Capítulo Quatro
Mark sobressaltou-se quando a porta do dormitório bateu, brusco, anunciando o regresso de sua parceira. Ergueu o rosto e o tronco da mesa lotada de papeis no mesmo instante que Camila fechava a porta do banheiro com força, sem, no entanto, trancá-la. Ligeiramente tonto, o bruxo passou uma das mãos sobre o rosto, sobre seus olhos, como se aquilo fosse capaz de acordá-lo.
Caramba, ele realmente havia dormido em cima de seu próprio trabalho. Por que simplesmente não havia deitado mais cedo, e decidido continuar com tudo amanhã? Tinha certeza que aquela dor em seu corpo duraria mais que -.
O barulho de vidro se quebrando o distraiu de seus pensamentos, trazendo-o de volta à realidade, e ele se lembrou da chegada abrupta de sua parceira.
Franziu o cenho, erguendo-se da cadeira. Do banheiro, ele era capaz de escutar um número razoável de xingamentos e maldições, mas não compreendia metade dos mesmos – começara falando português, ele sabia, mas após cinco palavras Mark já não estava mais tão certo se aquilo era realmente português. Por um momento, imaginou se era espanhol... Mas então, as últimas frases pareciam francês, e ele desistiu.
Aproximou-se da porta que dava para o banheiro, o rosto contorcido em incompreensão. O que havia dado nela? A mulher não era tão escandalosa assim – na verdade, ele duvidava que soubesse o exato horário que Camila chegava ao apartamento se não fosse seu sono leve, tamanho o silêncio que eram suas vindas.
Estava pronto para bater à porta e perguntar se estava tudo bem – ou talvez acusá-la de tanto barulho -, quando reconheceu um soluço misturado em todos aqueles xingamentos.
Abriu a porta antes que tomasse real consciência de suas ações – já a quase pegara nua uma vez, pronta para tomar banho, e a conseqüência daquele dia ainda doía em seus ouvidos – e a primeira visão que teve foi a de si próprio refletido no espelho do banheiro – desgrenhado, com barba para fazer e rosto marcado pelo relógio de pulso, cujo braço fora utilizado como travesseiro – antes que seu olhar caísse para o chão, percebendo-o repleto de cacos de vidro. À direita, próximo ao boxe do banheiro, estavam as sandálias brancas e, à sua esquerda, próximo à janela do banheiro, estava Camila, contra a parede, segurando uma mão contra a outra, próximos a altura de seu peito.
Ela ergueu o rosto, reconhecendo-o. Mark arqueou as sobrancelhas, surpreso, ao perceber a trilha de lágrimas marcadas em seu rosto, já despido de quaisquer detalhes de Vitória Azevedo. O rosto estava ligeiramente avermelhado nas maçãs do rosto, graças ao dia que passara velejando ao lado de Perez, quase uma semana atrás.
- Saia daqui! – disse secamente, procurando recuperar todo o controle que possuía. Parecia envergonhada, quase humilhada, e o Auror não compreendeu o motivo.
Não se importou, também. Não depois de ver a mancha crescente de sangue em seu vestido branco, tingindo-o.
Procurando não pisar sobre os cacos de vidro, apesar de calçado, foi em sua direção, a atenção focada na fonte de todo aquele sangue.
- Aqui, deixe-me ver sua mão. – disse em voz baixa, não a encarando.
- Não foi nada! – ela retrucou, ainda esquiva, prensando as mãos ainda mais contra o próprio corpo, deixando claro que não queria que ele chegasse mais perto – Desculpe por acordá-lo. Volte a dormir.
Não era um pedido. Mark a ignorou. Aproximou-se, suas mãos indo de encontro as dela.
Camila se encolheu, como se assustada. Ele a encarou, visualizando a tempo o olhar aterrorizado, antes de virar-se, dizendo:
- Eu estou bem, eu estou bem! Só derrubei a droga do perfume! Simplesmente –eu - saia já daqui, Rutherford, eu posso tomar conta de -!
Franziu o cenho. Ela estava com medo dele?
