Lawless Hearts
De: Kracken
Tradutora: Aryam
Keiko Maxwell, obrigada pela ajuda com a revisão.
Lembrem-se: Comentários são sempre muito bem vindos e não doem nada!
Corações Sem Lei
Parte 04 - Anseios
"Você não deu uma boa olhada no meu barraco quando veio aqui antes?" não resisti em perguntar, enquanto subíamos os degraus da minha varanda.
Heero não mordeu a isca. Enquanto ficava ao meu lado esperando que eu abrisse a porta, comentou: "Eu não cheguei a entrar da última vez".
Ouvimos um barulho alto e o som de máquina. Voltei-me com olhos desconfiados para meu vizinho cobrindo com um grande pedaço de metal a abertura que havia feito em minha cerca. Eu grunhi, mas era melhor que nada. Virei novamente e abri a porta. "Desculpe a bagunça," falei sarcasticamente e o guiei para dentro, as mãos indo fundo nos bolsos enquanto eu me encolhia envergonhado. Porque me sentia assim, não sei. Era culpa dele meu lugar estar daquele jeito.
Heero não analisou nada como eu esperava. Em vez disso, pareceu preocupado. "Eles levaram tudo."
"Você está assumindo que eu tinha muita coisa para começar," grunhi amargamente. Arrumei uma cadeira, coloquei-a atrás da mesa e sentei pesadamente. "Eu deixo a vida me levar."
Heero foi até o mural na parede atrás de mim e tentou decifrar meus rabiscos, meu calendário e algumas fotos que eu havia pregado por motivos... contemplativos.
"Como você..." ele começou, mas o cortei certo do que diria a seguir.
"Sim, fotos de rapazes! Sou gay! Você é esperto, já tinha descoberto, né? E daí? Se te deixa com nojo então dê o fora!" fiquei surpreso o quanto meu rosto ficou vermelho e como eu não conseguia olhar pra ele.
Heero disse calmamente: "Eu não ia dizer nada sobre as fotos. Não tenho nenhum problema com sua orientação sexual. Eu ia perguntar sobre sua programação. Eu não consigo entender o que escreveu aqui".
Se acha que minhas bochechas estavam quentes antes, podia derreter gundanium nelas agora. Rangi os dentes e então, tentando me desculpar, falei: "Desculpa. Acho que me acostumei com as pessoas tendo a reação contrária".
"Hn," ele consegui fazer isso soar simpático. Incrível.
Tentei me recompor, tentei empurrar para longe toda a lembrança de ontem e sim, dessa manhã também, droga, e lidar com Heero com uma boa atitude. Dei um tapa em minha testa. "Tenho tudo aqui," informei. "Mas não há muito o que explorar em meus arquivos mentais. Os negócios..." É aqui que eu deveria admitir minha falha e não era nem um pouco fácil. "Os negócios não vão muito bem."
Ele não perguntou 'por que não'. Senti-me estúpido por ser grato. Talvez ele tenha entendido o quão difícil foi para mim confessar isso e, quem sabe só estava me dando uma folga antes do próximo nível? Porém, falou: "Ainda não comi. Pago o café da manhã se me mostrar onde posso comprar suprimentos para a cabana que vou ficar".
Isso soava menos como caridade. Meu estômago já fazia barulhos alegres. "Feito," concordei e me levantei. "Vamos ter de caminhar um bocado. Não há nenhum ônibus que vá por entre os lotes."
"Aceitável," respondeu em um tom de voz que me lembrava a guerra. Tive calafrios e senti a necessidade de sair para o calor dos raios de sol. Era repentino, mas havia uma sensação de alívio em fazer isso. Tinha o poder de fazer muitas coisas ruins irem embora.
Heero me seguiu para fora. Peguei um caminho já muito usado para os fundos e passamos pelo portão chegando à ruela entre os terrenos. Neste momento, houve um ronco alto que encheu o mundo. Heero se surpreendeu e olhou feio para o céu. Ele teve que piscar rápido. A luz vinha do sol, refletida para a estação por grandes coletores. Podia ser tão doloroso quanto o verdadeiro sol. Não me incomodava. Eu sabia o que ele estava vendo; grandes placas de metal se estendendo para fora nas laterais da estação, o zunido das turbinas, o barulho do vento sendo sugado por elas e então liberado novamente os demônios da poeira amarela e 'sujeira' vermelha rodopiando com o oxigênio. Contei até vinte e o barulho parou, as placas se retraíram. A sujeira começou uma vagarosa e colorida volta para o chão.
