Lawless Hearts
Por: Kracken
Tradução: Aryam
N/T: Para facilitar minha vida, estou transferindo todas as minhas traduções para a minha conta do ffnet, elas passarão a ser atualizadas por aqui. Não vou tirar nenhuma fic do perfil do Grupo de Traduções e também não sai do Grupo. Desculpem o inconveniente e obrigada pela compreensão.
Um imeeeeeso beijo e um abraço bem apertado para Simca, Vivi-hydest, Aoi-tsukii, Maho Malfoy (perguntei para a autora, mas infelizmente ela não me deu o nome da revista preferida dos garotos XD), Cristal Samejima, Neko Lolita e zilettssouza (assino embaixo: gundam wing yaoi pra sempre!). Também a quem acompanha a história, mas não se manifesta. Obrigada! Vocês são demais! Espero que continuem gostando da fic! Desculpe a demora para postar novos capítulos.
Capítulo 07 – Cada vez melhor
O trabalho foi exaustivo, longo e quando enfim tínhamos tudo empilhado para organizar no dia seguinte, estava quase grato por estar exausto para pensar em outras coisas do tipo: agora que sabia que eu ser gay não afetava Heero em absoluto, como eu lidaria com ele em um quartinho apertado.
Só porque Heero também era gay, isso não o tornava disponível. Na verdade, nossa proximidade podia gerar muito mais desconforto do que quando eu o achava ser hetero. Não éramos mais colegas de quarto sem nada em comum no departamento de orientação sexual, agora tínhamos... potencial? Estremeci internamente. Não potencial para florescer algo entre Heero e eu, mas potencial para que um Duo Maxwell acabasse fazendo algo muito, muito estúpido que poderia ser incompreendido... Ou, não incompreendido, mas rejeitado por um Heero Yuy, enfiando um punho na cara do tal Duo Maxwell.
Ele pode ser gay, mas Heero provavelmente tinha alguém. Quero dizer, olhe pro homem; musculoso, confiante, Preventer... Sim, ele definitivamente tinha alguém o esperando em casa. Talvez dois companheiros, talvez três, quem sabe... Quem sabe eu não poderia ser o número quatro?
Balancei a cabeça fortemente e joguei a última peça da lista para baixo, onde Heero esperava no pé da pilha de sucata. Acabe logo, disse a mim mesmo, coma, tome um banho, bata um papo, vá para a cama. Mantenha sua libido nas calças. Era muito fácil me enganar, esquecer que meu ex-companheiro de guerra só estava aqui comigo porque queria por as mãos em uns caras maus. Tudo bem, má escolha de palavras. Claro, Heero estava sendo legal comigo... e... bem... amigável... Mas isso não significava que ele jogaria para o alto toda a operação, mudar de trabalho para se tornar um sucateiro e viver eternamente comigo em um pequeno barraco em L2, com um cachorro, um gato, um comércio e sexo intenso e quente regularmente... Certo, concentre-se Maxwell... Termine o trabalho, comer, banho, dormir... Terminar trabalho, comer, banho, dormir... Realmente não queria um olho roxo.
Houve um barulho bem acima de mim e a luz mudou sutilmente. Pisquei e olhei para o alto, empoleirado no topo da pilha de sucata. Os refletores que estavam nos assando por absorver os raios de sol giravam. Observei com temor. Alguém bem no topo da cadeia alimentar decidiu que enjoou de dias quentes de verão. Podia ser bom ou ruim dependendo de sua vontade no momento. Eu só não queria ver neve...
Ouvi as comemorações vindas dos outros terrenos, todos vaiando e gritando, assim que os refletores pararam e o ar refrescou uns vinte graus. Havia até uma brisa suave. Eu ri, tirei o chapéu e estiquei os braços para senti-la. Resfriou o suor em meu corpo, mas sorri com todo o meu ser, enquanto alguns pequenos fios soltos do meu cabelo esvoaçaram em volta do meu rosto e senti um momento de pura felicidade.
