Lawless Hearts

De: Kracken

Tradutora: Aryam



N/A: Muito obrigada mesmo à: Harumi, Silas Fiorella, Karoruyue, Aoi-Tsukii, Vivi-hydeist, Manda-chan43, Neko Lolita, Simca, Lunnafianna e a todas as que acompanham essa fic! Não acho que preciso salientar que essa e todas as postagens são dedicadas a vocês. Fico muito agradecida pelos comentários e encorajamentos, espero que gostem de mais esse capítulo.


Corações Sem Lei

Parte 06 – Suor e Lágrimas

Cresci nas ruas e morei em lugares estranhos. Conseguia dormir em qualquer lugar e a qualquer hora. Era como apertar um botão; liga e desliga. Porém, naquela noite, quando os refletores inclinarem-se para longe do sol e deixaram a escuridão dominar L2, eu estava totalmente acordado e mandando olhares furtivos para Heero deitado no sofá. Os agentes não haviam estragado muito do móvel e o moreno me assegurou ser mais do que estava acostumado. Ele se despira até ficar apenas em seu samba-cançãocinza de algodão com botões na frente, e com sua regata. Assisti atentamente seus músculos se flexionarem enquanto se esticava para ficar confortável. Encarei-o quando passou uma mão pelo cabelo bagunçado, suspirou, e simplesmente dormiu... Como eu também queria agora mesmo. Não ajudava que as luzes de segurança da propriedade passavam pela janela e o faziam... bem... brilhar e muito visível.

Quando eu lhe perguntara sobre roupas, o agente japonês puxara uma bolsa de debaixo da escada. Dera de ombros e disse algo sobre não querer assumir que seria bem-vindo e me deixar nervoso desnecessariamente. Ele percebera, após o dia anterior, meu estado irritadiço. Quando foi tomar banho, eu, claro, fui vasculhar suas coisas. Meias, roupas íntimas, camisetas, regatas e alguns pares de jeans eram tudo o que tinha. Sua arma estava estranhamente faltando. Não era possível escondê-la naqueles shorts que estava usando. Isso me fez coçar a cabeça. Um Heero Yuy desarmado simplesmente não parecia certo, por alguma razão. O homem de quem me lembrava não correria este tipo de risco. Essa realização me obrigou a estreitar os olhos e analisá-lo de outra forma, uma não envolvendo minha libido há muito negligenciada. E se houvesse alguém nos vigiando? Agentes dos Preventer usando a Inteligência de Segurança Pública da colônia para nos espiar?

Minha paranóia me dominou a ponto de fechar bem as cortinas. Ainda entrava alguma luz, mas não o suficiente para poder se distinguir algo. Minha libido queria me estrangular, mas meu instinto de rua concordava sabiamente. Ouvi Heero respirar e quase consegui odiar aquela sabedoria ganha nas ruas, o instinto que jamais me deixaria baixar a guarda completamente. Foi assim que me mantive vivo, mas me tornou solitário também. Como alguém poderia se aproximar de mim quando eu não conseguia me fazer confiar em ninguém?

Tentei ficar confortável. Vestia uma camiseta excessivamente grande caindo até meus joelhos e uma bermuda de algodão com um logo de uma marca esportiva. Eu nunca fui muito de praticar esportes. Ele me dera uma olhada de cima a baixo e fiquei meio sem jeito. Seu olhar não revelou nada e eu queria que tivesse. Estúpida, estúpida esperança. Nunca conseguia deixá-la presa por muito tempo. Aqui estou eu, dormindo ao lado de Heero Yuy, não bastando ser hetero, provavelmente era parte de uma enorme e secreta operação armadilha dos Preventer, que poderiam estar nos observando agora mesmo. Claro, havíamos trocado confidências, e não acho que ele poderia ter fingido suas emoções tão bem, mas dever era dever e era conhecido por ser o segundo nome de Heero. Mentalmente atirei na 'esperança' com um estilingue e ela fugiu choramingando.

Finalmente fui tomado pelo sono. Entretanto, tive sonhos agitados sobre a guerra, claro; mas algo me acalmava toda vez, antes de se tornarem muito ruins. Quando por fim acordei, sentei bocejando e encontrei o sofá vazio, apenas a marca de um corpo ainda impressa nos lençóis.

