Capítulo Sete

- Seu idiota!

Mark fechou a pasta com toda a documentação já obtida de Mathias Perez sobre a mesa e se ergueu, suspirando, enquanto a porta do pequeno quarto de hotel era fechada num estrondo. Cruzando os braços sobre o peito, esperou a dona dos passos pesados e irritadiços aparecerem em seu campo de visão, ainda com o vestido azul marinho e a maquiagem que antes adornava as feições de Vitória Azevedo – e que, nas feições mais delicadas de Camila, pareciam simplesmente a arte de uma criança que não sabia se arrumar.

E ela apareceu, com a sandália em mãos e o cabelo desprendendo do bonito penteado que antes portava. Por conta da Poção Polissuco ainda não ter saído por completo, algumas mechas de seu cabelo castanho estavam ligeiramente loiras, como luzes que, aos poucos, sumiam.

- Qual é o seu problema? – ela praticamente gritou a pergunta, os punhos fechados enquanto avançava sobre ele – Indo até aquela droga de festa... Com a sobrinha de Perez, nada menos! E sem disfarce – Deus do céu, você apareceu como você! Eu quase tive um ataque quando um dos armários de Perez o descreveu, falando que era você quem estava com a menininha do cara!

Antes que ele pudesse responder qualquer coisa, a Auror jogou uma das sandálias em sua direção, com força. Mark se desviou com facilidade.

- Camila -.

- Você ia me dizer? Você ia me contar? – intimou, o outro par da sandália sacudindo em sua mão direita – Você tem alguma ideia do que isso poderia ter causado a você? Ou a mim? Você sabe o quanto arriscou essa noite simplesmente por se colocar ao lado de alguém próximo a Perez? E o pior, sem me comunicar, sem me contar sobre esse seu plano louco -.

- Me escute -.

- Perez o viu! Ficou furioso, enlouquecido! Queria que imediatamente o pegassem e o levassem até ele! Um estrangeiro com minha sobrinha, a quem tenho como uma filha, ele dizia! O homem ficou tão louco de ciúmes que queria matá-lo no mesmo segundo!

Ela jogou o par da sandália. Ele não conseguiu se desviar dessa vez, tendo o ombro atingido pelo salto.

- Você não tem a menor ideia do quanto eu tive que fazer para que o babaca esquecesse-se de você!

Aquilo atraiu a atenção irrestrita do Auror, que arregalou os olhos e a encarou perplexo, já julgando suas palavras, mas ela não parecia abalada com sua própria situação, dirigindo toda sua raiva para ele, ainda. Em seguida, a mulher estava praticamente sobre ele, os punhos batendo contra sua clavícula, peito e ombros.

- Você é um perfeito babaca! O que passa na sua cabeça, Rutherford? Somos uma equipe, droga! Uma dupla! E mesmo assim, você acha que pode tomar decisões e fazer tudo o que lhe dá na cabeça! O que você pensava ao fazer isso?

- Em você. Eu pensava em você.

A resposta baixa, culpada, a desarmou. Camila parou de falar, o rosto agora aturdido, os lábios entreabertos, o xingamento há muito perdido em sua mente. O silêncio caiu entre os dois Aurores, os olhos presos um no outro. Demorou até que Camila, aturdida, sussurrasse:

- O que você quer dizer com isso?

O que diabos ela achava que ele queria dizer? Mark se perguntou, franzindo o cenho subitamente para a jovem. Não fora ele que prometera tirá-la da operação? Não fora ele que prometera que ela não precisaria mais chegar perto de Perez? Já haviam se passado semanas desde sua promessa a Camila, e cada dia perdido eram um golpe em sua paciência, e um ponto para seu desespero.

Ele a queria longe de Perez, também.

Entreabriu os lábios, mas não emitiu som algum. Por alguma razão, não parecia capaz de expressar o obvio – de algum modo, aquela resposta não parecia suficiente.

Verdadeira.

