Capitulo Oito

Mark ainda se lembrava de cada detalhe de Rebecca – os cabelos escuros, pesados e lisos, que caíam até a metade de suas costas, constantemente trançados; os olhos negros e amáveis, sempre sorridentes. Os lábios macios, a voz gentil, o toque muitas vezes materno com crianças que sequer faziam parte de sua família -.

Tinha quatorze anos quando a conhecera. Nathan o convidara para passar as férias de verão com sua família no sul do país.

Fora aquele sorriso largo que o cativara. Com o vestido dançando entre suas pernas magrelas enquanto ela se aproximava com Sarah para receber a Nathan e ele, Rebecca sorria com uma inocência que ele há muito havia perdido, apesar de possuir a mesma idade que ela.

Era inacreditável, hoje, pensar que o mesmo sorriso continuara mesmo anos mais tarde, em uma Rebecca mais madura e decidida. Mesmo com as dificuldades da vida, mesmo com os problemas que surgiam, a jovem sempre seguia com um bom humor inalterado, uma gentileza e doçura que encantavam a todos.

A todos, e especialmente a ele.

Começaram um namoro aos dezesseis – antes disso, viam-se quase todos os dias, na casa dos Madison, como grandes amigos junto a Nathan e Sarah. Quando Mark iniciara a Academia, os problemas relacionados a um relacionamento à distância surgiram, mas nada que não pudesse ser superado.

Próximo ao seu aniversário de vinte anos, em seu último ano de Academia, ele a pediu em casamento. Ainda se lembrava das lágrimas copiosas no rosto de Evelyn, quando soube das novidades. Ela o abraçava e soluçava, dizendo constantemente o quanto se sentia orgulhosa de que seu irmãozinho caçula havia crescido, e o quanto estava feliz por ele.

Contudo, aquela felicidade estava fadada ao fim.

Aos vinte e dois, Mark era considerado como um dos melhores Aurores do Departamento, o suficiente para ser escalado para operações que muitos veteranos matariam para conseguir. Em uma destas operações, em conjunto com mais quatro países, ele ajudou a desmascarar e prender um grupo de bruxos e bruxas que, além de realizarem inúmeros assaltos em bancos em todo o mundo, muitas vezes requeriam ajuda a pessoas ligadas direta ou indiretamente ao Lorde das Trevas.

Ele só fora descobrir que os criminosos mais importantes em tal grupo conseguiram fugir de tal apreensão e recolher informações a seu respeito e de mais dois Aurores quando não se podia fazer mais nada a respeito.

Seu pai e Rebecca foram assassinados na véspera de Natal do mesmo ano, enquanto sua mãe e Evelyn foram gravemente feridas – poupados apenas por um erro. Ele mesmo sobrevivera por milagre – com o tanto de sangue que perdera, Mark sabia que deveria estar morto. E, após acordar apenas dois meses depois de tal acontecimento, ao saber da morte de sua noiva, era o que ele queria que realmente tivesse acontecido.

Rebecca estava morta por sua culpa. Sua noiva, a mulher a quem ele amava talvez mais do que a própria vida, a quem ele conhecia desde criança, estava morta. Seu pai, que nunca se envolvera com justiça ou crime, sempre buscando apenas fazer sua família feliz, estava morto por sua culpa.

Ambos, destruídos por sua incompetência.

Mark apenas não largou o emprego (Rebecca se orgulhava tanto desta carreira...) porque enlouqueceria caso o fizesse. Um mês após sua saída do hospital ele estava de volta, mergulhando em qualquer caso que colocassem em sua mesa. Sim, estava fugindo e sabia o quanto aquele ato era covarde, mas era incapaz de olhar nos olhos de sua família, na família de Rebecca, e fingir que tudo aquilo não fora por ele.

Deus, ele ainda podia se lembrar das lagrimas no rosto da mãe de Rebecca...

(E elas se parecem tanto... Uma é a imagem da outra...)

Aos poucos, sua vergonha transformou-se em sua raiva, em obstinação, e Mark procurava por rastros dos foragidos, dos responsáveis (culpados, culpados assim como ele) de forma praticamente suicida. Aquele caso não era seu, seu chefe praticamente o chutaria da empresa caso descobrisse o que ele fazia, mas mesmo assim Mark seguia caçando por cada pequena prova, cada pequeno rastro em busca dos responsáveis.

