Capítulo Quinze

15 de julho de 2007, Canadá.

Robert Swan inspirou fundo quando escutou a porta da sala de reuniões do hotel se abrir de maneira brusca, revelando a imagem furiosa de Camila Oliveira.

Por que aceitara participar da ideia de Michael Stuart ao trabalhar como diretor de um departamento de Aurores que seria melhor e mais eficaz que o regime anterior, mesmo? Se ele tivesse recusado, em um momento como àquele o Auror aposentado poderia estar em sua pequena e confortável casa, um lugar perdido na Louisiana. Poderia estar pescando, almoçando em seguida um maravilhoso gumbo feito por sua esposa.

Se ele tivesse recusado, se tivesse continuado em seu emprego como advogado no Ministério, certamente não estaria ali, pois não conhefceria e não se apegaria àquelas pessoas; não teria conhecido Mark Rutherford e seu brilhantismo em campo, não sentiria culpa pelo rapaz ter perdido muito por culpa de seu julgamento e de toda uma diretoria – talvez, àquele momento, ele apenas passasse os olhos sobre seu nome nos jornais, e considerasse o quanto de toda aquela babaquice que a mídia adorava florear era verdade.

Se ele tivesse recusado, jamais teria conhecido a mulher que agora fitava a ele e a Nathan Madison como se desejasse metralhá-los.

- Bom, pelo menos vocês conseguem atender ao pedido de se reunirem. – ela disse com voz trêmula, a mão esquerda segurando com força a maçaneta da porta de vidro fumê. – Já estava imaginando se eu teria alugado a droga da sala à toa... Como tudo que tenho feito, ao que parece.

Apesar de Nathan Madison também saber dos motivos que tanto enfureciam a Auror, Camila encarava apenas Swan. Ele, por sua vez, não parecia tão abalado ou surpreso quanto o homem ao seu lado.

Ela fechou a porta e, aproximando-se dos dois, acusou-os de imediato:

- Vocês sabiam de tudo.

- Difícil não saber, eu presenciei grande parte do que aconteceu depois que eles foram mortos -. – Nathan começou exasperado, mas calou-se diante do olhar que Camila lhe lançou.

- Vocês tinham todo o acesso aos arquivos desse caso. – disse, sua voz baixa contrastando com as mãos fechadas em punhos. Swan não continuou abalado.

- Bem, é claro. – ele respondeu.

- É claro. – ela o imitou, e um bufo debochado escapou de sua garganta. – É claro. – repetiu. – É inacreditável a calma que você pode possuir diante de um erro desses... Vocês tinham a droga das informações e -!

- Ei, espere um pouco, Camila. – Nathan a interrompeu irritado. – Você também sabe sobre Piersanti. Você também não considerou o fato de Brosseau utilizar essas informações em tribunal. Não fale como se tivéssemos condenado Mark à forca. Você também não pensou -.

- É claro que eu não pensei! – ela exclamou, batendo o punho sobre a mesa. – Eu não sabia sobre esses detalhes! Tudo o que Mark me disse foram partes aqui e ali sobre Piersanti e pouco de seus problemas para que eu entendesse sua razão de não ter assumido culpa alguma no caso de Perez! Agora, se eu sabia que Piersanti assassinou o pai de Mark a facadas? Se eu sabia que eles afogaram a noiva na piscina, às vistas dele? Se eu sabia que ele ficou meses em coma por causa disso e demorou um inferno para se recuperar de tudo isso? – balançando a cabeça, a voz baixa diante de sua última frase, incrédula, a bruxa desviou o olhar e disse entre os dentes. – Não, eu não sabia disso. Eu não sabia.

- Não adianta gritar e arrancar os cabelos agora por causa do que deixamos passar. – Swan disse diante do silêncio entre os dois bruxos, mais calmo entre todos ali. – O que precisamos agora é bolar um jeito para tirar essas caraminholas doentias da cabeça de Brosseau, e convencer as pessoas ao contrário dessa decisão proposta por ele. – quando a mulher se voltou para encará-lo, a irritação faiscante em seus olhos, ele continuou com firmeza, usando as palavras certas para derrubar toda a muralha que ela havia construído: - Você sabe que raiva não a levará a lugar algum, garota. Você se lembra de como Brosseau é ardiloso, não se lembra? Você se lembra de como ele agiu quando você estava no lugar de Mark, não estava, a forma como ele mostrou seus documentos médicos após a cirurgia?

