Kailina andava com a cabeça baixa. O rabo de cavalo prendia seus cabelos negros no alto da cabeça, e as mechas soltas que deixava brincavam diante de seus olhos. Uma delas, a direita, era ruiva, e refulgia contra o sol como se pegasse fogo. Toda vez que a segurava entre os dedos se lembrava das fotos que tinha de quando era bebê.
Por que meu cabelo escureceu?
Uma latinha de refrigerante interpôs-se entre ela e seu caminho. Ergueu o pé e chutou-a ruidosamente. Parou. Olhou para os lados.
Ninguém sequer notara o que ela havia feito.
Comprimiu os lábios e continuou caminhando.
Por quê?
Por que as pessoas não viam que ela estava lá?
Estava passando agora pela parte comercial da rua. Havia muita gente, e ela tinha que tomar cuidado para não esbarrar em ninguém. Porém, quando ia passando em frente à loja de peixes, um homem alto esbarrou com força na pequena, derrubando-a no chão.
–Itê-tê-tê...
–Mas o que foi isso? – resmungou o homem. Ele olhou para os lados, mas não vu ninguém. Por fim, olhou para o chão.
–Ah, foi você... Olhe com mais atenção por onde anda garota!
–H-hm. – ela balançou a cabeça numa mistura de espanto e felicidade por ter sido notada.
–Querido? – uma voz veio por trás do homem. – O que foi?
Eles já haviam recomeçado a andar, sem nem ajudar a menina a se levantar.
–Esbarrei num menininho ali...
Menininho... Menininho...
A palavra masculina ressoou na cabeça de Kailina.
Era sempre assim.
As pessoas nunca se lembravam dela como deveriam. Confundiam-se em suas lembranças. Não se lembravam de vê-la passar na rua. Não guardavam suas fisionomias.
Ela era invisível por acaso?
Recomeçou a andar.
Passou por um parque onde crianças brincavam. Num banco próximo, um garoto rabiscava num caderno de desenhos. Sua lingüinha estava para fora, apontada para cima, indicando que estava dando tudo de si.
–Aaaaahh... – ele resmungou. – Não é assim!
Ele deixou o lápis no colo e pegou a borracha, apagando cuidadosamente uma parte do desenho.
O barulho do frush frush da borracha penetrou nos ouvidos de Kailina.
Frush, frush, frush, frush...
Sua barriga começou a queimar. Ela gemeu e baixou a cabeça.
Frush, frush, frush...
Recomeçou a andar. Porém suas pernas estavam bambas, a barriga, quente.
Frush, frush...
Olhou para as próprias pernas.
Enquanto caminhava sob a luz quente do sol, a garota sentiu a dor cedendo aos poucos e todo o corpo ficou mais leve. Por um instante se sentiu bem, mas logo depois se lembrou do barulho da borracha.
Frush...
Sentiu como se tivessem acabado de apagá-la.
–Onde está a Kairina!? Ela ainda não chegou?
–Tô aqui.
Os três jounins deram um pulo quando a voz da menina soou atrás deles.
–Kairina! Pela lança de Susano'o! Não nos assuste assim...
–Gomen... – ela fez um biquinho.
Parecia que, quanto mais o tempo passava, maior era a falta de presença de Kailina. Escapava facilmente daqueles encarregados por ela, andava o dia todo livre pela Vila, e só era achada quando permitisse que a vissem.
Kairina vai dar uma ótima shinobi para missões de infiltração, pensou mestre Hisashi, o líder da Vila oculta dos Uzumaki remanescentes.
–Yosh! Escutem. – ele se empertigou em sua cadeira e olhou sério para os quatro que se apresentavam à sua frente. – É importante para nós, sobreviventes da catástrofe de Uzu no Kuni, mantermos relações diplomáticas de qualidade com países mais poderosos e outras Vilas. Assim, teremos apoio para reconstruirmos o nosso clã e ascenderemos novamente.
