Lawless Hearts
Por: Kracken
Tradução: Aryam
Revisão: Illy-chan
Dedicado a DW03, Angiolleto, Manda-chan43, Vivihydeist e Asuka Maxwell!
Corações Sem Lei
Capítulo 17 - Suor
Wufei tem complexo de escravo, só pode. Eu trabalho duro e faço o que tem que ser feito, mas minha carga horária é geralmente mais maleável, com mais paradas para descanso. Toda vez que eu hesitava, durante esse longo e cansativo dia de arrumar e catalogar sucata, Wufei me lançava um olhar raivoso penetrante mais eficiente do que um chicote para me fazer voltar ao trabalho. Não precisava dizer que eu estava exausto. Pronto para desmaiar? Com certeza! Mas eu não cairia antes daquele mal amado.
Heero estava constantemente ao meu lado, oferecendo-me sua força e conselhos, enquanto mexíamos em largas pilhas e sondávamos entre outras menores por qualquer coisa de valor. Parei de ficar bravo com ele mais ou menos ao meio dia e direcionei toda a raiva para Wufei. Não conseguia nutrir sentimentos ruins por Heero quando ele suava, cortava-se e se arranhava na sucata bem ao meu lado. Wufei também, mas eu não seria tão caridoso com ele.
L2 deixava Wufei nervoso. Descobri quando tive um dia inteiro para observar meu nemesis. Sua mandíbula estava contraída e seus olhos ilegíveis, mas quando o mecanismo da colônia ligava e parava em seguida, ele estremecia, vacilava e olhava para os lados. Se fosse qualquer outro que não o chinês, eu chamaria isso de medo, mas... bem, era Wufei! Eu tinha que catalogá-lo na categoria 'preocupação de uma repentina descompressão' e deixar de fora a parte 'cagando de medo'. Ele poderia estar preocupado com isso, mas eu tinha a sensação de que enfrentaria a situação sem se abalar caso acontecesse. Provavelmente diria algo sarcástico e ofensivo também.
Terminamos? Inferno, não, mas cuidamos de boa parte do quintal até a hora da luz do sol refletido ser diminuída para o entardecer. As pilhas de sucata mais arrumadas pareciam bem fora de lugar próximas as pilhas desarrumadas.
Minhas mãos estavam doloridas e ardidas por causa dos cortes e brigas com o metal. Minhas costas estavam queimando por ficar inclinado e carregar cargas pesadas, minha pele estava suja com ferrugem. Mesmo usando o meu chapéu, sentia-me tostado até os ossos.
"Chega," Heero anunciou, talvez finalmente percebendo que os dois homens teimosos não jogariam a toalha. "Continuamos amanhã."
Wufei concordou com a cabeça com um curto movimento.
"Bem, se você está cansado..." falei fingindo uma falsa energia jogando uma última peça de metal em uma pilha já no inventário.
"Sim, estou," Heero respondeu amargamente e me olhou de canto de olho me avisando que eu não estava o enganando nem um pouco.
Wufei provavelmente percebera que eu só fazia pose, mas disse, "Estamos perdendo luz. É muito perigoso tentar manusear as pilhas com os holofotes do terreno."
Talvez ele só estivesse tentando se safar, mas estava me salvando ao mesmo tempo. "Faz sentido," grunhi para que ele não ficasse no vácuo. Recebi um olhar frio em retorno. Decidi que precisava de um tempo sozinho nesse momento. Foda-se Wufei. Queria voltar para meu barraco, ficar completamente pelado, abrir todas as ventas de ar, tomar uma bebida bem gelada e dormir por uma semana.
"Preciso que você vá para o nosso barraco para discutir o que encontramos hoje," Wufei me comunicou naquele tom de voz que não deve ser contrariado. Como ele consegue colocar tanta ameaça em apenas simples palavras? Era o mesmo que dizer 'coopere ou vou trazer toda a força da lei para bater na sua porta.'
Heero, Deus eu o amo, tentou me tirar dessa. "Estamos exaustos," comentou com o chinês. "Devemos descansar. Deixe Duo ir para sua casa por algumas horas e depois podemos nos encontrar..."
"Inaceitável," Wufei retorquiu, olhos faiscando. "Temos nosso próprio relatório para terminar antes de descansarmos. Não teremos tempo para fazer esse trabalho amanhã."
Ele estava certo e eu sabia, mas isso não me impedia de ficar puto da vida. Minhas mãos se fecharam em punhos enquanto eu batia os pés... andava... e depois desisti e me arrastei pateticamente para o barraco deles.
