Lawless Hearts

Por: Kracken

Tradução: Aryam


Agradecimentos a DW03, Asuka Maxwell, Lis Martins, Angiolleto, Mushiroy, Markoh Kai e a Lua Eterna 2012! Obrigada pelos comentários, espero que gostem de mais esse capítulo!


Corações sem Lei

Capítulo 18 - Dançando

Meu tempo sozinho acabara. Com um suspiro, ensaquei todas as roupas sujas, joguei por cima do ombro e voltei com Heero para encontrar Wufei. Achei que os exercícios do chinês seriam com katas ou algo que envolvesse igualmente uma disciplina oriental . Foi com surpresa que o encontrei kickboxing apenas com uma calça preta de moletom, contra um inimigo imaginário. Ele executava movimentos que não podiam ser classificados como nada mesmo do que baixos e sujos.

"Luta de rua," falei com apreciação. "Taí uma coisa em que sou bom."

"Está em dia com o treinamento?" Wufei questionou quando parou para nos encarar. Ele suava. Sua pele brilhava e as gotículas faziam caminhos enquanto desciam. Seu cabelo estava para trás, mas algumas mechas venciam a batalha contra o prendedor, emoldurando o seu rosto.

"Não tenho que treinar," falei com um sorriso. "Sou um lutador nato."

O chinês ficou com aquela expressão de um professor que acha ter o dever de ensinar uma lição para o seu aluno. "Se você puder me mostrar alguns movimentos, eu apreciaria ter um parceiro vivo para praticar."

Soava tão legal, mas senti a armadilha. Sorri largamente e joguei a seus pés o saco que carregava. "Não temos tempo, Wu, meu caro! Temos que trabalhar e você precisa ir à lavanderia." Recebi a careta de desgosto que eu esperava. "Vai te dar a chance de estabelecer o seu disfarce e dar uma sondada no pessoal. Precisamos saber se a vizinhança está acreditando ou se estamos só perdendo tempo."

Ele bufou e jogou as mechas rebeldes do cabelo para trás. Não ousou parecer desapontado ou irritado com a tarefa. Silenciosamente trocou um olhar com Heero e pegou o saco de roupas. "Vou colocar as minhas coisas aqui também," falou. "Me espere de volta em uma hora."

Nos seus sonhos, ri internamente, ciente da bagunça que era a lavanderia e da demora de completar o serviço, sendo exatamente a razão de eu evita-la até não poder mais. Chamei Heero e ele me seguiu para as pilhas e sucata.

"Ele passou boa parte da noite fazendo o seu inventário e revendo os seus impostos," meu acompanhante me falou ao meu lado. "Ele é arrogante... e um pé no saco em seus melhores dias... mas não é tão ruim quanto você pensa. Se fosse, não seria meu parceiro."

"Ele queria era acabar comigo agora a pouco, e você sabe," grunhi, começando a separar peças de uma pilha. Sibilei quando cortei um dedo, o primeiro ferimento do dia.

"Você estava pedindo," Heero rebateu e bufou. "Nato."

"É o que o Dr. G me chamou," afirmei. "E é verdade."

Olhei para trás a tempo de ver o brilho em seus olhos e o pequeno sorriso. Xinguei. Machos, testosterona, aquele instinto de 'homens das cavernas' que subjugava o bom senso; ele estava se coçando para saber se eu falava a verdade, só que eu estava ainda menos disposto a me provar para um homem capaz de entortar barras de ferro com as mãos e se explodir dentro de um robô gigante sem nenhuma sequela.

Agarrei a sua nuca e pressionei a minha testa contra a sua. "Pare! Temos muito trabalho para fazer." Encontrei com os seus azuis e o soltei, voltando-me para o trabalho. Após um momento de hesitação, veio se juntar a mim.

Trabalhamos sob a o brilho intenso das luzes refletidas. Wufei não retornou após uma hora. Heero parou várias vezes para conferir o portão. Tentei assegurá-lo, sem me apartar de uma peça que tentava deslocar, "Leva muito tempo, é assim mesmo. Lavar as roupas por aqui é um evento que pode durar o dia todo."

Ele resmungou um 'humm' e repentinamente estava grudado atrás de mim, o peito contra as minhas costas, e uma ereção bem óbvia contra as minhas nádegas. Beijou meu pescoço suado e fez um movimento sugestivo.

