Lawless Hearts

Por: Kracken

Tradução: Aryam

Revisão: Illy-chan


Corações Sem Lei

Parte 16: Puxando

Abri os olhos, pisquei pesadamente e encontrei Heero ao meu lado na cama, completamente vestido e o cabelo embaraçado caindo por sobre o rosto adormecido. Queria franzir o cenho, mas ao invés disso, sorri. Como poderia fica bravo com um cara que ia contra sua própria natureza, deixando de dormir como uma pedra até tarde da manhã, para estar comigo quando eu acordasse?

Coloquei as mãos atrás da cabeça e o observei, pensando... pensando em como ele conseguira subir na cama comigo sem que meus instintos de soldado fizessem picadinho dele. Acostumara-me com ele em tão pouco tempo. Aquela parte de mim que não confiava em ninguém estava puta da vida com isso.

"Hei, Heero," chamei finalmente. Tínhamos muito trabalho a fazer e sabia que Wufei não estaria dormindo. A desculpa de Heero, com certeza, tinha sido para vir me buscar, e me perguntava quanto tempo ele já gastara nessa 'missão'.

Ele contorceu o rosto e se aconchegou mais na minha coberta, murmurando algo sobre mecânica Gundam. Isso me deixou tenso. Se ele sonhava estar de volta na guerra, um movimento errado poderia me levar à morte. Precisava me lembrar de que Heero era capaz de entortar aço com as mãos.

"Heero, temos um monte de sucata para organizar hoje," tentei novamente. "Wufei deve estar se queimando lá fora agorinha mesmo."

Seus olhos se abriram de uma vez. "Chang," grunhiu e eu soube que ele estava de volta comigo no ferro-velho. "Ele me fez levantar antes do sol raiar e revisar seu inventário." Seu tom me indicava o quanto ele gostara disso.

"Ele descobriu que você é rabugento quando acorda?" zombei.

Heero revirou os olhos. "Mais ou menos."

Fiquei curioso. "Vocês dois nunca passaram uma noite juntos numa missão?"

Heero sacudiu a cabeça e lentamente saiu do aconchego da cama. Percebi que a sacudida era para deixá-lo mais alerta e não uma negativa, quando replicou, "Passamos, mas..." ele pareceu envergonhado passando os dedos pelos cabelos e os tirando dos olhos. "Eu ficava acordado ou então saia enquanto ele dormia."

"Por quê?" eu sorria sem ter certeza se devia. Era difícil dizer aonde Heero queria chegar com essa conversa.

Ele franziu o cenho. "Nunca gostei de dormir com outras pessoas no quarto. Me sinto..."

"Vulnerável?" ajudei e ele assentiu. "Então, você nunca..."

"Não."

"Mesmo quando estávamos no navio do Howard, você foi procurar seu próprio lugar para dormir," recordei. Ele assentiu de novo. Olhei para sua marca na cama. "Mas você não tem nenhum problema em dormir comigo?"

O pequeno sorriso de Heero quase me fez desmontar. Tinha carinho e amor em um simples curvar dos lábios. "Nenhum problema," respondeu. Entretanto, seu sorriso falhou um pouco quando acrescentou pensativo, "Você tem pesadelos, às vezes."

Ponderei sobre isso enquanto me sentava e engatinhava até o café. Entreguei-lhe um copo depois de ter acionado a etiqueta para esquentar e comentei "Não lembro deles, na verdade. Devem ser pequenas coisas... às vezes me dão dor de cabeça..."

"Você não se mexe muito," Heero me informou, "mas é como se você estivesse com dor. Chacoalhei seu ombro e te chamei nas poucas vezes que aconteceu e você entrou em sono profundo."

"Oh," não tinha muito o que elaborar. Beberiquei meu café, sentindo como se tivesse sido pego agindo como uma criança de cinco anos. Ter pesadelos parecia um tanto quanto infantil.

"Será que..." o moreno ao meu lado ia vasculhar o passado, tentar me fazer uma psicanálise. Dei um fim ao ato.

"Não importa," dei de ombros e tomei uma longa golada do café. Joguei o copo vazio na lixeira ignorando minha língua queimada. "Vamos ao trabalho."

Heero não era estúpido. Sabia que estava mudando de assunto e sabia bem para não cutucar as feriadas mentais na minha cabeça. Tenho certeza de que ele não gostaria de ter as suas cutucadas também.

