Se um dia as pessoas viessem a dizer que poderiam estar em um relacionamento, nem me importaria; seria honestamente adorável ouvir isso, mesmo sabendo que seria um escândalo. Eu amava aquele homem, de fato. Parece que eu já o amava, desde quando aquela garota irritante de cabelos rosados esfregava certas coisas acerca dele na minha cara.

Aos poucos eu o percebia acuado e tímido diante do que eu falava. Ele era inseguro mesmo de cair em tentação ou passar ideia errada para meu pai e irmão. Imagino que, na situação dele, passar a impressão de abuso de confiança era uma coisa horrível. Mas ele sempre tão respeitoso comigo, tratando-me como se ainda fosse aquela menina de doze anos. Ele evitava mais os contatos físicos simples. Era muito estranho para mim, mas eu entendia, até mesmo porque eu o amo.

Eu me contestava com certos votos que os sacerdotes de Deus deveriam obedecer. Por que deveria seguir esse voto de castidade? Por que o homem mais perfeito que conheci era um desses sacerdotes? Por que meu coração veio a se apaixonar por ele? E ainda sou uma completa ignorante em confiar indiretamente esse meu segredo nele. Mas isso é uma escolha dele. Eu não tenho nada a ver com isso. Mas... doía por dentro. Espero que Padre Corazon nunca venha a se afastar de mim por causa de algum tipo de insegurança. Mais uma vez... vivendo distante dele... não vai dar para eu aguentar novamente.

...

|Você| sentia aos poucos aquele "calor" com o convívio dele. Desde os tempos do internato, quando ele sempre estava |contigo| dando aulas ou simplesmente rezando juntos na igreja local. Agora ela entendia... que aquilo era o início de uma atração mais que amistosa. Era mais que um amor puro. Era uma sensação inexplicável. Era como se tivesse alguma substância fervendo dentro do peito. Sentia uma espécie de magnetismo que a ligava ao padre.

E ele sentia o mesmo, porém de forma mais dramática. |Você| era livre para amar quem quisesse, Corazon não. Ele só aceitou ficar hospedado na casa de Roger apenas até achar outro lar onde pudesse viver mais livremente. Mas não imaginava ter que lidar com aquela situação. E pior que, quanto mais |você| demonstrava o amor indiretamente – por mais discreta que fosse, |você| não escondia o que sentia pelo olhar -, mais ele se sentia atraído por aquilo. Já havia passado por diversas provações, por mulheres que o provocavam diretamente – como sua amiga Bellemère – e tentavam desviar de sua vocação, e sempre havia resistido com facilidade. Por que... justo com aquela "menininha"?

Os meses iam passando e as coisas pioravam aos poucos. O Natal estava chegando e Corazon estava ocupado com diversas tarefas da universidade; com isso, distraía-se com as tarefas. |Você| passava em casa na maioria do tempo, pois seu pai e irmão não queriam que se expusesse demais lá fora. Com isso, |você| ajudava nas tarefas de casa, enquanto também estudava nas horas mais livres. Lia muitos livros do padre às escondidas. Adorava aquelas filosofias teológicas, ao mesmo tempo em que discordava de algumas.

Numa certa tarde, |você| estava na janela, observando o frio chegar aos poucos, junto com aquele clima delicioso de Natal. |Você| apreciava aquilo – fora daquele internato, onde os Natais eram muito sólidos e monótonos. Distraída com o movimento da rua abaixo de sua janela, deixou-se levar por diversos pensamentos. Dos piores, dos quais nenhuma moça virgem deveria pensar. Dos mais libidinosos. Deixou se levar pelas fantasias onde era tomada por aquelas mãos castas e fortes e abraçada calorosamente por ele. Podia sentir os lábios dele percorrerem todo o |seu| colo. |Suas| próprias mãos no peito dele, podendo sentir um pouco das batidas daquele coração tão puro. Os lábios finos dele tocando os lábios |tipo dos seus| em um beijo. Sequer havia dado um, mas |você| podia sentir apenas pela imaginação o hálito dele, o toque dele...

|Você| acordou de suas imaginações ao ouvir aquele que desejava secretamente gritar lá de baixo.

– Ei, |seu nome|! Venha aqui, quero te mostrar uma coisa!

– Já... já vou! – |você| o avisou com as faces meio coradas.

