Capítulo Cinco

- Eu não acredito que você está arriscando tudo – incluindo sua própria vida – com um encontro desses.

Mark se encolheu ligeiramente quando percebeu o olhar furioso de seu chefe. Retraindo-se contra a cadeira, tomou o copo com a bebida que pedira minutos atrás e sorveu um longe gole, procurando calma.

Calma, e coragem.

- Pensei muito bem antes de tomar qualquer atitude e exigir um encontro com você. – disse após algum tempo, sério – Tomei todas as providências necessárias. A operação não está em risco, tampouco minha vida, isso eu posso assegurar.

- Seu idiota! – Robert Swan rosnou logo em seguida, a revolta ainda mascarada em suas feições tranqüilas e voz baixa, enganando qualquer curioso que porventura estivesse disposto a bisbilhotar – Você sabe como funciona tudo, nesse caso. Não importa quantas medidas você tome, sempre estará arriscando tudo por simplesmente contatar o departamento! Você, melhor do que qualquer um, deveria saber isso!

O Auror fez uma careta no mesmo instante que, do outro lado do clube, uma mulher vestindo nada além que pequenas peças de couro como shorts e top, além de uma mascara e chicote, arrancavam palmas, gritos e assovios de inúmeros homens, que se inclinavam em seu 'palco' como capazes de se aproximar mais e mais dela.

- Escute. – disse mal-humorado, as imagens de pesadelos passados ainda presos em sua memória graças ao lembrete cruel de seu chefe – Estamos bem longe da área de influencia de Perez – diabos, estamos praticamente fora do país, inclusive. Quando digo que tomei todas as providências, falo sério sobre -.

- Esqueça, Rutherford. Você já fez a merda, agora diga logo o que precisa para terminarmos com tudo por aqui e eu ver o que posso fazer. – o homem o dispensou, sua voz cheia de tédio e frustração.

Mark franziu o cenho, não pelo tom utilizado por Swan, mas compreender algo que não percebera até então. Pela primeira vez, encarou seu chefe além da fachada furiosa de um superior com medo de falhar a operação, e surpreendeu-se ao percebê-lo tenso e, de certo modo, , antes que pudesse questioná-lo sobre qualquer coisa, sua mente obrigou-o a focalizar no real motivo daquele encontro e, seguindo a orientação de Swan, disse em tom resoluto:

- Tire Camila da operação.

O homem arregalou olhos e ergueu sobrancelhas, evidenciando as rugas e linhas de expressão de seu rosto. Balançou a cabeça uma vez, depois outra, e quando finalmente falou, parecia preocupado:

- Ela cometeu algum erro?

Erro. O Auror se irritou. Lembrou-se do estado que encontrara sua parceira, quase uma semana atrás, e sua frustração parecera apenas se aprofundar. Tudo o que acontecia a ambos reduzia-os a migalhas, transformava-os em algo menor, e tudo o que seu superior poderia pensar era na droga de um erro -!.

- Ela não tem treinamento o suficiente. – forçou-se a dizer, as palavras soando amargas em seus lábios.

Swan franziu o cenho.

- Não tem? Ela é uma Auror formada, Mark. Uma Auror formada com notas melhores que as suas próprias notas de graduação, aliás.

- Mas não para esse tipo de operação. – o Auror o cortou, frustrado. Massageando uma das têmporas, continuou – Peça para Ferreira substituí-la.

O chefe pareceu ainda mais pensativo e irritado, mas Mark não lhe deu atenção. Ele estava frustrado, maldição, e tudo o que queria era tirar Camila dali o mais rápido possível -.

- Se Ferreira a escalou para esse tipo de trabalho, sabendo os riscos que pode sofrer caso ela falhe e toda a crise internacional, não sei por que você então a julga por -.

- Você não está me entendendo – ele o cortou mais uma vez, furioso – Ela é uma ótima Auror. Diabos, ela é excelente. Mas não para isso. Não para isso.

- O que você -.

- Ela praticamente tem se vendido para Perez em busca de informações!

Elevara o tom de voz, levado pelo nervosismo da situação. Felizmente, ao mesmo tempo em que praticamente gritara para seu chefe, a música para a entrada de uma nova stripper aumentou, acompanhada de mais gritos e assovios. Uma das dançarinas passou por eles, gracejando e piscando em suas direções. Swan apenas sorriu, quase cortês. Mark a ignorou por completo.

Quando a mulher se afastou, Swan fechou um dos punhos e o ergueu, como se o ameaçasse com um cascudo.

