Kailina abriu mais uma vez o pergaminho em sua mão.
Jyuu no Kailina.
Era esse seu nome agora.
Lembrou-se da explicação de mestre Hiashi:
"É mais seguro para você não ser associada a nós. Como você não é totalmente ruiva agora (ele brincou um pouco com sua mecha ruiva), fica ainda mais fácil de te esconder. Existem pessoas que temem o poder do nosso clã, Kairina. Por isso nossa Vila foi devastada. Tome cuidado. Não deixe ninguém descobrir de onde você é."
Abaixou a cabecinha e fitou os pés queimados. Tinha a pele normalmente rosada, levemente morena, mas de tanto ficar no sol, acabara pegando um bronzeado razoável. O cabelo enegrecido fazia com que parecesse uma morena legítima. Porém, os olhos exoticamente azuis e a mecha ruiva lhe acusavam.
Novamente, abriu o pergaminho.
Jyuu no Kailina.
A porta do quarto se abriu repentinamente, fazendo a pequenina ter um violento sobressalto.
–AAH!
A recém-chegada fitou a menina.
–Hm? Ah! Gomen!
Uzumaki Kaomi era uma mulher extremamente barulhenta. Andava desengonçadamente, quase não possuía modos e raramente era educada com alguém. Com o pavio curto, não era anormal que saísse aos berros e socos numa discussão. Apenas alguns anciões da vila conseguiam contê-la.
Entretanto, era impossível negar que era uma das mais fortes shinobis que carregavam o emblema do clã Uzumaki. Alguns diziam que Kaomi poderia facilmente lutar contra os Sannins de Konoha de igual pra igual, e era capaz de usar inúmeros tipos de selos, inclusive kinjutsus.
E foi por saber lidar com uma enorme quantidade de poder que Kaomi fora designada para ser a mestra de Kailina.
A ruiva se aproximou e abaixou-se, fixando seus intensos olhos lilases na aluna.
–Redi (Ready)? – perguntou a mestra.
A menina hesitou. Seus olhos turvaram-se. Focou-se na imagem da mestra. A pele muito pálida, o queixo fino e o contorno do rosto muito delicado. Os cabelos ruivos eram curtos, batendo-lhe na altura do queixo. Usava uma bandana com um redemoinho talhado em baixo relevo.
A bandana... Que Kailina jamais poderia usar.
Voltou a olhar nos olhos de Kaomi.
–Sensei...
A Uzumaki mais velha envolveu-a num abraço apertado.
–Eu sei que é difícil, Kairina. Mas se você continuar aqui, estará correndo risco, e nós não queremos que nada de ruim aconteça com você. Em Konoha você irá treinar para se tornar uma grande shinobi e, quem sabe, não volte para cá para me ajudar a proteger os Uzumaki.
Talvez sua mestra não a tivesse entendido direito... Ela não ia sentir falta da Vila.
Apenas algumas pessoas fariam falta. Ela, Goro-senpai, Hiash-sama , Shinichi-senpai, Mai-senpai...
Kairina colocou as mãozinhas nos ombros de Kaomi.
–Sensei... Se eu for pra Konoha... As pessoas conseguirão me ver?
A shinobi apertou os lábios ao ver a expressão desesperada da aluna. Por impulso, levada pela agonia dela, mentiu:
–Iesu (Yes)! É claro que vão!
A pequena Uzumaki permitiu um tímido sorriso iluminar-lhe o rosto. Kaomi espelhou a meia lua sorridente da menina.
–Agora, antes de você partir, preciso te dar algumas coisas.
Kailina ficou apreensiva. Sua mestra tirou um pequeno embrulho de panos, um pergaminho e um saquinho de sua bolsa de ferramentas ninja. Primeiro, mostrou o pergaminho.
–Isso é do Hiashi-sama. Guarde-o muito bem. Quando achar que é a hora certa, pode abri-lo e ler o conteúdo.
A menina engoliu um seco e ficou ainda mais atenta.
–Agora... – a Uzumaki fez uma pausa ao segurar os dois embrulhos na mão. – Esses aqui são especiais.
