Capítulo Dez
Se Robert Swan os tivesse encontrado mais tarde, todos os presentes tinham certeza que nenhum dos dois seria achado com vida.
O casal estava em frangalhos, de acordo com comentários de todos os participantes da equipe de busca; destruídos psicológica e fisicamente. O homem exibia fraturas nas costelas, braços e pernas e parecia perdido, preso em uma própria realidade, pelo menos até que Swan batesse com as palmas das mãos em suas bochechas para despertá-lo; a mulher não parava de soluçar, impedindo que até mesmo os paramédicos realizassem um trabalho decente em seus ferimentos e tentassem curá-la. Parecia desesperada, acreditando que aquelas pessoas também a machucariam caso se aproximassem. Não deixou que os paramédicos a tocassem, não deixou que Swan a acalmasse e afastou o homem que fora encontrado com ela quando o mesmo tentou segurar sua mão, como numa tentativa silenciosa de dizer que ela não estava sozinha.
Na manhã de cinco de fevereiro de dois mil e dois, os jornais explodiram em notícias a respeito da prisão de Mathias Perez por uma lista praticamente interminável de crimes, incluindo recente tentativa de homicídio a um Auror e tortura. A Guerra foi esquecida por alguns minutos enquanto os sentimentos de medo da população foram substituídos por revolta e indignação perante as atrocidades cometidas por um homem a quem todo o mundo via como um bom samaritano. Venda de crianças, tráfico sexual, assassinato atrás de assassinatos, extorsão, nada foi perdoado dos olhos críticos e impiedosos do mundo.
Todos exigiam justiça, e se não fosse talvez por isso o Conselho Geral jamais tivesse dado tanta atenção ao caso, uma vez que sua preocupação principal naquela época dizia respeito à guerra, fazendo com que muitos outros crimes fossem esquecidos e arquivados para quando toda aquela confusão diminuísse. Talvez, se manifestações violentas não tivessem surgido e aumentado ainda mais o clima de instabilidade já existente por causa da guerra, era provável que Perez fosse liberado de seus pecados com apenas uma multa, ou no máximo uma condenação de meses, provando o quanto tudo estava distorcido.
O mais importante era, afinal, os conflitos contra os partidários de Voldemort, e toda a influência que o bruxo das trevas exercia sobre multidões.
Os jornais tentaram, de maneira quase alucinada, descobrir quem era o Auror responsável por trazer à tona todas aquelas informações sobre Mathias Perez, mas tanto o Departamento americano quanto o Conselho Geral pareciam irredutíveis no que dizia respeito à divulgação do nome do Auror. O nome de Camila Oliveira apareceu apenas um ano e meio mais tarde, quando Perez já estava preso e esquecido, em uma nota perdida entre anúncios.
Robert Swan colocou-se ao lado da bruxa ao assumir sua responsabilidade em todo o procedimento ilegal, dizendo tê-la recrutado sob as asas do AMI, que permitia a ajuda internacional entre os Departamentos espalhados ao redor do mundo. Ferreira não tomou parte, como disse que faria desde que sua Auror havia assinado toda a documentação necessária. Em reunião particular com sua subordinada, aliás, deixou claro que ela estaria em maus lençóis caso chegasse a mencionar o envolvimento do Departamento brasileiro mesmo se fosse demitida como pena pelo Conselho Geral. Apesar da ameaça velada, a mulher não pareceu abalada ou assustada pelas suas palavras – em verdade, Camila demoraria mais do que meses para realmente começar a se expressar com clareza novamente.
Ao final de todo o processo, Camila Oliveira foi suspensa de suas atividades como Auror durante o período de seis meses, onde deveria ser avaliada constantemente para que, ao final desse tempo, fosse testada para provar se ainda era capaz de exercer a profissão. Apesar de declarada culpada, e receber admoestações contra suas atitudes, foi elogiada depois de terminado seu julgamento por Denis Brosseau por perspicácia e atuação em campo, relendo os pontos que considerava mais importantes em seu relatório. Robert Swan apenas recebeu uma advertência formal e um corte de seu salário durante o período de três meses.
