Capítulo Quatorze
Ao se deitar no colchão irregular, Mark sabia que aquela noite seria perdida. Desperdiçada. Seriam horas sem sono, apesar de todo o cansaço que sentia.
Descansou os braços atrás da cabeça e passou a encarar o teto, iluminado pela luz da rua. Deixara as janelas do pequeno e empoleirado quarto de hotel abertas, permitindo que a pouca brisa noturna aliviasse o que o dia insuportável de Marrocos deixara em todo o lugar.
Seus olhos percorreram as rachuraduras no teto, a atenção focada nos barulhos que o local fazia. O estalo das estruturas, as portafs de outros quartos que rangiam ao abrirem e fecharem. Passos, o barulho do pequeno frigobar.
Por quanto tempo continuarei fazendo isso?
Ergueu-se, não sabendo que fazia menos de cinco minutos desde que decidira dormir. Sua saída apressada do hospital, no México, ainda estava viva em suas entranhas, agitando-o e o lembrando de seus detalhes: as palavras de Swan, seus avisos, sua ajuda para ser uma figura esquecida entre os Curandeiros e enfermeiros. A constante recordação de que Piersanti não desistira, que todo o pesadelo poderia voltar, repetir-se.
Camila.
Caminhou até o frigobar, abrindo-o e retirando uma lata de cerveja. A porta do eletrodoméstico fechou-se em um estrondo, o único maior barulho naquela noite repleta de descanso e barulhos menores, cotidianos. Sorveu um gole, desinteressado, observando as poucas luzes ainda acesas do lado de fora. Outras casas, outras vidas.
Franziu o cenho, lembrando-se da forma como ela o encarava conforme ele tentava afastá-la de sua vida. Incompreensão, primeiro, depois traição. Raiva.
Medo.
Era preciso, lembrou a si mesmo com uma careta desgostosa. Não importavam as lágrimas que foram e seriam ainda derramadas, não importavam as aparências de toda a situação. Fora necessário.
Vê-la daquela forma o lembrou de quando estivera em sua situação, anos atrás, quando despertara perdido e alheio ao quanto mudara naqueles quase dois meses em coma. Naquela época, ele também não sabia em quem confiar.
Talvez ainda fosse assim.
As imagens de tinha dela perdida em sua cama de hospital misturavam-se aos gritos e horrores que passaram, juntos, dentro daquele armazém próximo ao cais. Ao mesmo tempo em que tais lembranças eram suficientes para confortá-lo de sua decisão, os olhos traídos de Camila o caçavam e o culpavam por destruir o único sustento que poderia possuir. A única pessoa em quem confiava naquele momento.
Ele vira a forma como ela agira com os Curandeiros, com Swan. A Auror precisava de cuidados urgentes, sangrando por todos os cantos, mas ainda sim buscava forças furiosas para afastar todos que se aproximassem. Empurrava suas mãos, gritava, e precisou ser dopada para seguir até o hospital sem trazer maiores consequências para si.
Por que você está fazendo isso?, ela quis saber logo após a cirurgia, sua voz irritada apesar da pequena nota grogue que possuía, o registro óbvio de sua fragilidade no momento. Mark dera uma resposta qualquer, qualquer mentira, quaisquer palavras, preso ainda às palavras e recomendações de Swan, dadas logo após um Curandeiro tratar suas feridas e remendar seus ossos. Preso ainda ao seu próprio pesadelo, sua necessidade de escapar.
Sua necessidade de fugir antes que mais alguém morresse por sua culpa.
Ele foi embora durante a madrugada sem olhar para trás, sem se perguntar o que aconteceria a seguir. Tomara uma decisão ao afastar Camila de sua vida, não adiantava se aprofundar em pensamentos que jamais o levariam a algum lugar. Mark a afastaria, lidaria com seus problemas, e Camila sairia da sua vida, preocupada demais com seus próprios demônios para saber sobre os dele.
Segura, assim como ele tentava manter seus familiares.
