Lawless Hearts
Autora: Kracken
Tradução: Aryam
Nota da autora: Depois que chove na Flórida, temos esse maravilhoso costume de levar nossas queridas caminhonetes e jipes em trilhas inundadas e 'cair na lama', que é uma corrida aberta para todos em pistas enlameadas, com poucas regras, homens exageradamente excitados e movidos a testosterona, e muito álcool. É divertido, perigoso, em maior parte ilegal e... mencionei divertido? ^_^ Essa é a versão de L2.
Corações sem Lei
Capítulo 08 - Enlameado
A mudança nos ares me alertou. Estava pesado. Era o único modo de descrever, mas essa sensação era tão diferente da usual que me acordou. Sentei, sentindo como se estivesse desgrudando meu corpo de seu suporte de madeira. Minha boca parecia o fundo de um radiador enferrujado e minha cabeça estava girando, pensando "que diabos...?", enquanto eu tentava entender o que acontecia.
O cérebro pegou no tranco. Ah sim, tinha decido parar de sonhar acordado com Yuy e tratá-lo pelo que era: um forte agente Preventer mandado para assegurar que eu cumprisse minha parte da barganha. Para comemorar minha resolução, me submeti à tortura de dormir do lado de fora. O que tinha dois propósitos convincentes: o de me irritar o suficiente e de poder continuar a cumprir minha resolução e, segundo, lembrar meu passado. Renovei meu orgulho. É fácil deixar alguém alimentá-lo quando se está morrendo de fome, mas quando não se está mais, corta-se o cordão umbilical e caminha-se com as próprias pernas.
Precisava mudar Yuy do meu barraco para poder me livrar dessa maldita tensão que me enlouquecia, e precisava vender alguma sucata para pagar minhas dívidas. Quando fosse independente outra vez e não devesse nada a ele, sentia que poderia tomar de volta as rédeas da minha vida. Eu não queria ser controlado. Não queria ser forçado. Realmente não queria fazer algo por ele já que desejar Heero resultava em fazer tudo o que ele queria. Duo Maxwell era senhor de si e sempre seria.
"Limpar a outra cabana e juntar as peças para vender," murmurei ao forçar meu corpo dolorido a se levantar. Mas não hoje, emendei ao olhar para o céu e sorri. Hoje seria um dia bom pra mim.
Cambaleei para o barracão e ouvi Heero conversando. Ele bocejou entre algumas palavras e soava como se tivesse acabado de se levantar, sua era voz suave e pomposa. Parei ao lado da porta do quarto e escutei.
"´Tá certo, Chang," Heero resmungou irritado, "mas não vamos nos precipitar nessa operação. Precisamos integrar a nova mercadoria lentamente, montar o negócio e então jogar umas pistas quando estivermos prontos para vender o contrabando. Não podemos dar a impressão de que sabemos o que estamos fazendo. Devemos ser pobres vendedores de sucata que de repente têm algo grande em nossas mãos. Isso vai atrair nosso alvo como um tubarão que sente sangue na água e ele vai querer tirar vantagem de nós". Uma pausa... "O quê? Ah, ele está cooperando. Você estava completamente errado sobre ele, Chang... Não, não espero ter problema nenhum. Entro em contato com você amanhã".
Então entrei, espreguiçando, e, enquanto me inclinava para o armário para pegar alguns pacotes de café-da-manhã e café nos recipientes, falei: "Era o Senhor Enrustido?"
"Hn," Heero respondeu neutro e em seguida: "Trabalhei por longas horas seguidas. Desculpe ter caído no sono ontem à noite".
Trouxe o café e o pacote de refeição para ele, cai de pernas cruzadas no sofá, e arranquei as etiquetas das tampas. A comida ficou entre nós enquanto esquentava. Tentando não reparar o quão charmoso ele estava com o cabelo todo espetado de dormir e seu rosto exposto ainda acordando, perguntei: "Você tem um palmtop com você?"
O japonês continuou sentado e pude vê-lo decidindo se eu era confiável para lidar com o tal aparelho ou não.
