Lawless Hearts
Autora: Kracken
Tradutora: Aryam
Nota da tradutora: Dia da publicação das fics do Desafio Amores Possíveis foi adiada! Por favor, olhem o blog por mais detalhes (link no perfil do Desafio), mas agora as fics ficarão disponíveis aqui mesmo no FFnet dia 27 (domingo) de junho. Não percam!
Corações sem Lei
Capítulo 10 - Sucateiros
Alguém anotou a placa do mobile suit que me pisoteou? Todos os músculos e ossos doíam. Minha cabeça estava me matando. Podia sentir cortes profundos, alguns machucados e definitivamente coisas grudadas em mim aqui e ali. Meu estômago tentava se atirar para fora do meu intestino e encontrar algo para comer sozinho e,... abri os olhos e confirmei o que meu nariz me dizia. Meu rosto estava enterrado na axila de alguém... a axila de Heero Yuy, para ser exato. Tomamos banho antes, mas bem que ele poderia tomar outro...
Sentei, contendo um gemido, e olhei para meu companheiro de cama. Ele parecia estar prestes a acordar, seu rosto se contorcia levemente e seu corpo, esparramado com metade debaixo de mim e tomando a maior parte do espaço, começava a se mexer. Tive segundos para decidir qual atitude eu teria, que expressão mostraria para esse homem quando abrisse os olhos, e a impressão que eu queria dar sobre minha opinião de termos 'feito aquilo'.
Pulei para fora da cama como um gato escaldado e me ocupei em vestir uma calça antes daqueles olhos azuis abrirem. Quando o ouvi se sentar e gemer de dor, eu o entreguei uma xícara de café quente e comecei a esquentar comida. Continue se mexendo, pensei, para conseguir escapar do momento no qual duas pessoas optam em classificar o momento como 'um mar de rosas' ou 'cadê meus sapatos para que eu possa dar o fora daqui?' eu sempre fui o que pensava na segunda frase. Era mais difícil depender da escolha do outro pela opção A ou B.
O ex-piloto bebericou seu café e senti seu olhar sobre mim. Abri minha refeição e comecei a comer, queimando um pouco minha língua no processo, mas estava por demais faminto para parar e muito covarde para dar uma abertura a Heero.
Heero começou a comer também. O primeiro pacote de comida desapareceu rapidamente, mas lentamente ele começou a comer mais dois. Isso deve mantê-lo ocupado, pensei ao jogar o recipiente de plástico no lixo e fui vestir uma camiseta. Pausei para escovar os dentes e limpar o resto de lama que tinha sobrado do banho mais cedo. Estava distraidamente esfregando com força um ponto abaixo da minha orelha, quando braços me envolveram por trás e me seguraram gentilmente. A presença de Heero era quente e sólida, e ele soprou contra meu pescoço: "Você está bem?"
Estremeci. Não queria me virar. Pendurei a bucha e pisquei para a pia. Havia um pouco de cuspe e pasta de dente ali. Abri a torneira e escutei o encanamento fazer barulhos enquanto a água lavava a pia rachada. "Eu... eu não sei o que pensar. Foi tudo tão... repentino." Então, aqui está, Yuy, pensei amargo, as cartas postas na mesa. Estou assustado, droga, agora vá em frente e ria de mim!
Os braços de Heero estreitaram-se em um abraço, e então se afastou me dando justamente o que precisava no momento: espaço. Espiei sua expressão séria no espelho da parede e ele falou: "Nunca pensei em nada além das missões durante a guerra. Depois disso, eu tinha muito tempo para lembrar de você, para pensar em você. Sempre senti que perdi algo importante, no mínimo sua amizade. Quando te vi de novo naquele caminhão com os giros contrabandeados, senti... não era amizade que estava sentindo... E não era... sexo... Eu..." Heero desviou o olhar e deu de ombros, percebi que ele estava no limite e tão inseguro quanto eu. Ele não planejara isso, mas, como eu, queria que acontecesse.
Ambos não sabíamos como continuar daqui; como essa importante situação caberia em nossas vidas. Era como se um elefante tentasse se enfiar em uma caixinha de fósforos. Era como nós dois nos sentíamos, acho eu, era tudo muito grande e muito confuso. O elefante precisava perder peso ou virar um contorcionista, porque aqui e agora ele simplesmente NÃO cabia.
