Capítulo Onze
Sim, ela era contra àquela escolha, e continuaria sendo até o fim dos tempos.
Camila aceitou uma taça de champanhe oferecida por um garçom sem realmente perceber suas próprias atitudes, os olhos sempre fixos num único ponto, numa única figura. Seus pés já reclamavam do salto que usava, e há muito ela havia desistido de prestar atenção na conversa leve que o diretor da Itália mantinha com mais dois outros diretores, incapaz de se manter simpática com eles e observar com frieza o homem que a cada minuto era cumprimentado e colocado em grande estima. É claro, ela ainda sorria e acenava para o italiano, mas não existiam mais comentários por parte dela – não seria idiota de fazê-lo, afinal. Mal sabia no que girava o assunto atualmente...
Não conseguia acreditar que Robert Swan o havia indicado. Ele, entre tantas pessoas, tantos Aurores melhores. Não era apenas por motivos pessoais que ela discordava daquela escolha, não. Grande parte de seus argumentos eram baseadas em opiniões sólidas e fundamentadas em observações e análises.
Sim, era isso.
Ele não era uma pessoa comprometida. Nem um pouco, nem o milímetro necessário para um diretor. Ela era incapaz de não se perguntar como ele reagiria quando alguma bomba explodisse em suas mãos. Agiria como um diretor, agiria como um homem? Ela duvidava, e muito.
Ele também não sabia aceitar responsabilidades. Se o episódio do Conselho Geral contasse, aquela situação provava o quanto ele preferia limpar as mãos e se ausentar de culpa ao invés de arcar com as conseqüências. Não, é claro que não... Por que ele iria levar culpa de algo que participou, quando outros poderiam se ferrar no lugar dele?
Isso sem contar com sua característica de não aceitar outras opiniões além da própria. Não, por que ele daria ouvido a outras pessoas quando se achava esperto demais, bom demais? O próprio Denis Brosseau poderia se colocar diante dele e lhe ordenar alguma regra que Mark Rutherford provavelmente não daria à mínima. Aquele homem não sabia respeitar hierarquia, ou trabalho em equipe... Ou qualquer coisa que escapasse o próprio umbigo.
Camila estava tão perdida em seus pensamentos, em suas razões que não percebeu que Robert Swan a chamava. Seus olhos, tão fixos no homem que agora a encarava, não perceberam seu arredor, e foi preciso que Richard lhe cutucasse brevemente nas costelas para que ela acordasse.
Ela piscou, e estou Richard com um olhar surpreso. O subordinado, magnífico em seus trajes formais, fez um aceno com a cabeça indicando Swan, que a encarava em expectativa, esperando-a. Camila o encarou, e depois a Swan, e então finalmente entendeu o que o homem esperava dela.
Grunhiu.
- Posso ir com você, se quiser. – Richard ofereceu ao perceber os lábios da diretora comprimir ante a compreensão do problema. Ele, apesar de conhecê-la já há quase três anos e se tornar mais do que seu subdiretor, mas seu amigo, sabia tanto sobre a opinião dela a respeito de Rutherford quanto os demais: nada muito concreto. A Auror sorriu pela educação do homem, mas dispensou-o com educação, e livrando-se da taça de champanhe agora vazia, seguiu em direção onde Swan e Rutherford estavam acompanhados por dois jornalistas. Camila não sabia quem eles eram ou para qual jornal trabalhavam, mas era capaz de reconhecer aquelas expressões em qualquer lugar, unidas às mãos ansiosas sobre penas e pergaminhos.
O cumprimento fora polido para os presentes, apesar de ligeiramente mais rápido e frio para o sucessor de Swan – era inevitável. Ela parecia incapaz de respeitá-lo ou até mesmo tolerá-lo, e isso ficou óbvio no episódio do murro que ela dera em seu nariz há alguns anos.
- O Departamento brasileiro é um grande aliado no combate às Artes das Trevas. – Swan disse aos jornalistas, depositando a mão direita sobre o ombro da Auror, que o encarou antes de assentir para os jornalistas. Dirigindo-se à Camila, continuou num tom mais gentil: - Esses cavalheiros gostariam de fazer algumas perguntas, se não importa, Camila?
O homem mais próximo de Mark terminou de escrever e perguntou ao vê-la assentir:
- Diretora Oliveira, o que a senhora espera dessa nova administração?
Ela não encarou Rutherford ao responder:
- Provavelmente o que todos os outros diretores esperam: competência. – ela continuou com sua voz educada e atenciosa – E que o senhor Rutherford continue com o trabalho do diretor Swan, que sempre se mostrou eficaz e muito justo. – acrescentou ao perceber que havia soado muito rígida aos próprios ouvidos.
- A senhora conhece o trabalho do novo diretor, diretora? – o outro jornalista questionou, fazendo com que as atenções de Rutherford e Swan caíssem sobre si, como se esperando algo...