"Não precisa me dar a senha," assegurei. "Apenas ligue e me passe."
Heero, então, alcançou sua bolsa e o tirou. Um dedo apertou botões sucessivamente e me entregou o aparelho. Peguei e dei uma olhada. Era muito mais sofisticado do que eu estava acostumado, mas não iria fazer nada muito complicado. Fiz uma planilha com uma calculadora, adicionei alguns itens e devolvi o computador. Ele olhou para a tela com curiosidade.
"Essa é minha conta," falei firmemente. "Quando vendermos essa sucata, vou te devolver cada crédito".
Ele poderia ter discutido, dito que estava tudo bem, que não tinha dívida nenhuma, mas não o fez. Ele sabia que eu estava decidido, podia dizer pelo seu suspiro quase exasperado ao guardar o aparelho novamente. Ao invés disso, enquanto nossas comidas apitavam anunciando que estavam quentes, ele finalmente cumprimentou: "Bom dia".
Sorri largamente e repliquei com uma risada: "bom dia," antes que pudesse me segurar. Certo, eu deveria ser retraído, agir como um Duo irritado essa manhã. Bem, acho que não tinha problema em ser educado.
Comemos e bebemos nossa refeição matinal em silêncio. Heero não se alimentara na noite anterior, portanto estava faminto. Assisti-o quase aspirar seu café-da-manhã e beber dois potes de café. Comi mais vagarosamente e disse com um pigarreio: "Era eu quem estava morrendo de fome Yuy".
Heero ficou constrangido, levantou e recolheu o que estava vazio. "Tenho metabolismo alto," explicou, mas então olhou para mim ao colocar o lixo na lixeira ao lado da geladeira. "Talvez você devesse comer mais também? Quer que esquente outra embalagem?"
Fiz uma careta. "Nunca fui muito animado para tomar café-da-manhã. Compenso mais tarde, não se preocupe".
Heero pegou seu pacote da noite anterior e colocou na prateleira. Não estando aberto, poderia ser requentado. Não tem como não amar essa tecnologia eficiente, especialmente quando passando necessidades. Evitava muito desperdício.
"Deveríamos começar logo com aquelas peças," Heero sugeriu, começando a colocar uma calça jeans.
Mantive meus olhos no café, observando o vapor flutuar preguiçosamente. É, o clima definitivamente mudou. "Wufei estava em cima de você?" perguntei com uma risada abafada.
Houve um longo silêncio e então o agente se recuperou dizendo: "Quê?"
Revisei minhas palavras e quase engasguei em meu café. Engoli o líquido quente e dei uma risadinha. "Droga, que mente poluída a sua Yuy! Quis dizer, ele queria que você concluísse a armadilha?"
Heero fez uma ótima imitação de um peixe. Era muito bom tê-lo desconcertado de vez em quando. Respondeu: "Sim, ele... Ele queria saber se você estava me dando algum problema".
Foi honesto. Então também fui. "Hoje é meu dia de folga, portanto PRETENDO ser um problema."
Heero franziu o cenho. "Dia de folga?"
Concordei com a cabeça, terminando o café. Deus! Era tão bom ter o bucho cheio e o corpo não gritar pra mim que estava em inanição. Sorri bobamente. Alcançando debaixo da cama, puxei a caixa de madeira contendo minhas roupas. Explorei o conteúdo e encontrei uma camiseta bem larga com uma foice feita bem toscamente nas costas. Tudo bem, eu não era nenhum artista. Vesti e puxei um par de jeans rasgado nos joelhos e algumas manchas respingadas em marrom escuro. Tirei uma camiseta reserva com o mesmo desenho e enrolei na minha mão.
"Heero, o clima aqui é bem constante," expliquei, "é quente, quente, quente, um pouco quente, geralmente no Natal é congelante e chuvoso pra variar. Chuva é tão raro aqui que quando acontecem, todos fazem trégua e tiramos o dia de folga para ter alguma diversão."
Heero abriu a cortina e olhou duvidoso para fora. "Eu não vejo nenhu-"
"Você sente quando está prestes a acontecer," cortei. "Leva tempo para a umidade se juntar o suficiente para chover. Na hora em que eu sair para o 'campo', vai começar".
