De início, nada aconteceu.
Depois, o chão do templo tremeu.
Não.
Parecia que a terra inteira havia tremido.
Ichigo, que se debatia contra as correntes de Minako, olhava para os lados desesperadamente tentando entender o que tinha acontecido. Subitamente, as correntes que o prendiam desapareceram.
Outro tremor.
Ichigo se apoiou numa coluna próxima, zonzo, e procurou Minako. Finalmente ele a encontrou, paralisada, diante da estátua.
A estátua...
Ele não teve tempo de conferir o que se passava com Minako, porque rapidamente seus olhos voaram para a figura do deus lobo.
Chakra.
Chakra.
Toda a estátua estava assustadoramente coberta de um chakra prateado denso. E então, começou.
Primeiro um zumbido baixo, depois se transformou num chiado e, por fim, os gritos se separaram e podiam ser claramente ouvidos por aqueles que estavam nas redondezas do templo.
Gritos.
Não de surpresa, nem de felicidade, de excitação.
Eram de horror, de sofrimento, de uma agonia profunda.
Todos na sala foram tomados por uma súbita vontade de enlouquecer ou de furar os próprios ouvidos para assim se livrarem dos gritos.
Ichigo sentiu todo o seu corpo vibrando diante do som, e por fim ele começou a escutar além deles.
Vozes.
Inúmeras delas.
'Salvem o meu marido!'
'Não me mate!'
'Ele está morrendo!'
'Tenha piedade, pelo amor dos deuses!...(rasg) AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!'
'Meus filhos...NÃÃÃÃOOOO!'
'TOOOOOU-CHAAAAAAAN!'
'YAMEROOOOOAAAA!'
–Mas... o que...? – Ichigo sentia que sua cabeça ia explodir. – AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! PAREM, PAREM, PAREM DE GRITAR!
Roshi, que estivera até então petrificado diante da visão do chakra prateado, foi despertado pelos gritos de Ichigo. Correu até o rapaz e segurou-o. Porém, quase imediatamente, ele jogou a cabeça para a direita e vomitou. Suas pernas ficaram bambas e ele despencou para a esquerda, caindo sobre o tronco do velho.
–Ichigo-chan! – chamou Roshi, alarmado. – Ichigo-chan!?
–Essas... vozes... parem... – tossiu o shinobi num gemido fraco.
Os olhos do shinobi ancião faiscaram. A afinidade de Ichigo...
CRUNCK! CRACK!
Roshi ergueu os olhos.
Pelos deuses!
O chakra era tão forte que estava afetando a estabilidade da estrutura do templo. E pior: agora não se via mais a estátua através do chakra translúcido. A energia se massificara em torno do lobo e ganhava cada vez mais solidez.
–SAIAM DAQUI AGORA! – gritou o ex-ancião o mais alto que a idade permitiu.
Agarrou Ichigo, jogou-o sobre o ombro e vasculhou o recinto atrás de Minako. Ela continuava parada, olhando hipnotizada para o deus lobo.
–MINAKO-CHAN!
Roshi saltou para ela e fixou seus olhos leitosos nos cinzentos vidrados da ex-aluna.
–Genjutsu...
Ele ergueu uma mão e com um sinal de mão, exclamou:
–Kai!
Os olhos de Minako brilharam, mas logo ela perdeu os sentindos, caindo nos braços de seu antigo mestre.
Roshi saltou para fora do templo e, depois de verificar que todos haviam saído, assistiu à queda da antiga construção tradicional de Uzu no Kuni.
Então uma onda de pânico assaltou o velho.
Se os outros haviam saído do templo, todos os selos haviam sido desfeitos!
Olhou para os lados.
Todos estavam congelados de medo.
O que fazer?
–Saikikku Kane Fuin: Selo do Caranguejo Psíquico!
Correntes se enrolaram e assumiram a forma de um caranguejo gigantesco, que avançou para a estátua de pedra e prendeu-lhe a cabeça.
–Susumo! – exclamou Sango, que estava parado ao lado do neto. Não se sabia se o anicião estava mais embasbacado com a estátua ou com a iniciativa de seu oitavo neto.