Sentiu o suor escorrer pela têmpora, quente como toda a noite, e sorveu mais um gole de cerveja. Afastou-se da janela, jogando a lata ainda cheia no lixo próximo à minúscula televisão disponível.
No dia seguinte, partiria para Marrakech, e de lá, talvez, com o dinheiro que restava pegasse um voo até Madrid. De lá, seguiria para Córdoba, onde esperava encontrar Munhoz. O Auror aposentado devia alguns favores para Swan, e o diretor fora firme em avisá-lo de que o bruxo estaria disposto a ajudá-lo em seu nome. Roupas, dinheiro trouxa, o suficiente para que ele se estabelecesse em outro mundo por algum tempo... Até que precisasse mudar de lugar novamente. Começar a dita nova vida mais uma vez.
E assim seguiria, até que Piersanti perdesse seu rastro, considerasse que ele abandonara seu emprego e tudo o que lhe era importante de vez.
- Você está falando sério? - Nathan Madison recebeu apenas o silêncio como resposta, reação idêntica à primeira pergunta, quando realmente soara como uma. Do outro lado do quarto de hotel, o melhor amigo procurava por alguma coisa em sua mala, guardada próxima ao armário. - É por isso que você me quer aqui?
O ex-diretor retirou uma jaqueta consideravelmente amassada, e finalmente se dignou a encará-lo enquanto a jogava por sobre os ombros. Para a infelicidade de Nathan, Mark não tinha uma expressão favorável a uma piada por parte dele.
Uma piada muito, muito infeliz.
- Você saberá o que fazer caso algo dê errado.
- Caso algo dê errado? Você ainda acha que isso pode dar certo? - ao não receber resposta mais uma vez, o bruxo grunhiu e fechou os olhos, escondendo o rosto em uma das mãos. - Meu Deus do céu, você realmente acha que isso vai dar certo.
Mark encarou Nathan por alguns segundos, como se medindo os próximos passos que tomaria antes de agir, e em seguida escondeu as mãos no bolso da jaqueta.
- Eu não vejo motivos para que dê errado. - ele contrapôs sério, encolhendo os ombros. - Você viu a lembrança.
- Isso não é resposta suficiente! - Nathan retrucou, erguendo-se. - Diabos, Mark, você tem refletido suas próprias palavras? Abrir o jogo seria -.
- Camila tem um problema em mãos. - o bruxo o interrompeu, nada incomodado com o rosto contorcido em irritação do amigo. - Eu tenho a solução. Se conseguir convencê-la, ambos os lados sairiam privilegiados.
Nathan bufou alto, passando as duas mãos pelos cabelos escuros, parando-as na altura de sua nuca.
- E você considerou a possibilidade dela discordar de tudo e ferrar com a sua vida, certo? - questionou-o, encarando-o como se não pudesse acreditar na situação que presenciava.
Não me diga que você não considerou a chance dela ferrar com tudo só porque você -.
- Ela pode discordar, mas não vai demorar até ela descobrir não ter muitas chances jogando do jeito que gosta. - Mark respondeu com simplicidade. - De novo, você viu a lembrança. Ela perceberá, mais cedo ou mais tarde, que não conseguirá jogar limpo dessa vez.
- Oliveira não age desse jeito desde... Bem, deixe-me lembrá-lo, desde que toda uma operação caiu sobre a cabeça dela! - Nathan interpôs enfurecido. - Operação aliás em que você também esteve envolvido. - acrescentou secamente, encarando-o com as expressões retorcidas.
Aquilo parece finalmente arrancar alguma atitude do bruxo; Mark trocou o peso de um pé para o outro, e um pequeno vislumbre de incômodo transpareceu em suas feições. O tempo fora pequeno, no entanto - se Nathan não estivesse observando atento cada gesto do melhor amigo, ele jamais teria percebido.
- Isso é o que sabemos. - retrucou. - Mas todo Departamento tem um serviço de espionagem à disposição e operações não documentadas. E você a conhece, Nathan - há muito do que ela sabe que obviamente não foi aprendido na Academia, tampouco em investigações legais.