Ela o encarava com aqueles olhos verdes, confusos, próxima a ele. Algumas mechas castanhas caiam em seu rosto, por conseqüência do penteado que se desfazia crescentemente. Os lábios entreabertos, como se prontos para questioná-lo mais uma vez, ainda que toda sua expressão parecesse desarmada de qualquer força -.

Mark não saberia explicar o que havia passado em sua cabeça quando ele destruiu a distância entre eles, as mãos pousando sobre as bochechas de Camila e seus lábios encontrando os dela. Em um segundo, observava-a, relembrando todos os acontecimentos do evento, relembrando a raiva que sentira, a frustração que tinha por si próprio – os toques, os beijos – e, no instante seguinte -.

Isso não era o que ele queria dizer... Isso não era o que ele queria dizer...

Mas, por algum momento de loucura, ele queria senti-la, ele precisava saber que sua parceira, Camila, era real, e não apenas uma máscara por trás de um personagem – ela era verdadeira... Ela, não Vitória. Ela não era Vitoria Azevedo, e Vitoria jamais seria Camila...

Seus lábios não eram cheios, a espessura de seus cabelos eram completamente diferentes, até mesmo a forma como reagiam a toques não coincidiam. Vitoria sempre parecia saber o que fazer, sempre parecia se divertir, de forma quase depravada, com cada provocação ou promessa velada que dirigia a Perez, enquanto Camila parecia simplesmente congelada em seu lugar, aturdida demais para reagir.

O beijo fora apenas algo estalado. Mark se afastou, ainda mantendo as mãos sobre as bochechas alvas da Auror, e seus olhares se encontraram – ambos confusos.


- Qual é o tipo de comida que Helena mais gosta?

A pergunta quase tímida de Richard lhe tirara a concentração. Surpresa, Camila ergueu os olhos da pasta com as fotos de Claire Harleigh em seu colo e o fitou com as sobrancelhas erguidas. Estudou-o por alguns segundos, incerta sobre o que responder, sobre como lidar com aquele pequeno ar esperançoso preenchendo as feições do homem que era, além de um antigo parceiro, um grande amigo.

- Eu – bem... Pizza, acho.

A esperança diluiu-se em ligeira chateação.

- Não posso levá-la a uma pizzaria! – ele choramingou, mais para si do que para Camila, cruzando os braços sobre o peito e afundando-se na cadeira, como uma criança.

- Por que não? – ela perguntou, agora aturdida com as expressões do homem. Richard a mirou, surpreso que ela o tivesse escutado, e pareceu encabulado.

- Não é romântico o suficiente.

Camila entreabriu os lábios, estarrecida com aquele comportamento e com suas palavras. Com as fotos da menina Harleigh esquecidas na pasta, simplesmente ficou ali, procurando compreender onde havia se escondido toda a arrogância e confiança que Richard sempre pareceu possuir. De repente, ele não era mais seu amigo, mas um desconhecido - nunca havia presenciado esse tipo de comportamento no Auror, e tinha de admitir, era muito constrangedor observá-lo agir daquela maneira.

Romantismo?

- Helena é uma pessoa romântica, apesar de toda sua posição cética a respeito do mundo. – disse por fim, cautelosa. Ele a encarou exasperado.

- Eu sei disso, é por isso que -!.

- Mas – ela o interrompeu, franzindo o cenho pela frustração do Auror – você pode compensar com um grande programa a dois. Leve-a em uma pizzaria, e depois faça algo... Romântico. Lena sempre fica bem mais humorada depois de uma pizza.

O silêncio caiu entre os dois, constrangedor. A situação era tão esquisita para ela quanto para ele; enquanto era embaraçoso dar dicas sobre como conquistar a própria irmã (sem contar ela, cujo histórico sentimental era digno de risos), para Richard era envergonhoso mostrar-se embaraçado sobre como agradar a uma mulher. Por fim, ele murmurou, com a cabeça baixa:

- Olha, e-eu - Esqueça o que eu disse.

