A vida não foi fácil nesses anos no internato. Nunca me senti tão sozinha! Mas eu estava perto de me formar e tudo parecia se resolver como eu queria. Meu pai virá me tirar daqui e poderei voltar para nossa casa em Loguetown.
Enviei uma carta para o Padre Corazon, que me respondeu depois de um bom tempo. Disse que estava dando aula em uma universidade. Quero muito estudar em uma! Quem sabe, não poderia ir para a universidade onde ele dá aulas? Mas ele nem falou onde ficava esse lugar onde ele está trabalhando. Ele me pediu para que seguisse em frente com fé e que continuasse a praticar meu catolicismo como se ele estivesse lá. E assim, deixei definitivamente de ser aquela garotinha rebelde e me tornei uma jovem exemplar. Tudo por ele, pois ele quem me despertou a capacidade de progredir e vencer.
Queria muito que ele viesse a minha formatura! Mas sei que não vai dar. O escândalo de anos atrás ainda não foi esquecido. Mas nem tenho ódio daquela minha colega de sala, afinal ela possuía uma vida mais cheia de espinhos que rosas. Um passado mais triste que o meu. Eu tenho uma família que me abandonou aqui para poder evoluir e depois me colher novamente. Ela foi abandonada bem pequena e nunca soube suas origens.
Meu coração se enche de alegria só ao imaginar que, um dia, voltarei a vê-lo. Foi a promessa mais jurada por Corazon: que voltaria a me ver. Torço muito para que isso aconteça...
...
Cinco anos se passaram. Durante esse tempo, |você| seguiu estudando naquele colégio e internato, enquanto Corazon seguiu vivendo no outro lado do país, dando aulas em uma universidade. Durante esse tempo todo, |você| só havia recebido uma carta dele depois de um ano após a saída dele. E do pai, recebeu também uma só carta. Inicialmente, foram longos anos achando que era um estorvo na vida das pessoas, e justamente as quais gostava. Porém, perto de finalizar os estudos, estava animada. Finalmente o pai teria que leva-la consigo. Ela não se tornaria freira nem pelo preço mais alto. E quem sabe, não reveria Corazon. Será que ele ainda se lembrava de |você|? Será que reconheceria? Afinal, |você| estava com dezessete anos, agora. Havia mudado bem. Estava mais amadurecida, principalmente no corpo. Os cabelos |cor e tipo dos seus| estavam mais belos, assim como o |tipo do seu| rosto estava mais formado, aparentando um físico mais adulto. Mas o jeitinho ainda era de uma adolescente curiosa que queria descobrir o mundo.
No dia em que se formou, seu pai e irmão vieram prestigiá-la, e também levar para a casa. |Você| não demonstrou nenhum tipo de ressentimento. E estava maravilhada em ver seu irmão mais adulto e promissor ao lado do velho Roger.
Apesar de |você| ter ansiado tanto em sair dali, sofreu com as despedidas, principalmente de Jora. Mas |você| foi firme nas despedidas, abraçando até mesmo Jewelry Bonney.
– Sabe, apesar de nossos conflitos... nunca a odiei de verdade. E desejo com toda a sinceridade que você possa viver feliz depois dessa longa jornada de escola. – |você| apertou as mãos dela, após o abraço.
– Também tenho meus arrependimentos. E diga ao Padre Corazon, se encontra-lo... que eu peço desculpas por toda aquela confusão que aprontei junto a Nami.
– Pode deixar! Ah, e cadê ela? Quero despedir dela também!
Após trocarem desculpas e perdoes, |você| deixou Nami e as outras para acompanhar as freiras Violet e Monet até o portão, onde estavam esperando o |seu| pai e irmão. E havia outros responsáveis que levariam seus filhos ou responsáveis consigo. Outras não tinham uma família que pudesse recebê-las.
– Papai, para onde vamos agora? – |você| perguntou.
– Ué, para a casa! – respondeu Ace.
– So que em uma outra casa! Aqui mesmo, em Dressrosa! – comentou Roger.
– É?
– Tenho negócios para resolver aqui e estamos morando aqui também.
– Ah, sabe aquela carta que você me enviou há anos, falando do Padre Corazon?
– Hum, e daí?
– Como você não me mandou retorno, queria saber se ele teve contato com você!
– Ah, teve sim... mas depois ele mesmo não respondeu mais. Ele teve que sair, não é?
– Sim... por oportunidades maiores como professor. Ele era um excelente professor!
– Mas eu posso ver se ele está por aqui. – disse Ace.
– Poderia me fazer esse favor?
– Claro.
– Ora, por que esse interesse nesse padre? – o homem de longos bigodes interrompeu a conversa.
– Ele era como um grande amigo... aliás, grande amigo ele é... e me tinha como uma irmãzinha.
– Entendo. Mas vamos andando!
...
Corazon estava se arrumando dentro de seu quarto quando alguém entrou sem bater, dando-lhe um susto.
– Bellemère! Deveria bater à porta!
