Capítulo Dois
Eram pouco mais de duas e quinze da manhã quando Camila finalmente chegou ao quarto de hotel em que estava hospedada. Fechando a porta atrás de si com cuidado, procurando fazer o menor barulho possível, retirou as sandálias de salto e caminhou descalça até o banheiro, não precisando ligar nenhuma das luzes durante o percurso.
Quando se encontrou no silêncio do cômodo de azulejos brancos, ligou a luz, evitando observar a si mesma refletida no espelho. Foi até a pia, lavou o rosto com água corrente e em seguida removeu a maquiagem, procurando bloquear qualquer pensamento que pudesse ter, qualquer imagem que pudesse derrubá-la.
Ergueu o rosto, notando que já não mais possuía lábios carnudos e vermelhos e sedosos cabelos loiros. Olhos verdes – verde, não violeta, assegurou-se - a fitaram por eternos segundos, e ela suspirou por fim, cansada. Bom, era bom ver a si mesmo, pensou. Pelo menos, assim era capaz de manter em sua cabeça que tudo aquilo estava acontecendo com outra mulher, e não ela.
Entraria em pânico caso reconhecesse que a imagem refletida da sedutora loura, que permitia e fingia adorar os sussurros de um monstro em seu ouvido – sussurros esses, que ela jamais repetiria a alguém, nem sob tortura -, estava relacionado a ela.
Escovou os dentes, lavou o rosto mais uma vez. Tateou, de olhos fechados, em busca da toalha azul de rosto e, após secar a face no mesmo, encarou-se.
Seus olhos focaram nos azuis do homem atrás de si.
Camila enrijeceu, fechando os olhos e levando as duas mãos ao peito, murmurando um palavrão. Mark apenas continuou atrás dela, os braços cruzados, estudando-a.
- Desculpe se a assustei. – murmurou, mas não parecia realmente sincero. Ela se virou, já recuperada do susto.
- Pensei que estivesse dormindo.
- Não estava.
- Está tudo escuro -.
- Não estava dormindo. – ele a cortou.
Franziu o cenho com a resposta abrupta e seca dele, mas decidiu ignorar qualquer briga que pudesse começar – estava cansada, tão cansada. Tudo o que queria era simplesmente deitar em sua cama e acreditar que nada daquilo estava realmente acontecendo. Queria acordar e ver que tudo não havia passado de um pesadelo.
Encolheu os ombros, por fim, virando as costas e estendendo a toalha de rosto.
- Deveria então ter um pouco mais de educação, ao invés de ficar invadindo o banheiro comigo dentro. Eu poderia estar, sei lá... Você sabe. – murmurou.
- Você não estaria despida. Sua roupa está sobre a cama. – ele pontuou tediosamente, colocando as mãos no bolso do jeans, continuando em seu caminho entre o banheiro e o quarto. Pelo reflexo do espelho, Camila percebeu que ele não usava mais as roupas enormes e de grife de Antônio Cruz, mas as suas próprias: uma calça e uma camiseta que obviamente já tiveram dias melhores.
Assim como o bom humor dele, ela pensou, franzindo uma sobrancelha.
- Que seja. Privacidade é bom do mesmo jeito. – reclamou em voz baixa, mas seu tom deixava claro que, naquela noite, ela realmente não estava com ânimo para se envolver em qualquer briga tola com Mark. Desvencilhando-se dele, saiu do banheiro, ligando agora a luz do quarto de hotel, caminhando em direção às peças de roupa – sua roupa, não a de Vitória – que havia separado antes de sair, deixando-as sobre sua cama. Segurando o macio tecido entre as mãos – algo sutilmente familiar, que lhe trazia estranha segurança – lançou um olhar breve em direção à pequena mesa redonda que o quarto dispunha, percebendo os inúmeros mapas e as mais variadas pastas espalhadas sobre o mesmo. A cadeira mais próxima da janela estava ligeiramente afastada, como se seu último ocupante tivesse se esquecido de arrumá-la em seu lugar de origem. Piscou, imaginando Mark debruçado sobre aquele monte de papéis, traçando minuciosamente cada passo, colaborando para seus progressos na operação.