"Nos seus sonhos," rosnei irritado.

Ele congelou e sussurrou no meu ouvido. "Pode apostar."

Entortei o pescoço para olhá-lo. Eu o chuparia até a última gota e o lamberia inteiro, mas aquele último passo, fosse pela frente ou por atrás, eu não estava pronto. Era como um forte na última linha de defesa, e o meu lado independente, a minha alma de garoto de rua, não queria abrir mão da minha liberdade. Fui poupado de recusá-lo por Wufei aparecendo repentinamente, "Você consegue um melhor apoio nessa peça se tentar levantá-la do lado oposto, Yuy."

Heero se endireitou abruptamente e a ação me jogou de cabeça na lataria. Bati a testa e cortei a bochecha. Agachado, segurou o meu rosto, o homem que antes me encoxava, gritava, "Merda, Chang!"

"Eu podia ser um inimigo," o chinês constatou friamente, braços cruzados.

"Você está bem, Duo?" Heero perguntou ansioso.

Afastei-o e me levantei, encarando os olhos negros. "Cadê a porcaria das roupas?"

"Falei com várias pessoas e alguns gentilmente se ofereceram para lavá-las para mim," Wufei respondeu com uma sobrancelha erguida.

"Seu idiota!" gritei. "Estão nos roubando!" corri portão afora, já certo de quem eram os malfeitores.

Ouvi Heero comentar trás de mim, "Acho que isso vai cimentar a sua reputação de primo preguiçoso."

Correr em L2 podia ser mais fácil uma vez que a gravidade era menor do que na Terra. Por outro lado, o calor era de matar e a poeira rapidamente incomodava os pulmões. Comecei a tossir, entrando no mercado, dirigindo-me a um grupo de cabanas maltrapilhas. Comecei a suar assim que deixei o meu terreno. Com certeza eu parecia uma besta selvagem perigosa quando chutei a porta de uma das cabanas e encontrei dois homens, que eu conhecia, curvados sobre a minha roupa suja. Estava tudo esparramado sob uma mesa e eles fuçavam, enojados com a sujeira e o cheiro.

"Ei, Duo!" um deles chamou como se fossemos velhos amigos, "olha só o que aquele sanguessuga vagabundo deixou na lavanderia. Estávamos pra te levar de volta... só queríamos nos certificar de que era tudo seu mesmo..."

Senti-me insultado. Ele achava de verdade que eu era estúpido a ESSE ponto?

"Tenho créditos na lavanderia," rosnei, "Então pode parar de procurar por dinheiro nos bolsos."

O mais alto parecia tenso. Como um rato encurralado, eu sabia que ele lutaria caso se sentisse ameaçado. O pequeno gordinho era mais esperto, já recuava para a outra saída, tentando se esconder atrás do companheiro.

Se eu queria esfregar o chão com eles? Sem dúvida! Eles pioraram um dia que já começara ruim. Mas eu não fui nada além de justo. Havia regras em L2, só que não firmadas por lei. Uma delas era 'Sempre tome vantagem dos trouxas.' Wufei se qualificara fácil como um. Não fora como se eles tivessem o roubado em um beco escuro, apenas pegaram o que ele deixara para trás na esperança de encontrar um dinheiro fácil para a cerveja do dia. Eu poderia até conseguir recuperar as roupas... eventualmente... Tudo bem, era otimismo, mas eu não queria brigar por causa disso. Decidi relaxar e suspirei.

"Só me devolva essas porcarias..."

O alto eu conhecia por cometer diversos furtos. Era peixe pequeno, inofensivo, mas disposto a lutar se precisasse. Se ele não o fizesse, estaria tudo bem. Ele foi rápido em colocar um sorriso no rosto.

"Claaaaro! Sem problemas, Duo!" Começou a enfiar as minhas roupas de volta no saco. Vi cueca que não era minha e tive um pensamento solto, imaginando se era de Wufei. Estremeci. Realmente não queria que as roupas íntimas dele se misturassem com as minhas.

"Joga pra cá," comandei. O alto atirou o saco e o peguei, jogando por cima do ombro, mantendo as mãos livres. O baixinho e gordinho piscou para mim, esperançoso de que sairia livre dessa. Esquadrinhei-os. "Vocês sabem quem eu sou de verdade ou só me conhecem por nome?"

Trocaram olhares. "Huh..." o alto engoliu em seco e balbuciou, "Piloto Gundam, né?"