Mathias Perez foi condenado a cento e cinqüenta e três anos em regime fechado, somados todas as suas condenações. Ainda sob as vistas dos jornais, foi encaminhado para a prisão de segurança máxima da América Latina, em Rum Cay. Não demorou a que sua existência fosse esquecida, ainda mais em um período que os rumores sobre as ações de Harry Potter pareciam pipocar em cada esquina, em cada país, deixando as pessoas apenas imaginando como isso seria possível, estar em tantos lugares ao mesmo tempo.
Camila Oliveira retornou ao seu país de origem quatro meses antes do falecimento de Álvaro Ferreira, o diretor do Departamento Brasileiro, e seis meses antes de receber a indicação ao posto da diretoria de seu país por competência e espírito de liderança. A Auror assumiu o cargo apenas dois anos mais tarde, carregando prestigiosa reputação como Auror com seu retorno na Homicídios, após a abertura das negociações para o projeto do Departamento Unificado das Américas.
Apesar de rápidas conquistas e organização, as pessoas só viriam a realmente conhecê-la quando ficou evidente o desgosto que a Auror mostrava em relação ao preferido de Robert Swan para sua posição, Mark Rutherford, em uma confraternização entre diretores de diversos países.
Nunca se compreendeu realmente o motivo do atrito entre os dois Aurores, e jornalistas mais sérios apenas se questionavam se isso geraria problemas na gestão de dois Departamentos geralmente aliados. As fofoqueiras de plantão, por sua vez, apenas criavam teorias e teorias, uma mais absurda que a outra, e procuravam desenterrar histórias que seriam impossíveis de se adquirir a menos que fossem os próprios indivíduos em questão.
Aparentemente, Michael Stuart não compreendeu que sua saída solitária significava um rompimento naquela relação distorcida.
Camila sabia que não poderia culpá-lo, entretanto. A vida real não era um filme romântico, em que tudo era subjetivo – um toque significava muito mais do que um contato, a compreensão sobre um assunto para uma pessoa compreendia em a apreensão de todos ao seu redor – e situações precisavam ser explicadas, principalmente no que dizia a respeito de sentimentos.
Ele a procurou como louco durante o dia inteiro – exigindo de Eduardo informações sobre onde ela estava da manhã até o fim de seu turno – mas Camila estava tão atarefada e indo de um lugar para o outro que acabou o ignorando prontamente em todas as situações. Não era como se ela estivesse agindo como uma criança, ou uma desesperada – deixando-o louco atrás de si, desesperado para saber o que havia de errado, esperando que isso pudesse consertar o que havia de errado entre eles -, simplesmente estava sem tempo, ponto.
Quando fechou o registro do chuveiro de sua suíte e sentiu o vapor de água ainda aquecê-la daquela noite fria, ela prometeu a si mesma que conversaria com Michael assim que interrogasse Rutherford, e então os dois poderiam seguir seus rumos.
Ou ele, no caso, porque ela estava agindo como se nada de extraordinário tivesse acontecido, afinal...
Vestiu-se preguiçosamente, usando um pijama velho e de estampas infantis que sempre lhe fora muito cômodo, e após secar o cabelo, deitou-se em sua cama agradecendo por todo o conforto que agora sentia. Era incrível o quanto uma cama, um banho quente e um pijama velho eram capazes de fazer a um humor -.
O barulho do telefone celular vibrando sobre a cômoda e tocando uma musica estridente – escolhida a dedo por Karen – a assustou, e ela sobressaltou enquanto erguia o rosto de seu travesseiro, perdida. Com os olhos pesados, constatou que ainda eram cinco e vinte da manhã, e se perguntou o que diabos seria a droga daquela luz azul que piscava e fazia tanta desordem.
Demoraram segundos, que lhe pareceram minutos, até que ela compreendesse que aquilo era seu telefone, e que deveria atendê-lo – nem que fosse para xingar o infeliz, provavelmente Karen (porque, afinal, ela era a única que usava uma porcaria daquelas para se comunicar com Camila e as outras), por tê-la acordado. Atendeu-o sem olhar o identificador de chamadas, e o fez com a pior voz possível, para que a mais velha percebesse que havia a acordado:
- O que é?
