******************************************cap 3**************************************************
Naquele dia Afrodite levantou mais cedo que o de costume. Estava decidido a passá-lo cuidando de suas rosas, lendo e no fim da noite comendo uma caprichada Skordalia. Era Dia dos Namorados e Peixes sofria com uma dúvida que corroía sua alma. Queria muito escrever para Camus, mas depois de declarar-se e não obter resposta, pensava que deveria deixa-lo em paz. Por isso passou o dia todo angustiado.
Ao entardecer, foi à vila comprar ingredientes para seu jantar solitário e quando voltava ao Santuário a mesma cena se repetia, como em todos os anos! Os casais consolidaram-se e agora cartões, flores e encontros eram comuns não somente no Dia dos Namorados. Porém não para Afrodite. Agora era o cavaleiro de Peixes, tinha plena consciência que jamais amaria alguém como amava Camus e se não era correspondido iria dedicar-se à sua missão como cavaleiro, deixando o amor para aqueles que tiveram a sorte de serem amados também.
Sendo assim, subiu até a décima segunda casa resignado. Mas quando chegou um mensageiro esperava-o em posição de guarda na entrada. Trazia consigo um pacotinho embrulhado em papel pardo e preso com laço de fita vermelha.
Afrodite olhou para o homem uniformizado em vestes gregas e depois para o pacote em sua mão.
— Olá. Posso ajudá-lo? – disse o pisciano cordialmente.
— Correspondência para o senhor, senhor Afrodite! Vim apenas entregar. – respondeu o homem entregando-lhe o pacote.
Quando ouviu aquilo o coração de Afrodite pareceu falhar. Olhou para homem e então olhou para o pacote novamente. Seu peito estava apertado. Nunca recebia correspondências, somente informandos e convocações por escrito do Grande Mestre.
— Correspondência? – disse confuso pegando o pacote. O laço de fita vermelha o intrigava. Seria algum admirador secreto? Porém mal saia de casa!
— Sim senhor! Chegou hoje após o almoço.
— Obrigado! Pode ir! Tenha uma boa noite. – disse Peixes, dispensando o mensageiro que logo saiu.
Ansioso e muito curioso, Afrodite entrou às pressas. Deixou as compras sobre a mesa e ainda de pé desfez o laço vermelho rapidamente, abrindo o embrulho. Porém, para sua surpresa e assombro, de dentro do pacote, como se possuíssem luz própria e iluminassem o rosto belo do pisciano, surgiram as cartas de Camus! Cartas estas que o aquariano escrevera em resposta, mas nunca tivera a oportunidade de enviar.
Assim que Afrodite olhou para elas, colocadas em ordem de datas uma sobre a outra, imediatamente reconheceu a letra do aquariano! Sua reação foi instantânea! Levou ambas as mãos à boca dando um passo para trás. Incrédulos, seu belos olhos azuis fitavam marejados aqueles envelopes. Suas mãos tremiam e só conseguiu tocá-las minutos depois.
Com muito cuidado, como se manejasse um objeto delicado e de valor inestimável, o pisciano apanhou aquele montinho de cartas e aos prantos caminhou devagar até a sala, onde sentou-se numa poltrona vermelha que ficava ao lado de um abajur sueco antigo. Emocionado, vislumbrava envelope por envelope, que no total eram quatro e cujas datas correspondiam aos anos em que escrevera ao amigo. Finalmente a resposta tão esperada de Camus viera, embrulhada como presente de Dia dos Namorados.
Temeroso pelo conteúdo das cartas e curioso por chegarem todas juntas, ainda que emocionadíssimo ao tê-las finalmente em mãos, Afrodite pegou a primeira, de cinco anos atrás, enquanto as outras ficaram bem protegidas em seu colo. Abriu o envelope e de coração agitado e garganta dolorida, começou a ler entre sorrisos, lágrimas e muita emoção.
"Querido Afrodite,
Desculpo-me pela demora em responder-lhe. Onde vivo não chegam cartas. O endereço que passei é de uma caixa postal a muitos quilômetros daqui e meu tutor só vai até lá a cada três meses. Somando o tempo de envio, li sua carta cinco meses depois que enviou.