Camila apenas sorriu polidamente.
- Não. Apesar de solicitar diversos Aurores ao longo do ano para vários departamentos, o que inclui o Departamento americano, nunca tive a oportunidade de trabalhar com o senhor Rutherford. Ou conhecê-lo até então – acrescentou, o sorriso ainda presente – Mas confio no julgamento do diretor Swan.
Até parece, ela pensou.
- Mas a senhora possui alguma opinião sobre essa nova administração? – o jornalista insistiu, e Camila resmungou internamente.
- Não costumo julgar uma situação ou pessoa sem conhecê-la inteiramente. – replicou – Mas você pode me perguntar isso novamente em um ano.
Os presentes sorriram, acompanhados de uma pequena risada. A risada de Rutherford soara um pouco sem graça até mesmo para ela.
- Mas espero que as relações entre o departamento brasileiro e americano continuem harmoniosas. – acrescentou, ao final.
- Muito obrigado, Camila. – Robert Swan disse por fim, apertando a mão em seu ombro. Tomando aquela deixa como sua saída, e agradecendo internamente por isso, a Auror se desculpou com palavras vazias e se retirou. Procurando pisar tão levemente quanto antes, ou continuar com as expressões suaves enquanto atraía olhares de outros diretores e diretoras, ela seguiu até onde estivera inicialmente, onde Richard ainda conversava com o diretor italiano.
- Com licença. – ela sorriu para os presentes, depositando sua mão com suavidade sobre o braço do subdiretor – Richard, posso falar com você por um minuto?
Não era preciso pedir duas vezes. Richard se desculpou com os demais e logo se afastava com a Auror para um lugar onde menos pessoas pudessem escutá-los. Perdendo o sorriso, Camila cruzou os braços e começou num tom de voz incomodado:
- Podemos ir embora, se quiser.
Richard franziu o cenho, confuso.
- Mas Swan ainda não fez o discurso.
- Já fiz a minha parte. – ela respondeu, desviando o olhar em direção ao grupo que estivera outrora. Incomodou-se ainda mais ao perceber Rutherford se afastando dos demais e seguindo em direção a...
Ah, meu Deus.
Richard, parecendo alheio aos acontecimentos e a turbulência que a mulher parecia passar, colocou uma mão sobre seu braço e respondeu num tom gentil:
- Espere até pelos menos Swan fazer o discurso, Camila. Você não vai querer os jornais questionando céu e terra caso percebam sua ausência.
- Eu não sou a estrela da noite, ele é. – ela murmurou, zangada, entrando em certo pânico ao perceber que o infeliz realmente vinha em sua direção.
Richard suspirou, ainda alheio.
Vamos embora. Vamos embora, vamos embora, vamos embora, vamos embora, vamos embora -.
- Tudo bem, se você realmente quer -.
- Com licença. – Rutherford começou, agora entre os dois Aurores. Camila não conseguiu deixar de grunhir – Camila, se você não se importa, será -.
- Eu já venho. – Richard disse, e lançou um olhar de desculpas para a chefe, que o encarava mortificada – Vou buscar algo para molhar a garganta... Quer alguma coisa, Mila?
Sua cabeça. Em uma bandeja.
Ele saiu antes mesmo que Camila respondesse qualquer coisa, deixando-a ali com aquele homem. Desgostosa, indignada, a Auror inspirou fundo antes que observasse o futuro diretor de verdade.
Foi pela primeira vez na noite, contudo, que ela percebeu o quanto ele estava bonito naquele smoking. Tal constatação foi cruel diante de todo seu desgosto por quem ele era e por tudo o que representava, e ela se chutou e xingou mentalmente até que tal pensamento escapasse de sua mente, mas isso não resolveu.
Ele era tão horroroso, tão odioso que sequer queria vê-lo com a apreciação que uma mulher poderia – n-não, nem mesmo como um homem atraente – Deus, não!
Ele abriu um pequeno sorriso, fraco, enquanto ela ainda guerreava consigo mesma.
- Obrigado pelas suas respostas. Digo, para os jornalistas. – atrapalhando-se, o sorriso se alargou mais um pouco, e ele acrescentou: - Foi importante sua opinião para -.
- Aquela não foi minha opinião. – ela respondeu, finalmente sã. A voz dele havia a despertado de sua própria loucura, e tudo pareceu mais claro para ela – Você sabe qual é a minha opinião, exatamente. – continuou, suas expressões agora endurecidas.
Ele hesitou diante de sua resposta.
- Mas -.
- Respeito Swan, no entanto. – ela continuou, o cenho franzido – Jamais o faria se passar por idiota na frente dos outros, mesmo possuindo certeza absoluta que você meterá os pés pelas mãos cedo ou tarde, como sempre fez.