Ele havia trazido um filhote de |seu animal doméstico favorito| que estava machucado e precisava de cuidados.

– Eu comentei e pedi ao seu pai se poderíamos cuidar dele até que possamos encontrar um dono para ele.

– Ahhh... queria muito ficar com ele!

– ...acho que seu pai não aparenta querer ficar com ele.

– Vou convencê-lo! Ahhhh... é tão bonitinho!

Ele deu para você o bicho. Nesse momento, ambos não puderam evitar olhares que revelavam seus sentimentos. Com |seu animal doméstico favorito| nas mãos, |você| pode entender um pouco daquele olhar e ele, o |seu|. Depois de alguns segundos, ele parou de olhá-la, indo pegar a caixa onde o animal de estimação foi encontrado.

– Convencerei meu pai a ficar com ele, Corazon! Ah, vou.

– Então tenta você... pelo jeito que me falou, só vai deixar para nós cuidarmos dele.

...

A véspera de Natal estava bem fria, com pequenos flocos de neve caindo do céu. Mas nada que tirasse o bom humor de |sua| casa. |Você| fez questão de ajudar na cozinha, enquanto Roger e Ace só resolviam as contas de negócios da empresa que trabalhavam. Corazon estava na igreja, atendendo confissões. Reencontrou Sengoku que estava na cidade apenas para celebrar a missa de meia-noite.

– Sua bênção, Frei.

– Deus o abençoe. Mas entre nós, não me chama de frei. – disse o homem de longa barba, batendo na cabeça dele de forma brincalhona – mas e então? Quer aproveitar o momento para se confessar também?

– Sim, eu ia fazer isso com o bispo que cuida dessa igreja. Mas se estiver fazendo confissões, gostaria de fazê-la com meu melhor amigo.

– Hahaha, mas não estarei fazendo confissões, apenas vou fazer isso para você. Para que possamos colocar os assuntos em dia.

No fundo, Corazon sentia certo temor. Jamais poderia esconder abaixo dos olhos de Deus segredo algum diante de uma confissão. Talvez... com Frei Sengoku, o homem que havia ajudado a crescer com dignidade e o qual confiou seus segredos, poderia se abrir.

– ...sim. Eu... tive um pouco dessa fraqueza... jamais pensaria que alguém pudesse mexer comigo assim inconscientemente.

– Heh... entendo. Mas isso é normal, Corazon.

– ...normal?

– Sim, claro. Sei que ficou uns tempos convivendo com aquela espevitada da Bellemère... talvez, seu inconsciente tenha voltado aos tempos de adolescência e... tenha voltado a sentir os impulsos típicos dessa fase. Não é?

– Sim... sim. – ele concordou, mesmo sabendo que não era Bellemère quem lhe despertou os inconscientes desejos carnais.

– O importante é o sacrifício da resistência diante de todos os luxos. Afinal de contas, somos animais. Mas temos o dom da inteligência suprema, o que nos dá a faculdade de selecionar o bom do mau comportamento – ele se levantou da cadeira – bem, poderia me ajudar com minhas coisas?

– Mas... e a penitência?

– Deixa-me ver... quatro Pai-Nossos já é o suficiente, está bem?

Somente à noite é que todos puderam parar e juntos permanecerem. Roger esperou a meia-noite para ir com o padre e os filhos até a igreja assistirem a Missa do Galo. |Você| estava radiante com um vestido longo de seda, de cor |sua favorita|. Os |seus| cabelos moldavam um bonito penteado. Os três olharam fascinados |você| quando a viu descer pela escada.

– Agora estamos todos aqui, podemos ir? – disse Ace, indo até a porta.

– ...acho que deve colocar sua capa, |seu nome|. Está nevando muito lá fora e pode prejudicar seu visual. – disse o pai, mas não com essa real intenção; queria apenas proteger a filha dos olhares de gavião dos outros homens.

– Sim, eu vou coloca-la! – |você| concordou.

– Ah, e o |seu animal doméstico favorito|?

– Está com a Baby 5. Ela o adorou, também.

– Viu só, papai? Todos aqui gostaram dele! Por que não ficamos com ele?

– Ah, de novo essa ladainha! Já disse que vou pensar. Se não destruir a casa durante um mês, ele fica.

– Ahhh! Obrigada! – |você| abraçou o homem.