"Eu sei que vocês ignoraram isso porque eu pareço um cara tão legal," comecei, "Mas ninguém se mete com as minhas coisas. Pise nos meus calos ou nos dos meus homens e eu te mostro como é um piloto Gundam quando ele fica puto da cara, entendeu?"

Assentiram em silêncio. Encarei-os com toda força e girei nos calcanhares. Quase caí com uma tábua podre na varanda, tropiquei, recuperei o equilíbrio, arruinando minha saída dramática. Fora de vista, parei e larguei o saco, suspirando de raiva.

"Ordens?" Heero pediu já bem ao meu lado.

Sobressaltei-me e virei para ele. "Para de me assustar!"

Ele sorriu. "Por que você não vai à lavanderia e deixa eu e o Wufei com o trabalho pesado hoje? Pode considerar isso a punição dele."

"Ninguém faz o meu trabalho," reclamei.

"Não é seu, é dele," o cara do meu lado me corrigiu. "Ele é seu empregado, assim como eu." Os olhos azuis analisaram a nossos arredores, encontrando apenas algumas pessoas, mas longe o suficiente para não nos ouvir. Observou fixamente o corte no meu rosto e estremeceu. "Me desculpe por isso."

"Pode ter me ajudado a recuperar as nossas roupas sujas. Me fez parecer maluco," brinquei, tocando o corte gentilmente.

"Precisa de ajuda?" Heero ofereceu com um riso.

Grunhi em resposta, "Só por isso, pode ir trabalhar com o Wufei."

"Contanto que eu te veja mais tarde," seu tom não era implorando, mas esperançoso.

Decidi me fazer de difícil. "Talvez."

"Posso fazer valer a pena," sugeriu, lançando-me um olhar faminto. Seus olhos azuis faiscaram. "Podemos terminar o que começamos."

"Você pode esperar," falei casualmente, jogando o saco no ombro mais uma vez.

"E vou," prometeu.

Olhei para ele. Foda-se todo mundo. Agarrei sua camiseta, puxando-o e dei-lhe um baita beijo. Empurrando igualmente rápido, assenti com a cabeça, uma vez, dei uma piscadela para mostrar que estava perdoado e me retirei. Ouvi-o rir atrás de mim.

Foi legal voltar para a lavanderia, observar a luz vermelha piscar na minha máquina enquanto girava as minhas vestimentas. Era uma das máquinas ao longo de uma fileira e o lugar estava lotado de clientes. Demorei uma hora na fila até chegar a minha vez. Até àquele ponto, eu já estava louco para ir embora. Eu tinha proteção contra roubo, então não me importava em deixar tudo para trás. A proteção consistia em um código com o qual não dava para abrir a máquina de lavar sem. Acha que roubar as roupas de um sucateiro não vale o esforço? Algumas pessoas roubariam o chiclete preso na sola do seu sapato e ainda te venderiam de volta cinquenta por cento mais caro. E também acho que algumas pessoas levam as coisas só pelo prazer... porque podiam... ou por algum trocado para comprar bebida, como aqueles dois inúteis que tratei de pôr no lugar.

Decidi ir para o bar mais próximo. Costumava ser um preferido, na época em que eu... bem, quando eu não me importava tanto comigo mesmo. O lugar era pequeno, tinha aquela atmosfera de ser copo sujo e personalizado. O careca atrás do balcão, numa cena clássica, esfregava um copo com um trapo, e a garçonete era uma garota estereótipo com decote e o cabelo num coque, daquelas que só estava trabalhando para gastar o dinheiro em compras. Um bêbado com um bom papo a levaria para cama, a deixaria com três bebês e uma dívida antes de abandoná-la por pastos mais verdes... Hum, ah é, então, para resumir, era um bar sem nada de especial. À noite, tinha música e meia luz. Durante o dia, era entediante, iluminado e apenas um lugar para as pessoas pararem para pegar uma bebida rápida.

O garçom me conhecia. Senti-me levemente envergonhado. Será que ele sabia das coisas que fiz na ruela atrás do bar, onde era escuro, quieto e particular? Provavelmente. Dificilmente eu fora o primeiro ou mesmo o último a fazer isso. Ele sabia que eu não bebia mais nada alcoólico, exceto por brindes e celebrações. Já que eu não tivera a oportunidade de nenhuma dessas ocasiões, duvidava que ele estivesse tão inteirado assim nos meus novos costumes. Limpou um copo e voltou-se para mim. O homem atrás do balcão não podia me impedir de beber, perderia o emprego, mas era um cara legal e, só pela sua expressão, dava para ver que não aprovava minha presença ali.