"É por isso que irei enviar vocês quatro para essa missão. Quero que levem essa carta para o Kazekage, o líder de Sunagakure. A missão é bem simples, porém, durante a sua execução iremos nos focar num ponto ainda mais importante."
Ele fez uma pausa e focou a menina acanhada de cabelos negros.
–Kairina, essa será uma missão importante para você. Será uma longa viagem, e isso servirá para você conhecer mais o mundo no qual você estará inserida e os perigos que te esperam. Sei que você é uma menina extremamente otimista, mas você não pode deixar que seu otimismo a torne ingênua.
–H-hum. – Kailina fez um muxoxo de compreensão.
–Não se esqueça que com você é a maior esperança dos Uzumaki! – Hiashi se levantou e foi até a garota. Parou diante dela, abaixou-se e fitou-a nos olhos. Sua mão subiu para sua cabecinha infantil, acariciando exatamente no único ponto em que seus cabelos não eram negros. A mexa de fios ruivos que atravessava a cabeleira da pequena Uzumaki era a única lembrança dos poucos momentos que fora livre.
Como se estivesse reagindo à fala do chefe da vila, sua barriga começou a queimar. Já estava acostumada com a constante asia que a acompanhava quase todos os dias de sua vida, mas não deixava de ser uma pedra do sapato.
A menina pousou a mão sobre a barriga.
–Vou dar o meu melhor. – completou ela, insegura.
Ele sorriu, orgulhoso, para ela.
Kailina não entendia direito. Como ela poderia ser a esperança deles? Eles mal lembravam que ela existia! E ainda assim, os anciões da Vila viviam repetindo que ela era a maior a esperança deles. Então por que a ignoravam?
Hiashi tinha um carinho muito grande pela menina. Mas, juntamente com esse carinho, ele carregava uma culpa gigantesca. Sabia que tudo de ruim que se passava com a garota, de alguma forma, era por sua causa. É por isso que dedicava-se à menina sempre que encontrava tempo. Gostava muito de conversar com ela, mas, às vezes, a garota o surpreendia com perguntas não muito fáceis de responder...
Flashback on
–Hiashi-sama, então as pessoas nunca irão me ver?
Ele pareceu pensar um pouco.
–Ah, irão sim. Você é especial, Kairina. E é por isso que você tem que treinar. Se tornará uma shinobi muito forte.
Ela abriu um sorriso tímido.
–Será que vou conseguir? – perguntou ela.
–Se acreditar que vai... Com certeza você será a shinobi mais incrível dos Uzumaki.
Ela abriu um sorriso mais largo, cheio de esperança. Os olhos azuis da pequena brilharam com reflexos faíscas amarelas. Hiashi, por um momento, pensou ter visto algo naquelas faíscas...
–Ah, Hiashi-sama! Sempre quis perguntar uma coisa pro senhor.
–O que é?
–Onde estão meus pais?
Ele congelou por um segundo, mas logo se recompôs.
Sim, era mais seguro que ela não soubesse.
–Não sei bem quem eles eram, Kairina. O que eu sei é que, aparentemente, eles morreram na última guerra.
A menina olhou para o céu. Lágrimas brilhantes lhe encheram os olhinhos. Ela fungou, abaixou a cabeça e levou os dedos às pálpebras, secando-as.
As árvores chiaram quando uma brisa soprou. O cabelo negro da menina esvoaçou. Ela ergueu os olhos.
Alguém a chamara?
Enquanto procurava ao redor alguém que poderia tê-la chamado, uma folha foi arrancada de uma árvore próxima e flutuou na brisa. Foi caindo, caindo, até que ficou tão baixo que roçou de leve o nariz da menina assustada que virava a cabeça para todos os lados.
–Hm? Ah-ah-aaaah-tchim!... Isso faz cócegas!
Ela coçou o nariz, emburrada.
–O que foi Kairina?
–Uma folha fez cócegas no meu nariz.
–Uma folha é...?
Flashback off
Hiashi colocou as mãos nos ombros da menina.
–Se esforce, Kairina!
–Hai!
Ele se levantou e deu as costas para o time.