– Bom, vamos logo que estamos atrasados! – Ace reclamou novamente.

Na igreja, |você| pode conhecer os amigos e colegas do pai e do irmão do trabalho deles. E rever alguns conhecidos também, como Eustass Kid. Assim como alguns dos homens ali, o ruivo não pode evitar o olhar com admiração para |você| e |seu| visual.

– Acho que já se conhecem, não? – Corazon cortou aquele momento, não apreciando muito aquilo.

– Sim, foi o senhor mesmo quem me apresentou. – disse o ruivo, sem tirar os olhos de |você|.

– Eu me lembro disso, padre... – |você| disse também.

– O... senhor está morando com ela?

– Bem, estou previamente na casa do pai dela, até que ache uma casa para eu morar.

– Ahh... bem, a missa vai começar e... – voltou a |te| dirigir a palavra – gostaria de me acompanhar e assisti-la comigo? Depois, retorná-la-ei para o Padre Corazon.

|Você| e Corazon se olharam. |Você| não sabia o que dizer e o loiro não sabia como reagir sem deixar nenhuma brecha para maus julgamentos.

– Bem... o pai dela confiou-a em mim. Não sei se seria correto entrega-la a um rapaz que somente é conhecido meu. – justificou Corazon.

– É, tem razão... – disse Kid, concordando com um toque de embaraço.

– Mas ele pode nos acompanhar. – sugeriu a garota dos cabelos |cor dos seus|.

– Bem...sim.

– Ih, lá vem o Bellamy. – disse Kid, olhando para o lado e vendo a criatura sem modos discretos se aproximando.

– Oi, mestre! – saudou em voz alta o loiro, que parou surpreso diante de |você| – e... quem é essa bela moça?

– Essa é uma pupila minha. – respondeu o padre, sério.

– Logo, não é dessas com quem você se aventura! – disse Kid, encarando-o.

– Ora, Eustass! Sei muito bem com quem lido! E não diga essas coisas diante de uma garota!

– Bom, vamos andando, a missa já deve ter começado! – o padre tratou de leva-la na frente, sempre perto dela.

...

|Você| nunca se sentiu desconfortável em uma missa como aquela. Mesmo todos sendo tão bem amistosos e até aceitos pelo pai dela em ficar com eles, os dois alunos universitários de Corazon não conseguiam esconder seus olhares para |você|. Havia outras moças ali tão bonitas também e |você| se perguntava por que elas não chamavam a atenção deles dois. Talvez... por sair tão pouco de casa, deveria ser isso. Roger raramente apresentava sua filha para os outros.

Corazon sentiu-se desconfortável ao perceber olhares fervorosos em sua pupila. O pai desta estava concentrado na missa e o irmão flertando alguma outra moça qualquer ali perto do banco onde estavam sentados. Se Ace percebesse que faziam o mesmo com sua irmã... era o que o loiro com capuz de sua roupa de padre pensava.

Ao fim da missa, Roger pediu para que o padre levasse a filha para a casa, já que ele e o filho ficariam para uma ceia de negócios (e de farras entre os amigos, mas ele não quis falar isso ao padre). Deixou |você| totalmente responsável por ele.

– Eu os acompanho até a saída da igreja. – ofereceu-se Kid.

– Não passariam conosco em nossa ceia de Natal? – Bellamy fez o convite para o padre, que sempre passou a ceia com seus alunos mais próximos.

– Dessa vez, não. Mas amanhã almoçarei com vocês, prometo.

Bellamy rapidamente olhou para |você| e voltou a olhar para o padre.

– Terei que deixa-la em casa, pois o pai e irmão dela saíram para uma ceia entre amigos dele e não quer deixa-la acordada até muito tarde.

– Entendo.

– Mas amanhã ele vem para almoçar conosco! – disse Kid, dando um leve soco no ombro de Bellamy.

– Ei, calma aí!

– Já vão brigar?

– Eu vou é comer e beber, que meu estômago está reclamando! Tenham uma boa noite de Natal!

E ele se retirou. Quando foi a vez de Kid se separar dos dois, pediu algo para |você|.

– A senhorita... poderia me conceder um beijo?

Corazon olhou para ele sério, enquanto |você| não conseguiu encará-lo. Kid consertou aquelas expressões com uma justificativa.

