Houve algumas mudanças nela, mas nada que não me fizesse reconhecer aquela garota. Como foi bom rever |você| novamente! Fui pego de surpresa inicialmente, mas a alegria em revê-la e ainda tão bem me deixou tranquilo. |Você| já tinha estrutura de uma jovem mulher, mas ainda havia traços daquela garota de doze anos.

Fui bem recebido pelo pai dela – que provavelmente não deve ter sabido sobre o escândalo que me fez sair daquele colégio -, e fui também apresentado ao irmão, que estava de cama e com as pernas enfaixadas. Conversa vai, conversa vem, e ele me propôs a ficar com eles até achar outro lugar para residir. Inicialmente eu lutei, não querendo abusar da hospitalidade, mas os três acabaram me convencendo. Viam-me como um membro distante da família. Isso me confortou demais por dentro. Talvez aquela menina fosse um anjo enviado por Deus para me ajudar a prosseguir.

E o Sr. Roger quis que eu auxiliasse a filha nos estudos do nível superior, já que em Dressrosa ainda não havia universidade mista. A única que tinha – na qual eu leciono – era só para rapazes. Aceitei de bom grado.

E a doçura e curiosidade continuava a mesma em |você|. Sempre querendo saber de tudo o que se passou comigo nesses anos de distância. Ela me falou dos tempos que foram difíceis para ela. Disse que custou a consolidar uma relação tranquila com Jewelry Bonney, desde aquela cilada armada por aquela garota. Falou que sentiu muito a minha falta. Falou-me de um jeito que me deixou levemente encabulado. Nem eu entendi o porquê dessa minha reação. Fiquei impressionado com certas palavras usadas por ela. Parecia mais madura nas palavras. Mais sincera nos argumentos. Uma coisa havia me passado na cabeça, mas é provavelmente uma impressão boba. Ela não... não podia se apaixonar por mim. E eu tampouco por ela.

...

– Eu... falei alguma coisa que não gostou, padre?

– Não... nada demais. Só estou com a cabeça cheia de trabalhos para meus alunos.

– Posso ajudar com os trabalhos? Seria uma interessante forma de aprender novamente as lições de religião com você! – |você| disse sorrindo, levantando-se e indo até Corazon, que estava com papéis nas mãos.

– Algumas coisas você pode fazer... sabe digitar?

– Ora, claro! Quem não sabe?

– Ajudaria a digitar algumas provas minhas?

– Sim, se quiser faço agora mesmo! – disse |você|.

|Você| começou a trabalhar com Corazon nesse mesmo dia. Ele observava-a ajudando-o tão engenhosamente, ao mesmo tempo em que observava inconsciente |você| em si. Quase uma mulher formada.

– O que houve, Corazon? – |você| o flagrou olhando para |si|.

– Ah... nada, perdão. – ele voltou a elaborar o rascunho das provas.

– Corazon... você parece que esconde alguma coisa de mim.

– Esconder? O que esconderia?

– Eu não sou tão boba a ponto de não perceber que me observa.

– ... quer sabe por que a observo tanto, |você|?

– Diga.

– Ainda me parece estranho que você é a mesma garotinha que conheci há cinco anos... e agora está uma mulher incrível.

|Você| ficou surpresa em ouvir aquilo.

– Uma filha exemplar. Uma irmã atenciosa. Você jamais deveria ter ficado tão distante de seu pai e irmão. Perderam a oportunidade de vê-la desenvolver e...

– Ah, o que passou, passou! – comentou a garota de olhos |cor dos seus| – e também se sou o que sou, devo muito ao padre que foi meu professor e amigo naquela época de escola.

Corazon sorriu. |Você| se aproximou com jeito que queria abraçá-lo. Ele se sentiu tão inseguro que se afastou, recuando a cadeira em que estava sentado. |Você| olhou aquilo sem entender.

– O que houve?

– Nada, está tudo bem. Preciso respirar um pouco. – ele se levantou, saindo do escritório apressado – se quiser, pode continuar a digitar as provas, voltarei logo!

E ele fechou a porta. |Você| sacudia a cabeça, sem entender o porquê ele ter recusado o abraço que nunca recusaria na vida. Aquilo |te| deixou meio sentida. Mas mesmo assim, voltou a digitar as provas, adiantando o serviço.

...

O jantar prosseguia tranquilo. Roger fazia questão do Padre Corazon comer com todos à mesa. Ace não podia estar ali com todos porque estava de cama, sem poder andar. Antes de jantar, |você| levou a comida para ele no quarto. Enquanto isso, Baby 5, uma das criadas da casa, servia o jantar. A danada da criada olhava Corazon fixadamente enquanto servia à mesa, deixando-o meio constrangido. Percebendo indiretamente, Roger interveio.

– Presta atenção nisso, Baby 5: esse homem é um servente de Deus! Não é desses rapazotes que você costuma seduzir para passar a noite no celeiro!

– Por favor, Sr. Roger... não é preciso constrange-la desse jeito. – pediu o loiro.