"Acho que não pensava muito nisso durante a guerra também," respondi vendo-o continuar calado. Mentiroso, chamei a mim mesmo, e se quer saber, provavelmente ele dizia a mesma coisa pra si mesmo. Dá um tempo! Adolescente, gay, e em situações de risco constante, claro que pensávamos um no outro... Porém, para ser sincero, um relacionamento não era uma prioridade na lista naquela época. Éramos jovens demais e dedicados demais tentando morrer pela causa.
Fiz uma coisa típica de garotos. Se algo o incomoda, você dá um chega pra lá neste algo até que seja derrubado por ele. Emoções, momentos tocantes, declarações de... qualquer coisa... Não estava pronto para isso. Sabia dos meus sentimentos. Sabia o quanto queria aquele cara com cabelos bagunçados e bermuda folgada.
Bermuda folgada... eu a olhei. Era minha. Tinha alguma coisa muito excitante em ter outro cara usando sua bermuda, talvez para heteros fosse nojento, mas pra mim... Apenas fazia uma parte da minha psique choramingar 'não faço idéia do que fazer!'
"Temos alguma luz do dia ainda," comentei. Soava como outra pessoa. Minha voz estava nervosa e estranha. "Vamos ver se conseguimos achar mais algumas peças e arrumá-las."
Heero não ficou magoado, mas aliviado. É, coisa de homem. Vamos fingir que nada aconteceu até descobrirmos como lidar com isso. "Tudo bem," respondeu com a mesma voz falsa, estranha, neutra, sem comentários. "Vou terminar de comer e me vestir."
De repente Heero franziu o cenho e fiquei tenso quando tocou meu ombro. Senti uma dor aguda e percebi que ele olhava para uma lasca de metal banhada em meu sangue. Era pequena, nada demais, mas ele já pegara minha pinça.
"Temos que cuidar disso primeiro," grunhiu. Quando ele terminou de tirar porcarias de mim e me remendar, e eu terminei de fazer o mesmo por ele, já tínhamos voltado à relação de companheiros. Bem, ultrapassamos a um bom tempo da relação agente e sucateiro-informante, pois é, apenas colegas se ajudando. Nada para ficar animadinho.
"Está bem para trabalhar?" ele perguntou preocupado.
Dando de ombros, respondi: "Não importa se estou ou não, certo? Os negócios precisam dar um dinheirinho agora, então temos que trabalhar, mesmo estando fodidos." Certo, péssima escolha de palavras. Ouvi Heero pigarrear, mas não esperei sua resposta, peguei minhas botas e fiz minha escapada, o rosto tão quente que poderia ter esquentado meu café nele.
Passei um tempo do lado de fora, colocando tudo em um pedaço de terra que não estava tão enlameado. As bombas já zuniam, drenando a água de volta para as cisternas para filtrar e limpar. Entretanto, ainda havia poças, buracos e fendas na sucata que mantinha a água parada e eu tinha que ziguezaguear entre elas para procurar peças com as quais poderia, espero, montar uma máquina inteira. Toda essa porcaria estava muito instável, sucatas tombando e deslizando das pilhas, algumas pesando mais do que eu.
"Alguém vai trazer sua máquina de volta para cá?" Heero perguntou ao juntar-se a mim. Estava usando jeans e regata. Desviei os olhos quando vi as marcas de mordida no seu ombro quando se inclinou para vasculhar o que eu organizei no chão. Não, ainda não estava pronto para aceitar o 'nós'.
"Depois que a água for escoada do campo," respondi, "tenho que pegar o guincho e rebocar a Mudhopper. É quase certeza que ela não vai pra lugar nenhum com o próprio motor agora."
"Que pena," comentou distraído. "Achei que sua a máquina era superior a todas as outras lá. Juntos, poderíamos ter ganhado."
Rangi os dentes, odiando que ele tenha conseguido me apunhalar quando menos esperava. "Bem, avalio a vida de um homem com mais do que apenas ganhar uma competição na lama idiota!"
"Mais do que a sua própria também," respondeu calmo, apesar do meu mau-humor. "Você poderia ter sido esmagado."
"É, bom..." dei de ombros desanimado. "Não tive tempo de pensar nisso."
Heero me lançou um olhar perspicaz, enquanto se dirigia para um dos montes de metal: "Acho que teve sim."
Encarei suas costas enquanto ele começava a escalar a pilha em busca de uma peça. "Cuidado!" gritei. "Está cheio de água e está instável!" Eu o vi concordar com a cabeça e continuar a subir. Ele parecia tão forte e confiante, músculos deslizando debaixo da pele, o rosto belo franzindo o cenho em concentração. Fazia-me pensar sobre mais cedo, mas não sobre o sexo.