Enfim, olhando para baixo, peguei Heero me assistindo. Não conseguia interpretar aquele olhar. Ele sorria, mas sua contemplação era bem intensa, como se estivesse me observando e vendo algo muito, muito... interessante? Ridículo? Embaraçoso? Eu simplesmente não conseguia entender. Dei de ombros e meio deslizei, meio escalei para baixo até chegar ao chão.
"Foi mal, foi uma sensação muito boa," murmurei encarando meus pés ao colocar o chapéu de volta.
"Você parecia..." Heero parou de falar de repente. Atrevi a espia-lo por debaixo da aba do meu chapéu. Ele olhava para longe incerto. Ótimo! Ele me achava um lunático.
Suspirei e dei um tapinha na peça que ele segurava. "Coloque isto com o resto e encerramos o dia."
O japonês engoliu seco, mexeu inquieto com a peça, jogando de uma mão para outra, e concordou com um movimento de cabeça se retirando até a pilha e atendendo meu pedido.
O metal a nossa volta rangia. A temperatura mudou rapidamente e o ferro resfriava e se contraia. Olhei o céu. Algumas vezes, esse tipo de mudança no clima criava chuva, mas não via nenhuma. Talvez o deus dos controles do clima tivesse compensado por isso. Sendo assim, era difícil de sentir o ódio de sempre quando finalmente conseguia aproveitar ar fresco.
Heero se juntou a mim e voltamos ao barraco. "O chuveiro é meu primeiro," avisou ao subirmos os degraus da varanda.
"Maldito!" reclamei, enfiei as mãos sujas em meus bolsos e grunhi: "Ta bom". Sempre respeitei quem reivindicasse seus direitos.
"Enquanto você toma banho," Heero sugeriu. "Esquento o jantar e arrumo na varanda. Precisamos aproveitar o clima o quanto durar."
"Boa idéia," respondi, aliviando minha irritação. "Está certo sobre aproveitar. O clima fica assim uma vez na vida e outra na morte."
Heero franzia o cenho ao entrarmos no barraco e começou a tirar sua regata imunda no caminho para o chuveiro. "Não consigo entender por que eles mantêm esse lugar tão quente."
"Acho que o cara encarregado gosta do poder de nos fazer sofrer," bufei e sentei no canto do sofá para tirar minhas botinas. Dei de ombros. "Ou os malditos refletores são tão velhos que não funcionam 90% das vezes que tentam vira-los. Vai saber..."
Heero ergueu as sobrancelhas para a segunda teoria. "Faz sentido considerando o que vi até agora..."
Ele chutou seus sapatos, espalhando poeira vermelho-amarelada pelo chão, abriu o zíper dos jeans e o deixou cair. Sim, ele usava aquela roupa de baixo cinza com botões... Meus olhos provavelmente estavam enormes como pratos. Eu não esperava um show de striptease tão espontâneo, e estava muito cansado para esconder ou me recuperar do choque rápido o suficiente. Heero saiu de seu jeans no caminho para o banheiro, totalmente distraído.
Suas pernas eram como obras de arte musculosas, arqueadas e proporcionais. Sua pele tinha cicatrizes aqui e ali, como a minha, mas ainda era deslumbrante para mim. Seus braços eram fortes e suas mãos largas. Os ombros eram bem definidos. Podia chamá-lo de magro e esbelto, mas isso o faria pensar em alguém fraco. Heero era masculinidade compactada; bronzeado, perfeitamente esculpido... E Deus! Olhe só para aquela bundinha redonda!
Minhas mãos cobriram e abaixaram a repentina elevação nos meus jeans. Engoli seco e me esforcei, quero dizer, realmente me forcei a virar. A porta fechou com um baque e a água do chuveiro ligou. Eu tinha, talvez, cinco minutos. Não, não estou envergonhado... Um cara faz o que tem que fazer. Disse 'olá' para a Senhora Mão em meu escritório, me tornando um exausto Duo Maxwell pós-coito, me limpei e estava de volta no canto do sofá como se nada tivesse acontecido, a tempo de ver Heero sair.