Cacei minhas botas, agachando e tateando debaixo da cama. Encontrei uma e a puxei com um grunhido. Reconheci um problema imediatamente e passei o dedo na costura que estava se desfazendo na parte de cima. Lembrei da vez na qual fiquei preso numa caco de metal outro dia desses. Não tinha percebido o quão perto tinha chegado de arrancar o meu pé.

"Tem outro par?" Heero perguntou terminando seu café e se levantou. "Vai sujar por dentro com um rasgo desses."

"É," respondi, e não elaborei, encontrei o outro pé e procurei meias limpas.

"Duo?" Heero pronunciou de modo estranho. "Se tem outro par, por que não..."

"Nu'tem problema," grunhi sentando no chão para colocar as meias.

"Mas, se tem outro par..." contrariou.

"Disse que 'tá tudo bem!" rosnei enfiando a bota no pé. A costura se rompeu mais uns dois centímetros me deixando ver a meia pelo couro. Congelei e encarei.

"Duo..."

"Está no armário," falei. "Pode... pode pegar pra mim?"

Ele ficou bem quieto, tentando entender meu humor. Pois é, ele podia gritar sobre Relena, e eu sobre olhar no meu armário. Será que conseguiriamos um psicólogo pela metade do preço se fossemos juntos?

Virei as costas, ainda sentado, olhando para a cama. Não tirei a bota rasgada. Tinha um pressentimento de que precisaria dela.

Heero teve calma, pensando cuidadosamente e então... Não sei bem se foi um som ou um movimento de sua parte. De repente eu soube que ele... Sabia. Vagarosamente, seus passos foram para o armário. Encolhi-me. Lá estava eu, agindo como uma criança.

"Está trancado," ele soou aliviado. "Você tem uma tranca." Eu não deveria ter esperança de que não fora aberto.

"São minhas coisas," proferi e esfreguei os olhos. "Claro que tem uma maldita tranca."

"Uma boa," comentou. "Duvido que alguém além de um agente profissional conseguiria abrir."

"Só... Só pega as botas!" tentei acobertar minhas emoções com raiva borbulhante. Duvido que o tenha enganado.

"Está tudo bem," declarou com um suspiro de alívio após um momento. "As caixas estão rasgadas, mas dá pra perceber que foram revistadas cuidadosamente. Tem um pouco de crédito aqui numa jarra, eles teriam levado..." referia-se aos meus ex-invasores.

Curvei-me até os joelhos. Ouvi-o levantar algo e o ranger a porta. A fechadura deu um clique ao se trancar. Ele veio até o meu lado e se ajoelhou, colocando as botas ao meu alcance e disse, "Não conseguia olhar, não é?"

"Não," grunhi. "Já é ruim o suficiente saber que seus caras colocaram as patas em tudo. Não roubaram nada, só confiscaram. Sabia, sabia que se aqueles caras tivessem vindo aqui... Teriam levado tudo. É besteira minha... Não consigo explicar... Ninguém deve se apegar tanto à 'coisas'. Nada é permanente. Nada é para sempre... Sabe?"

"Duo, desculpa," Heero pediu e segurou firmemente a minha mão. "Sei que os agentes te envergonharam, invadiram sua privacidade. Eles só levaram o que acharam que seria útil."

"Revistas pornôs?" não pude evitar a raiva na resposta. "Minhas fotos pessoais?"

"Estávamos tentando te ligar com criminosos suspeitos," o Preventer explicou. "Fotos poderiam te identificar com esse pessoal. As revistas... um dos agentes pensou que algumas poderiam conter menores de idade. Ele pensou que poderíamos usá-las como apoio para te fazer cooperar."

Devo admitir que os reflexos de Heero merecem congratulações. Meu murro não o acertou. Ele desviou e acabei quase caindo de cara no nariz dele, fumegando. Talvez eu não tenha um bom humor de manhã também. "Você nunca...!" não consegui completar, meu surto fazendo tudo virar um zunido enquanto tentava respirar por entre o ódio e nojo.

"Vá encontrar Wufei," dei a ordem, cada palavra saindo entre os dentes. "Não estou com graça nem com você nem com o seu trabalho agora."

"Duo..."

Será que ele não percebia? Não via o que os seus agentes fanáticos fizeram comigo? Acho que não, uma vez que está defendendo suas ações, tomando partido deles.