Num breve instante, lembrou-se que havia dado seu número para Evelyn Harleigh, também, e preocupou-se que talvez pudesse ser ela ou marido. Ai caramba, o que ela havia feito? Precisava ser gentil e solidária com aqueles pais, não uma completa -.
-... Camila Oliveira? Auror Camila Oliveira?
Aquela voz não poderia, definitivamente, pertencer a Evelyn Harleigh, tampouco a Karen. Baixa, hesitante e de certo modo infantil, não existia nada de familiar em seu tom, surpreendendo a Auror, além do fato que alguém a chamava por Auror num aparelho trouxa. Mais desperta, Camila passou a mão pelo rosto enquanto procurava se sentar, o corpo reclamando da falta de calor que recebia por se esconder sob seus cobertores.
- Sim, sou eu.
A respiração da menina acelerou, como se aquela informação lhe amedrontasse ou a empolgasse. Preenchendo o silêncio apenas pelas lufadas de ar, a garota parecia se decidir de suas próximas palavras, e se assustou quando Camila questionou, incerta:
- Er – quem é?
A garota disparou a resposta, sua voz embaralhando-se em euforia e desespero:
- Eu – eu – você pode me ajudar. Você pode nos salvar.
Seja quem fosse, a pessoa estava bêbada ou louca, ela decidiu. Não deveria ter reconhecido a voz por causa do sono, só podia ser. Enquanto lutava contra a própria vontade de desligar o aparelho e retornar para seu tão merecido sono, a menina repetiu as mesmas palavras antes de complementar num tom desolado, como se começasse a duvidar de suas esperanças:
-... Claire disse que você pode nos salvar.
A chegada de Mark ao país passou tão despercebida quanto de qualquer outro cidadão. Enquanto arrastava o carrinho com suas malas pelo enorme saguão, já lotado de inúmeros bruxos e bruxas, ele se sentia satisfeito ao perceber que nada daquela bagunça de pessoas era sua culpa – não existiam jornalistas, homens e mulheres com câmeras pedindo sua atenção, tirando fotografias, dizendo coisas absurdas, rumores imbecis a respeito de toda sua cumplicidade com o Erick Rutherford, ou algo na mesma linha de pensamento.
Toda aquela loucura a respeito do Conselho Geral parecia, finalmente, ter acabado. Bom, ele pensou.
Parando o carrinho em frente a uma das lojas contidas dentro do saguão das Chaves, ele pediu por café enquanto consultava o relógio. Estava duas horas adiantado – não existiam mais Chaves para depois das sete, e por conhecer a própria falta de sorte no que se dizia a respeito de atrasos em viagens por culpa de algum problema de feitiço, preferiu agendar uma viagem mais cedo do que seu humor gostaria.
Mas por um lado, era melhor que isso tivesse acontecido, mesmo. Ainda não sabia onde se hospedaria, e não perdera tempo no dia anterior pesquisando por hotéis que pudessem não arrancar seus órgãos junto com todo o dinheiro que lhe restava tamanho o tempo que passaria no país. Não acreditava que o Departamento pisaria tanto em detalhes que lhe diziam a respeito – Camila não seria idiota ao fazê-lo, afinal – mas considerando o que ainda precisava fazer...
O café estava forte e amargo, como gostava. Sentindo-se subitamente revigorado pelo aroma e sabor, chegou até mesmo a sorrir para a atendente, desejando-lhe um bom dia ao se afastar, terminado a sua bebida. A moça piscou, aturdida, antes de apresentar-lhe um sorriso largo, acompanhado de maçãs do rosto coradas, cheias de expectativa, mas Mark já estava rumando para a saída e não a viu.