- E então o quê? Você está dizendo agora que ela trabalhou nessa área por mais algum tempo mesmo depois de quase ter sido atacada e esquartejada nas mãos de Perez -.
- Eu não sei! - Mark o interrompeu, a inquietação agora aparente, o tom de voz mais alto. Falar sobre Perez trazia recordações das quais ele não se interessava em lembrar. - Eu não sei. - repetiu, sua voz agora mais baixa.
Nathan apenas o estudou, insatisfeito com sua resposta. Seus olhos sustentavam desgosto, irritação e confusão com tudo aquilo, e Mark, por conhecê-lo, tinha uma boa suposição para onde os pensamentos de seu amigo estavam indo.
- Ela é sensata. - o ex-diretor disse por fim, ainda tentando convencê-lo, sua atenção nos próprios pés. - E isso é perfeito. Mesmo com o número de homens que temos, não conseguiríamos uma mobilidade suficiente dentro do país para pegá-los, agindo tão às escondidas. Com Camila do nosso lado, no entanto, temos alguma chance. E ela tem a facilidade de conseguir mais informações...
Não completamente lícitas, mas espionagem nunca fora um trabalho para sinceridade, no final das contas. Cada um teria que fazer sua parte para usar o que recebia e transformar num caso concreto e limpo o suficiente para que tudo fosse feito.
- ... Sem contar o déficit de Aurores que o Departamento brasileiro tem sofrido atualmente. Ela sabe que precisa de ajuda. - finalizou.
O relógio sobre a cabeceira da cama de hotel anunciou a mudança de horário com um bip, atraindo as atenções dos dois bruxos. Nove horas da manhã, e Mark tinha vinte minutos até seu encontro com Richard Cooper no Departamento brasileiro. Segundo Cooper, aquela conversa seria a mesma que teria com Camila caso todo aquele inferno não tivesse acontecido, mas o ex-diretor conhecia bem o procedimento; sabia o que prestar alguns esclarecimentos significava.
- Nate. - Mark o chamou, soando cansado. - Se eu estiver enganado, se Camila agir da maneira que você espera que ela aja... Você sabe que nada cairá sobre a sua cabeça ou a do Departamento.
Nathan inspirou fundo, balançando a cabeça.
- Você vai seguir com isso independente do que eu diga, certo? - quando o amigo não respondeu, o bruxo fez uma careta, mordendo o interior de sua bochecha. - Se Camila o prender, o Departamento não estará envolvido, quero que isso fique claro. Eu posso tê-lo como família, mas são outras pessoas sob a minha responsabilidade, e você sabe como tudo funciona.
- Eu não esperaria menos de você! - o homem respondeu, abrindo um largo sorriso. Aquilo não resolveu para o outro, que suspirou exasperado e balançou a cabeça.
- Sinceramente, eu não sei o motivo de tudo isso. Você se contetaria com algo mais silencioso, algo que não chamasse a atenção ou envolvesse organizações - como se tivesse cheirado algo ruim, em uma careta, acrescentou em voz baixa: - Foi assim com Piersanti.
- Eu me contentaria. - Mark admitiu, encolhendo os ombros. - Minha irmã, por outro lado, não.
Camila sobressaltou, surtada em seu próprio sonho, uma situação absurda que ficou perdida assim que despertara. Abrindo os olhos com rapidez, demorou para compreender que estava segura e longe de qualquer desespero que seu subconsciente pudesse trazer. Com a respiração e o coração alterados, ficou parada por alguns segundos, absorvendo os detalhes do próprio aposento até que o medo desaparecesse aos poucos.
Sentou-se em sua cama, esfregando o rosto com uma das mãos enquanto usava a outra para se apoiar. Seu corpo estava dolorido e cansado pelo dia anterior, como se tivesse exagerado em exercícios físicos, mas ela não se importou.
Caramba, com o que sonhara? Ela não se lembrava de ter pesadelos como aquele, com direito à acordar e tudo o mais, desde o início do julgamento de Mark no ano anterior...