Ignorando-a mais uma vez, Mark retirou sua mão, procurando não reconhecer os gemidos assustados e as lágrimas que pareciam voltar aos seus olhos; tampouco deu atenção para a tentativa dela de se afastar dele mais uma vez. Que diabo havia acontecido? Por que ela estava daquele jeito?
O corte na palma da mão não era profundo, mas ainda não fora nada bonito. Ele imaginou que ela havia tentado recolher os cacos, mas cortara-se no processo. Filetes vivos escorriam por entre seu punho exposto á inspeção do bruxo.
- Vem, vamos limpar primeiro toda essa sujeira antes que eu possa fechar para você.
- Posso fazer isso sozinha -!
Ele a virou, fazendo-a ficar de costas para ele. Segurando-a pela cintura, Mark a ergueu, fazendo-a soltar um murmúrio assustado.
- Você está descalça. – disse firme, antes que ela se recolocasse em sua posição de fúria – Ponha seus pés sobre os meus. Vamos até a pia limpar esse corte.
- Eu não – Você não -!
- Tudo bem, Mila. Só coloque seus pés sobre os meus.
Ele nunca a havia chamado por um apelido.
Ela o obedeceu, e o Auror a direcionou até a pia, como se dançassem, segurando-a com firmeza e gentileza, não incomodado pelo peso de seu corpo pequeno em seus pés. Ao pressioná-la entre a pia e seu corpo, Mark abriu a torneira, e instruiu-a a colocar sua mão ali, enquanto ele alcançava o sabonete líquido.
- Vai arder um pouco. – murmurou gentil.
Um riso debochado escapou da boca dela – ou assim Mark pensou – e murmurou algo incompreensível.
Camila tremia como louca. Enquanto lavava as mãos, os soluços ainda insistiam em aparecer, e ele era capaz de visualizar o choro crescente através do reflexo.
Ela se inclinou, para não sujar o local mais do que já estava, e Mark percebeu as mesmas manchas vermelhas na frente do vestido agora no laço que o prendia em seu pescoço. Ao mesmo tempo, o zíper do vestido, pouco acima da base de sua coluna, estava ligeiramente aberto.
Mas o que foi que -.
- Vem cá. – murmurou assim que ela fechou a torneira, mostrando ter terminado o serviço. Mark pegou a toalha de rosto, próxima a eles, e enrolou-a com determinada força na mão machucada. Em seguida, virou-a, de modo que pudesse erguê-la em seus braços e caminhar com ela até fora do banheiro, evitando que ela caminhasse descalça sobre toda aquela sujeira.
Surpreendentemente, Camila não reclamou ou contestou quando ele a segurou e a ergueu, apesar de anteriormente sequer querê-lo próximo a ela mais que alguns passos de distância. Exausta, expressando quase derrota, inclinou-se, de modo que seus braços o enlaçassem pelo pescoço e ela pudesse deitar a testa em seu ombro coberto.
Mark a teria colocado no chão, caso ela não tivesse se acomodado em seus braços de tal modo que a melancolia de seus toques parecessem mostrar a ele que aquele cuidado a confortava.
Caminhou com ela daquele jeito até o quarto, o rosto contorcido em uma careta desgostosa enquanto ele refletia o quanto aquele suave toque a confortava ao mesmo tempo em que ele se sentia rasgando em pedaços.
Vê-la impossibilitada de se erguer o machucava.
- Aqui, sente-se aqui. – disse baixinho, descendo-a de seu colo. Camila escorregou pelo seu corpo, o rosto escondido em sua clavícula. Encolheu-se ali, parecendo ainda menor, em silêncio. Mark fechou os olhos brevemente, suspirando, antes de colocar as mãos em seus ombros e continuar gentilmente: - sente-se aqui, Mila, vou ajeitar esse corte.
Ele procurou não encará-la enquanto pegava a varinha sobre o criado-mudo. Silencioso, ajoelhou-se frente a ela, tomando a mão enrolada na toalha entre as suas. Desenrolou-a, e murmurou o feitiço, fazendo com que a pele se unisse lentamente.
Continuaram quietos, até que ele perguntasse suavemente:
- Você esbarrou no perfume enquanto tentava se trocar?
