Lawless Hearts

Por: Kracken

Tradução: Aryam


N/T: Capítulo carinhosamente dedicado à DW03 e à Angiolleto! Também a todas as leitoras que acompanhavam essa fic desde o XYZyaoi e às anônimas!


Corações Sem Lei

Capítulo 14 - Orgulho

"Maxwell" Wufei começou, de cara fechada, mas o som de um grande automóvel vindo em nossa direção o interrompeu.

Soltando fumaça negra e cheirando a gasolina vazando, uma escavadeira se aproximava. Heero e Wufei recuavam e o primeiro puxava minha manga. Olhei feio para o veículo e não me mexi.

Meu vizinho, Stubbert, estava me fuzilando com os olhos, inclinando-se para fora da cabine, uma bituca de cigarro no canto da boca. Sem uma palavra, e no último momento possível, desviou seu veículo para não passar por cima de mim e continuou arando a terra. Grandes rodas misturaram a terra amarelo avermelhada, que respingou em nós, fazendo seu caminho para a Mudhopper. Não parou de se mover, enquanto abaixava sua garra, fechando-a na minha pequena máquina. Desenterrando-a, com desdenhosa facilidade, libertou-a de sua tumba de lama e mudou de marcha para carrega-la até mim.

Stubbert se inclinou mais para fora da cabine, o motor ruidoso de sua escavadeira o fez grunhir alto, "Te devia uma." Só isso e nada mais. Redirecionou a direção e se foi para o meu terreno com a Mudhopper.

Franzi o cenho. Heero olhou de mim para as máquinas indo embora. "Você não parece feliz com isso," notou.

Dei de ombros, irritado. "Ele me devia um favor. Eu podia ter aproveitado melhor. Nossa escavadeira daria conta do serviço." Ignorei o olhar cético do japonês para a dura camada de lama batida. Certo, talvez não desse conta afinal, mas não precisava esfregar na cara!

"Maxwell," Wufei rugiu impaciente. "Explique."

"Salvei a vida dele, mais ou menos," contei, usando minha bandana para limpar o suor e terra seca do rosto. "Ele decidiu que não queria esperar que eu cobrasse o débito, então salvou minha máquina para mim."

O chinês deveria mesmo patentear aquele olhar dele. Quase senti minha pele grelhando pela intensidade que ele emanava. "Sabe o que quero dizer," falou.

Agora eu me rendo, tinha que confessar. "Vamos," grunhi e liderei o caminho de volta para meu lote, seguindo as enormes marcas de pneu de Stubbert.

Ponderei o que dizer, mastigando as palavras, uma expressão perturbada no rosto. Conhecia o orgulho de Wufei tão bem quanto seu temperamento. Finalmente, virando-me para encará-lo – assim minhas costas não ficariam vulneráveis para ele – porque não tinha certeza como o chinês receberia a notícia, expliquei, "Bem... Vendo como você queria ficar... Todos sabem que você é primo do Heero e ele está te deixando morar na minha casa. Também espalhei que eu... Não gostei da ideia, porque..."

"Por quê?" o Preventer de olhos puxados encorajou.

Olhei em volta para a ruela vazia e para as sujas cercas de madeira em ambos os lados. O fedor de metal enferrujado estava por toda parte. Era sempre mais notável depois da chuva. Senti-me muito cansado naquele momento e não queria lidar com Heero e nossa tentativa de relacionamento; as ameaças de Wufei e sua péssima atitude; e os outros donos de ferro-velho, prontos para me pisotear se fosse fazer de seus próprios negócios um sucesso. Mesmo o calor, gradativamente aumentando, parecia estar contra mim. Sempre me senti do tipo 'Duo Maxwell contra o mundo', mas normalmente eu não pensava muito nisso e não sentia o peso em minhas costas como se carregasse um trator de três toneladas.