Ambos crescemos comendo o pão que o diabo amassou, perdendo nossas coisas, perdendo pessoas próximas e fazendo o necessário sem considerar a nós mesmos.

Talvez Heero ainda carregasse essa filosofia. Talvez ele não entenda que não se deve esperar que as pessoas se sacrifiquem assim, que não somos todos soldados lutando pelas causas da lei. Talvez ele não entenda como a ação de alguns agentes, algo simples como bisbilhotar meus pertences, pode ser doloroso para mim como... Eu não queria pensar nisso. Talvez eu esteja exagerando, mas também sei quando estou certo e ele... errado, droga.

Passo número um, quando se está na cola de um suspeito, é revistar suas tranqueiras. Não precisava ser policial para saber disso. Eu poderia ficar puto com o Heero e sentir pena de mim mesmo o quanto quisesse, mas ele não conseguiria mudar isso... não por mim nem por ninguém. Entretanto, não achava que estava tão errado esperar alguma simpatia, pelo menos, que entendesse o que ele e seus colegas me fizeram passar e que entendesse que caras como eu tendiam a ser esmagados pelas solas de sapatos das autoridades em suas perseguições por malfeitores.

"Quando..." Heero parou, limpou a garganta e tentou novamente, "Quando aquele agente me disse o que... O que ele suspeitava das revistas... Fiquei tão nervoso... Queria espancá-lo... Quando estive com você, revirando sua caixa e encontrei aquela foto minha... Me senti... impressionado de início e... esperançoso... mas depois fiquei enjoado, sabendo o que você estava passando, como nós tínhamos... te envergonhado. Foi a primeira vez que... que eu conseguiria abdicar do meu distintivo dos Preventer, que eu odiava o que o procedimento nos dizia pra fazer."

Encarei-o sem piscar e seus olhos estavam de um azul suave e emocionados, com medo de que tivessem estragado tudo de vez. Queria continuar bravo, queria levantar cada defesa que tinha, porque ele vira o quão fraco e inútil que eu conseguia ser, frangote demais para abrir o armário. Contudo, aqueles olhos faziam minhas respostas mau humoradas bater em retirada, faziam com que eu percebesse que descontar em Heero só me machucaria, machucaria ele e a nós dois ainda mais.

"Merda!" reclamei e não conseguia olhar para nada, só abaixar a cabeça e fitar o pequeno espaço que nos separava, minha mandíbula contraída. Quando senti seu beijo em minha testa, desafiando outro soco; meio que virei o rosto, os braços envoltos nos joelhos abraçando-os contra meu peito com força.

O que eu queria? Não queria ficar com raiva. Não queria me machucar. Não queria... não queria perdê-lo. A cicatriz em meu ombro coçou e a toquei, esfregando-a ligeiramente, lembrando que Heero me vira em minha melhor forma durante a guerra. Agora, ele me via na minha pior. Estava por minha conta decidir o que fazer agora.

"Vamos," falei, ainda me sentindo enraivecido e envergonhado, mas sabendo o que fazer para manter o que era mais importante do que meu orgulho e egocentrismo. "Temos muito trabalho a fazer." E peguei minhas botas reservas.

Não queria dar tempo para Heero discutir, tempo para pedir para 'pôr pra fora', mesmo que eu nem soubesse se ele queria fazê-lo. Ele me seguiu sem objeção e eu esperava que entendesse uma trégua quando visse uma. Talvez eu estivesse muito amargo com a coisa toda para poder perdoar, mas deixaria para trás, ficaria tudo no passado... eventualmente.

Esfregando meus olhos por causa do calor e luz enquanto saíamos na varanda, ouvi Wufei antes de vê-lo. "Tudo será mais tranqüilo se cooperar, Maxwell."

Foquei a visão nele e pisquei. Ver Wufei vestindo uma camiseta simples e jeans era algo com o qual eu não estava acostumado. Parecia muito normal, quando geralmente mostrava-se inatingível e exótico em suas típicas roupas orientais de L5 ou uniforme de trabalho. Era esperar demais que ele não planejasse trabalhar comigo.

"Estou cooperando," retruquei. "Ainda não os expulsei daqui a pontapés, expulsei?"

"Já faz quase duas horas desde que o agente Yuy foi te buscar." O chinês não perdera sua atitude fria e arrogante junto com suas roupas.