- Sem problemas. – fora a resposta rápida, como se sentisse agradecida pelo pedido do amigo.

Ela fechou a pasta e olhou para o relógio de pulso, mais para ter o que fazer que qualquer outra coisa. A Chave do Portal estaria pronta as seis, faltando ainda vinte minutos. Após isso, seguiriam até o Departamento americano, para que um Auror do país os acompanhasse, seguindo o protocolo. O Auror não os atrapalharia, mas ele seria uma figura importante caso eles quisessem atuar em solo estrangeiro.

Provavelmente, chegariam à casa dos Harleigh às sete e meia, dez para as oito no máximo. Com sorte, talvez até conseguissem encontrar Zachary Harleigh ainda em casa.

- Deveríamos ter deixado a Assistência Social lidar com isso. – Richard murmurou, ainda com os braços cruzados e largado à cadeira.

- Não é uma situação rotineira. – ela explicou, repetindo as mesmas palavras do dia anterior, exasperada – Há muita coisa que teremos que explicar para os pais, trouxas -.

- Que seja, que seja. – resmungou ele. Camila girou os olhos, suspirando em seguida. Sabia que o Auror só estava zangado, pois detestava lidar com parentes de vítimas, apesar de ser muito bom em tal tarefa; contudo, ela não havia dormido àquela noite, chegando a casa apenas para tomar um banho e seguir para o trabalho, então não estava no dia para ser a criatura mais compreensiva do mundo a respeito dos incômodos do amigo.

Bocejando, olhou para o relógio mais uma vez, torcendo para que estivessem mais próximos de continuarem com seu trabalho.

Um minuto havia se passado.


A Auror que os esperava mais parecia uma adolescente do que uma agente da lei. Ela os recebeu com um ar sério, mas aquilo não ajudava a deixá-la com as feições mais adultas. Se Richard tivesse que adivinhar, não diria que aquela mulher – garota – era mais velha que uma líder de torcida.

Ela e Camila apertaram as mãos, e em seguida a atenção da jovem se dirigiu para ele, repetindo o gesto. Apesar de todo aquele profissionalismo, o Auror era incapaz de não imaginá-la com saias e pompons.

Quando ela deu as costas aos dois, dizendo para que eles a seguissem, ele abaixou o rosto e reprimiu um riso, fazendo com que Camila o encarasse com repreensão, apesar da careta confusa. Ele lançou um pequeno gesto com a cabeça, indicando a jovem Auror que caminhava de forma altiva as suas frentes. Agora que ela mostrava sua personalidade indiferente e sem emoções, a imagem daquela garota vestindo um uniforme de líder de torcida parecia ainda mais engraçada. Deus, ela deveria estar no colégio, não prendendo bandidos!

Camila a encarou, para depois encarar Richard de novo, confusa, até que finalmente compreendesse o que o Auror achava tão engraçado. Abriu a boca para repreendê-lo, mas então a Auror virara-se, súbita, para encará-los, e ambos esboçaram sorrisos receptivos e forçados – tentando parecer agradáveis ou naturais, nenhum dos dois saberia dizer.

A jovem pareceu não perceber suas atitudes – ou as ignorou completamente.

- Estamos em uma área segura para aparatarmos. – ela os avisou, seu tom como o de uma secretária eletrônica obrigando Richard a morder levemente o lábio inferior para controlar uma risada. A Auror estendeu dois pedaços de papel para eles, contendo o endereço do local – Estaremos a mais ou menos três quadras da casa dos Harleigh, salvo das atenções trouxas. – ressaltou mecânica - Às suas ordens, diretora Oliveira.

- Estamos prontos. – Camila assentiu para a jovem assim que seus olhos percorreram pelas palavras, e cotovelou Richard quando a Auror dera às costas aos dois, repreendendo-o com o olhar. Ainda parecendo indiferente à situação, a jovem fez um floreio bonito com sua varinha e, junto com um rodopio, desapareceu.