"Você é um vagabundo que não quer, ou não consegue, arrumar trabalho." Falei de uma vez para me livrar disso, mas fiquei orgulhoso de mim mesmo por deixar de fora a parte do 'babaca de primeira'. Bem, ele não precisava saber, porque não precisaria FINGIR ser um.

Os músculos na mandíbula de Wufei se contraíram e sabia que estava rangendo os dentes. Também sabia o que estava pensando. Ele não entendeu.

"Olha!" explodi, perigosamente próximo a ele para que ninguém mais pudesse ouvir. "Quando se conta uma história, as pessoas tem que acreditar nela. E toda história fica bem melhor se tem uma novela no meio, 'tá certo? Se eu só dissesse, 'Ah, a propósito, o primo de Heero se mudou com a gente,' isso levanta perguntas. Se eu disser, 'O inútil do primo do Heero veio pra minha casa sem a minha permissão, e agora estou puto da vida e as coisas vão mal entre nós dois...' bem, isso já responde muitas perguntas. Mantém as pessoas satisfeitas e elas acabam apenas assistindo o drama em vez de questionarem."

Recuei e esperei por sua reação.

Aqueles olhos negros me perfuraram. A mandíbula de Wufei continuou a se contrair por quase um minuto e então ele assentiu brevemente, decidid. "Aceitável, por enquanto."

Não perdi o sentido do final da frase. Contudo, não consegui evitar abusar um pouco mais, inquiri, "Vai confiar em mim?"

Ele levantou o queixo, seu comportamento se tornando frio e arrogante quando disse em uma voz agitada, mas baixa, "Você salvou minha vida. Eu... estou em débito. Vou permitir isso, mas pretendo coordenar a armadilha pessoalmente daqui em diante."

Aquele peso nos ombros ficou mais pesado alguns quilos e doeu. Esfreguei os olhos, tentando manter a calma, tentando me segurar. Não queria acumular tudo, sabia para onde me levava. Não queria atacar e espancar Wufei do mesmo modo que fiz com Heero quando as coisas viraram uma bola de neve. Em primeiro lugar, o chinês QUERIA me levar para a cadeia e cancelar a coisa toda. Estava a beira de fazer isso. Apenas seu orgulho em não querer que a missão falhasse, e sua honra, mantinha a operação em andamento.

"Temos muito trabalho a fazer," suspirei e recomecei a andar. "Mas espero que você e Heero limpem o barraco dos fundos hoje, enquanto eu conserto a escavadeira. Vocês dois dormirão lá a partir de hoje."

Era uma ideia razoável levando em consideração os termos de Wufei. Saber disso não fazia a decisão doer menos. Queria ficar acostumado em acordar com o corpo quente do moreno de olhos azuis junto ao meu. Não retroceder e voltar a ser sozinho. Essa carência era uma faca de dois gumes. De um lado, necessitava de Heero, do outro, odiava minha falta de independência, sentia falta de confiar apenas em mim mesmo.

Minha independência me manteve vivo. Qualquer um que tentou cuidar de mim, e ser parte da minha vida, morreu; falhou comigo. A carência ia contra tudo o que me moldou, contra aquele instinto impregnado de que sozinho, dependendo apenas de mim mesmo, era o melhor modo de continuar vivo. Durante a guerra, Quatre me mostrou o que contar com os outros, ser um time, significava. Entretanto, é difícil aplicar essa lição na vida que sigo.

Quando alcançamos o portão do meu terreno, encontrei Mudhopper estirada de lado bem na entrada, coberta de lama. Toquei o guidão torto e vi o tanque de gás esmagado. Não inspecionei mais. Não tinha tempo de consertá-la e provavelmente não teria por um bom tempo. Coloquei as caixas cheias de peças no chão e agarrei a máquina danificada, dando aos meus camaradas um olhar intimando-os a me ajudar e que era melhor ficarem de bico fechado sobre o que quer que estivessem pensando. E daí que um pedaço de metal me deixou todo emocionado?