Nathan se surpreendeu ao ver a raiva dissipar de seus olhos e ser substituído por imediata reserva. A mulher, que até então parecia apenas crescer diante da raiva que sentia por ter sido mantida no escuro, agora parecia se encolher mais e mais em um buraco que Nathan não tinha completo conhecimento – Perez.

Ela cruzou os braços, uma tentativa inconsciente de se proteger do súbito ataque que sentira e desviou o olhar, fuzilando o chão com sua atenção.

- Ele também disse que eu estava instável demais para continuar seguindo o trabalho. – Camila disse em voz baixa, o cenho franzido. Fechou os olhos por um segundo, inspirando fundo, antes de continuar, agora mais controlada: - Mas ele não está agindo como da outra vez, Swan. Ele não quis me internar em uma clinica alegando insanidade. Ele não quis -.

- Realmente. Mas isso não nos deixa mais ou menos incapacitados de vencer o caso.

- Não posso ajudar se não souber os detalhes. – ela decretou, a firmeza voltando para sua voz. Camila tornou a encarar Swan em obstinação ao decretar: - Quero ter acesso a esses arquivos. Quero saber dos detalhes. – quando o homem não respondeu, ela o pressionou: - Dê-me essa liberação, Robert. Ajude Mark como você me ajudou da última vez.


Mark seguiu pelos corredores em silêncio, após sua entrevista com Richard Cooper, acostumando-se ao barulho do cotidiano daquele ambiente de trabalho enquanto seguia até o setor de patologia e perícia. Aurores passavam apressados por ele, seus passos e vozes contrastando com seu silêncio e andar.

Estivera no Departamento brasileiro poucas vezes. Duas ou três vezes, talvez, uma delas ainda antes de se tornar diretor, antes mesmo do trabalho com Mathias Perez. Os motivos eram dos mais variados - desde sua área de trabalho não se envolver diretamente com a frente brasileira, quando Auror, até a pouca tolerância que Camila possuía por ele, após ser indicado. O intercâmbio entre Aurores de diferentes nacionalidades, comum em todo o mundo, era facilmente resolvido pela AMI, e nenhum dos dois precisava ver mais do que uma assinatura do outro, permitindo ou requisitando determinado bruxo ou bruxa.

Mark observava com curiosidade à movimentação das pessoas. Muitos Aurores pareciam ser de outros Departamentos, seus idiomas misturando-se ao português naquele lugar barulhento, e ele só podia imaginar a razão de importarem um número aparentemente grande de agentes. Ele não se lembrava de ter requisitado tantos Aurores estrangeiros, quando diretor.

Franziu o cenho, lembrando-se de sua conversa com Nathan pela manhã. Brosseau estava a enchendo de problemas desde que se colocara à disposição para ajudá-lo em todo aquele processo do Conselho Geral. Durante todo seu julgamento, quando conversavam sobre outros assuntos antes das audiências ou ao visitá-lo na prisão, algo que se tornara frequente desde aquela conversa, Camila jamais mencionara problemas no trabalho - sempre organizada e ponderada, ele não imaginaria qualquer problema, também. A bruxa sempre fora elogiada pelas ações administrativas, afinal, ouvia-as sempre nos encontros anuais entre diretores. Agora, contudo, imaginava o quanto ela não havia escondido a respeito de seus problemas, o quanto não se mantivera em silêncio.

Como sempre.

Ao dobrar uma esquina entre dois corredores extensos no primeiro andar, Mark avistou, distraído, a placa que indicava o caminho para o IML. Pensando em Camila, perguntava-se como conseguiria convencê-la. Nathan levantara um ponto importante naquela conversa pela manhã, um ponto que ele não gostava de considerar: ao mesmo tempo em que tinha suas crises, ela também sabia se comportar como um maldito manual.

Seguiu às instruções da placa e, ao visualizar as portas duplas ao final da passagem, surpreendeu-se ao encontrar o cunhado encostado à parede com a cabeça baixa e os tornozelos cruzados. Todos os pensamentos anteriores se esvaíram conforme ele registrava e ponderava as consequências das atitudes de Zachary ao estar ali fora.

Ele não acompanhara a esposa? Ele não vira Claire?

- Eve está lá dentro? - ele perguntou, indicando a porta dupla com um leve aceno de cabeça. Zachary assentiu.

- Era necessário apenas um de nós. - não encarando o cunhado, continuou, subitamente constrangido. - E eu prefiro não vê-la, de qualquer modo.