- Fale baixo seu idiota! – grunhiu, passando as mãos enrugadas pelos cabelos em seguida – E depois vem me dizer sobre ter cuidado de tudo, com uma atitude dessas - .

- Esqueça isso, esqueça isso! – Mark o interrompeu, zangado – Você vai tirá-la ou não?

- Você sabe que não posso.

Ele sabia, mas isso não o impedia de tentar.

- Você pode -.

- Ela não é minha subordinada, Rutherford. Oliveira é subordinada à Ferreira.

- Fale com Ferreira, então. – insistiu. Seu chefe o encarou por alguns segundos, antes de bufar entediado.

- Mark -.

- Ela pode acabar ferrando com nossa posição caso continue na operação. – interpôs, antes que o bruxo pudesse dizer qualquer coisa. Em seguida, diminuiu o tom agressivo e continuou, agora mais suave: - Sei que numa operação dessas deveríamos estar mais do que cientes sobre toda merda que eventualmente faríamos, em prol de resultados, mas... Quero dizer, ela está sozinha, praticamente, depois que Cruz foi praticamente chutado do rol de Perez. Não só isso, mas todos esses meses estivemos andando em círculos.

Robert Swan ergueu as sobrancelhas, antes de franzir o cenho - Mark não gostou da expressão que se seguiu em seu rosto.

- Vocês não descobriram nada?

- Não o necessário, não o suficiente... Pelo menos não o suficiente nesses tempos de guerra, no caso. – resmungou, massageando o pescoço com uma das mãos, cansado. Swan comprimiu os lábios, antes de resmungar algumas maldições, fazendo com que Mark franzisse o cenho: - Senhor? O que há -.

- Faça o suficiente para manter você e a garota protegidos, Rutherford.

- Mas o que -.

- Manteremos contato. – disse apressadamente, erguendo-se e largando algumas notas sobre a mesa – Enquanto isso, continue com a operação e cuidem um do outro.

- Mas o senhor disse -.

- Não posso entrar em detalhes. Simplesmente faça o que eu disse.

Mark franziu o cenho ante à figura agitada de seu chefe. Quando foi que -.

- Sim, senhor. – murmurou contrariado, observando Swan afastar-se da mesa e dirigir-se à saída.


- N-não, você não entende...

O que Richard não entendia, exatamente, ficou perdido entre o silêncio e o gemido baixo que Helena soltara quando ele começara a beijar e mordiscar seu pescoço, dedicando todo um tempo para especialmente para ele. Sentira-a estremecer em seus braços, e sentiu-se arrogante com isso, sorrindo entre as caricias que distribuía, seus lábios colados à pele da legista.

Ele ergueu o rosto, seus olhos encontrando os castanhos da legista, tão claros que pareciam mel.

- Não entendo o que? – perguntou em voz baixa, rouco. Ergueu uma sobrancelha, sorriu em seguida quando ela corou e balançou a cabeça em negativa, frenética.

- Eu não gosto de você. – ela respondeu, mas o tom de sua voz a traíra, e aquelas palavras não tiveram força ou sentido para nenhum dos dois. Mesmo assim, Helena continuou: - Eu estava bêbada -.

- Uh. – fora a resposta de Richard, beijando-a com voracidade em seguida. Ela, contrariando mais uma vez a si mesma, retribuiu o beijo com talvez igual desejo e paixão. As mãos dele corriam por seu rosto, pescoço, cabelos... Brincavam com as barras de suas roupas, deslizavam por entre os tecidos, alcançando sua pele, arrepiando-a.

Richard fechou a porta do pequeno aposento que os legistas – e alguns Aurores - usavam como dormitório atrás de si, e logo girou Helena de modo que ela encostasse à porta. Ele sorriu entre os beijos quando sentiu as mãos quentes da mulher encontrar o caminho por entre seu moletom e camiseta.

- Richard, eu não gosto de você. – ela disse pela segunda vez quando seus lábios se separaram, as respirações misturando-se e as mãos encontrando seus próprios caminhos por entre os corpos de cada um. O Auror respondeu sua constatação com um bufo sarcástico. Quando tornou a beijá-la e provocá-la, ela amoleceu em seus braços ainda mais, mas mesmo assim continuou: - Aquilo foi uma besteira. Eu estava bêbada. E isso não vai acontecer novamente.

- É claro.

O jaleco branco caiu no chão. Ela não o impediu.