Heero se mexeu primeiro, encontrando um bom lugar para segurar na frente. Olhamos para Wufei. Ele encarou feio de volta, bufou exasperado, e se posicionou atrás para empurrar.

"No três," falei e começamos a balançar aquele pedaço de metal, tentando tirá-lo da depressão formada por ter sido derrubada do alto da garra da escavadeira de Stubbert. Ele não fora gentil e provavelmente considerara como um pedaço inútil de ferro-velho.

"Um, dois... três."

Nós a levantamos e empurramos. Heero fez a maior parte do serviço. Aquele cara é inacreditavelmente forte... Wufei não estava dando mole também, o que não me surpreendia. Ele tem ombros largos, mas é menor do que eu.

Disse para pararem depois de termos conseguido trazer Mudhopper para o dentro da minha propriedade protegida pela cerca, salva de outros sucateiros folgados que poderiam querer desmontá-la. Mais tarde, quando tivéssemos a escavadeira funcionando, trataria dela de modo apropriado, prometi silenciosamente.

"Agora, se pudéssemos continuar com o que viemos fazer," o chinês falou desdenhoso esfregando as mãos para tirar a sujeira.

Não segurei um sorrisinho sacana, mas escondi dele, virando-me, , pegando as caixas novamente e pedi para Heero, "Mostre a ele onde estão os materiais de limpeza. Tem uma mangueira por aí também. Apenas se certifique de que abriu o ralo para drenar a água senão ficaremos sem até a próxima distribuição. Em L2, pode levar um ano." Não estava exagerando.

Heero estava nervoso? Triste? Confuso do porquê eu tê-lo mandado viver com Wufei? Quando pegou as caixas e me seguiu para a escavadeira, olhei-o de esguelha e percebi que ele fazia o mesmo. Nossos olhos se encontraram. Tudo bem, pode até soar estúpido e parece impossível, mas... trocamos coisa pra caramba só naquele olhar. Senti como se tivéssemos passado uma noite inteira conversando. Ele entendia que a situação era necessária. Entendia que eu não estava o rejeitando. Concordava comigo. Assegurou-me que tudo ainda estava bem conosco. Disse-me o quanto nossa separação estava o deixando infeliz. Falamos um para o outro o quanto queríamos que tudo acabasse para que pudéssemos estar juntos outra vez, sozinhos, sem Preventers bagunçando as coisas entre nós. Toda essa comunicação em alguns segundos nos encarando e então desviamos o rosto, não querendo demonstrar nada para Wufei. Teria sido bem legal se pudéssemos ter feito sexo com um olhar também, mas eu firmemente cortei essa linha de pensamento enquanto depositava as caixas no para-choque da escavadeira. Reposicionei meu chapéu para me proteger de uma insolação.

"Uma vez que terminarmos com essas 'tarefas'," Wufei se pronunciou, "Vou checar sua contabilidade e criaremos um plano sólido e conciso para fazer contato com nosso alvo."

"Acredito que já temos um plano 'conciso'," irritei-me, abrindo o capô. Fez o metal ranger e protestar. "Montar o negócio, pegar material de contrabando, agir como completos amadores e fazer Sr. Figurão morder a isca."

Os olhos escuros se estreitaram e viraram-se para fitar Heero, que devolveu com um olhar próprio. "Não temos o tempo necessário para resgatar os seus negócios do problema financeiro," o chinês informou. Isso esclarecia o que ele achava do meu negócio. 'Sem esperança' provavelmente resumia.

"Se nós..." Heero começou a protestar, mas Wufei o interrompeu.

"Vender em desespero, para salvar um negócio em decadência, é uma razão mais válida do que arriscar um que está indo bem," Wufei explicou. "Não concorda?" seu tom dizia 'claro que vai concordar, pois eu sou um gênio.'