Ela estava de cabeça baixa, a mão boa enterrada entre seus joelhos. Assentiu brevemente, mas não emitiu som. Pelo menos, ao que parecia, ela já havia parado de chorar.
Bom, ele pensou, o aperto em seu peito aliviando.
- Consegui segurar os outros, mas esse acabou escapando. – Mark a escutou sussurrar.
- Está tudo bem. – ele a assegurou, com medo de acabar pressionando qualquer botão errado naquele assunto.
Afinal, pensou, você não está desse jeito por causa da droga de um vidro de perfume. Não me faça de idiota, Camila.
Por favor.
- Eu... – ela começou, a voz agora um pouco mais alta. Ele a assistiu erguer o rosto, seus olhos se encontrando -... Eu não sei por mais quanto tempo vou agüentar tudo isso. – admitiu, a dor transparecendo em seus olhos apesar da enorme tentativa em manter o rosto agora mais controlado.
- O que você viu? – Mark perguntou, ainda a frente da Auror. Antes que ela pudesse responder, contudo, ele se aproximou, pousando as mãos sobre os ombros dela – Mila... O que ele fez com você?
- Nada. – foi a resposta seca ante ao comportamento quase inquisidor do parceiro, mas ele não acreditou nela. Não quando, após isso, as lágrimas pareciam retornar – Eu só... Por favor, não me faça mais voltar para lá. Eu não quero mais ter que fazer isso - Não quero aquele homem perto – Eu não...
O pedido fora de uma menina. Uma garota, não uma Auror.
Mark a abraçou, segurando-a forte contra si.
- Eu prometo. Eu prometo.
Camila só conseguiu se livrar de toda a parte burocrática de seu trabalho às onze e quinze da noite, quando carimbou a última página de uma pasta com mais de setecentas páginas. Bocejou ruidosamente e esfregou o rosto entre as mãos, estalando os dedos das mãos em seguida.
Deus, estava quebrada. E pensar que, por causa de sua ausência durante quase dois meses, sua rotina seria parecida até que colocasse tudo em ordem.
Algumas vezes ela realmente odiava Eduardo Correia, mesmo que o homem fosse um amor com ela e extremamente organizado, muitas vezes servindo como seu salvador do dia.
Por outro lado, hoje, ela não reclamava tanto daquele traço de seu subordinado. Pelo menos, poderia demorar o quanto precisasse para ir para casa... Lugar que mal sentia segurança depois -.
Espreguiçou-se em sua cadeira, e estava pronta para se erguer quando a porta de seu escritório se abriu, revelando a imagem de um Richard Cooper igualmente cansado. Seus olhos se encontraram, e quando Camila percebeu o numero de pastas em suas mãos, soltou um muxoxo quase desesperado.
- Não me diga que tenho mais para ler. – murmurou, quase em súplica.
Richard riu, apesar de tão desolado quanto a Auror.
- Não, essas pastas são minhas. – admitiu, desgostoso – Mas vi que você ainda estava por aqui... Pode fazer companhia para um pobre amigo?
- Claro, assim que me contar o que aconteceu entre você e minha irmã.
Ele parou no meio do caminho entre a porta e a escrivaninha de Camila, estupefato, seus olhos cansados arregalados sobre elas, até que a Auror riu e fez um aceno com a mão, pedindo para que ele se aproximasse.
- Era brincadeira, seu idiota. Pretendia ir embora, mas estou com saudades da sua voz fanha e seu comportamento insuportável – cutucou-o, humorada. Richard bufou, debochado, sentando-se de frente a ela.
- Sinto-me lisonjeado pelo seu grande apreço a minha pessoa. – murmurou, sarcástico – Como está, Mila?
- Bem. – respondeu, e imediatamente se arrependeu de ter dito tão rápido aquelas palavras. O Auror a encarou com suspeita (ela não poderia culpá-lo, realmente), e ela tratou de tomar algumas pastas das mãos do colega de trabalho, folheando-as – O que é isso? Esses nomes -.
- Miguel Carvalho me enviou a documentação de desparecidos. – ele disse, o olhar ainda fixo nela, enquanto Camila distraidamente (ou fingindo estar) continuava mirando as fotos.
As crianças ali...
... Tão novas...
