Capítulo Três

- Ele comentou sobre... Sobre Você-Sabe-Quem, hoje.

Mark ergueu os olhos do mapa que tomara sua atenção há quase duas horas e meia, o rosto contorcido em uma careta. Observou atentamente sua parceira, que havia se encostado à parede ao lado da janela, do outro lado da mesa que ele utilizava. Apesar de ter os calcanhares cruzados e as mãos dentro do bolso do jeans, ele percebeu a tensão em seus ombros, seu maxilar, seu rosto. Camila estava tão agitada quanto ele – se não mais.

Provavelmente mais.

- O que ele disse? – perguntou, ao mesmo tempo em que seu tom não exigia respostas tanto assim.

- Nada que seja muito útil para nós. – ela murmurou, olhando a deserta rua pela janela, ou fingindo que o fazia.

- O que você quer dizer com isso? – perguntou irritadiço, os mapas a sua frente já completamente esquecidos.

- Apenas disse se sentir satisfeito com esses rumores de guerra. – Camila respondeu frustrada, direcionando seus olhos nos dele – toda essa agitação, todo esse clima de medo, de incompreensão... Pessoas morrem diariamente, aos montes, mas ninguém sabe exatamente quem está de qual lado. Ele diz que isso tem - Tem o ajudado muito.

Ela esperou alguma reação agitada por parte do Auror – alguma coisa, qualquer coisa que acabasse por levantar o próprio humor, que lhe acrescentasse algum estímulo. Contudo, decepcionou-se quando percebeu os ombros dele curvarem ligeiramente, e murmurar algo incompreensível aos seus ouvidos.

- Nada que nos diga que ele está em busca ou já possui uma parceria com ele. – disse após algum tempo.

Ela tornou a encarar a rua, tentando se concentrar na má iluminação de um dos postes, mas as palavras dele já haviam feito seu estrago – ela já sentia como se ele tivesse criticado o seu trabalho, como se menosprezasse seus esforços, apesar de ter nítida consciência que aquela não fora sua intenção.

Seus lábios comprimiram-se.

- Não. – foi sua resposta, meramente audível.

- Apesar de ser óbvio que ele a possui.

- Bem, o que adianta apenas nossa palavra quando não temos provas o suficiente? – questionou, encostando a testa no vidro sujo. Apesar de existir um luxuoso quarto de hotel no nome de Vitória Azevedo, na pequena cidade que Perez praticamente controlava, era ali, escondida naquele buraco chamado de hotel, fora da cidade, que dormia todas as noites. Fora desesperador, de inicio, conseguir mudar-se de um local para o outro sem levantar suspeitas, mas aos poucos ela havia pegado o jeito.

Pegar o jeito, no entanto, não significava deixar tudo mais fácil.

Mark franziu o cenho, percebendo a frustração de sua parceira. Debateu-se durante alguns segundos se deveria ou não questioná-la, fazê-la desabafar, mas desistiu – não era como se eles fossem grandes amigos, ou qualquer coisa do tipo, afinal. Sim, eram parceiros, mas suas preocupações principais eram a respeito da operação; problemas internos que se ferrassem.

Bem, pelo menos era isso que ele procurava dizer a si mesmo o tempo inteiro, sempre que ela chegava de suas festinhas com Perez, com as bochechas afogueadas e respostas monossilábicas. Ou com definitivo silêncio, tendo apenas seu olhar enojado como significação de algum sentimento.

- Mas já temos inúmeras provas, não temos? Digo – ele se atrapalhou quando ela o encarou, olhos verdes o mirando inconformados – Temos contas bancárias, provas de merdas que ele vem fazendo -.

- Não é o suficiente, você sabe disso. – Camila retrucou com falta de apreço – Perez é uma cara importante no cenário político. Além disso, com toda essa agitação de guerra, sabe quanto tempo um processo formal contra ele demoraria? Talvez a guerra acabaria, Você-Sabe-Quem venceria e eles sequer teriam aberto sua pasta. Quero dizer, não estaríamos nesta posição se Swan ou Ferreira tivessem conseguido derrubá-lo da maneira... Bem, do jeito que deveria ser, certo? Além disso, as pessoas daqui o adoram, e não foi mais de uma vez que li os jornais não economizarem em elogios. Apenas algo como -.