O japa estava franzindo a testa profundamente agora. "Mas o que vai fazer... É muito importante que façamos uma venda logo, Duo. Relaxar agora é..."
"Irresponsável?" Gargalhei. "E daí? De vez em quando Heero, a gente tem que dizer 'que se dane!' e ter um pouco de diversão. Te vejo hoje à noite".
Heero não desistiria tão facilmente. Colocando os sapatos, pegou uma regata e me seguiu para fora do barraco. Fui para um pequeno galpão ao lado e abri a porta. Ali estava ela, Mudhopper [1], meu orgulho e alegria. Okay, admito que minha máquina não parecia mais que um glorioso cortador de grama, mas minha queridinha podia arar qualquer pasto. Ela precisava ser assim para o que eu tinha em mente.
"Maxwell!" meu vizinho estava empoleirado no topo da parede de sucata tapando meu muro e apontando um dedo para mim. "Arraste seu traseiro para o 'campo' pra que eu possa enterrar sua cara suja a sete palmos!"
"Você e que merda de exército?" rebati e o ignorei enquanto acariciava a lataria riscada e amassada da minha Mudhopper. Minha mão parou e tremeu um pouco, o orgulho me atormentou quando precisei pedir para Heero: "Pode colocar duas caixas de cerveja na minha conta, parceiro?"
"O quê?" Eu era magro e Heero esguio, mas eu tinha ombros largos, do tipo que ele teve que olhar por cima. "Talvez se você explicasse..."
"Temos um jogo, acontece na lama," informei, ao pegar Mudhopper e trazê-la para fora do galpão. Heero me ajudou e logo levamos minha querida para o sol. Minha Nossa, como era feia, mas ainda assim eu amava cada porca de parafuso dela. Enormes pneus dentados e motor reforçado, frente emborrachada e pára-choque traseiro, pintura preta descascando por causa de batidas e arranhões; cicatrizes de batalha. "É perigoso, intenso, provavelmente ilegal de várias maneiras, mas divertido pra caramba".
Pendurei minha camisa extra no guidão de couro. Heero pegou e analisou. "Pra quem é isso?"
Não consegui decifrar seu humor. Toda a sua atenção estava na camisa. "Bem," comecei, esfregando a nuca. "É aí que a cerveja entra. Uma caixa é a taxa de entrada e a outra é pra subornar alguém para ser meu co-piloto. Ano passado... Bom, ele com toda certeza não deu certo comigo."
"Por que não?"
Limpei a garganta ao me inclinar para checar o motor. "Bem, ele ficava mais tempo com as mãos na minha bunda do que cuidando do motor."
"Aquele homem do mercado?" Heero adivinhou, e ele realmente pareceu se irritar.
"É, ele," murmurei e mudei de assunto. "Então, seja o Senhor Responsável e comece a trabalhar nas peças, que eu vou me divertir na lama," dei a ele um tchauzinho com a mão e abri o painel para checar o filtro. "Tenha um bom dia."
Uma mão avançou e pegou a camiseta. "Você disse que poderia ser perigoso?"
Franzi o cenho. "Bom, um monte de caras bêbados, com uma coleção de carros de batida feitos de sucata descartada, deslizando e espirrando lama, tentando desmantelar o próximo e alcançar a linha de chegada... Sim, pode ser bem perigoso".
Uma regata caiu perto dos meus pés. Ergui o olhar e vi Heero vestindo minha camiseta de 'time'. Ele me encarou intensamente. "Essa armadilha depende da sua participação nela. Não posso permitir que você seja comprometido. Uma vez que não tenho uma arma para detê-lo à força, terei que acompanhá-lo para mantê-lo seguro."
"Não consegue resistir, não é?" zombei. "O chamado da testosterona e da máquina!"
Heero sorriu malicioso e não respondeu. Não iria admitir nada. Perguntou: "Já ganhou essa competição?"
Foi difícil admitir. "Não, nunca, mas cheguei perto."