–Essa coisa vai começar a se mexer daqui a pouco! Selem-na de uma vez! – protestou Susumo.
A voz de Susumo pareceu tirar todos de um genjutsu. Os ninjas balançaram suas cabeças e recompuseram-se.
–Tomiko, Natsuko, Aimi, Take-Ugh! – Susumo gemeu quando o chakra da criatura forçou seu selo. Respirou fundo e terminou – Etsuko, Harumi, Mamoru! Refaçam o Karada Fuin!
Todos assumiram suas posições.
Roshi tomava conta de Minako e Ichigo. Balançava rapidamente o ombro dos dois, mas nada de acordarem. Então, decidiu infundir chakra em ambos.
O primeiro a acordar foi Ichigo.
–PUÁ! – cuspiu ele, como se tivesse acabado de ser resgatado de um afogamento.
–Ichigo-chan – chamou o velho em tom solene. – Daijobu?
–H-hai. – gaguejou o jounin. Ele balançou a cabeça e olhou para a estátua, que ainda borbulhava chakra.
–O que você estava ouvindo? – perguntou o antigo ancião.
–Vozes. Gritos horrorosos, como se estivesse no meio de um campo de batalha com civis e soldados misturados.
Roshi voltou os olhos para a estátua.
–Você sabe de onde estão vindo os gritos?
Ichigo abriu a boca para responder, mas, com uma tragada violenta de ar, Minako acordou.
–AAH! – ela sentou. Olhou para os lados e reconheceu o marido e seu sensei. – Roshi-sensei! Ichigo! A bijuu!
Seu companheiro firmou-a pelos ombros.
–O que há de errado?
–Há uma coisa nela que eu não previ! – os olhos dela se arregalavam cada vez mais. – O chakra – ela olhou para o deus lobo borbulhante de energia. – O chakra que foi absorvido pela estátua... O filtro que usamos para barrar as emoções que se misturam ao nosso chakra não foi 100% efetivo.
–Como assim?
Ela respirou fundo.
–O chakra tem a capacidade de absover as nossas emoções, e com isso ganhar uma característica única. Por isso os ninjas sensitivos conseguem detectar uma pessoa através dele. É como uma impressão digital. Para detecção essa propriedade é fundamental, porém para formar uma bijuu, não. Eu sabia que não seria bom se as emoções fossem junto com o chakra, por poderia desestabilizar tudo. Colocamos um "filtro", que neutralizava a energia, tornando-a neutra. Porém não funcionou como queríamos. As emoções mais fortes, que se misturam mais fortemente com o nosso chakra e que são de maior peso para definir a nossa natureza energética... Elas não foram filtradas.
Ichigo compreendeu tudo num estalo.
–Você também escutou?
–O quê?
–Os gritos.
Minako o olhou, assustada.
–Não... Eu vi as lembranças das pessoas através do meu jutsu quando acordei a bijuu. O que você escutou?
Ichigo suspirou e tremeu.
–Eu-
–Não se desespere – interferiu Roshi. – Não se esqueça que sua afinidade de detecção é através da influência das emoções sobre o chakra, Ichigo.
O que era bem verdade. Uzumaki Ichigo pertencia à Força Policial de Uzuhiogakure, e atuava nos interrogatórios. Nenhum shinobi jamais fora capaz de passar-lhe a perna. Era como se o shinobi fosse capaz de ler a verdade escrita no chakra do interrogado. Qualquer alteração no chakra, Ichigo era capaz de perceber emoções que poderiam apontar para uma mentira.
–O que você ouviu? – repetiu Minako.
–Os gritos. Agore eu entendo. Escutei tudo aquilo que você viu.
Minako estremeceu.
–Eu sabia que não era uma boa idéia criar uma coisa dessa... – sussurrou Roshi.
–DAMARE! Depois discutiremos isso velho! Vamos selar essa coisa!
Minako se levantou e encarou a estátua, mas antes que começasse a correr, seu mestre segurou sua mão.
–Eu sei o que você está pensando.
Ela o encarou com raiva.
–Me solta.
Ele voltou a balançar a cabeça, irritando ainda mais a ninja Uzumaki.