Richard caiu na gargalhada. A diretora apenas o encarou por alguns segundos, antes de perguntar:

- Eu quero realmente saber?

- Mila – eu – você – pompons!

- Foi o que pensei. – ela murmurou, exasperada, repetindo o gesto anterior da Auror e aparatando também.

O bairro onde os Harleigh moravam era, de certo modo, algo que Camila já esperava. Os jardins verdes e as casas bonitas, de classe média americana eram muito parecidos com os de vários filmes e seriados que vira quando criança. Os três bruxos seguiram discretamente pela calçada tão bem cuidada, não atraindo atenção mais do que necessária dos moradores do local.

- Aquela é a casa dos Harleigh. – disse a Auror, apontando para uma casa bege e com grandes janelas brancas. A grama estava verde, e alguém ali parecia realmente gostar de jardinagem, vendo pelas bonitas flores que adornavam os canteiros. A casa, assim como todo o bairro em si, parecia transmitir um ar de tranqüilidade.

- É estranho pensar que pessoas de um lugar como esse estejam relacionadas a algo tão cruel, mesmo que em posição de vítimas. – murmurou, não realmente percebendo que havia expressado seus pensamentos em voz alta. A Auror ao seu lado soltou um riso debochado, comentando:

- Isso é porque você não conhece a vida nos subúrbios de perto, realmente.

Eles pararam à soleira da porta da casa dos Harleigh e a Auror apertou a campainha. Ela inspirou profundamente, as mãos abertas ao lado de seu corpo, soltas. Richard e Camila se entreolharam, sabendo que aquele inicio de conversa deveria se dar através do governo americano. Ela explicaria o necessário, faria as apresentações, e então os dois Aurores poderiam seguir com seu trabalho. Richard esticou os braços, bocejando abertamente – e recebendo um olhar de censura da americana – enquanto Camila simplesmente checava as horas.

Oito horas. Zachary Harleigh certamente não estaria mais em casa. Camila continuou encarando a vizinhança, ligeiramente distraída. Viu uma bicicleta parada à garagem da casa da frente, e imaginou se as crianças do bairro eram unidas, se brincavam juntas com freqüência. Antes que percebesse, viu Claire Harleigh rodeada por outras meninas e meninos, em alguma brincadeira qualquer.

O sorriso seria o mesmo visto nas fotos -.

A porta se abriu, e imediatamente a Auror adolescente estendeu sua mão, num cumprimento rápido e mecânico:

- Bom dia, senhora Harleigh, nós somos do – oh!

Ela corou e recolheu a mão ao perceber que não era uma mulher que havia a atendido. Richard cruzou os braços, erguendo uma sobrancelha, e Camila, que ainda parecia perdida em seus próprios pensamentos, murmurou para o canadense, sem realmente olhar para a porta ou para os presentes:

- Poderíamos conversar com as crianças, também – você sabe, algo informal. Apesar de ser ilegal, ainda mais por serem crianças trouxas -.

- Peço desculpas, diretor! Eu deveria – eu sei que – ai meu Deus, me desculpe!

A voz desafinada e com, finalmente, alguma expressão finalmente despertara Camila para a realidade, e ela, surpresa por toda a comoção utilizada pela Auror – como se ela conhecesse a pessoa que atendera a porta – olhou para o causador da estranha situação.

Seu queixo caiu.

- Mark?

Ele deveria ter acabado de acordar – vira aquela cara de sono muitas vezes por dia para se esquecer com facilidade dela. Os cabelos ainda estavam ligeiramente compridos, como da última vez que o vira horas antes de ser liberado da prisão. A barba estava crescendo de novo, como da última vez. Descalço, vestindo uma calça de moletom e uma camiseta que obviamente tivera dias melhores, ele parecia estar no ápice de sua preguiça e descaso para o mundo. Até mesmo sua postura exalava indolência, apesar de toda a formalidade que a garota lhe apresentara.

Mas apesar de toda a indiferença mostrada por seu corpo, seus olhos mostravam que ele estava tão surpreso quanto ela, que ainda o encarava com os lábios entreabertos.

