Lawless Hearts
Por: Kracken
Tradução: Aryam
Revisão: Illy-chan
N/T: Finalmente chegamos ao capítulo onde essa fic estava no XYZyaoi. Todos os capítulos até aqui foram re-revisados por mim (não que isso os torne perfeitos dessa vez...) e daqui para frente, serão capítulo "inéditos". Tenho dois já traduzidos e revisados pela Illy, e pretendo terminar essa fic esse ano! Não é uma promessa, mas a minha intenção é postar o capítulo final 26 antes do fim do mundo...
Dito isso, gostaria de agradecer as leitoras que acompanharam essa fic desde sua primeira postagem: Vivihydeist, Amanda Maria Bernardo, Lila Massaro, Litha-chan, Megumi Takani, Fernanda Pereira, Raquel, Mayara Gonçalves, Dark Wolf03, Nathally Silva, Daphne Guarino, Ana Granger Potter, Diana Lua e Condessa Oluha!
Corações Sem Lei
Capítulo 15 - Orelha de Porca*
Tive bastante tempo para pensar enquanto separava a sucata com a escavadeira. Em primeiro lugar, estava o fato de que eu estava perdendo tempo. Os planos de Heero de separar, arrumar e registrar tudo, seus planos de resolver meus problemas com a Receita Federal de L2 e suas intenções de tirar meus negócios do vermelho, estavam agora extintos. A única coisa que eu fazia agora era manter as aparências.
Não tem nada 'melhor' do que ficar remoendo raiva e amargura em um calor de rachar. É de fazer um homem descobrir um novo nível de 'puto da vida' e 'no fundo do poço'. Claro que poderia estar feliz de que Heero não me abandonaria, que ele realmente queria algumas promessas de compromisso de mim, mas o que ele vai ganhar no fim? O que vai sobrar de Duo Maxwell quando tudo isso acabar? As possibilidades variavam de sem-teto fracassado para ocupante de uma cela na cadeia dos Preventers. Pra começar, não importa o ângulo que analisasse, eu não era um prêmio e definitivamente não me tornaria um depois de tudo.
Pensando assim me fez trouxe de volta às minhas preocupações insuperáveis sobre onde estávamos indo com nosso relacionamento. Agente Preventer. Sucateiro. Os dois tão opostos quanto poderíamos ser. Mesmo se eu acabasse por perder tudo, seria difícil nos juntarmos para viver juntos. Heero é 100% compromisso, dedicação e altruísmo em uma posição honrada por todos. Tudo o que faço é sobreviver, mal conseguindo, e vivendo no limite da moral da sociedade. Não conseguia imaginar me mudar para uma calma cidade e estando do lado da lei, sendo um daqueles cidadãos que olhavam com desdém para os sucateiros e nunca se perguntavam se o clima ou o suprimento de água eram diferentes para os que têm pouco. Também não conseguia ver Heero virando as costas para o que ele se importa tanto e vivendo de carregar sucata.
Larguei um grande pedaço de alguma coisa na pilha, o último, e estacionei a escavadeira em seu lugar. O motor morreu com um estralo, avisando-me de que não pretendia ligar na próxima vez que eu tentasse. Descendo e queimando minhas mãos no metal quente, xinguei e aterrissei no chão desajeitado. Sobressaltei surpreso quando de repente a mão de Heero estava debaixo de meu cotovelo para me apoiar.
Ele me soltou ao ver que eu estava bem, mas continuou a parecer preocupado. Tirei o chapéu e a bandana, e limpei o suor e a sujeira do rosto. Tossi areia e perguntei, "Terminou?"
Minha voz deveria estar cheia daquilo que estive mastigando por horas. Heero franziu o cenho e apontou, "Você está bravo."
Não brinca, pensei, mas coloquei o chapéu de volta e abaixei a cabeça para que a aba escondesse meus olhos enquanto respondia, "Sou um cara esperto. Não preciso de ninguém pra somar dois mais dois para mim."
Ele piscou, ganhando tempo, pensando sobre minhas palavras e então se inclinou para perto, entendendo. "É muito importante que terminemos essa armadilha," falou, "mas pretendo fazer tudo o que planejamos."
Ri com desprezo, não consegui evitar, "E o Wu-man vai te deixar fazer isso?"