Procurar um hotel que satisfizesse suas necessidades não foi complicado. Um bruxo no balcão de informações queria que ele se entusiasmasse pelas vistas estupendas e enorme luxo que os quartos dos hotéis próximos ao Ministério ofereciam. Todo o conforto que disponibilizavam seria o suficiente para que ele desprezasse o próprio apartamento quando fosse necessário voltar, mas no final Mark optou por um ambiente simples e sem grandes atrativos, na São Paulo trouxa, próximo ao Departamento brasileiro por algumas quadras, muito para o desgosto do atendente. Mas o espaço era limpo e bem arrumado, por que diabos ele gastaria mais em um lugar que pregava ter camas feitas com pedras preciosas construída por duendes?
Saindo do Ministério com alças das duas malas sobre os ombros, com o panfleto do Concept Hotel, ele leu as coordenadas antes de aparatar até o local escolhido.
Eram quinze para as sete quando ele já estava em seu quarto de hotel, com as roupas guardadas no armário e os tênis jogados próximos à cama de casal. Espreguiçou-se e, olhando para a cama, decidiu que tiraria um cochilo até dez para as oito, dez minutos antes do horário combinado para o encontro. Ligou para a recepção e pediu para que o acordassem no horário desejado.
Adormeceu assim que deitou a cabeça no travesseiro, preso em um sono sem sonhos e sem preocupações. Algo bem diferente do que seria obrigado a vivenciar horas mais tarde.
Helena mal tivera tempo de jogar a bolsa sobre sua escrivaninha e colocar o jaleco branco quando a porta de seu escritório se abriu, mostrando-lhe Richard Cooper.
Sentiu-se vulnerável e exposta apenas com olhar daquele homem, com um simples encontro de olhares, e ficou exasperada consigo e com Richard por causa disso. Cruzando os braços, como se aquilo fosse capaz de resguardá-la dele, afastar o estremecimento que percorreu por sua pele, começou com um tom seco e profissional, esperando que aquilo fosse capaz de afastá-lo não apenas de seus próprios medos, mas de seus desejos também:
- Se você acha que eu vou -.
- Mila veio com você, Lena?
Ela perdeu sua ameaça com aquela pergunta. Piscou, os olhos castanhos confusos e apenas o encarou em silêncio, os lábios entreabertos. Richard continuou ali, esperando-a pacientemente, as expressões faciais gentis apesar da estranha expectativa que ela era capaz de ler, mesmo que bem escondida em sua mascara.
- Eu – não. Ela não estava em casa... Ela não está aqui?
Ele negou. Helena franziu o cenho.
- É estranho, ela já não estava em casa quando acordei. Karen disse que ela havia deixado um bilhete na geladeira, mas pensei que ela estivesse aqui...
- Você sabe onde ela está? Karen disse onde ela iria?
A legista balançou a cabeça, negando.
- Karen não mencionou, isso foi apenas um comentário de café da manhã, quando Sofia perguntou se Mila ainda estava dormindo. Ninguém pressionou o assunto – ela sempre faz isso, sair de madrugada de casa para trabalhar, a louca. – ela interrompeu seu monologo ao perceber a careta de Richard – Há algo de errado, não há?
O Auror suspirou, e assentiu com impaciência.
- Camila tem uma reunião com Rutherford em dois minutos, e ninguém a encontra. – admitiu, passando a mão pelos cabelos loiros – Isso não é do feitio dela, sumir de repente assim. Se você a encontrar -.
A porta se abriu, surpreendendo o casal. Eduardo Correia encarou Helena por alguns segundos, e depois Richard, antes de dirigir sua atenção para o homem.
- Rutherford está aqui.
- Ah, que merda. – o Auror reclamou, bufando – Já vou, já vou.
Ele reclamava de Camila ao sair da sala. Helena continuou ali, aturdida, perguntando-se o que havia sido tudo aquilo. Preocupou-se por sua irmã, questionando-se onde diabos ela poderia ter se metido, mas também estranhou ao perceber que se sentira chateada ao lembrar que Richard sequer parecera preocupado em agradá-la durante todo o tempo que haviam permanecido no mesmo aposento.
Apesar do horário aparentemente cedo, o centro da cidade já estava lotado de pessoas, com seus passos apressados e suas cabeças baixas, presos em seus próprios mundos e preocupações.