"Uma cerveja sem álcool," pedi, sentando-me num dos bancos. Rangeu mesmo sob o meu pouco peso.

"Tenho refrigerante," ofereceu com uma cara de poucos amigos. "Nos fundos. Está gelado."

Sorri e coloquei a mão no balcão, brincando com as gotículas de água com um dedo. "Não! Quero o gosto de algo verde, sintético e químico num copo gelado."

O homem desaprovou. "Vai deformar os seus genes."

Eu sorri novamente. "Ah, mas não vou ter filhos, então não tenho com o que me preocupar."

Isso me rendeu um sorriso e ele finalmente pegou uma caneca e colocou uma garrafa de algo esverdeado na minha frente. Aquele líquido era livremente chamado de 'cerveja', mas dava para fingir. Às vezes, a atmosfera e o ritual eram mais importantes, não o efeito da bebida e o gosto.

Servi-me e tomei um lento gole apreciativo. O garçom continuou me observando. Limpei a boca e suspirei satisfeito. "É! Um lixo!"

Ele riu e se afastou para fazer outras coisas, o que me deixou com outros dois clientes e a garçonete. Eu já conhecia o bêbado, figurinha carimbada, sempre se sentava no canto, com uma bebida forte e parecendo prestes a cair duro no chão. Era bom ter alguém assim para te lembrar até onde se pode chegar. O outro eu não conhecia; ele olhou para mim e desviou o rosto. Não me lembrava de tê-lo visto quando cheguei, deve ter entrado depois. Estava discreto, com uma camisa simples e calça casual. Dava para ver que era da cidade... embora fosse mais um sexto sentido do que qualquer outra coisa. Ele tinha aquela aura de nervosismo de pessoas 'bem de vida' passando por uma favela. Lembrava-me daquele homem que veio me encontrar no meu terreno querendo que eu conhecesse o chefe dele. Não dá para sobreviver sendo um garoto de rua e um soldado sem estar alerta. Meus sentidos se arrepiaram.

Não deixei transparecer minha suspeita. Continuei relaxado, apoiando o cotovelo no balcão enquanto bebericava da caneca, terminando minha vistoria dos arredores. A garçonete fez contato visual e se aproximou. Abriu um sorriso simpático e tentei lembrar o nome dela. Candy.

"Ei, Candy," cumprimentei.

"Duo," ela respondeu marcando algum pedido em sua caderneta e guardou alguns trocados no bolso. Ousei adicionar mais uns trocados de minha parte no bolso dela. A moça sorriu, um pouco confusa, mas grata. Era uma ação que poderia ter significados ambíguos. Com a aceitação dela, poderia descobrir o quanto ela gostava de mim e o tipo de informação que poderia arrancar dela. Quando se inclinou para frente para analisar o corte no meu rosto, seus seios ficaram na minha linha de visão por causa do seu decote. Acho que ela gostava de mim mais do que eu esperava.

"ELE fez isso?" ela perguntou ultrajada.

A garçonete falava de Heero. Descontei Wufei assim que vi seus mamilos e sabia que o próximo passo seria se insinuar entre eu e meu 'amante abusivo'. Infelizmente, não me decepcionei.

"Você deveria se livrar daquele traste e daquele filho da puta arrogante do primo dele," ela rosnou, pegando um pano, sabe-se lá sujo de quê, e limpou o meu corte. "Precisa de alguém que cuide de você. Você é um homem bom. Gentil. Ninguém deveria te machucar assim."

Depois veio o chavão 'Eu nunca te machucaria,' seguido por 'Por que não me liga e conversamos um pouco mais? Aqui está o meu número.' Vi sua mão começar a rabiscar o telefone, por isso a interrompi rapidamente.

"Então... você sabe o que está acontecendo?" perguntei.

"Quem não sabe?!" Ela exclamou e colocou a mão sobre a boca, envergonhada. "Oh, desculpe! Você provavelmente não queria ouvir isso." Bateu de leve no meu ombro. "Está tudo bem. As pessoas não tem nada melhor para fazer do que fofocar e você é um de nós. Nos preocupamos com você."