E assim foi, até que Robert Swan o jogasse naquele final de mundo chamado de país, na América Central, junto com uma novata com uma carreira tão promissora quanto à dele outrora fora, próximo de seu aniversário de vinte e quatro anos. Então, todo o tempo disponível que possuía para procurar pelos responsáveis desaparecera, e ele se vira obrigado a simplesmente seguir suas ordens.

Não podia evitar a frustração que sentira inicialmente – nem descarregá-la em sua parceira, quando a conhecera, em provocações e discussões. Sentia um prazer maldoso em ver Camila irritada, com o cenho franzindo e explodindo em palavrões – queria que ela sentisse o que ele passava, não se importando em perceber que nunca tivera tal reação nojenta até então; contudo, tal humor sórdido começou a diminuir quando Mark percebeu o potencial de tudo aquilo se transformar em uma repetição da tragédia que ocorrera em sua vida, conforme percebia a cobra que Perez era, e o perigo que ele demonstrava. Ali, temeu por sua família, por sua vida e, acrescentando um novo fator a toda aquela situação, Mark temeu por Camila.

O motivo inicial era bem simples: ela o lembrava muito dele mesmo – uma formação na Academia surpreendente, uma carreira crescente e invejável. Até mesmo a arrogância de que nada poderia atingi-la parecia lembrá-lo do quanto sua própria altivez o corrompera, do quanto o fizera falhar. Agora, quase um ano desde o início de todo aquele inferno, entretanto, Mark já não sabia mais dizer se aqueles eram os únicos motivos por ele se preocupar pela vida dela.

Aproximara-se da moça, ele não poderia negar aquilo. Pelo o pouco que a conhecera, sabia que em circunstâncias diferentes poderiam desenvolver uma grande amizade, quase uma irmandade (nada além daquilo, porque ele não sabia se algum dia seria capaz de deixar a memória de Rebecca partir). Camila era confiável, muito inteligente e prestativa, e mesmo com o atraso em sua própria investigação, ele foi incapaz de se irritar por muito tempo e não se afeiçoar a Auror.

Agora, aquilo não explicava o porquê diabos ele beijara a jovem na semana retrasada. Claro, ela era atraente, mas Mark não se interessava por ela daquela maneira. Então por que ao invés de lhe dizer que ele pensava nela por querer tirá-la da missão, ele a beijara?

A porta do banheiro se abriu, e a jovem saiu do mesmo com uma toalha em mãos, passando-a pelos cabelos ainda molhados. Ele percebeu que ela o encarou brevemente, e ele percebeu algo perpassar por seus olhos claros, antes de lhe dar as costas e abrir a porta do armário.

- Você viu minha escova de cabelo?

- Você já tinha levado para o banheiro.

Ela assentiu, murmurando um "ah", e retornou para o lugar, distraída, secando o cabelo. Mark a estudou de soslaio, absorto em suas próprias dúvidas.

Tudo bem, talvez ele estivesse ligeiramente interessado nela. E por que não ficaria? Camila era bonita. Imaginava quantos homens já não teriam tentado ou até mesmo conseguido alguma coisa com ela. Ele não estava emocionalmente envolvido – pelo menos, não romanticamente falando – mas não poderia negar que talvez – talvez – possuísse algum desejo que nem mesmo ele percebera até então.

Bem, fazia sentido. Ele se irritava horrores quando a via próxima de Perez, quando ele a tocava, não é mesmo? Não poderia estar tão frustrado apenas porque ele havia prometido tirá-la daquela situação e já demorava tanto nesse compromisso.

Levantou-se, buscando uma garrafa de água no frigobar. Ao mesmo tempo, Camila saía do banheiro, os cabelos molhados agora penteados.

E mais um dia se passava.


- Por favor, acredito que vocês gostariam de se sentar para o que vamos conversar.

Solícito, Richard assentiu, e estendeu uma das mãos para o sofá que estivera largado minutos antes, com educação e cuidado para os que convidavam.