Mark não o confortou ou disse qualquer coisa. Observou o homem em silêncio, incerto sobre o quê pensar de sua atitude. Compreendia-o quanto não desejar ver a própria filha deitada em uma bancada fria, a necessidade de não reconhecer que um ente querido, alguém amado, estava morto e jamais voltaria. Contudo, também imaginava sua irmã curvada sobre o corpo de Claire, chorando ao lado de estranhos, e sentia-se irritado com o cunhado. Evelyn não deveria ficar sozinha em um momento como aquele.

Após alguns segundos em silêncio desconcertantes entre os dois, Zachary começou, distraindo-o de sua consideração sobre deixar o cunhado sozinho e se colocar ao lado da irmã:

- Escutei comentários de algumas pessoas... - sua voz vacilou, incerto sobre como rotulá-los. Bruxos? Agentes? -... Eles mencionaram algo sobre você estar sob interrogatório.

- Foi apenas uma conversa. O Auror Cooper terá uma conversa semelhante com você e Eve. - Mark respondeu com tranquilidade, cruzando os braços. Sua atenção estava mais sobre a porta por onde sua irmã sairia cedo ou tarde do que no homem, realmente. - Apesar...

- O quê? Apesar de quê?

Apesar do interesse de Cooper em me considerar envolvido. Ao invés de respondê-lo, no entanto, o bruxo se limitou a dar de ombros.

- Acho estranho tudo isso. - Zachary continuou, não se importando em receber uma resposta concreta do outro. Pela forma que o encarava, também não parecia acreditar em suas palavras. - Você está na investigação, mas eles o interrogam como fariam a um suspeito?

O outro finalmente o encarou, seus olhos perscrutando as expressões agitadas do cunhado. Zachary esperava por respostas, mas Mark já conseguia discernir a acusação por trás de suas feições, de sua postura.

Era nisso que estava pensando enquanto não cumpria sua obrigação como marido, como pai? Ao invés de estar ao lado de Evelyn, você ficou considerando minha posição em toda essa situação?

- Não foi como um -.

- Ou talvez você tenha mentido. - o homem disse em voz baixa, seu cenho franzido enquanto encarava o bruxo nos olhos. Apesar de Mark ser maior e mais forte, tentava intimidá-lo, não percebendo a crescente irritação que endurecia a postura do cunhado. - Talvez você tenha mentido para Evelyn, sobre ser agente. Diabos, talvez você tenha mentido sobre tudo na vida!

- Não era mentira.

- Ah, não era? - Zachary debochou, erguendo as sobrancelhas em desdém. - Pois vou lhe dizer o que acho: você deve ter mentido sobre tudo. Sobre ser agente, sobre ajudar na investigação... Mas sabe de uma coisa? Erick me contou sobre você. Soube desde o início que não deveria confiar em você. - conjecturou, ameaçando um passo em sua direção. Sua voz agora se erguia, agitando-se conforme as acusações pareciam pesadas demais para continuar em seu interior. - Ele me contou sobre o quanto suas escolhas já afetaram esta família. Diga-me uma coisa, você deve ser algum tipo de criminoso, certo? Você se mete em problemas com as pessoas erradas, e a família inteira se fode com você -.

- Não se meta, Zack. - Mark disse em voz baixa, o cenho franzindo. A raiva agora ganhava sobre a razão, os punhos desejando nada mais que atingir a face do homem com toda a força que possuísse. Mas ele não podia, ele não deveria... Zachary pouco sabia sobre a morte de seu pai e de Rebecca, ele não estava lá; ele e Claire estavam protegidos de todo o acontecimento por questão de quilômetros, àquele dia. O cunhado só saberia da desgraça horas mais tarde, quando tudo estivesse acabado e a esposa ligasse para ele aos prantos.

Além disso, você faria Eve chorar caso o machucasse.

- Dói saber que Erick espalhou seus segredos, que eu sei sobre o porquê da morte de seu pai e de sua namoradinha? - ele quis saber, apreciando a raiva que observava crescer no outro. - Pois eu sei, Rutherford. Eu sei que eles foram mortos por causa das suas escolhas, não por um acidente... E saiba disso, eu tenho minhas dúvidas quanto à morte de minha filha. Quem me garante que ela não foi morta pela sua incompetência, também? Quem me garante que você não a matou?