Aqui esta bem frio! (Isso foi uma piada) Enfim, moro numa cabana simples e isolada. Meus dias monótonos resumem-se a treinos e afazeres básicos para sobrevivência. Eu mesmo caço minha comida, providencio lenha e costuro minhas roupas com peles curtidas. É meu amigo, voltei à época das cavernas! Vai á Groelândia? Dica: Leve protetores labiais! Meus lábios racharam tanto com o frio que mal conseguia comer nos primeiros dias.
Não tem problema escrever-me no Dia dos Namorados. Contanto que me escreva! Aqui é muito solitário. Tenho apenas meu tutor por companhia. Não posso ir à vila e devo ficar em isolamento até o fim do treinamento, ou seja, sua carta foi um sopro quente nesse deserto gelado.
Ri imaginando Máscara da Morte todo arrumadinho. E o Milo? Muito "ele" esquecer o presente! Quanto ao Shaka e ao Mu, suspeito! Mu é um santo! Apenas ele seria capaz de aguentar tamanha arrogância. Alegra-me seu tutor estar bem! Gostava muito dos bolos que fazia para nós.
Queria muito estar contigo para rirmos juntos das trapalhadas do Milo, do Máscara engomadinho... Ver a vila enfeitada… Aqui tudo é tão branco! Vazio! Quanto a rir de mim, saiba que me sai muito bem quando convidei um pinguim para um jantar romântico! (Nossa que piada horrível! Aqui nem tem pinguins)
Despeço-me aqui, pois o papel chegou ao fim e não tenho outra vela agora. Não sei quando conseguirei enviar-lhe essa carta. Como disse, não posso sair do isolamento e sequer sei onde comprar um envelope, mas tentarei providenciar uma maneira para que ela chegue até você.
Sinto muito a sua falta...
Camus
PS.: Obrigado por cuidar do meu templo."
Terminada a leitura, Afrodite tinha uma expressão terna e doce no rosto. Várias vezes precisou parar para enxugar os olhos. Ria, chorava, parecendo conversar com as palavras no papel, mas ateve-se mesmo à ultima frase: "Sinto muito sua falta...". Era bom saber que o amigo sentia sua falta. Abrandecido, Afrodite beijou o papel guardando-o no envelope como se fosse uma jóia preciosa e colocou embaixo do monte. Sem conter a ansiedade ainda furiosa dentro de si, abriu logo a segunda carta começando a desenhar as palavras com os olhos.
"Meu querido amigo Afrodite,
Antes de tudo gostaria de desculpar-me. Não consigo enviar-lhe minhas cartas pelos seguintes motivos: Na vila meu tutor informou-me não haver correios, envelopes, selos, nada! Apenas recebem correspondências, porque um viajante faz o favor de passar e deixá-las na hospedaria, no intervalo de alguns meses. Para enviar-lhe uma, precisaria caminhar 290km no gelo até a outra vila maior. A questão é que meu tutor já é um idoso e não tenho coragem de pedir-lhe que ande quase 600km, ida e volta, apenas para enviar minha carta. Ele verdadeiramente nem conseguiria. Portanto, não sei se conseguirei enviar-te as respostas, mas prometo sempre escrevê-las.
Achei excelente saber que Mu e Shaka estão namorando! Nada mais natural que o amor surgir entre bons amigos. Quem sabe assim, Shaka se torne menos chato. Quanto a mim, estou bem! O treinamento é muito difícil, rigoroso, mas avanço cada vez mais. Perguntou-me sobre amigos? Bom, acho que arranjei um! Sério! É um urso polar! Não ria, é verdade! Toda vez que vou caçar, vejo-o me observando de longe, então comecei a alguns meses deixar-lhe pedaços de carne. Dito e feito! Agora fica sempre rondando-me, esperando por comida. Tem até cercado a cabana me seguindo, para completo desespero do meu tutor, que morre de medo! Mas é um bom urso! Espero que consiga aproximar-me mais dele. Viu ao ponto que cheguei? Minha solidão e isolamento é tamanha que de homem das cavernas estou tornando-me um selvagem domador de feras.