- Uma prova de que esse suposto santo está ligado com Você-Sabe-Quem faria com que tudo fosse mais rápido na justiça, e que não houvesse pressão popular. – Mark terminou por ela, assentindo cansado – Eu sei.

- E, assim, acabaríamos ajudando na guerra, também. – Camila completou baixinho, desolada.

- Quando foi que tudo ficou tão distorcido? – ele sussurrou, inconformado, escondendo o rosto entre as mãos – Ele tem escravizado crianças, pelo amor de Deus. Ele as vende, as compram, as revendem, as colocam nas mãos de pedófilos e as pessoas só veriam o monstro que ele é caso ele seja relacionado a um cretino pior do que ele?

- A maioria não sabe disso. – ela objetou. Mark sabia que ela concordava com ele, mas a desilusão da realidade fora mais forte em suas palavras – Além disso, ele distrai a população constantemente, seja com festivais sem importância, seja com discursos acalorados e cheios de esperança, ou qualquer coisa do tipo. Em um meio incerto, só recebendo tragédias a cada momento, alegrias momentâneas pode ser uma verdadeira dádiva. Nunca foi difícil controlar as pessoas quando elas não têm muita, ou nenhuma idéia, do que está acontecendo, na verdade.

Silenciaram, cada um perdido em seus próprios pensamentos. De repente, todo o esforço que dedicavam naquele trabalho parecia em vão. Estavam há quase sete meses daquele jeito, praticamente escondendo-se da própria sombra – quando não fingindo serem outras pessoas – e nada parecia ter progredido, além do cansaço físico e psicológico que sofriam constantemente.

Mark ergueu o rosto, estudando o estresse nas feições jovens de sua parceira; à fraca luz ambiente, ele percebeu os inúmeros cortes vermelhos espalhados pelo lábio inferior rosado da mulher, conseqüência de inúmeras mordidas da dona, em um tique nervoso para controlar sua ansiedade. Também percebeu a palidez, algo que não conseguia notar com freqüência graças ao quase permanente disfarce de Vitória Azevedo, e as marcas escuras embaixo dos olhos.

Apesar de não possuir culpa, sentiu-se responsável pela situação que Camila se encontrava; três meses atrás, enquanto ele ainda podia exercer o papel de Antônio Cruz – antes que Perez anunciasse não precisar mais de seus serviços como assassino, e ele fosse obrigado a se retirar - ela ainda parecia mais viva, apesar das circunstâncias.

Suspirou.

- Camila -.

- Preciso dormir. – a Auror anunciou subitamente, desencostando-se da janela – Tenho que sair – Perez quer se encontrar comigo amanhã cedo. Ou hoje, no caso – murmurou desgostosa, observando o relógio de pulso. Já sabe o que vai fazer amanhã?

Mark comprimiu sutilmente os lábios, procurando ignorar o repentino incômodo que sentiu a menção do encontro com Perez. Somando-se a desolação que sentia, provavelmente a mesma que a dela, perguntou-se porque diabos aquela mulher estava arriscando sua vida, sacrificando sua dignidade ao deixar que aquele pervertido doentio simplesmente lhe dirigisse a atenção –.

- Vou continuar revirando o lixo. – respondeu, colocando todos os outros pensamentos em xeque. Eles tinham uma operação para completar, eles tinham um trabalho a fazer. Suas opiniões, seus sentimentos, não importavam... Não quando os mesmos pudessem atrapalhar com tudo, ainda mais aproximá-los de modo que qualquer erro pudesse acabar com ambos – Você sabe, procurar por informações, conversar com os moradores...

Ela assentiu, mas pareceu sinceramente preocupada ao dizer, encarando-o:

- Tome cuidado. Se Perez souber que há um forasteiro na cidade, sabendo mais do que deveria -.

- Não se preocupe comigo. – retrucou secamente.