– É Natal! Pessoas costumam trocar beijos amistosos entre si. Não é mesmo, padre? – perguntou o ruivo.

– É isso mesmo? – |você| quis confirmar isso dos lábios do padre.

– Sim... uma tradição. – Corazon conseguiu a tranquilidade na resposta de forma milagrosa – para a cara que ele não tinha conseguido disfarçar... foi um milagre ter tido uma reação tranquila.

Vendo que havia causado um desconserto, Kid foi até seu mestre e ambos trocaram beijos na face. Depois, foi para |você| e fez o mesmo, apenas de uma forma pouco mais demorada. Silenciosamente, ele apreciou o |seu favorito| perfume. Após terminar o beijo, trocaram novamente bons votos natalinos e os dois foram para a casa.

Em casa, |você| avisou que Roger e Ace passariam a hora da ceia fora e que já poderiam servir. |Você| permitiu os criados cearem juntos. Apreciando |seu| gesto, ele concordou. Após a ceia rápida, todos se recolheram. Corazon ia se recolher logo, mas |você| não quis.

– Eu... não queria ficar sozinha. Vamos passar a noite conversando?

– Estou cansado, |seu nome|. Fiz muita coisa hoje... e queria dormir... – ele nem estava tão sonolento, mas ficar a sós com ela... não seria muito bom para ele e nem para ela.

– Tudo bem... então durma na sala, perto da fogueira, assim fico lá também, até pegar no sono. – pediu normalmente, indo pegar as colchas de dormir para cada um dormir individualmente em seu canto.

– ...está certo. Não quero que se sinta sozinha. – pegou um dos colchões e se ajeitou perto da fogueira. Do outro lado, |você| estava enfiada no colchão similar a um típico saco de dormir.

O sono ainda não tinha pegado os dois. Ficaram em seus cantos, não muito distantes um do outro, perto da fogueira confortante.

– Padre... fiquei pensando em uma coisa aqui.

– Diga.

– Um beijo de Natal é tradicional?

– ...sim.

– E então por que ainda não trocamos os nossos?

– ...agora? – ele perguntou encabulado.

– ...você quem sabe... – |você| mudou de vista, ao vê-lo tão encabulado. – mas não precisa fazer isso se não quiser...

Ele se aproximou, sem sair daquele colchão. E |você| fez o mesmo. Pareciam duas panquecas enroladas, cozinhando confortavelmente naquela fogueira. Olhando bem nos |cor dos| seus olhos, Corazon sentia-se perdido, mas sentia que deveria encará-la ao mesmo tempo. E ver que aquela criatura era uma filha de Deus como todas as outras. Uma filha de Maria, da casta e pura jovem, e não de Eva, da seduzida e pecadora. |Você| aproximou os lábios e beijou-o no rosto, demoradamente. Era uma bochecha morna, rosada, a do padre. Depois, |você| esperou a vez dele beijar. Assim o fez, não tão demorado, mas dando para sentir a maciez e o calor da pele |tipo da sua| que |você| tinha.

– ...espero que esse beijo não seja pecaminoso. – |você| comentou, bem próxima a ele.

Ele quase revirou os olhos, mas manteve firme, encarando-a nos olhos.

– Não... nem amar é pecaminoso... mas é algo que deve ser evitado por alguns.

– Então... não é pecaminoso para mim te amar?

– Não... mas sinto pela dor que vou te causar, por não corresponder. – disse seriamente, olhando bem no fundo dos |seus| olhos.

– Entendo... – você voltou para o canto de onde estava, ainda olhando para ele. Corazon continuou ali, olhando para ela.

– Por favor... peço que não me faça sentir peso dentro do meu peito... não quero te machucar, |seu nome|.

– Não... jamais me machucaria obedecendo a sua castidade. Homens só machucam quando violam a confiança da mulher e a tomam contra sua vontade. Você nem de longe faria isso, sei disso. – voltou a se aproximar novamente – até mesmo porque... você jamais precisaria violar a minha confiança para me ter em suas mãos, se quisesse.

– Chega! Vou dormir e acho que você deve também. Tenha uma boa noite!

Rocinante voltou para seu canto e se enrolou no cobertor, indo dormir. Por fim, |você| fez o mesmo. Ele teve que fingir o sono por quase uma hora, pois não queria ouvir mais nada dela acerca disso.