Heero me olhou incrédulo. "Você é um piloto Gundam..."
Fiz uma cara feia. "Isso não tem muito a ver com habilidade Heero. Precisa de muita sorte e isso, eu nunca tive muito."
Eu estava fazendo de novo, esquecendo que o homem ao meu lado, parecendo tão amigável e tão ansioso para me ajudar, fazia tudo isso apenas porque tinha um maldito trabalho a fazer. Quase pedi para ele esquecer, quase pedi para ficar e trabalhar, mas... Mais um dia, deixaria passar só mais um, para sermos apenas dois caras se divertindo... Conseguia fazer isso, certo? Afinal, era minha folga. Amanhã poderia bancar o Duo bravo de nariz empinado, que não cai nas técnicas de charme de um Preventer metido a besta.
"Prepare-se para ficar absolutamente imundo Heero, meu caro!" gritei feliz e girei a manivela da Mudhopper quando a chuva começou a cair.
Não há enchentes em L2. Há ralos para drenar a preciosa água, filtrá-la, oxigená-la e mandá-la de volta para tanques. Claro que a sujeira deixava tudo enlameado e difícil de pilotar, mas nada maior que uma poça se formava. Era onde o 'ilegal' entrava. Para preparar o campo para a competição, os ralos eram bloqueados e a água misturada com o barro.
Enquanto montava no assento acolchoado da Mudhopper e Heero sentava-se na traseira com a caixa do motor entre as pernas, falei: "Olha, sei que é um policial, Heero, mas a parte boa vai acabar rapidinho se sair por aí prendendo gente!"
Tive que gritar sobre o rugido do motor. Heero franziu a testa, mas então respondeu: "Não sou Oficial da Patrulha de L2. Sou das Forças Especiais, aqui para uma missão especial. Vou considerar isto fora de minha jurisdição!"
Sabia o que significava. Se a coisa ficasse muito feia, ele cumpriria seu dever, mas apenas pura diversão não seria ilegal em seu manual hoje. Sorri aliviado e aumentei a marcha de Mudhopper. As rodas atiraram lama para todo o lado e a pequena máquina acelerou. O tempo guardado no galpão não prejudicou seu desempenho.
Uma vez fora do quintal, virei para uma passagem entre os lotes, um lugar onde é tão acidentado e desigual que ninguém consegue se assentar e pilhar sucata. O que já é muito. Sucateiros são durões e teimosos. Não admitiam derrota facilmente.
Levei Mudhopper pelas cercanias, as grandes rodas passeando pelo terreno bruto tranqüilamente. Podia ver homens recolhendo a água enquanto chovia, misturando e preparando o campo. Um arrepio passou por mim, mas também me fez pensar, ao estacionar perto de um vendedor se organizando, se eu tinha forças para isso. Comprei minhas duas caixas de cerveja, Heero pagou por elas e o encarei feio até que as anotasse no computador. Enquanto esperei, repassei mentalmente minha situação.
Os tempos haviam sido difíceis, as refeições poucas e espaçadas. Consegui dar um jeito, mas agora minhas reservas estavam praticamente esgotadas. Em uma competição física assim, pergunto-me se tenho energia suficiente para passar por isso.
Joguei minha 'taxa de entrada' na mesa, onde os juízes já discutiam e abriam latinhas para se embebedar. Eles apenas concordaram com a cabeça e me acenaram irritados, um gesto de reconhecimento significando 'dê o fora' e voltaram a discutir e beber. É, eu era durão e teimoso também e não me daria por vencido sem tentar. Acho que descobriria se tinha garra pra isso durante a competição e não antes.
Heero não era tão lesado. Lançava-me olhares. Olhares os quais ignorei enquanto subimos novamente em Mudhopper e nos dirigi para o meu banco. Talvez ele não pensasse que a pista fosse tão difícil. Não era apenas deslizar pela lama, era um campo de lixo enterrado inclinado e barro.