Ela fechou os olhos ao escutar os novos gritos, as novas súplicas. O tom infantil parecia quebrar-se, sendo substituído de modo cruel pelo desespero da dura realidade que aquela criança vivia. Manteve a postura tranqüila, o rosto impassível, mas ao fundo, Camila buscava controle.
Não posso chorar, não posso chorar -.
Perez a abraçou pelos ombros, trazendo-a de volta a realidade. Ali, onde deveria fingir a mulher dominada pela luxuria e o poder, encantada por tudo que aquele crápula representava.
Ela não podia se dar ao luxo de mostrar que escutava perfeitamente o que acontecia logo ao lado, alheio de todos...
... Como eles eram capazes de ignorar -.
Richard estalou os dedos a sua frente, surpreendendo-a. Piscou algumas vezes, aturdida, antes de balançar a cabeça passar a mão esquerda sobre o rosto, esfregando os olhos.
- Estou tão cansada. – admitiu baixinho.
Aquela confissão foi compreendida pelo bruxo; ela não falava sobre o trabalho recém-adquirido.
- Soube o que Stuart aprontou no Canadá.
Aquilo pareceu piorar o humor da mulher. Camila franziu o cenho e tornou sua atenção para as crianças nas fotos. Contudo, não se aprofundou no assunto, tampouco falou alguma coisa. Richard suspirou e continuou:
- Falou com Rutherford após tudo isso?
- Não, não falei.
Simples assim. Ele a encarou por um tempo, antes que dissesse:
- Você se sente culpada pelo o que aconteceu.
- Rick, eu não quero -.
- Não é sua culpa, Mila. Se há alguém que precisa se sentir culpado, esse alguém é Stuart. Aliás, você fez tudo o que pode – talvez até mais. Rutherford sabe disso, não sabe? Aposto que -.
- Essa garota se parece com a Maria Ninguém? – ela perguntou subitamente, estendendo-lhe uma folha e apontando uma foto em particular com o indicador.
Em outras palavras, fique longe deste assunto.
Suspirando entediado, Richard tomou a folha das mãos de sua chefe e encarou a foto da menina, que parecia ter uns sete ou oito anos na época. A foto fora tirada há seis anos.
- Não, não parece. Mila -.
- Como vamos saber? Se a menina desapareceu anos atrás, obviamente ela estará diferente -.
- Ela não está desaparecida há muito tempo, nossa menina. De acordo com Helena, todo o peso sofrido pela garota é recente. Helena supôs que, se a ela foi seqüestrada, é algo de um ou dois anos. Três no máximo.
Camila suspirou.
- Vai ser como procurar uma agulha num palheiro.
- Talvez não. Ela possui uma marca de nascença, e cicatrizes de ferimentos que indicam um período anterior ao do estresse passado.
- Tenho dó das famílias.
Conversar com as famílias dessas crianças era sempre a pior parte. Eles não sabiam o que esperar – destruiriam a esperança daquelas pessoas ou acabariam por simplesmente aumentar seu sofrimento, fazendo-os pensarem que seus filhos, netos e sobrinhos haviam sido encontrados, mortos?
- Acredite, depois de um tempo, mesmo uma noticia ruim se torna um alento. – murmurou suavemente.
Caíram em silêncio, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Eventualmente, pediam opiniões sobre as fotos que encontravam, as informações que tinham sobre Maria Ninguém e as futuras semelhanças nos arquivos dos desaparecidos, não obtendo sucesso. Por fim, próximo à meia-noite, quando a Auror anunciou que precisava realmente voltar para casa se quisesse manter um bom ritmo no trabalho nos dias seguintes, Richard desviou o assunto do trabalho que se dedicavam, tornando a sondá-la:
- Como estão as coisas entre você e Stuart, depois de tudo o que aconteceu?
- Eu não sei. Não quero falar com ele até esfriar a cabeça... Não quero cometer atitudes das quais posso me arrepender mais tarde. – admitiu, encolhendo os ombros.
- Entendo. – ele disse gentilmente, não a encarando, fingindo interesse nos documentos à sua frente - Acha que isso pode ter acontecido por causa de ciúmes?