Camila seguiu por entre as pessoas, o passo semelhante e os olhos fixando em cada mulher ou adolescente que se passava por ela. Algumas a encaravam, apenas uma troca breve de atenções, nada muito importante, e então seguiam seus respectivos rumos. Torcendo as mãos com nervosismo ao lado do corpo, sentindo-as tão frias quanto uma pedra, continuou seguindo apressada até o local combinado pela garota. Sua barriga doía em antecipação, e a preocupação era evidente em seu rosto.
Sabia que estava agindo errado, e que se algum de seus subordinados fizesse uma coisa dessas, ela armaria um inferno... Correndo e mal avisando alguém caso algo acontecesse... Faltando aos seus proprios compromissos, não elaborando um plano para todo aquele encontro... Mas ate então, o que ela poderia ter feito? Ela não tivera muito tempo para decidir, tudo o que poderia ter feito, ela fez. E isso se resumia a concordar com as condições daquela voz desconhecida.
O relógio em seu pulso soltou um bip, imperceptível aos seus ouvidos e a todo o mundo, anunciando a mudança de horário. Oito horas da manhã. A garota havia dito para que ela se encontrasse próximo à relojoaria de aparência mais antiga, ao lado de um prédio verde, tão antigo quanto, na Rua da Igreja.
Sentindo-se ao mesmo tempo atenta e perdida em meio a tanta bagunça e barulho de carros e pessoas, Camila parou de caminhar ao avistar o chamativo e velho prédio verde, e a velha e bonita forma da Igreja. Colocando as mãos no bolso da jaqueta, continuou ali bloqueando a passagem de muitos. Franziu o cenho, considerando mais uma vez suas atitudes.
Relutante, obrigou que suas pernas a guiassem até dita relojoaria, inspirando fundo, sentindo o frio do vento que batia com força em seu rosto. As mãos ainda no bolso, sentiu a varinha escondida em um dos lados roçar-lhe os dedos, mas aquilo não foi o suficiente para que ela se sentisse segura.
Não sabia, afinal, com o que estaria lidando.
- Como assim, ela não está aqui?
As perguntas saíram antes que ele pudesse controlá-las. Inevitável – a surpresa fora mais forte do que qualquer autocontrole que ele pudesse possuir. Incapaz de esconder sua surpresa e incompreensão, Mark estudou Richard com expressões confusas, enquanto o Auror o presenteava com uma face cheia de exasperação.
- Não estando. – fora a resposta seca e irritada – Aconteceram alguns imprevistos, e Camila não pode comparecer a tempo de-.
- Quais imprevistos?
Richard Cooper se interrompeu em suas palavras, engasgando-se em sua indignação e súbita irritação que sentiu pelo atrevimento do homem, mas Mark pareceu não se importar. Camila tinha um senso de horário que não condizia com aquele atraso.
E mesmo se algo mais importante tivesse aparecido, ela teria avisado pelo menos seus subordinados, de alguma maneira. Entretanto, pela forma que Cooper respondia e o encarava, ele parecia saber tanto quanto ele.
Ele também não fazia a menor ideia do que estava acontecendo.
- Você não precisa saber o que aconteceu. – Cooper respondeu com grosseria, incapaz de esconder aquele tom que o denunciava – Apenas saiba que Camila entrará em contato assim que voltar.
Mark ergueu uma sobrancelha, não acreditando na situação.
- E você não pode simplesmente fazer essa conversa na ausência dela, para que eu possa -.
- Não.
- Então o que? Eu devo simplesmente sentar e esperar uma carta dela?
- Exato. – foi à resposta seca de Cooper. Normalmente, ele teria assumido a conversa e feito seu trabalho, mas Camila ultimamente estava um inferno a respeito de humor, e ele era obrigado a pisar em ovos a respeito de suas atitudes. Para sua infelicidade, Rutherford era a droga de um ovo, um que geraria grande tumulto caso ele desse com os pés pelas mãos, caso a diretora descobrisse. Então, que se ferrasse a cara de desgosto de Rutherford, ou a própria preocupação que sentia com toda aquela situação – Está dispensado, e peço desculpas pelo transtorno.