Seguindo-a desde o banheiro, Mark havia parado próximo ao armário, praticamente oposto à Camila, e a observava em silêncio. A poção polissuco já havia terminado com seu efeito, mas a maquiagem pesada, as jóias caras e o vestido vermelho de cetim ainda estavam ali. Sua expressão fechou-se em uma carranca.
Toda aquela imagem não combinava com as feições das feições. Não pela primeira vez, questionou-se da escolha de seus superiores, sobre Camila Oliveira ser, realmente, a melhor opção para aquele tipo de missão.
- Preciso que você assine a papelada necessária para manter o corpo aqui, por favor. – Pedro pediu gentilmente, sorrindo caloroso, quase fraternal, para Helena, enquanto a mesma prendia os cabelos castanhos em um rabo de cavalo, acreditando que já iria realizar alguma incisão em alguém. Ao escutar o pedido, deixou o cabelo cair por sobre os ombros, suspirando.
- Sério? – perguntou num muxoxo. Pedro riu.
- Eu sei, eu sei. Também sinto falta dos auxiliares. – disse bem humorado, desviando seus olhos do cadáver de um homem na faixa de seus trinta anos e encarando o único auxiliar presente, Victor Braga, com ar cúmplice - Desculpe por incomodá-la com isso. – comentou, dirigindo-se à Helena, que estava por trás do vidro da sala de autopsia, em uma escrivaninha - Mas Victor também está com as mãos atarefadas, se é que me entende.
- Não, tudo bem. – Helena o dispensou tranquilamente, pegando a papelada entre as mãos e a lendo – Começo a respeitar os auxiliares, residentes e secretárias. – murmurou, franzindo o cenho em seguida. Pedro assentiu.
- Se tem algo que terei quando o governo tornar a liberar vagas para concursos, será educação e profundo respeito por todos os novatos e pela manutenção da ordem em geral. – ele brincou, tornando seus olhos castanhos para o corpo.
- E profundo desgosto para Carla e Miguel. – Helena retrucou, assinando o formulário, referindo-se aos outros dois legistas – Por que diabos eles foram reclamar dessas férias justo agora? É quase como se não percebessem a defasagem que sofremos nos últimos meses -.
- Eles sabiam que Richard lhes daria as benditas. – Pedro respondeu, encolhendo os ombros – Se pedissem enquanto Camila estivesse aqui, saberiam que não receberiam, a menos que o Departamento estivesse na obrigação de dar férias aos subordinados... Você sabe, aquela lei que diz sobre obrigatoriedade de férias em determinado período - o que não era o caso, aliás.
- Richard é idiota. – Helena reclamou sob o bufo, baixinho. Pedro riu.
- Ele é apenas bonzinho demais. Não possui tanto punho firme para liderar um Departamento desse tamanho com uma crise dessas em mãos.
É, Helena sabia disso. Richard Cooper, apesar de ser o tipo de macho alfa em operações e até para liderar equipes, era mole demais quando se tratava de liderança do Departamento. Ele parecia não saber administrar muito bem, e acabava concedendo, por exemplo, pedidos de férias em situações cuja presença dos empregados era essencial.
Em seguida, lembrou-se do que havia comentado com suas irmãs, e ruborizou-se. Pigarreando e tossindo levemente, obrigou-se a se concentrar no formulário e deixar de pensar em todos os flashes de lembranças da noite que passara na cama do subdiretor.
- Aliás, viu as ultimas noticias?
A voz era de alguém que dizia um assunto corriqueiro. Helena ergueu o rosto do recibo, mais uma vez, franzindo o cenho para Pedro, questionando:
- Que notícia?
- O caso Rutherford finalmente terminou.
Aquilo a surpreendeu. Falara com Camila há dois dias, e a irmã não havia lhe dado previsão de volta. Estava participando do caso em defesa do diretor americano, atuando praticamente como uma das principais pessoas da defesa. Tanto que, desde o mês anterior, os acontecimentos haviam se tornando tão corridos que Camila fora obrigada a deixar o Departamento nas mãos de Richard e rumar ao Canadá, dizendo que permaneceria ali até que tudo se resolvesse.
Confusa, disse:
- É mesmo? E o que o jornal disse?