- Eu... Não sou mais diretor. – murmurou para a garota, lentamente, ainda aturdido. Dirigindo sua atenção para Camila, perguntou: - Aconteceu alguma coisa? É por isso que estão aqui?

Richard parecia pronto para algum comentário sarcástico, mas Camila o interrompeu num tom nervoso, como que compreendendo o que ele queria dizer:

- O quê? N-não! Não é nada a respeito do Conselho ou de você, não se preocupe -!.

- Não tenho muita certeza que não pode ser relacionado a ele. – Richard murmurou com deboche, desviando sua atenção dos presentes para encarar a rua – Pelo menos há relação entre bruxos e trouxas nessa história, finalmente.

Mark franziu o cenho, estudando o canadense em silêncio. Antes que ele pudesse perguntar alguma coisa, contudo, a Auror americana pareceu retornar ao seu estado – ou pelo menos o suficiente para que pudesse continuar com o que fora designada a fazer – e questionou-o com um tom embaraçado e respeitoso:

- Diretor – digo, senhor Rutherford, o senhor pode nos informar se esta é a residência de Zachary e Evelyn Harleigh?

O ar de descaso desapareceu de suas expressões. Apesar de continuar desgrenhado e descalço – Camila não conseguia deixar de reparar naquele curioso detalhe -, sua postura endureceu, e ele parecia ter retornado ao antigo ar de Auror que possuía. Alcançando a maçaneta com uma das mãos, colocando-se entre a porta aberta e o batente da mesma, questionou num tom seco não para a jovem que lhe fizera a pergunta, mas para Camila:

- O que vocês querem?

O ar defensivo fora óbvio para todos os presentes. Richard, apesar da súbita irritação que sentiu ao escutar a forma como aquela pergunta fora feita, abriu um largo sorriso, e o dispensou em seu conhecido tom blasé:

- Com você, por enquanto, nada. Mas se for paciente, teremos algumas perguntas para você também, colega.

- Acho que você é inteligente o suficiente para entender que me referi ao assunto que vocês teriam com Evelyn, não comigo – foi a resposta de Mark, não se importando em florear a situação ou ser diplomático, seja em palavras ou expressões faciais. O sorriso de Richard não vacilou, mas Camila percebeu sua mão ir imediatamente ao encontro de sua varinha. Mark, não parecendo incomodado com a ameaça, completou, seu tom praticamente imitando o do canadense de maneira pejorativa: - colega.

Ela colocou sua mão sobre o braço de Richard, impedindo-o de continuar com suas intenções – Deus sabia o quanto ele poderia ser pior que Andrade e Gouveia juntos, em quesito de discrição, quando queria, e ela realmente não estava disposta a gastar tempo de investigação apagando a memória de quem quer que fosse daquele bairro que acabasse presenciando qualquer cena. Em seguida, avançou, ficando entre ele e Mark, com a Auror adolescente ao lado.

- Precisamos conversar com a senhora Harleigh a respeito de sua filha, Claire. – ela abriu o jogo, muito para o desgosto de Richard. Mas, naquela situação, Camila conhecia melhor os caminhos para que Mark cooperasse com eles – apesar de ambos serem conhecidos por intermináveis discussões, quando juntos. Assim como ela, ele era extremamente teimoso, e não disponibilizaria qualquer informação – diabos, ele até entraria em uma briga feia com Richard, se precisasse – enquanto eles também não lhe entregassem nada. Além disso, se o tom defensivo significava preocupação para com a mulher, Evelyn, ele realmente não os deixaria em paz até que deixasse de vê-los como uma ameaça a mesma.

Seu método pareceu resolver. Perdendo ligeiramente a postura defensiva, ele fez uma careta confusa, seguida de uma preocupada e balançou a cabeça.

- Evelyn é minha irmã. – ele concedeu, e Camila assentiu, satisfeita e o incentivando a continuar – Mas por que seu departamento estaria preocupado com Claire? Ela é trouxa, e nem estamos no Brasil ou -.