– Er... desculpa, padre. – a criada abaixou a cabeça.

– Está tudo bem, filha. – Corazon perdoou-a.

– Pior é vê-la constrange-lo! Vai logo chamar a |seu nome|, porque a comida dela aqui vai esfriar! – pediu Roger a morena.

– Sim, senhor. – ela saiu, indo até |você| que estava no quarto de Ace.

Após |você| sentar-se a mesa, o constrangimento parecia ser pior. Não, ela sequer lhe olhava como Baby 5 fazia. Era somente a presença dela ali, juntamente com o pai que parecia ser extremamente observador, que deixou o loiro com o semblante de desconfiado. Corazon terminou seu jantar e pediu licença.

– Mas já se vai? Não quer beber um licor comigo?

– Devo acordar cedo, amanhã terei turmas para dar aula.

– Gostaria de assistir uma aula dele. – |você| comentou.

– No meio daqueles rapazotes cheios de energia e hormônios? – perguntou Roger, com certa ironia.

– Ora, papai! São alunos como todos os outros! E acredito que, com o padre aí, jamais me fariam algum tipo de mal...

– Sim, na frente dele pode até ser... e é bom que eles sequer saibam que você existe em Dressrosa! – comentou ele, limpando a boca com o guardanapo.

– Falando nisso, devo me retirar também, pois tenho sono. Com licença, papai... – |você| se levantou e foi até Corazon, estendendo a |seu tipo de| mão para ele – padre, sua benção.

– Deus a abençoe. – ele estendeu a mão para ela pegar e beijar.

|Você| estendeu um pouco o beijo, porém agiu normalmente. Ele fez de tudo para manter-se frio, sem demonstrar nenhum tipo daquela reação de antes.

– E o seu pai? Não pede mais benção? – Roger comentou, rindo.

– ...sua bênção, papai. – ela foi até o pai fazer o mesmo.

– Deus te abençoe e te ilumine o juízo!

Cada um foi para seus quartos. Roger apenas foi ao do filho para ver como ele estava. Depois de um banho frio, Corazon se acalmou e foi dormir. |Você| teve uma noite mais tranquila. Viu que ele estava de bem, apesar daquela "fuga" dele.

Tudo seguia normalmente, porém |você| notou que Corazon estava mais esquivo. Não zangado |contigo|, porém distante. |Você| estranhava isso em sua inocência. Sempre aberta com aquele que julgava ser o melhor amigo, |você| decidiu abrir seu coração com ele. Em uma tarde, viu o padre no jardim da casa e resolveu ir até ele. Ele a recebeu sério, mas não de mau humor.

– Padre Corazon... preciso falar algumas coisas com você.

– ...diga.

– Sim, digo. Por que está tão esquivo de mim? Não minta! – |você| apontou o indicador para ele – um padre jamais mente, apenas guarda confissões.

Ele pegou o dedo dela e abaixou, mantendo o |seu| indicador seguro entre sua mão bem maior. |Você| olhou ele fazer aquilo esperando uma resposta.

– ...por onde começar?

– Por onde você quiser! Meu pai saiu e meu irmão está lá no quarto dele. Estamos a sós, você pode abrir-se comigo. Nunca costumamos ter segredos entre nós. Eu me confessava para você, como até hoje faço isso. Aliás... estou há algum tempo sem confessar.

– Se quiser, pode fazer isso agora.

– Mas responda-me antes. Responda com sinceridade como eu confesso meus pecados... você recusou um abraço meu e sequer me encara direito, como se estivesse me evitando.

– |Seu nome|... quando você era uma menina, eu a tinha como uma filhinha. Como seu pai queria que eu a tivesse. Mas agora... você é quase uma mulher adulta e...

– ...não me diga que ficou com raiva por eu ter crescido?

– Não, jamais... nada me deixa mais feliz em vê-la tão bem crescida!

– E então?

– ... eu ainda me sinto inseguro diante da nova |seu nome|.

– Nova |seu nome|? Não, eu sou a |seu nome| de sempre, apenas envelheci um pouquinho!

Ambos puderam trocar risos.

– Sou quase uma adulta... e praticamente digna de um amor de um homem adulto como você.

Corazon piscou três vezes seguida. Mas ainda falava normalmente com ela.

– Sabe de uma coisa? Eu falo isso hoje em dia porque percebi isso só com o tempo. Com o passar do tempo... eu... – |você| abaixou a cabeça, olhando para |suas| mãos – percebi que o amava mais que o suficiente.

Corazon olhou meio espantado para |você|, que tentou ajeitar aquele desconserto dele.

– Não, não se incomode com isso. É um amor primário. Sabe... gostaria de encontrar um marido assim, que nem você... já que a vida que leva não permite que você tenha relacionamentos profundos com uma mulher.

Ele se levantou.

– Eu... não queria incomodá-lo... apenas confessei... já espero minha penitência.

– Vá descansar. – disse ele, calmamente.

– ...sem rezar meus dez Pais-Nossos?