Estava achando muito difícil não enchê-lo de porrada para arrancar esse ar arrogante, especialmente porque ele estava fazendo sentido e eu estava começando a entender que o meu namorado havia concordado com o plano de Wufei esse tempo todo também que meus negócios estavam indo a falência e... não tinha continuado por minha causa, porque ele realmente se importava, ao contrário desse metido. Como um órfão de rua, um trapaceiro desde quando podia andar, percebia alguém caindo na emboscada, alguém afobado para tomar vantagem de um Duo Maxwell sem créditos. Acontecia o tempo todo...

O agente de cabelos castanhos parecia como se fosse protestar a meu favor, mas dessa vez fui eu que o cortei. Irado de raiva, mas mantendo minha voz firme e calma, constatei, "Tudo bem, faz sentido. Então... Quando você quer fazer?"

Wufei piscou, pego de surpresa. Era óbvio que ele não esperava a minha aceitação, minha mão se fechou no punho que queria acertar em sua cara. "Depois de rever sua situação, discutiremos contatos possíveis e modos de transportar o contrabando para o seu terreno de um modo verossímil."

Uma pessoa poderia interpretar isso de dois modos: ele estaria me elogiando em ser inteligente e conhecedor do comportamento humano ou dizendo que eu era um bom mentiroso. Tinha uma grande diferença.

"É melhor começar com a faxina," comentei com um sorriso contido. "O barraco está bem sujo e tenho só uma cama no meu. Não acho que queira dividir comigo e com Heero...?"

As narinas dele soltaram fogo. Um pouco homofóbico? Talvez... Ou talvez o pensamento de se aconchegar comigo, em particular, deixava-o enojado? Heero foi esperto o suficiente de tirá-lo de perto de mim antes que ele tivesse a chance de responder.

Carreguei minhas ferramentas para a escavadeira e comecei a trabalhar. Em algum ponto, ouvi um xingamento alto em mandarim, e sorri maldosamente. Por outro lado, coitado do Heero. Prometi que ia ajudá-lo. Porém, não consegui manter o sentimento de culpa para parar e ir até lá. Parte de mim ainda o culpava pela minha situação juntamente com Wufei. Ele foi longe para se redimir, mas não tinha jeito de conseguir salvar tudo. As coisas estavam acontecendo, minha vida girava em torno da armadilha e o trem da Justiça que ele colocara em ação, iria me atropelar não importando o que qualquer um dissesse ou deixasse de dizer. Não conseguia suprimir aquela parte de mim que estava feliz em deixar o ex-piloto 01 limpar aquela imundice do barraco fritando no sol.

Falando em fritar... Limpei o suor pingando de minha testa, tirei o chapéu e amarrei a bandana envolta da testa. Colocando meu chapéu de volta, continuei a trabalhar enquanto a temperatura aumentava como uma fornalha. Pelo jeito, o deus do controle do clima estava determinado a secar até a última gota de água dos ferros-velhos e todo mundo neles.

Alguém colocou um recipiente de água gelada na minha mão. Pisquei atordoado, enquanto me inclinava com uma chave-inglesa na mão frouxa. Não tenho certeza de quanto tempo estava de pé daquele jeito, não sabia bem desde quando tinha feito alguma coisa no motor.

"Você parece desidratado," Heero preocupou-se.

"Você 'ta um nojo," comentei rouco, pegando a água, abrindo a garrafa e bebericando aos poucos. Amornei o líquido na boca antes de engolir, sabendo o que um choque térmico poderia fazer com um corpo quente exausto.

Heero pegou na sua camisa imunda. "Espero que esteja falando do cheiro."

Só consegui assentir enquanto rolava a garrafa gelada na testa e fechei meus olhos em prazer.

"O barraco estava muito sujo, mas usar a mangueira nos salvou muito trabalho," explicou. Parou e então disse mais sério, "Duo, desculpa..."

Engoli um pouco mais de água e semicerrei os olhos. "Você tentou distorcer tudo ao meu favor, não posso evitar em me sentir bem com isso, mas de resto..."