Tudo se perdera por um instante; as palavras acusatórias de Richard Cooper, suas sugestões de envolvimento com todo o caso de Claire, os pensamentos verbalizados de Zachary, a inquietude que, embora familiar, ainda incomodava, tudo se perdeu em um instante de fúria cega.

Suas pernas se moveram sem que ele realmente registrasse o fato, a face contorcida na raiva que sentia; os punhos fechados, prontos para o ataque. Dane-se o controle, dane-se a necessidade de agir com cautela. Um segundo e tudo estaria acabado, ele pensou. Apenas um segundo, e sentirei prazer em vê-lo sangrar. A raiva sumiria conforme o rosto do cunhado deformasse com o impacto de sua mão, e ele poderia se arrepender mais tarde, depois que a tristeza de Evelyn o acusasse de descontrole.

Ele não tem direito de falar sobre o que não sabe.

- Senhor Harleigh? - uma voz soou às suas costas, e toda a cegueira causada pela cólera diluíra-se em realidade. Mark piscou, registrando o próprio punho erguido, a postura corporal. Encarou Zachary, observando suas expressões surpresas e os olhos assustados.

Observou as feições delicadas e os olhos amendoados de uma bruxa de estatura mediana e jaleco branco. Seus cabelos de tonalidade mel estavam presos por uma presilha, pequenos fios dourados escapando de seu penteado e caindo em sua face, emoldurando um rosto com toques de expressão que lhe eram familiares. Ela tentava demonstrar educada ignorância quanto à discussão, mas a noção do que vira ainda estava presente em suas feições, em seus olhos, que dançavam de um homem para o outro em incompreensão e susto.

Mark então olhou para a outra figura, a outra pessoa que surgira junto da legista, e reconheceu a familiaridade que sentira anteriormente quando encarara Camila.

Ao perceber a indignação em toda a postura da Auror, o contraste gigante entre a suavidade da patologista e o ar tempestuoso da mulher ao seu lado, com sua atenção voltada para Zachary, o bruxo teve a súbita certeza de que elas os escutaram.

- Sua esposa pediu pelo senhor. - a legista disse em voz baixa, pressionada pela tensão do ambiente. - O senhor pode me acompanhar, por favor?

- Claro. - ele respondeu, empertigando-se.

Não parecia mais o homem rancoroso e irritado, escondendo-se em sua postura cheia de responsabilidade. Apressou-se para diminuir a distância entre ele e as bruxas, não dirigindo seu olhar para o cunhado uma única vez. A legista deu espaço para que ele passasse, pronta para acompanhá-lo em seguida, mas Camila continuou parada no mesmo lugar, sua mão firme sobre a porta, segurando-a. Zachary deu um leve meneio educado com a cabeça reconhecendo-a, cumprimentando-a, mas a bruxa apenas o estudou com incontrolada frieza, observando-o se afastar.

Quando o homem desapareceu pelas portas, a bruxa de olhos amendoados colocou a mão no ombro da diretora de modo gentil, dizendo:

- Eu a chamo assim que Pedro estiver pronto para a autópsia, tudo bem?

- Por favor, Lena. - Camila murmurou.

A mulher abriu um pequeno sorriso, incerto, antes de também desaparecer por entre as portas. O silêncio caíra sobre os dois únicos presentes, quebrado apenas pela vivacidade do próprio Departamento acima deles. Escutavam passos, conversas, risadas, chamadas. Todos alheios à tensão que existia no primeiro andar, naquele corredor que separava Aurores e Curandeiros.

Camila se afastou da porta, fechando-a. Observando seus ombros tensos e a costumeira aparência de quem acordara atrasado para um dia importante, a irritação de Mark foi aos poucos substituída pela surpresa ao estudar o que a mulher expressava de seus pensamentos em ações - ocupando-se primeiro com a porta, depois com o relógio em seu pulso, checando as horas por mais tempo que o necessário, ele percebia seus lábios comprimidos, a face torcida em uma careta enquanto realizava cada tarefa.

Sua raiva, por algum motivo, aplacara a dele, ajudando-o a recuperar o controle.

- Como Evelyn está aguentando tudo isso?

A súbita pergunta a distraíra de seus questionamentos e de como poderia abordá-lo - afinal, o que dizer para alguém cujo cunhado culpara de toda a desgraça da família? "Tenho certeza que era só algo de momento" parecia nojento e falso até mesmo em pensamento, ainda mais quando sua maior vontade era cutucar Zachary Harleigh e questioná-lo sobre o quanto ele sabia, quanta certeza possuía para afirmar uma coisa daquelas.