Ele se calou, assim como ela, e Camila percebeu a nebulosidade em seus olhos azuis. Não se importou – ele que pensasse o que quisesse, ele que se irritasse com ela, se interessasse. Não importava se eram vários pensamentos, ou apenas um, ela não mudaria sua imagem a respeito daquele já havia mostrado do que era feito, para ela, afinal.
- Se o senhor me dá licença, eu estava de saída. – completou secamente – Mas espero que o senhor aproveite a festa, diretor Rutherford. Afinal, a noite é sua.
Havia tom jocoso ao chamá-lo por diretor. Deixando-o ali, Camila deu as costas e procurou por Richard, pronta para ir embora.
Não ficaria naquele lugar mais um segundo sequer.
Mark fora rápido em tomar o controle de toda a situação. Em um segundo, obrigava-a a largar o corpo de Marcela e, no próximo, pedia para que a dona de relojoaria tomasse conta da Auror, afastava os curiosos e discutia com um policial, quando as viaturas finalmente apareceram - algo sobre afastar Camila de toda aquela cena antes que eles se atrevessem a questioná-la sobre alguma coisa. Houve hostilidade em ambos os lados, até mesmo ameaças por parte dos policiais, mas nenhum dos lados pareceu afetado com toda aquela bravata.
Ele tornou a se aproximar apenas quando a ambulância chegou e os policiais rumaram até o cadáver ainda largado no meio da relojoaria, as expressões ainda intimidadoras pela raiva que sentia e mostrava. Contudo, ao se dirigir para a senhora que cuidava de Camila, ele foi extremamente gentil e educado ao lhe agradecer pela ajuda e ao pedir desculpas por toda aquela bagunça.
- Não se preocupe com isso. – dona Maria respondeu, mas todos ali sabiam que aquilo eram apenas palavras. Ela estava abalada quanto qualquer um dos presentes, e aquele medo ainda a perseguiria por alguns dias, talvez semanas, até que finalmente tornasse tudo parecesse voltar ao normal.
Ele assentiu, mais por parecer incerto sobre o que dizer do que qualquer coisa, e sua atenção tornou para a Auror. Camila se surpreendeu ao ver as expressões se fecharem mais uma vez, mas o espanto maior fora com a mistura enorme de emoções que conseguiu encontrar em seus olhos. Ela estava pronta para dizer-lhe o que sabia, o que havia descoberto de Marcela, mas aquele olhar a calou.
- Os policiais concordaram em afastá-la daqui antes de perguntarem qualquer coisa. – ele informou em uma voz endurecida – Como se sente?
- Tonta. – ela admitiu sem maiores explicações. O cenho dele franziu ainda mais, mas dona Maria o interrompeu antes que ele pudesse dizer qualquer coisa:
- Ela não perdeu tanto sangue – o tiro a pegou apenas de raspão, e você foi rápido em estancar tudo. A tontura pode ser por causa da pancada na cabeça.
- Pancada? – Mark perguntou ríspido a Camila, que fez um bico para ele e desviou o olhar, encarando os próprios tênis, sujos por toda aquela bagunça. A senhora ao lado da Auror pareceu encolher com aquele tom. Sem permissão ou qualquer coisa, ele se aproximou e virou o rosto dela, tirando as mechas de cabelo do rosto de modo que suas mãos agora procurassem pelas escoriações e machucados. Percebeu aquele lado do rosto arranhado e o roxo que, junto aos cortes na têmpora, começavam a inchar.
Camila empurrou sua mão para longe com um tapa, que teria sido mais forte caso ela estivesse inteiramente saudável.
- Você está me machucando. – ela reclamou secamente, seus olhos irritados. Contudo, sua frustração não era suficiente para sobressair a de Mark, que parecia indeciso entre esganá-la e xingá-la até o resto de suas vidas. Com seus lábios transformando-se em uma fina linha, ele afastou suas mãos e a estudou por alguns segundos, a força de seu olhar o suficiente para sufocá-la.
Sem dizer uma palavra, ele deu as costas e saiu da relojoaria.
Camila o assistiu em silêncio, o semblante sério acompanhando cada passo seu. Levando a própria mão ao rosto, a ponta de seus dedos tocando o lugar machucado suavemente, assistiu-o reaparecer agora acompanhado de dois paramédicos.
Dona Maria deu-lhe um pequeno afago nas costas.
- Não fique chateada com ele... Ele só deve estar assustado. – ela ressegurou – É seu namorado?
- Não. – Camila respondeu, não oferecendo mais nenhuma informação, observando-o se aproximar. Era possível perceber os ombros tensos mesmo àquela distância, combinados com a postura empertigada e o semblante endurecido.
Distraidamente, perguntou-se como ele havia descoberto sobre seu encontro com a garota, e como teria chegado até ali, mas duvidava que ele fornecesse qualquer tipo de informação no momento. Ela não o tinha visto tão sério desde o descobrimento sobre Erick Rutherford... Não. Ele apenas se isolara, àquela época.