Secando seu cabelo castanho escuro com uma toalha, ele avisou desnecessariamente: "Sua vez".
Não, sua vez, pensei irritado, e comecei a me despir na frente dele. Oras, ele era gay! Devia saber muito bem o que diabos fez, certo? Chamamos pessoas assim de provocativas. Tentei não pensar que talvez eu estava tão abaixo em sua escala de interesse que ele nem ao menos considerou minha provocação. Eu ainda tinha um pouco de ego, muito obrigado. Mesmo assim, Heero não parecia mesmo do tipo de pessoa que seduziria assim... Quero dizer... Para que me tentar se não... se ele não queria... se eu não era alguém que... terminaria o trabalho... Bom, isso já é passado, comer... Não, banho, depois comer, e então ir pra cama... Esqueci de provocar Heero. Chutei meus jeans para um canto e com passos pesados fui até o banheiro.
Olhando para meu mim mesmo no espelho rachado, dei um peteleco na testa do meu reflexo. "Pare!" sussurrei bem baixinho. A Esperança espiou sobre meu ombro e deu uma risadinha. Não queria desistir, não importando as improbabilidades de Heero e eu ficarmos juntos... Um cara na posição de Heero e um carinha humilde do ferro-velho como eu... Um policial em missão e alguém a um passo da cadeia... A Esperança sorriu amplamente, ousada, ignorando simples lógica e pura realidade, enquanto eu imaginava como seria... Heero e eu rolando pelos lençóis, nus, gritando de prazer, dizendo... sei lá, o que quer que seja que as pessoas dizem quando realmente...
Eu precisava exorcizar essa maldita Esperança! Liguei a água fria e nos dei um banho congelante.
Quando saí do chuveiro, convencido de que poderia encarar o homem sem me humilhar muito, encontrei Heero esparramado em seu sofá. A comida estava fumegante e ele parecia ter adormecido esperando as etiquetas fazerem seu trabalho.
"Droga," murmurei me sentindo traído de alguma forma.
Cuidadosamente coloquei suas pernas no sofá e o cobri com um cobertor. Os geradores de calor ligados à noite mantinham a temperatura constante, mas trabalhar o dia todo no calor e logo em seguida tomar banho resfriava o corpo de uma pessoa despencando sua temperatura corporal bem rápido... Ta, então eu estava arrumando desculpas para tocá-lo e ajeitá-lo. E daí?
Levei minha comida e um refrigerante bem gelado para a varanda, sentei com as costas apoiadas em uma pilastra e fitei a escuridão onde estava a bagunça que era meu inventário, enquanto comia meu jantar.
Um rato correu por ali. Meus vizinhos brigavam aos berros, algo sobre motor e células de combustíveis desgastadas. Havia o som de metal sendo arrumado, sibilando, e vez ou outra, caindo com barulhos agudos, tombando. Essa era L2 numa noite calma, tão quieta como poderia ficar. Com esse pano de fundo, encontrei minha mente tentando organizar o que aconteceu em minha vida em tão pouco tempo. Havia se tornado um trem descarrilado de encontro a uma montanha, mal agüentando sobreviver, a mesma coisa de antes. É, eu ainda estava no mesmo caminho, mas havia uma drástica nova dimensão.
Pra falar a verdade, eu era muito solitário. Hilde preenchia um fim de tarde quieto com conversa e seu ávido otimismo. Doeu pra caramba quando aquele otimismo morreu e eu vi aquele olhar 'Oh, como tenho pena de você, seu coitado bastardo' em seu rosto, e ela me disse que queria novos ares, um novo homem em sua vida, um que realmente se interessasse por ela, e um futuro. O último motivo doeu ainda mais. Não havia nenhum futuro para Duo Maxwell, aquelas palavras implicavam, nada de pegar uma carona na cauda de um cometa e ir com a maré. O navio de Maxwell estava afundando e até os ratos pularam fora... Outro rato passou por perto... Bem, um rato pelo menos.
