Capítulo Doze

Vinte e oito de março de 2007, Canadá

Nathan Madison a encontrou exatamente onde Michael imaginou que ela estaria; a cafeteria do Hotel abrigava apenas um único cliente além de Camila devido ao horário tardio, mas nenhum dos dois parecia se importar com isso - ela por parecer concentrada em tudo menos seu arredor, o homem por já estar roncando sobre a mesa redonda.

O cabelo estava bagunçado, fios por todos os lados escapando do rabo de cavalo malfeito. Ela segurava a franja, o rosto com uma das mãos enquanto usava a outra para copiar trechos do que quer que estivesse lendo. À sua frente, o copo de café parecia esquecido, praticamente cheio. Estava tão concentrada em sua tarefa que, mesmo quando ele estava próximo o suficiente para que pudesse conversar sem erguer a voz, Camila não o percebeu.

Nathan não precisava de dicas para adivinhar o que exatamente a Auror fazia àquele horário, com todos aqueles livros. Com o breve reconhecimento através do nome de um dos livros, soube que ela tentava buscar uma brecha em todas as palavras de Brosseau, em todas as suas decisões tomadas até então...

... Mais uma vez.

Se alguém dissesse que presenciaria uma cena desses meses atrás, ele não acreditaria na pessoa por um segundo sequer. Camila Oliveira, que poderia estar aproveitando o aniversário com a família e amigos em um dia de folga, debruçada sobre livros para ajudar um homem que ela mais de uma vez declarara, acima de tudo, desrespeito. Parecia quase irreal, e fora o que realmente soara aos seus ouvidos até que Mark tivesse a dignidade de explicar a situação, ainda que por cima, quando Nathan lançara a pergunta no ar, mais confuso do que esperançoso que pudesse obter uma resposta do melhor amigo.

- Camila?

Ela enrijeceu, jogando a caneta-tinteiro sobre a mesa, os olhos saltados procurando pela fonte de som. Ainda parecia assustada, procurando se manter alerta, mesmo quando reconheceu visualmente Nathan. Alguns segundos se passaram até que ela percebesse quem exatamente estava ali.

Nathan deixou que ela tomasse seu tempo.

- Desculpe. - ela murmurou por fim, levando uma das mãos ao peito e inspirando fundo. Fechou os olhos por um momento, antes de mostrar mais foco e encará-lo, agora mais concentrada no mundo - Acabei perdendo a noção de tudo.

- Eu percebi. - ele comentou, levemente descontraído - Stuart sugeriu que eu a procurasse por aqui.

- Aconteceu alguma coisa? - Camila perguntou, franzindo ligeiramente o cenho. Não esperando que ela o convidasse, Nathan sentou-se a sua frente, pegando um dos livros sobre a mesa e folheando-o.

- Não realmente. - ele disse por trás do livro - Apenas estava sem sono, e queria conversar com você sobre algumas coisas. Imaginei que estivesse acordada. - ele acrescentou, erguendo os olhos do livro e abrindo um pequeno sorriso.

Não estava mentindo - ele realmente acreditou que Camila estivesse acordada. Durante todo o dia ela parecera agitada demais, inquieta demais. Mark mencionara esse fato duas vezes, uma delas quando havia acabado de encontrá-la, no refeitório da prisão, o que ela só pôde dispensá-lo falando sobre seu caso, e os erros de Brosseau.

Por observar seu comportamento em algumas situações, e por começar a criar vínculos com a mulher que começava a atrair a atenção do diretor americano mais do que ele gostaria de admitir, ele imaginou que ela não dormiria aquela noite. Leria, trabalharia no caso, faria qualquer coisa que pudesse distraí-la dos próprios pensamentos. Era assim sempre que o Conselho Geral tomava uma decisão que a tirava do sério.

- Oh? - ela descansou o rosto nas duas mãos, seu trabalho agora esquecido sobre a mesa. Não se aprofundou no assunto de sua inquietude apesar da pequena brecha aberta pelo Auror, mas Nathan não esperava que ela o fizesse, realmente - Qual é o assunto?

- Algumas curiosidades, alguns pensamentos, algumas palavras. - ele disse distraído, tornando a folhear páginas do livro em mãos - Você não usou esse livro logo que Brosseau prendeu Mark?