Desculpas. Até parece. Richard queria que ele se ferrasse.
O Auror deu as costas e tratou de sumir de suas vistas antes que Mark pudesse protestar. Torcendo as feições, ainda não acreditando em tudo que acontecia, ele balançou a cabeça em negativa uma vez, e depois outra, antes de girar nos calcanhares e seguir para a saída do Departamento, contrariado.
Sentia-se irritado por ter perdido seu tempo, e por pensar no quanto ainda seria obrigado a perder até que conseguisse tirar o Departamento brasileiro do seu pé, para que tornasse sua atenção para as próprias obrigações no país, parecia aumentar o estresse ainda mais. Ao mesmo tempo, não conseguia deixar de pensar no que poderia ter acontecido a Camila para que atrasasse.
Onde ela estaria? Teria ela descoberto alguma coisa sobre os assassinos de Claire? Aquilo trouxe certa expectativa ao seu interior. Sentiu-se ansioso e, ao mesmo tempo, incapaz por ser obrigado a sentar e esperar que os Aurores fizessem seu trabalho, como todo bom civil.
Ele franziu o cenho enquanto recebia aquele vento frio de julho no rosto ao sair do Departamento, repassando as próprias palavras. Sentar e esperar. Sentar e esperar. Agir como um civil.
Pelo menos aparentemente.
Seu estômago roncou, e Mark percebeu que não tinha ingerido nada além daquele café no Ministério. Colocando as mãos no bolso das calças para protegê-las do frio, ele passou pela viela que separava o mundo bruxo do trouxa, e caminhou em direção à padaria que avistara (e o atraíra pelo cheiro de pão e bolo) minutos atrás, ao se aproximar do Departamento pela manhã, antes que toda aquela palhaçada acontecesse.
O calor do recinto fora bem vindo, e ele se sentiu imediatamente aquecido enquanto tomava um assento, com as costas para a parede e as vistas para a saída do local. Um homem veio anotar seu pedido e logo se retirou, deixando o bruxo perdido em seus próprios pensamentos mais uma vez. Largou-se no banco, mais a vontade, e pensou se contataria ou não Nathan assim que retornasse ao hotel. Não era como se ele tivesse muito para fazer até que Camila tivesse o bom senso de lhe mandar a droga da carta, afinal...
O homem retornou com seu pedido, e ele tratou de se ocupar com o enorme lanche com bacon, presunto e queijo derretido, antes de sorver um longo gole de refrigerante. Ao colocar a latinha de volta a mesa, decidiu que contataria Nathan, sim. O melhor amigo estava arriscando a própria carreira, afinal, ao ajudá-lo, e o mínimo que ele deveria fazer era se dignar a reportar com determinada freqüência a ele. Além disso, Nathan gostaria de saber o que havia se passado na reunião com Camila – e, claro, Mark teria que lhe dizer que não havia existido reunião alguma.
Contrariado mais uma vez, mordeu o lanche com mais força e mastigou com rapidez, franzindo o cenho. Próximo a ele, um grupo de operários discutia fervorosamente os eventos do jogo de futebol da noite passada, sua animação e voz alta estendida pelo som alto da televisão. Eles gritavam, pareciam furiosos um com o outro e então gargalhavam, gozando uns dos outros.
Aquele clima de caos era, de alguma maneira, relaxante, quando aliado ao calor do estabelecimento.
Pegando a latinha para mais um gole, ele pareceu finalmente começar a relaxar, tornando-se alheio ao súbito silencio que preencheu o local, seguido por murmúrios surpresos. Não percebeu, também, a atenção de quase todos os presentes cair sobre a televisão, que interrompia seu programa para relatar alguma noticia de ultima hora. Só percebeu que havia algo de errado quando a mulher que cuidava da caixa perguntou surpresa:
- Cadu, ela não se parece com a mulher que sempre toma café da manhã aqui com aquele gringo?
