Capítulo Nove

Camila Oliveira depositou a bacia com água morna próximo à cama, e se ajoelhou em frente à mesma. Os pequenos pedaços de pano que pretendia usar estavam sobre um de seus ombros, um ainda com a etiqueta de compra da pequena loja em frente ao Hotel. Retirando a varinha do cós do jeans, depositou-a ao lado de seu corpo, e ergueu os olhos para a massa humana inchada e cheia de sangue e hematomas.

Mark não assistiu ao silencioso ritual da parceira, tampouco percebeu os lábios cortados de a mulher comprimirem-se em uma fina linha conforme o estudava. Com os olhos fechados, deitado de costas, ligeiramente encolhido, ele apenas se concentrava na própria respiração e na duvida que sentia a respeito de suas costelas. A dor que irradiava por toda aquela parte de seu corpo sugeria uma ou duas costelas quebradas, mas ele não tinha tanta certeza, pois ainda se sentia tonto com o número de pancadas que levara.

Era surpreendente que os desgraçados o tivessem deixado viver.

Gemeu ao sentir o pano umedecido encostar-se a um de seus hematomas, e abriu os olhos para fitar Camila acusadoramente. Sem se abater com a silenciosa ameaça, ela continuou com seu trabalho, e respondeu secamente quando deslizou o pano pelo seu abdome, limpando-o:

- Não posso remendá-lo se continuar jorrando sangue por todos os lados.

Ela estava furiosa, e ele sabia disso. As mãos pequenas tremiam enquanto ela executava seu papel, e as expressões pareciam fechar conforme o reconhecimento do quanto ele apanhara. A carranca dela era incontestável.

- Apenas faça isso logo.

Camila praticamente esfregou o pano sobre o machucado ao escutar aquelas palavras, e ele gemeu em dor, encolhendo-se em submissão. Aquilo fora praticamente um aviso de que ela não estava no humor para acatar ou ignorar toda sua grosseria diária.

Seguiu-se o trabalho em silêncio, quebrado vez ou outra pelos resmungos e gemidos de Mark, que Camila ignorou deliberadamente. Ao molhar o pano mais uma vez, demorou-se por alguns segundos, estudando-o antes de retornar ao seu serviço, desta vez preocupando-se com seu peito e ombros.

- Você é um idiota.

A reclamação surgira em voz baixa, incapaz de esconder ou controlar a irritação que sentia. Mark a encarou, não sabendo ao certo os motivos que a levaram dizer aquilo.

- É, claro. – resmungou, simplesmente.

- Você sabe por que isso aconteceu, não sabe?

- Você vai dizer mesmo que eu soubesse -.

Ela o apertou mais uma vez. Mark choramingou. Diabos, se ela fizesse isso mais uma vez, ele diria para que ela trabalhasse em interrogatórios, não em campo, porque obviamente possuía um talento cruel e nato para isso.

- Porque você foi estabanado, impulsivo e arrogante. – Camila respondeu, jogando o pano dentro da bacia, colocando as mãos nos quadris enquanto o estudava ainda de cara amarrada – Você achou que tinha um ótimo plano, e correu para realizá-lo, sem pensar nas conseqüências, sem realmente avaliar os riscos, sem me avisar.

Ele se apoiou nos cotovelos e forçou-os com seu peso, erguendo o tronco ligeiramente para que ficasse metade deitado, metade sentado. Por alguma razão, sentia-se numa posição inferior deitado de frente a ela, e não era assim que ele gostaria de se apresentar – apesar de seu corpo gritar para que ele engolisse a droga do próprio orgulho e ficasse de cama por... Para sempre.

- E ainda dizem que você é o melhor que seu Departamento pode oferecer. – ela debochou, incrédula – Nem um estudante de Academia seria tão imbecil ao ponto de simplesmente invadir aquela droga de banco e -.

Ela continuou com seu discurso, apaixonada e furiosamente. Entediado e exasperado, Mark tornou a se deitar, evitando demonstrar qualquer tipo de tédio que sentia durante toda aquela falação. Sim, ele havia sido precipitado em tomar as atitudes que tomara, mas Jesus, sabia disso! Não precisava que a novata o informasse daquela situação.

Camila continuou a reclamar, e Mark imaginou se ela acreditava realmente que ele estava prestando atenção nela. Claro, ela não estava errada por se sentir enganada e desesperada com suas atitudes – ao tentar se colocar sob o ponto de vista dela, ele era capaz de compreender os pontos que levantava. Distante de seus verdadeiros mundos, ela estava às cegas numa confusão sem limites, e se isso tivesse acontecido com ele, Mark provavelmente reclamaria tanto quanto ela, se não mais.