Uma vez lá dentro, acabei por me sentar no colchão de Heero, com o queixo apoiado no punho e encarando o nada. Heero sentou-se ao meu lado e se levantou novamente. Quando ele perguntou: "Querem bebidas?", interpretou meu grunhido como um 'sim' e logo apertei a etiqueta daquele pedacinho do céu e bebi o liquido energético gelado.
Wufei pegou seu próprio computador e posicionou-o no colchão contrário. Ele não pegou a bebida e suspeitei que estava tentando se demonstrar mais resistente do que eu. Entretanto, estava muito exausto para mais uma disputa e fingi não perceber.
Após vinte minutos conversando sobre números, meus olhos tentavam se fechar. Eu continuava 'pescando' e piscando, perdendo o que Wufei dizia mais de uma vez. Heero me acordava sempre que isso acontecia, mas não ajudava o fato de ambos conversarem baixinho. Mesmo o tom arrogante do chinês não me deixava mais alerta. Em algum momento, recebi a janta, mas o que era, não me lembro... ou mesmo se cheguei a comer. Desliguei-me da conversa depois disso e um travesseiro macio apareceu debaixo da minha cabeça. Uma troca ácida de palavras entre Heero e Wufei se passou acima de mim, algo sobre estresse, trabalho demais e calor, e então alguém, Heero, eu espero, falou para que eu dormisse tão perto de mim que uma respiração quente fez cócegas no meu ouvido. O mundo desapareceu em seguida.
De manhã, encontrei-me sendo abraçado por trás por Heero em seu colchão, seu nariz encostado em meu pescoço e seu corpo envolvendo o meu. Seu ronco suave me dizia que ele ainda estava viajando na terra dos sonhos e eu estava tentado a voltar para lá. Os raios de sol tentando penetrar meus olhos pela cortina corroída me alertaram que ainda era muito cedo. Foi a compreensão de ter desmaiado de sono e posto para dormir como uma criança que fez meu rosto pegar fogo e forçar meus músculos a me fazer sentar. Automaticamente, procurei por Wufei e o vi dormindo a menos de dois braços de distância.
Ele parecia... menos cretino quando adormecido. A expressão de Wufei era branda e relaxada. Ele usava uma calça de algodão com elástico e seu cobertor o cobria como se estivesse o abraçando. Seu cabelo estava solto e as mechas negras bagunçadas o faziam parecer ainda mais jovem. Caiu minha ficha de que éramos ainda tão jovens, a despeito de nossas experiências e, apesar de nunca termos sido crianças, ainda podíamos ter momentos assim, todos amontoados juntos em um quarto como um bando de filhotes ou garotos indo dormir na casa um do outro, e toda a inimizade se fora, fácil assim.
De repente me senti nostálgico, lembrando de meus dias em L2, quando tinha minha gangue de crianças. Aconchegávamo-nos em prédios abandonados, encontrando a paz e a proteção que podíamos unidos. Não tinha mamão com açúcar em ser uma criança lutando sozinha em uma estação espacial destruída pela guerra, mas houve momentos na batalha pela sobrevivência, momentos como esse que eram... pausas, na luta e não eram tão ruins.
Olhei de novo para Heero e o vi franzir o cenho e se remexer, ainda em sono profundo. Quase quis que esse momento durasse mais, preservá-lo parado e quieto para não arruiná-lo, mas sabia que não deveria ter esperanças. O outro agente acordaria e aqueles olhos negros me queimariam vivo, então Heero acordaria e quereria coisas emocionais e físicas de mim enquanto se colocava entre Wufei e eu. Assim como na noite passada, repentinamente quis meu espaço, meu tempo sozinho, mesmo que, nem tão no fundo assim, quisesse mesmo era estar nos braços do moreno dormindo ao meu lado. A mente pode ser algo bem bagunçado.
Somos pilotos Gundam, treinados como nenhum outro jamais fora. Escapar sorrateiramente de meus camaradas era fácil, especialmente do meu amante com sono de pedra. Sai do barraco e fiz meu caminho, sob a luz dos refletores, para meu próprio canto, mãos nos bolsos e cabeça baixa na tentativa de ignorar que já era dia. Fui parado quase no degrau de entrada pelo som de meu portão sendo aberto.
Entortei os olhos para aquele lado e vi um homem entrar cuidadosamente, sem estar seguro de ser bem-vindo e obviamente desconfortável no ferro-velho. Sorri e esqueci do cansaço, da fome e de querer ficar sozinho. Sentia o cheiro de um alvo fácil a quilômetros de distância. Contudo, não deixei trasparecer minhas intenções. Coçando a cabeça, limpei o rosto com a bandana e caminhei devagar, quase irritadamente, até o homem.
"Bom dia," cumprimentei, colocando um pouco de irritação em meu tom. "Cedo demais para estar fora de casa."