Ele pegou uma ferramenta e se inclinou para o motor. Começou a apertar uma peça e replicou, "Wufei está tomando completo controle da operação. Tenho que seguir ordens ou ele vai me tirar permanentemente do campo."

"Ele está certo, Heero, e você sabe," falei colocando a chave-inglesa também no motor e ajudando com a peça. Enquanto nos esforçamos juntos, continuei amargo, "Saber que isso piora a minha situação não muda nada."

Ficamos quietos; grunhindo, suando, cobrindo-nos de graxa, ambos acabando com a água, enquanto terminávamos de colocar a nova bomba de gasolina. Escalei a cabine e liguei o motor. A escavadora reclamou, cuspiu, engasgou e então veio à vida com uma jorrada de fumaça. Comemorei alto, aliviado, dando socos no ar de vitória. Heero sorriu para mim, o calor do motor ao redor dele. Deus! Ele estava tão lindo bem ali, e eu não resisti em pular da cabine, agarrá-lo e devorar seus lábios. Empurrei-o para longe no instante seguinte, rindo de seu olhar confuso, vidrado e faminto.

"Você está fedendo ainda mais agora!" meu nojo não era totalmente fingido.

"Você também não está exatamente cheirando a flores," Heero rebateu.

Sobre seu ombro, analisei o barraco com um olhar calculista. A tensão dentro de minhas calças me dizia para fazer uma coisa, que envolvia um banho quente e dois corpos nus se limpando, mas meu cérebro estava me zombando e dizendo que essa era exatamente a 'fraternização' a qual Wufei recriminara, e o tipo de coisa que eu tinha decidido não fazer até a armadilha terminar. Mesmo assim, eu precisava tanto, precisava de Heero.

Repentinamente, ele estava muito perto de mim. Seus olhos azuis pareciam perigosos e eu estava quase pronto para lutar quando me empurrou para trás da escavadeira, fora da vista de qualquer um. Nosso esconderijo era uma sombra feita pela garra da máquina entre ela e a parede. Quando a mão de Heero massageou minha ereção, senti... Foi como receber uma carga de eletricidade, poderosa e intensa. Quando ele esfregou a cabeça e fechou a mão sobre todo o membro, meus joelhos estremeceram.

"Foda-se Wufei," o meio-japonês disse na minha orelha e então me mordeu ali, chupando e mordiscando o lóbulo, abrindo minha calça e puxando-a para baixo revelando meus quadris.

A combinação da palavra obscena e as ações agressivas de Heero quase me fizeram gozar bem ali. Entretanto, meu... nervosismo me manteve atento, e me segurei para não me deixar levar completamente, pensando se fossemos descobertos comigo seminu no meio do meu terreno. Não sou um exibicionista, droga, mas já fiz contra paredes em becos escondidos antes. Porém, de noite, e com álcool bem forte no sistema, várias inibições resolviam passear.

O moreno na minha frente pegou minha mão e a pressionou contra a sua própria ereção. Sabia o que ele tinha em mente – masturbação mútua – e com muito gosto enchi a mão na protuberância de seu jeans. Mas sabia, mesmo estando cheio de desejo e repleto de testosterona, que as chances de um cliente aparecer ou, mais provável, Wufei, eram bem altas. Foi o suficiente para não me deixar cair de joelhos e dizer um 'olá!' com a língua à parte necessitada de Heero, e o suficiente para eu não deixá-lo acariciar o meu júnior problemático também.

"Heero... pare... eu... não posso... eu..." dou pontos a ele por parar e me olhar preocupado, mesmo que sua mão ainda estivesse fazendo o serviço. "Aqui fora," acenei nervoso com a cabeça para o ferro-velho, fora de nossa sombra. "É muito..."