Não, não era justo. Empurrei de lado minha comida e tomei um longo gole da bebida. Era bom senti-la descendo, gelada e refrescante. Ninguém pode culpar uma garota por querer uma vida comum, por se cansar de estilhaços de sucata e engolir poeira. A vida na cidade tinha mais a ver com ela. Longe de mim e meu Titanic e ponto final.
Sentei com meus braços apoiados nos joelhos, cabeça suspensa olhando para o nada. Pela milésima vez pensei em vender o negócio para o desgraçado que mora ao lado, mudar completamente, trocar de emprego e nunca mais ter areia amarelo-vermelha até na cueca todo dia. Pensei em escritórios nos prédios com ar-condicionado, um distintivo importante e... o quê... Exército? Preventers, como Heero? Pensei em uniformes engomados e uma arma carregada ao lado. Essa idéia já me deixava na margem da adrenalina, apenas imaginando os perigos, armas, perigo, armas... Parei no meio do caminho e mudei de marcha com esforço e outro gole de soda. Poderia vender cachorro-quente na esquina. Nada de errado com isso...
Peguei um punhado de terra com partículas de metal enferrujado e deixei escorrer por entre os dedos. Era áspero, duro e um pouco tentava ser absorvido em minha pele. Sei que a emoção da batalha, de estar em missões, era como uma droga que eu não me via conseguindo superar, mas... Tentei imaginar deixar aquele vizinho filho da puta tomar conta do meu negócio, visualizei-o em minha mente gargalhando ao derrubar meu muro e clamar para ele minhas coisas, aquela merda toda na qual eu suei sangue para conseguir juntar.
"Só por cima do meu cadáver!" reclamei e joguei o resto da terra no chão.
Esfreguei a mão em meu jeans sujo e pensei no cenário da guerra. Era como uma guerra, exceto a parte onde eu não podia matar meus inimigos. Havia sustentado meu campo de batalha e era em um acre em L2 sobre terra e ferro-velho. Perder essa guerra não parecia uma opção razoável. Era muito como ficar dependurado pelas unhas sobre um imenso abismo sem fundo e deixar soltar. Eu tinha certeza de que nunca alcançaria o fundo e jamais escalaria outra vez.
Quando chegava a isso, acredito, era meu porto seguro, um lugar onde eu provara ser mais do que apenas um órfão, um passageiro clandestino dos Sweepers e, bem, um assassino. Sei que era meio louco, tudo bem, talvez bem louco, colocar todas as minhas esperanças nisso como se fosse minha única chance, mas já vi vários outros tomarem o caminho fácil depois da guerra, o caminho de viver em um mundo pacífico com o qual não sabiam lidar. Senti... como... como poderia ser um deles, tudo fácil demais, entretanto, talvez... lá no fundo... provavelmente sabia que não daria certo. Apenas o potencial me assustava... Assustava o suficiente para não desistir... Nunca... Não até que essa vida fosse arrancada, forçosamente, de minhas mãos.
"Vá se ferrar e vá pro inferno," falei na direção do meu vizinho e o brindei com o resto de refrigerante. Então levantei, mas não voltei para dentro. Heero estava lá afinal e, mesmo dormindo, achava difícil encará-lo.
Ele era um agente Preventer. Estava comigo porque queria me usar. Queria me colocar em perigo me seguindo e arriscar meu negócio usando-o como cobertura. Pensei no que aconteceria quando prendesse 'seja lá quem fosse'. Heero Yuy pegaria esse homem, não tinha dúvida. Ele era o melhor e era apenas questão de 'quando' e não 'se'.
Heero poderia me arruinar, eu ajudando ou não. Poderia me jogar na cadeia, talvez não com as acusações originais, mas por um bando de outras coisas. Leis em L2 eram numerosas, complicadas, fáceis de serem burladas e bem estúpidas. Andar mascando chiclete provavelmente te daria uma sentença perpétua. Usando essas leis, o agente poderia me matar de pouco a pouco me multando por qualquer coisa desde uma pilha de sucata muito grande até minha escova de dente não estar no tamanho regularizado.