Distraída, levantou-se com preguiça e fechou os olhos ao se alongar. Apesar do pequeno puxão e do incômodo que sentiu ao erguer os dois braços acima da cabeça, o ombro parecia ter se recuperado muito bem após a poção de Helena. Arrastando-se até o banheiro, ela ficou de frente para o espelho e afastou o cabelo, retirando em seguida o curativo que a irmã fizera, encontrando apenas uma pequena linha rosada, um contraste pequeno em sua pele, considerando todo o dia anterior, nada que realmente importasse.
Jogando o curativo no lixo, alcançou um elástico de cabelo próximo aos perfumes e cremes que mantinha sobre a pia e prendeu o emaranhado de nós castanhos em sua cabeça, antes de voltar sua atenção para a higiene diária. Escovou os dentes e lavou o rosto sem pressa, o corpo tão lento e consciente de sua falta de afazeres para o dia quanto o cérebro.
Ao se olhar no espelho mais uma vez, a expressão preguiçosa ainda continuava ali, mas pelo menos ela se sentia mais acordada. Não se preocupando em se arrumar, saiu de seu quarto com seus cabelos bagunçados ainda presos, vestindo um moletom velho como pijama. Pelo silêncio da casa, imaginou que suas irmãs já estivessem longe em seus trabalhos, e invejou-as por alguns segundos.
Desacostumara-se a não ter o que fazer e, realmente, ainda não gostava dessa ideia de folga forçada, mas Richard estava furioso, e após vê-lo exibir uma teimosia que jamais seria capaz de associá-la à ele, desistiu de qualquer argumentação.
"Você está exausta", ele dissera, "o suficiente para que não perceba o quanto isso tem afetado sua lógica. Mais do que isso, o suficiente para que você acabe tomando decisões onde tudo é baseado em nada mais que sua impaciência e imprudência - é só ver o que aconteceu hoje. Não fosse por sorte, você estaria morta, como aquela garota."
E Richard se empolgou em seu discurso, admoestando-a sobre o quanto ela não poderia agir daquela maneira, porque ela era uma diretora e supunha-se que suas ações deveriam ser as mais centradas e corretas de todo o Departamento. Ela deveria mostrar aos novatos e todos os outros subordinados a melhor maneira para se agir - a mais correta, a mais sensata, a mais prudente. Tudo para que eles aprendessem a serem mais eficientes ou... Qualquer outra coisa relacionada àquilo. Camila o deixou de escutar após algum tempo... Fosse por sono, por não aguentar mais tanta bronca ou por discordar de suas palavras, a Auror não saberia dizer.
Nunca pedi para ser diretora, pensou de repente com uma careta desgostosa. Eles a exigiam em setores que ela jamais gostara de trabalhar, como lidar com burocracia e toda aquela papelada. Quando decidira entrar para a Academia, fizera-o pensando em toda a ação e na beleza por trás de empunhar uma varinha para proteger os outros... Lutar por uma causa.
Sempre se imaginara em campo, sempre sonhara com os conflitos, sempre pensara ser agitada demais para ocupar um cargo que exigia tanto silêncio e demonstração de postura... Mas, algum tempo depois de ter regressado de seu período de provação, após a operação Perez, lá estava ela, aceitando o cargo. Por quê fizera isso, mesmo? Por que aceitara ao pedido do próprio chefe do Conselho Geral, algo incomum para a indicação de diretores?
Mais importante, por quê continuara no cargo?
Camila bufou, girando os olhos. Você sabe a resposta para cada uma dessas perguntas, disse a si mesma. A parte bonita e a parte nojenta de seus motivos, você sabe muito bem.
Ela afastou a porta-camarão que separava o corredor da sala de estar com vagar, e caminhou até a cozinha perdida em seus pensamentos. Pesando suas atitudes, julgando o presente e o passado.
Eu deveria ter deixado a diretoria enquanto tinha chance... Logo após ter limpado a bagunça financeira que Brosseau implorara para arrumar.