Meu banco era apenas isso, um pedaço grosso de material plástico exatamente como os que circundavam o campo. A maioria marcava seus bancos para usá-los nos anos seguintes. Esse era um território seguro para nossas coisas e ninguém roubava o que se deixava ali. Ferramentas, cerveja, computadores, etc. estavam fora dos limites até a competição terminar. Meu banco era distinto já que eu havia encravado toscamente meu nome no topo dele.
Descarreguei minhas ferramentas e uma alavanca de partida extra do compartimento lateral de Mudhopper, e as deixei junto com a cerveja no banco. Minha máquina continuou a rugir até girar a manivela e desligá-la completamente. Levantei sua 'saia' para me certificar de que todos os parafusos estavam apertados e a lama do nosso curto passeio não comrpometeu seu interior.
Heero assistiu por longos minutos e então se agachou ao meu lado. Não perguntou se eu construí Mudhopper. Era óbvio que ela era feita de cada pedaço excedente esquecido debaixo do sol. Ao invés disso, perguntou: "Pra que a segunda caixa de cerveja se não vai precisar subornar um ajudante?"
"É um 'pagamento' não suborno," bufei, ajustando um parafuso, e limpei a sujeira com meu cachecol. "Preciso da segunda caixa para comemorar. Eu não bebo, mas é legal entregar as latinhas para quem bebe," minha expressão era desgostosa. "Se fosse qualquer outro dia, aqueles caras ali embaixo," apontei a linha de pessoas revisando suas máquinas, "cortariam as asinhas do meu negócio para me deixar cair feio de qualquer maneira, mas hoje, somos melhores amigos."
Senti minha trança ser erguida e puxada para as minhas costas. Olhei de esguelha para Heero. Estremeci. Ninguém tocava em meu cabelo. O gesto invadia de tal maneira meu espaço pessoal que não consegui evitar me afastar bruscamente. Sua mão se recolheu.
"Desculpe," Heero pediu rapidamente e me senti um idiota, como uma garota estúpida, especialmente quando ele me chamou a atenção: "Você não amarra, não protege o cabelo de algum jeito, quando trabalha com máquinas?"
"Sim," grunhi, lembrando como aprendi do pior modo a fazer exatamente isso. Nada o faz ser mais zeloso com esse tipo de coisa do que ter sua trança enrolada em uma engrenagem giratória. Porém, fui sortudo o suficiente de estar perto do botão de desligar e me salvar de ter uma trança e um couro cabeludo arrancados violentamente. Dei uma batidinha na Mudhopper com a minha chave de fenda. "Nada fora de lugar," indiquei.
Foi a vez de Heero parecer estúpido. Ele assentiu com a cabeça uma vez e desviou o olhar como se checasse os competidores. Sou um maldito ex-piloto Gundam. Será que ele achava que eu tinha perdido meu cérebro depois da guerra? Pensando nos meus negócios, estremeci. Talvez ele tivesse razão para duvidar de mim.
A chuva estava nos encharcando. Ninguém ligava. Uma ou duas vezes me inclinei para trás apenas para deixar as gotas respingarem no meu rosto. Meu Deus, eu amo isso! Era uma tentação jogar essa competição pro alto e ir sentar em algum lugar para aproveitar enquanto durava. Entretanto, meu vício em adrenalina e desafio, a necessidade de superar meus vizinhos pelo menos nisso, era muito mais forte.
A chuva diminuiu, tornou-se uma garoa. O sinal para o inicio da corrida foi dado por uma alta sirene.
Olhei para Heero enquanto colocava minha trança por dentro da camisa e do jeans. Fazia cócegas nas costas, mas estava protegida de dano. "Regra número um," comecei. "Essa máquina pode capotar. É muito pesada e nada pode impedi-la de te esmagar se cair em você. Pule se tiver algum problema. Número dois, essa lama não é macia. Está cheia de lixo e escoamento de todos os terrenos. Provavelmente tem coisas enterradas aí que ninguém sabe o que são. Algo tóxico pode ser a última coisa com a qual tenha que se preocupar. O que estou dizendo é: não caia a não ser que tenha que cair. É melhor enfrentar uma turbulência e ser atingido do que tentar pular no barro, ´tá?"