O homem era alto e magro, com uma mecha vermelha no cabelo e olhos escuros piscando constantemente. Seu nariz era um bico e tinha uma cicatriz no lábio inferior. Estilhaço de uma explosão, identifiquei.
"Benjamin Burns," ele se apresentou e não estendeu a mão para um aperto. Não insisti, apenas esfreguei minhas mãos distraidamente na bandana como se me assegurasse estar pronto no caso de ele oferecer um mais tarde.
"Duo Maxwell," respondi educadamente. "Essa é minha propriedade."
Alarmes soavam na minha cabeça. Tinha algo errado e minhas impressões não estavam ajudando. Apaguei a impressão de alvo fácil e me contentei em substituir por cobra que poderia ou não ter presas. Era um lacaio e eu sentia o fedor de burocracia e governo nele. O tipo dele não vinha para ferro-velho procurar peças de motor.
O homem usava roupas casuais, mas estavam passadas e perfeitamente limpas. Dava para sentir o cheiro de creme pós-barba caro e seu cabelo tinha um penteado elegante, e não de quem acabou de acrodar, como pensei de primeira.
"Meu cliente pediu para que o contatasse e lhe entregasse seu cartão," Burns anunciou como se fosse uma grande honra. Ele me estendeu o cartão com o endereço de uma cobertura em uma das melhores localidades de L2. Minha expressão era apropriadamente confusa. Caramba, eu ESTAVA confuso.
"Ele está interessando em alguma peça em particular?" perguntei. "Meu comércio é pequeno, mas posso conseguir quase qualquer coisa que quiser."
O homem me olhou como se eu fosse estúpido. "Sua reputação nessa área é conhecida, assim como sua ficha atual. Meu cliente está sempre pronto para ajudar talentos quando vê um. Sua capacidade de lidar com a prisão pelos agentes Preventers o impressionou."
Minhas sobrancelhas se ergueram até a linha do meu couro cabeludo. Olhei para o cartão. Reconheci o nome, mas continuei a parecer ingênuo. "Como ele sabe sobre isso?"
Ele me mostrou um sorriso superior. "Temos amigos em altos postos que nos mantêm informados."
Se eu fosse seu chefe, enfiaria uma furadeira entre seus olhos por dar esse tipo de informação.
Grunhi e mudei minha expressão para nervoso. "Isso deveria ser confidencial."
"Não para o meu cliente," Burns respondeu prontamente. Deu um olhar severo ao meu terreno e fungou. "Se quer melhorar sua posição na vida, sugiro que aceite a oferta."
Guardei o cartão no bolso dando de ombros. "Não sei o que está oferecendo, mas tenho meu próprio negócio aqui. Não estou procurando por outro."
O homem riu se voltando para ir embora. "Ah, sim, mas é sobre o seu 'negócio' que ele quer discutir."
"Desculpe," falei firmemente. "Diga pra ele esperar sentado."
Ele foi embora e fechei o portão atrás dele. Lentamente, voltei para meu barraco, pensativo. Sendo um ex-piloto Gundam, tive minha porcentagem de 'ofertas', legais ou não. Não tinha como saber se esse 'cliente' era alguém que Wufei e Heero queriam prender ou o que ele queria comigo. O melhor era nunca parecer interessado ou ávido até saber o que te espera.
Na minha casa, peguei minha caixa de pertences confiscada pelos Preventers. Tinha um longo tempo para me assegurar que meus poucos pertences ainda estavam ali. Era um alívio mexer neles. Não percebi que estava tenso e só relaxei quando alcancei o fundo encontri as fotos desbotadas do Padre Maxwell e Irmã Helen em um panfleto de doação, com uma breve história da igreja Maxwell e sua missão de ajudar os necessitados. Encontrei-o bem depois de me juntar ao Dr. G e os Sweepers. Fora esquecido em um bolo de propagandas vindas pelo correio, marcadas para serem jogadas no incinerador, mas nunca levadas até lá. Um de meus deveres como o novato do grupo era limpar. Lembro de me sentar por um tempão espantado, agarrando aquele panfleto branco e preto de impressão barata. Quando Dr. G me encontrou, fora compreensivo. Aquele homem podia ser frio como o fio de uma navalha, mas ele tinha uma afeição por mim que se mostrava de um modo rústico e paternal, e aquele fora um desses momentos no qual ele colocara um braço no meu ombro e me ouviu contar aquele capítulo negro do meu passado e chorado...