Abrindo a porta da geladeira, viu que Helena preparara mais uma jarra de suco. A irmã sempre tentara diminuir o consumo exagerado de refrigerantes e comida gordurosa de Sofia, nunca obtendo sucesso. Camila pegou a jarra, perguntando-se distraidamente qual era a fruta utilizada dessa vez. Pegou um copo e, observando o líquido vermelho escorrer vivo da jarra ao copo, imaginou o que não poderia ser além de morango. Quais eram as opções de suco artificial que não fossem morango ou frutas vermelhas?
O líquido movia-se em circular dentro do copo, e logo a bruxa não imaginava mais em pacotes de suco artificial. Lembrou-se do dia anterior, do sangue em suas mãos, mais vermelho do que aquela bebida, vivo e quente, manchando suas roupas e escapando com vigor dos ferimentos de Marcela, uma garota que já estava morta antes que pudessem buscar ajuda...
Lembrou-se de Mark e de suas perguntas, de suas sugestões irritadas sobre a garota participar de um plano para emboscá-la, suas tentativas de mostrá-la do quão irresponsável fora.
Guardando a jarra na geladeira, rumou com seu copo de suco para a sacada do apartamento, na sala de estar, e descansou os cotovelos no parapeito, pensativa.
Não consigo imaginá-la como culpada. Isso pode ser um erro, mas não consigo imaginá-la disposta a morrer daquela maneira apenas para me atingir.
Ninguém aceitaria isso.
Marcela buscava ajuda, não um ataque no meio da cidade. Ela torcia suas mãos, olhava para os lados. Havia medo em seu olhar, não uma visão calculista. Ela desejava sumir, salvar-se. Na verdade, fora essa sua provável intenção. Ela esperava que a bruxa pudesse ajudar, com o que fosse, mas não esperava que a mais velha pudesse mantê-la em segurança. Era estranho, considerando o quanto a garota dissera sobre Claire acreditar que Camila poderia mantê-las à salvo.
Já estou morta, ela dizia. Já estou morta.
Será que você imaginava o quão certa estava de suas palavras?
Franzindo o cenho, a Auror sorveu um pequeno gole do conteúdo, sentindo-o doce e indecifrável por tanto açúcar, e então saiu da sacada, uma memória em particular a incomodando. O primeiro tiro atingira-a nas costas, bem no meio, passando primeiro pela mochila que carregava. O projétil ficara alojado em seu corpo, causando uma trilha de destruição em seu interior. O segundo atingira o pescoço, sendo o motivo de sua morte prematura. Camila imaginava que a garota teria chances de sobrevivência caso o tiro nas costas fosse o único executado. Ela não morreria imediatamente após o disparo.
E era isso que agora a incomodava.
Deixou a bebida sobre a mesa da sala de jantar do apartamento, à caminho do corredor, e logo rumava até seu quarto, em busca de respostas.
Ao pegar o Espelho de Duas Faces, zangava-se por ter demorado tanto a lembrar daquilo. Comentara com Mark, mas desde que saíra do hospital quase não falara mais sobre o caso. Pensou em culpar seu estado, a sensação de nebulosidade que sentiu pelo número de remédios que foram ministrados em seu organismo no hospital, mas estava tão frustrada com o número enorme de erros que cometera nas últimas vinte e quatro horas que jogara todos os problemas sobre a própria incompetência.
Dois toques na face do espelho, e uma oriental de cabelos escuros e pontas vermelhas surgiu em seu campo de visão, a imagem tomando conta do que antes era o próprio reflexo.
- Diretora Oliveira. - a jovem assentiu em um pequeno cumprimento.
- Pode me passar o cronograma de Antônio Carlos, por favor? - ela perguntou, não se importando com mesuras. Nunca se importara, afinal. - Não consigo lembrar quando é seu dia de folga na Polícia -.