- Achei que pudesse ter deixado passar algo. - Camila resmungou, ligeiramente na defensiva - Mas e então?

A pressão não o surpreendeu; aprendera como lidar com a Auror conforme os meses trabalhando juntos surgiam - ela continuaria toda direta, toda negócios enquanto acreditasse ser algum assunto voltado para o trabalho que realizavam. A questão era, ele não sabia como ela reagiria com aquela conversa - se é que continuaria com a mesma assim que ele expusesse suas primeiras palavras - mas duvidava que ela continuaria daquela maneira quando o assunto atingisse níveis mais pessoais.

- É mais uma satisfação de curiosidade, mesmo. - ele começou, ainda soando distraído de suas próprias palavras e da conversa em si - Entende? Compreender o outro lado da história?

- Não. - foi à resposta da mulher, que agora o encarava com as expressões ligeiramente contorcidas, confusa.

Nathan se aproveitou daquele momento:

- Mark contou a verdade para você, não foi?

Ela não conseguiria mascarar a verdade e se fazer de desentendida depois de sua reação àquela frase. Seu corpo se afastara da mesa, aproximando-se mais das costas da cadeira. Suas mãos caíram, repousando sobre o colo. Seus olhos imediatamente ficaram mais reservados.

Demorou até que ela falasse novamente. Nathan permaneceu em silêncio, percebendo a pequena confusão nos olhos da Auror até que ela perguntasse em voz baixa, confusa e lenta:

- Você sabia di - você sabe?

- Da história? Por ele, não até recentemente. - ele deu de ombros, colocando o livro agora fechado sobre a mesa - Mas eu trabalho com segredos, afinal. Sabia de algumas coisas, e de outras foi fácil juntar algumas peças.

Camila não continuou o assunto. Continuou ali, com os olhos bem abertos, perdida. O cabelo bagunçado parecia enfatizar essa característica ainda mais.

- Por que você não deu sua opinião depois que ele te contou tudo? - Nathan perguntou por fim.

Ela simplesmente balançou a cabeça, e piscou uma ou duas vezes, procurando concentração inexistente.

- Eu – eu não quero falar sobre isso. – murmurou por fim, inspirando fundo.

A resposta não soara grosseira, ou extremamente defensiva. Claro, tal característica ainda existia, mas não fora um tom mesclado com raiva ou agressividade para se manter segura. Nathan considerava aquilo um bom sinal – significava que, assim como ele, ela começava a prezá-lo como um bom conhecido, talvez até mesmo amigo. Conhecendo sobre aquele assunto, o Auror sabia que a mulher não deixaria espaços para que qualquer um falasse ou questionasse sobre aquilo.

Às vezes, Nathan chegava a duvidar se até mesmo Stuart um dia chegaria a uma posição de conhecer e conversar sobre aqueles detalhes.

- Eu sei que você não quer. – ele disse em voz suave, inclinando-se sobre a mesa, numa tentativa de aproximação – Mas acredito que você precise falar sobre isso. Talvez para outra pessoa, uma primeira vez, e depois resolver isso com Mark. Digo, resolver mesmo, não simplesmente sair da sala depois que ele contar o que quer que seja.

Ela o encarou por alguns segundos antes de perguntar baixinho, desconfiada:

- Ele... Ele pediu para que você falasse sobre isso?

- Mark? – Nathan bufou sarcástico – Ele seria incapaz, com toda essa sua mania de achar que pode fazer tudo sozinho.

Camila finalmente se moveu, buscando o copo de café esquecido sobre a mesa. Talvez o gesto fora mais pela súbita necessidade de se mover, ou de segurar alguma coisa, ela não saberia dizer, mas pegou-o e sorveu um pequeno gole, sentindo o líquido já frio em sua língua.

Colocou-o sobre a mesa, e Nathan continuou em seguida, encolhendo os ombros:

- Mas eu o entendo, em partes. Piersanti é um fantasma na vida dele forte o suficiente para que ele tome decisões muitas vezes insanas... Sem contar essa culpa de sobrevivência, de que a culpa é sua e você não fez o suficiente... É sufocante, às vezes.