Ela pegou o embrulho maior.
–Isso aqui estava junto de você quando a encontramos na porta do prédio central. Aparentemente, pertencia ao seu pai.
Ela nunca viu os olhos de Kailina tão arregalados e brilhantes. Lágrimas se acumularam no canto das pálpebras inferiores. Kaomi estendeu o embrulho, e a menina o segurou como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. Tirou cuidadosamente os panos pretos que envolviam o estranho objeto até que uma parte se revelou. O metal reluziu na luz do sol matinal. Kailina tirou rapidamente o resto do tecido, expondo uma estranha kunai de três pontas. Era grande, pesada e no cabo, pequenas inscrições em baixo relevo reforçadas com tinta estavam talhadas na madeira que o revestia.
Kaomi puxou o ar ao reconhecer a kunai, mas manteve-se impassível. Ergueu o segundo embrulho. Era um saquinho preto de veludo bem empoeirado.
–Esse era da sua mãe.
Kailina estendeu os braços e sua mestra depositou-o em suas palminhas suadas. Com delicadeza, puxou a fita que selava o embrulho e virou o tecido. De dentro caiu uma chave e um pedacinho de papel amarelado. Rapidamente a menina desdobrou-o e leu:
"Entregue ao velho Sarutobi. Ele saberá o que fazer."
A chave reluziu. Kailina olhou para Kaomi.
–Quem é Sarutobi?
–É o atual Hokage, Sarutobi Hiruzen.
A pequena voltou a encarar a chave. Com a outra mão, segurou a kunai de seu pai.
–Sensei. – ela perguntou depois de algum tempo em silêncio. – Você sabe quem são meus pais?
A pergunta pegou a Uzumaki de guarda baixa. Arregalou os olhos e depois os baixou para fitar os objetos que sua aluna segurava.
Vozes lhe encheram a cabeça, levando-a de volta ao seu primeiro dia na Academia de Konoha...
Flashback on
–Muito bem! Hoje temos duas novas alunas que estudarão aqui com vocês na Academi-
–Eu sou Uzumaki Kushina dattebane! – berrou Kushina ao seu lado.
Risinhos se espalharam ao ouvirem "dattebane". Kushina corou.
–Shatto upu (Shut up). – esbravejou Kaomi entre os dentes.
Murmúrios se espalhavam pela sala.
–Olha só a cor do cabelo delas.
–Como que será que conseguiram deixar tão vermelho?
–Tão esquisitas...
Kushina começou a tremer ao seu lado, cerrando os punhos junto ao queixo.
–Eu...
–Kushina!
–Eu serei a primeira mulher a se tornar Hokage!
Todos pararam de cochichar e a olharam, estupefatos. A outra Uzumaki abaixou a cabeça esperando que, assim, pudesse sumir.
Então, ouviu um tuq-tuq na madeira como se alguém estivesse se levantando. Ergueu o rosto. Um garoto loirinho, meio afeminado, erguera-se e olhava atentamente para sua amiga. Ele levantou o pequeno punho e bateu-o no peito, sorrindo docemente.
–Eu quero me tornar um grande Hokage também, que será admirado por todos na Vila!
Kushina encarou-o como se o desafiasse.
–Bakayaru... – sussurrou Kaomi escondendo o rosto.
Flashback off
Piscando para se livrar das lembranças, a Uzumaki respondeu:
–No, Kairina. Infelizmente não.
–Yosh. Estamos prontos.
Goro ajeitou o zíper da mochila de sua pequena subordinada. Girou, colocou as mãos sobre os seus ombrinhos e, abaixando-se para que olhasse em seus olhos, perguntou:
–Tudo bem?
Ela assentiu timidamente.
Ele se levantou e colocou a mão sobre sua cabeça, bagunçando um pouco de seu cabelo.
Iria sentir muita falta da pequenina. Ela era alegria de seu time, sempre olhava pelo lado positivo da situação. Como iria fazer missões sem a pequena Uzumaki agora?
