta moça. Passe amanhã em minha casa e eu lhe devolverei a quantia paga em dobro.

― Vá para o inferno com sua interferência, Snape. Quero a menina e não o dinheiro.

― Dou-lhe o triplo e você poderá procurar um novo médico. Onde já se viu pôr preço numa alma inocente?

Com um sorriso, Snape estendeu a mão para Tessa.

― Pronto, menina. Você vai para casa comigo e eu juro que ninguém jamais a tocará contra sua vontade.

Finalmente, Tessa chorou.

sSsSsSs

Prometo que no final de semana atualizarei "Amor por conveniência" (capítulo final). Escrever desfechos me deixa tensa devido o tamanho de tal responsabilidade, por isso preferi "desanuviar" a cabeça com a nova fic. Beijos mil, Madi.