–Partam imediatamente. Quanto mais cedo chegarem melhor e, Kairina...
–Hai.
–Assim que chegar, iremos iniciar os preparativos para sua mudança.
Ela franziu o cenho e assentiu, séria.
–Alguma dúvida?
Eles guardaram silêncio.
–Se é assim, vão!
–Hah!
Hiashi sentou-se em sua escrivaninha e fitou a janela. O sol já se punha, formando um degradê de cores quentes espetacular.
Suspirou.
Era terrível ter de mentir para Kailina.
– Tsc. – desprezava totalmente suas atitudes em relação à pequena. Mentia t
–Kairina, gomen... Mas isso é muito mais complicado do que imagina. Espero que um dia eu possa te contar...
Uma semana depois...
–Chegamos à Suna amanhã pela tarde.
–Ah! Ainda bem! Não aguento mais viajar!
–Joto... KAIRINA!?
A garota sumira de novo.
–Kairina!
–KAIRINAAAAA!
Ficaram alguns minutos vasculhando a área até que, finalmente, a garota surgiu por detrás de algumas árvores.
–BAKAAAAAAAAA! – Goro, o líder da equipe, lhe deu um belo cascudo. – Como você sai sem avisar!?
–Ite-te-te-te... Mas eu avisei! Vocês que não me escutaram!
Os três trocaram olhares e suspiraram. Duvidavam muito que a garota estivesse mentindo.
Ela se encolheu próxima a uma pedra e pegou sua sacolinha de apetrechos. Tirou de lá um pergaminho e o abriu. Seus olhinhos azuis correram pelo papel até pararem num certo ponto.
–Huh?
–O que foi, Kairina?
Ela estendeu o pergaminho.
–Vocês sabem que dia é amanhã?
Os três tornaram a se entreolhar com um ponto de interrogação no rosto.
–Que dia? – encorajou um deles.
Ela inspirou como se fosse gritar, mas apenas abriu a boca numa risada e balançou o pergaminho com alegria.
–É Ano Novo!
–Yashamaru! Onegaaiii! Me deixa ir ao festival!
Gaara estava fazendo biquinho para o tio. O shinobi fitou o sobrinho longamente, fixando os olhos no biquinho pidão que fazia.
Suspirou.
–Seu pai não quer que você vá. Vai ter muita gente e você pode se perder.
–Eu não vou me perder! – Gaara fez birra. – Eu-quero-ir-ao-festival!
A cada palavra frisada ele batia com o ursinho de pelúcia no chão.
–Pare com isso, Gaara-sama!
–Então peça ao meu pai! – ele berrou.
Yashamaru suspirou.
–Okay. Vou falar com ele. Fique aqui.
Kailina corria com energia pelas areias do deserto que cobriam o país do Vento. Fitava aquela imensidão bege e quente com olhos brilhando. Era fascinada pelo deserto. Era uma paisagem exótica, uma beleza estranha.
E era tão cheia de vento.
Ela saltitou e acelerou o passo.
–Oi, Kairina! Não acelere demais ou vai ficar cansada sem necessidade!
–Haaaai! – ela cantarolou na brisa que batia em seu rosto.
Ela fixou a paisagem bege e se deixou levar pelo barulho de seus passos abafados no chão fofo. Sua atenção foi ficando cada vez mais presa à cor bege do deserto...
Subitamente, sua cabeça pulsou. Sentiu uma queimação nas costas e, depois, a familiar asia no estômago. Piscou uma vez e o deserto tremeu diante dos seus olhos. Piscou outra vez e sua visão se inverteu.
As cores ficaram negativas.
O céu ficou negro.
A areia do deserto ficou preateada.
Um uivo assustador ensurdeceu seus ouvidos.
–AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!
Quando Kailina acordou, seus ouvidos zumbiram com a quantidade de sons que lhe alcançavam. Piscou algumas vezes e ergueu a cabeça. Goro carregava-a nas costas enquanto caminhavam pelas ruas infestadas de pessoas.
–Onde estamos?