Tomei meu banho matinal, barbeei os poucos pêlos que teimavam em crescer, escovei os dentes e coloquei uma calça jeans e camiseta. Caminhando suavemente para fora do quarto, encontrei o pequeno escritório igualmente vazio. Contudo, a mochila do japonês ainda estava lá, e os restos de uma marmita no lixo. Ele ainda estava por perto, talvez dando uma olhada pelo quintal. Não queria pensar que tivesse ido para a cabana começar a limpar. Não senhor, nada disso, não antes de um café forte e algum tempo para acordar direito.

Após a sensação da minha noite mal dormida desaparecer junto com o café, finalmente enfiei os pés nas minhas botas e abri a porta da frente. O calor me atingiu violentamente. Furioso, corri da varanda, peguei um pedaço de metal e atirei para o céu gritando "VAAAAI SE FUDEEEEER!!!". O objeto caiu com um tinido e Heero saiu de trás de uma pilha de peças de máquinas.

Ele espiou rapidamente o céu, a aba comprida de seu chapéu sombreando os olhos, então virou para mim com divertimento. "Espero que não acredite que o técnico do controle de clima seja Deus."

Fiz cara feia e enfiei as mãos nos bolsos do meu jeans. "Com o que mais vou me irritar? O equipamento que controla a temperatura, entre outras coisas, está além do meu alcance, então... Jogo qualquer merda para o céu."

Minha referência para 'outras coisas' nem mesmo provocou o moreno de olhos azuis, talvez eu estivesse sendo muito sutil ou ele apenas bancava o bobo. Heero foi até o barracão, voltou com meu chapéu e me entregou. "Estava fazendo o inventário." explicou. "Deveríamos terminá-lo juntos e mandar o relatório corrigido para quem quer que você escolha como contador".

"Créditos," lembrei amargo. "Estou sem um tostão para pagar um contador".

Heero tinha um plano. Podia ver estampado em seu rosto. Na verdade, ele parecia até excitado. Minha paranóia subitamente diminuiu. Naquele momento pude ver, claro como o dia, a vontade de Heero em me ajudar e seu entusiasmo com um novo desafio. Ele não ficaria assim se estivesse me sacaneando, ficaria?

A Esperança estava esticando sua cabeça risonha novamente. Meus instintos das ruas queriam um martelo para esmagá-la de volta para seu lugar, mas não tinha nenhum por perto, então a Esperança apareceu, toda ávida e ansiosa. Deus, eu conseguia ser tão tapado... Bem, quando o assunto era Heero, eu relevava. Queria acreditar nele. Queria...

"Se trabalharmos juntos," voltou a falar, "Podemos acabar rápido. Primeiro precisamos saber o que você tem, para poder separar as peças que possam ser vendidas, consertá-las e colocá-las no mercado".

Bufei. "Onde vamos colocar o inventário? Em nossas mãos? Meu laptop foi roubado, lembra?"

Heero retirou um palmtop do bolso. O treco era tão pequeno e fino quanto um cartão de crédito.

"Você usa isso para manter contato com os agentes que estão nos vigiando?" Fiquei bravo, tá? Ele escondera aquilo de Duo Maxwell, o astuto piloto gundam. O que mais ele conseguiu esconder de mim? Não sou muito bom em manter minhas emoções escondidas. Nunca fui bom em ser discreto e segurar as cartas até o momento certo. Se eu as tinha, jogava-as de uma vez e esperava para ver o que acontecia.

Sua expressão pareceu confusa e então ficou séria quando entendeu do que eu estava falando. "Não estamos sendo monitorados."

"Não?" arqueei uma sobrancelha para ele, querendo dizer que não engolia aquela baboseira. "Você não está armado. E nem é o tipo de cara que faz isso, a não ser que saiba que tem reforços".

"Sucateiros andam armados?" Heero perguntou, mas podia ver que já estava ciente da resposta.

"Geralmente não," repliquei com um murmúrio.

"Eles trabalham com uma automática presa atrás da calça?" persistiu quase friamente. Quando olhei para outro lado, nervoso e corado, ele respondeu por mim. "Não, eles não fazem isso. Estou disfarçado. Não posso ter uma arma. Estou correndo riscos, eu sei, mas essa é uma operação armadilha que vai levar tempo para se desenvolver. Não posso me dar ao luxo de fazer alguém suspeitar de mim. E sobre ser monitorado: está fora de questão. O pessoal que estamos tentando prender duvidaria de nossas intenções com os ferros-velhos em L2".

Meus olhos se arregalaram e o olhei com atenção. "Quer dizer... Que são tão importantes assim?" Quando ele assentiu com a cabeça, assoviei. "Ninguém se atreveu a ir atrás deles antes, Heero. Isso é perigoso pra caramba".