Ali, parecia mais que ele falava sobre qualquer pessoa que não o diretor. Ela o estudou por um tempo, as sobrancelhas se aproximando em confusão, e em seguida em pequena compreensão ao ver marcas escuras, avermelhadas sobre a pele próxima ao pescoço, enquanto estudava-o em busca de alguma informação. A imagem era pequena, não muito perceptível, mas o suficiente para que ela compreendesse que as cicatrizes que aquele homem levava, seja lá do que fosse, não eram apenas interiores.

- Ele mentiu. – ela disse por fim, os olhos fixos na mesa – Ele mentiu... E eu passei – quero dizer, foram anos acreditando -.

Camila riu, um riso pequeno e estrangulado. Ela balançou a cabeça, e Nathan deixou que continuasse:

- Eu fiquei revoltada, de início. – admitiu – Quem ele pensava que era? Eu não era uma donzela indefesa, era um Auror, ele já me conheceu assim... Eu não precisava que ele me protegesse. Quero dizer – ela se atrapalhou – Ele não mentiu, exatamente, mas deliberadamente agiu de modo que eu me sentisse...

- Traída. – ele sugeriu, quando ela não pareceu encontrar palavras certas.

- Enquanto pessoa, sim. – ela assentiu – Eu confiava nele, não porque nutria sentimentos por ele ou alguma coisa do tipo... Eu era nova demais, no final das contas... Mas passamos por quase dois anos em um inferno.

- E no final ele deixou arcá-la com todas as conseqüências, como se não tivesse culpa na investigação, que era ilegal. – Nathan concluiu, observando-a. Ele conhecia o ponto de vista de Mark, e até mesmo compreendia suas motivações, mas ver toda a situação pelo ponto de vista de Camila o fazia compreender por que os dois mal conseguiam ficar no mesmo aposento por muito tempo até recentemente.

Camila assentiu.

- Swan nunca chegou a realmente dar alguma explicação, apenas pediu que eu o ajudasse. E, Deus me perdoe, mas mal conseguia me sustentar nos próprios pés, depois de tudo... Não era como se eu pudesse divulgar a verdade naquela época. – murmurou, apoiando um cotovelo sobre a mesa e deslizando os dedos pelos próprios cabelos, retirando-os ainda mais do rabo de cavalo – E divulgá-la anos mais tarde parecia tão... Sem sentido. Sem contar todas as outras coisas que quero esquecer desse período.

- E foi por isso que você não conversou com ele? Por causa dessas coisas?

Camila encolheu os ombros.

- Que adiantaria conversar, Nathan? Já passou, já acabou, não é como se -.

- Já passou, mas foi por causa disso que você o perdoou. Você não acha que deveria conversar, e expor para ele esse ponto de vista, já que -.

- Eu não o perdoei.

Eles silenciaram, Nathan a encarando surpreso e Camila franzindo o cenho. Alguns segundos se passaram até que ela desviasse o olhar e murmurasse:

- Ele mentiu, ele me deixou passar como única responsável de toda a operação Perez, sumiu do mapa e deixou tudo às favas... Mas eu o compreendi, digo, seus motivos. Se... – comprimiu os lábios, encarando o nada antes de suspirar e continuar – Eu provavelmente teria agido do mesmo jeito, se trocássemos de lugar.


- A menina foi levada para o IML. – Dantas disse a Antônio Carlos assim que desligou o celular, observando o homem que dirigia como louco pelas ruas de São Paulo – Barbara disse que acompanhará a necropsia. A perícia também mandou uma nota sobre a mochila, dizendo que analisará os pertences.

- Barbara está na investigação? – Antônio Carlos perguntou surpreso, desviando os olhos por alguns segundos da direção para estudar o policial.

- Eles a colocaram como parceira temporária de Souza esta manhã, já que o filho de Russo nasceu pela madrugada. – respondeu, referindo-se ao parceiro de Souza, homem que mais parecia um armário que um ser humano – De qualquer modo, ela disse que nos liga assim que tiver alguma informação importante.

Antônio Carlos assentiu, já não tão concentrado nas palavras do homem. Sabia que era questão de tempo para que o superintendente ligasse e os tirasse da operação, assim como a maioria dos policiais já envolvidos. O crime ocorrera com uma bruxa como vítima, esta com cargo elevado na manutenção da lei em seu próprio mundo.