Heero ficou tenso. "Wufei não é meu superior, só meu parceiro. Há regulamentos, regras a serem seguidas, mas ajudar você e os seus negócios não entra em conflito com elas. Somos sucateiros. Deveríamos estar interessados em fazer de seu comércio um sucesso. Se sentarmos e não fazermos nada até sermos contatados pelo nosso alvo será suspeito, fora do comum."
"E quando tudo acabar e for hora de ir embora?" Então eu não consgeuia ser sutil. Sempre precisei de tudo preto no branco.
Heero fez uma careta. Inclinou-se ainda mais perto, seus olhos azuis penetrando nos meus. "O que estou sentindo por você não vai sumir depois da armadilha. O que dissemos um para o outro antes... Foi verdadeiro."
Minha raiva diminuiu, mas minha amargura não. Já dei muito murro em ponta de faca. Heero pode ter as melhores das intenções, pode mesmo me amar, mas a vida tem um jeito de arrancar isso de minhas mãos de uma forma que ele nunca entenderá. Conversa, era só isso, conversa. Eu precisava ver para crer.
O moreno na minha frente ficou frustrado quando viu que eu continuaria com o pessimismo. O aperto em meu braço foi firme. "Wufei pode parecer..."
"Um babaca," completei, franzindo a testa.
A expressão dele ficou ríspida e continuou, "Há um homem debaixo daquela pose toda e ele é honrado. Ele não vai ficar no meu caminho enquanto..."
Balancei a cabeça severamente, olhando para minhas botas e ele parou de falar. "Honra não tem nada a ver com isso."
Não queria ter essa conversa. Heero parecia não entender que o chinês me achava um criminoso, não importando o quanto eu cooperasse. Ele não via a atitude de Wufei comigo se dever ao fato de eu ser um sucateiro de vida simples e me considerar muito abaixo da classe de Yuy. Ele estava desapontado com o seu parceiro. Estava nervoso com a falta de julgamento do ex-piloto 01 em se tratando de mim e tinha certeza de sua preocupação em eu falir e arrastar meu namorado para baixo comigo. Não poderia culpá-lo pela última parte. Estava preocupado com isso também.
"Então, não respondeu minha pergunta," desviei o assunto. "Terminou com o barraco?"
"Sim," respondeu com a voz suavizada. Era óbvio que não gostava de ser duvidado, especialmente eu, pois ainda queria me assegurar de suas intenções.
"Vamos ver," incitei, não querendo dar chances para falarmos mais sobre nós, sobre meus negócios. Já ruminei o bastante sobre esse assunto por hoje e já chega de dar nós na minha cabeça. Se analisasse de perto, muitas coisas estavam fora de meu controle e Heero poderia falar o quanto quisesse, mas não poderia, no final das contas, dizer ao mundo como tratar Duo Maxwell. Wufei ficaria feliz em me ver em cana. Meu vizinho ficaria feliz em me ver morto e meu lote livre para ele se apropriar. L2 ficaria feliz em me tirar da reta, um ferro-velho a menos para tumultuar a colônia. Era quase bom voltar para um âmbito familiar, de volta para o eu contra o mundo... Quase.
Quando comecei a liderar o caminho para o barraco, Heero se apoiou em meus ombros e me deu um leve empurrão, fazendo-me tropicar. Coloquei as mãos nos bolsos, curvei os ombros e não consegui parar de sorrir. Empurrei de volta. Ele tropeçou, sorriu e andamos juntos, eu com um humor um pouco melhor. A vida tem muito potencial para que tudo dê errado, mas tê-lo ali, mesmo tudo o que ele pudesse fazer fosse se importar comigo, era reconfortante de um jeito que nunca antecipei. Eu, durão e amargo, teria atacado qualquer coisa que viesse na minha direção, sozinho e lutando até o fim. Era diferente ir para a batalha com um aliado ao meu lado.
As portas do barraco estavam escancaradas. Senti o cheiro cáusticos de produtos industriais de limpeza enquanto subia os degraus e entrava cuidadosamente. Wufei estava abrindo uma das duas camas montáveis. Tirando a geladeira, pia e um pequeno fogão, o lugar fora completamente esvaziado. As paredes, chão e um balcão estreito dividindo o quarto da 'cozinha', estavam impecáveis. Imaginei o agente mau-humorado limpando o rodapé com uma escova de dente. Nunca vi o lugar tão limpo, nem quando Hilde vivia aqui.