Consigo tomar conta de mim, completou a si mesmo, observando Camila cobrir-se com o lençol. Franziu o cenho, percebendo o quanto a figura sob os lençóis parecia pequena e frágil, nada semelhante a garota arrogante e mandona. Mas quem é que vai tomar conta de você, enquanto você deliberadamente vende sua vida em busca de nada além que informações?


Suas irmãs provavelmente já não estariam mais em casa.

Embora se sentisse ligeiramente mal por tais sensações, Camila ficou satisfeito de poder chegar a uma casa vazia; silenciosa, em que ela ainda não precisaria dar qualquer tipo de explicação. Apesar de ter gastado dois dias no Canadá praticamente fazendo nada além de buscar um pouco de paz, a Auror ainda não se sentia preparada para encarar a vida de frente – não sem que acabasse descontando sua raiva em algum pobre coitado, e isso ela não poderia se dar ao luxo de fazer. Ocupava uma posição de autoridade, droga, como poderia orientar seu próprio grupo se ela não seguia as regras?

O relógio em seu punho esquerdo deu um pequeno bip, anunciando nove horas da manhã, e Camila continuou a caminhada em direção ao seu apartamento, agora apenas há duas quadras de distância, as mãos nos bolsos do moletom escuro. Apesar do céu azul, o tempo estava realmente gelado, e o vento ligeiramente frio parecia diminuir a sensação térmica ainda mais.

Do outro lado da rua, próximo àquelas praças arborizadas costumeiras em certos bairros paulistanos, observou duas mulheres já próximas da meia-idade, realizando sua caminhada matinal, entre risos e fofocas, e um homem de shorts e regata correndo, suor escorrendo pelo seu rosto avermelhado, não parecendo tão afetado pelo frio. Apesar do primeiro pensamento da Auror ter sido repleto de escárnio a respeito da predisposição daquele homem ao exibir seus músculos enormes – provavelmente o tipo de babaca que passa o dia numa academia para arrancar a camiseta e exibir seu corpo em uma dança na primeira oportunidade que tiver, disse a si mesma, o lábio curvando-se em pequeno deboche -, curiosamente algo naquela figura lhe chamara a atenção, o suficiente para que ela gastasse mais do que apenas dez segundos encarando-o.

Os cabelos -.

Mike provavelmente teria o mesmo tom e mesmo corte, quando mais novo, quando mechas brancas não tivessem clareado seu cabelo.

Demorou mais do que ela gostaria de admitir perceber a linha de seus raciocínios – perceber em quem estava pensando. Frustrada, corando ligeiramente – esperando que, a qualquer momento, alguém aparecesse e a culpasse por algo -, Camila acelerou o passo, reduzindo-o apenas quando o porteiro de seu prédio a cumprimentou, sorrindo largamente.

- Ah, bom dia Camila! Caramba, faz um bom tempo que eu não a vejo. Estava quase achando que você tinha se mudado, ou alguma coisa assim. Mas então vi Helena e Sofia, e achei estranho. Aí talvez pensei que você tivesse casado, ou talvez -.

Ela ainda estava com o rosto contorcido em irritação quando encarou o velho simpático, que falava sem parar. Esforçou-se para retribuir o sorriso, ser afável, ainda que as lembranças dos últimos dias inundassem seus pensamentos, enfurecendo-a.

Só de pensar naquela maldita mão erguida, concordando -.

- Estive viajando a negócios. – ela disse agradavelmente, não disponibilizando mais nenhuma informação a respeito de sua ausência. Erguendo a mala que trazia consigo, mostrou-a, como se confirmasse suas palavras – Foi um período corrido.

- Eu imagino, eu imagino. – ele riu – Só de imaginar a papelada que a senhora deve ler todos os dias, meus poucos cabelos restantes já ameaçam cair. – encarando-a, ele perguntou: - A senhora é advogada, não é?

O sorriso pareceu ainda mais forçado em seu rosto. Ah, cara, detestava mentir para uma pessoa tão bondosa como o "seu Hélio"... Mas o que poderia fazer? Vivia entre os trouxas, não era como se simplesmente pudesse responder algo como "Não, seu Hélio, eu sou Auror. O senhor sabe, uma espécie de policia bruxa".