Mark a estudou, calando-se, e ela sabia que ele havia percebido sua hesitação em lhe dar muitas informações, fosse por que sabia que o que viria em seguida poderia perturbá-lo ou por culpa da investigação. Comprimiu os lábios, e começou em voz baixa ao ver que ele parecia se irritar com sua demora:

- Encontramos Claire. Havia vestígio de magia no local do crime.


A sala de estar era coberta por porta-retratos. Em estantes, sobre a lareira de estilo clássico, as figuras sorridentes e cheias de lembranças rodeavam os presentes.

Enquanto Richard sentava-se no confortável sofá creme da família Harleigh, sem ser convidado, e a Auror americana empoleirava-se ao lado do mesmo, em pé, claramente desaprovando a atitude do homem, Camila perambulou pela sala de estar, distraindo-se no ambiente e nas fotografias, esperando compreender o lugar e o tipo de vida que Claire levava antes que tantas desgraças lhe acontecessem.

O lugar era acolhedor, como tudo o que vira até então. Tudo trazia estranha sensação de familiaridade, e as fotos com pessoas conhecidas apenas aumentavam o efeito.

Havia um retrato do casamento dos Harleigh. Ambos sorriam abertamente, seus olhares cheios de amor, estáticos, saudando a desconhecida que hoje os admirava. A Auror franziu o cenho levemente, gravando os detalhes do casal (desde os cabelos loiros e brilhantes de Evelyn ao largo sorriso de Zachary, cujo um dos caninos era ligeiramente encavalado a outro dente) e em seguida sua atenção se voltou para a foto do lado.

Claire não deveria ter mais que cinco anos. Coberta dos pés a cabeça com farinha, sorria orgulhosa, exibindo o bolo malfeito à altura de sua cabeça, suas mãos pequenas amparadas por mãos maiores e mais velhas. Ao seu lado, Mark estava inclinado, ajudando-a exibir o bolo para quem quer que fosse o responsável pela máquina fotográfica. Ele também estava imundo em farinha, o rosto e os cabelos esbranquiçados pela mesma, e parecia orgulhoso de seu feito.

Agora que estavam dentro daquela casa, a presença do ex-diretor se fazia mais presente na vida dos residentes – algo que, nas fotos em sua pasta a respeito de Claire, não existia. Ora ele era o protagonista, ao lado de algum morador, ora o coadjuvante, esquecido ao fundo de algum acontecimento. Às vezes, Erick Rutherford também aparecia nas lembranças de Evelyn e Zachary Harleigh, com um pequeno sorriso simpático, quase sociável.

Ao escutar os passos ocos de Mark descendo as escadas, Camila desviou a atenção de sua imagem mais nova e mais sorridente para encará-lo. Percebeu, distraída, que nunca o vira sorrir como na foto, e pensou sobre o quanto não sabia sobre ele. Foram obrigados a trabalharem juntos, a confiarem suas vidas um no outro, pensava o quanto o conhecia, e mesmo assim ele ainda lhe era um desconhecido em tantas coisas...

Assim como ela era para ele.

Ao fundo, Richard sentou-se ereto no sofá, mas ao perceber que era o ex-diretor, fez uma careta e tornou a se largar no sofá.

- Evelyn já vai recebê-los. – ele disse em voz baixa, parando ao lado dela – Também avisei Zack, ele está a caminho.

Ele parecia estar levando muito bem a noticia– mas até então, Camila nunca o tinha visto surtar com notícia alguma. Quando descobriram que o companheiro de Nikki Rostova era Erick Rutherford, ele não surtara ou mascarara a verdade, simplesmente aquietou-se, seriamente, antes de começar a ditar ordens para capturar o irmão.

Mas ela sabia o quanto aquela calma nunca era verdadeira, por dentro – ele sempre fora muito bom em esconder o que sentia, afinal.