Ele não sabia exatamente o que aconteceria – para onde iria o corpo da menina assassinada, e quem pegaria essa parte da investigação? – mas tinha certeza que Richard Cooper já tratava com as negociações necessárias para que Camila estivesse fora da jogada.

Falando em Camila... O que diabos acontecera, afinal? Dantas dissera ter sido um ataque direcionado, e que ninguém conseguira encontrar o responsável, mas o que ela fazia no mundo trouxa? Sabia que uma das irmãs de sua chefe era um aborto, e que aquela ramificação da tradicional família Oliveira era considerada, de certo modo, envergonhosa para seus familiares puro-sangue por suas ligações com trouxas e seus mundos, mas ainda sim...

Camila deveria estar com a irmã, não com uma desconhecida, caso estivesse no mundo trouxa. Das três bruxas, a Auror era a que menos se aventurava fora do ambiente bruxo, saindo do mesmo apenas para situações como tomar café da manhã e almoçar nos restaurantes próximos ao Departamento.

Ele pensou na hipótese dela ter conseguido alguma informação, alguma pista, mas dispensou-a. Até mesmo Richard ficara surpreso – e muito – quando ele passara as informações recebidas a respeito da Auror... Ele saberia caso -.

O telefone celular de Dantas tocou mais uma vez, soando estridente nos ouvidos dos dois agentes. A música era alta e barulhenta demais para que Antônio Carlos pudesse apreciá-la, mas Dantas parecia bem-humorado ao atender:

- Aqui é Dantas.

O bruxo sabia do que se tratava antes mesmo que o policial tentasse protestar, quando suas feições se encheram de indignação. O homem discutiu, tentou argumentar, mas no final submeteu-se às prováveis palavras duras de seu superior. Ao desligar, virou-se para Antônio Carlos mais uma vez e disse contrariado.

- Estamos fora do jogo.


As radiografias não revelaram nada fora do comum. Camila foi levada para a enfermaria, onde o médico resolveu que a deixaria em observação por duas ou três horas antes de ser liberada, apenas uma precaução e nada mais. Finalmente livre de toda a adrenalina, sonolenta por conta dos remédios que lhe foram ministrados, a Auror só pode assentir e concordar ainda que, no fundo, sua mente lutasse contra o próprio cansaço.

Descansar, ele dizia. Ela não poderia descansar, não enquanto não entendesse o que havia acontecido, não enquanto Richard não estivesse ali para que ela contasse o que ela sabia, não enquanto -.

Os lençóis hospitalares estavam tão frios quanto o resto do lugar. Camila não sabia se havia pedido ou não por um cobertor, mas quando nenhuma enfermeira apareceu com as mantas, concluiu que havia imaginado coisas.

Virou-se no leito para alcançar a jaqueta sobre a cadeira e jogar sobre o tronco. Ela se encolhia e apertava o tecido da roupa em uma de suas mãos quando Mark apareceu.

A enfermaria estava ocupada por mais duas pessoas – um homem de meia-idade exibindo uma sonda vazia, cujo ronco era o único som além do da televisão a preencher o aposento, e uma adolescente que estava com a perna inteira engessada. Ao ver o homem parado à porta da enfermaria, encarou-o abertamente, seus olhos medindo-o da cabeça aos pés enquanto ele se aproximava da terceira pessoa naquele aposento.

Ele parecia mais calmo desde a última vez que o vira, também – pelo menos ele não a encarava como se quisesse estrangulá-la. Com os braços cruzados, ele permaneceu próximo ao batente da porta por alguns segundos, apenas a observando, antes de finalmente se aproximar.

- Como se sente? – Mark perguntou em voz baixa, sentando-se na cadeira que a jaqueta da Auror ocupava até então. Sentando-se no leito, muito para o desgosto aparente do homem, Camila balançou a cabeça e respondeu:

- Mole. Sonolenta.

- Por que você não aproveita para descansar um pouco, então?- perguntou, soando ainda calmo e solícito. Não era preciso ser um gênio em observação para perceber que ela se esforçava para se manter acordada.

Ela o encarou como se ele fosse idiota.

- Dormir, agora? Eu não posso dormir, preciso voltar ao Departamento o quanto antes -.

- Camila -.