Ele a sentiu encarando-o, inconformada.
- Ciúmes?
- Você sabe, você e Rutherford -.
- Não há nada entre nós.
- Vocês mal agüentavam ficar na mesma sala por mais do que vinte minutos durante os últimos anos, nas raras vezes que se viam, e parece que desde que houve aquela explosão no encontro de diretores, no ano passado -.
- Não há nada entre nós!
O tom resoluto chamou sua atenção. Ele ergueu o rosto, encontrando olhos verdes irritados, o cenho franzido.
- Ele não poderia... Diabos, ele não pode realmente achar que eu o traia com Mark ou qualquer coisa do tipo! Ou que eu estivesse -.
Ela parecia finalmente considerar a possibilidade de tudo ter sido feito por causa de ciúmes, e aquilo a enfurecia crescentemente. Richard a viu se empertigar, os lábios entreabrirem-se e a expressão contorcer-se ainda mais em irritação.
- Posso estar enganado. – Richard procurou tranqüilizá-la, surpreso com o olhar suicida da mulher – Você o conhece melhor do que eu, Camila... O que me diz?
Camila fechou os olhos, descansando o rosto em uma das mãos. A perna esquerda, por baixo da escrivaninha, ia para cima e para baixo em um tique nervoso.
O que ela dizia? Conhecer Michael... Ela realmente o conhecia? Nos últimos meses, Camila achava difícil confirmar tais palavras. A máscara que ele usava em seu trabalho definitivamente não batia mais com sua personalidade, e a Auror se sentia confusa ao confirmar o quanto aquele Michael desconhecido a incomodava.
O bruxo a encarou por alguns segundos, antes de perguntar:
- O que há entre você e Rutherford, Mila? - ela abriu os olhos e o fitou com seriedade. - O que ele disse para que você o defendesse com unhas e dentes como fez durante todo esse tempo?
- Ele foi meu primeiro parceiro, quando me tornei Auror.
- Mas o que isso -.
- Eu o conheço. Simples assim... Poderia passar horas explicando, mas tudo se resume a isso - eu o conheço. Eu o defendi de tal maneira porque as acusações sobre ele são tão absurdas quanto Albus Dumbledore e Você-Sabe-Quem serem a mesma pessoa, planejando dominar o mundo! Eu - eu confio nele.
A última frase saíra quase inaudível; ela já não olhava mais para Richard ao dizer tais palavras. Ergueu-se, colocando o moletom que deixara sobre a cadeira para encarar o frio daquela noite.
O bruxo a encarou com as sobrancelhas erguidas, antes de rebater:
- Mas isso que é estranho - você passou a demonstrar isso praticamente do nada. Vocês mal conseguiam dar um bom dia antes de começarem a se matar. Se o conhece tão bem como diz, por que o odiava?
Camila consultou o relógio antes de responder:
- Porque eu confiava nele.
Porque eu confiava nele... E me sentia estúpida por isso.
Eram quase duas da manhã quando a Auror abriu a porta de casa, encontrando Helena acordada. Em cima da mesa de jantar na sala de dois ambientes se encontravam pratos e copos usados, com uma caixa de pizza ao centro. No segundo ambiente, utilizado como sala de estar, a irmã parecia entretida com documentos e fotos, enquanto uma musica popular soava ao fundo, em tom baixo.
As duas se olharam por alguns segundos, até que Helena dissesse:
- As meninas estão furiosas com você.
Camila fez uma careta. Imaginava que isso aconteceria - Sofia se irritaria por saber tarde demais que sua irmã havia voltado, Karen se irritaria extremamente porque dita irmã se enfiara no trabalho de tal forma, mais uma vez, que ela não pudesse passar tempo com a família. Ao final, as duas voariam em sua jugular usando aquela psicologia barata de vicio em trabalho e a Auror terminaria se sentindo a pior das criaturas, pensando no que poderia fazer para compensar sua falta de tato para com a própria família.
