Lawless Hearts
Por: Kracken
Tradução: Aryam
CORAÇÕES SEM LEI
Parte 21: Solo
"Você está machucado?" Wufei perguntou de repente.
Olhei para ele de soslaio e continuei a puxar Mudhopper da garagem. "Hã?"
"Você está mancando," Wufei comentou franzindo o cenho.
Eu não ia sair tagarelando por aí sobre minhas aventuras sexuais. "Devo ter estirado um músculo," respondi grunhindo de esforço.
"Então talvez seja melhor não piorar sua condição com esse projeto," ele sugeriu com um tom crítico.
Por um lado, eu estava surpreso por ele se importar tanto; por outro, fique puto por ele sentir necessidade de vir me dar sermão. Antes de disparar que eu sabia o que estava fazendo, Heero apareceu e ofereceu ajuda. Ele segurou a Mudhopper, respirou fundo e puxou. Ela deslizou pelo chão como se não pesasse nada.
Bufei, sentindo-me um fracote. "Heero Yuy, O Trator."
Ele riu. "Quer ajuda para consertá-la?"
Virei-me para Wufei. "Vocês dois não tem trabalho dos Preventer pra fazer?"
O chinês ergueu uma sobrancelha e respondeu: "Vou sair para conversar com outros agentes. Precisamos trazer contrabando para o seu lote e chamar a atenção do alvo."
Franzi o cenho. "E se o seu alvo achar que sou peixe pequeno e me denunciar?"
"Existe a possibilidade... mas é pequena," respondeu. "Ele é muito oportunista."
"E inteligente," rebati, não gostando da confiança dele. Tanto um como o outro me encararam com curiosidade, e percebi que estava me entregando. "Quero dizer," tentei me salvar, "se ele é um fodão em L2, então ele deve ser inteligente. Não se chega tão alto e continua nessa posição sendo idiota e cometendo erros."
"Eles estavam a salvo sob o comando da Romefeller," Heero ressaltou. "L2 sempre foi autônoma, quase uma ditadura, considerando como o governo era corrupto e como eles se mantinham no poder. Agora, com um novo governo e novas leis na Terra e no Espaço, é hora de pará-los, de fazê-los cumprir pena pela corrupção."
Pensei no que ele disse, tentando imaginar L2 livre e sob um governo eleito democraticamente. Era muito difícil de imaginar e não consegui evitar meu cinismo. "Às vezes, quando você tenta pisar numa cobra, ela te morde na bunda," murmurei. Eu tinha quase certeza que a cobra sendo caçada por eles era a mesma interessada em mim. Sabia que ele não seria derrotado facilmente... se fosse.
"Vai vender essa máquina?" Wufei perguntou, mudando de assunto como se não me dissesse respeito ou, talvez, ele não achasse que eu deveria ser parte da operação.
"Não," Heero respondeu por mim. "Pode ser consertada."
Olhando para a armação torta e a roda virada para o alto, fiquei surpreso com a convicção dele.
"Vocês deveriam estar trabalhando," Wufei desaprovou.
"No quê?" perguntei ácido, curvando-me para ver o motor. "Não tenho nada para fazer até aparecer alguém para vender sucata ou comprar."
Talvez ele achasse que eu saia de porta em porta, fazia mil ligações, apertava mãos e tentava fechar acordos... Tá bom, se eu estivesse vendendo uma nave ou um cachorro ou... Sucata era uma mercadoria diferente. Wufei grunhiu, trocou um olhar com Heero e se retirou.
"Te machuquei?" Heero perguntou assim que Wufei saiu do nosso campo de visão.
"Está ardendo, mas perdi minha virgindade. Isso é normal, não é?" grunhi, colocando uma chave-inglesa numa fenda para tentar erguer a peça. O motor tinha que sair de qualquer jeito.
"Virgindade," Heero repetiu, agachando-se para começar a trabalhar. Pude ouvir a calidez em sua voz. "Estou ficando excitado de novo."
Encarei-o com severidade e o encontrei olhando para mim amorosamente por uma parte exposta da armação. Corei e grunhi. "Minha bunda está fora dos limites até parar de doer, Yuy. Vai tirando o cavalinho da chuva!"
"Vou ser melhor da próxima vez," prometeu soando preocupado de novo.
Aquilo me fez pensar. Parei e me agachei com a chave-inglesa em uma mão. Precisava perguntar. "Heero, você me falou que sempre dormiu sozinho... você quis dizer sozinho mesmo? Quero dizer..."
Heero pareceu desconfortável e, de repente, mal-humorado.