- Se continuarmos com este ritmo em dois anos, teremos crédito o suficiente para levarmos o pedido até o Conselho Geral. – Camila disse por fim, pousando cuidadosamente a pasta em suas mãos sobre a mesa. Seu tom era decidido e tranqüilo, passando a exata imagem de alguém que compreendia suas palavras.

Controlada, consciente.

Correta.

Encarando brevemente Eduardo Correia, ele assentiu de forma sutil para ela, aprovando todo seu discurso. Sentiu-se brevemente calma e feliz com aquela opinião, porque Eduardo sempre fora um homem de negócios, sempre o bom diplomata, e aquilo significava estar no caminho certo.

Contudo, era uma pena que alguns diretores não acreditavam nela. Ou quase todos os presentes, no caso. E isso definitivamente não era algo positivo à continuação do bom humor da mulher, considerando toda a correria que participava nos últimos dias por causa da carga exaustiva de trabalho que Eduardo Correia a obrigava a passar ultimamente.

- Nem se continuássemos por mais vinte anos conseguiríamos uma aprovação do Conselho. – o diretor mexicano retrucou, seu tom carregado em desdém – Quero dizer, sejamos sinceros Camila, desde quando a droga do mundo se importa conosco?

- Não é questão de importância, é questão de segurança. O mundo bruxo não é o mesmo que de dez, quinze anos atrás. – ela pontuou, mantendo o tom educado e procurando se afastar de qualquer pensamento frustrado diante do descrédito sempre presente naquele homem – Não é mais questão de um bruxo das trevas apavorando um único país – é algo global. É uma rede. Temos que mostrar que precisamos nos reciclar, caso quisermos proteger o que nos é importante. Se mostrarmos que unificar os departamentos é a maneira mais sensata de -.

- Bem, concordo com Hernandez nesta. – o diretor colombiano interveio, muito para o desgosto da Auror – Se um bando de países mais fortes fizesse isso, talvez até existisse algum crédito... Mas nós? Nossos países não são importantes – e sejamos sinceros, Camila, a única diretora que possui algum crédito aqui é você. E isso apenas por ter trabalhado em casos famosos... Se fosse questão de país, ou de diretoria, estaria tão na lama quanto nós.

A mulher manteve sua postura impassível, apesar de fechar um dos punhos por baixo da mesa. Antes que pudesse expor, educadamente, mais uma vez, sua opinião, o diretor argentino completou, muito para seu desgosto:

- Não que você não esteja na lama, se formos francos. Desde que decidiu ajudar aquele americano a se safar do Conselho Geral, seu departamento tem praticamente caído aos pedaços.

Houve um murmúrio de aprovação entre os presentes, suas cabeças assentindo e olhares indo de uns aos outros. Em seguida, dirigiam seus olhares para a brasileira, como se esperassem alguma reação. Camila ainda o fitava em silêncio, como se ainda absorvendo a notícia de modo que qualquer reação que decidisse não causasse um inferno em seguida.

O argentino continuou:

- Brosseau nunca a engoliu, mas é de opinião geral que ele a respeitava – ou, pelo menos, o suficiente para nunca intervir em suas decisões a respeito do departamento, ou do número de homens que contratava. Agora, mais da metade dos homens sob seu comando é graças às concessões que outros diretores fazem, incluindo nós aqui presentes.

A diretora chilena, ao lado do argentino, assentiu freneticamente. Pequena e de cabelos alaranjados, ela continuou, seu falando em um rápido espanhol:

- Realmente, os cortes no seu orçamento são assustadores. E se você, que é a representante do Departamento Unificado, não possui algum prestigio com o Conselho Geral, que antes de qualquer órgão deveria ser nosso principal suporte, como espera que consigamos abrir os olhos dos outros? Como espera que consigamos sobreviver por mais dois anos? E se Brosseau optar por cortar os orçamentos daqui, também? Afinal, somos apenas um plano... Um teste -.

- Brosseau não cortará orçamentos do Unificado. – Camila a interrompeu, o rosto contorcido em exasperação – A ideia de criação deste grupo partiu de um de seus homens, e ele sabe que este departamento é uma boa pedida. O máximo que pode acontecer é ele me destituir por algum motivo que apenas sua mente insana e doentia criar -.

Ela se calou diante dos olhares surpresos de alguns dos presentes, percebendo que havia passado dos limites. Nenhum estava acostumado a criticar ou até mesmo desgostar do carismático e competente Denis Brosseau. O próprio Richard, a quem sempre possuía uma opinião semelhante à de Camila, apenas começou a concordar sobre Brosseau quando o Departamento sofrera conseqüências diante de seus caprichos.