"Quatro vezes ao dia," comentei casualmente ao começar a andar amarrando minha bandana ao redor da cabeça, as bordas caindo sobre meu rosto para esconder meus olhos. "Eles não se incomodam em atualizar o sistema por aqui. Se funciona, não troque. Sabedoria de L2."
Quando o olhei, Heero parecia perturbado ao me seguir.
"Você não esteve por muito tempo em L2, não é?" perguntei.
"Não," respondeu, confirmando minhas suspeitas. "Eles... Eles não têm esse sistema na cidade."
Eu sorri. "Não."
"Deve ter uns 50 anos de idade," ressaltou desnecessariamente.
"85 na verdade," corrigi. "Quebra de vez em quando, mas mesmo os burocratas de L2 não querem vidas de homens da sucata em suas mãos. Eles consertam. Não foram muitos que morreram por causa disso."
"Não foram muitos?" Heero ficou chocado. "Isso é-"
"Criminoso, eu sei," dei uma risada quase macabra, "Acostume-se. Isso é L2".
Heero estava silencioso. Viramos uma esquina e seguimos outra direção, o caminho amarelo-avermelhado parecia interminável quando uma onda de calor obscureceu a distância. "Você mudou," Heero finalmente soltou, como se estivesse segurando isso por um tempo.
Dei de ombros. "Não muito. Eu sempre fui desse jeito. Eu só disfarçava bem durante a guerra."
"Por quê?" Heero se espantou. "Por que se incomodar com um 'disfarce'?"
"Quem gosta de um espertalhão maníaco depressivo de temperamento ruim, malandro de rua e terrorista?" ri mesmo sem ver muita graça nisso. Era melhor deixar passar. Doía um pouco menos, fazia a memória daqueles dias obscuros, aquela solidão, aquela necessidade de ser aceito e acolhido como amigo pelas pessoas a minha volta, menos aguda.
"Eu queria que as pessoas me deixassem em paz," Heero admitiu. "Queria me focar inteiramente em ganhar a guerra."
"Quer dizer que aquela sua atitude de 'assassino frio de pedra' era apenas um show também?" fiquei boquiaberto e seus lábios moveram-se levemente em um sorriso enquanto ele concordava uma vez com a cabeça. Gargalhei abertamente dessa vez, relembrando. Sosseguei quando vi uma pontada de dor em seus olhos azuis. Não foi fácil para ele também. Nossos 'atos' não eram à prova de balas.
"Acho que estamos recomeçando então, nos conhecendo outra vez," falei ao secar suor da minha testa. "Sem mais encenações, tá?"
"Concordo," Heero respondeu e foi como se fizéssemos um pacto aqui e agora.
Fazendo nosso caminho para o Mercado Rowe, Heero aos tropeços e suando ao meu lado, era mesmo difícil de lembrar que ele era um agente disfarçado dos Preventers. Quando pensei melhor, bufei para mim mesmo e me chamei de idiota. Claro, seria legal ter Heero realmente trabalhando para mim, dividindo meu lugar... Dividir minha vida? Eu me entretinha com idéias assim durante a guerra e um pouco depois, mas era claro para mim que Relena era quem tinha toda sua atenção. O que será que aconteceu? Talvez um piloto Zé-ninguém de Gundam não fora o suficiente para ela no final das contas, especialmente agora sendo ela a Rainha de tudo. Fiquei mal por Heero.
Esfreguei meu estômago, lembrando dele rosnando para mim, bravo comigo, confuso por minha culpa e falta de comida e me torturando. É, já fomos colegas íntimos antes. Talvez eu tivesse a chance de catar o que Relena chutou? Sabe, realmente não vale o esforço de ser sarcástico consigo mesmo.
"Duo!" uma mulher cantou e acenou energicamente de uma barraca ao lado da estrada suja. Havia uma fileira delas, cheias de tudo que se pudesse imaginar sendo vendido por pessoas de todos os tipos.
Era um jogo, pelo menos para mim, e barganhar era apenas parte disso. Acenei de volta, dei meu maior sorriso e fui com prazer até a barraca. Ela estava bonita de saia e um top feito de jeans. Seu cabelo era um emaranhado de cachos dourados por baixo da aba do chapéu de sucateiro e seu rosto era quase angelical com seus grandes olhos azuis. Porém, Teresa estava longe de ser angelical. Ela piscou pra mim enquanto virava uma frigideira com bolinhos em um fogãozinho com a habilidade de quem já está acostumada.
"Estou faminto Teresa," falei ao esfregar meu estômago e deixar minha mão descer até minha virilha. Ela podia adivinhar 'de quê' eu estava falando.