- Claro. - a bruxa respondeu, e sua atenção se voltou para algo além do alcance do Espelho de duas Faces. Camila sentou-se em sua cama, esperando. Alguns segundos se passaram em total silêncio, quebrado apenas por movimentação de papéis, até que a atenção da jovem voltasse novamente para a Auror e ela disesse: - Antônio Carlos da Cunha está de folga da Polícia, hoje, sexta-feira. Como estipulado, ele deve comparecer ao Departamento para entregar seu relatório sobre as atividades no Mundo Trouxa às dezoito horas. A senhora quer que eu o contate, diretora?
- Não, não é necessário, obrigada. - ela deu outro toque no Espelho, finalizando seu contato com a oriental, mas não demorou para que ela batucasse sobre a superfície mais uma vez para um novo contato. - Antônio, sou eu.
Demorou para que o bruxo respondesse. Quando a bruxa já estava pronta para chamá-lo mais uma vez, impaciente com toda aquela espera, o Auror surgiu. Seu cabelo, sempre arrumado à moda antiga, estava bagunçado e seus olhos demonstravam o sono que fora interrompido, pequenos pelo esforço de se manter acordado.
- Chefe. - ele disse, sua voz rouca confirmando que, de fato, ele estava aproveitando seu dia de folga na cama. - Richard disse que você estaria fora por alguns dias. - murmurou, franzindo o cenho.
Camila sentiu-se irritada com o comentário. Por ela, por Richard, que agora agia como se ela estivesse até mesmo incapacitada de pensar. Tudo bem, agira errado, provavelmente comprometera muitas vantagens em uma investigação e dera um trabalho burocráticos dos infernos para a diretoria, mas isso não significava que destruíra sua carreira ao ponto de ser condenada a passar o resto de seus dias em casa, incapacitada.
- É, bem, não estou. - retrucou com os dentes cerrados, a irritação flamejante. - Richard mencionou ontem algo sobre a Polícia já ter dado espaço para o Departamento. Sobre a morte da menina, digo.
- Ele entrou com recurso assim que soube do ataque. - Antônio confirmou, assentindo. - O que houve?
- As provas já foram encaminhadas para o Departamento?
Antônio Carlos soltou um longo suspiro, assemelhando-se um pouco à um rouco gemido e ele coçou os olhos com uma das mãos, esforçando-se para acordar e manter sua atenção nas palavras da Auror.
- O quê? Não, eu - espere. As provas?
- O corpo, a mochila. - Camila explicou, a impaciência evidente na perna que agora descia e subia, frenética. - Havia uma mochila, certo? Velha, rasgada em alguns pontos -.
- É, havia uma mochila. - ele a interrompeu, agora mais desperto. - Não, acho que está tudo com a perícia trouxa, ainda. Pelo menos não ouvi nada pela parte de Richard, ou de alguém do Departamento sobre o assunto. É provável que alguém da perícia bruxa apareça entre hoje e amanhã para levar o corpo até Pedro, ou Helena...
- Vocês já viram o conteúdo? Você viu o conteúdo?
- Não, ainda não. - Antônio respondeu, e ao ver a expressão da bruxa, franziu o cenho. - O que houve, Camila?
- Considerei algumas possibilidades. - ela admitiu, levantando-se da cama. - Quero dizer, não estava muito ciente ontem, e hoje pude -.
- Diga. - ele a incentivou.
- Prefiro dizer pessoalmente. Será que podemos nos encontrar no Departamento? Buscarei a papelada necessária para a liberação do corpo e das evidências.
Antônio assentiu, apesar do claro cansaço.
- Tudo bem. Okay. Departamento, estarei lá.
Cooper estava testando sua paciência. Um dos Aurores o conduziu até a sala de interrogatórios e ali Mark ficou esquecido por quase vinte minutos até que o subdiretor finalmente desse o ar de sua graça.
Durante sua estadia silenciosa, uma Auror surgiu para lhe oferecer algo para beber, e após servi-lo com uma caneca de café esse fora todo o contato que tivera com o mundo até que a porta se abriu e Cooper surgiu com suas desculpas educadas e que não traduziam suas reais intenções.