Disse sentir minha falta. Ah, querido Afrodite, não mais do que sinto a sua! Esse ultimo ano peguei-me relendo sua carta milhares de vezes. Cheguei a decorar as linhas! Perdi a conta de quantas noites dormi com ela junto ao peito. Por isso, peço: Mesmo que não consiga responder-te, não me esqueça! Escreva-me! Escreva-me mais e sempre!
Não imagina a alegria que senti quando recebi a ultima. Quase estraguei-a em meu desespero para abrir o envelope. Cheirei a pétala que mandou e confesso que chorei! Ela tem seu cheiro!
Nunca senti tanto sua falta como naquele momento. Tão perto, mas tão longe! Perdoe-me, manchei o papel, mas como não tenho muitos deverá ficar assim mesmo. Por favor, perdoe-me por causar-te esse sofrimento por não conseguir enviar as respostas. Prometo entregá-las todas um dia.
Esta carta também não está das melhores. Creio que me perdi em algum momento. Porém quero apenas que saiba: Eu também sinto MUITO sua falta. Até de dar-lhe broncas! Enfim acho que é isso.
Feliz Dia dos Namorados para você também. Apesar de meses depois e eu nem saber quando lerá minha resposta.
Com muitas saudades,
Camus.
Ps.: Obrigado pelo gato. Espero que seja manso, pois dormirá comigo quando eu voltar.
Ao termino da leitura, Afrodite chorava baixinho, enxugando os olhos com a barra da túnica grega que usava. Saber que Camus não lhe respondia as cartas por pura questão de logística foi um refrigério para sua alma aflita.
Quando leu nas linhas meio borradas Camus dizer que o amor é um sentimento que pode perfeitamente nascer de maneira natural entre bons amigos, Peixes sentiu seu coração palpitar mais vigorosamente. Riu da história do urso polar e sentiu-se querido por saber que o amigo relera a primeira carta até decorá-la. Em meio a lágrimas passou o dedo indicador em cima dos borrões de tinta, causados pelas lágrimas do aquariano e só depois de suspirar algumas vezes e se acalmar foi que conseguiu abrir a terceira carta.
"Aphrodite, ma belle rose,
Nunca pensei que um pedaço de papel pudesse trazer tanta alegria e dor. Esperei ansioso por sua carta, mesmo sabendo que poderia não enviá-las mais, já que não consigo lhe responder. No Dia dos Namorados, me peguei lendo suas cartas antigas e novamente cheirando e tocando a pétala perfumada que tem seu cheiro. Desde então aguardava ansioso os dias, semanas e meses passarem, na espera angustiante e dolorosa de receber uma carta sua. Enfim, quatro meses depois eu tinha em minhas mãos o que tanto esperei!
Confesso que a abri com um sorriso enorme. Li as primeiras linhas apressado e com o coração aos pulos. Porém, a cada palavra que lia meu peito doía mais. Até que me senti entregue à tristeza e à dor.
Afrodite, quando o beijou… era em mim que você pensava? Diga que sim! Diga que eram meus lábios que você desejava estar beijando. S'il vous plaît! Diga que era comigo que gostaria de passear na praia de mãos dadas, porque... eu amo você.
Je t'aime mon cher! Meu coração sangra em saber que outro o tocou, sendo que era eu quem deveria beijá-lo. Oh deuses! Quando li sua carta quase larguei tudo e corri como o vento para te tomar em meus braços, te dizer que a muito eu não consigo mais pensar em nada, a não ser em você! Em sua companhia! Passo os dias agora a treinar incansavelmente para abreviar meu retorno, antes que mais alguém roube os beijos e os toques que são meus, antes que eu o perca! Os dias já não são mais claros. As noites cada vez mais escuras e frias e tudo que consigo fazer é desejá-lo! Não como um amigo, mas como meu companheiro, meu amante... mon amour!
S'il vous plaît, me espere! Me espere Afrodite! Está quase acabando. Só mais um pouco e eu… eu, merde!
Desculpe meu descontrole. Não consigo mais escrever. Minha mão treme, meus olhos embaçam pelas lagrimas e já não digo coisa com coisa.