- Uma menina acabou de ser morta, Mark. – ela retrucou irritada, e o cansaço pareceu desaparecer por alguns segundos – Ela tinha respostas, e alguém a apagou no meio da cidade. Você se esqueceu disso?

- Não. – murmurou – Mas também não me esqueci do -.

- Do que?

- Nada. – ele a dispensou secamente, e então tornou a fitá-la, desta vez parecendo mais firme – De qualquer modo, você vai precisar conversar com os policiais, não tem como você simplesmente sumir do nada e esperar que o mundo permita que se afunde em trabalho. Então aproveite esse tempo e descanse.

- Ah, droga, a polícia! – Camila grunhiu, escondendo o rosto entre as mãos – Preciso contatar Antônio para tirar a polícia disso...

Ela subitamente parou de falar, seus olhos piscando de maneira confusa na direção de Mark, como se pronta para falar alguma coisa. De fato, Camila chegou a entreabrir os lábios, mas não emitiu som algum, apenas balançou a cabeça uma vez, e depois outra.

- A mochila. – disse por fim, segundos mais tarde, num tom como se estivesse indignada consigo mesma.

- Mas do que -.

- Havia uma mochila – não, digo, Marcela estava com uma mochila. Você sabe, aquela bolsa antiga e vermelha que ela carregava? Estava próximo a mim antes que você me afastasse...

- Marcela... Você quer dizer a menina?

- Sim, sim. – ela respondeu impaciente – Tinha algo que ela queria que eu pegasse, e estava na mochila. – murmurou a si mesma, e seus olhos tornaram a estudá-lo, curiosos e apreensivos - Você sabe se os policiais pegaram, se alguém pegou aquela mochila?

- Os policiais provavelmente pegaram, não estava prestando atenção neles àquela hora, exatamente. – Mark retrucou, dando de ombros – O que tinha na mochila?

Ela parecia pronta para responder, mas então se calou e fez uma careta confusa. Olhou para as próprias mãos e comprimiu os lábios, antes de balançar a cabeça e sussurrar:

- Eu... Eu não lembro. – ela tornou a encarar Mark, repetindo com mais firmeza dessa vez – Eu não consigo me lembrar...

- Deve ser por causa da pancada. – ele disse, procurando assegurá-la – Se você descansar -.

- Pare de me obrigar a dormir, eu não vou dormir agora. – Camila o dispensou irritada, apertando com força a jaqueta em suas mãos – Droga, eu não consigo me lembrar!

Ele a estudou fazer variadas caretas, em silêncio. Óbvio que qualquer que fosse o conteúdo naquela mochila, a importância era gigantesca. Se por um lado o único desejo de Mark era que aquela desmiolada escutasse a voz da razão por um momento em sua vida e dormisse enquanto tinha chance, por outro ele era incapaz de não se interessar pela situação.

Se aquelas informações pudessem ajudá-lo -.

- Você recebeu o telefonema pela madrugada. – Mark começou com um tom de voz solícito. Camila piscou, estudando-o confusa por alguns segundos antes de compreender o que ele queria fazer. Satisfeita por ele não continuar insistindo para que ela dormisse, a Auror assentiu e respondeu:

- Era Marcela, falando sobre Claire e sobre eu poder ajudá-la. Marcou o horário e o local, sem maiores informações. Disse também que eu não poderia ir até o local com magia.

Mark franziu o cenho.

- O quê?

- Cheguei lá em ponto, a menina atrasou uns cinco minutos. – Camila continuou, ignorando-o - Ou talvez ela estivesse no horário, mas ficou me observando. – o pensamento causou arrepios. Ela, como Auror, deveria ter sentido e percebido qualquer coisa do tipo, mas pensar que sequer havia cogitado isso no momento...

Por que diabos a menina dissera para ela não usar magia? Mark continuou a encarando com estranheza enquanto Camila parecia se esforçar para lembrar; as hipóteses surgiram aos montes, e ele pareceu incapaz de selecionar as mais prováveis – o fato de se existir bruxos atrás da menina fazia todo o sentido, considerando o fato de se ter vestígios de magia onde Claire fora encontrada, mas quando unido ao conhecimento da morte da tal Marcela...

- Ela se apresentou como Marcela, e disse não ter muito tempo. – a Auror murmurou, olhando para as próprias mãos enquanto revivia a cena – Disse que tudo estava acabado para ela. – torcendo as feições, ergueu o rosto e disse a Mark: - Na verdade, não existia muito sentido em suas palavras. Eram pensamentos aleatórios, entende?