Assentiu.

- Sou sim, senhor. Há alguma correspondência para mim? – perguntou, mais para desviar o assunto do que qualquer outra coisa; não esperava por nenhuma carta, obviamente – as corujas cuidavam da correspondência, afinal.

Contudo, para sua surpresa, o velho arregalou os olhos, murmurando um pequeno "nossa!" antes de adentrar em sua cabine, dizendo:

- Ainda bem que você mencionou, Mila! Já ia esquecendo dessa caixa -.

- Caixa? – murmurou, fazendo uma careta confusa – Mas que -.

Ela não precisou chegar além daquelas palavras, não quando o homem surgiu com um enorme pacote branco, enfeitado por um exuberante laço vermelho.

- Chegou hoje, umas duas horas atrás. – ele disse, entregando-o a Camila – Fiquei surpreso com o tamanho do pacote – er, quero dizer, deve ser algo realmente caro, não é?

Ele corou com sua falta de tato. A Auror não respondeu; simplesmente recolheu o pacote, segurando-o em um dos braços enquanto o outro ainda cuidava da mala de viagem, mas sua expressão demonstrava nada além de profundo desgosto, provando o quanto ela não parecia tocada com tal demonstração de afeto.

Nojo.

Como -.

- Obrigada, seu Hélio. – disse mecanicamente, em voz baixa. Procurou sorrir para o velho, mas não fora muito bem sucedida, suas expressões contorcendo-se em uma careta um tanto quanto esquisita – Bem, acho que vou tirar um descanso. Essa mudança de fuso tem deixado minha cabeça um tanto confusa.

- Ah, vai sim, vai sim! – ele acenou, mas a mulher já não o encarava mais, desaparecendo pelo hall de entrada do prédio.

O caminho até o décimo oitavo andar fora tortuoso. Sob as vistas da câmera de segurança do elevador, Camila não poderia simplesmente largar o pacote ali no chão, desejando mais do que qualquer coisa que aquela porcaria simplesmente sumisse de suas vistas. Qual explicação daria a seu Hélio, quando ele a reencontrasse? Ela não sabia se conseguiria bolar qualquer desculpa para justificar -.

Eu pensei que isso havia acabado. Eu realmente pensei que isso havia acabado.

Como ele descobriu meu endereço?

Ela se apressou para o aconchego – e agora, segurança – de seu apartamento assim que as portas do elevador se abriram. Caçou as chaves em seu bolso traseiro, o desespero crescente em seu corpo.

Ao finalmente conseguir abrir a porta, Camila estava perto de um colapso.

As malas foram largadas de qualquer jeito na sala, próxima a mesa de jantar, enquanto ela praticamente corria em direção ao seu quarto, rumo à suíte. Abriu a porta, praticamente destruindo o pacote em mãos. O conteúdo, as fitas vermelhas e o papel branco pararam imediatamente dentro do vaso sanitário, e não demorou em que ela, atônita, apertasse a descarga repetidas vezes.

A mistura de vermelho, branco e água dançou em seus olhos por questão de segundos e, ofegante, a Auror encostou-se a parede, percebendo o quão trêmula estavam suas mãos e pernas. Sentia-se encurralada, perdida, e toda a confusão com o Conselho Geral, Mike e sua mão erguida há muito havia sumido de seus pensamentos.

Na verdade, tudo o que conseguia ver eram mãos, mãos cheias de calos a apertando e a humilhando, machucando-a, com risos variados ao fundo... Pessoas se divertindo da situação dela, zombando de sua vexação...

"Então hoje será nossa primeira discussão, querida?"

Deus, ela ainda se sentia capaz de sentir cada toque, cada detalhe de uma situação -.

Gritos. Ela ainda conseguia se lembrar do som dos próprios gritos, do próprio choro, do próprio desespero -.

O barulho do vaso sanitário finalmente acordara-a de seu próprio pesadelo - entupira-o.