Não, estava mentindo. Ela não iria apenas cutucá-lo. Escutara o suficiente para ter certeza que não somente cutucaria o infeliz.

Erguendo o rosto, esquecendo-se do relógio que ainda fingia observar, encarou um bruxo que parecia calmo demais para se assemelhar ao homem de punhos erguidos que presenciara há pouco tempo. Surpreendera-se horrores ao vê-lo daquela forma, pronto para uma briga, de braços abertos para seu lado irracional - Mark sempre fora controlado demais para se permitir agir por ímpeto, salvo exceções - mas, agora que o via ali, próximo à ela, esperando por sua resposta, não conseguia acreditar que alguém fosse capaz de enterrar suas mágoas de maneira tão rápida.

"Erick me disse tudo sobre você". Ela ainda não conseguia acreditar no que ouvira. Erick Rutherford, sério? O mesmo homem que causara tantos problemas a Mark e lhe tirara mais que o emprego, o mesmo homem que enviava cartas para uma mulher tão louca e doente quanto ele, detalhando com maestria horrível sobre seus sonhos e desejos contra outras mulheres? Era nas palavras de um homem daqueles que Zachary Harleigh se apoiava?

A menos que as palavras de Erick fossem as únicas disponíveis para se apoiar. O súbito pensamento fez com que ela encarasse toda a situação com novos olhos e a indignação agarrasse suas entranhas mais uma vez. Camila pegou lembrando-se das palavras de Nathan Madison, perdidas em uma mistura de problemas e resoluções de meses atrás: "Ele e essa mania de achar que pode fazer tudo sozinho".

"Eu não a queria envolvida"

Não me diga que você fez isso com todos...

- Eu não a vi. - respondeu por fim, sua atenção ainda focada em qualquer deslize, qualquer mostra que o bruxo pudesse lhe dar. Vislumbrou o cansaço em seus olhos, o pouco de rigidez ainda presente em sua postura, mas nada mais. – Acabei de chegar ao Departamento, na verdade. Estava cuidado de alguma papelada, antes disso.

Ela não gostou das próprias palavras; mal terminara a frase e já se sentia uma perfeita cretina. Uma sentença, apenas, e ela reduzira a vida de uma garota que morrera em seus braços à papelada. Burocracia - a palavra subentendida que agora era usada para deixar claro o quanto não podiam ser sinceros um com o outro. Ela era a Auror, ele era um civil e Marcela perdia a própria identidade em meio a documentos que jamais retratariam ou diriam os horrores vividos ou às risadas que aquela garota um dia presenciara.

Agitada, inspirou fundo e cruzou os braços. Desacostumara-se a não ser franca com Mark – não que ela fosse de conversar sobre trabalho com ele, entre tudo o que havia acontecido entre os dois naquele espaço de quase dois anos, entre tudo o que precisava ser dito e resolvido. Mas, ainda assim, quando Aurores, ela não precisaria se preocupar com tamanha omissão.

- Ah. – ele murmurou simplesmente, os ombros caindo. Lançou um olhar preocupado para a porta, para onde ela surgira com Helena, minutos atrás, e balançou a cabeça. – Eu não a vejo quase desde o dia em que vocês apareceram com notícias sobre Claire -.

Mark se calou, franzindo o cenho. Dê informações demais antes da hora e ela virá sem você estar preparado. Se Camila se interessasse muito por seus arredores antes de sua chegada ao país, ela não descansaria até que tirasse qualquer dúvida que pudesse ter na cabeça. A mulher poderia ter mudado bastante ao longo dos anos, mas sempre fora essa característica em especial que a transformava em uma Auror tão boa.

Um segundo, apenas, e ela não tardaria a descobrir que ele estivera por tempo demais dentro do Departamento americano para simplesmente recolher seus pertences e deixar o cargo nas mãos de Nathan.

- Você poderia ficar com sua irmã lá dentro, se quisesse. – Camila disse em voz baixa, distraindo-o de seus pensamentos. Ao encará-la, a bruxa soltou um sorriso frustrado e carregado em deboche, surpreendendo-o. – Mas não acho que recomendar algo assim depois do que ouvi seja algo muito bom para se falar.