Heero também podia me fazer desaparecer.
Havia várias maneiras para me encaixotar, trancar e embrulhar para presente. Mentalmente, pratiquei encarar meus companheiros sucateiros e dizer a eles que não sabia de nada sobre a armadilha. Poderia convencê-los, quem sabe, se o cara indo para a prisão fosse do alto escalão. Todos os sucateiros, no fundo de seus corações, queriam vingança de cada um dos malditos do governo. Contudo, era correr risco, apostando que não seria um de nós. Se fosse, os outros me expulsariam, cortando meus suprimentos, clientes ou pernas, literalmente...
Lógica me dizia para chegar lá dentro e dar porrada nesse japa folgado. Eu deveria estar muito puto de raiva. Deveria estar... Deveria querer... Mas não queria. Conseguia ver seus olhos azuis em na minha cabeça, alegres e cintilando para mim, sua boca em uma pequena curva gentil e... Senti como se traísse a mim mesmo, ou pelo menos várias partes de mim eram traidoras. Minhas partes baixas ansiosas tentavam chamar a atenção só de imaginar Heero esparramado no sofá apenas naquelas curtas boxers cinza. O outro era mais difícil de reconhecer... Meu coração nunca havia se apaixonado antes... Pelo menos por nada que fosse vivo. Um enorme Gundam mal encarado não conta como amor da vida.
Tentei e experimentei umas relações amorosas algumas vezes, todas com resultados desastrosos. Minha primeira queda, um integrante dos sweepers pelo nome de Dirk (1), ele parecia experiente; loiro, olhos azuis frios e um queixo como monumento de granito. Dando em cima de mim no chuveiro comunal foi errado de tantos jeitos que nem podia contar, mas eu tinha apenas quinze anos na época, o que diabos eu sabia? Tudo o que eu TINHA descoberto, até aquele ponto, era que ficaria louco se não conseguisse algum tipo de alivio e ele havia sido tão, tão prestativo para me ajudar. Não passou de masturbação mútua, antes de sermos descobertos. Dirk foi escoltado para longe pelos meus colegas Sweepers e nunca o vi novamente. Os Sweepers me apresentaram as revistas pornôs e então algumas dicas práticas de tomar conta de... bem... mim mesmo.
Passei assim por uma guerra, mas durante aquele tempo, descobri, enfim, que tinha preferência por homens, não mulheres. Porém, mantive essa descoberta um segredo total. Não achava que meus companheiros soldados ficariam muito entusiasmados com isso, especialmente em quartéis fechados. No fim da guerra, consegui 'sair do armário' para Quatre e Trowa, vendo que estavam na mesma situação, mas para mais ninguém.
Decaindo para drogas e bebidas, tive oportunidades de experimentações outra vez. Ficar dopado e bêbado, diminui suas inibições... E seu gosto. Amassos e esfregas atrás de bares, banheiros e em quartos de estranhos não foram comuns, mas aconteceram. Acho que cheguei ao fundo do poço quando dei um boquete de joelhos para meu fornecedor de drogas quando estava sem dinheiro, e deixei um cara mais velho enfiar suas mãos na minha calça e me molestar. Não, nada bonito, nem romântico... Só sexo... Só alivio... E só... Estremeci. Não queria me lembrar de nada disso. Larguei os vícios e parei com tudo. A única coisa que poderia dizer em minha defesa era que não me tornei mesmo um prostituto, nunca fiquei de quatro pra ninguém. Ninguém realmente 'comeu' Duo Maxwell e... Bem... Nunca 'comi' ninguém também. Só não conseguia passar do impessoal, da mentalidade de ainda querer estar com meus sapatos e meias para poder dar o fora logo depois. Nunca parei de me sentir lixo mais tarde, ou como se um monte de esgoto saiu dos canos só pra se atirar sobre mim.