Os burburinhos não haviam cessado. Na verdade, pareciam aumentar até que todos estivessem falando com todos, suas vozes surpresas e, de certo modo, indignadas. Esticando o pescoço para que pudesse ter melhor visão, Mark procurou ver de sua cadeira o que estava passando no aparelho para que todos estivessem tão subitamente surpresos. Foi preciso que cabeças se movessem, corpos se afastassem e saíssem de frente da tevê para que ele finalmente pudesse ter alguma visão.
O que viu, contudo, roubou seu ar e toda a sua calma.
O jornal repetiu a imagem duas vezes – uma de forma rápida, outra em câmera lenta, permitindo que ele tivesse detalhes aos quais gostaria de jamais saber. Na primeira vez, foi apenas capaz de captar as duas pessoas conversando, destacadas pelo programa antes que ambas caíssem no chão ao som de um estampido, e várias pessoas começassem a se abaixar e gritar.
Na segunda vez, com a câmera muito mais próxima das figuras destacadas, ele conseguiu perceber as feições de Camila em meio a toda aquela confusão, e o tiro que lhe atingira, fazendo-a se estatelar no chão, unindo-se a tantos outros que faziam esse gesto por medo.
- Isso é surpreendente – a voz de um provável repórter soou enquanto a imagem congelava, mostrando as duas figuras femininas – Isso acabou de acontecer! As imagens são inéditas, Brasil, algo de segundos atrás! No centro da cidade, do nada, praticamente! Patrícia Pereira estava em direção ao outro lado da cidade para gravar uma matéria quando isso aconteceu, e foi tudo gravado de modo que -.
Acabou de acontecer.
Mark só percebeu que havia saído de sua cadeira quando estava curvado sobre o balcão da padaria, as mãos espalmadas sobre a mesa e os olhos cravados no padeiro, um homem na faixa de seus cinqüenta e poucos anos.
- Onde fica isso? – ele cuspiu a pergunta, o português soando tolo e enrolado em sua garganta. O homem piscou, aturdido por seu comportamento e súbito questionamento.
- Eu – er – o quê?
Dessa vez, o ex-diretor grudou suas mãos no avental branco do homem, os punhos o aproximando de modo que seu tronco se aproximasse dele. Com o rosto contorcido, ele gritou a pergunta, ignorando a atenção que lhe era dirigida dos outros presentes:
- Esse tiroteio! Onde aconteceu isso? Qual é o endereço desse lugar?
Deus o perdoasse, ele estava quase sacudindo o velho. Olhos castanhos se arregalaram em surpresa, em medo, e o padeiro balbuciou as palavras que o levariam para o local. Com a respiração escapando pelos lábios, Mark soltou o homem de maneira brusca e deu um passo para trás, em seguida dois, o rosto refletindo inúmeras emoções antes que ele realmente desse as costas e corresse como um louco para fora do lugar.
- E-ei, você esqueceu de pagar!
O primeiro tiro atingira a garota, passando pela mochila e atingindo-a pelo meio das costas. O projétil não saiu de seu corpo, e o impacto forçou a figura franzina em direção a Camila, que tomou como primeira reação segurá-la antes que pudesse se abaixar.
A mudança de posição custou-lhe o ombro, quando o segundo tiro atingiu o pescoço da menina, atravessando-o e a seu ombro.
O impacto fora mais forte que a dor, pelo menos inicialmente. Por não estar com os pés totalmente firmados ao chão na hora do tiro, tropeçou, e tombou com a garota ao chão enquanto os gritos assustados das outras pessoas preenchiam seus ouvidos enquanto o inferno era armado. Fora aí então que seu ombro ardeu de maneira excruciante, e ela sentiu o sangue escorrer-lhe pela clavícula, pescoço e costas, unido ao sangue que jorrava do pescoço da garota. O ar escapou pelos seus lábios num ritmo ofegante, unido a um gemido entrecortado.
Apesar da tremulação que surgiu em toda a extensão de seu braço e mãos, ela continuou unida à garota, usando o braço bom para esticar por entre as costas da garota, suas mãos tocando o ponto empapado em sangue.