Até então, apenas ela o considerava um babaca arrogante que adorava mostrar seu poder através de dedos apontados enquanto saboreava alguma bebida cara, com seu traseiro gordo amaciado por sua poltrona de couro.

Bem, Mark também não gostava dele, obviamente.

Apesar dos olhares surpresos, até mesmo assustados, ela não voltaria atrás com suas palavras. Considerava o homem extremamente incompetente e caprichoso e, diante de todos os acontecimentos recentes, acreditava até mesmo possuir provas favoráveis em seu favor.

Além disso, sobre ser destituída... A verdade é que ela não poderia se importar menos com aquilo. Estava exausta daquele trabalho burocrático duplo e, Jesus Cristo, ela não havia se formado Auror para lidar com burocracia!

O diretor paraguaio balançou a cabeça, procurando acalmar os ânimos dos presentes:

- Bem, não estamos aqui para criticar Brosseau ou Camila, certo? A reunião é para discutir o quão proveitoso o Departamento tem sido até então, e nossas chances -.

- Esse é o problema, não temos chances! – o mexicano retrucou, seu tom de voz se elevando consideravelmente – Já não tínhamos muita desde o inicio, mas desde que ela – e apontou arrogantemente para a diretora brasileira, que fechou a cara ainda mais – quis se passar por superior a um Conselho inteiro -. – balançando a cabeça negativamente, decretou: - Mas essa é Camila Oliveira, certo? Sempre arrogante demais para olhar para algo além do próprio umbigo!

- Ah, pelo amor de Deus! – Camila reclamou, perdendo todo o desejo de se manter diplomática naquela discussão. Já bastavam os jornais inventando mentiras e mentiras a seu respeito durante um ano inteiro, e agora ela teria que escutar de um homem que apenas comparecia ao Departamento para tirar seu salário, deixando todo o trabalho para o subdiretor e seus subordinados falar sobre o quão errada ela fora ao defender alguém de algo que não possuíra culpa? – Se acredita que o Unificado vai afundar por minha causa, Hernandez, por que diabos você não faz algo de útil na vida e assume o meu lugar, então, ao invés de ficar reclamando todo o tempo?

O inferno se armara ali. O mexicano se erguera, o maxilar forte contorcido em pura fúria, enquanto a Auror fazia o mesmo, nada impressionada pelo tamanho e olhar feroz que aquele bruxo possuía. Fuzilou o homem por segundos, até que a discussão entre os dois se seguisse com ambos falando ao mesmo tempo, enquanto alguns poucos tentavam amenizar a situação – e outros, ainda, assistiam e comentavam excitados e agitados sobre aquela bagunça.

Todo mundo adora uma confusão.

A porta da sala de reuniões se abriu justo no momento mais caótico da situação. Poucos foram os olhares dirigidos ao Auror de cabelos curtos e olhos castanhos, entre eles o de Camila, que ignorara propositalmente o mexicano – para a fúria do mesmo.

Reconhecendo seu subordinado, a Auror franziu o cenho.

- Miguel? – chamou-o, ignorando os gritos que o mexicano dava buscando sua atenção. Fez um gesto com a mão para que ele se aproximasse, mas o Auror negou com a cabeça, preferindo manter uma distancia saudável – e segura – entre ele e todos os outros diretores.

- Sei que está ocupada – começou incerto, medindo suas palavras – mas será que você pode me acompanhar, chefe? Há algo que requer sua atenção.

Ele não precisava dizer duas vezes. Sabendo da dificuldade que o departamento se encontrava por falta de homens e desejando sair daquele circo de aberrações o mais rápido possível, o pedido de seu subordinado fora mais como uma prece atendida que qualquer outra coisa. Afastando-se da mesa, encarou Eduardo Correia, que a mirava indignado e pronto para protestar e disse:

- Termine a reunião, Eduardo, por favor. Remarque-a para... – quando o inferno congelar, ela pensou -... Bem, acredito que você seja capaz de marcar uma data propicia para todos os diretores.

Estava pronta para acompanhar o Auror quando o mexicano explodiu:

- Isso, Camila, saia! Prove sua tremenda incompetência em lidar diplomaticamente as situações! Prove que Ferreira errou ao colocá-la na liderança. Prove que Brosseau está certo em acabar com você, sua vaca estúpida!

A porta se fechou sem que ela respondesse às ofensas.

Diplomaticamente, o meu rabo.

O prazer do silêncio. Se Camila estivesse sozinha, ela teria até mesmo suspirado e refletido em que resposta ela poderia ter dado aquele homem infeliz. Contudo, como não estava, encarou Miguel Carvalho com o cenho franzido, perguntando:

- E então, o que aconteceu?