Mas sob seu ponto de vista, o comportamento de Swan o preocupara ao ponto de desistir de sua natureza perfeccionista e usar de mais ousadia para resolver alguns detalhes de todo aquele caso. Ao agir daquela maneira, Mark esperava que pudesse descobrir alguma coisa mais rápido que Camila e, assim, eles pudessem sair de todo aquele inferno.

Diabos, Swan não era de se abalar por qualquer coisa, mas àquele dia ele parecia estar sinceramente incomodado -!

Recolher as informações de Perez guardadas a sete chaves no Banco Central do país era algo já planejado por ele desde que seu disfarce como Antônio Cruz fora para o saco. Fora entrevistado sob uma identidade falsa para o cargo de gerente, forjando inúmeras recomendações. Com Camila buscando informações direto da fonte, e ele crescendo rapidamente na empresa, o número de seus dados não seria apenas enorme, mas crucial tamanho detalhe.

Mas então Swan lhe mostrou hesitação, e Mark não parecia mais certo se aquele caminho era o melhor para, acima de tudo, mantê-los vivos. Foi então que ele resolveu conseguir a planta e os esquemas de segurança do Banco e invadi-lo o mais rápido possível.

Obviamente havia algo de errado -.

- Toda a informação divulgada na mídia é que eles suspeitam de uma quadrilha em busca de todo o dinheiro transferido ao Banco na semana passada. – ele a escutou dizer por fim – Mas nós sabemos que Perez sabe da verdade, não é mesmo? Ele sabe que é uma única pessoa, interessada em algo que ele esconde naquela droga.

- Mas eles não sabem quem é. – Mark a assegurou em voz baixa – Quero dizer, eles me viram, mas como todos nossos arquivos estão talvez mais guardados que -.

- Não importa! Será que você não percebe? – ela se calou e ergueu um punho. Os lábios se comprimiram em uma fina linha e ela grunhiu, como se não conseguisse articular toda sua frustração e pensamentos em palavras – Perez não vai sossegar até tê-lo em suas mãos! E, você pode acreditar, quando ele alcançá-lo, ele não vai simplesmente matá-lo, Mark!

- Eu precisava fazer isso! Tudo o que temos até agora não é o suficiente para o pegarmos e você sabe disso! Eu – eu precisava!

Camila se ergueu, dando qualquer desculpa para que pudesse se afastar dele e se acalmar. Ele tornou a se deitar, escondendo o rosto em suas mãos e soltando um suspiro cansado.

Após isso, tudo começaria a desabar.


- Zachary Harleigh disponibilizou o acesso aos exames médicos de Claire, além de se oferecerem a ir até o Departamento em quatro ou cinco dias. De acordo com ele, precisava de algum tempo para arrumar algo em sua clínica antes de se ausentar. – Richard comentou, sorvendo um longo gole de coca-cola e praticamente destroçando o enorme sanduíche que pedira em padaria na São Paulo trouxa, próxima ao Departamento. Se Camila não o conhecesse bem, diria que sua atenção estava mais voltada para o estômago e toda aquela porcaria do que para os detalhes que lhe oferecia.

- Acredito que em cinco dias o corpo possa ser liberado, não? – ela perguntou, mais brincando com sua latinha de chá do que realmente bebendo.

Richard engoliu mais um enorme pedaço de seu lanche antes de responder:

- Bem, Helena disse que todos os exames possíveis já foram feitos, só aguardando os resultados, que sairão durante esses dias – porque, sério, estamos aguardando alguns há praticamente o quê? Um mês?

- Vocês já tinham começado a investigação há quase uma semana antes de eu retornar ao país – Camila contou – e considerando que já se passaram quase quatro semanas contando com meu retorno... É, um pouco mais de um mês.

- Disse que faríamos o possível para que o corpo fosse transportado de maneira mais rápida para a América.

- Isso vai ser rápido, é problema dos Ministérios de cada país e os trouxas, e os trouxas sempre querem resolver tudo mais rápido quando se falam de bruxos. – ela deu de ombros, assistindo o tomate do lanche de Richard escapar para o prato, enquanto suas mãos sujavam-se cada vez mais com o molho e a gordura da comida. Silenciosamente, desviou sua atenção de toda aquela porquice para sua própria comida (uma coxinha) e sentiu-se sem apetite – Diga-me o que eles contaram.

- Você vai mexer nas minhas lembranças mais tarde! – ele reclamou.

- Mas não terei seu ponto de vista sobre o assunto. – Camila ressaltou, colocando os braços cruzados sobre a mesa, inclinando o corpo de modo que se aproximasse do Auror.