Semicerrei os olhos. Homens não gostam de admitir coisas assim, mas eu precisava muito saber. "Você... é virgem..." falei devagar, mal acreditando.
Heero corou furiosamente e se irritou. "Se quer minha ajuda para arrumar essa porcaria, é melhor a gente começar!"
"Nada disso, sem discussão, sem distrações, sr. Irritadinho," falei com firmeza. Cheguei perto dele e, já que ele também estava agachado, ficamos cara a cara. Podia quase sentir o calor da vergonha emanar dele. Senti pena, mas eu conseguiria minha resposta. "Como não ficou maluco?"
Heero piscou para mim e falou, sabendo que tinha de confessar: "Eu estava confuso sobre o que queria. Eu continuava... tentando..."
Meus olhos se arregalaram quando compreendi. "Você tentou com garotas... e continuou tentando, não foi?"
Ele deu de ombros. "Sim... não que alguma coisa tenha... acontecido."
"Porque você é gay," completei. Ele assentiu. Eu ri. Ele fez uma careta. Tentei melhorar a situação. Acalmei-me o suficiente para dizer: "Bom, tirando umas masturbações mútuas, não fiz nada também... então... acho que fomos o primeiro um do outro." Apertei a cintura dele. "Ou seremos quando eu tiver a chance de ser o piloto."
Ele se inclinou e me beijou com vontade, mas eu o empurrei no segundo seguinte, rindo enquanto me virava para a Mudhopper. "Agora não! Mudhopper precisa da gente. Para de pensar no que você tem entre as pernas e pega uma chave-inglesa."
"Na verdade, eu estava pensando no que você tem entre as pernas," Heero respondeu e remexeu a caixa de ferramentas.
Trabalhamos lado a lado e tinha um quê de tranquilidade nisso. É claro que Mudhopper não foi consertada, mas não parecia uma causa perdida quando decidimos parar algumas horas depois.
"Cliente," Heero anunciou ao olhar por cima do meu ombro e apontou para o portão.
Virei-me e vi um conhecido. Sorri e corri até ele, limpando as mãos nas calças antes de estender uma para ser apertada. "Ben! Há quanto tempo!"
Ele sorriu de volta, o sorriso de um gato analisando um rato. Os olhos dele esquadrinharam meu lote. "Mais limpo do que da última vez."
"Arranjei uns ajudantes," falei.
Ele era um homem grandalhão usando macacão e uma regata suja. Ele parecia que levantava caminhões como profissão. O cabelo preto bagunçado dele me fez pensar em ursos.
"Ouvi falar," comentou conciso, e aquilo dizia muito com tão poucas palavras.
"Ah é?" Dei uma de João-sem-braço.
"Talvez a gente possa fazer um acordo bom para nós dois?" Ben não pisava em ovos. Pelo menos ele sacaneava as pessoas na cara delas e não pelas costas.
De repente, Wufei apareceu atrás do homem. Ele estava muito sério. Ele assentiu uma vez com a cabeça, querendo dizer, eu acho, que eu deveria parecer desesperado e fazer o acordo. Tudo bem, acho que posso ser convincente interpretando eu mesmo.
"As coisas não andam fáceis," falei para Ben. "O babaca do lote ao lado está roubando meus clientes e minhas entregas. Se estiver a fim de comprar sucata, posso oferecer um bom preço."
"Muito bom," Ben falou com uma risada gutural, como um motor falho sendo ligado. Ele se inclinou para mim... como uma montanha com mau hálito. "É melhor entrarmos, fazer isso em particular."
Oooooora... eu fazia os acordos no lote. Quem quisesse diferente... me fazia querer puxar uma arma ou chamar a polícia. Nem sempre fui confiável. Eu passei a perna em algumas pessoas... pessoas que mereceram, claro, mas mesmo assim... Eu sabia que tinha inimigos. Não sabia se o Ben era um, mas não me daria a chance de descobrir de um jeito ou de outro.
"Então, Ben..." Esfreguei minha nuca e estava prestes a explicar: Toda a sucata está aqui fora... quando vi Wufei fazer uma careta e gesticular para o meu barraco. Ele queria que eu fosse na onda. Eu quase estraguei seu disfarce, quase o mandei cuidar da própria vida, mas aí ele apontou para si mesmo e para outro ponto onde, imaginei, estava Heero de prontidão. Entendi. Eles estavam me vigiando. Reavaliei a situação.
