Capítulo Seis

O festival estava um saco.

Mark agradeceu quando uma das atendentes da barraca de bebidas lhe serviu um colorido coquetel de frutas e dirigiu sua atenção para a multidão alvoroçada, andando de um lado para o outro para desfrutar do que cada barraca oferecia com seus amigos e acompanhantes. A noite estava estrelada e clara graças à lua cheia, e contrastava de maneira interessante com as inúmeras luzes do festival de verão.

O pão e circo de Mathias Perez para sua gente, o Auror pensou com desgosto.

Segurando um suspiro entediado, estendeu seu coquetel a sua acompanhante com um fingido sorriso jovial.

- Ah, muito obrigada, John! – ela finalmente largou seu braço, aceitando a bebida – Nossa, essa noite está maravilhosa!

- Não vimos ainda todas as atrações. – disse gentil, o convite sutil naquela frase – O que acha de -.

- É claro! – ela riu, praticamente o puxando em seguida.

Mirella Nunez era uma jovem bonita – a típica beleza estonteante de uma latino-americana. Cabelos cacheados, lábios cheios, corpo curvilíneo. Inteligente e agradável também – isto é, quando não estava bêbada, o que infelizmente era o caso.

Mark a encontrara pela primeira vez em uma de suas visitas pela cidade, em um bar próximo ao hotel que a suposta Vitória Azevedo estava hospedada, desfrutando de alguns petiscos com pessoas a quem o bruxo sabia estar relacionada à Perez – vira pelo menos metade delas na primeira festinha privativa do homem, quando ele ainda possuía o disfarce de Antonio Cruz. Após uma pequena pesquisa, sabia já o suficiente para perceber que aproximar-se daquela jovem era algo positivo para a operação.

Qual melhor oportunidade aparecia à sua frente após conhecer a sobrinha do homem?

E era o que fazia agora já há alguns dias – talvez três ou quatro – sob a identidade de um jornalista britânico que escrevia um artigo sobre os famosos e deliciosos festejos que se realizavam na ilha para O Profeta Diário.

Eles seguiram, juntos, através da massa empolgada de adultos e crianças, sempre de braços dados, com ele se esforçando ao máximo para retribuir toda a atenção que a jovem lhe dava. Não menos de uma vez percebeu olhares de homens em sua direção, e fingiu não perceber os cenhos franzidos dos mesmos, como se preparados para atacá-lo – ou prontos para qualquer ordem.

Continuou seu ato, ignorando-os – tinha que fazer Mirella feliz àquela noite, o máximo possível. Mark precisava tanto das informações quanto garantir a própria segurança, fazendo tal ação.

- Olhe, a apresentação de dança começa em quinze minutos! – ela espremeu-se contra ele quando o lugar parecera ainda mais abarrotado de gente; a bebida há muito já havia acabado, e Mirella apenas segurava o copo vazio agora – O que você acha de -.

- Claro, claro. Acho uma ótima ideia -.

- Podemos seguir para perto do lago mais tarde, o que me diz?

- Você é quem comanda, doçura.

Ela sorriu – parecia mais nova quando o fazia. Tomando o copo vazio de suas mãos macias com gentileza, ele o descartou e entrelaçou seus dedos nos dela, caminhando relaxado ao seu lado em direção ao local.

A apresentação de dança mostrou-se tão enfadonha quanto toda a festa em si. Contudo, Mark apreciou o pequeno momento de reflexão que ganhou com aquelas dançarinas – todos os que se encaminharam ao local pareciam encantados com as jovens bailarinas, e Mirella não era uma exceção, acolhida em um abraço por Mark, descansando as costas em seu peito.

Há mais ou menos quinze metros de distância deles, próximo ao palco, o local estava fechado com mesas, cadeiras, e toda uma arrumação estilo havaiano, reservado para o criador do evento e seus convidados. Observando de soslaio, o Auror percebeu o número considerável de seguranças. Não demorou muito para que seus olhos encontrassem Mathias Perez, reunido com um numero suficiente de homens e mulheres vestidos elegantemente.

E ali, ao lado de Perez, estava ela.

Camila.