- Ouvir você falar uma coisa dessas até me faz sentir importância.

- Sua opinião sempre foi importante, você é um excelente Auror. É uma pena que precise ter o ego amaciado a cada segundo.

Ele não se sentiu incomodado com a cutucada dela, mas ainda sim entrou na brincadeira:

- Ah, sabia que você iria me insultar. Nunca consegue elogiar alguém sem pisar na bola depois.

Ela riu, mas até mesmo seu sorriso morreu depois que Richard começou a narrar o que escutara:

- Claire desapareceu no dia do seu aniversário de dez anos. Zachary e a esposa a levaram para um daqueles parques de diversão após a festa de aniversário, e ela desapareceu.

Camila o encarou por alguns segundos, esperando-o continuar com a história. Quando ele não disse mais nada, ela perguntou impaciente:

- Como assim, ela sumiu? Como uma menina de dez anos some das vistas dos pais, do nada?

- Ela tinha entrado naquelas casas mal assombradas de parques, sabe? Entrou com uma amiga de escola, na época, mas nenhuma das duas saiu da casa. A equipe do parque procurou em todos os cantos, e mais tarde a polícia, e nenhum dos dois encontraram sequer um vestígio das duas garotas. Pode ter sido um bruxo desde o inicio. – ele contemplou – Ou um trouxa muito ardiloso.

- Ou ambos.

Richard pareceu surpreso com seu pensamento.

- Você acha que -.

- Por que não? – ela questionou – Isso aconteceu com Rostova, lembra? Julgamos que era um homem por não cogitar ser um casal cometendo os crimes.

- Mas por que bruxos e trouxas se uniriam numa coisa dessas?

- Eu não sei... Talvez fosse um casal, e eles seqüestraram as meninas por que... Não sei, não achavam justo os pais das crianças serem quem eram?

- Que diabos você quer dizer com isso?

- Se for um casal, pode ser que eles seqüestraram as crianças porque queriam uma família.

- Você está batendo demais nessa tecla de casais. – ele a alertou - Mas então por que não seqüestrar recém-nascidos? Meninas de dez anos já sabem quem são seus pais. Além disso, não vamos nos esquecer que Claire foi atacada sexualmente e morta por um bruxo.

- Não sabemos se ela foi morta e molestada por um bruxo, podem ser duas pessoas diferentes. – Camila contestou – E a pessoa que a seqüestrou pode ou não estar ligada a esse assassinato, não dá para saber.

- São perguntas demais para o pouco de respostas que temos. – Richard reclamou de boca cheia.

- É por isso que eu bati na tecla dos exames! – ela reclamou, exasperada – As respostas que temos até agora só levantam perguntas, e já temos um estoque de variáveis suficientes para enlouquecermos qualquer ser humano sensato.

Ele terminou o lanche, sorveu mais um longo gole de seu refrigerante e perguntou:

- E Rutherford?

- O que tem ele?

- Você reparou em como o cunhado o encarava? Era como se não gostasse dele.

Sim, ela havia reparado nisso. Descansando o queixo em uma das mãos, repousando o cotovelo sobre a mesa, assentiu.

- Eu reparei. Mas pode ser um engano – Harleigh estava todo emotivo, afinal, e Mark queria impedir a irmã de ver o corpo.

- Não, aquele olhar parecia dono de algo bem mais antigo do que isso. – Richard balançou a cabeça – E faz algum sentido, se analisar. Rutherford é um elo entre bruxos e trouxas, e entre a família Harleigh e nosso mundo. Menina trouxa morta por um bruxo. Ele é bruxo, e poderia facilmente se infiltrar na família -.

- Ele estava preso quando a menina foi morta. – Camila pontuou.

- E daí? Mas não estava preso quando ela desapareceu, isso não exclui sua possível parcela de culpa em toda a situação. – ele contestou – Pode ser até que o pai esteja envolvido nisso, se considerar aquele olhar como um olhar cúmplice, do tipo "cale sua boca, colega, isso é uma prova do que fizemos e você tem que agir de modo que eles não percebam".

Ela deixou de encará-lo, e ficou observando, distraída, a coxinha em seu prato, há muito fria e sem graça aos seus olhos. Pensou em quando a menina desapareceu, há quatro anos, e tentou se recordar do que havia acontecido naquele período, se era possível se lembrar de onde Mark estivera naquele tempo, apesar de julgar improvável – afinal, tudo o que ela queria na época era distância do homem.