Até parece! Pensei. Talvez alguns, mas a maioria só procurava pelo ponto fraco para destruir a mim e ao meu negócio ou para explorar um preço melhor. Coração de ouro era mercadoria rara no mundo sujo de L2. Olhei para a minha cerveja e me endireitei, tentando parecer jovem e desamparado. Perguntei baixinho, "O que estão dizendo?"

Ela sentiu pena de mim. Respondeu-me, relutante, "Oh, só que você não está indo muito bem. Que o único jeito de conseguir ajuda foi abrigando um homem no seu lote e precisa pagar pelo serviço com o seu corpo, e que não tem pulso firme para expulsá-lo junto com o seu parente folgado, porque você não consegue trabalhar sem os dois."

A moça me observou parecendo ansiosa. Esperava não demonstrar estar tão bravo quanto me sentia. Não tinha previsto a parte do 'pagar pelo serviço com o corpo'. "Ótimo," comentei ironicamente.

"Não ligue para eles!" tentou me animar, esgueirando-se ao meu lado. Ela falou num sussurro, deslizando o papel com o número de telefone na minha mão, "Tenho que voltar ao trabalho, mas se precisar de alguém para conversar ou só de um ombro amigo, me liga, 'tá?"

Merda! Deixei ela escapar com essa. Era boa. Guardei o papel no bolso com uma expressão de gratidão. "Obrigado, isso significa muito pra mim... mesmo."

Sorriu, satisfeita com o resultado, e voltou para checar o bêbado. Vi o outro cara me assistindo de canto de olho enquanto eu terminava minha bebida, pagava a conta e saia tranquilamente do bar.

Não me virei para ver se estava sendo seguido. Continuei andando de volta para a lavanderia. Esperei até passar por um vendedor. Sorri para o atendente jovem e loiro. Era um de seis filhos do dono e, se não era meu amigo, ao menos não era inimigo. Achei que poderia confiar nele o suficiente para perguntar, enquanto escolhia uma latinha de refrigerante e um salgado, "Tem um homem atrás de mim, altura média, uns trinta e poucos, moreno, óculos, camisa polo creme, jeans azul claro..."

"Com sapatos de couro sociais, relógio caro, e uma Glock?" terminou, sem sequer olhar.

"Glock?" repeti espantado.

"Ele tem um coldre debaixo de um braço, dá para ver a silhueta," afirmou com um sorriso inocente. "Ele está de olho em você e dá pra ver que é um matador. Melhor correr, sucateiro."

Bufei, ajeitando minha compra nas mãos. "Esse sucateiro não corre de ninguém, sacou?"

"Problema seu," deu de ombros, como se eu fosse louco.

Grunhi e me virei. Andei ainda mais lento, passeando por entre as tendas e conversando com alguns conhecidos. As garotas me chamaram, sorri e só flertei rapidamente. Uma delas me disse que eu virara estraga prazeres desde que arrumara um namorado. Verdade, pensei, embora não estivesse disposto a entrar nos detalhes das partes boas da minha nova relação.

Belisquei o salgado e coletei minhas roupas, agora limpas. Enfiei-as no saco sem dobrá-las e joguei no ombro, marchando de volta para o meu terreno. Havia um trecho logo antes do meu portão que estaria vazio, deixando-me vulnerável. Quando finalmente olhei para trás, pouco antes de alcançar esse trecho e depois de passar pelo mercado, não encontrei mais meu perseguidor. Após um momento de confusão, formei teorias das quais não gostei e xinguei, percebendo que meu tempo de relaxamento fora arruinando pelo homem misterioso.

Tomei uma decisão. Voltei para o mercado, fiz compras e retornei para o terreno. Wufei e Heero trabalhavam lado a lado, quase terminando com uma pilha de sucata. Deixei as coisas que carregava na casa, coloquei o chapéu e me juntei a eles. O chinês chiou algo sobre a minha demora, mas eu estava perdido em pensamento.

No fim do dia, voltei para o meu barracão sem proferir uma palavra. Se Wufei quisesse outra reunião noturna para discutir números, não lhe dei oportunidade para sugerir. Fui embora antes de terminarem de empilhar a última peça. Sentado na minha cama, as ventas no chão abertas, e meus suprimentos ao meu lado. Beberiquei uma bebida gelada e aguardei.