- Espero que não tenha esperado muito tempo. - ele dissera, sentando-se à sua frente com pastas e mais pastas.
Mark apenas encolheu os ombros, não dando muito sinal de interesse, e descansou os braços sobre a mesa fria, apoiando um pouco o tronco sobre os cotovelos. Ele tinha certeza que o interesse do homem era deixá-lo impaciente, como se aquilo fosse um bom caminho para pegar qualquer minúcia que evidenciasse uma eventual mentira, qualquer expressão que pudesse denunciá-lo, então o efeito causado pela demora fora quase oposta aos desejos do bruxo: sentira mais sono e tédio à impaciência, realmente.
- Eu pensei que Camila estaria aqui. - comentou ao invés de desculpá-lo ou continuar o assunto. - Ela está bem?
Ele se interessou ao perceber a irritação surgir às feições do Auror, ainda que a evidência tenha sido mínima e ocorrido por menos de um ou dois segundos, logo mascarada por estoicismo.
- Ela está ocupada. - disse simplesmente, abrindo uma das pastas. - Agora, senhor Rutherford, gostaria que o senhor compreendesse quem faz as perguntas aqui.
- Claro, sem problemas.
- Onde o senhor estava entre os dias seis e oito de junho desse ano?
- Preso. - ele respondeu sem pensar muito no assunto, subitamente entediado. - Acredito que os arquivos na penitenciária e as assinaturas de Denis Brosseau sejam suficientes para provar minha palavra, caso duvide. - continuou, incapaz de segurar o cinismo em sua voz.
O cenho de Cooper franziu, e ele pareceu se segurar para não ser levado pela provocação.
- De acordo com informações fornecidas por Evelyn Harleigh, você era uma figura constante na vida de Claire até que ela desaparecesse. - continuou, a respiração saindo mais pesada pelos seus lábios. - Um tio bastante presente, pelo pouco que ela disse sobre a vida em família. - ressaltou.
Mark assentiu.
- Eu tentava ser.
- Um tio que sumiu por algum tempo logo antes da própria sobrinha entrar para a lista de desaparecidos.
Richard retirou uma foto da pasta aberta, colocando-a próxima à Mark. O bruxo não precisava encarar a imagem para saber quem exatamente era a menina que sorria abertamente.
- Sumir é uma palavra exagerada. - o ex-diretor respondeu, sentindo a frustração incomodá-lo na boca do estômago. Claire continuou sorrindo abaixo dele, alimentando sua irritação, um constante lembrete das insinuações que aquele desconhecido fazia a respeito dele e de sua família. - Meu nome e minhas obrigações para com o Departamento espanhol estão devidamente registrados em seus documentos. O senhor poderia checá-las. - acrescentou, o tom carismático de sua voz não combinando com a maneira que ele encarava Cooper.
Richard Cooper inspirou fundo, procurando calma. O silêncio entre os dois homens durou por alguns segundos, até que ele tornasse sua atenção para o pequeno arquivo que possuía sobre o ex-diretor. Tentara acessar outros arquivos, mais informações onde o nome de Rutherford surgia, mas praticamente tudo estava fechado em pastas escrito "Confidencial".
Pela primeira vez, arrependeu-se de ter obrigado Camila a descansar alguns dias em casa. Rutherford parecia mais solícito sempre que ela perguntava alguma coisa. Isso, e o fato de que a Auror provavelmente conhecia muito do conteúdo confidencial.
Segurou um grunhido. Aquele dia estava fadado a ser uma droga.
Camila já estava com uma pequena pasta em mãos quando Antônio chegou ao Departamento, esperando-o sentada na escadaria. Ele se aproximou, observando-a virar as poucas páginas em suas mãos uma vez, e depois outra, voltando para a informação inicial e repetindo todo o processo. O Auror imaginou por quanto tempo ela deveria estar ali.