- Não encontro Cooper em lugar algum, e há algo realmente preocupante que encontrei a respeito do caso dele. E como eu não o encontrei -.

- Tudo bem, você pode me passar. – ela o assegurou, o rosto mostrando a súbita frustração que sentiu com a ausência do subdiretor, algo somado à raiva que ainda sentia a respeito daquela reunião com os outros diretores. O Auror assentiu, e começou a caminhar pelo corredor branco e desprovido de qualquer tipo de enfeite, num pedido silencioso para que ela o seguisse.

- Bem, você sabe que Cooper estava encarregado de um homicídio bruxo numa área residencial trouxa? – ela assentiu, e ele continuou: - Pois bem, Richard me informou hoje pela manhã que não encontrou a menina, ou algum desaparecido que se assemelhasse a menina em qualquer arquivo. Quero dizer, é como se essa garota praticamente não existisse no mundo bruxo.

- Continue. – ela o incentivou quando o Auror abriu uma das portas daquele corredor para ela, levando-os a uma nova área daquele andar – o ponto de comunicação entre as polícias trouxas e bruxas.

- Isso foi muito esquisito, certo? Porque toda criança desaparecida é imediatamente registrada no banco de dados de qualquer departamento, no caso dos dados internacionais, pelo menos. Mas se a menina não estava em sequer um dos dois -.

- Pode ser que os pais ainda não tivessem se dado conta do desaparecimento. No caso, pouco tempo havia se passado desde que ela foi raptada ou qualquer coisa do tipo. – ela supôs, e o agente assentiu.

- Sim, foi o que pensei inicialmente. Mas então Antônio Carlos apareceu por aqui, e algumas peças se encaixaram.

Camila franziu o cenho, e Miguel Carvalho a guiou até um dos escritórios cujas persianas estavam abaixadas. Ao abrir a porta, a diretora visualizou Antônio Carlos sentado em um sofá velho do local, que imediatamente se levantou para saudá-la.

- A menina foi encontrada em uma lista de desaparecidos trouxa. – Miguel terminou, com Antônio Carlos assentindo ao fundo.

- O quê? – ela perguntou, aturdida, encarando de um homem para o outro – Mas Richard disse que foi confirmada a presença de magia no local -.

- Bem, os exames confirmando se a vitima era ou não bruxa ainda estão para sair, mas todas as informações sobre ela bateram com essa menina trouxa desaparecida. – Antônio Carlos respondeu, estendendo-lhe uma pasta. Camila abriu-a, dando de cara com um rosto infantil e sorridente de uma criança que não parecia possuir problema algum – Acabei entrando em contato com essa lista por acaso, porque precisei cobrir um camarada hoje pela manhã e ele trabalha na área. E como eu vi o corpo da vitima quando foi encontrada, há quase uma semana... Bem, junte os pontos.

Vendo-a viva e não com uma máscara macabra de morte trazia estranha e macabra familiaridade à Camila. Ela desviou os olhos da foto, e encarou os homens que agora se colocavam lado-a-lado, frente a ela.

Uma menina trouxa morta por bruxos? Que diabos?

- Qual a chance dos pais serem bruxos? – perguntou em voz baixa, o rosto contorcido em concentração. Pais com identidades suspeitas, fogem com seus filhos para o mundo trouxa a fim de protegê-los de quaisquer perigos que poderiam passar no mundo bruxo -.

- Já solicitamos toda a informação possível a respeito dos nomes dos pais, e sobre a garota. Tanto a Polícia quanto o Departamento estão buscando por algo que possa nos ajudar.

Camila lançou um breve olhar para a filiação da menina. Evelyn e Zachary Harleigh. Aqueles nomes não lhe diziam nada além do fato daquela garota ser estrangeira, apenas acrescentavam mais e mais incógnitas.

- Mande tudo para meu escritório. – ela pediu, fechando a pasta que continha a foto da garota viva – Eu vou até o necrotério, ver se consigo acelerar qualquer exame a respeito do corpo. Caso algum de vocês encontre Richard, diga que o ajudarei no caso e que toda a informação a respeito da menina estará comigo.

Eles assentiram, mas Camila já estava saindo daquele escritório, a pasta da menina em mãos. A pasta a respeito de Claire Harleigh, trouxa, desaparecida desde abril de 2004, duas semanas antes de completar dez anos.

Supostamente morta por um bruxo.

Que diabos.


- Helena, precisamos conversar.