– Ah... somos praticamente irmãos, não é?
– Sei, mas...
Ela pôs as mãos nos ombros nus dele, acariciando discretamente. Ele se virou meio sério.
– Você se tornou um homem tão belo... nem mesmo todas essas cicatrizes te tiraram a beleza natural...
– Você é gentil demais...
– Incrível como nesses anos... todos esses anos em que estudamos juntos no monastério, sob a vigia de Sengoku, você conseguiu manter sua vocação e eu não...
– Talvez porque nossos destinos sejam diferentes. – ele não mostrava nenhum constrangimento, enquanto se virou para ela, que ainda lhe acariciava o ombro.
– Tem um corpo tão bem trabalhado para um padre...
– Tive muito trabalho quando mais jovem... você deve se lembrar dos campos que cultivávamos... aquilo nos exercitou bastante!
– Ah, nem me fale nisso! – ela deixou-o, caminhando até a janela.
Corazon pode vestir sua blusa.
– Gostaria de visitar novamente aquele monastério... e ver como ficaram aqueles campos que cuidamos sob o nosso suor.
– Eu também... – sem sair da janela, olhou Corazon – Rocinante... tem certeza de que precisa sair daqui?
– Sim. Mas se precisar novamente a morar aqui, voltarei a lhe pagar o aluguel como sempre fiz.
– Mas e essa jornada? Quanto tempo durará?
– Não sei... depende do que eu conseguir.
Ela foi até ele parando diante do enorme homem.
– Ao menos... venha se despedir com um selo.
O selo que ela se referia era o simples beijo onde somente os lábios se encostavam rapidamente. Um cumprimento muito comum entre amigos íntimos.
– Meu selo é a bênção a qual posso dar. – ele estendeu sua mão e ela teve que se contentar em beijá-lo ali.
Corazon quis sair dali depois de mais uma investida de Bellemère. Nesses últimos meses, havia ficado praticamente insuportável viver ali. Ela se achava íntima demais até para tocá-lo. Então, resolveu fazer uma peregrinação pelo país, para promover a catequização. A universidade estava fechada por causa das férias do meio do ano. Não deu previsão se voltaria para a casa alugada da amiga dos tempos do monastério. Ele veria outro lugar mais escondido para morar.
No mesmo dia em que ele saía daquela região, |você| chegava com a família ali, em uma casa grande e bem jardinada. Não tão diferente da casa em Loguetown, porém mais luxuosa.
– Bem, o que achou |seu nome|?
– Achei muito linda!
– Veja que linda está sua mãe naquela pintura! – Roger apontou a pintura de Rouge – você está ficando com os traços dela, sabia?
– Que bom! – |você| sorriu modesta.
– |Seu apelido|, vem conhecer toda a nova casa! – Ace te chama da escada e |você| vai correndo até ele.
– Peça licença antes, menina! – repreendeu o pai, sem grosseria no jeito de falar.
...
Passaram-se dois meses. Corazon estava de volta àquela região de Dressrosa. Alguns alunos mais próximos dele da universidade fizeram uma festa particular como recepção, na casa de um deles. Conversaram sobre novidades e sobre o retorno as aulas. Até que um deles fez uma pergunta totalmente fora do assunto.
– Padre... o senhor nunca teve mesmo uma mulher em sua vida? – perguntou um loiro alto, com uma cicatriz atravessando a testa até a sobrancelha do lado direito.
– Bellamy... em minha vida sofrida, nunca tive a oportunidade de deixar meu coração abrigar o sentimento por uma mulher. Como professor e catequista, ensinar é minha vida. É a maior prioridade que tenho.
– Mas e o desejo... o contato mais próximo de uma mulher... nunca teve? – perguntou um ruivo avermelhado, de olhar altivo e desafiador, comendo um pedaço de pão.
– Não, Kid... não que me faltassem melhores em minha vida, tive grandes amigas... e muitas delas bem belas...
Todos começaram a rir.
– ...mas é parte de minha vida. E também não me arrependo.
– E pensar que minha família queria que me tornasse um padre... meu pai, precisamente. – comentou um outro aluno de cabelos ruivos mais alaranjados, com uma cicatriz em forma de "x" no queixo – mas não me vejo largar certas coisas por dedicação a um deus.
– É um preço muito alto para mim também... ontem mesmo fiquei fogoso por causa de um rabo de saia que passou por perto de mim. – comentou Kid, rindo junto com os outros colegas.
– Realmente... Drake, Kid... Bellamy... é preciso muita perseverança para abrir a mão de privilégios para seguir sua vocação. Talvez muitos de vocês podem descobrir seus verdadeiros caminhos daqui há alguns anos. Vocês ainda são bem jovens!
– Ah... então deve ser por isso que não consigo entender meu amigo professor! – disse Bellamy, pegando uma garrafa de vinho – mas beber você pode, não é?
– Bebo vinho na celebração da missa... só não abuso demais porque me dá enjoos... realmente sou um homem fisicamente fraco!