"Legal," foi tudo o que consegui dizer.
Wufei se endireitou e senti a intensidade de seu olhar. Entretanto, fiquei em silêncio e sabia que ele não conseguia conter sua raiva absoluta das circunstâncias em meras palavras.
Esfreguei minha nuca olhando para todos os lados menos para o chinês. "Desculpa," pedi. Ele merecia, não importando meus sentimentos contra ele.
"As circunstâncias foram descritas para mim por Yuy," Wufei comentou com a voz excessivamente contida, podia ver claramente sua vontade de gritar e se negava a oportunidade.
Olhei-o rapidamente. Fala sério! Será que o cara derrama sequer um pingo de suor? Simplesmente não era natural, ele ainda parecia arrumado, calmo, controlado depois de limpar completamente um moquifo. Sabe, ainda dá pra se admirar alguém mesmo o odiando.
"O chão vai levar um tempo para secar," Heero informou saindo de trás de mim.
Notei então que estava molhado por causa do uso da mangueira. Tive algo para olhar enquanto dizia, "Uh, vou compensar os dois por limpar isso, 'tá? Vou aumentar sua porcentagem de créditos na próxima venda."
Wufei ergueu uma sobrancelha fina. "Desnecessário. Estamos usando o local para uma base de operações."
Ele não me daria a chance de ter recuperar sequer um pouco de dignidade. Tudo o que pude fazer foi parecer um idiota quando me encontrei saindo novamente para a escassa luz do entardecer e encarar feio para nada em particular. Ouvi Heero rosnar alguma coisa e a resposta fria de Wufei, mas não consegui distinguir as palavras. De algum modo, minha vingança contra esse chinês falhara e acabei parecendo um babaca vingativo. Será que o moreno de olhos azuis pensava assim também? Afinal de contas, usei-o como parte da vingança.
"Eu sou um tremendo perdedor," sibilei para mim mesmo. Pensei em ir para o Mercado Row e encher a cara. Queria parar meu sofrimento pelo menos por um tempo.
Um braço envolveu minha cintura e começou a me puxar para o meu barracão. Olhei para Heero, surpreso. "Wufei quer meditar," falou, "e eu quero jantar, com você."
"E aquela história de 'proibir fraternização?'" perguntei amargurado.
"Meu pretexto é que vou dar entrada no inventário da sucata que você pegou hoje no meu computador e tirar minhas coisas da sua casa," sorriu satisfeito. "Ambas desculpas legítimas."
"Heero," comecei, sentindo uma sensação prazerosa, mas meu desânimo sufocando isso.
"Ele tomou banho e trocou de roupa," ele anunciou.
Pisquei confuso. "O quê?"
"Antes de chegarmos ao barraco," explicou, soando divertido. "Ele sua, fede e fica imundo como todo mundo, Duo, e ele tem um coração por baixo de toda aquela cretinice. Ele não argumentou quando falei que viria com você."
"Cretinice?" abafei um riso, de repente as emoções fugindo. Então, meu nêmesis não era um super-homem. Sentia-me menos... inferior, o que naturalmente me deixava com um humor melhor. "Se ele tem um coração, é feito de sucata enferrujada."
Entramos no barracão. Alonguei os músculos doloridos e bocejei entrando no banheiro. Quando notei não ser seguido, dei meia volta e olhei para o meu escritório. Ele estava perto da mesa, tirando seu chapéu e esfregando areia do rosto, seus olhos postos no cômodo quase vazio.
"O que foi? Insolação?" perguntei.
Heero me deu um sorriso, mas que não alcançava seus olhos. Ele gesticulou em volta. "O quanto aqueles homens te roubaram? Você não tem nem fotos nas paredes."
Franzi o cenho, nunca tendo notado o fato. Olhei para as paredes brancas, com exceção do calendário e da tabela de horários e a escrivaninha limpa. Fiquei repentinamente envergonhado, me dando conta do PORQUÊ estar sem nada. Mexi nervosamente na barra da camisa e limpei a garganta quando se tornou inexplicavelmente seca e apertada.