Os olhos de Evelyn se encheram de lágrimas. Levando uma das mãos aos lábios, seu rosto se contorceu, e ela deu um ligeiro passo para trás, para longe deles, como se com medo de reconhecer algo que já havia percebido.

- Ai, meu Deus...

Zachary Harleigh logo se colocou ao lado de sua esposa, seus braços a confortando e a protegendo das suposições que ela fazia das palavras de Richard. Incerto, o Auror ergueu o rosto para encarar Camila, que apenas balançou a cabeça discretamente, como se não o culpasse pela sua escolha de palavras. Ele era bem melhor do que ela para lidar com esse tipo de situação, afinal.

Mais forte do que a esposa, Zachary a guiou de maneira gentil até o sofá, ajudando-a a se sentar. Continuou abraçado a ela enquanto convidava Richard e os outros a se reunirem também. Assentindo de maneira mecânica, a Auror americana sentou-se ao lado esquerdo do canadense, no sofá oposto ao casal, enquanto Camila hesitava e lançava um ultimo olhar a Mark antes de assumir sua posição ao lado do companheiro de trabalho. Ele, por sua vez, se aproximou da irmã e do cunhado, mas continuou de pé, os braços cruzados.

- Senhora Harleigh, eu não sei exatamente o quanto você sabe sobre nosso mundo, mas meu nome é Richard Cooper, esta é Camila Oliveira e somos parte de uma espécie de polícia para os bruxos. – Richard começou, seu tom sempre gentil e explicativo, enquanto a mulher o encarava com os olhos cheios de lágrimas, assentindo.

- Aurores, eu sei. – ela assentiu em voz baixa – Mark trabalha com isso.

Trabalha. O tempo presente da frase fez com que Camila tornasse sua atenção para Mark, seu rosto contorcido em questionamento. Ele pareceu sem graça, mas encolheu os ombros e balançou a cabeça, como se dissesse para que ela não se aprofundasse naquela situação. O cenho da bruxa franziu, e ela pareceu desgostosa com sua atitude, mas ele simplesmente tornou a encarar sua irmã, preferindo focar sua atenção no que Richard dizia do que prestar atenção àquela silenciosa censura.

Felizmente, para Mark, as atenções estavam focadas em Richard para que alguém prestasse atenção nos dois.

- Bem, sim. – ele disse suavemente, ignorando o fato de Rutherford não ser mais Auror oficialmente há praticamente um mês – Mas somos de outro país.

- Minha filha está em outro país? – ela perguntou, sua voz surpresa e ainda fraca pelo choro que reprimia – Mas eu não entendo, não somos bruxos, o que vocês -.

- Casos em que há bruxos e não bruxos envolvidos não são realmente comuns, e eu compreendo sua surpresa. – Richard respondeu pacientemente – Mas -.

- Minha filha está com bruxos? Ela foi seqüestrada por bruxos? – Evelyn o interrompeu novamente, sentindo-se cada vez agitada, sua voz refletindo suas emoções. Agora, procurava se afastar do marido e erguer-se na própria força – Isso é algum tipo de aviso? Vocês conseguiram achá-la, mas não podem -.

- Recebemos o chamado a uma propriedade não bruxa há três semanas e pouco, mais ou menos. – disse Camila, sua voz calando as outras e chamando todas as atenções para si. Por um segundo, mostrou a própria surpresa e, arrependendo-se de sua atitude, torceu um pouco as expressões, sabendo que não era tão gentil ou delicada quanto Richard para despejar noticias como aquela – Há bruxos infiltrados nas policias, isso é comum em qualquer lugar do mundo – continuou, preferindo dar peça por peça para que Evelyn pudesse absorver e aceitar melhor o que viria a seguir: - um de nossos Aurores infiltrados foi chamado a essa propriedade, e ele encontrou vestígios de magia no lugar.

Evelyn balançou a cabeça.

- Vestígios? Mas o que isso -.

- É como a impressão de um bruxo. – explicou rapidamente – E, no lugar, havia uma vítima... Uma garota, no máximo quinze anos.