"É sim." Heero concordou e pareceu preocupado: "Por isso eu deveria ter protestado mais, quando foi sugerido que o usássemos de isca. Pensei..."

Fiz uma careta. "Você pensou que eu não estava assim tão abaixo da cadeia alimentar deles, eu sei". Minha expressão então clareou, ao perceber que Heero acabara de se isentar da culpa e eu estava sendo um cabeça-dura com excesso de paranóia. Isso merecia uma... "Desculpa, tá?" esfreguei minha nuca nervosamente. "Eu tive uma vida difícil. Confiança não é algo que entrego facilmente a alguém". Tudo bem, não é algo que entrego de jeito nenhum, mas ele não precisava saber disso.

Heero relaxou e me deu aquele sorriso, aquele que me fazia sentir muito bem por dentro. "Não esperava menos," falou. "Não começamos muito bem".

"Nem precisa repetir!" lamentei, e acenei para uma pilha de sucata. "Podemos começar?"

"Duo..." Talvez Heero fosse se desculpar pelo atrito inicial, mas o cortei.

"Esquece, Heero," comecei a andar em direção à pilha. "O que está feito está feito. Se parar e ficar se remoendo com coisas assim, isso só vai te deixar para baixo cada vez mais. A gente tem que seguir olhando pra frente. Eu sinto muito, você sente muito, então está tudo bem".

E estava. Não, eu ainda não confiava nele completamente, mas ao lutarmos e suarmos para completarmos aquele inventário, soube que estava o mais próximo quanto podia ficar de alguém.

Heero estava meticulosamente focado. Eu andava para todo lado, me distraindo com qualquer coisa e basicamente sendo subjugado por tudo que precisava ainda ser feito. Ele me mantinha na linha, conseguia me evitar de passear de pilha em pilha e traçou um sistema. Olhei para tudo aquilo e julguei 'infinito'. Ele olhou para tudo e julgou 'possível de ser organizado em curto espaço de tempo'. Heero me mostrou rapidamente estar certo. Não contamos cada pedaço de lataria como temia. Ao invés disso, estimamos o que parecia ser mais relevante, e nos concentramos em contar apenas os itens maiores e mais caros do terreno. O maquinário era fácil. Eu tinha um guindaste com uma garra em concha e um guincho substituível que trocava dependendo do que precisava. Fazia o trabalho das máquinas das quais nunca pude comprar. Porém, o que não fazia, tinha de ser feito em árduo e exaustivo trabalho manual. Vi Heero observar a monstruosidade enferrujada já nas últimas e olhar para mim, antes de jogar o preço lá em baixo.

Odeio pena, sempre odiei e sempre vou odiar. Era como meter uma estaca no caixão; você já está morto, agora vamos profanar o corpo. Fazia meu temperamento se incendiar instantaneamente. Queria gritar com Heero, dizer algo para me fazer sentir melhor, mas... Não o fiz. Que merda poderia dizer? Teria de ter uma tirada de qualidade que compensasse. Não consegui pensar em nada.

Terminamos um pouco depois do meio-dia e fiquei ali, atônito, limpando o suor e a poeira do meu rosto com minha bandana, dificilmente acreditando termos terminado, enquanto Heero calculava tudo. Quando ele ergueu o olhar, esperei pelo pior. Não estava preparado para sua expressão satisfeita.

"Você tem umas máquinas boas de vender aqui," anunciou. "Elas só estão em pedaços. Se juntarmos as partes, poderemos reconstruí-las e teremos uma soma considerável, para recuperarseus créditos."

Pisquei. "Pedaços?"

Heero apontou para os montes de sucata ao terminar as anotações. "Estão espalhados por todos os cantos. Tomei nota de cada peça de máquina que encontrei e as adicionei à contagem enquanto trabalhávamos."

"Eu... Acho que sou bem mais desorganizado do que esperava." Estava sentado numa montanha de dinheiro e não sabia! Que fosse Heero a mostrar... para mim, um maldito sucateiro... Era mais difícil de engolir do que piedade. Eu repliquei, um pouco defensivo: "Talvez não fossem peças aproveitáveis e nunca me incomodei com elas".

O agente disfarçado ergueu a vista, finalmente vendo como eu estava tenso. "Pode ser. Duo..." Pausou escolhendo suas palavras cuidadosamente, não querendo me ver mais derrotado. "Isso não é trabalho para um homem só. Você merece um grande reconhecimento por conseguir levar esse comércio tão longe, considerando o nível de competição."