"Acho que está quente aqui fora. Entra." Fiz um sinal para Ben me seguir e o guiei para o meu barraco. Entrei e deixei a porta aberta. Ben não protestou. Era um bom sinal.
Sentei-me à minha mesa, apenas para manter espaço entre nós dois. Ben inclinou-se sobre a mesa, apoiando-se sobre os punhos. Pensei em gorilas enquanto ele dizia: "Preciso de válvulas para coletores, vinte e cinco".
Sentei. Essas peças valiam um bom dinheiro e eu as tinha, mas não em perfeitas condições. "Eu tenho algumas com ferrugem, outras meio queimadas, mas funcionam," respondi.
"Aceitável," ele grunhiu e se inclinou mais, olhos intensos. "200 créditos cada."
Pisquei e ri. "200? Você quis dizer 600."
"Com ferrugem? Você está bêbado!" Ben grunhiu. "250."
"Estou totalmente sóbrio," respondi e o encarei. "550."
"Bêbado e louco!" ele rosnou e se inclinou tão perto que choveu cuspe em mim. "300."
"Não tão louco quanto você!" rosnei de volta, limpando meu roso com nojo. "500."
Ele me fuzilou com o olhar, narinas se abrindo, arfando como um fole de ferreiro. Uma veia saltou em sua têmpora. "350."
Eu o encarei. Ele encarou de volta. "450 e ponto final."
"450?" Os olhos escuros deles pareciam que tinham a capacidade de matar. "450..." repetiu. "450..." De repente, aqueles olhos me analisaram de cima a baixo. Eu conhecia aquele olhar. Não se vive com soldados e rebeldes, a maioria homens, sem ver aquele olhar algumas vezes. Aquele olhar tinha uma nova dimensão nele, uma que me deu a impressão de que ele diria o que veio a seguir desde o início dessa conversa, que ele queria privacidade apenas para aquela próxima oferta.
Assim que ele disse, no momento seguinte eu estava sobre a mesa e jogando todo o meu peso no meu punho como se minha vida dependesse daquilo. Acertei-o bem no queixo. A cabeça dele virou de uma vez e ele voou para trás pela porta aberta. Eu podia até não estar mais malhando, mas ainda era um homem que podia pilotar um Gundam, o que exigia uma fisiologia espetacular.
Corri atrás do Ben. Ele estava caído de costas na varanda, mão no queixo. Heero estava ali, pronto, e Wufei também. Eu era um trouxa por achar que poderia confiar em alguém para me apoiar, por deixar alguém me convencer a me colocar numa situação que eu sabia ser arriscada. Eu sempre me cuidei sozinho. Hoje não foi diferente, eu sabia lidar com escrotos como o Ben. Agarrei o dito cujo pela regata e gritei na cara dele: "450 ou dá o fora, porra!"
Ele virou a cabeça para o lado e cuspiu sangue, depois olhou para mim e grunhiu, sentando-se. Soltei-o e me afastei. "Pelo jeito, alguns dos rumores estavam errados."
"Do que você está falando, caralho?" perguntei.
"Disseram que você estava pagando por certas coisas na cama." Ele abriu um sorriso zombeteiro para os meus ajudantes. "Ou... talvez eu não seja o seu tipo."
Minha mão fechou em punho de novo e ele estremeceu. "450," repeti. "Ou cai FORA!"
"450," Ben concordou. "Feito." Então abriu aquele sorriso zombeteiro para mim. "Pelo menos estavam certos sobre você estar desesperado."
Senti como se um vulcão tivesse entrado em erupção dentro de mim. Fiquei orgulhoso por não encher ele de porrada. Ele podia falar merda o quando quisesse contanto que transferisse a porcaria dos créditos. Ofeguei e tremi, me contendo, enquanto Ben se levantava e digitava sua senha no tablet que o chinês o ofereceu. Ele olhou para Wufei e lambeu os lábios, então olhou para Heero e encontrou o olhar de um assassino. Ele ensaiou o que ia falar e, enquanto batia em retirada para onde estava seu veículo, falou: "Esses caras não são sucateiros nem a pau..."
Soltei fumaça pelas orelhas e falei contido: "Pega as 25 válvulas pro pervertido."
Aproximando-se de mim, Heero perguntou: "O que ele fez?"
"Ele queria uns benefícios extras além das peças, só isso," resmunguei. "Bom saber que agora tenho a reputação de ser uma puta. Muito obrigado!" Entrei e bati a porta, tranquei-a e passei o dia me remoendo.