Eu DEVIA estar pensando sobre sexo, o quão bom era o gosto de Heero, sua pele na minha, seu cheiro... Como gozamos juntos e 'feito aquilo' como... como se estivéssemos fazendo há muito tempo. É, assim, fácil e familiar. Ao invés disso, pensei, 'Se estiver certo, então eu estava pronto para matar você também para salvar aquele filho da puta do meu vizinho. O que diz sobre isso Heero Yuy?' isso me perturbava e repassei o acontecido na minha cabeça, de novo e de novo, enquanto tentava lembrar perfeitamente, tentava lembrar se realmente tinha pensado em tudo.
Reunimos as peças e as examinamos quando conseguimos o suficiente para fazer alguma coisa com elas. Infelizmente, a pilha dos rejeitados crescia mais do que a pilha do que 'pode ser vendido'. Senti um nó se formando no estômago, crescendo e crescendo toda vez que ouvia o barulho do metal descarregado na pilha de sucata. Afinal, cada rejeitado era mais um prego para o caixão do meu negócio.
Mangueiras de combustível ruins, em maioria. Muita ferrugem, camadas que arruinavam a peça. Queimados. Quebrados. Engrenagens ruins. Geradores internos ruins. Nada que tinha por aí parecia útil, nada que poderia pagar já há um tempo. Acho que era a razão a qual eu nunca me incomodei de juntar essa bagunça desde o início. Minha memória fenomenal já tinha percebido o que Heero estava entendendo agora. Era tudo puro lixo.
Agachei-me com as mãos relaxadas entre meus joelhos e a cabeça abaixada. Nem ligava que a ponta de minha trança tinha caído em uma poça. Simplesmente não importava. Ainda conseguia ouvir Heero procurando por peças, não querendo desistir ainda, não como eu. Obrigado mesmo assim, pensei, por me dar uma boa tarde, antes... disso.
Então ouvi uma engrenagem com um ruído familiar e a explosão do motor. O barulho quase foi coberto pelos filtros do ar descendo e sugando a pesada umidade do ar para limpá-lo. Levantei e corri, ignorando os gritos surpresos de Heero, ignorando as dores e o esforço e músculos distendidos, ignorando a gritaria, a dor violenta que parecia querer rachar minha cabeça ao meio, enquanto fazia meu caminho para o portão de trás do terreno e disparei a toda pela viela enlameada abaixo.
O motorista da caminhonete pisou fundo no freio quando pulei no capô, encarapitei na janela do motorista e me segurei nela como uma lagartixa, enquanto gritava por cima do barulho dos filtros: "Micky! Micky! Micky! Estou tãããão feliz em te ver! Como tem passado? E as crianças? Como está a esposa? Bem, chega de pôr o papo em dia, você pode estacionar no meu terreno e vamos direto aos negócios."
"Sai fora, Maxwell!" o homem gritou de volta em um tom irritado e entediado. Ele nem ao menos olhou para mim. "Todo mundo sabe que você não tem nada."
"E todo mundo sabe que você também não," rebati nervoso. Quando ele tentou colocar o veículo em movimento e me empurrar, peguei suas chaves. A caminhonete rugiu e parou, mas não antes de uma última explosão.
"Vou chamar a polícia," Micky avisou ainda não olhando pra mim, apenas a mandíbula funcionando.
"'Tá, pra que eles possam te prender?" perguntei irônico. "Você ainda deve ao Wilks uma pilha de engrenagens enferrujadas, cheia de água, não é mesmo?"
"Você não tem nenhum dinheiro," Micky zombou, finalmente olhando feio pra mim. Ele parecia um furão; a boca para frente, pequeno, nariz pontudo, olhos pequenos e brilhantes e cabelo crespo. Tinha o caráter de um furão também. Comeria seus próprios filhos por alguns créditos.
"Tenho um parceiro novo com melhor conhecimento nos negócios do que eu". Esclareci, não tendo mais que gritar já que os filtros haviam terminado o trabalho e se retraído. "Você vende para mim e tem uma boa chance de ganhar alguns créditos."
"Olhe aqui, Maxwell," Micky começou, em zombaria. "Dizer que seu novo amante está cuidando das coisas não vai me fazer confiar em você o suficiente para descarregar meu material."