Ele assentiu.

- E o que mais ela disse?

- Aparentemente ela não sabia sobre Claire. Digo, sobre o assassinato. – Camila continuou, encolhendo os ombros, absorta em seus próprios pensamentos – Mas era tão confuso, e quando ela falava sobre as meninas -.

- Camila, você também não está sendo muito precisa.

O tom de voz dele a despertou de seus pensamentos e murmúrios. Ele parecia interessado demais em compreender a situação para alguém que queria apenas ajudá-la a se lembrar. Franzindo o cenho, ela estudou sua postura, a forma como ele parecia próximo a ela.

- Você está me interrogando? – ela perguntou por fim, mas seu questionamento soara mais como uma constatação que qualquer outra coisa. A súbita aparência surpresa dele fora a resposta que precisava, mas Mark não conseguiu inventar uma desculpa a tempo ou montar sua defesa, por uma terceira voz chamou suas atenções, fazendo com que tanto ele quanto ela olhassem para o recém-chegado.

- Camila!

Dita Auror, Mark e a menina da perna engessada, que até então parecia mais interessada em assistir o filme que passava na televisão do que prestar atenção na dinâmica entre o casal, encararam a nova figura que surgia na entrada da enfermaria.

Se Mark não soubesse que eram irmãs, ele não imaginava que conseguiria chegar a tal conclusão. Salvo talvez o formato do queixo – o que não era muito – Karen e Camila Oliveira nada tinham em comum.

Ela se aproximou dos dois com passos apressados, o barulho dos saltos ecoando pelo aposento.

- Meu Deus do céu, eu não sei se quero te matar ou te abraçar. – Karen murmurou por fim, e seus olhos escuros se encheram de lágrimas.

- Eu estou bem.

O contraste entre a forma que ela dissera isso para irmã e para Mark, horas atrás, fora gritante. Enquanto tudo o que queria era dispensar o ex-diretor e deixá-la tomar conta de sua própria vida, com Karen a Auror fora suave e amorosa, tentando acalmá-la de seus nervos. Ao observá-la bem, o homem foi até mesmo capaz de visualizar um pouco de culpa em suas feições. Não muito, mas o suficiente para que ele se sentisse ligeiramente satisfeito que ela finalmente percebesse o quão descuidado era com sua vida.

Se era incapaz de notar isso sozinha, pelo menos que percebesse o que suas atitudes causavam aos outros.

A irmã a dispensou com uma das mãos, seu rosto se contorcendo em uma careta chorosa.

- Não me diga uma coisa dessas, você quase morreu. – ela lacrimejou, inábil de se livrar do tom acusador. Camila inspirou fundo, perdida, e encarou Mark em busca de ajuda, como se pedindo que ele a apoiasse. Mark balançou a cabeça, e cruzou os braços, como se aquilo provasse seu ponto.

Desgraçado.

- Ká, olha, o tiro sequer me atingiu em cheio. – ela tentou se explicar, e afastou o cabelo do ombro costurado e coberto por uma gaze para dar mais visão à sua irmã – Vê? Só tomei alguns pontos, e assim que chegarmos em casa posso pedir a Helena para dar uma olhada -.

- Você acha que tudo vai acabar assim? – a morena sorriu enviesada, balançando a cabeça – Está todo mundo louco com isso. Imagine só, estávamos todos nós vivendo nosso dia, como todos os outros, e então Helena descobre por Richard que você foi abatida no centro de São Paulo! Deus abençoe você por Sofia estar em julgamento e não conseguir receber ligação alguma. – ela desviou sua atenção de Camila, que parecia pronta para corrigi-la sobre o uso do verbo abater, e encarou o homem que assistia a pequena discussão incerto e, em partes, divertido – Você deve ser o amigo da minha irmã, certo? O que me ligou?

- Ah, sim. – ele assentiu, surpreso com a súbita mudança de tom de voz da mulher, erguendo-se e estendendo a mão por sobre o leito – Mark.

- Muito obrigada por ter tomado conta dessa cabeçuda. – Karen sorriu, apertando sua mão, ambas sacudindo a centímetros de distancia do rosto de Camila, que os estudava com um olhar desacreditado da situação – Você é do trabalho?