Há quatro anos, havia sido indicada para o projeto do Departamento Unificado, por conta do respeito que Brosseau nutrira por ela após todo o caso Perez ter sido resolvido – mesmo sendo punida severamente por suas atitudes e por ter agido de modo ilegal, em cooperação com o Departamento americano, tendo quase perdido o emprego. Tinha vinte e cinco anos na época, e vinte e seis quando assumiu o posto de diretora do Unificado, época em que Mark assumia a diretoria do Departamento americano, com vinte e nove anos.

Mas antes dele assumir... Onde ele estava?

- Mark foi designado para trabalhar no departamento Espanhol um ano antes, e só retornou em agosto do ano seguinte, meses depois do desaparecimento de Claire em abril. – ela murmurou lentamente, torcendo as feições enquanto forçava sua memória.

Richard pareceu surpreso.

- Como diabos você sabe disso?

Camila enrubesceu, e aquilo chamou ainda mais a atenção de Richard. Tendo a imaginação que tinha, imaginou uma trama suja entre os dois, algo do passado de Camila que ele não tinha a menor ideia. Existiam teorias e mais teorias a respeito dos dois Aurores, muitas até divulgadas em jornais quando no período das audiências no Conselho Geral, e Richard, apesar de grande amigo da mulher, era um dos que apenas supunha o que havia já acontecido entre eles. Sabia que eles haviam trabalhado juntos, e que algo entre eles se rompera depois disto.

Quando conhecera Camila, ela havia acabado de retornar a sua posição como Auror após um período de seis meses em suspensão pelo Conselho Geral, e mesmo após estabelecerem laços afetivos entre si, ela apenas deixara as respostas para suas perguntas muito no ar.

- Lembra quando o Unificado ainda era apenas um projeto? Fiquei duas semanas nos Estados Unidos e depois mais duas no Canadá para reuniões a respeito da entrada deles no acordo.

- E então? – ele a incentivou.

- Posso ter o encontrado quando fui conversar com Swan. – murmurou, desviando o olhar – E ele pode ter mencionado isso... Digo, de ter acabado de retornar da Espanha depois de quase um ano.

- E você está toda constrangida por que...?

- Eu bati nele.

Richard piscou, aturdido, todos os seus pensamentos quebrando diante das palavras da Auror.

- O quê?

- Ah, você sabe... – ela enrolou, lembrando-se perfeitamente da marca que deixara no rosto do homem com aquele murro, e do prazer que sentira ao observar a moral que ele havia perdido com sua própria equipe tática após isso, enquanto caminhava de maneira triunfal até a sala de Swan -... De qualquer modo, ele não estava no país quando Claire desapareceu.

- Bem, vamos ver o que Rutherford dirá amanhã. Às vezes nem tudo que uma pessoa diz é verdade, e precisarei mais do que sua memória de elefante e palavras para me convencerem que ele não está envolvido.

Camila ergueu uma sobrancelha.

- Você o considera suspeito.

- Em potencial, se me permite dizer. – o Auror confirmou, assentindo de maneira vigorosa – Não confio no homem. Esconde coisas demais, parece misterioso demais -.

- Bom, ele era um espião, afinal. – ela retrucou, como se aquilo pudesse explicar muita coisa. Pelo menos era no que trabalhava inicialmente, até entrar para Homicídios.

- E você confia nesse tipo? Não consigo sequer confiar nos homens que nós mandamos para esse tipo de serviço.

Ela quase dissera que já havia trabalhado em espionagem também, mas silenciou-se. Pensou em Erick Rutherford, e em toda a vida que ele levava por trás de cada operação realizada. Fez uma careta, procurando afastar seus pensamentos daquela linha de raciocínio.

- Não sei, isso não combina com a personalidade dele. – disse por fim, num tom mais pessoal do que preferia revelar. Vira Mark em ação por vezes suficiente para dizer como ele respondia a crimes... A prova mais recente de que ele não mudara fora o descobrimento de Erick Rutherford como o autor de assassinatos de várias mulheres, incluindo a esposa do Ministro.

As sobrancelhas de Richard se aproximaram em contemplação.

- Parece que você passou a confiar nele quase que magicamente. – comentou desgostoso, as expressões refletindo suas palavras. Era a segunda vez que ele mencionava a trégua do mútuo desgosto entre Camila Oliveira e Mark Rutherford – Desde aquele caso Rostova parece que você simplesmente esqueceu que o detestava. E pela forma que você falava dele, qualquer que fosse o motivo parecia simplesmente imperdoável.

- Eu não sabia de muita coisa até então. – ela confessou, seu tom duas notas mais baixo – Isso fez com que possuísse apenas uma visão parcial de tudo o que aconteceu. E eu não o detestava desde sempre.