"Acho..." Como se explica que passou a vida inteira mudando de lugar para lugar, de esconderijo a esconderijo, e ser capaz de me mudar rápido e silenciosamente era uma idéia tão impregnada quanto mijar de pé? Dei de ombros como se a questão me irritasse. Fiz um gesto desdenhoso para o lugar. "Nunca tive tempo para enfeites ou pendurar fotos. Além do mais, a poeira se acumula em todo lugar aqui. É melhor deixar tudo nas caixas."
Heero franziu a testa. "O que eles levaram?" sabia que se referia aos meus 'empregados' e aos agentes Preventers.
"Computador," respondi e fui ao banheiro, fazendo-o me seguir para ter o resto da resposta. "Monitor. Aparelho de som. Revistas. Alguns dvd's."
É, não muita coisa para mostrar com tantos anos ralando em L2, mas objetos pesam, te desaceleram e isso era inadmissível para meu instinto de rua. Suspirei e me joguei no sofá, apoiando-me nos cotovelos, pernas pendendo para o lado.
Ele olhava para o meu quarto depenado agora. "Você deixa as coisas guardadas?"
Ave! Que curioso, pensei, ainda mais irritado. "Sim, no armário." Apontei com meu queixo para a porta estreita. Não a abriria para mostrar minhas caixas perfeitamente organizadas e fechadas com fita adesiva. Havia apenas três e continham recordações de minha vida; fotos, um prêmio dado por Relena Peacecraft em pessoa por tentar salvar a Terra de seu irmão, algumas lembranças de minha vida com os Sweepers, minha antiga bata da igreja Maxwell, a roupa de 'padre' que usava durante a guerra e um gato de pelúcia que Hilde me deu de 'aniversário'. Já que eu não sabia o exato dia, ela escolheu um pra mim. 1º de abril. É, Dia da Mentira. Ela tem um bom senso de humor.
Encontrei-me maneando a cabeça em resposta à pergunta de Heero, não querendo me aprofundar na questão. Esse ferro-velho é o lugar que morei por mais tempo. Como explicar para alguém que ainda não dava para confiar que tudo não mudaria num piscar de olhos, que se acorda de repente imaginando mobile dolls destruindo tudo em volta, que sua vida foi tão repleta da morte de todos com quem se importava e era impossível pensar que não aconteceria novamente? Dói demais para colocar em palavras.
Heero pegou duas latinhas, pressionou a etiqueta para gelar e me entregou uma. Beberiquei lentamente, murmurando um agradecimento, grato por ter algo para prestar atenção além de sua expressão. Ele provavelmente se perguntava sobre a minha sanidade.
"Tudo o que tenho está nessa mochila," ele falou repentinamente.
Olhei-o então, chocado, quase amassando minha lata. "O quê?"
O ex-piloto 01 deu de ombros e desviou o olhar, sua voz baixa e incerta. "Fico no alojamento Preventers quando não estou em missão e eu... Achei melhor não ter muitas coisas. Eu viajo muito."
"Oh," encarei-o e então voltei a mim. Bati ao meu lado no sofá. "Trate de se sentar, Yuy."
Ele fez uma cara de desagrado e forçou um pequeno sorriso. "Estou fedendo. Prefiro tomar banho e me trocar primeiro."
"'Tá certo." Assisti-o sair, entendendo o quanto nossa confissão nos deixou desconfortáveis. Não é fácil deixar alguém com que se gosta saber que não se é... bem... normal. De certa forma, já sabíamos disso. Quem conseguiria ter nosso tipo de vida e não subir no teto para uivar para a lua? Era apenas difícil CONFESSAR isso.
Foi então que percebi estar gastando a oportunidade perfeita para aliviar um pouco o desconforto de nossas confissões desajeitadas. E daí que seria fraternização e provavelmente uma má idéia? E daí se Heero e eu nos tornássemos mais ligados durante uma operação crucial? Com o andar da carruagem, poderia ser nossa última vez juntos. Não conseguia aceitar um 'até depois da operação-armadilha', sabia que era outro aspecto da síndrome 'a merda será jogada no ventilador mais cedo ou mais tarde' que Heero e eu parecíamos sofrer. Não era o tipo de preocupação que precisava de companhia, mas estávamos unidos sendo pessimistas. A Esperança poderia fazer quantas carinhas bonitinhas quisesse, mas não conseguiria ganhar contra lições aprendidas de duras experiências.