As palavras saíram suaves, gentis em seu tom de voz baixo e até mesmo carinhoso. Richard estava apoiado em um de seus cotovelos ao lado da legista, dividindo a pequena cama improvisada dentro daquele cômodo. Os olhos, tranqüilos, a estudavam enquanto ele acariciava seu rosto e brincava com seus cabelos ondulados.

Virando o rosto para encará-lo, Helena balançou a cabeça, sarcástica.

- Você quer conversar agora? Acho que é um pouco tarde demais para isso.

O Auror fez uma careta, como se pesando as palavras da mulher. Em seguida, franziu o cenho e respondeu:

- Falo sério. Quanto mais demorarmos a nos definirmos, mais complicado ficará.

Helena ergueu as sobrancelhas, um ar cético espalhando-se em suas feições. Estudou o olhar de Richard por alguns segundos, antes de dizer:

- O que há de complicado nisso? Nós sequer -.

- Eu gosto de você.

Ela piscou, arregalando os olhos em seguida. Antes que pudesse dizer alguma coisa, Richard inclinou-se de modo que seus rostos ficassem muito próximos. Encararam-se, em silêncio, e ela percebeu a seriedade em seus olhos.

Contudo, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, a porta se abriu, assustando a ambos e principalmente ao recém-chegado. Helena soltou um suspiro alto e assustado, desesperando-se em se cobrir com o lençol, Richard caiu da pequena cama.

Camila, por sua vez, ficou ali à porta, a mão à maçaneta, os lábios entreabertos e a expressão aturdida. Não demorou muito para que tal expressão fosse substituída por uma indignada e, em seguida, irritada. A cota de seu dia para estresse havia atingido o limite.

- Eu não acredito nisso. – ela disse em voz baixa, sentindo a tensão cobrir seus ombros e maxilar - Então era por isso que você não respondia aos chamados de praticamente o Departamento inteiro, Cooper? – em seguida, dirigiu o olhar furioso para a irmã, acrescentando: - O mundo procurando por vocês, e onde vocês aí, esquecendo da vida e trepando como dois coelhinhos!

- Chamadas, mas o quê -.

- Mila, calma aí, você não precisa ofender! Nós -.

- Você, vista alguma coisa, pelo amor de Deus. – ela olhou para Richard com desgosto, apontando para a situação do Auror. Dirigiu-se então para Helena – Você, volte ao seu trabalho antes que eu ferre ainda mais a situação do Departamento e decida suspender os dois! – balançando a cabeça, completou: - Não acredito. Já estamos com um desfalque idiota de pessoas aqui para sem que vocês precisem desaparecer do mundo!

- Olha, eu sei que o que a gente fez -.

- Nem uma palavra, Richard, ou eu te faço assoviar o hino nacional. – Camila o ameaçou, fechando um punho em sua direção – Eu o quero na minha sala em cinco minutos. Cinco! Encontraram informações importantes a respeito do caso – caso que agora eu também participarei. E Helena, eu a quero no pé de todos os responsáveis pelo exame, porque os quero para ontem.

Dando as costas para o casal aturdido com tamanha explosão, ela completou:

- E eu juro por Deus que se isso acontecer mais uma vez no meio de uma investigação, podendo comprometer todo o caso, eu – eu... Argh!

A porta se fechou com força.


Ela ainda espumava quando finalmente chegou a seu escritório. Abriu a porta de forma estúpida, sentindo vontade de chutar alguma coisa – ou alguém. De preferência Richard.

Foi quando seus olhos reconheceram a presença de mais uma pessoa naquele lugar.

Michael Stuart estava em pé, observando distraidamente o grande número de livros em sua estante. Assustando-se ligeiramente com o barulho, ele virou-se, e encararam-se.

Camila foi a primeira a se manifestar, como quem não acreditava na própria falta de sorte:

- Ah, pelo amor de Deus!

Michael não gostou de sua interjeição; os lábios comprimiram-se e a expressão se contorceu, o sentimento de rejeição evidente. Camila tentou, sem muito êxito, colocar a irritação em cheque, diminuindo sua postura altiva e fechando os olhos. Passou a mão pelos cabelos, afastando a franja que soltara de seu rabo de cavalo do rosto e inspirou profundamente.

Quando acreditou estar pronta para encará-lo, segundos mais tarde, abriu os olhos e encontrou o namorado a estudando com uma carranca, os braços cruzados a postura tensa. Ela abriu os lábios para começar, mas Michael fora mais rápido:

- Oh, você quer que eu vá embora? Você não parece muito bem.