Ela estava impecável em seu vestido azul marinho – o tecido caía como luva para o corpo esculpido de Vitória Azevedo, otimizando todos os aspectos positivos na mulher.

Os olhos violetas, ressaltados pela maquiagem, pareciam ainda mais chamativos. Os lábios vermelhos, cheios, estavam curvados em um sorriso divertido - e com uma promessa velada ao homem que agora tinha sua atenção.

Perez.

Mark a assistiu se inclinar ligeiramente na direção do homem, enquanto o mesmo rodeava um dos braços por seus ombros descobertos. Ela parecia distraí-lo de todo seu arredor - ele a viu sorrir, sedutora - viu Perez usar a mão livre para deslizar por sua mandíbula delicada, para em seguida descer e pousá-la sobre a perna da mulher, sobre sua coxa, tão próxima à -.

O Auror franziu o cenho levemente, os lábios comprimindo-se enquanto assistia Camila sussurrar algo no ouvido do homem, arrancando uma gargalhada do mesmo. Imaginou os lábios vermelhos roçando na orelha do mesmo, o tom de voz baixa e rouca -.

Perez riu, e em seguida a beijou assim que ela se afastou o suficiente para que ele pudesse olhar em seus olhos.

O franzir de cenho do Auror se intensificou, e toda sua expressão endureceu, obrigando-se a manter a concentração e não demonstrar emoção alguma. Não era como se possuísse algum sentimento romântico por Camila – ele não se sentia capaz de disso, com qualquer um, não depois de tudo que acontecera com Rebecca -, mas Mark não podia evitar a raiva que crescia dentro de si ao ver aquela cena, e se lembrar de uma Camila implorando, às lágrimas, para que ele a tirasse de tudo aquilo.

Ele parecia quebrar cada vez que se lembrava dela chorando.


Richard e Camila seguiram o resto da tarde em silêncio, concentrados em arquivos antigos e informações obtidas através de exames na vitima ou através do que haviam conseguido na lista de desaparecidos. O acidente entre ele e Helena ou o aparecimento de Michael Stuart não havia sido mencionado entre eles até então.

- Aqui diz algo sobre a vítima não ter sido morta por um feitiço. – Camila comentou lentamente, ainda absorta no que lia. Richard ergueu o rosto das várias fotos que estudava e a encarou por alguns segundos, situando-se, antes de responder:

- Apesar de obviamente existir vestígios de magia por todo o apartamento, Helena encontrou um... Machucado no crânio da vítima, acima da nuca, em formato de meia lua.

- De acordo com ela, essa foi a causa de morte. – a Auror comentou, indicando a pasta em seu colo com a cabeça num ligeiro movimento.

- Perimortem, e aquela parte da cabeça foi praticamente achatada pelo... O que quer que tenha sido a arma utilizada. Helena disse que se a morte não foi instantâneo – o que provavelmente foi o que nosso agressor pensou, por ter lançado uma maldição na morte nela -, não demoraria mais que alguns minutos para que ela morresse por hemorragia ou -.

- Helena não deu nenhuma suposição?

- Pela forma como foi deixada no crânio, ela disse se sentir segura em afirmar ser um resultado causado por um martelo, ou algo do tipo.

- Algo do tipo não me traz segurança. – Camila murmurou com ligeira exasperação.

- Bem, faz sentido. Havia um martelo ali. Então acredito que você não possa tirar o crédito de Helena por -.

Aquilo atraiu a atenção da Auror novamente.

- Alguma coisa? – ela o interrompeu.

- Sangue, um pedaço do crânio. Todo o DNA pertencia à garota.

A vítima então sofria um ataque com um martelo, incapacitando-a de qualquer defesa – seja porque ela morrera imediatamente ou caíra inconsciente. Pela forma que o crânio fora danificado, o agressor era maior, entre vinte a vinte e cinco centímetros. A vítima caíra de joelhos após o impacto, e em seguida de bruços, no chão – as escoriações em seus joelhos e bochecha esquerda eram uma boa prova disso, se bem que de acordo com a Helena, ele provavelmente a havia empurrado em direção ao chão após cair de joelhos. Então, como se precisasse se certificar de seu próprio trabalho, ele a amaldiçoa com um Avada Kedavra.