Não precisei esperar muito. Heero bateu, dei-lhe permissão para entrar, e foi o que fez, sentando-se ao meu lado. "Aconteceu alguma coisa?" perguntou. "Você está quieto hoje."

"Heero," comecei, quase irritado. "Tem agentes Preventer fazendo ronda no mercado?"

De imediato, sua expressão se tornou culpada e ele não conseguiu me olhar nos olhos. "Sim," admitiu fracamente.

"Por quê?" questionei. "Um deles estava me seguindo hoje."

"A agência queria que tivéssemos reforços," revelou. "A situação da missão é incomum. O quartel general está nervoso. Eles querem se certificar de que não haverá erros."

"Eu não fui o único a perceber," reclamei, dessa vez mostrando minha irritação. "Eles podem acabar com o nosso disfarce só por estarem perambulando por aí!"

Heero assentiu com a cabeça. "Eu falei isso para a agência, mas fui indeferido."

"Por Wufei?" zombei.

"Ele foi convincente quando sugeriu a vigilância," admitiu.

Fiquei calado, me perguntando se quaisquer erros desses imbecis fanáticos dos Preventers acabariam por me matar. Foquei-me no rosto de Heero, querendo culpa-lo, procurando um alvo para dar uma bronca daquelas... mas sabia que ele não deveria ser o meu alvo. Sabia que ele não merecia esse tratamento de mim. Eu só estava tão cansado de tudo e queria que algo bom saísse desse dia. Ficar com raiva, apontando culpados poderia esperar até eu encarar o Wufei de manhã.

Esvaziei minha sacola na cama entre nós dois. Doces, bolinhos, refrigerantes se espalharam no colchão. Os olhos de Heero se acenderam como eu esperava.

"Aposto que o china não está te dando uma folga, não é?" comentei. "Deve estar comendo tofu e bolas de arroz."

"Por aí," confirmou com uma careta e então sorriu.

Os olhos escurecidos de Heero faziam uma pergunta. Eu respondi inclinando o rosto, meros milímetros, para a direita. Ele me beijou. Depois de tudo que acontecera nesse dia, acho que seria estúpido dizer que um contato tão simples poderia melhorar tudo... mas melhorou. Ele se inclinou no beijo e me encontrei deitado de costas. Entre pirulitos, bolinhos recheados, fizemos amor lento, mas satisfatoriamente. Foi fervoroso, mas... bem, amoroso ao mesmo tempo. Não foi 'a coisa toda', não houve penetração, mas não importava. A sua boca era quente em mim, suas mãos eram firmes e excitantes explorando e me fazendo gemer. Retribui com tanto entusiasmo quanto recebi e o gosto dele gozando na minha língua, o som dele grunhindo no clímax, a sensação dele pulsando na minha mão e seu calor nos meus braços, levou embora todo o meu estresse e preocupação. Quão fácil aquele homem se tornara o meu mundo. O que mais poderia dizer quando nada mais importava quando estávamos juntos, quando eu me sentia tão íntimo e completo com ele? Nem ao mesmo soou piegas quando beijei seu pescoço e murmurei, "Te amo."

Seu suspiro era de alívio e felicidade. Ergui-me sobre ele e derrubei alguns dos doces em seu peito. "Você amassou tudo, você come."

"Essa é a marca da sua bunda, tenho certeza," averiguou com seriedade segurando um rocambole esmagado.

Tomei o doce de sua mão, conformado. "Acho que vamos dividir então."

Enquanto eu abria a embalagem, percebi que ele me observava com uma profundidade de sentimentos quase opressivos. Ele falou, com paixão, "Eu também te amo."

Encarei de volta. Ambos nos avermelhamos no instante seguinte. Era algo que queríamos dizer, sim, mas o que se faz depois de soltar essas palavras? Já tínhamos feito sexo. "Se me amar," deixei meu lado irreverente tomar conta, "vai comer esse rocambole esmagado pela minha bunda e me dar o que se salvou do nosso rala e rola."

A boca do Heero abriu e enfiei o rocambole lá. Vendo-o com as bochechas estufadas tentando mastigar a coisa toda de uma vez quase me fez ter um treco de tanto rir, mas ele levou numa boa e, por fim, conseguiu engolir sem engasgar. O momento embaraçoso passou e voltamos a território seguro. Um dia descobriríamos como proceder com as partes românticas, mas não seria hoje.

Continua...