O moreno grunhiu. Deu um relutante passo para trás, mas sua mão estava segurando sua própria necessidade e a caminho de um sério caso de 'dor de tesão'. "Eu não devia... Eu só queria... Eu só estava incerto..." Heero gaguejou e parou em seguida, frases ficando incompletas. Ele queria ter certeza de mim, ter certeza de nós, deixando de lado todo aquele romantismo olho no olho. Podemos chamar de 'nosso' aquilo que podemos foder e quase nada mais chega a esse nível de posse assegurada para a psique masculina, eu acho.

"Não vou a lugar nenhum," afirmei ferozmente "Ainda ficaremos juntos depois da armadilha."

Podia ver a dúvida nos olhos azuis, o medo de que algo aconteceria e seria a última gota capaz de destruir o que construíamos entre nós até então.

Agarrei seu pescoço e o puxei para beijá-lo violentamente. Ele retornou a força do beijo e me deixou direcioná-lo para o chuveiro externo mantido lá para caso de emergências. Colocando-nos debaixo da cabeça do chuveiro, puxei a corrente. Um jato poderoso de água fria nos encharcou e deixei que continuasse até que acalmássemos, por dentro e por fora. Quando Heero tirou minha mão da corrente e a água parou, sua franja tapava seus olhos azuis, água gotejava de seu nariz e ele me encarou.

"Te amo," Heero anunciou abruptamente e eu soube ali o que ele queria, o que nos cimentaria juntos, com uma ligação ainda mais forte do que sexo, até tudo isso terminar.

Não sabia se conseguia responder a declaração com uma própria. Não era um 'te amo' genérico sem importância. Não era 'te amo' que se dizia para manter alguém ocupado enquanto procurava seus sapatos para dar no pé. Era um 'te amo' significando 'eu quero que se comprometa com o relacionamento, comigo'.

Olhei para o agente Preventer, estudei-o e assisti as gotas caírem de seu rosto e brilhar em seu caminho para o chão enlameado sob nossas botas encharcadas. Pensei em perdê-lo, nele partindo e nunca voltando... Quer saber quando está realmente apaixonado? Quando a ideia de não ter aquela pessoa mais faz da sua vida um total desperdício; inútil, sem propósito.

Agarrei-o pelos cabelos da nuca, enrosquei meus dedos nas mechas molhadas e o puxei em minha direção até nossas testas se recostarem. Piscamos um para o outro, nossas gotículas se misturando, e então eu falei, e foi como... tirar minha alma do peito e dá-la a ele de presente, confiar nele completamente para não esmagá-la... "Também te amo."

O mundo parou. Esquecemos de respirar. Heero lentamente sorriu, piscou rapidamente, e eu tive a impressão de que algumas gotas salgadas se juntaram de repente com as frescas em sua face, enquanto ele se soltava de meu agarre e olhava para suas roupas molhadas. Também desviei o olhar, incapaz de aguentar aquela confissão de como nos sentíamos um pelo outro. Acredito que nunca seremos bons em ter esses 'momentos'. Eles apenas nos deixavam envergonhados pra caramba.

Tentei me recuperar primeiro. Esfreguei minha nuca e falei sem graça, "Bem, acho que Wufei deve estar puto por você não estar ajudando a limpar. É melhor voltar lá e eu vou começar a desmantelar aquela pilha grande de sucata."

"'Tá," concordou rápido, olhou para mim e depois para o lado. Ele engoliu seco, mas estava sorrindo outra vez. "Acho que não consigo aguentar, ficar longe de você... não..."

Foda-se Wufei e o que ele pensava de Heero e eu. As coisas mudaram. "Se eu te pegar sendo menos do que completamente devotado nessa operação, vou te cortar." Vi Heero estremecer a minha escolha de palavras. "Mas se conseguir manter seus olhos no prêmio, acho que podemos conseguir outro lugar, mais particular... mais tarde... Onde Sr. Chang não possa nos achar..."

"Serei completamente dedicado," prometeu-me e o duplo sentido estava claro pelo brilho em seus olhos.

"Não espero nada menos," respondi sobre o ombro voltando ao trabalho.

Continua...