Pronto. Ela havia começado a pior parte de todas, e pela expressão de Evelyn, Camila sabia que a mulher já havia compreendido, apesar de obviamente não ter aceitado aquelas palavras.

- Inicialmente, não encontramos informações suas em nenhum dos arquivos que possuímos. – seu tom diminuiu, e ela continuou com a voz mais baixa: - Então o policial infiltrado encontrou a foto de sua filha em uma lista de desaparecidos, e nos encaminhou por reconhecer a menina com a vítima.

- Ah, meu Deus...

- Há alguns testes que precisam ser confirmados, e outros que precisarão da ajuda de vocês, Evelyn... Mas acreditamos que essa menina é sua filha, Claire. – Camila terminou, forçando-se a não fechar os olhos ou desviá-los da mulher, cujas lágrimas agora escorriam livremente pelo seu rosto, contorcido em dor e incredulidade.

- Meu Deus... Meu Deus... Não pode... Isso não pode...!

As palavras saiam como grunhidos, e a mãe se encolheu de encontro ao marido, escondendo-se em seus braços enquanto o choro e o sofrimento pareciam apenas aumentar. Oposto ao casal, Camila também se encolhera, uma mão fechada sobre a outra, os ombros caídos. Naquele momento, não conseguira encontrar forças de se afastar logicamente de todo aquele sofrimento, por mais que quisesse. Haviam-se passado anos desde que ela tivera um ultimo contato real com vitimas, especialmente no que dizia a respeito de despejar notícias, então toda a situação a afetara antes que pudesse perceber o que acontecia.

- Eu sinto muito. - disse baixinho.

Zachary Harleigh a abraçou com força, a dor também presente em seus olhos, mas contido. O silêncio reinou entre os presentes, desagradável, até que um choro alto e infantil os distraísse por segundos.

- Deve ser Peter. – Evelyn murmurou, tentando se desvencilhar do conforto de seu marido, mas sendo impedida. Riu, lacrimosa – Peter tem muito pouco sono, entendem... Ele quer atenção o tempo -.

- Não se preocupe, não se preocupe. Mark pode cuidar de Peter, tudo bem? – Zachary respondeu para a mulher, carinhoso. Em seguida, ergueu o rosto, seus olhos buscando a confirmação do cunhado. O bruxo assentiu, deixando um suspiro escapar antes de responder:

- Claro, tudo bem.

- Vá também. – Richard disse em voz baixa para Camila, cutucando-a com o cotovelo. Ela o encarou, e percebeu a postura séria do bruxo, pronto para assumir o controle da situação novamente, como antes dela contar para a família sobre a filha perdida. Ao mesmo tempo, notou também seus olhos presos em Mark, que se encaminhava às escadas, e compreendeu que ele não confiava no mesmo sozinho.

- Mas -.

- Eu sou melhor que você nessas situações, você sabe disso.

Era verdade. Richard sabia envolver as pessoas, fazer com que elas se sentissem protegidas e confortadas em suas palavras gentis, ainda que buscando por respostas. Apesar de diplomática, Camila não era exatamente paciente e tampouco sabia confortar, algo necessário para uma situação daquelas. Ainda assim, sentiu-se zangada por ele a ter dispensado tão rápido.

Ergueu-se, experimentando ligeira culpa e desgosto de si mesmo ao perceber o alivio preenchê-la enquanto afastava-se de todo aquele sofrimento. Subiu as escadas escutando as palavras de apoio de Richard à família, um sussurro sem sentido e gentil conforme se separava deles.

Em um corredor com aproximadamente cinco portas, Camila entrou no único cômodo cuja porta estava entreaberta, encontrando o aposento ligeiramente escuro, iluminado levemente apenas pela luz que conseguia atravessar as cortinas. Havia dois berços, brinquedos para um futuro próximo, um pequeno armário com cores iguais a do berço e uma poltrona azul claro combinando. No centro do quarto, Mark estava de costas a ela, embalando com cuidado um pequeno embrulho de cobertores infantis, uma das mãos protegendo e segurando a nuca e a cabeça do bebê, que ainda reclamava.

Quando se virou, eles se avaliaram por alguns segundos até que ele comentasse:

- Eu não vou fugir, sabe.