Ambos silenciaram, Camila acreditando que as palavras não ditas pesavam tanto para ela quanto para Richard. Era quase como se ela pudesse sentir que ele havia percebido o que ela havia deixado praticamente implícito naquela frase, por mais que não quisesse.

Antes, eu era apaixonada por ele.


Ao final das contas, os exames apenas confirmaram o que eles já sabiam: Claire Harleigh era de fato a menina assassinada no edifício trouxa. Primeiro foi a confirmação dos exames que sim, a vítima era trouxa, e havia recebido uma maldição da morte após ter sido executada pelo martelo encontrado na cena do crime (e infelizmente todo o DNA pertencia a ela, e a ela simplesmente). Em seguida foi o recebimento de todos os exames trouxas realizados pela menina sob o cuidado dos pais, e eles puderam confirmar sua identidade. Além disso, Evelyn Harleigh confirmara a marca de nascença na base da coluna da menina, o que se verificava também nas costas do cadáver.

Os outros resultados repercutiam na cena do crime e no que exatamente o agressor causara a vítima, e isso era algo que Camila prestaria toda a atenção assim que terminasse de preencher os documentos para o Ministério da Magia sobre a liberação do corpo para segunda-feira que vem, quando os Harleigh comparecessem para supostamente reconhecerem o corpo. Além disso, apesar de já ter combinado com Mark Rutherford o horário da conversa que teriam – afinal, ele era suspeito, e mesmo não gostando disso, Camila não poderia fazer nada que pudesse eventualmente atrapalhar a investigação – precisava também redigir o pedido formal, e fazer com que ele fosse aceito pelo Ministério e entregue ao antigo diretor ainda naquele dia.

Assinando o próprio nome pela quarta vez em uma nova página, a Auror fechou a pequena pasta branca e colocou-a de lado, tamborilando os dedos sobre a mesma ainda por alguns segundos, como se estivesse pensando, antes de puxar um pergaminho do outro lado da escrivaninha e inspirar profundamente, buscando as palavras corretas para começar o pedido formal a Mark.

Mal havia terminado de escrever Rutherford e colocado a vírgula, quando seus pensamentos a distraíram novamente. Não conseguia ainda acreditar que tinham decidido conhecer os Harleigh sem a noção de que Mark era relacionado a eles. Aquilo a fazia se sentir despreparada e incapaz, e imaginou se havia feito algo errado para que aquele momento acontecesse.

Pousando a caneta-tinteiro sobre o pergaminho, ela pousou sua atenção para outra pasta, de aparência mais antiga que as restantes, as que falavam sobre relatórios da pericia e exames no cadáver. Pegou-a antes que tomasse noção de suas atitudes, e deparou-se com uma foto da bela e mais nova Evelyn Harleigh sorrindo para ela.

Não demorou mais do que um ou dois minutos para que encontrasse a filiação de Evelyn, e logo estava esboçando uma careta frustrada com a própria falta de competência – ou de percepção. Os nomes dos pais de Evelyn estavam ali, com o sobrenome gritando a possível relação com Mark e ela só percebera isso agora. Em seguida, lembrou-se que não lera aquela pasta até então, já que havia prometido lê-la após sua saída com Michael Stuart... Algo que obviamente não aconteceu. Havia chegado tão tarde em casa que o único tempo que tivera foi para tomar banho e rumar para o Ministério da Magia com Richard. A pasta ficara esquecida no fundo de sua memória.

Burra, ela pensou.

Obrigou-se a ler cada detalhe da pasta contendo informações sobre Evelyn e Zachary Harleigh, mas no final sentiu-se apenas desolada que não existia nenhuma informação que pudesse ajudá-la. O casal estudou na mesma universidade, o que a fez apenas imaginar se fora assim que haviam se conhecido; casaram ainda jovens, de acordo com suas contas baseadas nas datas de nascimento e a certidão de casamento, Evelyn ainda sem formação universitária, mas tiveram o primeiro filho – Claire – apenas anos mais tarde, quando o casal já passava dos trinta anos.

E agora, quase aos cinqüenta, Evelyn engravidara novamente, por acidente.

Fechando a pasta, descansou o queixo em uma das mãos e soltou um suspiro cansado. Muita coisa ainda precisava ser descoberta, pensou. Ela tinha a impressão que tudo ficaria mais complicado ao invés de melhorar a partir dali.

Mal sabia o quão certa estava ao receber um telefonema de alguém que não era sua irmã, muito menos do casal Harleigh, durante a madrugada do dia seguinte.

Continua