Não fora uma pergunta gentil, carregada em preocupação. Na verdade, o tom transformara a pergunta em algo extremamente amargo e desdenhoso, e a Auror o encarou por alguns segundos em descrédito antes de soltar um barulho mal humorado pela boca e balançar a cabeça, o rosto carregado em exasperação.

- Tem razão, eu não estou. Peço desculpas por ter descontado minha irritação em você.

Ela fizera questão que suas palavras não soassem sinceras, embora soubesse estar errada a respeito de como recebera o diretor britânico. Ele franziu o cenho e ela percebeu o maxilar tenso, como se controlando a própria irritação, e sentira prazer nisso – ela não queria ser a única a andar em um campo minado com o humor das pessoas, e no momento estava cansada de tentar agradar o mundo inteiro. Sabia que sua atitude era infantil e péssima, mas no momento, não importava.

Ainda mais porque ela ainda queria bater em Michael por sua atitude no Conselho.

Mantendo os braços cruzados, o Auror inspirou de modo profundo, e tornou a falar, mais controlado:

- Você não responde às minhas mensagens.

Eles se encararam. Camila não dissimulou ou negou a situação.

- Você não me dá sinais de vida há quase duas semanas, Camila.

- E parece que isso não foi o suficiente para que você percebesse.

Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso.

- O quê? Você terminou comigo?

- Eu não disse isso.

- Foi o que soou.

- Estive ocupada. – ela respondeu mal-humorada, caminhando até sua escrivaninha, passando por ele. Michael segurou seu braço, obrigando-a a parar, obrigando-a a ficar próxima a ele – E quis dizer que não queria falar com você. Ainda não quero. – acrescentou, erguendo os olhos da mão que segurava seu braço para as íris castanhas do bruxo.

Ele balançou a cabeça, incredulidade presa em suas feições.

- Você está irritada ainda com o negócio do Conselho Geral. – não era uma pergunta, e ela não dissimulou a situação.

- O que você acha?

- Camila, eu não tenho que perder minha personalidade e opinião porque estamos em um relacionamento -.

- Nunca pedi para que o fizesse. - ela retrucou secamente – Mas o que você fez, Michael, foi bem mais do que simplesmente ir contra uma opinião.

Ela deu um puxão com o braço, afastando-o da mão do namorado, que a encarou com uma expressão indignada. Seguiu até sua escrivaninha, ignorando a atenção de Michael sobre si, percebendo que já haviam encaminhado toda a documentação pedida a respeito do caso da menina. Abriu uma das pastas, contendo algumas fotos que a família disponibilizara, mas, antes que pudesse observar atentamente alguma, Michael lhe desviou a atenção, dizendo:

- Você só acha que o que fiz foi além de ir contra uma opinião porque é sobre Rutherford que estamos falando.

A pasta fora esquecida aberta em suas mãos, enquanto ela erguia o rosto para encará-lo com os lábios entreabertos, o semblante indignado.

- O que você quer dizer com isso? – ela perguntou em voz baixa, as expressões contorcendo-se em uma careta lentamente. Ele balançou a cabeça, agora em desdém.

- O que você acha? – fora a vez de ele perguntar. Camila continuou o encarando em silêncio, indignada, as palavras de Richard questionando sobre os ciúmes de Michael o influenciando em suas decisões repercutindo em seus pensamentos – Você defende o homem como se -.

- Como se o quê? – ela largou a pasta em sua escrivaninha, pousando as mãos nos quadris em seguida, o tom de sua voz alto. A força da pergunta de Richard agora era excruciante em seu cérebro, e no momento ela se questionava como nunca havia considerado essa possibilidade até que ele mencionasse.

Ciúmes.

De repente, ela estava de volta àquela última audiência, ao lado de Mark e Robert Swan, observando alguns dos participantes erguerem as mãos concordando com as palavras de Brosseau. Entre tantos braços erguidos – muitos dos adoradores de Brosseau – ali estava Michael, impecável em seu terno e gravata, e sua mão erguida.

A sensação de traição fora enorme, seguida de incompreensão e, agora, quase duas semanas mais tarde, raiva, por finalmente compreender algumas atitudes.

Tudo por causa de ciúmes -.

- Pare de se fazer de desentendida, Camila! – Michael reclamou, o rosto tão zangado quanto o dela – Em todo esse tempo, você acha que eu não percebi como vocês se encaravam? Vocês dois, a maneira como vocês dois se tocavam -.