Droga, tinha tanta coisa que precisava saber e falar! As palavras de Marcela, suas próprias duvidas ainda gritavam em seu cérebro, e aquilo parecia somar a toda tontura e enjôo que sentia.
- Vamos dar uma olhada nesse ombro. – um dos paramédicos disse com suavidade e gentileza, segurando sua jaqueta num pedido silencioso para que ela retirasse a peça de roupa por completo.
Ao fundo, os policiais cobriam o corpo de Marcela com uma espécie de plástico de cor preta. Eles saíram da posição de cócoras e acenaram para dois paramédicos, que se aproximaram com uma maca. Camila torceu as feições. Sentiu-se vazia e imprestável enquanto eles se afastavam com o corpo, sabendo que aquela vida fora tirada por uma falha sua. Deus, se ela tivesse sido mais rápida, mais esperta -.
Se ela não tivesse concordado com aquela loucura desde o início, aquela vida poderia ter sido poupada.
Não poderia?
Mark assistiu cada segundo daquela cena – desde os policiais acompanhando o corpo e os paramédicos até as expressões de Camila. Ele percebeu a culpa preenchê-la – qualquer idiota conseguiria notar aquilo – mas não disse nada. Continuou em silêncio ao seu lado e segurou a jaqueta ensangüentada quando o médico pediu para que ele segurasse, assim como enquanto ele cortava a camiseta branca, abrindo caminho até o ferimento.
- Não está tão feio. – o paramédico comentou, enquanto seu colega assentia, observando o trabalho do outro de perto – Vai precisar de uma costura aí, mas você não pegou um tiro certeiro. Como você bateu a cabeça e tudo o mais, vamos levá-la para o hospital para tirar umas radiografias e ver a opinião de outro médico, tudo bem? Se tudo estiver certo, você fica em observação por algumas horas e logo estará liberada.
Camila não estava prestando atenção. Mark assistiu seus olhos sem vida observar o médico sem realmente levar em consideração suas palavras. Perguntou-se se ela estaria em choque ou ainda presa nas horas anteriores, revendo cada detalhe possível para que não pudesse prestar atenção. Imaginou que fosse a segunda opção – como Auror, você estava sujeito a situações de vida e morte com mais freqüência do que uma pessoa normal gostaria, e apesar do medo sempre presente, era inevitável que alguém se tornasse calejado com o passar dos anos. Com o período que passara próximo a ela, nos meses em que estivera em suas mãos para se livrar do Conselho Geral, ele a redescobrira, descobrira o quanto havia mudado e crescido, e hoje ele sabia que ela não era exceção às mudanças que todo horror presenciado poderia proporcionar.
Suspirando, colocou a mão livre no bolso do jeans e a chamou num tom firme, esperando que aquilo pudesse despertá-la de seus próprios devaneios.
Funcionou. Os orbes verdes arregalaram-se, e ela piscou duas vezes antes de focar sua atenção no homem que ainda esperava sua resposta. Assentiu com mais vigor do que parecia possuir, e o paramédico se deu por satisfeito.
Quando o homem a ajudou a se erguer, enquanto ela agradecia todo o auxilio que dona Maria havia prestado, Mark perguntou ao outro paramédico:
- Posso ir com ela?
- Há alguma relação entre vocês dois?
- Sou amigo da família.
Camila virou o rosto, as expressões contorcidas o estudando em confusão. Ela parecia pronta para recusar aquele pedido – algo que sequer estava em suas mãos – quando o paramédico respondeu:
- Claro, não vejo motivos contrários. Só peço que avise a alguém da família – você sabe, aquelas situações de comoção familiar nunca são muito boas...
- Tudo bem.
- Você não precisa fazer isso. – Camila murmurou com seriedade quando ambos estavam na ambulância, ela segura sobre uma maca e ele sentado ao lado dela – Não é como se eu estivesse em estado crítico.
Aquelas palavras pareceram erradas de se dizer. A pouca calma que ele parecera possuir ao se sentar evaporara-se, e quando seus olhos se encontraram, ela os encontrou mais uma vez endurecidos e cheios de impaciência.
Ele pareceu travar uma batalha com seu próprio pensamento, mas no final, toda sua luta se resumira a quatro palavras:
- Cala a boca, Camila.
Eles não conversaram durante o percurso até o hospital, ou pelo menos até alguns quarteirões de distância. Tanto a Auror quanto Mark seguiu em silêncio, ela sentindo frio de um lado do corpo enquanto o outro era aquecido pela jaqueta jogada de maneira desajeitada sobre o ombro bom, e ele ao seu lado, com os braços cruzados e o semblante ora cansado ora zangado. Falaram-se apenas quando ele perguntou, num tom baixo o suficiente para não chamar a atenção dos paramédicos que conversavam entre si, se existia alguém em sua família com parentesco trouxa que pudesse receber um telefonema, e ela então lhe passou o número do telefone celular de Karen.