Expirei um pouco de ar, a raiva escapando aos poucos como vapor saindo de uma panela de pressão. Escondi-me atrás da aba do chapéu. "É, valeu..." Meu orgulho não seria exigente com o tipo de confete que me era jogado.

"Olha Duo," Heero começou meio inseguro. "Tudo bem se esperarmos mais um dia para limpar o outro barraco? Acho que devemos montar essas peças e colocá-las para funcionar o quanto antes."

"Por que me importaria?" estranhei.

"Você não dormiu muito bem." Ele reparou. "Minha presença deve estar te incomodando."

Eu estava apaixonado pela aba do meu chapéu. Escondia bastante, incluindo a vermelhidão queimando pela minha face. O chão de repente se tornou muito interessante. Nossa, veja só, magníficas partículas de metal. Quais seriam seus efeitos no pulmão do homem? Tá bom, pense, pense, pense... Não posso dizer 'Você é simplesmente tudo o que eu sempre quis em um homem, não consegui evitar te secar a noite toda'. Tinha de ser mais... Razoável e menos... Ameaçador. Não queria Heero repentinamente achando minha varanda ou a mesa do escritório mais confortável do que ficar comigo no mesmo cômodo. Ah, acho que encontrei o que queria e era meio verdade... "Vê-lo outra vez, conversar como fizemos noite passada," expliquei: "Fez com que me lembrasse da guerra. Tive alguns pesadelos. Mas não acho que isso vai continuar acontecendo, então, é, você pode ficar no meu quarto por mais alguns dias. Se não começarmos a fazer algum dinheiro, nenhum de nós vai ter de se preocupar em qual cabana ficar; não teremos mais uma propriedade pra morar".

"Concordo," o moreno falou e fez com que eu me sentisse um gênio com aquela única palavra, como se tivesse acabado de calcular o Pi até um grau infinito de ponta cabeça e assobiando... Ave! Eu estava perdido! Eu costumava odiar gente dependente tanto de outro alguém assim. Chamava-os de estúpidos, retardados, ingênuos...

Heero colocou o computador no bolso e começou a escalar a pilha de ferro para alcançar seja lá o que ele havia identificado mais cedo. Todos os pensamentos do quão idiota eu realmente era desvaneceram da minha cabeça. Heero usava um jeans azul desbotado e sujo, mas era justo em sua bunda e eu tinha uma bela visão dela, enquanto ele subia até um ponto mais acima na pilha. Eu também tinha uma bela visão do seu...

"Me ajuda a tirar isso!" Heero chamou.

Tive que sacudir fortemente a cabeça para acordar do meu transe, parecendo uma cadela no cio. "Uh... Com prazer... Uhm... Quer dizer, já estou indo." Realmente estava me acostumando a corar nessa altura do campeonato, mas aquele rubor combinava com o ataque repentino de 'que diabos?' que tive quando vi Heero olhar para baixo e... Sorrir convencido. Ele... Percebera meu deslize, meus pensamentos obscenos revelados em poucas palavras e ele não estava... bravo... desconfortável... pronto para me bater. Apenas sorria desdenhoso.

O sorriso sumiu quando ele franziu o cenho para um pedaço grosso de uns 10 quilos de uma máquina meio enterrado no lixo enferrujado. "Nem se mexe," ele me disse, todo profissional agora. "Se puxarmos juntos... Mas temos que ter cuidado. A pilha não está tão estável."

Estudei a dita-cuja que subia por mais quase dois metros, muito daquilo era bem pesado. "Desce e eu pego o guincho. Vou mover um pouco disso para outra pilha," sugeri.

Ele concordou ao limpar o suor da testa. Seu cabelo caia desordenado sobre aqueles olhos azuis escuros e suas bochechas começavam a se bronzear levemente. Saiu impulsiva, uma dúvida que não conseguia mais guardar, a pergunta que nunca imaginei fazer a Heero Yuy, suposto adorador de Relena Peaecraft: "Você é gay, Heero?"

Heero riu, seus olhos cintilando para mim. "Sempre invejei isso em você; destemido, sem medir conseqüências."

Pisquei e sorri para ele, desafiador. "Bem?"

O japonês pausou, ajustou a aba do chapéu, e então disse olhando para meu lote de ferro-velho. "Lembra no Centro de Operações dos Preventer... Quando o doutor estava olhando suas revistas?"

Grunhi. "Sim."

Heero pausou novamente e então o rosado em suas bochechas se tornou mais resplandecente. "A edição que ele estava segurando... Também era minha favorita."

Meu queixo caiu, gargalhei, e então voltamos ao trabalho com um novo entendimento.

Continua...