- Oh, havia me esquecido disso. Eu o encarava com profundo desejo, realmente, porque sempre tive um tesão enorme por foder com um preso!

Ele se calou, horrorizado, perante a sua má educação, expressa tão claramente, e ela se sentiu satisfeita com aquele feito. Cruzando os braços, imitando o diretor, ela continuou, agora de maneira séria e sem sarcasmo:

- Eu o admiro, Mike. Apenas isso, eu o admiro. Passei por muita coisa ao lado dele para conhecer sua personalidade, e saber que todas as acusações que ele sofreu durante esse processo não passam de péssimas, péssimas mentiras. E, naquele dia, quando você levantou sua mão, concordando com essas mentiras, você optou em confiar em seus ciúmes e acatar toda aquela besteira ao invés de confiar em mim. Você optou em destruir a vida de uma pessoa, toda uma carreira dela, porque você não possui confiança em nada. ela fechou os punhos, sentindo-se mais uma vez num pico de nervosismo, simplesmente por se recordar de toda a situação (e, realmente, expressá-la em voz alta parecia transformar a situação em algo ainda ridículo e pior) – E que tipo de casal nós somos, se você é incapaz de confiar em mim, em nós?

- Eu não baseei minha decisão por causa de ciúmes -!

- Não, claro que não. – Camila retrucou, azeda – E é claro que suas acusações sobre o fato de eu traí-lo com Mark segundos atrás não está relacionado com toda essa situação.

Michael estava pronto para responder quando a porta do escritório de Camila se abriu, revelando Richard Cooper. Ele piscou, os olhos verdes confusos indo de sua antiga parceira para o diretor britânico.

- Eu não sabia que vocês estavam... Bem. – ele deu de ombros, e encarou Camila com um olhar de desculpas – Eu vou esperar vocês terminarem até -.

- Não se preocupe. – ela respondeu, seus olhos nunca desviando dos do diretor – Michael já estava de partida.

Ela viu a dor estampada nas feições do namorado, mas não se sentiu culpada pela situação. A conversa em si já havia a incomodado muito para que ela pudesse se sentir, de alguma maneira, penalizada por aquele homem, àquele momento.

Admitindo que contrariá-la não o levaria a lugar algum, Michael assumiu sua derrota e, assentindo, afastou-se. Contudo, quando chegou à porta, virou-se, e disse para a namorada:

- Vou buscá-la ao fim de seu trabalho. Precisamos conversar.

A porta se fechou, deixando Camila e Richard em silêncio por alguns segundos, ambos encarando o lugar onde o homem estivera segundos atrás. Por fim, o bruxo fitou a Auror em questionamento e ela balançou a cabeça, dizendo:

- Nem queira saber.

Ela fechou a pasta com as fotos disponibilizadas pela família à época do desaparecimento de Claire Harleigh – ignorando os pequenos vislumbres de balões coloridos e pessoas sorridentes – e tornou sua atenção para outra pasta, estendendo-a a Richard.

- Aqui há o endereço da família, e o depoimento dos pais a respeito do dia do desaparecimento da vitima. – disse, toda profissional, enquanto o Auror lia as informações contidas na pasta – O que Helena disse sobre os exames?

- Ela tentará apressá-los. – ele disse com ligeiro desinteresse, absorto no que lia – Podemos ir hoje mesmo falar com os pais? Ainda não está tarde para -.

- Eu pensei nisso. – Camila admitiu – Mas até conseguirmos ler toda a papelada será tarde e resolvermos determinadas burocracias, e até agendarmos uma Chave do Portal e conseguirmos conversar com a família -.

- Então vamos amanhã cedo. – Richard resolveu - Com sorte, a gente conversa não apenas com a mãe, mas com o pai também antes que ele saia para trabalhar.

Ela assentiu. Richard completou, agora mais cuidadoso:

- E você pode se resolver com seu namorado também sem nenhuma desculpa de ficar presa no trabalho.

Camila não respondeu ou o encarou.

Continua.


Notas: Aos que reclamavam da demora, aqui está mais um capítulo! Aliás, eu demorei mais porque queria adiantar mesmo os capítulos (já estou começando o capítulo nove no word, hahaha). Assim, caso eu fique afundada nos vestibulares mais pra frente, posso postar sem demorar tanto. Afinal, esse ano tem Filosofia e Sociologia para estudar, já que a UEL que me aguarde (!) hahaha

(Ai, se eu fosse tão boa assim com as outras fics, Jesus...)

Agradecimentos ao Pedro e a Bruna pelos comentários, sempre tão atenciosos :)

Tammie.