- Parece que ele foi inocentado. Tinha umas duas fotos dele saindo da prisão, acompanhado de duas mulheres e aquele diretor antigo dos Estados Unidos – qual era mesmo o nome dele? O sobrenome dele tinha alguma coisa de ave...
Helena não respondeu. Na verdade, mal prestava atenção agora nos devaneios do colega de trabalho. Seus pensamentos focavam-se inteiramente na informação recebida.
Que estranho. Uma notícia assim seria digna de avisos de sua irmã caçula. Apesar de o homem ser um dos diretores do prestigioso DICAT, Helena nunca ouvira falar no tal Rutherford, pelo menos até que Camila acabasse se envolvendo nessa briga no Conselho Geral. Diferentemente dela, a legista acabou descobrindo que a irmã parecia conhecer o homem há praticamente anos. Não especificara como nem desde quando, mas dissera que o conhecia bem o suficiente para lutar na justiça pelos direitos dele. Para Helena, saber aquilo era o suficiente; confiava plenamente no julgamento da irmã em relação às pessoas.
- Bem, isso é bom. – Helena comentou, pegando uma caneta sobre a escrivaninha para assinar os documentos – Camila deve estar orgulhosa. Estava lutando por isso, afinal.
- Não sei, não. – Pedro retorquiu com descrença – O jornal também informava outras partes do resultado. Parece que Rutherford está no olho da rua.
Ela o encarou, confusa.
- O que quer dizer com isso?
- Ah, você sabe. O cara do Conselho Geral – Brosseau, acho - acabou por tirá-lo da diretoria e do DICAT. Não sei exatamente o motivo, li o artigo muito por cima. Era difícil se concentrar com uma trouxa ao meu lado no metrô quase se jogando em cima de mim para descobrir se as figuras realmente se mexiam ou se era impressão de ótica como uma nova artimanha jornalística.
Bem, Helena agora compreendia o provável motivo para Camila não ter dito nada. Conhecendo a irmã, ela deveria estar uma pilha de nervos. Imaginou se ela já estaria se culpando pelo afastamento do homem do poder.
A porta da sala de autopsia se abriu, e Helena, que estava encostada à escrivaninha, quase escorregou quando avistou Richard Cooper vestindo avental cirúrgico, máscara, luvas e protetores para os pés invadiu o local, olhando curiosamente para Pedro Albuquerque.
Ele não havia percebido que ela, que tentava fugir de suas vistas há três dias, estava na sala ao lado, com os papéis espalhados no chão e uma careta surpresa e assustada em suas feições.
- Ai, droga. – ela murmurou, com a voz estrangulada.
- Albuquerque, quando é que você vai começar a autopsia? – inquiriu, com aquele seu ar petulante e exigente, sempre pertencente não a um líder, mas a um garoto impaciente e extremamente curioso.
- Você quer dizer sobre a garota? – Pedro questionou, erguendo uma sobrancelha – Porque, eu não sei se você percebeu, mas eu estou realizando uma autopsia no exato minuto.
- É, é, eu percebi. – resmungou, dispensando o cadáver. Helena sabia o motivo: além de possuir dificuldades em administrar, Richard parecia não conseguir assistir um corpo sendo aberto. Camila já havia lhe contado que, não uma única vez, já vira o homem se afastar da mesa de autopsia ou procurar alguma cadeira para sentar, tão pálido quanto o morto. Era uma pena que ele jamais tivesse passado mal quando ela era quem assumia a autopsia – adoraria ter lembranças que pudesse rir mais tarde: – Refiro-me à menina encontrada hoje.
- Ah, claro que sim. – o legista respondeu, como se cruelmente divertido pela súbita palidez do subdiretor. Não detestava o homem, apenas achava engraçadas pessoas supostamente fortes, que enfrentavam de tudo, passarem mal com a visão de carne humana; todos eram formados da mesma coisa, afinal – Bem, não sou eu quem vai realizar a autopsia, é Helena.
- Helena? – Richard perguntou, as expressões admitindo nova luz. Helena foi até mesmo capaz de visualizar o canto dos lábios do homem se erguendo, como feliz. Ela grunhiu, ajoelhando-se para recolher os papéis – e também, quem sabe, esconder-se, mas jamais admitiria isso em voz alta.