E o assunto acabara aí.
Por mais que Camila insistisse que poderia utilizar as próprias pernas para caminhar até o pronto-socorro, foi obrigada a se sentar em uma cadeira de rodas e ser levada por um dos paramédicos que a acompanhara até o interior do hospital, com Mark sempre em seus calcanhares. Não demorou muito para que fosse levada até a sala da enfermaria por um médico de cabelos encaracolados e sorriso gentil, e quando o mesmo começou a se preparar para costurá-la, o ex-diretor saiu da sala, pensando que poderia aproveitar aquele tempo para telefonar para o numero que ela disponibilizara. Encostando-se ao batente ao lado da porta que dava para a sala de enfermaria onde Camila era costurada, ele retirou o celular do bolso do jeans e discou o número.
Esperando ser recebido por uma voz concentrada e séria, parecida com a de Camila quando conversavam pelo Espelho de Duas Faces, não se surpreendeu quando a voz feminina do outro lado atendeu em seu melhor tom profissional:
- Pois não?
Mark se apresentou, sem muitos detalhes, e então passou a informação para a irmã Oliveira todo o ocorrido, procurando sempre assegurar que estava tudo bem, que Camila estava segura, que não existia nada de errado. Na verdade, ele duvidava que a mulher não soubesse o que havia acontecido – pelo amor de Deus, aquilo havia aparecido na televisão.
Karen, porém, pareceu estupefata de inicio, e depois desesperada, mas ele conseguiu manter um tom bom o suficiente para acalmá-la.
- E-eu estava em reunião... Ah, meu Deus... Você tem certeza que ela está bem?
Ele desligou após assegurá-la mais uma vez, e após escutá-la dizer que logo estaria no hospital para ver sua irmã. Alguns minutos mais tarde o médico terminou seu trabalho. Com as mãos no bolso, colocou-se em frente à entrada da sala, observando em silêncio o homem trabalhar no ombro de uma silenciosa Camila. Ela não perceberia que ele estava ali – estava de costas a ele, afinal.
O médico, contudo, percebeu, e Mark não entendeu o olhar de censura que o homem lanç poderia encará-lo como quisesse, pensou em revolta, por fim. Não dava a mínima, e não tiraria Camila de suas vistas até que alguém que ele julgasse competente aparecesse e prometesse que a protegeria do que quer que fosse. E isso reduzia e muito a lista de pessoas prováveis àquela tarefa.
Assistindo o homem fazer seu serviço, o bruxo franziu o cenho ao perceber a sujeira de sangue e poeira naquela camiseta branca e rasgada. Apenas o local do tiro fora devidamente lavado, para que não existisse nenhuma infecção ao fechar o ferimento, mas ainda era possível ver o rastro de sangue seco e escuro por suas costas e o feixe que ia até seu ombro bom – provavelmente que ocorrera durante sua queda – por entre o tecido.
Vendo aquela cena, Mark queria esganá-la - o que era irônico, considerando todo o seu desespero em encontrá-la viva desde que vira aquela maldita imagem na tevê, mas no momento não se importava em ser ou não razoável. Sentindo a irritação subir mais uma vez, xingou Camila mentalmente, e quando nada daquilo resolveu, sentiu-se indignado consigo mesmo.
Aquela louca, aquela problemática -.
Ele percebeu a atenção do médico ir de seu ombro até o rosto arranhado, e ele comentou algo em voz baixa que fez a bruxa rir baixinho. Mark fez uma careta, subitamente incomodado pela aproximação daquele homem, como se ele, assim como qualquer um, inspirasse perigo à Camila.
Que ridículo.
Mais alguns minutos, e o médico havia terminado.
- Vou só trazer os papéis para que você possa preencher, e então vamos até a radiografia, tudo bem? Não acho que tenha acontecido algo, mas é sempre bom prevenir.
- Foi o que o paramédico me disse. – ela comentou distraída enquanto ele jogava suas luvas de látex no cesto reservado ao lixo hospitalar – Mas eu não preciso ficar aqui depois, preciso?
Se Mark não estivesse tão irritado, aquelas palavras o teriam feito sorrir. Camila soara como se precisasse desesperadamente sair daquele lugar, e o pensamento de que ela possuísse fobia de hospitais, entre tantas coisas no mundo, parecia tão absurdo que chegava a ser engraçado.
O médico, ao contrário dele, riu.
- Acho bom deixá-la em observação por algumas horas. Mas não se preocupe, você dormirá em sua casa hoje.
E ele saiu da sala, colocando a mão sobre o ombro de Mark quando passou ao seu lado. Recebendo aquilo como um passe, o bruxo entrou na sala, falando apenas quando parou ao lado dela, os braços cruzados:
- Sua irmã está a caminho.