Não disse nada para Helena. Jogando a bolsa sobre uma das cadeiras da mesa de jantar, ela rumou para a cozinha, em busca de uma garrafa de água. Quando voltou, a legista continuou:
- Você esqueceu que hoje era sexta-feira? - Helena perguntou, seu tom de voz sempre tranqüilo e suave. Camila pensou que às vezes seria melhor que a irmã gritasse ou batesse nela, porque aquele tom sempre a fazia se sentir melhor. Aquela pergunta era para repreender, e a mulher a encarou exatamente daquela maneira, fosse o tom afetuoso ou não.
- Estou perdida em relação ao tempo, mesmo. - admitiu sem jeito, em voz baixa, abrindo a garrafa e sorvendo um longo gole - E Eduardo me entupiu de trabalho, praticamente. Não vou poder descansar direito por pelo menos mais uma ou duas semanas.
A irmã a escutou em silêncio, até que por fim ergueu as sobrancelhas e comentou num tom fingido desinteressado:
- Bem, espero que consiga acalmar os ânimos de Karen e Sofia por essas semanas, então. Elas realmente ficaram furiosas com você.
- Ah, meu Deus -.
- E por que está tão atarefada? Richard não soube cuidar do Departamento sozinho?
Camila estava pronta para sorver mais um gole de água quando a irmã fez tal pergunta. Ergueu uma sobrancelha, a garrafa a centímetros de seus lábios.
Sorriu.
- Richard, hum?
Helena pareceu surpresa consigo mesma. Engasgou-se ligeiramente, e as bochechas assumiram um curioso tom rosado. Desviando seus olhos dos verdes questionadores da irmã, tornou sua atenção para os documentos à sua frente, dizendo num tom apressado:
- Você quer se inteirar do caso? Você parecia bem curiosa a respeito da menina que encontramos -.
A Auror se sentou ao lado da legista, mas o sorriso ainda deixava claro que ela não falaria sobre a vitima tão cedo.
- Então, o que está acontecendo com vocês dois? Vocês transaram, não é?
A irmã enrubesceu ainda mais. Pigarreando, passou a mão pelos cabelos ondulados e murmurou, sem jeito:
- Eu estava bêbada -!
- É claro.
- Camila!
- O que você tem contra ele, Lena? Rick é um cara legal.
- Ele é patético. - a mulher resmungou, mas já não parecia tão certa de suas próprias palavras. Camila esperou que ela começasse o velho discurso, sobre o fato de a beleza de Richard Cooper ser totalmente vencida pelo comportamento nojento de correr atrás e seduzir cada rabo de saia que aparecesse a menos de dez metros dele, mas Helena nada disse. A irmã caçula a estudou por alguns segundos, antes de encolher os ombros.
- Aposto que na cama você não disse isso. Já ouvi outras mulheres comentando sobre o desempenho dele, no Departamento. - antes que a irmã pudesse grasnar alguma coisa, continuou: - Além disso, ele não é patético. Rick é apenas... Bem, ele tem esse ar garanhão, de macho man, mas no fundo é uma pessoa muito gentil e respeitosa. - descansando as costas no sofá, relaxada, Camila a fitou - E acho que você já percebeu isso também, bêbada ou não.
Helena não a encarou. Ao invés disso, preferiu ignorar as palavras da caçula e tornou sua atenção para as fotos anteriores e da autopsia, comparando-a com alguma tabela de dados que já estava em sua mão antes de Camila chegar. A Auror suspirou,sabendo que a irmã não estava mais prestando atenção a sua tarefa... Contudo, não pressionou mais o assunto - concordava com Richard agora: Helena conversaria com ela quando precisasse conversar.
E quando ela precisasse, sua irmã estaria ali.
- Esta mulher... Esta mulher pode nos ajudar.
A jovem entrou no ônibus, a identidade falsa segura em suas mãos enquanto ela arrastava consigo uma pequena mochila, guardando ali tudo o que possuía - um casaco velho caso sentisse frio, uma fita antiga para rádio, fotos.
E aquele recorte de jornal.
Sentou-se em uma das últimas poltronas, próxima a janela. O calor insuportável parecia não mais afetá-la - na verdade, ela sentia-se ligeiramente trêmula, quase com frio. Seu corpo se contorcia vez ou outra tamanha sua ansiedade, seu medo, que a jovem há muito parecia ter se esquecido do calor de quase trinta e cinco graus que fazia naquela cidade, apesar de ser inverno em todo o território brasileiro.