O barulho do meu jeans sendo aberto foi alto quando me apressei para sair dele. Jogando minha camisa de um lado, tropiquei tirando os sapatos e meias a caminho do banheiro, já ostentando a evidência de meu forte desejo. Bati na porta de madeira uma vez.
Quase pude ouvir o sorriso de Heero quando me deu a permissão, "Entre."
O que aconteceu em seguida foi um emaranhado de imagens, quase como cenas entrecortadas, fui entrando pela porta e no chuveiro quente. Corpos molhados, ensaboados, quentes, escorregadios, masturbação mútua, beijos devoradores e línguas exploradoras, misturaram-se com água quente, caindo forte sobre nós, o som torturado dos canos enferrujados, nossos ofegos e gemidos. Gozei tão forte que gritei e quase cai de joelhos. As mãos de Heero em mim estavam apertadas e seus movimentos eram quase brutais, arrancando cada gota de mim enquanto chupava minha boca. Ele não ficou para trás, mesmo quando minhas mãos pararam de esfregar suas bolas e o masturbar durante meu orgasmo. Eu apertei com mais força, convulsionando, enquanto ele se movia em minha mão e gozava em meu estômago gemendo meu nome.
Recostei-me contra ele e arfando, procurei atrás dele a torneira e desliguei a água. Apertei de leve seu ombro dando à sua ereção ainda inchada uma última carícia e soltando-a. Olhando para baixo, foi quase cômico ver como seu pênis sacudiu quando o soltei. Percebi que eu estava nos comparando. Éramos ambos circuncidados e mais ou menos do mesmo tamanho. Contudo, o membro de Heero tendia a fica mais para cima e curvada em direção à sua barriga quando completamente excitado, enquanto o meu tendia a ficar totalmente reto. Nada mal, pensei, sorrindo malicioso. Nada mal mesmo. Afaguei os dois membros juntos, por pouco querendo recomeçar as atividades, mas o namorado protestou, mesmo soando relutante também. Ele estava certo. Estávamos exaustos. Tínhamos que comer. Heero tinha que pelo menos manter as aparências e estar apresentável para Wufei quando retornasse ao barraco dos fundos.
Acabamos vestindo bermudas e camisetas, aconchegamo-nos no sofá e jantamos. Ele digitava números em seu computador com uma mão enquanto eu detalhava o inventário de memória. Que romântico... mas era, mais ou menos. Estávamos juntos e fazíamos um trabalho importante tanto para meus negócios quanto para a armadilha. Tinha alguma coisa gostosa pairando no ar.
Quando terminamos de comer, os restos foram para o lixo e acabamos sentados de frente um para o outro. "Você deveria voltar agora," aconselhei sem muita convicção.
"Não quero," Heero respondeu.
Soquei forte seu braço e levantei. Dei-lhe as costas e ouvi um grunhido de dor e enfiei as mãos nos bolsos da bermuda. Podia ouvi-lo esfregando o braço. Talvez ele entendesse. Doía. Eu não sabia muito bem como lidar com esse tipo de dor, aquela que me revirava do avesso, bem na altura do meu coração. Precisava... Acho que era meu jeito de mostrar para Heero que precisava de espaço, mesmo que apenas por alguns minutos.
"Eu também," o moreno de olhos azuis falou baixinho após um longo tempo e senti aquela dor aumentar. "Tenho medo... Nunca me senti assim antes. Espero... Nunca consegui manter coisas, nunca tive alguém próximo a mim... Tinha muitas... defesas conta isso... Acho que teria... ficado mais próximo de você durante a guerra se não fosse assim."
"Tinha?" perguntei com a voz rouca.
"Não mudei completamente," Heero me informou, "mas... Fiz um pouco de terapia e deixei Quatre me mostrar como ser alguém além de um soldado. Eu o visitava freqüentemente."
Fiquei aturdido com a revelação. Terapia? Quatre? Se ele estava vivendo com apenas uma mochila e nunca dormira uma noite inteira com alguém ainda, não podia dar muito crédito a isso, exceto que esse cara estava mais aberto, mais... não conseguia imaginar o antigo Heero falando com esse tipo suave de voz, importando-se comigo tão honestamente, e me tocando daquela forma... Lembrava dos olhares frios, rudes, frases curtas, ameaças de morte e um ou dois socos.