Eu vou dar um jeito de enviar as cartas. Eu não sei como mas eu vou! Por favor, me espere. Só isso que te peço.
Com todo amor que eu possuo,
Camus
Ps.: Sim, Afrodite. O tempo agora é nosso inimigo e eu luto a cada instante contra ele, mas por favor, não me abandone. Não me esqueça. Cuide do meu Templo, pois quando retornar quero passar dias inteiros trancafiado nele com você e nosso gato.
"Ma belle rose"! Quando leu essa introdução, Afrodite sorriu. Nem o beijo quente e cheio de desejo do rapaz da vila tinha exercido tamanho fascínio e encantamento em si quanto aquelas três curtas palavrinhas escritas em tinta azul. Ficou com os olhos congelados nelas por longos minutos e só depois conseguiu continuar a leitura, que logo no início já o intrigara, pois Camus dizia que aquela carta lhe trouxera alegria e dor.
Quando Afrodite soube o motivo da dor, explicitado na pergunta que o francês fizera na carta, sentiu o ar lhe faltar. Na verdade estava tão acometido por aquelas palavras que prendia a respiração involuntariamente, porque a medida que lia parecia que as palavras entravam nele e mudavam toda sua fisiologia!
"Era em mim que você pensava? (...) era eu quem deveria beija-lo (...) pois eu amo você (...) não como um amigo."
Foi só depois de concluir a leitura desse parágrafo que Afrodite então abriu a boca e puxou o ar pra dentro de seus pulmões, num suspiro longo e profundo, cheio de surpresa, alívio e libertação! Não conseguiu continuar, pois se entregou a um choro copioso que fazia seu corpo todo balançar. Não conseguindo enxergar mais nenhuma linha, deixou-se escorregar pela poltrona até cair no chão colocando os envelopinhos com muito cuidado sobre o acento da poltrona para não molhá-los com suas lágrimas.
Só depois de bons minutos, encostou as costas na mesinha de centro, dobrou os joelhos e tentou continuar lendo. Releu o trecho anterior, onde Camus confessava seu amor mais uma centenas de vezes, até que finalmente e à duras penas conseguiu enfim terminar a leitura.
— Sim... Camus... eu te espero, meu amor! Eu te espero a viva toda se for preciso. — dizia entre choro e riso, apertando o papel contra o peito, beijando as palavras e consolidando a promessa — Eu te amo, te amo muito!
Camus o amava! Confessara isso na carta e essa confissão inesperada e excelcia transformou angústia em alívio, sofrimento em esperança, ansiedade em certeza! Motivado por essa esperança renovada em viver esse amor agora correspondido, Afrodite esticou o braço em desespero para apanhar a ultima carta. Parecia uma fera faminta dando o bote em uma presa. Pegou o envelope em agonia, tirou o papel de dentro com tanta pressa e ânsia que até rasgou um pedaço, maldizendo-se logo em seguida. Enxugando as lágrimas que ainda deslizavam por seu rosto, começou a derradeira leitura.
"Mon amour,
Li suas linhas quase um ano depois que escreveu. Foram os dias mais tristes e solitários da minha vida.
Pouco após lhe escrever a 3° carta, me vi desesperado para enviá-las. Tentei de tudo para fazer com que minhas palavras chegassem até você. Porém o destino pode ser cruel, as vezes.
Meu tutor, que já estava doente, veio a piorar e falecer. Pensei que enlouqueceria de tristeza, pois todos a quem eu amava estavam sendo levados de mim. De luto, não tive forças para tentar enviar as cartas, mas passadas umas semanas finalmente reuni ânimo para encarar os muitos quilômetros até a vila maior. No entanto, uma nevasca horrível acometeu o Norte da Sibéria, me deixando completamente isolado por intermináveis sete meses.
Quando o tempo melhorou, outro Dia dos Namorados já havia se passado. Cheiro de esperança, fui até o vilarejo próximo e para meu desespero o encontrei abandonado. Os moradores haviam ido embora, expulsos pelo frio. Confesso que cai de joelhos em tristeza profunda. Aquilo não podia estar acontecendo! Foi em completo desalento que comecei a vasculhar todas as casas, à procura da hospedaria que meu tutor dizia que recebia as cartas. Felizmente a encontrei! Mal pude acreditar quando meus olhos fitaram uma carta com letras em grego dentro de uma gaveta!