Como se o patético da situação a trouxesse de volta a realidade, Camila desencostou-se da parede e suspirou, um misto de tédio e irritação em sua respiração. Sacando a varinha, sumiu com todo aquele lixo de flores e embrulho com um único floreio. Em seguida, o vaso sanitário apresentava-se como se nunca tivesse se transformado em vitima do desespero da Auror. Ainda com semblante fechado, colocando seu medo em xeque, substituindo-o pela raiva, pisou firme até a pia, pronta para lavar o rosto e retornar a própria vida.

Os olhos verdes ainda estavam vivos em terror, no entanto, ela percebeu ao encarar a própria imagem refletida no espelho. A vulnerabilidade mal escondida nos próprios olhos, mesclado com a agressividade de suas feições a enojou.

Está tudo bem, disse endurecida para a imagem, furiosa com aquele medo, furiosa com a vulnerabilidade de seus próprios olhos, traindo toda a determinação presente em seu rosto, Está tudo bem.

Não há como alguém machucá-la. Não hoje.

Não mais.


Dane-se o período de descanso.

Camila entrou no prédio do Departamento de Investigação Contra as Artes das Trevas quase uma hora depois de ter chegado ao seu apartamento. Com o queixo erguido e a postura empertigada, andou com passos firmes pelo corredor cinzento, dando boas-vindas ao barulho enlouquecedor de Aurores conversando em voz alta, correndo de um lado para o outro, risadas e telefones, tudo contrastado com o som do trânsito paulista na São Paulo trouxa, tão próxima a eles.

Trabalhar, manter a mente distante do que lhe incomodava era melhor do que mofar dentro de casa, buscando algum retiro espiritual inexistente. Contudo, ela não esperava que em menos de cinco minutos a sua entrada no prédio Eduardo Correia, o secretário-geral, encontrasse-a e já começasse a entupi-la com todas as informações essenciais durante sua ausência. Encontros, negociações, operações mais importantes que já haviam terminado e/ou ainda estavam em curso. Dois minutos mais tarde, e a Auror sentia sua cabeça doendo com o tanto de informações.

E pensar que o homem sequer lhe desejara um bom dia.

Caminhando ao lado do homem gorducho e de grossa cabeleira cinza, Camila levou uma das mãos à têmpora, enquanto perguntava com leve mal humor:

- Onde está Richard? Acredito que ele pode me dar uma explicação detalhada sobre o progresso da reunião com os diretores asiáticos -.

- Da última vez que chequei, Cooper rumava para o necrotério. – Eduardo respondeu com ligeiro desprezo. Acostumada com o desgosto que o homem nutria pelo imprevisível e espontâneo Richard Cooper, ela fingiu não perceber o tom de sua voz – Assumiu como Auror-chefe o caso de uma menina assassinada há alguns dias.

Ela o encarou, franzindo o cenho. Claro, por culpa da disponibilidade de homens para o trabalho, não era incomum ela ou Richard assumirem operações quando necessário – e, nos últimos tempos, isso era praticamente freqüente. Entretanto, tanto ela quanto ele geralmente encarregavam-se de casos bem mais -.

Balançou a cabeça, girando nos calcanhares e refazendo seu caminho pelos corredores do Departamento, um Eduardo Correia atônito atrás de si, questionando-a de maneira incansável. Ela o ignorou.

Quando Camila finalmente abriu a porta do necrotério, que dava vista para os escritórios dos legistas, seus olhos encontraram de imediatos os verdes acinzentados de Richard Cooper. Ele parecia pronto para girar a maçaneta.

- Camila? – questionou, fazendo uma careta – Você não voltava somente amanhã? O que foi que -.

- Mila!

A atenção da Auror foi imediatamente desviada do homem, sua atenção agora colocada sobre a mulher de cabelos castanhos e cacheados, cortados à altura do pescoço, vestida inteiramente de branco. Ela ainda vestia o avental cirúrgico.

- Helena?

A irmã mais velha abriu um largo sorriso, os olhos amendoados aquecendo toda sua expressão em uma recepção calorosa. Ela fechou a porta do escritório, aproximando-se dela e de Richard, dizendo:

- Eu a abraçaria e diria o quanto senti sua falta, mas acho que já basta eu cheirando a formol por hoje.