Pela janela, na rodoviária, ela percebeu um grupo de jovens bêbados, rindo e conversando em voz alta. Pareciam não se importar com o barulho que causavam nem com os olhares feios que recebiam de alguns idosos que ainda esperavam seus ônibus para partirem.
Desviando os olhos daquele bando que mal parecia capaz de se levantar para salvar a própria vida, a jovem recostou-se melhor ao banco e encarou cada pessoa que entrava no ônibus, seus olhos castanhos aterrorizados que alguém pudesse aparecer e reconhecê-la.
Reconhecê-la... Ela sabia qual seria o exato problema daquilo acontecer - já vira acontecer com outras meninas, estúpidas o suficientes para lutar contra o que era seu destino. Era ainda capaz de recordar os gritos e o desespero de cada uma que ousara ir contra a ordem de seus donos.
- Por que você diz isso? Quem é ela? Por que você diz que ela pode nos ajudar?
- Está vendo este homem ao lado dela? Eu o conheço. Ele é da minha família. Ele... Ele é como um policial.
- Eles são... Você sabe, importantes em seu mundo?
- Sim. - a menina mais nova respondeu, o tom de sua voz baixo - Veja isto aqui... Ela é brasileira. Podemos contatá-la.
Ela não poderia seguir a viagem toda no mesmo ônibus - seria arriscado demais. Mesmo sob uma identidade falsa, a jovem sabia o quão perigoso seria caso fosse capturada no meio do caminho - não poderia ser salva, e não poderia esperar que as outras meninas também fossem poupadas.
Enfiou a mão em sua mochila, procurando pelo recorte de jornal. Já vira aquela foto tantas vezes que era até mesmo capaz de recitar os traços daquela mulher. Com cuidado para que ninguém visse, observou mais uma vez aquelas duas figuras que se moviam - jamais seria capaz de se acostumar que aquelas fotos pareciam vivas -.
O homem era alto, relativamente forte e estava vestido socialmente. O terno que usava estava sobre as mãos, mas a garota sabia que ele estava algemado - vira isso acontecer em filmes, quando mais nova. Quando ainda podia acreditar em sonhos e fantasias. Ele caminhava com a cabeça ligeiramente baixa, não encarando as câmeras que soltavam flashes para todos os lados. Não esboçava irritação ou qualquer emoção, também.
Entretanto, a mulher ao seu lado era outra história. Também vestida socialmente, caminhava um ou dois passos a frente do homem, como se procurasse protegê-lo daquele momento. Os cabelos castanhos, compridos, estavam impecavelmente presos, como se fosse uma daquelas advogadas que sempre ouvira falar.
Ela parecia extremamente irritada, com aquela expressão contorcida, o cenho franzido. Como a jovem sabia que iria acontecer, a mulher encarou o fotografo que tirara aquela foto, e por poucos segundos menina e bruxa pareciam se encarar. Olhos verdes estudaram os castanhos, e os castanhos perguntavam, silenciosos, o que aquela desconhecida poderia fazer por eles.
Você pode me salvar? Você pode nos salvar?
Continua
NOTAS: Eu sei, to devendo a Minha Doce Noiva e a Ritmo Quente, mas tenho um álibi para isso! :B Meu note deu pau - mais uma vez, novidade - e acabei perdendo todas as fics que não estavam salvas no pendrive, o que inclui essas duas e mais dois projetos x___x Mas prometo que pelo menos a Ritmo Quente estará atualizada até terça-feira no máximo, okay? Já estou na metade do capítulo novo - porque oi, to tendo que reescrever! - e se tiver sorte, consigo terminá-lo amanhã até.
A Minha Doce Noiva, to reunindo coragem para tornar a escrever nela, mesmo :P Mas não se preocupem, ela sai esse mês ainda!
Obrigada para os que continuam acompanhando essa fic (L) Sei que tem muita gente que não gosta de histórias só de Personagens Originais, mas ela tem toda uma importância para a Trilogia :D Espero que continuem lendo e gostando tanto quanto eu gosto de escrever.
Tammie.