Você havia escrito novamente e de alguma forma ela chegou até a vila antes que a abandonassem. Sentei ali mesmo no chão, em meio à neve que invadia o local pela porta destruída. Tremulo, procurava em suas palavras o alívio para minhas angústias!
Oh, pelos deuses, Afrodite… se soubesse como chorei ao ver o sangue no fim da carta! Ao notar a letra tremida! Pensei ser tarde demais, que o havia perdido. Mas elevei meus cosmo imediatamente e para meu alívio senti o seu, ainda que fraco. Porém vivo! Fiz uma prece em agradecimento e só depois de enxugar as lagrimas consegui de fato ler a carta.
Afrodite... me perdoe, mon amour. Me perdoe por lhe causar tamanha angustia com meu silêncio. Saiba que se o seu amor é incondicional o meu não é! O meu amor por você é egoísta. Quero-o só para mim! Saiba que para mim a vida não tem mais graça se estiver longe de você. Eu te amo, entende? Amo-o desde o dia em que foi ao meu Templo pela primeira vez, falando em uma língua que eu mal entendia. Amo-o desde sempre eu acho. E se você só percebeu que me ama em sua ultima carta, saiba ainda que tenho conhecimento de nosso amor desde minha partida para Sibéria. Faltava-me apenas saber se era correspondido.
Não farei promessas de enviar essa carta, ou cartas futuras, porque sei que no próximo Dia dos Namorados estará lendo essas linhas e todas as anteriores. Meu treinamento está perto do fim.
Com amor e saudades,
Seu Camus.
Ps.: Desça até Aquário. Estou lhe esperando em minha biblioteca.
Quando começou a ler, Afrodite foi novamente acometido por um choro compulsivo. Porém dessa vez foi firme! Estava tão faminto por aquelas palavras que enxugava os olhos com movimentos repetitivos. Soluçou ao imaginar a emoção do amado encontrando sua carta solitária na hospedaria abandonada. Imediatamente a imagem de Camus sentado na neve lendo suas palavras de aflição, escritas em meio à dor e sofrimento, se desenhou na mente de Afrodite como um vulto surreal. Mas quando soube que o amor que o ruivo tinha por si era algo que ele guardava no peito desde a tenra infância, Peixes quase não conseguiu terminar de ler. Um filme de seu passado ao lado do aquariano era projetado em seus pensamentos e ali percebera-se o amando também, inocentemente, desde a vez em que fora incomodar sua leitura na grande biblioteca de Aquário.
Profundamente emocionado, Afrodite achava que todas suas emoções foram testadas ali, lendo aquelas linhas, mas quando correu os olhos pelo pós-escrito, o tempo parou! As lágrimas deixaram de cair em espanto. A boca secou em surpresa. O coração dera um grito altissonante e as mãos quase rasgaram o papel!
Camus dizia que o esperava em Aquário! Estaria delirando? Por isso leu mais algumas vezes o pequeno trecho e num rompante de arrebatamento e emoção, deu um salto do chão, jogou o papel sobre a poltrona e correu para o Templo vizinho, descendo as escadarias como um relâmpado, afoito, trôpego, ofegante...
Ao abrir as portas da biblioteca de aquario com força viu seu sonho e seus desejos mais latentes serem personificados na figura belíssima de Camus, que estava sentado no divã de couro preto, com um livro nas mãos. Trajava a sagrada armadura de Aquário, no rosto um óculos de armação fina não era capaz de esconder o brilho daqueles olhos avelãs marejados, que olharam para o intruso como se sorrissem! E por falar em sorriso, era o mais majestoso, ansioso e radiante que se desenhava no rosto do francês. Compondo a visão onírica de Afrodite, um buque de rosas colombianas jazia na mesinha ao lado e o gato de pêlo laranja no colo de Camus ronronava enquanto era afagado pelo dono.