"Coitadinho!" Teresa falou manhosa. Ela sorriu para mim em retorno. "Eu podia dar um jeito nessa sua fome, gracinha." De repente ela se virou e deu uma levantada na saia, flertando, revelando por um instante um fio dental cor-de-rosa. Ela se voltou para mim, toda comportada novamente e disse rouca, apontando sua pequena cabana com a espátula: "Eu tenho um pouco de privacidade lá atrás..."
Dei a ela o patenteado olhar Duo de cachorro na forca. "Eu quero, quero mesmo, mas eu tenho que mostrar os arredores pra esse cara," apontei com um dedão para o japonês que franzia o cenho e revirei os olhos. "Ele precisa de suprimentos e eu preciso de um café da manhã, depois temos que trabalhar. Talvez... Mais tarde... Porque, Deus, você está maravilhosa hoje!"
Ela sorriu maliciosa e virou uma pilha de bolinhos quentes em um pedaço de papel. Ela jogou açúcar neles e me passou. "Você pode me dar um pouco agora e pagar o resto mais tarde."
E assim foi o jogo. Quando olhei para Heero, ele se aproximou receoso para pagar alguns créditos a mulher. Cuidadosamente, fiz malabarismos com os bolinhos jogando-os de uma mão a outra para evitar me queimar, ao lado de Heero, descemos a rua. "Relaxa, é só brincadeira. Elas só querem um pouco de atenção e eu dou isso a elas. Se eu realmente resolvesse tentar passar daquele fio dental, aquela linda jovem provavelmente chamaria seu grande e feioso marido pra me esfaquear."
Os olhos azuis arregalaram-se. "Ela é casada?"
"Os caras trabalham duro aqui, Heero," expliquei dando de ombros. "Muitas vezes não sobra energia para romancear suas esposas ou namoradas. É por isso que elas gostam de flertar comigo. Eu falo algo que as agrada, elas têm um sonho erótico de nós transando e eu continuo meu caminho com algumas coisas com o preço reduzido e um sorriso."
Heero grunhiu, se em entendimento ou desaprovação, não saberia dizer. Bem, foda-se, pensei. Se ele queria julgar, estava no lugar totalmente errado.
Inclinei-me para outra tenda e a mulher franzindo com um coque apertado balançou o dedo pra mim. "Eu não sou Teresa, Maxwell, e eu sei qual é a sua, lembra? Eu que entrego sua correspondência."
Corei desconfortavelmente. "Tá bom, tá bom!" recuei e gesticulei para Heero. "Ela vende coisas de qualidade. Não tem como se enganar comprando da Kylee."
Esperei o agente disfarçado escolher entre o estoque dela. Comprou mais algumas roupas, um espanador e alguns aparelhos domésticos. Kylee observava como se estivesse confusa e então lembrei que ela era ex-militar. Senti um temor apertar meu estômago, mas então ela cedeu um desconto para Heero e deu a ele um aceno de cabeça, séria. Ele fez o mesmo como se eles se entendessem perfeitamente e a pagou. Pegando seu pacote, prosseguimos o caminho.
"Então, o que foi aquilo?" perguntei curioso.
"Algo que não é um jogo," Heero retrucou. "É respeito."
"Isso não é arriscado?" quis saber, não gostando de seu tom condescendente.
"Não," ele respondeu. "Há muitas pessoas que estiveram na guerra. Não é suspeito."
"Ah." Digeri isso por um minuto e disse: "Isso não teria funcionado com Teresa".
Ele sorriu. "Não, não teria."
Era, mais uma vez, um encontro de grandes mentes e ficou difícil não parecer um idiota impressionado. Lembro de como tínhamos trabalhado juntos durante a guerra. Ele era fechado e abrasivo, mas ainda assim conseguimos dar um jeito de trabalharmos em parceria naturalmente, astuciosos, quase instintivos, com nossas ações. Havia me surpreendido na época e esse 'entendimento' não mudara. Heero e eu estávamos nos dando bem. Éramos... Interrompi essa parte e reprimi a dor como se fosse um machucado repentino. Ele era um policial, eu um sucateiro suspeito de ser ladrão. Ele precisava de mim. O instinto das ruas entrou em alerta. Como disse antes, não vivi tanto sendo estúpido e isso vale por ser ingênuo também. Talvez estivéssemos nos tornando amigáveis, mas não me garantia baixar minha guarda caso fosse verdade.
"Chove por aqui?" Heero perguntou curioso, evitando a luz intensa ao nosso redor. Um calor desses, você poderia aturar quando era feito pela natureza. Afinal, o homem não tem o que fazer sobre isso e apenas agüenta. Quando se sabe que o dedo de alguém está no controle, aí se torna bem mais pessoal.