–Com o chakra que lhe resta, não vai conseguir selá-lo sem morrer.
Ichigo congelou.
Sua esposa olhou para ele, receosa.
–Onde você quer selá-lo?
A shinobi ficou em silêncio.
Enfurecido, o ninja segurou seu braço com violência e a puxou para mais próximo de si.
–VOCÊ QUER SE TORNAR UMA JINCHUURIKI DESSA COISA?
–Esse era o plano desde o início!
–Você nunca me disse nada!
–Porque eu sabia que você seria contra.
–EU ME IMPORTO COM VOCÊ! É POR ISSO QUE EU SERIA CONTRA!
Minako se assustou com a súbita elevação da voz do marido, cheia de angústia.
Vagarosamente, ele soltou seu braço, e a ninja massageou-o levemente.
–E a nossa filha? – perguntou Ichigo, baixando a cabeça.
Minako permaneceu em silêncio. Por fim, arriscou:
–Olha, eu-
FIIIIIISH, FISH, FISH, FIIISHHHHH!
Um barulho encheu o ar, fazendo o vibrar.
–Mas o que- - começou Ichigo, mas logo se interrompeu, abrindo a boca num "o" de horror.
A estátua, que antes borbulhava em chakra denso, agora ganhava vida. E a primeira coisa que ganhou movimento no corpo da bijuu foi...
As caudas.
Uma gritaria se instaurou quando os shinobis vislumbraram as caudas da criatura. A pelagem que as encobria era de um prateado brilhante, com alguns respingados brancos. Na ponta das cinco caudas menores brilhavam bolas de energia, cada uma de uma cor. E as duas caudas maiores chiavam ainda mais alto que as outras, agitando-se no ar com violência, causando fortes rajadas de vento. Chakra borbulhava da cauda prata opaco e as bolhas que se soltavam eram atraídas pela cauda azul, de chakra positivo. Assim que os dois tipos de chakra se tocavam, havia uma explosão.
BUM! BUM! BUM!
Uma explosão seguida da outra. Não havia mais como manter aquilo em segredo dos outros.
–Evacuem a Vila! – berrou Sango. – Já que não foram capaz de manter a barreira, andem e ajudem a evacuar a vila!
Sango estava profundamente irritado com os ninjas responsáveis pela barreira que rodeava o templo do lado de fora. Ele os mantivera lá pensando que conteria a criatura e os ninjas que eram a favor da criação da bijuu. Mas no primeiro tremor, a barreira ruiu.
O time de ronda e o da barreira externo desapareceram no mesmo instante.
Roshi se prostrou diante do grupo.
–Não tem remédio. Irei usar o Hakke Fuin e vou arrastar essa besta comigo junto para o Deus da Morte.
O corpo do lobo agora ganhava vida. Era possível ver o pêlo das patas e as garras brancas gigantescas.
–Roshi-sama, não faça isso! – berraram Takeo e Etsuko.
–Minha vida não fará falta em Uzushiogakure. Já passei do meu tempo.
Ele se adiantou e se preparou para realizar os selos.
Minako estava um pouco atrás, encolhida.
Sua cabeça zunia. Tudo parecia girar.
Ela queria viver.
Queria continuar a viver com Ichigo e sua filha.
Mas também queria proteger o País e a Vila do Redemoinho.
Queria fazer valer a vida que seu pai dedicara àquela besta que se erguia à sua frente.
Tou-san...
–Prendam-no antes que desperte. Eu irei selá-lo agora.
Os ninjas se posicionaram e, concentrando-se juntos, lançaram suas correntes de chakra que envolveram o meio lobo. Assim que as correntes envolveram suas patas, o lobo protestou, agitando-as aleatória e furiosamente.
Ichigo voltou a ouvir os gritos. Sua corrente de chakra fraquejou, mas ele continuou lutando.
Roshi começou:
Cobra, porco...
–YAMERO!
O grito de Ichigo cortou novamente a noite
Minako corria na direção da bijuu, pulando sobre as árvores que rodeavam o bosque. O lobo já assumira sua forma até a base do pescoço.
Faltava a cabeça.