Como uma estátua de um belo deus grego, imóvel pela comoção que o arrebatava naquele momento, Afrodite olhava pra o cavaleiro à sua frente, que agora não era mais um menino e sim um homem, de lindos e longos cabelos ruivos, mais alto que si e dono de um olhar tão arrebatadoramente sedutor que fazia o coração sofrido de Peixes disparar.
Camus por sua vez, olhava pra Afrodite em êxtase. O pisciano havia crescido e se tornado um homem de beleza inigualável! Camus havia aguardado a tarde toda que Peixes recebesse suas cartas e o procurasse, na ânsia de não perder nem mais um minuto longe daquele que povoou seus pensamentos durante todo seu exílio no deserto de gelo siberiano, Camus colocou o gato no chão, retirou o óculos o deixando sobre a mesa e num arroubo, entre lágrimas e sorrisos ansiosos, correu até Afrodite, que também já corria em sua direção. Não havia, nem nunca mais haveria, distância, desertos gelados, nevascas, luto, medo, dor, nada... absolutamente nada em seus caminhos. Não seriam mais necessárias palavras escritas, nem tinta, nem papel para expressar seus sentimentos, pois agora eles podiam fazer isso olhando nos olhos, tocando a pele, sentindo o cheiro e saboreando o amor impregnado nos lábios de ambos.
Se chocaram nos braços um do outro e se emaranharam num abraço forte, aflito e apaixonado. Antes que qualquer palavra fosse dita, os lábios se juntaram num beijo há muito esperado! As respirações se mesclando, a essência de um entrando no corpo do outro através das línguas afoitas que se experimentavam pela primeira vez em êxtase. Mãos que apertavam o corpo, lágrimas que dividiam a mesma emoção. E foi assim que Afrodite e Camus se reencontraram, numa explosão de sentidos e emoções.
Durante longos minutos tudo que existia na vida deles era aquele momento, aquele beijo, que depois da ânsia do reencontro tornara-se mais brando, porém muito mais intenso, carregado de amor e desejo. Ofegantes, separaram os lábios apenas para se olharem, vislumbrando as mudanças que o tempo operara em cada um, sorrindo e se amando através do olhar.
— Pardon... mon amour... eu voltei...
Afrodite então sorriu. Finalmente um sorriso sincero de felicidade e de vida, depois de tantos anos apenas existindo.
— Camus... — disse Afrodite, porém sua voz era embargada, mas mesmo assim ele tinha que dizer em palavras o que escrevera em letras trêmulas — ... pelos deuses, Camus... nunca mais me deixe sozinho... eu não sou capaz de viver longe de você... eu te amo. Te amo muito. Te amo desde que chegou aqui, desde que ocupou essa casa. Você ocupou o Templo de Aquário e o meu coração também. Eu amo você. Amo muito! — ao final dessa ultima declaração, o sueco sorriu e puxou o aquariano novamente para seus braços e impelido por um felicidade que mal cabia em si, ria alto e também chorava, enquanto Camus girava no centro da sala com ele nos braços, o acompanhando com seus próprios risos, sem conseguir conter sua própria felicidade. Ter Afrodite nos braços era tudo o que desejara nos últimos cinco anos. Devagar foi parando de rodar até estar em pé, frente a frente com o amado novamente.
— Je t'aime, Aphrodite... — sussurrou em sua língua materna, segundos antes de beijá-lo novamente.
— Jag älskar dig, Camus... — sorriu Afrodite enquanto mergulhava nos lábios doces do francês.
Minutos depois, Camus se afastou e pegou o buque de rosas. No meio delas havia uma diferente das demais. Era a rosa que Afrodite dera a ele em sua partida e que estava perfeitamente preservada por uma finíssima camada de gelo eterno, para que nunca murchasse.
Quando reconheceu sua rosa, em meio as demais de beleza ímpar e perfume inebriante, os olhos de Afrodite marejaram mais uma vez! Camus a havia conservado por todo esse tempo! Porém sua emoção triplicou e seu coração bateu mais forte novamente quando viu o ruivo se abaixar diante de si, tocar o solo com um dos joelhos e lhe estender as flores. Com a outra mão, Camus pegou em uma das mãos de Afrodite e ajoelhando diante do amor de sua vida, olhou nos olhos dele emocionado, fez a pergunta:
— Afrodite de Peixes. Quero oficializar o que nossos corações desejam desde sempre, porém nunca foi dito ou escrito em momento algum. Quer namorar comigo?