Será que sou tão romântico assim? Joguei minha lata vazia na pilha de sucata e ouvi sua pancada para depois sair rolando. Por que eu tinha problema com o que a maioria dos caras não pensaria nem duas vezes, o que a maioria dos caras considerava como 'conquistas para contar vantagem'? Não queria ser metido. Queria vomitar. Quando chegava a isso, suponho, queria mais do que apenas ter que trocar a roupa debaixo e ser bom em dar desculpas esfarrapadas para me livrar das 'transas casuais'. Talvez fosse por causa da minha vida, por causa da guerra. Eu vivo numa fase na qual a maioria das pessoas não chega até seus trinta anos. Estava pronto para me fixar, ter tudo aquilo de normal, ter... amor, vida doméstica, alguém para abraçar e conversar, alguém para... Queria que significasse alguma coisa, droga!
Puxei meu cabelo até doer, então deixei as mãos caírem e fiz caretas para o nada. Hilde se foi e fez o que eu havia sonhando. Ela estava feliz. Essa era a verdadeira raiz da minha raiva. Verde de inveja. Queria tanto isso.
Meus vizinhos finalmente acabaram sua discussão. Meus pensamentos se voltaram para dormir e para Heero de novo. O que eu esperava? Estava atrás dele apenas por que sentia pena de mim mesmo, desesperado? Ele havia despencado sobre mim e considerei inimigo. Ao invés disso, provou ser um melhor amigo... Pelo menos, até onde sabia. Não abandonaria minha natureza desconfiada tão logo.
Quando olhei para Heero, vi o que podia ser, bem, se fizesse vista grossa e ignorasse os obstáculos para a fantasia dar certo. Tinha a impressão de estar nublando meu bom senso, talvez me fazendo ver coisas em Heero que não estavam realmente lá. Queria pintar uma imagem de um Heero Yuy me desejando secretamente todo esse tempo. Na verdade, ele estava atrás de Relena Peacecraft.
Talvez dividíssemos interesse em homens, mas parecia que Heero podia cortar pro outro lado também. Isso fez meu estômago revirar. Nada contra bissexuais, mas não queria que Heero fosse um. Estragava totalmente minha fantasia, fazia seu interesse por mim parecer ainda mais irreal.
Encare os fatos, disse a mim mesmo. Estão a mundos de distância. Talvez ele te ache bonitinho... Não, gostoso... ou... alguma coisa assim, mas mesmo que fosse mais do que isso... por mais que eu tentasse, não conseguia nos ver em uma vida juntos. Somos diferentes demais, estamos em diferentes degraus na escada da vida, e eu esperando que...
Puxei meus cabelos novamente. "Cala a boca e vai pra cama Maxwell," ordenei miseravelmente. "Mantenha suas mãos e seus sonhos molhados para si e esqueça Heero Yuy. Ele é problema, muita areia para o seu caminhãozinho e está só te usando mesmo."
Um bom tapa na cara da realidade. Bom pra você Maxwell, falei em minha cabeça. Estalei os dedos. De manhã eu seria profissional, distante, irritado, não babando em cima do moreno de olhos profundos. Deixaria que visse o quanto não confio nele, como sua óbvia manipulação não havia funcionado, como não estava gostando dessa atuação de cara legal, como eu...
"Merda! Quem estou enganando?"
Fiz cara feia até o ponto onde imaginava Heero dormindo, como se pudesse enxergar por entre as paredes. Deliberadamente, sentei e me escorei no pilar. Encolhendo-me e envolvendo os braços em torno de minhas pernas, dormi como na minha juventude, onde pudesse. Talvez uma noite sendo miserável convencesse minhas partes traidoras a se conformarem com meu rabugento instinto de rua dizendo para não me apaixonar por ninguém e nunca me apegar. Todavia, não conseguia evitar pensar, ao ser dominado pelo sono com uma farpa do poste se enfiando em meu pescoço, que, se Heero tivesse aparecido em minha varanda sem toda essa história de Preventer, então não teria nenhum motivo para não me deixar levar pelo romance.
Continua...
(1) Dirk significa, em inglês, "punhal", "adaga". Optei por uma adaptação, mas literalmente seria: "um sweeper com o nome de Dirk, e sim, ele parecia um punhal".