- Não... Não. – ela murmurou, e tentou se erguer, pelo menos o suficiente para que pudesse arrastar a menina para algum dos estabelecimentos para que pudessem se proteger, ainda que meramente.
A gritaria era ensurdecedora. Todos os cantos pareciam existir alguém gritando, chorando ou se desesperando, e Camila se sentia desorientada com tudo aquilo. Assim como ela, as pessoas ao seu redor, próximas por questão de poucos metros, pareciam se levantar e observarem, desconfiadas e assustadas, seus arredores, como se em busca de um novo tiroteio. As mais próximas pareciam se afastar dela ao invés de ajudá-la, mas a Auror não lhes deu atenção. Estavam todos assustados, e que pessoa normal se aproximaria de alguém machucado por um tiro, do nada?
Camila se ergueu, finalmente, e erguendo a menina parcialmente, arrastou-a até a relojoaria, o lugar mais próximo que poderia lhes oferecer algum tipo de segurança. O sangue da garota a sujava ainda mais, o vermelho escuro manchando a camiseta branca que já estava tingida pelo próprio ferimento. Um rastro também era deixado conforme ela e a garota se dirigiam até o estabelecimento.
A provável dona do estabelecimento, uma senhora de pelo menos uns sessenta anos, levou as mãos à boca e parecia desesperada pela situação. Não sabia se dava vazão aos seus medos, sabendo que duas pessoas vítimas de toda aquela situação poderia lhe causar problemas, acarretando até mesmo a sua vida, ou se as ajudava. Derrubando a menina no chão com um gemido, Camila decidiu por ela num tom de voz irritado e autoritário:
- Chame uma ambulância!
Os olhos maduros se arregalaram, a testa aprofundando-se em linhas de expressões. Por fim, saindo de seu pequeno estupor, ela procurou se apressar o máximo que sua idade permitia em direção ao telefone.
Camila ajoelhou-se ao lado da garota, as mãos trêmulas retirando a mochila que ainda permanecia nos ombros magrelos. Pela forma como olhava para o corpo e ignorava o pescoço da menina – Marcela, ela havia dito – a Auror ainda não parecia pronta para admitir a morte.
- Não se preocupe. – ela sussurrou para o corpo, a voz baixa e ofegante – Uma ambulância virá até nó, e tudo vai acabar bem, tudo vai acabar bem -.
Algumas pessoas pareciam finalmente recuperadas do medo pela própria vida, tendo em vista que algumas também entraram na relojoaria, prontos para prestar serviço às duas mulheres, as únicas que haviam recebido um tiro. Contudo, ao presenciarem a cena da mulher lutando para salvar alguém que já havia partido, todos paravam, incertos sobre como proceder.
Todos, menos um.
Camila virou Marcela de bruços, as lágrimas brotando irritadas em seus olhos por ninguém se dignar a fazer alguma coisa por elas. Torcendo suas feições para controlar o choro, ela pressionou o ferimento nas costas da garota com raiva – raiva da menina, da velha que demorava a falar com a emergência, das pessoas paradas a encarando como se ela e Marcela fossem grandes atrações, dela mesma por estar chorando como uma covarde -.
Por que ninguém as ajudava? Diabos!
Em sua tarefa, ela não percebeu alguém cair de joelhos ao seu lado, pelo menos não até que essa pessoa, após alguns segundos, colocasse suas mãos sobre as dela, afastando-as das costas de Marcela.
- Chega, Camila.
Erguendo o rosto, seus olhos cheios de lágrimas encontraram os de Mark Rutherford, e ela se surpreendeu por ele estar ali. Entreabriu os lábios, deixando que a respiração escapasse por entre eles e balançou a cabeça duas vezes em negação, aturdida com toda a situação, e aturdida pelo alívio que sentiu ao vê-lo ali. Antes que ela sequer pensasse em ignorá-lo e retornar a sua tarefa, ele apertou suas mãos entre as dele e repetiu com firmeza:
- Chega.
As lágrimas começaram a finalmente escorrer pelo rosto confuso, incapaz de aceitar o significado por trás daquela única palavra.
Continua...