Richard pareceu ligeiramente pálido àquela constatação. Ambas as mulheres preferiram deixar as piadinhas a respeito de sua fraqueza para mais tarde.

- Era a autopsia da tal garota?

Auror e legista franziram os cenhos.

- Você já sabe sobre a menina? – Richard perguntou confuso, ao mesmo tempo em que Helena respondia:

- Não, estava mostrando alguns resultados para Richar - er, Cooper. Realizei a autopsia anteontem.

A bruxa franziu o cenho para a irmã, percebendo o súbito constrangimento que se instalara na voz e expressão da mesma. Entretanto, apesar de manter a careta em suas feições, dirigiu-se a Richard, respondendo-o:

- Não, acabei de chegar... Mas Eduardo comentou alguma coisa sobre -.

Atrás de Camila, apareceu Eduardo Correia, ofegante.

- Camila, você realmente precisa comunicar o que está fazendo ao invés de simplesmente -!

- Então, é apenas uma visita ou você veio para ficar? – Richard perguntou, erguendo uma sobrancelha, interrompendo o pobre secretário.

- Voltei para salvar o que seu traseiro gordo não sabe resolver na firma. – a Auror retrucou com um sorriso pequeno, antes de desviar o assunto num tom mais sério – Você pode me iluminar sobre o assunto, por favor? Para você se meter em um caso, não acho que acredite ser apenas -.

- Claro, preciso ir até o Desaparecidos preencher alguns papeis. Você pode ir comigo enquanto explico o necessário até você pegar a documentação. – ele disse bem humorado, dando de ombros - Você vai querer assumir a partir daqui?

- Não, é melhor que fique com você. Eu preciso ainda resolver toda aquela porcaria burocrática da reunião, parece. Além disso, você está desde o inicio no caso, não é?

- Ah, ele é bem recente. Começamos um dia antes de sair a noticia de Rutherford nos jornais, se não me engano. – respondeu, percebendo a expressão aturdida de Camila para com a irmã dissolver-se em um imediato olhar furioso. Richard deixou o assunto de lado por enquanto – Bem, então vamos. Deixe que eu assumo daqui, Duda! Você pode voltar para seu trabalho chato fazendo... Bem, seja lá o que você faz. – disse em voz alta e humorada para Correia, que o fitou enojado – E, Lena, continuaremos nossa conversa mais tarde, doçura. O dever chama.

A Auror pareceu esquecer-se de zombar daquele calão ridículo feito pelo companheiro de trabalho e amigo ao escutar as palavras de Richard.

Lena?

A legista também parecia não ter levado o apelido na esportiva. Encarou-o irritada, impaciente e – Deus do céu, não podia ser – embaraçada. Camila a estudou, embasbacada por alguns segundos, até que Richard a cutucasse nas costelas jovialmente, dizendo para que ela o seguisse.

- O que diabos aconteceu aqui enquanto estive fora? – foi a primeira pergunta de Camila quando eles finalmente se afastaram do necrotério, deixando Helena e Eduardo Correia para trás. Ela ainda parecia não acreditar em seus próprios olhos e memória – O que aconteceu entre você e Helena?

Richard colocou as mãos no bolso do jeans e respondeu tranquilamente:

- Pergunte a sua irmã.

- Ora, não me venha com essa de "pergunte a sua irmã", Rick. Ela mal era capaz de escutá-lo por dois minutos da ultima vez que estive aqui, e agora além dela quase chamá-lo pelo nome, você diz que precisam continuar alguma conversa, como se partilhassem de algum segredo? Que diabos?

Aquela interjeição da bruxa arrancou um riso do Auror.

- É, algumas coisas mudaram.

- O quê? Vocês estão juntos? Não me diga que -.

- Eu não diria isso.

- Uh?

- Eu não diria que estamos juntos.

- Mas então -.

- Mila, escute. Vamos nos concentrar em nossa tarefa, okay? O que você precisar saber sobre sua irmã, você pode perguntar a ela.

Deus do céu, ele agora fugia dos assuntos. Richard Cooper estava reservado.