O tom debochado não a surpreendeu. Camila suspirou cansada e cruzou os braços, encostando-se no batente da porta.

- Eu sei.

- Seu amigo não parece muito certo disso.

Ela franziu o cenho. Vigiar alguém que conhecia numa situação daquelas a fazia se sentir embaraçada, apesar de não tirar o direito de Richard de suspeitar de tudo e de todos.

- Ele é apenas cauteloso.

- Não o culpo. – disse simplesmente, o bebê agora em seus braços mais relaxado – Eu provavelmente sou suspeito, não sou?

Camila não respondeu. O bebê finalmente acalmou, silenciando-se. Ela o estudou por alguns segundos, internamente apreciando a imagem interessante que Mark fazia com uma criança nos braços.

- Você conseguiu acalmá-lo. Surpreendente. – ela comentou distraída, um pequeno sorrindo aparecendo em seu rosto.

- Ele só queria um pouco de atenção. – respondeu, observando a pequena figura pacifica – Eve disse que ele sempre quer atenção, mas é que ela não está acostumada a cuidar de dois bebês ao mesmo tempo, e Zachary nem sempre pode estar presente para ajudá-la. Isso, e ela já não é mais tão nova e paciente como antes.

Havia um tom típico de gozação entre irmãos. Camila não mencionou aquele fato em voz alta.

- Então você a ajuda. – observou.

- Não, minha mãe a ajuda. – ele disse em voz baixa, com um tom de quem achava graça de suas palavras – Mas ela precisou voltar para Chicago por causa de uma de minhas tias, então Evelyn só tinha a mim desta vez.

Ela assentiu, mas não continuou o assunto. Ficou apenas o observando com o bebê, aproveitando aquele pequeno momento de serenidade, ainda que forçado.

- É estranho saber que você gosta de crianças.

As palavras escaparam antes que ela compreendesse que havia expressado seus pensamentos. Parecendo ligeiramente surpresa, tentou se desculpar, mas ele já estava a encarando confuso, com as sobrancelhas arqueadas.

- Por que isso?

Bem, tarde demais para reverter tudo.

- Você não parece gostar de muita gente. – admitiu, encolhendo os ombros.

Ele sorriu, e em seguida deixou escapar uma risada baixa, espantando-a. O som, embora leve, parecia estranho e até mesmo ilegal em circunstâncias como aquela, enquanto pessoas no andar abaixo choravam e sofriam com as notícias e as perguntas de Richard, mas nenhum dos dois pareceu realmente associar os fatos.

Balançando a cabeça, ele reclamou:

- Isso não é verdade.

O tom fora bem humorado, como se aquilo fosse uma brincadeira entre eles. Sentindo-se mais à vontade – algo que ela não conseguia se sentir próxima a ele desde a vergonha que Michael a fizera passar no Conselho com sua decisão, a bruxa acompanhou seu sorriso e retrucou:

- É claro que é. Posso até fazer uma lista, se quiser.

- Você é exagerada.

- Realista. Você não gostava de Madison, quando o conheceu, por exemplo. – ela começou, ainda encostada ao batente enquanto ele se aproximava para que continuassem com o tom baixo.

- Eu tinha dez anos, Camila. – Mark girou os olhos – E me surpreende que você tenha lembrado isso.

- Tenho uma ótima memória. – ela se gabou, o sorriso agora mais largo enquanto ele continuava embalando o bebê, fitando-a com um ar descrente – É verdade. E você também não gostava de Swan.

- Swan é um homem bastante difícil de lidar, e isso piora conforme ele envelhece. – ele admitiu, torcendo as feições – E, se me recordo bem, você não era exatamente parte do fã-clube do homem.

Ela tossiu, ignorando aquela parte da resposta.

- Potter. – enumerou.

- O quê? Eu mal falei com o homem na vida!

- Você ficou emburrado por quase uma hora quando Potter disse que não queria seus Aurores caçando Erick.

- Eu fiquei irritado porque ele achava que podia mandar na situação! – Mark retrucou, num tom que evidenciava a frustração que ainda sentia pela lembrança.