Camila suspirou, subitamente cansada.
- Preferia que ela não viesse. – murmurou.
- Ela parecia bastante preocupada. – ele pontuou, esperando que a Auror se sentisse culpada. Diabo, era exatamente assim que Camila deveria se sentir, pensou zangado.
Mas seus anseios não foram respondidos.
- Ela provavelmente vai avisar Deus e o mundo. – muxoxou Camila, fazendo com que Mark soltasse um barulho pela boca, chamando sua atenção – O que foi?
Ninguém poderia ser tão perdido, Mark pensou.
- Você poderia ter morrido e tudo o que pode pensar é no quanto te irrita as pessoas estarem preocupadas com você? - ele quis saber, realmente perdendo a paciência. Ela o encarou por alguns segundos, considerando suas palavras e as próprias.
- É justamente por não querer que elas se preocupem que fico irritada pela situação. – disse lentamente, procurando compreender a súbita frustração que cavava seu caminho do íntimo para as expressões do ex-diretor.
Mark bufou, descruzando os braços e enfiando as mãos no bolso da calça.
- Se você não quer preocupar os outros, não faça as merdas que está sempre propensa a fazer.
Okay, agora aquele tom de ameaça a aborrecera.
- Qual é o seu problema? – ela inquiriu, franzindo o cenho – Você tem sido estúpido comigo desde -.
- Ai Camila, pelo amor de Deus... – ele grunhiu, escondendo o rosto em uma das mãos – Você não sabe por que eu estou nervoso? Mesmo?
- Não há motivos. – ela ressonou, dirigindo-se a ele como faria a uma criança teimosa – Se tudo tivesse ficado mais sério, ou alguma coisa do tipo, o que não aconteceu -.
- Tomara que sua irmã traga uma caravana e todos briguem com você. – ele resmungou, massageando uma das têmporas – O que diabos foi tudo isso? Que merda você foi fazer no mundo trouxa?
Sua voz estava baixa, mas ela percebeu o limite que havia ali. Mark estava se esforçando como louco para não começar a brigar feio com ela. O pior de tudo, ela sabia, era que se ele desse vazão às próprias emoções, seria incapaz de retrucar coerentemente, pois reconhecia o erro de suas ações. Desde o início, quando concordara com tudo aquilo, Camila conhecia as falhas de toda aquela situação.
Subitamente envergonhada, a Auror desviou seus olhos do dele e tornou a encarar os próprios tênis, sujos e cheios de sangue seco.
- Recebi uma ligação na madrugada de hoje... A voz era a de uma criança. Ela dizia precisar de ajuda, e disse que eu poderia ajudá-la.
Ele fez uma careta de descrença.
- Não me diga que foi por isso que você -.
- Ela disse que foram palavras de Claire sobre eu poder ajudá-la.
Mark se calou, a postura ainda indicando ceticismo apesar de sua expressão ter perdido um pouco da emoção. Encarou-a em silêncio, o cenho levemente franzido, e resolveu esperar que Camila continuasse para que ele pudesse formar sua própria opinião.
- Ela repetia constantemente sobre meninas... Que tudo estava acabado para ela, mas que ela precisava ajudar as meninas. Claire disse que eu poderia ajudá-la. Eu... Eu não tive muita opção – ela ditou a hora, o local, tudo. Ela não confiava em ninguém – ela estava assustada.
Camila percebeu que não estava sendo exatamente centrada em sua explicação, mas conseguir tal feito no momento lhe parecia muito difícil. Mark continuou ali, mantendo as mesmas feições, até que por fim ele balançasse a cabeça e dissesse:
- E então foi isso? E você ainda se diz diretora?
Ela fez uma careta, imediatamente caindo na defensiva.
- Olhe, eu sei que não agi certo, mas não tinha muito tempo, e droga, ela havia falado sobre Claire. Nada a respeito de sua sobrinha foi divulgado, nem mesmo que encontramos o corpo de um trouxa morto por um bruxo! Como não -.
- E você não considerou a possibilidade da menina ter sido mandada pelos responsáveis da morte de Claire? – ele indagou, encarando-a com exasperação – Você pelo menos chegou a pensar nisso?
- É claro que pensei! – ela disparou frustrada. O ferimento em seu ombro deu uma pontada, mas Camila ignorou – Pare de me tratar por idiota, Mark.
- É difícil quando você age como uma. – foi à resposta do bruxo, que se impediu de continuar quando avistou o médico se aproximar com a documentação necessária para Camila assinar.
A Auror, contudo, parecia não ter terminado.
- Não me diga que você teria feito diferente, pois você não teria. – ela revidou com deboche, sentindo a irritação subir-lhe às faces – Você teria agido exatamente da mesma maneira. Eu não tinha tempo de bolar algo mais sofisticado, e essa poderia ser minha única chance. Você teria feito a mesma coisa. – insistiu.