O que diabo aconteceu aqui?

- Muito bem, seu frango covarde. – ela o alfinetou, imitando-o e colocando as mãos no bolso do jeans – Por que vamos até o Desaparecidos?

- Vou entregar algumas fotos e documentação médica a respeito de nossa garota para o Departamento, para que eles procurem alguma coisa.

- O que você quer dizer? Como nome, essas coisas?

- Exato.

- Você já não deveria ter feito isso antes? É uma das primeiras coisas a se checar.

- Tive certos problemas de comunicação com Helena. Só pude ver o corpo depois da autopsia, praticamente.

- Deus do céu, vocês transaram.

Richard quase tropeçou nos pés ante ao comentário abrupto de sua superior e alguém que ele praticamente considerava da famí-se para encará-la, disparou:

- Quer focar no trabalho?!

- Estou focada! – ela protestou, não sabendo se gargalhava ou mostrava incredulidade com toda a situação – É só que – Meu Deus, e pensar que Helena vivia dizendo que preferia ser enterrada viva... – ela começou a rir – E "problemas de comunicação", é claro. – debochou – Aposto que ela estava fugindo de você até o ultimo segundo -.

- Helena já pesquisou pelas fichas criminais a procura de algo que pudesse nos dizer sobre essa garota. – Richard a interrompeu, azedo, retomando a caminhada – Isso já nos poupa de algum trabalho.

Jesus, ele estava embaraçado! Camila entreabriu os lábios, os olhos verdes focados no leve rubor nas faces maduras do Auror. Entretanto, a pequena promessa de sorriso mostrava o péssimo segredo que ele fazia de sua aprovação por... Seja lá o que estivesse ocorrendo entre ele e Helena.

O homem parecia incapaz de esconder o próprio orgulho.

- Então é por isso que agora você vai, hm, mandar o que tem para a Desaparecidos. – a bruxa disse em fingindo tom concentrado, ainda reparando em cada detalhe no amigo e subordinado: a postura relaxada, mas altiva; o sorriso, o rubor.

Richard assentiu, não a encarando. Chamou o elevador, que não tardou a chegar. Apertou o botão do décimo segundo andar.

- Foi uma sugestão de Pedro, que acompanhou a autopsia. – respondeu – Por que... Bem, era apenas uma menina. E a maneira como ela foi morta -.

- Como ela foi morta? – Camila perguntou, o tom analítico mostrando que ela realmente abandonara a curiosidade a respeito dele com sua irmã.

Richard empalicideu.

- Você pode ler o prontuário -.

- Você a viu, certo?

- Claro que eu vi, encarreguei-me do caso, não -.

- Então me diga o que viu.

Não fora um pedido. O Auror a encarou, deparando-se com olhos verdes determinados e endurecidos pela obstinação. Suspirou.

- Ela foi encontrada em um apartamento pequeno e imundo, próximo ao Demarchi. O apartamento geralmente é usado para aluguel, mas o dono do mesmo, um trouxa dono de uma lanchonete no centro da cidade – ele está limpo. – assegurou-a.

- Veritaserum?

- Isso, e Gouveia.

Camila bufou.

- Vocês colocaram justo Gouveia para interrogar um trouxa? – questionou-o, franzindo o cenho – Você é melhor do que isso, Rick.

Ele deixou passar aquela ofensa, continuando:

- De acordo com toda a análise de Helena, a menina foi morta entre quarenta oito a cinqüenta e três horas atrás. A perícia ainda precisa mandar toda a informação necessária, e há algumas analises da autopsia que ainda não saíram, também. Não encontramos nenhuma documentação com a garota... Mas isso não surpreende.

- E você supõe isso porque viu o estado que a garota foi encontrada.

O tom suave não mascarava a pressão que ela fazia nele. Richard mordiscou a bochecha, incomodado.

- Ela foi morta pelo modo bruxo – a maldição da morte. Relativamente indolor, se considerado o que foi feito com ela depois de morta... Tripas expostas. – disparou, antes que Camila pudesse dizer qualquer coisa. A Auror ergueu as sobrancelhas, comentando:

- Bem radical para apenas uma garota.