Peguei uma mão cheia da sua camiseta suja. "Quem disse isso?"
"O quê?" retorquiu.
"Que ele é..."
"Ninguém, adivinhei," Micky zombou ainda mais ao empurrou minha mão.
Olhei em volta e vi meus concorrentes em seus portões. Não vinham em nossa direção e nem tentariam oferecer ofertas melhores a Micky. Isso me dizia tudo o que precisava saber. Eu o tinha na minha mão. Sorri. "Sou tudo o que você tem, Micky. Na verdade, aposto como já estava indo para meu terreno, estou certo?"
Micky ficou em um tom roxo que me deixou preocupado com sua pressão sanguínea. Uma veia realmente saltou de sua testa. Ele olhou para o volante, passo a mão pelo plástico quebrado e me fuzilou com o olhar outra vez. "65% ou nada."
"40%" reagi instantaneamente.
"60%" pediu.
"45%" rebati.
Micky arrancou suas chaves de mim e ligou o motor. Puxou a marcha ré.
"50%" concedi.
Micky parou. Seu maxilar funcionou novamente e então ele grunhiu, enquanto olhava pelo retrovisor. "Aquele é seu novo parceiro?"
Virei para onde ele olhava e vi Heero parado perto da caminhonete de um jeito que me fazia pensar que estava pronto para pular e arrebentar Micky.
"Sim, é ele," respondi com um sorriso.
Micky estudou Heero e comentou: "Ele parece que tem mais neurônios do que você. Certo, trato feito."
Pulei fora e fiz um gesto para Heero me seguir ao guiarmos a caminhonete para o lote. Aberto o portão, Micky dirigiu para dentro. Uma vez estacionado, subi na traseira e tive um desconfortável flashback. Cheirava a gasolina, óleo e terra. Tive a lembrança de Heero, todo de preto, apontando uma arma para minha testa. Era uma imagem muito diferente do homem que subiu na caçamba comigo e olhou as caixas esperando minhas instruções.
Peguei a mais próxima e abrimos. Estava cheio de ferro-velho, algumas haviam sido tratadas para não parecerem apenas pedaços velhos para olhos destreinados. Inspecionei tudo, me cortando com as lascas. Finalmente rejeitando tudo, irritado empurrei com o pé a caixa para o lado e fiz o mesmo com outras caixas. Era mais ferro-velho.
Passei uma mão, coberta em sujeira e um pouco de meu próprio sangue, pela minha franja e limpei o suor. Droga, estava quente na caçamba. Aquele nó em meu estômago voltou e apertou tanto que me fez sentir nauseado.
"Duo?" Heero perguntou preocupado. "Eu termino aqui."
Rodei os olhos. "A Mudhopper caiu em você também, então pare de bancar o Super-Homem, seu idiota."
Ele sorriu para mim e me ajudou com a próxima caixa. É, ele conseguia sorrir, mas eu parecia tão doente quanto me sentia. Heero podia voltar para seu confortável trabalho de Preventer quando quisesse. Eu é que seria deixado com as cinzas e o 'e agora?'
Finalmente! Senti um alívio tão profundo que precisei sentar em uma caixa. Mangueiras de combustível com carga, algumas partes boas com dano mínimo e duas engrenagens. Pelo menos dessa vez Micky tinha alguma coisa que prestasse e não estava apenas tentando enganar alguém... bem, eu.
"Parece que ainda estamos nos negócios," afirmei para Heero, e finalmente eu estava sorrindo também.
Continua...
Resposta aos comentários:
DW03, pois é, memória um ruim é um causo (eu tomava até remédio pra isso XD mas não adiantou muito...). Desculpa, mas não tenho previsão para chegar aos capítulos novos. Só posso dizer que pretendo fazer isso o mais rápido possível para voltar a traduzir essa fic. Mas no momento, em se tratando em fandom Gundam Wing, estou tentando me concentrar mais em Boot Camp. Mas Corações Sem Lei terá atualizações constantes. Obrigada pela paciência! Fico feliz que ainda esteja acompanhando e se entretenha com minhas traduções. *abraços*
'Deiisoca, aqui está um capítulo novinho em folha! Espero que goste! Mas infelizmente, esse já não tem mais suco de frutas cítricas XD Obrigada pelo comentário! Abraços.
Aoitsukii, que comentário fofo! Obrigada! Espero que curta o resto da história. E é isso aí: 1x2 OTP forever XD Abraços.