- Trabalhamos juntos. – ele respondeu, encolhendo os ombros, não distribuindo maiores informações.

- De qualquer modo, ainda agradeço, e muito. Não sei o que teria sido da minha irmã sem você.

- Eu continuaria com um ombro esfolado e num hospital. – Camila murmurou secamente.

Karen a encarou indignada.

- Você deveria ser mais humilde e agradecê-lo! – ela ralhou com a irmã, para tornar a encarar o bruxo e sorrir – De qualquer modo, eu agradeço, e muito, Mark.

- Não fiz muita coisa, realmente. – ele respondeu, parecendo sem graça com toda a atenção – E Camila sempre me ajudou muito, se eu não -.

- Você disse que Richard já sabe, então? – Camila o interrompeu, entediada com aquela interação entre o americano e sua irmã. Deus do céu, ela sabia o que aqueles sorrisos e aquela simpatia toda significavam... – Onde ele está?

- Ele me ligou quando estava a caminho do hospital. Antônio Carlos o avisou.

Então a polícia provavelmente já havia sido afastada. Bom, a Auror pensou, isso explicava porque não existia nenhum investigador no seu pé, mesmo depois de tanto tempo.

- Richard e Helena estão em casa também, a esperando. – Karen adicionou friamente.

Ai, caramba.


O fim de tarde estava agradável. Capaz de observar um belo pôr-do-sol em uma paisagem de tirar o fôlego, acompanhado de uma deliciosa taça de vinho, o homem percebeu que era capaz de perceber o quanto sentira falta desses pequenos prazeres apenas agora. Todos esses anos, ele não parecia tão ciente de tudo que lhe fora privado como naquele momento.

Bem, ele só tinha a agradecer a quem lhe dera essa nova chance.

Tudo estava calmo, deliciosamente calmo. As ondas do mar produziam seu ritmo de sempre, unido com o calor que o sol ainda proporcionava aos habitantes daquela pequena ilha.

Ele erguia a taça aos lábios por mais uma vez quando seu celular tocou.

- Sim?

- Encontramos a garota.

- E vocês resolveram o problema? – ele perguntou com voz tranqüila, parecendo mais preocupado em observar o mar do que seu subordinado.

- Sim. – a voz abafada respondeu.

- Ela está morta?

- Afirmativo.

- Bom, muito bom. – o homem sorriu, descansando a taça sobre o parapeito de uma de suas luxuosas moradias.

- Existiu um imprevisto, no entanto.

Ele deveria se preocupar com aquelas palavras, sabia disso. Mas estava tão feliz, tão descansado, que se sentia incapaz de se irritar com algo tão...

... Trivial.

- E o que seria esse imprevisto?

- Existia uma mulher junto da garota. Talvez ela passou alguma informação para a mulher.

Bem, as tais informações estavam fadadas a serem descobertas pelos agentes de lei, o homem pensou. Estava no planejamento para que isso acontecesse, afinal. Fossem trouxas ou bruxos, tudo o que ele precisava era que as notícias por fim caíssem nas mãos certas, nãos mãos desejadas.

Ele sabia que isso seria em breve. Todo aquele desespero que aquelas duas putas haviam causado ao fim terminara como um trunfo e uma ótima oportunidade a ele.

A ele, e a outros.

- Não se preocupe com isso. – ele disse por fim, tranqüilo – Apenas retorne a sua posição anterior, e se mantenha alerta.

- Sim, senhor. – a voz abafada respondeu – E senhor?

O homem permaneceu em silêncio, esperando o outro continuar:

- Estamos todos muito satisfeitos que o senhor está de volta. É um grande aliado.

Ele desligou com um pequeno sorriso. Oh, sim, ele também estava satisfeito.

O mundo lhe dera uma nova chance, uma nova oportunidade para um segundo jogo. Tudo bem, ele não era mais o rei, transformando-se em parte de algo muito maior, incompreensível e surreal aos próprios ouvidos, mas isso importava, realmente? Importava que ele fosse o rei?

Não, disse a mesmo. O que importava era a capacidade que possuía em tirar a rainha da jogada. E isso, ele sabia, apenas ele era capaz de realizar.

Continua