–Em Suna. – respondeu ele. – Você nos deu um baita susto, sabia?
Ela se encolheu, escondendo o rosto nos ombros do seu líder.
–Gomen...
–D-daijobu! – ele não sabia que a garota ia ficar tão chateada. – O que importa é que chegamos bem, sem nenhuma complicação.
Ela assentiu, roçando o queixo de leve em Goro.
–Está se sentindo melhor?
–H-hm. – ela tornou a assentir.
–Pode andar?
–Posso.
Ele a desceu das costas cuidadosamente.
–Fique atenta, Kairina. Tem muitas pessoas aqui. Não vá se perder.
Ela fez um biquinho.
–Eu não sou criança! Eu já sou uma shinobi! Sei me cuidar...
Os três abafaram risos. Ela nem era genin ainda...
Goro parou de rir e ficou pensativo. Frequentar missões desse nível sem nem mesmo ser genin era um risco enorme para a pequena. Mas isso demonstrava mais claramente que os anciões da vila estavam colocando todas as esperanças na shinobi que Kailina viria a se tornar...
E havia também algo mais que o preocupava.
Eles estavam apostando demais naquela técnica. Será que era seguro?
–Por que tem tanta gente assim na rua? – perguntou Kailina, arrancando Goro de seus pensamentos.
–É um festival de Ano Novo... – respondeu seu companheiro.
Os olhos de Kailina brilharam.
–Hontoni? Podemos participar?
–Kairina! Estamos em uma missão! Não desvie o foco agora!
Ela amarrou a cara e continuou seguindo-os em silêncio.
–Yosh. – disse Goro. – Vamos nos apressar. Provavelmente o Kazekage-sama irá participar de alguma solenidade durante o festival, então temos que chegar antes de ele partir.
–Hah!
Eles aceleraram o passo, dirigindo-se para o prédio central da Vila.
–Rasa-sama, ele quer muito ir ao festival.
–Você sabe que eu não posso permitir isso, Yashamaru.
–Mas senhor! – ele ergueu um pouco a voz, mas logo, arrependeu-se. – Desculpe. É que eu acredito que interagir com os outros e se divertir seria uma boa forma de ele lidar com o Shukaku...
O quarto kazekage ficou por um momento em silêncio, e enfim, suspirou.
–Gaara já se mostrou uma ameaça para a Vila. É mais seguro mantê-lo afastado dos outros.
Yashamaru olhou triste para o chão.
–Entendido, Rasa-sama.
Alguém bateu na porta.
–Entre.
–Com licença, Kazekage-sama. Um time de mensageiros dos Uzumaki está aqui.
Rasa olhou atentamente para o mensageiro e, depois de ponderar por alguns segundos, ordenou:
–Mande-os subir.
–Hai!
O mensageiro saiu.
–Vigie Gaara. – completou Rasa para o cunhado.
O areia se virou para a porta. Ao abri-la, sussurrou com uma voz triste:
–Hai.
–Missão cumprida!
Goro suspirou diante da comemoração do subordinado. Estava alegre assim porque não fora ele que ficara frente a frente com o Kazekage.
–Aquele cara é assustador.
–Quem?
–O Kazekage.
Os dois se entreolharam, receosos.
–Bom, pelo menos está feito.
–Vamos voltar para a Vila agora?
Goro abriu a boca pra falar que sim, mas Kailina chamou sua atenção. Ela olhava fascinada para as luzes do festival, seus olhos brilhavam de esperança ao ver crianças brincando e correndo para todos os lados carregando fantasias e faixas brancas. Uma delas trazia um pequeno dragão de papel, que ela agitava no ar com um pauzinho.
–Não estamos tão atrasados. Nossa viagem pra Sunagakure foi muito rápida, então podemos ficar por aqui esta noite.
Kailina escutou e, ao processar a informação, quase explodiu de alegria.
–Vamos poder ir ao festival?
Os três hesitaram. O mesmo pensamento pareceu fluir no círculo dos três ninjas. Porém, a menina estava com uma expressão de súplica tão intensa que foi impossível negar.