- Ah, você chegou. - ela disse ao reconhecê-lo, erguendo-se. - Já estou com os papéis. A perícia bruxa também já está pronta para o transporte do corpo. Você quer resolver alguma coisa aqui antes de irmos?
- Não, estou pronto. - ele a observou descer as escadas, perguntando: - Então, sobre o que tem pensado?
- Os tiros. - Camila respondeu, entregando-lhe a fina pasta. - Há algo que não encaixa, mas preciso da análise de Helena ou Pedro sobre o assunto. E preciso daquela mochila, também. Você quer aparatar ou ir junto com a perícia? Vamos gastar um bom tempo com papelada para a liberação.
- Você não usará transfiguração? - ele perguntou, franzindo o cenho. - Quero dizer, eles obviamente a conhecem de ontem, e se surgir ali dessa maneira -.
- Estou com Polissuco no bolso. - disse a Auror, dando de ombros. - Preciso apenas de um lugar reservado enquanto a poção faz sua mágica.
- Há uma construção parada por processo jurídico próximo ao IML. - Antônio a informou. - Podemos aparatar ali, a menos que você decida acompanhar a perícia.
- Usaremos a construção, então. - ela dispensou a segunda opção, obviamente agitada demais para esperar. - Os outros provavelmente chegarão assim que eu der a última assinatura.
Camila não estivera errada. Após quase uma hora e meia apenas lendo cláusulas e assinando papéis, a liberação oficial do corpo surgiu quando os peritos do Departamento apareceram em uma van trouxa, prontos para recolher o cadáver e as provas disponíveis. Os trouxas não sabiam muito dos motivos para a troca de jurisdição, mas com a papelada oficial do governo, não existia muito para se fazer ou questionar.
Antônio a assistiu assinar papel atrás de papel, e depois a acompanhou em silêncio enquanto ela seguia a equipe até a van, carregando a menina em uma maca, escondida em seu saco preto. Com rosto pontiagudo, olhos escuros e cabelo crespo domado em um penteado simples, a bruxa caminhava empertigada enquanto os trouxas observavam a pequena movimentação. Antônio sabia que eles não gostavam de ver seu caso retirado daquela maneira de suas mãos.
Quando um dos bruxos fechou as portas da van, já com todos próximos ao corpo, Camila inspirou fundo, descansando as costas contra o material frio do carro.
- Odeio papelada. Odeio. - ela comentou, fechando os olhos. Até então, toda sua atenção estivera focada no corpo da menina, escondido pelo plástico. Antônio assistiu suas expressões se contorcerem em culpa, seguidas de irritação e depois pesar, mas não disse nada.
- Quem realizará a autópsia? - Antônio perguntou para um dos técnicos, que balançou a cabeça.
- Provavelmente Pedro. Helena estava com uma família.
Camila abriu os olhos, aparentemente desgostosa com o que ouvira.
- Eu tinha me esquecido que os Harleigh viriam hoje. - murmurou, passando a mão pelos cabelos. Sentiu-se frustrada com o fato; Richard provavelmente a tirara tanto da conversa com os pais da menina quanto o encontro com Mark. - Eles já estavam lá há muito tempo?
- Não, senhora. A família tinha acabado de chegar quando saímos do Departamento.
- Por que eles estão aqui? - Antônio perguntou confuso. - Já temos a identificação da menina...
- Formalidade - a Auror respondeu. - e Richard espera obter alguma ambientação sobre a vida de Claire e o dia em que ela foi sequestrada.
- Eles sabem que o corpo ainda não pode ser liberado, certo?
- Richard os avisou. Onde está a mochila?
- Aqui. - um dos técnicos respondeu, erguendo a mochila com suas luvas de látex. - Os peritos sequer tiveram tempo para retirar o conteúdo e arquivá-lo.
- O que espera encontrar? - Antônio quis saber em voz baixa, observando-a.
- Eu não sei, exatamente. - Camila admitiu. - Mas, se esse pensamento que tenho estiver certo, o responsável pela morte de Marcela estava mais interessado no conteúdo do que em um assassinato.
Continua.