Nem era por isso. Mas Corazon tinha que lidar com alunos vorazes e cheios de energia. De ousadia. De sexualidade. Típicos jovens estudantes de universidade. E ainda não eram piores que Bellemère.
No dia seguinte, |você| quis sair um pouco para conhecer as ruas. Roger concordou só porque Ace ofereceu-se para acompanhar. Os dois irmãos caminhavam tranquilamente, conversando sobre diversos assuntos, quando um soldado que fazia a segurança das ruas veio para cima deles. Ace |te| jogou para o lado para não ser atingida. Porém, ele não pôde se salvar, sendo esmagado pelo cavalo. Precisamente as pernas. |Você| começou a gritar, indo até |seu| irmão, que só fazia careta com as dores que sentia. Começou um pequeno tumulto em volta. Corazon, que passava por perto, quis ver o que era.
– Não é culpa minha! – gritou o soldado.
– É sim! Você veio em cima da calçada! – |você| reagiu.
E muitos ali se dividiram nas opiniões. Corazon se meteu no meio e foi até o rapaz caído no chão. Ele estava de capuz marrom que cobria quase todo o rosto.
– Ora, por que não chamem um médico em vez de ficarem discutindo? – ele disse pra multidão.
|Você| olhava para o "frei", que pegou o rapaz nos braços e colocou e um canto. |você| seguiu.
– Saiam da frente! – Corazon pedia para a multidão, colocando Ace encostado no muro, sentado em um caixote velho – você tem alguém que possa te acompanhar? – ele perguntou para Ace.
– Minha irmã... onde ele está?
– Não se mova muito! Eu vou te ajudar a...
– Mano! Você está bem? – veio |você| em seguida.
– Você está com ele, senhorita? – perguntou Corazon.
– Sim, é meu irmão.
– Que bom. Fica com ele, eu voltarei breve, vou ver se arranjo um médico!
Ele saiu correndo. Aquela voz... de repente |você| lembrou-se de alguém.
– Ace... fica calmo... vai dar tudo certo! – a garota de cabelos |cor dos seus| tentava animar o irmão.
– Nem sinto minhas pernas direito... |seu apelido| ...pelo menos não te atingiu.
Depois de um minuto, veio Corazon com um médico. Uns guardas estavam conversando com o que atropelou Ace.
– Eu vou coloca-lo na maca! – disse o médico, acenando para a equipe médica que trouxe junto.
– Certo... – Corazon concordou e olhou para |você| – eu posso acompanha-la até sua casa, se quiser.
Sim... aquela voz... ela disfarçou sua breve alegria. Aquela voz grave, levemente rouca... firme, dócil...
– Claro, também preciso avisar ao meu pai. Vamos então! – |você| se virou, indo na frente. |Você| ficou quieta, esperando que ele a reconhecesse. Aguentou firme a vontade de se jogar nos braços dele e abraçá-lo com força. Mas foi aí que |você| foi pega de surpresa.
– Você... é muito familiar.
– ...é? – |você| se virou para trás.
Ele tirou o capuz que cobria a cabeça. Com os cabelos loiros um pouco maiores, levemente assanhados. Aquele sorriso tão amigável. A mesma coisa.
– ...|seu nome|.
– Padre! – |você| correu para o abraço longo, correspondido por ele. Ficaram assim por um tempo. Kid, um dos alunos mais próximos de Corazon, viu o mestre abraçado a uma garota enquanto passava por ali, também curioso sobre o que havia ocorrido. Pigarreou um pouco, indicando sua presença ali.
– Com licença...
– Tudo bem. Essa aqui foi uma de minhas alunas no Colégio da Marinha. – Corazon apresentou ambos os jovens um ao outro.
– Nunca ouvi falar desse colégio... mas deixa! Ah, muito prazer, Eustass Kid. – o ruivo apresentou-se a |você|.
– Gold D. |Seu nome|. Encantada! – a garota de vestido de |sua cor favorita| cumprimentou-o.
– |Seu nome|, esse é Eustass Kid, um de meus alunos na Universidade de Dressrosa. Eu estou atrasado para a aula, mas levá-la-ei para sua casa. Kid, avisa aos outros que terei que chegar mais tarde!
– Tudo bem! Com licença... – o ruivo se retirou.
Padre e ex-aluna foram até Roger avisar o ocorrido. Nem o acidente com o filho tirou a alegria de rever aquele padre.
– Então, o senhor estava por essas bandas! Não sabe como minha filha ficou preocupada em não vê-lo mais!
– Sei que não escrevi muito como havia prometido... mas uma coisa que prometi, cumpri hoje mesmo: que a reencontraria.
– Verdade, padre! – |você| afirmou.
Corazon combinou que viria jantar naquele mesmo dia para colocar o resto do assunto em dia. Tanto ele como |você| sentiram reacender uma chama antiga e opaca dentro de si. Não sabia explicar o que era realmente. Uma nostalgia... ou um intenso amor ainda platônico.