- Estarei com ela para assistir, obviamente, mas ela será a encarregada pela autopsia.
- Oh, claro, claro. – ele respondeu, procurando soar profissional e sério. Se não estivesse tão aterrorizada e nervosa, Helena teria rido – Falando nela, sabe onde Helena tem estado ultimamente?
Ai, não, ela pensou, desesperada. Não diga nada, Pedro, pelo amor de Deus não diga nada! Eu não estou pronta para isso, Jesus Cristo eu ainda.nã..isso!
- O que você está falando? – Pedro perguntou, confuso. A legista fechou os olhos, como se xingando sua própria falta de sorte – Helena esteve o tempo inteiro -.
- Chefe! – a porta se abriu mais uma vez, revelando a imagem de um homem em seus aparentes quarenta anos. Possuía cabelos grisalhos em excesso – diferentemente da falta de cabelo em Pedro -, e uma cara marcada por rugas de expressão, especialmente na testa. Ficou parado à porta, com a máscara ao rosto. Por não vestir avental e outros apetrechos, não iria entrar na sala esterilizada para não escutar Pedro reclamar – A equipe alfa acabou de retornar. Torres está na sua sala, para reportar.
-Certo. – o Auror resmungou. Após, dirigiu-se ao secretário-geral – Muito obrigado, Eduardo. Já estou a caminho. Importa-se, Pedro?
- Fique à vontade.
- Peça para Helena me avisar sobre o horário da autopsia, tudo bem?
Após a resposta do legista, o Auror saiu da sala. Helena finalmente se levantou, e seus olhos encontraram os admirados de Pedro.
- O que diabos você está fazendo aí? – surpreendeu-se, franzindo o cenho enquanto a legista sorria amarelo, arrumando seu avental branco.
- Oh, não se incomode em perguntar isso. – ela murmurou, envergonhada.
Ginny Weasley inspirou profundamente ao finalmente terminar de ler – e assinar – o formulário enorme requisitado pelo AMI norueguês, autorizando a utilização de um grupo de Aurores britânicos para auxiliar em uma operação relativamente simples. Largando-se de qualquer jeito na confortável cadeira, a Auror fechou os olhos e gemeu baixinho, pensando o quanto detestava aquela parte burocrática do trabalho. Se soubesse o quanto aquilo iria privá-la da real diversão, pensou, talvez jamais tivesse aceitado o cargo de chefe da área internacional quando Mike a nomeou.
Assinar papéis, viver em reuniões – bah. Ginny se tornara Auror para entrar em campo, ajudar efetivamente, não para se tornar a droga de uma executiva.
- Dormindo em horário de serviço? Nunca pensei que viveria o suficiente para ver uma cena dessas.
- Harry?
Ginny abriu os olhos, sorrindo mesmo antes seu olhar que focalizasse a figura de Harry Potter a sua frente, confirmando suas suspeitas. O som irônico e rouco de sua voz foram o suficiente para que os ânimos da mulher reacendessem, e suas expressões iluminavam conforme tomava conhecimento de que seu noivo – a quem estivera fora do país por quase dois meses – retornara.
E parecia ter acabado de chegar. Vestido com jeans e uma regata preta, o homem estava uma bagunça: terra, sujeira, machucados e suor, todos misturados, por toda a figura.
Isso não a preocupou, nem diminuiu seu desejo de abraçá-lo e beijá-lo por um bom tempo, dizendo o quanto sentira sua falta, entre outras fases as quais Harry não conseguiu compreender muito bem. Mesmo consciente da bagunça que estava, e da noção que ainda precisava reportar a Michael Stuart sobre o retorno de seu grupo, Harry retribuiu os abraços e beijos, segurando-a com força em seus braços por fim, satisfeito e subitamente percebendo o quanto sentira falta dela. Envolveu-a, deitando a bochecha nos cheirosos cabelos ruivos de sua noiva, e suspirou, permitindo um leve sorriso em suas feições.