–Podemos sim.
–EBAAAA! – a garota saltitou onde estava como nunca fizera na vida.
Os Uzumaki riram.
Kailina seguiu pulando diante do grupo, e Goro ficou observando-a.
É injusto tratar Kairina assim. Ela é uma boa menina, nunca deu trabalho... Tirando os acessos que vez ou outra atacam... Ela nunca fez nada de errado.
A pequena Uzumaki cantarolava alegremente.
O líder da equipe fixou um ponto da nuca de Kailina.
Eu vou levar muita bronca por isso, mas...
Ergueu dois dedos diante do rosto e murmurou:
–Monowasure no Fuin... Kai!
O cheiro de comida fazia a constante dor de barriga de Kailina se intensificar. Ela foi seguindo inconscientemente na direção das barracas culinárias, e os três tiveram que apertar o passo para não perdê-la de vista.
Dentre os cheiros que dançavam em suas narinas, Kailina distinguiu um. Ela foi andando, andando, quase cegamente. Finalmente, viu o que queria.
–Bolinho de arroz! E tem dango também!
Kailina fixou os olhinhos nos doces e sua boca começou a salivar.
–Oi, Kairina! O que vocês está... – um dos integrantes do time foi se aproximando carrancudo da menina, mas assim que viu o que prendia sua atenção, juntou-se à pequenina Uzumaki.
–Olha a cor desses doces! – exclamou Kailina.
–Devem estar tão gostosos! – o seu companheiro de time quase babava.
–Konbawa! – de repente, o dono da barraca surgiu por detrás de uma lona branca. – Posso ajudá-los?
–Me dá dois bolinhos e três dangos, por favor!
O ninja Uzumaki olhou para Kailina.
–Eh? De onde vai tirar dinheiro pra pagar?
Ela levou à mãozinha às costas e tirou uma sacolinha gorda onde guardava a recompensa de suas missões. Seu companheiro ficou indignado.
–Eeeeh!? Essa menina nem é genin e tem mais dinheiro do que eu!
Os outros dois, que alcançaram os dois esfomeados segundos antes, caíram na risada.
Kailina saiu da barraca satisfeita, comendo um bolo de arroz e um dando ao mesmo tempo. Goro observava-a com um sorriso silencioso.
Ela nem percebeu que o cara da barraca a notou logo de primeira.
Um grupo de crianças passou correndo pelos Uzumaki. Kailina, que era a mais baixa, foi pega de surpresa pelo grupo espalhafatoso que a atropelou. O bolinho de arroz que carregava na mão voou no ar e espatifou-se no chão.
–Meu bolinho! – protestou ela.
Logo depois que o grupo passou, duas mulheres se aproximaram correndo.
–Miku! Yukiii! Voltem já aqu-oh!
Ela parou ao ver Kailina choramingando ao limpar o bolinho que caíra no chão.
–Um grupo de crianças barulhentas passou por aqui?
Os três jounins fizeram que "sim" com a cabeça.
–Ah, gomenasai. – ela se aproximou da pequena. – Foram eles que derrubaram?
–H-hm. – ela olhava para a mulher um tanto assustada.
–Não se preocupe, vou pagar outro pra você.
Ela seguiu rapidamente até a banca, e em menos de um minuto, entregava um enorme bolinho de arroz para Kailina.
–Aqui está. E mil perdões pelos meus meninos. Nos festivais, são insuportáveis!
Ela fez uma reverência, juntou-se à amiga e continuou perseguindo as crianças.
Kailina ficou parada, olhando para a mulher que se afastava. O bolinho permanecia intocado, mas firme em sua mãozinha. Seus olhinhos cintilavam, ora demonstrando confusão, ora fascinação.
–A-arigatô. – murmurou a menina tarde demais.
Fora a primeira gentileza que recebera de um estranho em toda a sua vida.