O médico piscou, percebendo a tensão no ambiente. Mark cerrou os olhos e mirou dela para o homem de jaleco, antes de tornar sua atenção para a Auror e responder secamente:
- Eu teria avisado alguém antes de qualquer coisa. Agora me diga, você fez isso? Porque eu duvido muito – nem seus próprios subordinados pareciam saber onde você estava, e pelo que falei com sua irmã, nem ela.
Sem dizer mais uma palavra, ele saiu da sala, Camila o acompanhando com o olhar até que ele estivesse fora de seu campo visual. Antes que ele virasse o corredor, contudo, ela retrucou, incapaz de não ter a última palavra:
- Como se você nunca tivesse errado na vida, idiota!
Comprimindo os lábios, ela virou o rosto e tornou a encarar os pés, o rosto torcido em frustração, enquanto o médico assistia tudo em silêncio.
- Eu... Eu trouxe os papéis. – o médico disse por fim, decidindo se aproximar. Ao perceber que a criatura tranqüila que ele tratara antes havia desaparecido, procurou emendar tudo a consolando: - Não se preocupe, seu namorado só deve estar assustado com tudo o que aconteceu.
Ai, pelo amor de Deus, Camila pensou, bufando.
Talvez o que o deixava mais enfurecido era que Camila não estava de todo errada.
Óbvio, fora completamente estúpida de sair como louca atrás de uma menina cujo objetivo poderia ser nada menos que terminar com a vida da Auror, mas ela não havia errado ao dizer que ele teria feito a mesma coisa.
Ele teria se encontrado com a menina, com ou sem ajuda, se a mesma tivesse mencionado Claire.
Pisando firme conforme se afastava da sala que Camila se encontrava, o bruxo se dirigiu até o elevador, pensando que iria até a lanchonete para comer alguma coisa e se acalmar. Acreditava que assim conseguiria colocar os pensamentos em ordem – e, dessa maneira, poderia se encontrar com Camila enquanto a Auror estivesse em observação e conversar com a mesma sem que lançassem bombas um sobre o outro.
Apertando o botão do elevador, ele fechou os olhos e inspirou fundo, o ar saindo pesado por seu nariz. A agitação ainda corria por seu corpo, deixando-o atento e preocupado com tudo, e ele não tinha previsão de quanto tudo se acalmaria. Provavelmente, continuaria assim até que a imagem de Camila estatelada no chão exibida na televisão finalmente esvaísse de sua mente.
Isso demoraria um bocado.
Ele se lembrava de como tudo parecera parar ao vê-la tombar. O tiro entrara e saíra, a visão disso garantida pelo programa na televisão, para que seus telespectadores tivessem maior noção do que havia acontecido. Mas ainda sim, com a imagem pequena, ele fora incapaz de dizer onde o tiro exatamente a havia atingido.
Ela se estatelou no chão, e Mark achou que ela estivesse morta. Um momento, e tudo pareceu pequeno, quase efêmero. Foi horas e anos de reflexão traduzidos em apenas míseros segundos, uma definição de tempo quase sempre ignorada. Ele se viu ao lado dela, sua mente ingrata já lhe mostrando imagens de uma figura que não respirava, não se mexia, não vivia -.
Arrepiou-se com tal pensamento. Incomodado, apertou o botão do elevador mais uma vez, sentindo-se encurralado com as próprias lembranças. Procurou se concentrar no alívio que sentiu ao vê-la, mas a sensação não fora forte o suficiente.
Enfiando as mãos dentro da jaqueta, ele se balançou para frente e para trás duas vezes, com os pés, forçando-se a desviar seus pensamentos de imagens irreais e situações hipotéticas. Distraído, questionou-se o motivo da demora dos policiais, que ainda não haviam chegado - não que ele se importasse... Na verdade, queria deixá-los longe de Camila, se pudesse, pelo menos até que ela conseguisse se firmar sobre as próprias pernas - e achou aquilo estranho, considerando que todos pareciam sedentos pelo depoimento da Auror.
O elevador finalmente chegou ao andar, mas Mark não entrou. Simplesmente ficou ali, encarando-o de portas abertas por alguns segundos até que se fechasse e seguisse para o décimo andar. De repente, sair daquele corredor, daquele andar lhe parecia muito errado.
Ele não poderia deixar Camila sozinha... Pelo menos, não enquanto algum conhecido capaz surgisse, e clamasse esse direito de observá-la. Não sabia quase nada sobre todo aquele inferno, e quem garantia que o alvo era a Auror ao invés de a garota? E se ainda estivessem atrás dela? Quem a protegeria, então?
Sentindo-se subitamente derrotado, sua raiva vencida pelo próprio pensamento, ele deu meia volta e retornou para o local onde Camila se encontrava.