- A verdade é que você sempre julga as pessoas sem conhecê-las direito. – Camila o acusou, ainda com o tom de brincadeira. Na verdade, sabia que ele era homem ponderado (até certo ponto) e não costumava menosprezar uma pessoa sem motivo, por uma simples atitude, mas apreciava de verdade aquele lado leve que conseguiam criar, ainda que isso tenha sido descoberto apenas há alguns meses, quando ela o visitara na prisão para discutir sobre o caso no Conselho.

Não que ela só o vira apenas uma vez fora das audiências, mas nas vezes anteriores, o assunto havia sido pesado demais para que se criasse um clima ameno entre eles. Dolorosos demais, que cutucavam feridas demais.

Como finalmente aceitar conversar com ele a respeito do que ele havia lhe revelado, em seu escritório, após toda aquela confusão com a bomba no encontro de diretores.

- Você está falando de mim ou de você, com isso? – ele questionou incrédulo, encarando-a com suspeita – Você disse que me odiava logo depois dos primeiros dez minutos que conversamos pela primeira vez!

- E você respondeu como se retribuísse o sentimento. – ela retrucou, fazendo uma careta – Estamos quites.

- É o sujo falando do mal lavado, então. – Mark sentenciou, colocando o bebê, agora adormecido, no berço – Mas você adora reparar os meus erros para não precisar olhar para os seus.

Camila fechou a cara.

- É um show de ofensas, agora? – reclamou.

- Já era, antes. – ele murmurou com sarcasmo, e a Auror acabou por rir ao final. Silenciaram-se, e Mark fez menção para que saísse do quarto, deixando os gêmeos descansarem.

Quando já estavam no corredor, prontos para descerem as escadas, Camila perguntou num tom de indiferença:

- Como estão as coisas depois do Conselho?

Ele parou com a mão no corredor, e virou-se parcialmente de modo que pudesse encará-la nos olhos. Estudou-a, como quem não acreditava na situação, ou na pergunta em si. Por fim, perguntou num tom inconformado:

- Você ainda está se culpando por isso?

Ela enrubesceu, cerrou o cenho e desviou o olhar. Cruzou os braços, e parecia pronta para dizer alguma coisa, mas o quê, Mark nunca soube, porque o silêncio continuou ainda que tivesse entreaberto seus lábios para a resposta.

- Pare com isso, Camila.

A Auror pareceu zangada com aquela sugestão – que mais soara como uma ordem, mas enfim. Mirando-o com uma careta, retorquiu aborrecida:

- Se Michael não estivesse -.

- E você ia saber o que Stuart iria aprontar? – inquiriu sem paciência - Você não é vidente.

- Ele o ferrou porque sentiu ciúmes!

O tom saíra forte, ainda que exclamado em voz baixa.

Mark ergueu uma sobrancelha.

- Ele disse isso?

- Não, mas foi óbvio isso. Que tipo de ser humano faz uma coisa dessas em uma situação -.

- Esquece, já acabou.

- Você perdeu tudo, e há pessoas que o tratam como criminoso por causa disso!

- E pareço preocupado com isso? – questionou, irritado – Não. Então pare de se preocupar comigo.

Ele soara como se ela tivesse o insultado. Camila piscou, inconformada com aquela resposta, e sentiu súbita raiva e vontade de chutá-lo por não compreender a própria situação. Sentiu raiva de si mesmo, também, por se preocupar com tamanho idiota, esquecendo-se do quanto àquela teimosia, independência e orgulho a irritavam, parte de uma personalidade que já conhecia antes que tudo ficasse relativamente pacifico entre eles.

Erguendo o queixo, em arrogância, ela o mediu por uma última vez antes de descer as escadas de cara amarrada. Engoliu as palavras que queria dizer a ele enquanto sentia a força de seu olhar em suas costas e seguiu seu percurso até onde Richard se encontrava com a família.

- Não precisa se desculpar, senhora Harleigh. – escutou o Auror dizer gentilmente, amável, enquanto a mulher se encolhia ao lado do marido, que tomava suas mãos. Ambos buscando conforto, ambos buscando proteção... – A senhora pode tomar o tempo que precisar. Podemos até mesmo conversar outro dia, se preferir.