"Minhas culpa," o outro agente disfarçado se pronunciou saindo de minha sombra. "Eu o permiti dormir um pouco mais enquanto tomava café."

Uma dor de cabeça começava bem no meio dos meus olhos. Não precisava de Heero contando coisas assim para o seu parceiro. Bufei descendo os degraus e fui em direção ao meu novo projeto de sucata. "Tenho meus próprios horários, acostume-se."

Os dois me seguiram. "Revisei seu inventário até agora," Wufei me dizia. "Seria melhor colocar os impostos. Ficaria mais fácil convencer nosso alvo que você está desesperado o suficiente para quebrar a lei se ele conseguir checar e ver o quão mal seus negócios vão."

Parei e me virei. Meus punhos cerraram. Por que era mais fácil controlar meu punho de esmagar a cara metida dele, quando o deixava de bom grado voar para a do Heero? Acho que não preciso de um psicólogo para me dar uma resposta. Importo-me mais com Heero, com o que ele pensa, o que ele faz que me afeta. É Heero que mais consegue me machucar. Ainda assim, Wufei chegava bem perto disso também.

"Não tenho dinheiro para um contador," tive a necessidade de explicar e isso só confirmava o que ele dizia, que meus negócios iam por água abaixo.

"Posso fazer a contabilidade," Wufei se ofereceu com um aceno de desprezo. "Tudo o que preciso é de um inventário adequado."

"Você pode mentir," sugeri raivoso.

O chinês ergueu uma sobrancelha desdenhosa. Heero veio ao resgate antes que ele ultrapassasse a linha, aquela que logo atrás tinha um Duo Maxwell muito irritado. "Tudo precisa ser legal," Heero esclareceu. "De outro modo, nosso alvo poderia se safar com detalhes técnicos."

"Como o quê?" perguntei sem querer saber realmente, voltando-me para a minha sucata, deixando Heero salvar a raça de Wufei.

O homem de olhos azuis explicou, "Mesmo um homem como nosso alvo tem acesso às cortes. Os advogados dele tomarão vantagem de qualquer escorregão de nossa parte para libertá-lo. Ele tem que vir aqui comprar contrabando sem ajuda de documentos falsificados ou atividades suspeitas de sua parte."

Franzi o cenho. "Então, é por minha conta? Um sucateiro de verdade, eu, tem que colocar contrabando à venda e o seu alvo tem que vir comprar sem nenhuma sombra de ajuda de vocês dois?"

Heero assentiu.

Zombei. "Sabe, o pessoal no controle de L2 estão no poder há anos. Não são imbecis."

"Não, não são," Wufei concordou. "É por isso que essa operação tem que ser completamente plausível. Por esse motivo precisamos de sua ajuda e de seus contatos."

"Duo Maxwell de repente vai pra pindaíba, logo depois de ter sido arrastado por agentes Preventer," balancei a cabeça. "Acho que já temos problemas."

Meus dois 'empregados' ficaram bem quietos. "O que foi?"

Heero pareceu doente, como um homem prestes a cavar seu próprio túmulo. "Soltamos uma notícia falsa para acobertar aquela prisão."

Inesperadamente me perguntei se conseguiria, com um único soco, acertar os dois ao mesmo tempo. Minhas mãos se apertaram em punhos firmes. "O que colocaram na notícia?"

"Que você foi solto depois que os dois agentes que te prenderam preencheram relatórios contando que você recusou o contrabando. A notícia diz que havia a suspeita de que você teria subornado os dois."

"Suborno, o procedimento padrão de L2," grunhi e ambos ficaram confusos por eu não estar mais nervoso. Exibi um sorriso cruel. "Se alguém se incomodar de ler a notícia, vão pensar que eu sou foda por conseguir comprar DOIS agentes. Vai me dar alguma reputação."

Tirei a franja dos olhos e falei pensativo, "Se acreditarem, claro. Acho que vamos descobrir. Na melhor das hipóteses, vão acreditar. Na pior, me matam. Vocês dão bons funerais para dedos-duros?"

Da parte de Wufei, recebi completo silêncio, mas Heero se atreveu a se adiantar e gentilmente tocar meu ombro. Mesmo sem olhá-lo, falou, "Não vou deixar ninguém te ferir."

Corei até a raiz dos cabelos, sabendo que Wufei estava observando esse ato de intimidade intensa. Desvencilhei-me, mas não rudemente, comentando, "Vou te cobrar essa promessa."

Continua...