Antônio Carlos terminava de digitar um relatório quando soube das novidades.
O escritório sempre fora um ótimo lugar para se conseguir informações - e fofocas. Ali, conseguiam-se detalhes do relacionamento de outros policiais, sobre eventuais churrascos e saídas que seus colegas de trabalho marcavam e contos – muitas vezes exagerados – sobre os casos que realizavam.
Não que ele fosse um típico curioso, pelo contrário. Para manter seu perfil baixo, procurava sempre manter certa distância, não ser tão amigo, ainda que constantemente presente. Mas, eventualmente, acabava sempre pegando um detalhe ou outro. Alguns dias era apenas inevitável, como alguns diriam.
Hoje era um desses dias.
Diego Dantas, um policial que tinha seu cubículo próximo ao dele, hoje estava animado, e queria conversar sobre o que havia vivido. O homem sempre fora comunicativo, não que isso incomodasse o Auror disfarçado. Como um antigo parceiro de Andrade, o homem aprendera a ser paciente e escutar – mesmo quando o assunto era algo completamente inútil.
Aproximando-se de Antônio Carlos, Dantas não demorou em despejar as notícias:
- Você ouviu sobre o tiroteio no centro?
Erguendo os olhos do monitor, encarando as feições novas do rapaz, o Auror encolheu os ombros e encarou o colega trouxa.
- Fiquei sabendo. Você foi chamado?
- Só para prestar apoio. Uma menina morreu. – ele disse, encostando-se na escrivaninha ao lado de Antônio Carlos, lançando um olhar breve para o que o homem outrora digitava – Um tiro certeiro nas costas, e outro no pescoço. Esse pegou a mulher que estava com ela, de raspão.
- Já identificaram o cara? – perguntou desinteressado, tornando sua atenção para o relatório.
- Ainda não. Não pudemos conversar com a outra vitima ainda, também. Acredito que ela possa ter algum tipo de informação.
Antônio Carlos ergueu uma sobrancelha.
- Por que não conseguiram falar com a mulher? Ela está em alguma cirurgia ou alguma coisa do tipo?
Dantas soltou um barulho debochado pela boca.
- Não, mas um gringo babaca ficou no meio do caminho dizendo que ela precisaria ao menos ser tratada para que pudesse conversar com a gente. Tomás ficou puto com isso, se posso acrescentar.
Você acrescentaria de qualquer jeito, o Auror pensou, encolhendo os ombros.
- Esse babaca que você diz pode estar envolvido?
- Pelo que Tomás escutou do cara, provavelmente não. Ele disse que soube de tudo pela televisão, enquanto tomava café numa padaria. Parece até mentira, não é mesmo? Ele disse que ela era uma amiga de longa data, e então foi até ela.
- Ah. – foi tudo o que Antônio Carlos disse, aproveitando para digitar o último parágrafo de seu relatório quando o celular de Dantas tocou.
- Você conseguiu o endereço do Hospital? – ele perguntou, inclinando-se sobre a escrivaninha do Auror e o interrompendo de seu serviço, roubando seu bloco de anotações para registrar o endereço – Certo, não fica tão longe daqui... Tudo bem... Aham. Camila Oliveira? Ok, farei isso.
Antônio Carlos, que até então se sentia exasperado com a interrupção do policial trouxa, olhou o homem com expressões surpresas ao escutar aquele nome.
Não poderia ser... Aquele nome era bem comum, afinal...
De qualquer modo, quando Dantas desligou o celular, o Auror já estava se erguendo.
- Você vai até o hospital? – quis saber, pegando a jaqueta que descansava no encosto de sua cadeira.
- Vou, conseguiram a identificação da mulher. Camila Oliveira, vinte e nove anos. É a irmã daquela empresária, aquela mestiça maravilhosa, conhece? A mulher vive aparecendo em revistas e jornais – agora, o homem parecia se empolgar ao falar sobre Karen Oliveira – Isso é até meio surpreendente, porque vi essa mulher, essa que tomou o tiro, digo, e ela não se parece em nada com a Kar -.
- Vou com você. – Antônio Carlos anunciou, agora vestindo a jaqueta de maneira apressada – Apenas me dê dois minutos, e já saímos.
- Mas – ei! – Dantas o chamou, mas o Auror já se apressava até algum lugar onde pudesse realizar uma chamada sem que alguém o escutasse.
Ao encontrar o banheiro do segundo andar vazio, trancou-o magicamente atrás de si e dirigiu-se até o centro do local, retirando um pequeno espelho de seu bolso da calça. Deu dois toques com a ponta do dedo médio esquerdo, e chamou por Richard Cooper.
Quando os costumeiros cabelos loiros apareceram em seu campo de visão, sobrepondo-se ao seu próprio reflexo, Antônio Carlos anunciou:
- Camila se meteu em problemas.