Heero era inteligente. Ele esperou até o anoitecer, quando a temperatura havia esfriado e meu temperamento também. Quando a batida soou na porta, eu estava pronto para, pelo menos, encará-lo. Embora eu não soubesse o que iria dizer.
Heero era uma sombra resoluta sob a luzes quando abri a porta. Os purificadores foram ligados e esperamos, encarando um ao outro. Dessa vez, pareceu durar para sempre até se recolherem e deixarem o lugar em silêncio.
"Wufei retornou a salvo," ele começou.
"Ah é?" Eu não colaborei.
"Duo," Heero falou, soando angustiado. "Não foi nossa intenção que nada disso acontecesse com você."
"Talvez eu me daria melhor se tivesse sido preso," grunhi, cruzando os braços e o encarando com raiva. "Aí eu poderia ter alguma reputação depois de sair."
"Você não parece muito bem," ele respondeu, como se estivesse mudando de assunto.
"Perder tudo pelo que se trabalhou para conquistar te deixa meio mal," respondi. Saí do batente da porta e fui para o quarto, não me importando se ele estava me seguindo ou não. Sentei na cama, olhando para o nada, mãos jogadas entre os joelhos. Eu queria fumar. Queria alguma coisa alcóolica para beber. Queria alguma coisa para aliviar o estresse. Entretanto, falei a mim mesmo que não faria nada disso, da mesma forma que falei a mim mesmo que não enfiaria um soco na cara do Heero.
O agente se sentou no chão. Ele se inclinou para pegar o café, puxou as etiquetas e me entregou um. Fumegou no ar frio enquanto eu segurava o copo com as duas mãos. "Eu ia vir aqui de qualquer jeito," Heero falou como se estivesse escolhendo com cuidado as palavras, "mas Wufei queria que eu te perguntasse uma coisa."
Sob o esconderijo da minha longa franja, observei Heero remexendo o copo de café. Eu só queria que ele fosse embora. Mentalmente, eu estava tentando roer minha perna presa na armadilha de urso que Heero e Wufei armaram para mim. Eu não tinha nenhuma solução, nada que me tirasse dessa situação, então agora me sentia deprimido. Queria me enrolar na cama e me esconder debaixo da coberta. Queria esquecer da minha vida de merda, da sucata, dos créditos, do Ben, e todo mundo em L2 que achava que Duo Maxwell dava a bunda para conseguir manter seu negócio.
Sabia que precisava dizer alguma coisa. Eu amava Heero. Poderia recuperar isso, pelo menos manter esse relacionamento, mas tudo isso só me fez pensar o quanto ele não precisava de mim, o quanto eu precisava muito mais dele. Aqui estava eu, um completo perdedor; e lá estava ele, um agente de elite dos Preventer. Ele não largaria tudo para vender ferro-velho e eu não... Parei essa trilha de pensamento. Eu já estava triste demais. Meu relacionamento com Heero não precisava de mais motivos para falhar, já tinha demais.
"E aí, o que o sr. Chang Wufei quer perguntar?" resmunguei depois de me conter em dizer coisas piores.
As mãos de Heero ficaram tensas ao redor do copo de café. "Ele quer saber... por que nosso alvo já te conhece."
Eu não estava me sentindo enjoado antes, mas agora sim. Sei que o sangue fugiu do meu rosto. Como eu podia saber que Chang não tinha ido se encontrar com outros agentes Preventer, que ele tinha ido se encontrar com o alvo?
"Posso explicar," falei por impulso, enfim erguendo o rosto, já prevendo a sensação das algemas ao redor dos meus pulsos.
Heero soou totalmente confiante quando respondeu: "Eu sei que pode".
Eu me senti um merda quando contei: "Ele enviou alguém aqui. Eu recusei a oferta de trabalho dele. Às vezes aparece gente que quer ter um piloto Gundam à disposição".
"Você suspeitou que ele era nosso alvo?" perguntou.
"Sim... talvez..." Beberiquei meu café, tentando me recompor. "Era possível, acho, mas... eu te falei... não vou entregar qualquer um para vocês sem que eles mereçam."
"É por isso que você estava fuçando no computador do Wufei?" Heero questionou. "Para descobrir?"
"Ora, sr. Policial, isso seria ilegal," falei sarcástico, mas não era engraçado, e ele não riu.
"E então, alguma conclusão?" Heero quis saber.
"Provavelmente ele é o alvo de vocês... mas não tenho certeza. Ainda não vou confirmar até eu ter certeza." Fiz uma careta e falei nervoso: "Não é como se vocês confiassem em mim! Não me mostraram nada de ninguém. Eu sei a minha parte, mas não sei a de vocês."