Fechei a caixa e a porta do armário. Iria conseguir uma fechadura melhor, uma à prova de Preventers. Pensar em desconhecidos botando as patas nas minhas coisas ainda me fazia ranger os dentes. A ideia das mãos de estranhos tocando o panfleto, aquelas poucas fotos guardadas dos tempos de guerra e as miseráveis lembranças de minha vida, era uma violação a qual eu não queria experimentar novamente.
Tomei um banho e lavei o cabelo, assistindo a sujeira, ferrugem e restos do dia anterior descer pelo ralo. Terminado, arrumei-me lentamente, me secando, fazendo a barba, escovando os dentes e basicamente me mimando um pouco. Eu precisava. Estava muito estressado, pronto para surtar horrivelmente.
Remexendo por entre minhas roupas no chão, descobri que nada tinha cheiro de limpo exceto a camiseta de Heero jogada em cima da geladeira. Vesti-a, um pano azul da cor do céu com a gola branca, e respirei sua essência suave. Enruguei meu nariz e sorri enquanto fazia café, estiquei-me na cama e coloquei um short sem cueca por baixo.
Quando Heero bateu educadamente na porta e entrou após a minha permissão de "Pode entrar!", já tivera tempo suficiente sozinho para não pensar nisso como uma invasão. Ele sorriu para mim, mas consegui ver um leve traço de preocupação nele, de pé no batente da porta, mãos nos bolsos de trás e cabelo bagunçado caído no rosto de quem acaba de acordar.
"Wufei te forçou a levantar?" quis saber, com um sorriso sacana.
Heero grunhiu. "O cara é sádico de manhã."
"Acho que isso é chamado de 'normal'" zombei. "As pessoas devem acordar antes do meio dia."
"Ele se exercita," reclamou. "E corre."
"Que horror!" ri. Sentei-me e bati no colchão, ao meu lado, e ele ficou satisfeito por ser bem-vindo. O que me fez pensar em como ele deve ter se sentido, acordando e não me encontrando. Deve ter se preocupado com o meu humor.
Heero se serviu de café para depois sentar ao meu lado. Ligeiramente, alisei seus cabelos com meus dedos, como um pente. Não ajudou muita coisa, mas fez seu cabelo parar de espetar para cima em alguns lugares. Ele fez uma careta e bebericou o café.
Não contei a ele sobre meu 'cliente'. Ainda estava incerto. Talvez ele não estivesse interessado em comprar sucata, mas ainda fizera uma oferta de trabalho. O que o fazia 'um dos meus' por definição. Se for alguém que merecia ser entregue a mercê cuidadosa de Wufei e Heero, queria descobrir por mim mesmo.
"Banho?" questionei.
"Ontem a noite," respondeu entre goles. Puxou a sua camisa, aquela que eu usava. "Essa era minha última quase limpa."
"Eu sei. Obrigado." Sorri para ele, sem me desculpar. "Temos que mandar Wufei para a lavanderia enquanto trabalhamos hoje."
Heero franziu, provavelmente tentando invocar a imagem do seu parceiro lavando roupas em lugar público. "Por que Wufei?"
"Você e eu trabalhamos melhor juntos," informei. "Menos brigas. Além do mais, ele deveria ser o parente preguiçoso, lembra? Ele tem que andar por aí e parecer preguiçoso."
"Lavar as roupas é preguiça?" Heero perguntou.
"É quando uma máquina faz tudo por você e tudo o que tem de se fazer é ficar por perto até terminar," expliquei. "Dizemos a ele que é por vigilância ou algo assim. Que ele precisa ouvir o que os habitantes locais estão dizendo sobre nossa armação, se estão engolindo a farsa ou não."
Heero terminou o café, colocou o copo na cabeceira e se endireitou para me encarar. "Já comeu?"
Ergui uma sobrancelha. "Estava prestes a fazê-lo."
"Que bom," grunhiu e se esticou para pegar as refeições.
"Posso abrir a sua comanda?" perguntei, um pouco incomodado por seus cuidados exagerados. "Você está sempre comendo a minha comida."
Ele me olhou pelo canto do olho, "Não tenho o orgulho que você tem. Não me importo de viver as suas custas."
Era uma brincadeira e ele não estava certo se ia funcionar, pude perceber. Tinha uma pergunta nela também. Se eu insistisse que ele me pagasse de volta, revelaria muita coisa dessa nossa relação. Outro maldito passo. Só vai faltar comprar as malditas alianças!Esse pensamento formou uma careta na minha expressão, "Vá em frente! Por que não come a geladeira inteira?"
Claro que eu soava como um Sr. Escroto, mas Heero entendeu. Seu rosto se iluminou e me entregou minha refeição. Fingi não notar me concentrando em comer. Tamanho do anel é sete e meio, não quero saber de nenhum diamante, combinado?
Continua...