Goro balançou a cabeça, impedindo que lágrimas se acumulassem nos olhos. Olhou novamente para sua companheira.
Kailina enganava muita gente com aquele rostinho inocente. Era muito inteligente e esperta. Aos quatro anos de idade já aprendia a ler suas primeiras palavras e aos seis já estava capacitada a cumprir missões. Não demorou muito para que seu talento fosse reconhecido por todos do clã. Até os anciãos não podiam negar que a garota era um prodígio. Adorava esconder-se na biblioteca da cidade para explorar os inúmeros pergaminhos de jutsus e selos que os Uzumaki herdaram de seus antepassados. Com certeza a Academia de Konoha seria uma brincadeira de criança para ela... na parte que dizia à sua capacitação como genin.
Com atuais oito anos, ela já estava praticamente pronta para ser chunnin.
Um prodígio.
Goro se lembrou de uma história parecida que escutara de Konoha. Qual era o nome mesmo do garoto?
Uchiha... Uchiha o quê?
Kailina se virou e foi até onde Hiashi-sama conversava com seus assistentes. Parou diante do ancião e fixou seus olhinhos azuis no velho.
–Jiji, estou pronta.
Era hora de se despedir.
Hiashi agachou-se e abraçou a pequenina, pegando todos de surpresa.
–Cuide-se, Uzumaki Kailina. – ele olhou fundo nos olhos da menina. – Os outros não podem saber quem você é... Mas isso você nunca deve esquecer.
Lágrimas infantis rolaram-lhe bochechas abaixo.
–H-hai. – ela gaguejou.
Dirigiu-se para Shinichi e Mai, que a abraçaram calorosamente.
–Cuidado viu, querida? – advertiu a anciã.
Ela fez que "sim" com a cabecinha.
Quando aproximou-se de sua mestra, Kaomi disse:
–Vou acompanhar vocês até a fronteira.
Ninguém se contrapôs.
–Iksê!
Kailina seguiu seu time para fora e pulou para as árvores sem olhar pra trás.
–Até logo! – berrou alguém atrás dela.
Todos permaneceram em silêncio até a fronteira. O único barulho que enchia o ambiente era o chiar do vento nas folhas e o ping ping quase inaudível das lágrimas que Kailina deixava pelo caminho.
Chegando à fronteira, o time parou por um instante. Kaomi checou a área num raio de 5 quilômetros com seu jutsu sensitivo, mas não encontrou nada de incomum.
–O caminho está limpo. Podem ir.
Kailina se virou para ela.
–Sensei... – as lágrimas lhe desciam como cachoeira pelos olhos.
A Uzumaki mais velha não conseguiu se conter. Agarrou a menina e chorou juntamente com ela.
–Está tudo bem, tudo bem. Vamos nos ver em breve, ok? Waitu foru me (Wait for me)...
–H-hm. – a menina soltou seu típico muxoxo.
–Iksê, Kairina. Vamos chegar atrasados se demorarmos mais...
A pequena se endireitou e seguiu Goro.
–Jyah nah, sensei! – ela acenou olhando pra trás.
–Goodo bye-yoh!
O vento soprou sob o sol quente. Folhas rodopiaram, subindo na direção do céu.
Goro pulava de galho em galho olhando para a garotinha de seu time. Fixou os olhos na nuca da menina.
É injusto que continue assim. Porque manter esse selo ridículo na menina? Ela estava treinando para aprender a se cuidar! Não ia adiantar protegê-la para sempre!
Suspirou.
Lembrou-se de como a menina ficara feliz no Ano-Novo que passaram juntos em Suna. Ela brincara a noite toda com as crianças da Vila. Riu, caiu, pulou, gritou, se assustou... Tudo o que uma criança saudável deveria fazer.
Goro soltou um novo e longo suspiro.
Talvez um dia eu me arrependa de fazer isso...
Olhou para a nuca da menina novamente, e o som da risada de Kailina ao brincar em Suna encheu sua mente.
Não, acho que não vou me arrepender.
Levantou dois dedos e murmurou:
–Monowasure no Fuin... Kai!