Fechei Mudhopper e joguei minha chave de fenda no montinho de ferramentas no banco. "Pronto?" perguntei. "Fica bem agressivo lá, Heero. Você tem que ser minha defesa enquanto eu piloto."
"Precisamos chegar à linha de partida," Heero afirmou e me deu um sorriso impetuoso. Ele sentia a onda de adrenalina também. Caraca, nós somos muito doidos! Acho que por isso nos transformaram em pilotos aos quinze anos.
"Hei Maxwell!" uma mão passou pela minha bunda e deu um aperto de palma cheia. "Não vai me dar nenhuma chance esse ano?" era aquele cretino do mercado. Lembrava dos acontecimentos do ano passado detalhadamente e isso me deu forças para dar-lhe um gancho bem dado na cara. Ele se espatifou, deslizando na lama antes de eu me dar conta que Heero também lhe dera um soco nem menos de um segundo depois de mim. O homem estava fora do jogo.
Um médico correu ao seu encontro, já coberto de lama dos joelhos pra baixo. Não perguntou 'por quê?', brigas eram tão numerosas quanto as gotas de chuva no dia enlameado. Como procedimento, o doutor checou suas pupilas, grunhiu e enfiou uma almofada debaixo da cabeça do homem. "Ele ficará bem."
"Que pena," Heero rosnou.
Esfreguei os nós dos dedos doloridos. Arrisquei um olhar de soslaio para Heero, vendo o quão nervoso ele estava e me perguntei o porquê. Indignei-me para encobrir minha insegurança. "Eu dou conta de um cara que tenta me fazer de corrimão Heero, não precisava de-"
A expressão de Heero era feroz. "Sim, eu tinha. Ele mereceu," retrucou. "Vamos para a linha de partida."
"Sim senhor!" zombei, meio nervoso, meio envergonhado e realmente incerto de qual era o placar entre Heero versos 'Time da casa'. Não que eu precisasse saber imediatamente. Precisava mesmo me focar na corrida.
Liguei a Mudhopper outra vez. Ela rugiu alto como um tigre. Aiai, eu a amo. Montamos nela e a levei pela lama, escalando para o topo do campo. Todos os outros já estavam lá. Agüentei as provocações.
"Esse pedaço de lixo não está funcionando, Maxwell?"
"Quer que a gente te reboque atrás de nós?"
"Com medo da grande colina, Maxwell?"
"Esse é seu novo tarado? Você devia ter um segundo 'mecânico', sabia?"
"Por que você não aposenta esse monte de lata velha e arranja uma máquina de verdade, Maxwell?"
Eu os ignorei e me concentrei em posicionar minhas rodas. Heero encontrava o melhor jeito de se segurar e tentava vários movimentos para testar a estabilidade da Mudopper. "Ela vai ficar de pé," assegurei. "Contanto que ninguém a ataque por baixo." Possibilidade improvável? Nem tanto se você pudesse ver o percurso. Havia várias oportunidades para alguém atacar quando se está descendo.
Heero fez uma pergunta que um policial faria ou um homem em missão. "Alguém já morreu nessas corridas?"
Sorri forçado. "Claro que sim! Agora se segura pra valer!" gritei para trás e dei partida na Mudhopper quando a sirene tocou.
Continua...
Notas da Tradutora:
Muito obrigada à Neko Lolita, Simca e Vivi-hydeist pelos comentários! Este capítulo está aqui para vocês. Abraços!
[1] Mudhopper – literalmente 'calha de lama'.
A queridíssima Mudhopper de Duo é um pequeno jipe/cortador de grama. A artista P.L. Nunn fez um desenho comissionado pela autora Kracken. O desenho está no site da própria autora. A imagem está disponibilizada no meu livejournal (aryam-mei) ou tire os espaços e substitua os (ponto) por (.):
http: // kracken (ponto) bonpublishing (ponto) com (ponto) art / gw_plnunn_mudrace (ponto) shtml
Ou ainda no site da própria artista, P. - Bishonen Works.
http: // bishonenworks (ponto) com / art_gallery / main / display (ponto) php?id=16&count=28