Heero tirou o computador do bolso e o ligou. Digitou com precisão e virou a tela para eu poder ver. "Este é o homem que procuramos."
Com apenas uma olhada, percebi que era a mesma informação que eu havia hackeado. "Tá, este é o cara. E?"
"E o resto é confidencial." Heero me respondeu. "Podemos ter só essa oportunidade para pegar este homem antes de ele cometer um crime muito maior."
"Vender contrabando para a fabricação de mobile suit?" resumi. Heero piscou chocado. "Acertei, não é? Armas mais robôs é igual a doce de terrorista, e eles pagam muito pra conseguir."
"Pilotos Gundam também," ele ressaltou.
"Pilotos Gundam, armas e têm conexões com empresas," acrescentei. "Garanto que ele não queria comprar válvulas e uma foto do meu traseiro."
Heero quase destruiu seu copo de café, entendendo minha referência ao Ben. "Quero matar aquele desgraçado!" rosnou de um jeito que me fez querer me mudar para a China ou derreter por saber o quanto ele se importava. "Se eu tivesse escutado o que ele te falou..."
Rosnei de volta: "Também tenho um pinto, sabia? Eu sei me cuidar."
Ele fechou o computador e o guardou, tentando controlar as próprias emoções. Falou, mais calmo: "Agora que Wufei sabe que nosso alvo está interessado em mais do que contrabando, ele quer que você aceite a oferta e seja nosso contato disfarçado."
"Razoável."
"Falei pra ele que não," ele continuou como se eu não tivesse dito nada. "Vou entrar em contato com o alvo e oferecer meus serviços. Vou ser o agente disfarçado."
Bufei. "Ele não vai acreditar em você e eu não preciso de proteção, Yuy!"
"Arruinamos o seu negócio, bagunçamos sua vida," Heero falou. Ele estava se debatendo com fortes emoções. "Falei para Wufei que essa operação passou do ponto de tentar vender sucata. Não precisamos mais de você. Mudamos de plano."
"Esse cara não vai cair na sua," repeti, mas dei de ombros e coloquei meu café de lado. A exaustão estava me deixando idiota. Precisava dormir antes de digerir tudo, minha raiva, minha depressão, essa reviravolta que tornava tudo o que aconteceu comigo uma grande perda de tempo. Eu estava... não conseguia nem descrever como me sentia ou como eu queria encontrar uma bela corda firme e um lugar bacana para me enforcar... ou enforcar todo mundo.
Acho que fiquei anestesiado. Talvez estivesse tendo um colapso nervoso? Só sei que me deu branco e... eu não me importava, não queria pensar. Consegui dizer: "Não quero ter essa conversa agora. Mais tarde. Espera eu acordar para tomar qualquer decisão. Você é um peixinho de aquário. Ele é um tubarão. Você vai ser sushi." Fiquei surpreso em perceber que ainda pensava na segurança dele.
"Duo." Heero queria falar alguma coisa, tenho certeza, mas o que sobrara para ser dito? Desculpe por arruinar o resto da sua vida. Desculpe por ter feito picadinho dos seus sonhos. Desculpe por você ter que sair de L2, arranjar mais créditos e achar outro lugar onde não te conheçam. Desculpe por termos cometido um erro, ele quer pilotos Gundam e não sucateiros.
"Eu vou, porra!" exclamei, de repente, num último surto de emoção. Entrou em erupção do meu estômago dolorido, mal reconheci minha voz rouca quando caí na cama e virei para encarar a parede. "Vou ser o dedo-duro! Vou ser a sua puta disfarçada! Não vou deixar que toda essa merda tenha sido em vão! Fala pro Wufei que vou entregar esse cara de bandeja."
O lado de Heero ficou em silêncio. Fechei meus olhos com força, sentindo-me como se meu peito fosse implodir com a dor de... ser completo e totalmente fodido. Percebi que cada pensamento tinha um palavrão agora, mas era apropriado para caralho.
Heero não respondeu. Ele era esperto. Não discutiria com alguém no humor em que eu estava, não alguém perigoso como eu podia ser. Em vez disso, ele continuou sentado, quieto, talvez pensando no nosso fim, que ele teria jogado a última pá de terra no caixão do nosso relacionamento. Talvez ele tivesse mesmo. Eu não sabia. Não queria saber. Queria dormir como se entrasse em coma e ainda bem que não precisei de nenhum remédio ou bebida para conseguir isso. Pelo menos, ainda tinha essa dignidade.
Continua...