- Deus, como eu senti sua falta. – Ginny murmurou, afastando-se dele o suficiente para que pudesse encará-lo. Harry apenas abriu um largo sorriso, beijando-a de leve nos lábios mais uma vez – Nunca mais deixe Mike lhe dar uma operação dessas, entendeu? Melhor, largue o emprego. Assim você pode ficar todos os dias em casa – em minha casa, no caso. Sua vizinha ainda me dá medo.
Harry riu, torcendo o nariz da noiva levemente, brincalhão, antes de se afastar.
- Pobre senhora Hobbes. Ela é uma velhinha muito simpática... – disse, e riu ainda mais quando a careta de Ginny discordou de sua opinião imediatamente – Mas é. Eu também senti sua falta. – eles se encararam, os olhares suaves e amorosos um para o outro. Sorriram levemente, até que Harry balançou a cabeça, procurando se situar e compreender que ainda estava a serviço – De qualquer modo, por mais que minha vontade seja ficar aqui o dia inteiro ao seu lado, preciso ainda falar com Stuart sobre a operação, você sabe, redigir relatório, reportar, toda aquela... – ele se calou quando viu a expressão de Ginny - ... O que foi, Gin?
Ela cruzou os braços, suspirando. Harry pareceu ainda mais confuso ao perceber a exasperação da mulher.
- Michael. – ela respondeu, parecendo ainda mais exasperada – Olhe, faça essa tal reunião com ele ser a mais rápida possível, entendeu?
- Mas por que ele -.
- Não tenho menor ideia. Ele voltou ontem de viagem, e hoje já está fazendo a vida de todos os Aurores um verdadeiro inferno. Sem contar o quão cretino está a cada frase dita. – murmurou a ultima frase, bufando – De qualquer modo, pegue leve com ele, ok? Conhecendo você, é bem capaz dele acabar mandando-o para outra operação, e só o faça retornar depois de dez anos.
- Oi! O que quer dizer com "conhecendo você"? – perguntou, fingindo ofendido. Ginny o encarou com um olhar que mostrava ser óbvio o motivo até para uma criança de três anos.
- Harry, apenas – simplesmente não o provoque, nem o enfureça ainda mais.
- Tudo bem, tudo bem, eu finjo total obediência ao cara. – deu de ombros, parecendo indiferente, mas olhando nos olhos de Ginny para que ela soubesse que ele estava sendo completamente sincero.
- E vá cuidar desses ferimentos. – ela mandou.
- Farei isso assim que sair da sala de Stuart. – acenando para a noiva, encaminhou-se para a porta do escritório de Ginny quando se virou, como se tivesse lembrado de algo – Quer sair para jantar hoje? Parece que abriu um restaurante interessante próximo a loja dos gêmeos.
Ginny retornou ao seu assento e, ao encarar o noivo, abriu um largo sorriso e, descansando o queixo as duas mãos, disse:
- Claro, depois que você tirar todo esse fedor do corpo.
O olhar esperançoso de Harry dissolveu-se, suas expressões formando uma careta. Com bico, deu as costas, resmungando baixinho:
- ... não parecia tão incomodada com isso quando pulou em cima de mim...
Quando a porta se fechou, Ginny caiu na gargalhada. O sorriso que ficou como vestígio em seu rosto apenas morreu quase vinte minutos mais tarde, quando seu Espelho de Duas Faces projetou a imagem de Sarah Malfoy, que lhe presenteou com noticias que pareciam explicar o comportamento de seu chefe.
- Mamãe ainda está indignada com essa demissão do Mark. – explicou. Ao fundo, Ginny conseguiu escutar gritos e risadas infantis, e imaginou o que os gêmeos poderiam estar aprontando – Quero dizer – Sarah continuou – Eu também fiquei, é claro. Conheço-o praticamente desde criança, ele praticamente cresceu dormindo em casa, e agora -.
- Espere um pouco. – Ginny a interrompeu – Como assim Rutherford foi demitido?
- Caramba Ginny, em que mundo você vive? – a melhor amiga questionou, erguendo uma sobrancelha – O resultado do julgamento saiu ontem, praticamente todos os jornais anunciaram.
- A papelada tem sido um pouco exagerada ultimamente. – a amiga respondeu, dando de ombros – mas então ele foi condenado?