Cinco anos! Cinco longos anos havia esperado para fazer esse pedido e cinco sofridos anos Afrodite havia sonhado com esse dia e nem em seus devaneios mais utópicos ele teria sido tão emocionante e perfeito como fora na realidade.
Peixes enlaçou o buque de rosas com um braço e com a mão que segurava a mão de Camus, puxou o aquariano para cima, o levantando daquele chão. Chorava e até tremia de emoção. Então pegou a rosa que fizera do meio de todas aquelas outras e a segurou entre ele e Camus. Olhou nos olhos do amado e respondeu à sua pergunta.
— Sim, Camus de Aquário. Tudo que eu mais quero na vida é ser o seu namorado! E quero que nosso amor seja como essa rosa envolta em gelo eterno. Nascida do meu desejo em te ver feliz, em realizar os seus desejos, cheia de amor, boas intenções e imortal, como a redoma que fez para ela.
Abraçou o francês com paixão e ternura, afundando o rosto nos cabelos ruivos e aspirando o cheiro delicioso do amado . Beijou o pescoço dele e com o coração mais calmo sorriu, arrebatado por uma felicidade extenuante.
Com cuidado, Afrodite deixou as flores sobre a escrivaninha e voltou a tomar os lábios do namorado. Depois de tanto tempo longe era impossível manter suas bocas separadas.
Aos poucos, o pisciano retirava a armadura do cavaleiro, peça por peça, com extremo carinho e entrega, despindo Camus daquele metal sagrado para sentir enfim o calor delicioso do corpo do amado. Aquário por sua vez, permitia-se ser despido, pois desejava Afrodite com tanta urgência que sentia-se capaz de amá-lo ali mesmo, naquela biblioteca, onde se conheceram e trocaram as primeiras palavras e mesmo que não conseguissem se fazer entender, por causa da barreira do idioma, comunicaram-se atravéz do coração!
E foi justamente o que aconteceu. Despidos de todos os sentimentos que os angustiaram durante os anos de separação e despidos também das roupas, Afrodite e Camus finalmente entregaram-se por completo um ao outro, unindo seus corpos e suas vidas definitivamente, sobre o divã da biblioteca e entre os mesmos livros que presenciaram no passado o seu primeiro encontro.
Passaram horas a fio ali, entregues nos braços um do outro, perdidos de amor e paixão e ignorando a existência do mundo além daquelas paredes de pedra, até que faltando poucas horas para o nascer da aurora, descansavam abraçados, suados e felizes. Afrodite com a cabeça sobre o peito do aquariano e Camus com as pernas entrelaçadas às do pisciano, enquanto acariciava o rosto dele sentindo que podia morrer de tanta felicidade.
— Sabe quantas vezes imaginei a gente aqui... assim? — disse Afrodite rompendo o silêncio confortante entre eles — Quase todos os dias e todas as noites! — cruzou as mãos sobre o peito de Camus, apoiou o queixo nelas e olhou nos olhos do ruivo com adoração — Há quem diga que quando seus desejos se tornam realidade, muito dos seus sonhos são destruídos. Não para mim... desejei tanto estar com você em um dia como hoje e a realidade foi ainda mais perfeita que qualquer ideal que eu pudesse traçar e tudo que sonho agora para minha vida inclui você, Camus. — esticou o rosto e beijou os lábios doces do aquariano mais uma vez — Ficaria aqui para o resto da vida, mas tenho que voltar para a casa de Peixes.
— Ah, non! Precisa mesmo? Fica aqui hoje. Dorme comigo, acorde a meu lado... aqui mesmo na biblioteca. — disse Camus puxando o pisciano para um abraço — Non quero me separar nunca mais de você, mon amor. — pedia o aquariano em voz baixa, meio sonolento já. Sabia que não podiam ficar por muito tempo fora de seus Templos, mas já estava quase amanhecendo e nem que fosse para dormirem alguns minutos apenas, pois queria sentir a felicidade de acordar ao lado de seu amor.