"Nem sempre, enferruja a sucata e as turbinas de qualquer jeito," falei e zombei em seguida: "E os figurões lá de cima preferem manter a maior parte da água em seus parques e piscinas particulares. Há apenas um tanto limitado de água, sabe como é!"
"E é por isso que temos ar-condicionado, sacos de gelo e jaquetas revestidas pra neve!" uma voz gritou de uma das barracas. Um homem forte e alto sorriu para mim e acenou para sua mercadoria. "Se os homens importantes não querem nos dar água e temperatura descente, devemos fazer nós mesmos".
"Ignore-o," resmunguei e comecei a comer um dos bolinhos, agora frios o suficiente. Ofereci um ao japonês que o pegou enquanto olhava quase saudosamente a máquina na barraca. "Nem tente," avisei. "É melhor se acostumar com o clima do que tentar lutar contra ele com essa porcaria."
Heero aproximou-se mesmo assim e eu suspirei. Ele apontou para um chapéu como o seu próprio, mas feito de palha e tiras de pano. A palha o tornava bem mais caro. O homem o entregou e me olhou de cima a baixo. Olhei afrontosamente para outro lado.
"Como anda, Maxwell?" o homem perguntou de forma sugestiva. "Já está cansado de ser solitário? Pode até estar quente, mas um homem fica com a cama fria quando se é o único nela."
Continuei olhando para a feira. "Frio pode ser bom, considerando a alternativa," resmunguei.
"Quanto custa?" Heero perguntou abruptamente. O lojista respondeu. Estremeci diante do preço. Meu novo empregado pechinchou e se safou pagando apenas um pouco menos que o absurdo. Ele me surpreendeu colocando o chapéu em minha cabeça enquanto caminhávamos. "O lenço não é bom o suficiente," justificou.
Não conseguia me decidir como me sentir sobre isso, uma parte nervosa pela caridade e a outra parte ainda mais brava por ele pensar poder me paparicar como uma mãe e outra parte ainda... Quase impressionado com... Sabe quando vê um bife bem suculento ou encontra o mais doce pedaço de torta que já viu, mas sabe que não pode ter, pois não está em seu direito pegar...? Sim, era esse o sentimento.
"Por que não flertou com ele?" Heero perguntou e havia uma cautela em sua voz que não consegui entender.
"Ele não estava brincando," respondi direto.
O Preventer de olhos azuis terminou suas compras e depois nos comprou garrafas de refrigerante geladas. Bebemos pelo longo e empoeirado caminho de volta ao meu ferro-velho. Passando pelo portão... Sabe, você não percebe o quanto é solitário enquanto não abandona uma multidão. Isso me consumia um pouco, mas então olhei para Heero do meu lado. Acho que não estava mais sozinho. Era um sentimento muito bom, até eu notar o homem dos impostos, em um terno completo, plantado na minha varanda.
Continua...
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Agradecimentos:
Cristal Samejima: Muito obrigada pelo comentário! Uma coisa que adoro nessa fic é a caracterização dos personagens, realmente é muito bom ver um Duo forte e decidido ao invés de como ele é geralmente colocado, como um bobo alegre ou submisso. Que bom que está gostando, logo postarei outros capítulos revisados!
Keiko Maxwell. Olá menina! Caramba, a Kracken realmente sabe cativar fãs. Fico feliz pela fic estar melhor do que antes e grata por me deixar saber disso. Ela foi postada até o capítulo 15 no xyzyaoi e como a Dhandara e suas lacaias ainda estão ignorando a mim e ao Grupo de Tradução, a fic ainda está postada no site. Ela vai até o capítulo 24 e não se preocupe, tem um final sim e será traduzido. Pode ter certeza que nossos projetos não só não foram abandonados como serão continuados e haverão novos. Muito obrigada pela força e abraços!
Harumi, que pena que não tem comentários engraçados para essa fic, mas realmente ela tem um tom mais sério e dramático. Fico feliz por também gostar dela! Heero foi sacana em pedir salário, mas ele só está fazendo isso para não parecer que o Duo é obrigado a contratá-lo por ser Preventer. Dá aquela sensação de "você é meu funcionário" e não ao contrário. Obrigada pelo comentário (como sempre ^^) e fico aliviada por tudo parecer bonitinho! Abraços!
Tutih-ruthsamela, obrigada pelo comentário! Que bom que achou interessante, espero que continue acompanhando! Já estava na hora de postarmos aqui no site. Até!