- Não, ele foi inocentado, mas ao mesmo tempo Brosseau o destituiu do cargo. Mas parece que Brosseau armou uma votação, ou alguma coisa do tipo – não que isso tenha sido dito nos jornais. Nathan disse que foi tão óbvio o quanto o cara estava envolvido pessoalmente que até suas decisões foram baseadas em -.
Enquanto a amiga tagarelava, Ginny pensava no furioso comportamento de seu chefe. Faz sentido, ela pensou, que Mike esteja revoltado com esse resultado. Afinal, ele não estava na defesa? Há duas semanas, partira para o Canadá dizendo que daria suporte ao caso – apesar de Ginny ter plena consciência que a única pessoa a quem ele queria dar suporte era a namorada.
É claro, ele ficaria zangado ao saber que dera errado algo que defendia, pensou. Mas por que tanta manifestação? Não é como se Rutherford fosse um grande amigo, ou um grande aliado.
Então por que –
- ... Ele disse que só o olhar dela seria capaz de fazer picadinhos de Mike. E deixou bem claro o quanto concordaria com ela, caso o fizesse.
- Uh – ah – o que?
Sarah a encarou por alguns segundos.
- Ginny, você tem prestado atenção em alguma coisa que eu disse até agora? – o olhar embaraçado da amiga foi o suficiente para lhe responder. Bufou – Mike votou a favor de Brosseau.
Ela piscou.
- Ele foi contra a defesa? – perguntou, confusa – Mas Mike não estava na defesa? Quero dizer, Camila assumiu a defesa, não foi? Como -.
- É isso que estou falando. O voto dele foi praticamente decisivo, e no ultimo instante votou a favor de Brosseau.
Uh-oh. Agora sim os detalhes pareciam se encaixar.
- Nathan disse que Camila parecia pronta para armar um inferno no lugar. – Sarah continuou.
É claro. A Auror detestava perder em qualquer coisa na vida, assim como qualquer bruxo cuidadosamente selecionado para participar do departamento que em pouco tempo viria a substituir todo um grupo de Aurores do Ministério da Magia, Ginny pensou, recordando-se de seu primeiro ano na Academia, em um dia próximo das férias de Natal, quando decidira assistir a aula de duelos da turma do ultimo ano. Ela ainda era capaz de se lembrar de cada detalhe da então veterana Camila Oliveira, estirada ao chão em um campo aberto, parecendo incapaz de se levantar, enquanto seu oponente também jazia, exausto, há alguns metros de distância.
O que havia surpreendido tanto Ginny naquela cena era as tentativas da mulher em se levantar e gritar, afirmando que "ainda não estava acabado", não até que ela vencesse, até que seu oponente desistisse – mas como ela ou o oponente lutariam? A veterana mal conseguia se arrastar...
Ver tamanha garra dos veteranos assustara Ginny, o suficiente para que ela se questionasse se possuía tanto ímpeto quanto qualquer um deles.
Não, pensou, sorrindo ligeiramente nostálgica, eu pensei que não possuísse, que não tinha o que era necessário para ser Auror.
Até, é claro, ser ela a próxima veterana a se arrastar, exigindo sua vitoria, dois anos mais tarde.
- Mas e agora? O que vai acontecer com o Departamento?
- Tudo indica que Nathan vai assumir... Aliás, é por isso que eu sei da maioria dos detalhes. Nathan está furioso com isso, ele não queria o Departamento. Já achava um saco cuidar do serviço secreto, agora ter que pegar um local inteiro -.
- E Rutherford? Até agora, você não disse o que ele acha sobre tudo isso.
Sarah deu de ombros.
- Não falei com ele ainda. Mas, pelo que Nathan disse, Mark parecia bastante -.
- POTTER!
Ambas silenciaram com o urro poderoso. Sarah arregalou os olhos e Ginny entreabriu os lábios, sem realmente dizer alguma coisa.
- Mas que -.
No fim, escutaram uma sonora gargalhada, seguida de xingamentos revoltados. Ginny fechou os olhos e suspirou.
- Harry, seu grande idiota. – ela murmurou, ignorando as perguntas da melhor amiga sobre o que havia acontecido – Eu disse para você não provocá-lo.