... Ainda que seus corações já estivessem expostos da pior maneira.

Seus passos atraíram a atenção dos presentes, e os olhos de Evelyn prenderam-se em Camila. A Auror perdeu a carranca, e sentiu-se desconfortável diante de tanta dor, mesclado com a familiaridade que percebia naquele tom de azul.

- Eu posso ver minha menina? – ela perguntou baixinho, suas mãos apertando as do marido. Seus olhos encheram-se de lágrimas, mas sustentou o olhar de Camila, que a fitava com paciência e condolente – Podemos vê-la? Uma última vez?

Camila estava pronta para assentir quando a voz cautelosa de Mark a assustou pela proximidade, sobressaindo-se em todo o ambiente depressivo:

- Eve, eu não acho que -.

Ele se calou ante ao olhar que o cunhado lhe lançara. Pela primeira vez, a Auror percebeu a raiva mal escondida no comportamento do pai da vítima para com o tio. Fez uma ligeira careta, mas continuou com sua atenção voltada para Evelyn.

- Há mais alguns exames a serem feitos, mas sim, a senhora pode ver sua filha. – assegurou com voz tranqüila, esperando soar até mesmo afetuosa. Jesus, ela era péssima nisso.

Bem, apesar da certeza que possuía nos testes que logo provariam o fato daquela garota ser realmente a desaparecida Claire Harleigh, o fato de Evelyn e seu marido confirmarem o corpo como o de sua filha ajudaria e muito na eliminação de qualquer duvida a respeito de sua identidade. Seria inevitável que aquilo acontecesse, mas dizer à mulher como se fosse obrigação não faria bem algum a situação. Ou a investigação. Poderia simplesmente mostrar-lhes as fotos e adiantar todo o processo, mas que bem isso faria? Que bem, exatamente, aquilo traria àquela família?

- Você pode decidir o dia e o horário que melhor cabe a você e seu marido, e faremos o possível para que o translado do... – do corpo, ela quase dissera – de sua filha para seu país seja o mais rápido possível.

A mulher comprimiu os lábios, mas não chorou apesar do desejo. Assentiu, simplesmente, com a cabeça.

- Muito obrigado. – Zachary Harleigh murmurou, claramente buscando forças onde já não mais possuía, enquanto uma de suas mãos afagando os cabelos da esposa – Vamos ajudá-los no que for necessário, mas não acredito que agora seja um momento adequado para -.

- Vocês possuem o tempo que precisarem. – Richard o assegurou, apesar de tanto ele quanto Camila saberem que tempo era o que eles menos possuíam; se queriam o assassino preso enquanto tudo ainda estava relativamente fresco, precisavam ser rápidos – As informações que os senhores já nos ajudarão, e muito.

- Aqui. – Camila disse ao mesmo tempo, aproximando-se do canadense e tirando o bloco de notas de sua mão. Em seguida, cutucou-o, pedindo por uma caneta – Este é o telefone da minha casa, e meu celular. – Mark a encarou surpreso, mas ela o ignorou deliberadamente – Vocês podem ligar a qualquer momento, caso precisem ou saibam de mais alguma coisa, tudo bem? Não se preocupe com horário, eu os atenderei a qualquer momento.

- Muito obrigada. – Evelyn sussurrou com voz fraca, aceitando o papel que a outra que estendia, mas a bruxa apenas balançou a cabeça.

- Nós encontraremos os responsáveis, senhora Harleigh, não se preocupe. – Richard a assegurou, sua voz firme e determinada aliada a sua gentileza sempre capazes de ressegurar as pessoas. Camila encarou o casal trouxa a sua frente por mais alguns segundos, pesando os próximos passos que tomaria, e ergueu o rosto, seus olhos encontrando os de Mark.

Ambos fizeram uma careta irritada.

- Senhor Rutherford, também precisarei que o senhor compareça ao Departamento amanhã. – disse, toda profissional.

- Conheço o procedimento.

Era quase como se ele estivesse gozando dela. Camila queria esganá-lo.

- Posso lhe enviar um pedido formal caso necessite -.

- Estarei lá. – ele a interrompeu, dando de ombros – Tem preferência por um horário?

Continua