Afrodite sorriu e descansou a cabeça novamente no peito do ruivo. Era tão bom ouvir o coração dele bater forte dentro do peito. Sentia que poderia passar a vida ali, nos braços dele, compensando anos de sofrimento, saudade e espera.
— Hum... acho que ninguém vai subir aqui para se certificar de nada, não é mesmo? — sorriu brincando com uma mecha de cabelo ruivo — Depois... fiquei tanto tempo dormindo abraçado aos travesseiros, que agora que senti como é bom ficar abraçado a você nunca mais quero dormir sozinho. Você ainda tinha seu amigo urso para se distrair, eu nem isso! — riu de si mesmo e do amado.
— Sim. Eu tenho o urso! — disse Camus rindo, de olhos fechados e uma expressão feliz no rosto. Era até difícil acreditar que finalmente tinha Afrodite nos braços e que pelo menos a espera árdua e penosa valera a pena — Um amigo urso que por sinal consegui amansar. Se um dia levar você para a Sibéria, lhe apresento a ele. Mas... você não esteve totalmente sozinho também... o rapaz da vila! — disse em tom mais sério.
Afrodite ergueu a cabeça imediatamente para olhar para o amado, mas quando abria a boca para dizer algo, Camus colocou o dedo indicador nos lábios do sueco o impedindo.
— Shii... Non precisa dizer nada, ma belle rose. Non precisamos falar disso agora. É que descobri algo novo sobre mim. — o ruivo puxou o corpo esguio do namorado mais para cima, o prendendo em um abraço forte — Eu descobri que sou extremamente ciumento e possessivo! — disse sorrindo para ele, enquanto lhe olhava nos olhos e beijava com carinho — De agora em diante, Afrodite, non vai passar mais nenhuma Dia dos Namorados sozinho, ou escrevendo cartas, muito menos em outra companhia que não seja a minha! Porque, assim como você é meu, eu também sou seu! Nada vai nos separar novamente, mon amour. Nada!
— Feliz Dia dos Namorados, Camus. — então Afrodite disse somente, sorrindo emocionado — E sim... nada vai nos separar.
Nessa cumplicidade única e tão rara, ambos se olharam com paixão por longos segundos, como se quisessem gravar na retina os traços do rosto um do outro, para que a imagem do ser amado fosse cravada em si, em seus pensamentos e lembranças, para quando não estivessem juntos. Doaram-se mais uma vez aos beijos que agora eram seu pórtico para a felicidade, assim como o sabor dos lábios estimados era o doce néctar vital que norteava a existência de ambos.
Assim, Camus e Afrodite entregaram-se ao sono, entrelaçados entre si. Como entregaram-se também um ao outro, ao amor e ao destino. Sabiam que talvez esse tão aguardado sonho de viver juntos um amor há tantos anos ansiado, poderia ser breve e efêmero. Eram cavaleiros e tinham entregue suas vidas à uma causa. No entanto, a partir desse Dia dos Namorados, iriam viver intensamente todos os outros dias e nunca mais passariam essa data sozinhos. Agora as palavras de amor escritas em tinta, seriam ditas aos sussurros e gemidos, ao pé do ouvido e cravadas no coração como tatuagem. Os papéis borrados de lágrimas e sangue não seriam mais necessários. Agora a pele um do outro era onde deixariam suas marcas!
Nesse Dia dos Namorados, em especial, Afrodite substituíra o papel e a caneta e escrevera diretamente em Camus, com suor, saliva e lágrimas. Uma carta de amor redigida direto no coração!
*** Fim?***
A fic acabou meus queridos. Desculpem a demora, eu e esse site somos uma briga ferrenha, posto muito mais nos perfiz do Nyah e do Social. Mas como comecei a ler fic's por aqui, quero honrar as origens hahahha
Ainda tenho varias fics para postar por aqui e assim que puder eu as coloco no ar.
um beijo para as leitoras que me deixaram reviews em espanhol *-*
ps: lembrando que nenhuma fic minha foi escrita sozinha, todas elas foram escritas junto da Juliana minha parceira de escrita e mon amour *-*