Ela ainda podia escutar seu noivo rindo, e sentiu-se zangada. Se Michael o mandar para mais uma operação de longo prazo, pode apostar que farei o possível para tirar esse riso do seu rosto, Potter.
Continua.
NOTAS: Para quem se interessar pela minha vida privada, a FUVEST não deu certo, de novo - por puro nervosismo. Fiz a prova ontem, de novo porque estava irritada com meu desempenho, e para minha incredulidade, se tivesse feito a droga da prova com tranquilidade - e não surtando - teria tirado 78. Setenta.. Setenta. E. FUCKING. Oito. Mas não, eu surtei na prova, desesperei e o resultado foi... Bom, sem mais detalhes. Foi medíocre.
Pronto, já esbravejei. Passei para a segunda fase da UEL, também :) e esse final de semana tenho UFMG. Faltam ainda Mackenzie (apesar de não querer) e UFSC. Mas já me acalmei em relação a tudo - tarde demais... - se não passar em nada, paciência. Mais um ano de cursinho e bola pra frente.
Talvez depois do dia 20 de dezembro eu volte a postar com mais regularidade nas fics, mas depois de tanta confusão eu nem garanto mais nada - assim como nem garanto mais aquele calendário que fiz no meu perfil para o ano que vem. Mas ah, paciência também. Mas tentarei dar meu máximo, prometo. Minha meta é terminar essas fanfics e finalmente dar espaço para escrever um livro - uma ideia MUITO sem noção que vem me incomodando HÁ MESES, praticamente; mas quero apenas desenvolver tudo e pensar se é realmente algo bom para se escrever quando tudo estiver mais calmo, então...
Agradeço aos comentários e a quem continua acompanhando a trilogia! :D Fiquei sabendo que quem já havia postado reviews logado agora não consegue mais, mas não se preocupem. Só de saber que há ainda gente que não se esqueceu de mim bom o suficiente, e feliz xD
Aliás, notícia para quem quer: se der para atualizar a partir do dia 20 de dezembro, aguardem atualizações de Ritmo Quente e Minha Doce Noiva. Na Sombra do Inimigo terá trama reestruturada caso não for deletada - ou seja, mais uma que eu vou mudar tudo, de novo :P Se tudo der certo, a trama será UA, também (ou com a mescla já existente de mundo bruxo com mudo trouxa, veremos. Várias possibilidades, e meu enfoque atual é a trilogia, que finalmente tem todos os pingos nos "i"s).
Agradecimentos a layla black, Bruna, Sophie Potter Malfoy e Pedro.
Pedro: Falando nisso, eu te devo explicações! xD Antônio Cruz era realmente o Mark disfarçado, e Vitória Azevedo é a Camila. Espero que essa confusão de personagens desapareça logo! hahaha
Sobre Richard e Helena, no original eles não teriam envolvimento algum até o final da trama. Acelerei um pouco as coisas e compliquei algumas situações, no caso xD Aqui já teve o erro deles terminarem bêbados na cama... Então, sim, essa parte foi alterada.
Sobre o Mike, ele votou por realmente acreditar que Brosseau foi mais "justo" com toda a situação... Mas sobre ciúmes, garanto que ele jogará isso na cara de Camila, e não será nada agradável. :)
E sim! Nathan é irmão da Sarah, que é casada com Malfoy e tem dois filhos xD E Nathan é praticamente amigo de infância de Mark.
Sofia é a irmã advogada de Camila, e Karen é dona de uma rede de resorts.
Agora, as principais duvidas:
1. Os protagonistas da última fic serão Harry e Ginny. Mas todos os outros aparecerão e/ou terão participação fundamental em toda a história - salvo, talvez, Richard e Helena, ou Karen, Sofia e cia. Se aparecerem, serão uma cena ou outra.
2. A Na Sombra do Inimigo eu disse ali em cima xD Mas ainda vou retardar um pouco nessa resposta, ok? :B
3. Obrigada pela motivação! Caguei na FUVEST, mas vamos esperar pelas outras, né? Ou cursinho, sei lá. Me acalmei depois de domingo xD