Ichigo recolheu a corrente de chakra e correu atrás da esposa. Porém, os gritos ainda lhe faziam zumbir os ouvidos e rodar a cabeça, e ele mal via o caminho à sua frente.
–MINAKOOOO!
Ele gritava, e ela continuava correndo. Avançando na direção da bijuu quase completa.
O shinobi ergueu os olhos e viu a pelagem prateada cobrir as enormes orelhas pontudas do lobo.
–MINAKOO! VOLTE AQUI! POR QUE ESTÁ FAZENDO ISSO?
Parecia que ela nunca ia parar, estavam perto demais da cara do monstro. Tinham subido nas arvores mais altas do bosque, e depois num rochedo isolado.
Chegando ao topo, a Uzumaki estacou.
Por um breve momento, Ichigo se encheu de alívio achando que ela finalmente havia escutado, mas percebeu tarde demais onde estavam. .
Estavam frente a frente com os olhos da bijuu.
Ele saltou e parou logo atrás de Minako. Agarrou-lhe pelos ombros, mas o corpo da esposa estava rijo feito pedra.
–POR QUE VOCÊ NÃO ME ESCUTA? – berrou ele balançando seus ombros violentamente.
Ela não se virou.
Foi aí que ele percebeu os olhos.
Ergueu lentamente a cabeça e vislumbrou duas enormes córneas totalmente negras e brilhantes.
As vozes aumentaram de volume, e pareciam agora cada vez mais sincronizadas.
Minha cabeça vai explodir.
O Uzumaki dobrou-se sobre si, ao mesmo tempo em que as vozes em sua cabeça entravam em perfeita sincronia.
A bijuu jogou a cabeça para trás e urrou.
Ichigo, em agonia, berrou e, em seus ouvidos havia um único e ensurdecedor grito:
"SOCORRO!"
–Querido!? Está me escutando?
Ichigo escutava uma voz longínqua que lembrava a da sua esposa. Gradualmente o volume foi aumentando, até que ele percebeu que ela estava debruçada ao seu lado.
–Ai Graças aos deuses! – suspirou ela quando o shinobi se mexeu.
–O que aconteceu? – perguntou ele.
Ela olhou para os lados, nervosa. Mordeu um lábio e tentou explicar:
–A bijuu enlouqueceu. Eu ia selá-la, mas você gritou tão alto, numa agonia tão grande, que a única coisa que pensei em fazer na hora foi te tirar de lá.
O ninja olhou com carinho para a esposa. Tocou-lhe levemente o rosto.
–Obrigado.
Ela se levantou.
–Ichigo, me desculpe. Mas eu vou ter que selar aquela coisa em mim.
Ele se sentou no chão do bosque.
–Você sabe que vai morrer não é?
Minako ficou quieta.
–Se morrer, você falhará.
Ela manteve-se calada.
–Porque quer tanto se tornar a jinchuuriki?
Ela virou-se lentamente e olhou profundamente nos olhos do marido.
–A bijuu foi a única coisa que restou do meu pai.
Ichigo ficou sem saber o que dizer.
Sabia o quanto o pai fizera falta na vida de Minako, principalmente pelo fato de sua mãe ter morrido cedo demais.
O ninja se aproximou da esposa e a abraçou.
–Eu entendo.
Ela agarrou-se a ele, desamparada. Não queria desafiá-lo, ir contra sua vontade. Mas era necessário.
–Preciso-ir.
–Eu vou com você.
–Não!
–Minako, encare os fatos. Se selar a bijuu inteira em você, você morre. E junto com você, o legado do seu pai.
A Uzumaki engoliu um seco. Ichigo segurou-lhe as mãos e disse:
–Vamos fazer o seguinte: você vai selar metade do chakra da bijuu em você, e a outra metade... em mim.
Ela ergueu os olhos, embasbacada, para o marido.
–Nani? Ya! Ya! Você não tem nada a ver com isso!
–Tenho sim. Se tem a ver com você, tem a ver comigo.
A ninja permaneceu quieta por um tempo.
–Prometa pra mim que não vai morrer. – disse ela por fim.
–Prometo.