Ela já estava morta quando ele a virou, de barriga para cima – havia lividez em suas costas, condizendo com a situação. O ato de abrir seu abdome e expor seus órgãos fora realizado no post mortem, o que explicava os ferimentos sem sangue. De acordo com Helena, também, o intervalo entre a morte e a exposição de seus órgãos fora de duas a três horas. Camila franziu o cenho ao ler isso.

Ele não estava com pressa.

A questão é, o que ele estava fazendo ali durante esse tempo?

Ela já havia conversado brevemente com Richard a hipótese da exposição dos órgãos e de como a garota fora encontrada uma maneira de aterrorizar alguém – se eles ou uma terceira pessoa, ainda não saberiam dizer. O pensamento voltou à sua mente, e ela se questionou mais uma vez acerca do assunto.

Com a quebra do rigor mortis, realizado por Helena e Pedro Albuquerque -.

...

Camila parou de ler, erguendo o rosto para Richard, os lábios entreabertos e os olhos surpresos. Balançou a cabeça uma vez, e depois outra antes de questionar, indignada:

- Ela foi atacada sexualmente antes e depois de ser assassinada?

Richard a encarou mais uma vez, agora assustado pela voz alta o indagando. Situou-se mais uma vez e inspirou, assentindo antes de responder:

- Existiam feridas perimortem e post mortem no canal vaginal. Helena também encontrou esperma com mobilidade, mas não conseguimos conectar ninguém ao -.

- Ficha limpa. – ela murmurou, balançando a cabeça – Droga, eu não consigo separar hipótese alguma que pareça a mais plausível para a situação.

- Eu sei disso. Quero dizer, por enquanto, temos que duvidar até mesmo dos pais -.

- Você encontrou alguma coisa?

- Não. Os Harleigh são trouxas, assim como a filha. Zachary Harleigh é um pediatra dono de uma clínica da cidade, Evelyn Harleigh não trabalha desde o nascimento de Claire. Recentemente, Evelyn Harleigh deu a luz a gêmeos idênticos. Não há muita informação sobre eles.

- Tem que existir alguma coisa. Eventualmente, alguma coisa vai aparecer. – tornando sua atenção para o relatório, acrescentou: - Em qualquer situação há o maldito padrão. E nós vamos encontrá-lo.

Richard apenas assentiu, não realmente atento às palavras da Auror. Seus olhos analisaram, tristemente, a foto em suas mãos, antes de balançar a cabeça e colocá-la em seu colo para logo pegar outra foto. Seguiram nesse silêncio por alguns segundos, até que o homem comentasse:

- Ela era uma criança linda. Não há uma foto em que ela apareça mal humorada, ou triste.

- Talvez porque os pais não queriam mostrar essa face da filha deles para os oficiais. – Camila comentou indiferente, ainda absorta nas informações que Helena transcrevera.

- Não acredito que seja o caso. – ele discordou, estendendo-lhe uma das fotos para a bruxa – Aqui, veja só.

Ela o encarou com uma das sobrancelhas erguidas antes de tornar sua atenção para a fotografia trouxa. Ali, a menina Harleigh segurava-se em um balanço, os cabelos escuros presos em uma fita azul, como o céu, combinando com seus olhos. As bochechas estavam coradas, talvez pelo sol ou pelo calor do dia, a alça esquerda de seu vestido caía-lhe pelo ombro e o sorriso era algo extremamente bonito de se ver. Na verdade, Claire Harleigh era uma criança muito bonita – o que não era de grande surpresa, tendo em vista que a mãe da garota parecia uma modelo, praticamente.

Camila lhe devolveu a foto, não dizendo ou expressando qualquer sentimento. Dos dois, Richard sempre fora o que precisava se envolver emocionalmente com as pessoas, as vítimas, enquanto ela buscava um ponto de distanciamento das mesmas, apesar de se envolver, às vezes até mesmo carregada de raiva, com a história e a situação em si. Apesar de sentir pelas pessoas envolvidas, e muito, ela reconhecia que se deixasse aquela parte de sua personalidade se meter, de nada adiantaria para as investigações – em verdade, só atrapalharia.