Gaara fugira para o terraço de sua casa. Trouxera o ursinho de pelúcia que a mãe fizera para ele antes de morrer, que era sua única companhia. Fazia a areia rodear o ursinho para dar-lhe vida. Puxava-o pra lá e pra cá, como se esse estivesse dançando. Porém, naquela noite, nem o show particular de seu ursinho iria alegrar o garoto. Queria ver gente. Pessoas dançando, rindo, correndo. Queria brincar, pular, gritar junto com crianças de sua idade.
Queria fazer amigos.
Gaara baixou seus olhos verde-água para a multidão que se espalhava abaixo de seus pés. Tantas luzes... Tantos sons...
–Kaa-san... Se você estivesse aqui... com certeza iria me levar no festival, né?
Lembrou-se do retrato da mãe sobre a mesinha de seu apartamento. Ela parecia ser tão doce...
–Ai! – ele levou a mãozinha ao peito. – Tá doendo...
Atrás dele, a areia se mexeu, aproximando-se um pouco mais...
–Oh! Daqui a pouco vai dar meia-noite!
–Que tal comprarmos uma bebida pra brindar?
–Pode ser. Tem alguma loja de sakê aqui perto?
Goro bateu na testa e balançou a cabeça.
–Oi, oi! Não se esqueçam que a Kairina está conosco!
–Ah relaxa! A gente compra um suco pra ela! – disse o ninja mais baixo.
–Eu quero de limão – Kailina fez uma cara emburrada e Goro quase morreu de rir.
–Ouviram, né? Se não for de limão, Kairina vai dar uma surra em vocês.
–Hai, hai...
Goro ergueu os olhos para o céu estrelado.
–Acho que o show de fogos vai ser legal, né?
–H-hm... – Kailina parecia ansiosa.
–Qual o problema, Kairina?
–É que... – ela abaixou os olhinhos, corando. – Eu nunca vi um show de fogos de artifício tão de perto.
Goro fitou-a longamente, com o coração apertado.
Meu Deus! Até que ponto os anciãos podaram a vida dessa menina!?
Ela ergueu os olhinhos para o céu.
Grãos de areia rodopiavam silenciosamente no vento.
Gaara brincava distraidamente com seu ursinho, olhando emburrado para o festival de Suna. Ao longe, viu que algumas pessoas preparavam algo na praça central.
–Deve ser a queima de fogos...
Nesse momento sentiu uma raiva imensa do pai que não permitira que ele visse de perto ao show de fogos.
–Tomara que exploda tudo mesmo...
–Oh! Faltam menos de um minuto! Encham seus copos!
Os ninjas serviram o sake e entregaram a garrafa de suco de limão para Kailina.
–Muito bem! Quando der meia-noite, brindamos e gritamos bem alto "Kanpaaaai"!
Goro começou a desconfiar que seus colegas já haviam tomado uns goles na surdina antes de voltarem para junto dele e da pequena Uzumaki.
–Dez! Nove...!
–É a contagem regressiva! Rápido, rápido, preparem-se!
Kailina ergueu a garrafinha de suco o mais alto que conseguiu.
–Seis, cinco...
–Seis, cinco...
Gaara estava atento à contagem regressiva, com raiva do pai, desejando que algo desse errado.
–Tomara que exploda tudo...
–Três, do-
O "dois" da multidão foi abafado pelo barulho de fogos explodindo no céu antecipadamente.
BUM! BUM!
O barulho alto de explosão assustou o garotinho ruivo, que se desequilibrou, oscilando para os lados da grade onde estava sentado. Quando achou que ia cair, agarrou-se com força na grade e firmou o corpo.
Por um triz não caíra.
Suspirou de alívio.
Porém, enquanto tentava se salvar, Gaara perdera a concentração na areia que animava o seu ursinho de pelúcia dançante. Quando abaixou os olhos, viu o exato momento em que o ursinho acertou alguém lá em baixo e bateu no chão.
–KANPAAAAAI!
Os três jounins gritaram saudando o ano novo e Kairina pulou para acompanhá-los, mas algo acertou-lhe a cabeça quando ela tentou saltar pela segunda vez.
–Itêêê!