Ele viu a pergunta por trás daquelas palavras, mas fingiu não percebê-las, apesar do conhecimento que cedo ou tarde ela exigiria por respostas, e ele seria incapaz de recusá-la. Por um segundo, sentiu-se imbecil pela felicidade que sentiu ao vê-la não se apegar à sua frase inacabada, ao vê-la desinteressada a respeito de onde ele estivera antes de chegar ao país, pois agora compreendia onde a atenção da bruxa estava focada.

- Imagino que não. – Mark murmurou, não disponibilizando mais informações. Observou-a torcer as expressões em uma careta, uma clara demonstração quanto ao seu desgosto com o pouco de informações que recebia, mas ele não lhe deu tempo para que ela pudesse cutucá-lo mais, distraindo-a: - Você já almoçou? Estou pensando em pegar alguma coisa para Eve para, você sabe... Quando ela sair daqui.

Almoço? Procurando saber das horas pela primeira vez desde que se encontrara no corredor com aquele homem, não usando o aparelho como uma desculpa para seu embaraço enquanto à aproximação, Camila surpreendeu-se ao ver que já passava da uma. Entre sair do apartamento e às trocas de jurisdição sobre o caso de Marcela, a Auror não se dera conta do tempo que passara. Não eram nem dez horas quando saíra de casa, ela tinha certeza...

Não, disse a si mesma com firmeza, a ansiedade falando mais alto, inquietando-a, ainda há respostas para serem encontradas. Não há tempo. A mochila, o corpo – Pedro ainda precisa averiguar e dar suas respostas -.

- Posso indicar alguns restaurantes por perto. – concedeu, inclinando a cabeça um pouco para o lado, pensativa. – Há uma padaria trouxa também, de frente para o Departamento, praticamente. Eles costumam ter um self-service na hora do almoço. Há uma boa leva de Aurores que costumam comer ali... Mas eu não poderia -.

Antes que ela pudesse continuar, no entanto, seu estômago roncou, emitindo um barulho de protesto que parecera amplificado em um corredor naturalmente silencioso, um lembrete de que sorvera nada mais que um gole de um suco doce demais para seu gosto pela manhã, o único acesso a alimento que ela tinha desde o almoço horrível do hospital, do dia anterior. A fome se fez presente junto com a vergonha que lhe subiu às feições, as bochechas mais vermelhas do que ele já se lembrava de ter visto na Auror. Ela pareceu encolher diante dele, a indignação da situação distraindo-a mais do que o ex-diretor poderia conseguir em vida, convencendo-a a acompanhá-lo mais do que mil tentativas juntas por sua parte.

Mark abriu um sorriso largo, carregado em uma diversão e surpresa que serviram apenas para embaraçá-la ainda mais. Com as sobrancelhas erguidas, comentou com suavidade, mas Camila não foi incapaz de perceber o tom de chacota por parte dele ao dizer:

- Muito bem. Vamos pegar alguma coisa para minha irmã e para você, então.


Era fácil entrar em compasso com Camila. Mesmo após anos separados, incapazes de se comunicarem sem iniciarem uma discussão, sem que ela conseguisse esconder o profundo desagrado que sentia por ele, quando tudo parecera se resolver entre os dois, Mark percebeu que muito de seus movimentos e ações ainda pareciam sincronizados.

Estivemos seis anos afastados, ele pensou, observando-a caminhar um pequeno passo a sua frente, liderando o caminho até à padaria trouxa; os cabelos castanhos, milagrosamente soltos, roçando nos ombros cobertos pela jaqueta escura e o perfil atento nas pessoas que passavam por eles -.

Mas ainda assim, nosso subconsciente nos faz agir como se ainda estivéssemos encarando a morte todos os dias, como se fosse natural agirmos como uma dupla. Como se fosse natural agirmos como se fôssemos um.

Você também percebe isso, Camila? Você perceberá isso quando eu colocar uma bomba em suas mãos e questionar suas atitudes?

- A maioria dos Aurores come por ali. – Camila comentou, e Mark percebeu que não a escutara até então. Piscando, notou que estivera muito atento na figura da Auror, o topo de sua cabeça enchendo com pequenas gotículas conforme caminhavam contra a garoa fina e o vento frio, perdido demais em seus próprios pensamentos para prestar atenção ao mundo. – Não é o melhor lugar, mas definitivamente a comida de lá vale à pena.

- Ah.