Quase perdera a vida quando se deixara envolver, e ela não precisava de uma segunda experiência para aprender. As vítimas precisavam ser vista de um ponto de vista parcial e não sentimental, enquanto a incredulidade a respeito das desgraças deveria fazê-la seguir em busca de justiça.

- Então - o bruxo começou, como quem não parecia realmente interessado com o que ia dizer – o que vai acontecer entre você e Stuart hoje?

Ela ergueu as sobrancelhas e fez uma careta, surpresa com a súbita mudança no assunto.

- Desculpe?

- Ah, você sabe, você não parecia estar se acertando com ele aqui. Pelo contrário -.

- Ainda estou irritada com ele, mas não é porque estamos irritados que significa que vamos terminar. Na verdade, antes de tudo isso estava muito bem um com o outro... – ela se calou ao perceber a careta desdenhosa de Richard -... Qual é o problema? – perguntou, incerta.

- Eu não sei Mila, não sou o melhor cara para falar sobre relacionamentos -.

- Mas?

- Vocês nunca me pareceram exatamente bem.

- Como não? Mike e eu nos damos muito bem! – ela rebateu indignada – Ele é uma ótima companhia, agradável, inteligente e -.

- Essa é a questão, às vezes parece que vocês dois... Entende?

- Não. – murmurou, franzindo o cenho.

- Vocês dois parecem mais colegas com benefícios do que realmente amantes.

Camila o encarou por alguns segundos, a confusão em seu rosto. Por fim, encolheu os ombros e comentou:

- Somos discretos.

- Não, não. Você não está me entendo – às vezes parece que não há algo além de respeito e gosto pela companhia que um faz ao outro. Às vezes parece que não há amor entre vocês. Sabe, cumplicidade, toda uma construção de um relacionamento...

Silêncio. Então:

- Realmente, você não é o melhor cara para falar sobre isso. – ela respondeu, o cenho franzido agora evidenciando não confusão, mas irritação.

E o assunto acabara ali.

O problema era que ela ficaria com aquele comentário o dia todo na cabeça.


Camila saiu as sete do trabalho, fatigada. Além de conversar e debater hipóteses com Richard fora chamada à sala de necropsia para assistir a outro grupo, em outro caso, e também fora obrigada a gastar quase duas horas em uma reunião com Eduardo Correia e o diretor que a ofendera mais cedo, tudo pelas relações diplomáticas.

Oh, como ela odiava política e toda a falsidade que vinha com aquilo.

Depois, ainda, conseguira com Miguel outras informações a respeito do casal Harleigh, mas estava tão cansada que prometera a si mesma ler no dia seguinte logo pela manhã, antes de partirem aos Estados Unidos.

Ergueu o rosto, encontrando Michael ao pé da escada, com as mãos no bolso e o olhar solene, esperando-a. Perguntou-se por quanto tempo ele estava ali, ou se havia acabado de chegar, e sentiu-se mal educada ao imaginar que ele poderia estar ali por horas.

- Você não está aqui há muito tempo, não é? – questionou-o quando ficou de frente a ele, contorcendo ligeiramente o rosto em uma careta preocupada. Michael deu de ombros, e estendendo-lhe a mão, disse com tranqüilidade:

- Não se preocupe com isso.

Ela segurou sua mão, apesar de não se sentir muito tentada a fazê-lo. Ele começou a caminhar, e tudo o que ela pôde fazer era segui-lo. Michael não tardou a dizer que iriam jantar em um restaurante na São Paulo bruxa, próximo ao Departamento. Daquela forma, poderiam ir a pé e desfrutar a companhia um do outro, nem que fosse através do silêncio.

E foi exatamente o que aconteceu. Camila não se sentia disposta a iniciar uma conversa com Michael – ainda mais sabendo que aquilo inevitavelmente acarretaria uma discussão a respeito das ultimas semanas – e ele não a pressionou. Simplesmente seguiram silenciosos, procurando aproveitar pelo menos a companhia do outro. O problema era, enquanto eles seguiam naquele momento crescentemente desconfortável, Camila parecia se apegar às palavras de Richard, pesando cada atitude deles como um casal e se questionando se realmente existia algo ali além de mútua atração sexual.