Unindo as próprias mãos às costas, num gesto suave, ela assentiu e comentou:

- Eu não sabia que você era nascido trouxa.

Fora apenas um palpite jogado em uma frase simples – afinal, ninguém havia mencionado os pais de Mark, e Evelyn poderia ser um aborto, como Karen -, mas ele encolheu os ombros e disse num tom de pouco caso, confirmando suas palavras:

- Além de Erick e eu, existia também um primo em segundo grau que era bruxo, mas nunca tivemos muito contato com ele. – estudando-a por alguns segundos, ele continuou num tom mais baixo, em seguida: - Vocês não sabiam que Evelyn e eu éramos parentes.

Não fora uma pergunta, e Camila não dissimulou situação alguma. Soltando a respiração pelos lábios, numa pequena atitude exasperada, ela questionou-o com certa ironia:

- Você não percebeu a surpresa, quando nos vimos?

- Assumi que não soubessem que eu estaria aqui, apenas.

- Não existia qualquer informação sobre sua relação com os Harleigh. – ela respondeu, cruzando os braços, sentindo-se subitamente incomodada com aquele fato; detestava não ter o controle de alguma situação, e encontrar-se com Mark depois de toda aquela confusão com o Conselho e Michael, sem ter se preparado...: - Está aqui há muito tempo?

A pergunta, na verdade, abrangia muitas outras questões – perguntas que se sentia nervosa e incerta em fazer, porque de certo modo relacionavam com o período do Conselho Geral, e ela ainda se sentia culpada por todo o desfecho daquela situação, por mais que ele tivesse dito, mais de uma vez após o veredicto, que ela fizera todo o possível, e ele estava grato.

- Há uns dois dias, acho. – Mark respondeu, não percebendo o súbito nervosismo que preenchera as feições de Camila – Eve e Zack discutiram, ele saiu de casa e ela me ligou aos prantos. Vim lhe fazer um pouco de companhia e ajudar com os bebês... Você sabe, não achei certo deixá-la sozinha com gêmeos, ela mal tirou os pontos da cesariana -.

Ele se calou ao perceber que falava mais do que o necessário e corou um pouco, desviando seus olhos dos de Camila, franzindo o cenho, incomodado com a própria atitude.

- Você sabe o motivo da discussão? – ela perguntou, e ele deu de ombros.

- Eve ainda está alterada por causa dos hormônios, Zack está constantemente irritado por problemas na clinica... Não é algo que eu queria realmente me intrometer. – ele a encarou nos olhos, e Camila percebeu a súbita mudança no humor do homem, e no ambiente entre os dois – Camila, sobre Claire -.

- Sim?

- Há alguma ideia de suspeito, ou os motivos -.

- Você sabe que eu não posso falar sobre isso.

Havia sinceras desculpas em sua voz. Ele não a pressionou, assentindo, mas havia certo incômodo ao responder:

- Não, tudo bem.

A porta se abriu, relevando a imagem de um Zachary pelo menos dez anos mais velho que os que ela vira em fotos. As marcas de expressão pareciam eternamente marcadas em seu rosto, e o cabelo com entradas faziam-na se questionar quando ele começara a perder o cabelo. Ele estudou Camila e Mark por alguns segundos, antes de torcer as expressões e perguntar:

- Evelyn... Onde está Evelyn?

- Aqui. – uma voz feminina e em tom baixo soou, melodiosa, ao pé da escada. Richard se ergueu, ereto em comprometimento, o que a Auror americana só podia girar os olhos em desdém.

Assim como Zachary Harleigh, Evelyn não era mais a mesma mulher das fotografias, apesar de ser dona de uma beleza estonteante da qual Camila jamais possuiria. Com os cabelos loiros presos, e vestida como se fosse a um encontro importante discutir negócios – enquanto seu irmão parecia sequer ter penteado o cabelo – ela encarou Richard com olhos de expectativa, orbes azuis carregados de emoções.

- Mark disse... Mark disse que vocês têm informações a respeito de Claire.

Continua.