Queria que a dor fosse menor. Tentei levantar o astral e, burro como era, disse a coisa errada, "Sabe, achei que você era um assassino frio de pedra, heterossexual e apaixonado pela Relena naqueles tempos. Meio que achei... que você ficaria com ela, por isso nunca liguei nem nada... É difícil te imaginar tendo aulas 'de como ser normal' com Quatre Winner."
"Não fale dela," Heero pediu com uma voz completamente diferente. Era agitada e... cheia de ódio? Voltei-me para vê-lo e minha impressão foi confirmada. Ele me fulminava com os olhos. Merda.
Fiquei boquiaberto e me apressei em tentar consertar, "Desculpa!" Sem ter certeza porque estava me desculpando, mas sabendo que acidentalmente pisara num dos calos dele.
Ele quase arquejou, estava tão nervoso. Podia ver seu peito subindo e descendo tentando se controlar. Por fim, soltou ,"Não é sua culpa. Apenas... não fale dela."
"Certo," respondi logo, completamente embasbacado. Minhas mãos saíram de meus bolsos e me abracei, sentindo-me estranhamente arrepiado e me virei novamente. "Acho... Acho que você deveria ir..."
Meu medo anterior de tudo ir por água abaixo não era nada comparado em ver tudo indo realmente por água abaixo tão rapidamente. Quando uma mão se fechou em minha trança, estremeci. Mão na trança geralmente significava que alguém estava prestes a usá-la como apoio para me machucar. Foi difícil parar minha reação imediata. Era a mão de Heero. Não sabia se ele estava bravo o suficiente para me ferir, mas não iria lhe dar uma voadora... ainda... não até ele fazer alguma coisa primeiro.
Os olhos azuis me olhavam tão intensamente, pareciam brilhar. Muito lentamente, ele me girou pela trança. Deixei, impressionado com meu próprio controle. Fui guiado de volta ao sofá e então suas mãos estavam em mim e me puxavam para mais perto. Nossos corpos se entrelaçaram convulsivamente e eu apenas respirei em seu pescoço, tentando superar a dor no peito que de repente se tornara insuportável.
Doía demais. Supondo o pior, aguardando acontecer, mas ainda amando essa força, esse monte de pele quente, macia e suave cheia de possibilidades que era Heero Yuy, quase foi mais do que podia agüentar... ainda assim... não consegui evitar me agarrar com as unhas, cravando-as desesperadamente em cada fragmento de razão para suportar, para fazer acontecer, para tornar esse homem meu de algum modo, apesar de tudo.
"Não duvide de mim," Heero implorou, sussurrando ferozmente em meu ouvido. "Não vou te deixar. Não pararei de te amar."
Bati minha testa de leve em sua clavícula e falei entre os dentes, "Estou muito velho para contos de fadas, Heero, sempre fui velho demais para historinhas."
Ele me surpreendeu me abraçando mais apertado e rindo, porém soou tenso, "Farei com que acredite neles de novo. Vou te fazer acreditar o quanto quero isso." Ele parou e depois disse, "Desculpe."
"Deixa quieto," murmurei, "Nós dois vamos descarregar a bagagem mental de vez em quando. Vamos... Vamos só tentar não deixar acontecer ao mesmo tempo, 'tá?"
Ele beijou minha bochecha, bruto, cheio de emoção, como se precisasse estampar um selo oficial para a promessa. "'Tá."
Descansamos juntos, mas ele eventualmente se juntou a Wufei. Entretanto, a dor e a preocupação eram o de menos quando nos despedimos na varanda de meu barracão. Era estranho, mas, observando-o ir embora embaixo da luz intensa dos postes acima de nós, era como se não estivesse mesmo me deixando. Era como... se uma corda estivesse ligada nele, esticando-se entre nós. Quando me virei para entrar, não me sentia abandonado ou sozinho.
Continua...
Obs.:
*Título - Orelha de porca:Há uma expressão no inglês que diz "Você não pode fazer uma bolsa de seda a partir da orelha de uma porca" (You can't make a silk purse out of a sow's ear). A analogia se refere quando a situação já não está muito boa e não pode ser melhorada por mais que se tente (pois a orelha de uma porca nunca será seda).