- Antes de ser assassinada, ela também sofreu agressões – na verdade, foi bem torturada antes de morrer. Além disso -.

Richard silenciou-se, as portas do elevador se abrindo. Esperou que Camila saísse, acompanhando-o, para que continuasse:

- A menina parecia ter uma vida sexual um tanto quanto ativa.

A Auror o encarou, o silêncio significante presente e pesado entre os dois.

- Ela foi agredida antes de morrer? – Camila perguntou por fim, o tom bem mais baixo que o costume.

- Encontramos esperma. Helena o enviou para análise assim que o coletou. – Richard respondeu, depositando a pasta sobre a escrivaninha da recepcionista, uma oriental de cabelos curtos e com as pontas pintadas de vermelho-tomate – Carvalho está aqui, querida?

- Acabou de sair. Posso enviar uma mensagem, caso seja urgent -.

- Ah, não se preocupe. Apenas se encarregue de enviar essa documentação para o escritório dele, e diga que preciso de resultados para ontem.

Ele dera a ordem sorrindo, quase jovial. Esse era um traço da imprevisibilidade que Eduardo tanto odiava no canadense, transferido para a América Latina na época que Camila ingressara na Academia.

- Saiu algo nos jornais a respeito dessa menina? – a bruxa perguntou, acompanhando o amigo enquanto o mesmo comentava algo sobre comprar café.

- Não. Antônio Carlos instruiu o trouxa dono do apartamento a não se manifestar caso aparecesse alguém, assim como os moradores do prédio. E quanto a nós, bem, saímos antes que algum jornalista chegasse.

Ela assentiu.

- Ótimo, mantenham assim. Não deixe absolutamente nada sair para os jornais, nem mesmo o fato de a vítima ser uma menina, ou do fato de se existir uma vítima.

Richard a fitou com o cenho franzido.

- O que passa por essa sua cabeleira bagunçada, Camila?

- O assassino, seja quem for, quer atenção. Para quem, não sabemos – pode ser para nós, a população, simplesmente para enaltecer o ego ou para um terceiro.

- Foi o que eu pensei. Por qual outro motivo ele faria aquela merda toda em uma menina?

- Foi por isso que você assumiu a operação? – ela perguntou curiosa.

- Não. Assumi porque não tinha quem assumir – todos os Aurores capazes de chefiar alguma coisa estão até o pescoço de tanto trabalho.

Camila suspirou, subitamente frustrada.

- Brosseau. – resmungou, antes de sussurrar uma sentença ininteligível aos ouvidos do bruxo. Em seguida, passou a mão pelo rosto e dirigiu-se a ele: - Tirarei o Departamento dessa situação o mais breve possível, eu prometo.

- Relaxe, Mila. Ninguém está culpando você.

Sim, mas eu me culpo. Ao final de tudo, parece que tivemos mais falhas que êxitos.

Corte em seu número de homens. Todo problema burocrático aparentemente complicado três vezes mais que o normal.

Mark sentenciado como mentalmente instável pela droga de um voto.

Encarando Camila de soslaio, Richard suspirou e balançou a cabeça.

Continua


NOTAS: Sim, mais um capítulo atualizado. Demorei uns três, quatro dias para sair do súbito bloqueio que tive, não sabendo o que escrever (u.u). Atualizei mais a página do word de lembranças que qualquer outra coisa - mas, pelo que tudo parece, finalmente saí dessa fase. Vamos ver.

Ah, e Minha Doce Noiva deve sair até domingo. Mantenham-se atentos. Até o final do mês terei capítulo novo para a Ritmo Quente, também.

Agradecimentos a Bruna e Pedro pelos comentários atenciosos e muito queridos :) (Aliás, Pedro, responderei sua PM esses dias ainda por orkut mesmo, ok? Li já há alguns dias, mas realmente não tive tempo de ver :/ Mas tudo o que dá para dizer no momento é que estou esperando a segunda chamada da UEL, e o resultado da UFSC. Vamos ver.)

Beijos, e obrigada a todos que lêem! :)