Ela massageou o topo da cabeça. Olhou para os lados. Nada. Então voltou os olhos para o chão e olhou para trás de seus pés.
Um ursinho.
Ela se abaixou e pegou o ursinho.
–De onde será que isso veio?
Gaara viu alguém pegar o ursinho lá embaixo.
Não.
O ursinho da okaa-san...
Virou-se para a porta que dava na escadaria e voou para a saída da rua.
–DAMEEEE!
Kailina ouviu uma voz infantil gritando atrás de suas costas. Ela se virou e viu um garotinho um pouco mais baixo que ela correndo em sua direção.
–É meu! – ele gritou com lágrimas nos olhos.
Ela olhou assustada para o menino, que a alcançou em alguns segundos.
–Devolve, é meu! – gritou Gaara agressivamente para a garotinha.
Ela piscou confusa. Olhou para o ursinho, depois para o menino.
–Oh! É seu? – ela abriu um enorme sorriso. – Aqui!
Ela estendeu o ursinho, devolvendo-o ao dono.
Gaara congelou. Olhou fixamente o rosto sorridente da menina e sentiu uma sensação esquisita.
Por que ela não corre? Por que não está assustada?
Vendo que o menino não pegava o ursinho de volta, perguntou:
–Oh? Algum problema? – ela analisou o brinquedo e viu que estava sujo de areia. Bateu com as mãozinhas de leve no pano bege e voltou a estender o urso para o dono. –Aqui oh! Tá um pouco sujo...
Gaara olhava a menina com um rubor nas bochechas pálidas. Devagar e sutilmente, segurou a cabeça fofa de pelúcia e puxou-o para si.
–A-arigatô... – a palavra quase não saiu, já que quase nunca a usava.
Ela tornou a abrir um sorriso enorme. Depois, com uma expressão de espanto, exclamou:
–Oh! Seu cabelo é muito bonito! – ela analisou o garotinho por uns instantes, olhando em seus olhos. – Seus olhos também!
O filho do Kazekage corou ainda mais.
–Gaara-samaaa!
A voz de Yashamaru tirou Gaara de seu estupor. Abaixou os olhinhos e se virou para o tio.
–Onde estava! Por que desceu aqui?
–Meu ursinho...
–O ursinho dele caiu em cima de mim, aí ele veio buscar! – explicou Kailina alegremente.
Yashamaru fitou-a. Piscou duas vezes e balançou a cabeça.
–Ah...É? Então, obrigado. Vamos, Gaara-sama. – ele puxou o menino na direção do prédio de onde ele saíra. – Seu pai não pode saber que você saiu.
A Uzumaki ficou olhando os dois se afastando, até que se lembrou de que era Ano Novo.
–Ah! Eei! Feliz Ano Novo! – ela acenou energeticamente.
Gaara arregalou os olhos, ficando sem reação novamente, mas retribuiu o aceno timidamente. Foi arrastado pelo tio para dentro do prédio, mas não tirou os olhos da menina um único segundo.
Por quê?
A pergunta ressoava em sua cabecinha.
Por que ela não ficou com medo quando eu me aproximei?
Quando estava prestes a entrar para a construção, a areia se agitou à sua volta, e uma mão tímida agarrou as vestes do menino, puxando-o levemente na direção da garotinha que devolvera seu ursinho.
Goro assistira a cena em silêncio, e agora observava Kailina acenando para os dois que se distanciavam. Lembrou-se novamente da fisionomia do menino.
Aquele... era o filho do Kazekage?
–Interessante. Muito interessante.
Uma figura encapuzava recortava-se contra a noite estrelada em Sunagakure. Analisava toda a festa com um sorriso psicopata no rosto.
Foi aí que sentiu uma energia estranha que nunca sentira antes.
Seus olhos voaram para a rua logo abaixo e viu um grupo de quatro ninjas caminhando calmamente.
Dentre eles havia uma garota com cabelos negros e uma mexa ruiva do lado direito da cabeça.
O encapuzado tornou a sorrir.
–Realmente, muito interessante.