O restaurante era pequeno e confortável. Por ser relativamente novo e desconhecido, não existiam muitos fregueses, então não se existia a necessidade de reservar seus lugares. Apresentaram-se na recepção, e logo eram guiados pelas mesas bem arrumadas e com estranha recepção caseira até uma mesa com vista para a iluminada e excêntrica São Paulo trouxa. Por ser ligeiramente afastada das demais mesas, possuía certa privacidade, o que era agradável. Michael a abraçou pelos ombros, sentado ao lado dela, e logo eles receberam o cardápio para fazerem seus pedidos.

Ele pediu por lasanha, ela optou por uma salada colorida contendo frutos do mar e carpaccio de salmão. O garçom partiu com seus pedidos, e o silêncio tornou a aparecer entre os dois, desconfortável. Camila encostou-se à parede, ao lado da enorme janela e deixou com que os olhos perdessem-se em toda aquela iluminação paulistana.

- É incrível como os trouxas conseguem sobreviver sem magia. – Michael comentou, tirando-a de seu pequeno momento solitário e agradável. Encarando-o, seu rosto tão próximo ao dela, suspirou e assentiu, preferindo usar aquele caminho ao invés de responder de forma grosseira e iniciar o que ainda poderia esperar.

- Hm. – murmurou, aconchegando-se no abraço do namorado. Michael pareceu hesitar por alguns segundos, como que surpreso pela súbita atitude dela, antes de inspirar e dizer com certa cautela:

- Camila, eu não concordei com Brosseau por causa de ciúmes. Sei que provavelmente você não vai acreditar em mim, mas essa é a verdade. Eu... Senti ciúmes, sim, mas isso não influenciou minha decisão.

Ah, ótima maneira de deixar tudo para mais tarde, Mike. Muito obrigada.

Ela ergueu a cabeça do ombro dele para encará-lo, e ficou assim por alguns segundos, incerta sobre o que dizer. Havia uma mistura de raiva e pena, pensamentos furiosos, apaixonados, e cansaço por todas as situações, e ela parecia incapaz de se expressar corretamente.

Por fim, balançou a cabeça e murmurou:

- Tudo bem.

Assunto encerrado.

Sim, ela não acreditava nele – desde que Richard lhe mencionara aquela hipótese de ciúmes, ela jamais fora capaz de pensar em qualquer outra situação que fizesse o diretor concordar com Brosseau – mas, ao mesmo tempo, sentia-se tão cansada por causa do trabalho e das ultimas semanas corridas que não se sentia simplesmente disposta a bater o pé no chão e apontar todas as provas que indicavam seus erros. Ao mesmo tempo, uma pequena voz, no fundo de sua mente, simplesmente dizia o quanto não se importava com o que ele pensava, afinal.

E isso, somado com os comentários de Richard mais cedo sobre o quão... não-casal eles eram, preocupavam-na. Há quanto tempo isso acontecia? Há quanto tempo um buscava o outro apenas pela companhia, pelo sexo? Pensando bem, Camila não se lembrava de uma única vez que compartilhara realmente sua vida com Michael – nem ao menos sobre todo o alvoroço do Conselho com Mark fora algo resultante de suas conversas; ela protegia o cara e, no dia seguinte, lá estava o homem que seria seu namorado, pronto para defendê-lo também. Nunca existira nenhum acordo entre eles.

Sobre absolutamente...Nada.

Os assuntos sempre giravam em temas leves, e se existia alguma coisa que eles discordassem, simplesmente evitavam tocar no assunto, para não se frustrarem. Aquilo parecia um acordo natural.

E tudo permanecia leve entre eles. Ele perguntava sobre seu dia e ela sobre o dele, mas nenhum dos dois jamais parecia realmente interessado com a resposta – apenas queriam um assunto fluindo, e só. E quando o assunto acabava -.

Bem, pelo menos o sexo era bom. Muito bom.

Mas aquilo não era realmente um relacionamento, certo?