– Amar nunca foi pecado... principalmente para você. E você está na fase mais revigorante dos sentimentos, digamos assim... eu entendo e não estou zangado com você. E espero que... você encontre alguém com essa mesma paciência que eu. – terminou rindo discretamente.

– Entendo... mas isso não vai atrapalhar nossa amizade, vai?

– Nunca diga isso, pequena! – ele foi até perto da testa dela e beijou normalmente, como fazia quando ela era uma menina.

– Hmm... esse Corazon eu conheço bem. Que bom que nos entendemos!

E |você| se jogou em um abraço apertado nele, que o aceitou preocupado com a aparição de alguém ali e interpretar mal.

– Como é bom ouvi-lo me chamar de pequena novamente! – você comentou, grudada no corpo dele.

Separaram-se do abraço. |Você| olhou para ele de forma apaixonada, porém inocente. Vendo que ele queria ficar sozinho, |você| despediu-se, indo descansar conforme ele havia pedido.

Foi uma noite de paz para |você| e de tormenta para Rocinante. |Você| dormiu tão bem após dizer aquilo para Corazon, enquanto ele se remexia na cama, sem cair no sono direito. Tantas coisas ele temia. Desistindo de pegar no sono, ele se levantou, foi até a janela e rezou mentalmente até pegar definitivamente no sono. Isso durou uma hora, mais ou menos.

No dia seguinte, o padre acordou indisposto. Observando isso, Roger fez questão de ir até a Universidade justificar que ele deveria repousar por estar esgotado devido a muito trabalho. Não foi fácil para o loiro de olhos castanhos avermelhados aceitar isso, mas por fim aceitou. Realmente, estava péssimo depois de uma noite mal dormida.

– |Seu nome|, você cuidará do padre! – Roger ordenou a filha.

– Por mim, tudo bem...

– Baby 5 te ajudará no que não souber fazer.

– Tudo bem, papai. Pode ir trabalhar tranquilo!

– Ace ainda está em recuperação, mas logo poderá andar e me ajudar na empresa! – disse ele, ajeitando o longo bigode.

Sim, agora ele estava perdido. Seguiria firme, tentando se controlar. Curiosamente, não era Baby 5 quem o deixava inseguro. Justamente que não poderia deixa-lo assim, deixava-o. Não poderia ter daquelas reações emocionais. Ele também era moça, tinha impulsos mecanicamente naturais que ele controlava. Tudo era tão fácil... até aquela pessoa aparecer em sua vida novamente. Sim, queria reencontrá-la, mas não lidar com uma garota que lhe amava... e que era amada por ele, ao mesmo tempo.

|Você| cuidava dele tão cheia de ternura e amor. Era tão gostoso tê-lo dependente de si, assim. Lembrou-se da vez em que esteve doente e que foi cuidada por ele com o mesmo carinho.

– Cuidarei de você tão bem que sequer precisará de um médico! – ela prometeu, enquanto trocava as toalhas molhadas que colocava em sua testa.

– Acredito em suas palavras!

– Padre... incomoda-se em ser cuidado por mim?

– Por que incomodaria? Uma vez, já a cuidei quando esteve doentinha.

– Eu estava me lembrando disso, aqui... – ela conversava enquanto ajeitava o travesseiro para ele se posicionar melhor na cama – quer ficar sentado ou deitado?

– Deitado está melhor.

– Então deixarei assim.

– Não vai ser seu irmão?

– Verei logo, mas antes quero que durma primeiro. Não quero deixa-lo sozinho acordado.

– Não há problema, |seu nome|. Qualquer coisa, te chamo ou chamo a Baby 5.

– Hmm... não confio você nessa criada. Meu pai disse que ela é meio provocante. Não quero que ela o incomode.

"Você também é provocante sem fazer e saber de nada.", pensou ele.

– Mas se quiser, vou rapidamente até meu irmão e volto, está bom assim?

– Tudo bem, |seu nome|.

Nem passou cinco dias e ele já estava bem novamente. Nesses cinco dias recuperando suas forças internas, rezou muito. Sabia que essas coisas aconteciam. A abstinência aos impulsos sexuais era uma das provas mais intensas que um servo de Deus poderia se submeter. E Corazon não era imune a isso. Conforme ensinava a Igreja, o desejo pelo prazer sexual faz parte da natureza humana, mas que a felicidade e o prazer não eram ligados a isso. Este prazer era um ato egoísta e individualista, enquanto o verdadeiro conhecimento do parceiro - o amor puro - poderia estar sendo camuflado. Ele sabia que o amor dela era puro. Ela era pura. Mas isso poderia ser transformado em um ato pecaminoso, tanto para ela como para ele. Ele tinha um dom, uma vocação a ser seguida. Uma vocação jurada para Frei Sengoku, o homem que o ensinou os valores e as lições de sua religião. Ele jamais a induziria ao pecado com a sedução. Sim, ele sabia que a amava. Mas jamais, lutaria com todas suas forças, seduziria ou se aproveitaria desse amor primário, como ela mesma definiu.