Certo?

Uma garçonete apareceu com seus pedidos – e sorriu abertamente para os dois, como se os contemplando. Estaria ela admirando ou se questionando o tipo de casal que somos? Camila brincou com a ideia por alguns segundos, até que substituiu o questionamento por outro, em que ela se perguntava se a mulher também havia percebido que eles poderiam ser tudo ali, menos um casal.

Teria ela percebido o quanto ambos eram patéticos?


A porta do hotel fechou-se com força graças ao pontapé que Michael dera. Nenhum dos dois pareceu se importar com o estrondo, ambos ocupados demais em desabotoarem camisas e abrirem jaquetas, beijos desajeitados e necessitados correndo por suas bocas e pescoços. A jaqueta de Camila caiu ao chão, enroscando-se aos tornozelos de Michael quando o mesmo a empurrou com o corpo, de modo que as costas da Auror encontrassem com a parede do quarto. Ele imediatamente se ocupou de deslizar as mãos por dentro de sua blusa, beijando e mordiscando seu pescoço. Apertava-a, massageava-a.

Fazia-a se render. Fazia-a deixar de ser a controladora que era.

Eles terminaram na cama de hotel, já de madrugada, com Camila deitada de barriga para cima, o lençol macio cobrindo-a acima dos seios, a mão esquerda pousada na barriga enquanto a outra repousava ao lado do corpo. Ao seu lado, Michael dormia de bruços, um dos braços descansando sobre ela, suas mãos próximas de se alcançarem. A respiração dele tão próxima esquentava sua orelha esquerda e pescoço, mas ela não parecia se importar.

Continuou ali, parada, com os olhos fixos no teto do quarto. O barulho de carros havia diminuído severamente, indicando o quão tarde já devia ser. Virou o rosto levemente, observando o céu tingido em roxo, tão forte que se misturava a vinho e azul marinho. Poderiam ser três ou quatro horas, ela não saberia dizer.

Na verdade, não saberia dizer sobre nada, pelo menos nada além de frases soltas e confusas, mas que no momento lhe eram o suficientes. Quando foi que eles haviam se perdido, ela e Mike? Fora por causa do que acontecera no Conselho, ou será que aquilo – aquele nada – era algo com histórico anterior a toda aquela confusão? Por que nenhum dos dois havia percebido isso antes? Nunca existira realmente algo além de respeito por ser quem eram, nunca existira amor?

Desde quando tudo se perdera?

Michael a apertou contra si, aproximando-a. Inspirou profundamente, distante em seu sonho, sua mão encontrando a dela, como se a buscasse, como se desejasse que ela também se rendesse a -.

- Herm... mione.

O murmúrio preencheu o aposento por segundos mais tarde, ainda, e após isso nenhum dos dois tiveram reação alguma. Michael continuou dormindo, Camila continuou com os olhos fixos ao teto, afundada em sua própria linha de raciocínio. Ela virou o rosto mais tarde, seus olhos encontrando as feições inexpressivas de um Michael adormecido. Os lábios entreabertos, os cabelos cada vez mais grisalhos, as rugas de expressão no canto de seus olhos e em sua testa, marcas de todo o estresse que passava como diretor -.

Eu... Eu deveria estar arrasada.

Camila soltou sua mão da dele, e em seguida seu braço. Ergueu-se da cama, procurando por suas roupas e sapatos. Vestiu-se em silêncio, com vagar, ignorando o Michael Stuart que ainda dormia. Calçou os sapatos e prendeu o cabelo, tentando ajeitá-lo inutilmente com as mãos. Arrependeu-se de nunca carregar uma escova de cabelo na bolsa pela primeira vez.

Em seguida, saiu do quarto, pensando o quanto queria um banho e dormir na própria cama, livre daqueles pensamentos, que logo se tornariam lembranças. Livre daquele cheiro que parecia impregnado em sua pele.

Michael apenas notaria sua presença horas mais tarde, quando já tivesse amanhecido, quando ela já tivesse retornado à sua vida, ao seu trabalho, ao que realmente importava, sem ele.

Mas não sinto nada.

Continua.