Ele se limitou a assentir, apenas, deixando que a promessa de um sorriso suavizasse suas expressões quando ela virou o rosto um pouco para encará-lo, o cenho levemente franzido e com o nariz rosado. Lembrava-se de ouvi-la praguejar sobre o frio que fazia no Canadá em alguma de suas reuniões, mas não imaginava que bastava apenas aquele pouco frio para fazê-la se encolher em suas roupas, desgostosa.

- Você estava me escutando? – a Auror perguntou desconfiada, o franzir de cenho se aprofundando.

- Na verdade, não. – Mark respondeu com sinceridade, a provocação garantida em seu tom indiferente.

- E eu achando que você estaria mais preocupado com a alimentação da sua irmã... – murmurou, e ele percebeu que ela tentava instaurar algum tipo de culpa nele por não escutá-la. Tal como no dia do hospital, em que ele esperava que ela se sentisse culpada por preocupar sua família, Camila agora tentava cutucá-lo a respeito da desconsideração que parecia possuir sobre a irmã, mas ambos sabiam que ela estava apenas irritada por ter falado sozinha todo aquele tempo.

- Estou aqui para me certificar que ela tenha algo para comer, não estou? – ele perguntou, erguendo as sobrancelhas diante da provocação. – Lá eu vejo o que pode agradá-la ou não, não preciso me preocupar com isso agora. Não é como se você fosse me levar para algum buraco, afinal.

- Tch. – a bruxa girou os olhos, parando diante do sinal vermelho para pedestres. Os carros passavam furiosos diante de seus olhos enquanto ela socava as mãos dentro da jaqueta, procurando algum aquecimento em dedos que já pareciam congelados. – Não esteja tão certo disso. – resmungou com uma careta.

Mark sorriu, mas não retrucou. Esperaram em silêncio o sinal verde, não incomodado com a falta de conversa entre eles. Quando Camila o cutucou no braço, indicando a padaria do outro lado da rua com a cabeça e algumas palavras sem importância, o bruxo assentiu e a seguiu com aparente despreocupação, a atenção ainda fixa na figura pequena que o liderava pelo caminho lotado de pessoas.

E você considerou a possibilidade dela discordar e ferrar com tudo, certo?

O bruxo sentiu o incômodo subir às feições desde a boca do estômago, a preocupação sobre Nathan estar certo o enlouquecendo ainda mais conforme a hora de enfrentá-la parecia se aproximar. Ele parecia muito certo pela manhã, achava ter tudo pensado desde quando Evelyn se aproximara, com o rosto inchado pelo choro, pedindo para que ele capturasse os responsáveis e fizesse justiça à memória de sua sobrinha, acreditando que ele ainda poderia realizar algo como Auror. Na medida em que problemas favoráveis à sua situação pareciam se levantar, quando Nathan o ajudara a buscar algumas respostas, ele considerava quase certo a aquiescência da bruxa, mas agora...

... Agora, observando-a, tinha medo de ter pisado em falso em algum momento. E se Nathan estivesse certo, afinal? Tê-la como um empecilho, e não como uma aliada seria algo ainda mais problemático, e ele não seria capaz de dizer a Eve que não conseguiria descobrir e punir os responsáveis.

E eu a prefiro ao meu lado, não contra mim, pensou, subitamente grato pelo conforto que um parecia sentir ao lado do outro. Não mais olhares raivosos, não mais desgosto, não mais ações ditadas por um passado confuso e que manipulara a ambos mais do que eles um dia seriam capazes de compreender.

Definitivamente ao meu lado.

- Ah, hoje é dia de lasanha! – Camila o tirou de seus pensamentos mais uma vez com o suspiro alegre, e Mark sorriu ao vê-la fechar os olhos e inspirar com maior profundidade o aroma exalado pela...

... Padaria. Padaria trouxa.

Padaria trouxa próxima ao Departamento.

- Ai, caramba! – ele murmurou, torcendo as feições em uma careta enquanto a bruxa parecia flutuar de felicidade, quase, em direção ao calor do ambiente e de sua variedade de aromas e barulhos, alheia à súbita preocupação do bruxo.

- Camila! Seu amigo gringo esteve aqui minutos atrás buscando o almoço, achei estranho ele não ter pegado nada para você, considerando – Aaah! Você!

A Auror, que até então encarava o velho dono do estabelecimento com um sorriso de cumprimento, aliado à alegria que seu estômago parecia sentir por ter a fome em breve saciada, parou de chofre, seus olhos arregalados com o súbito e poderoso grito de um homem que sempre lhe parecera dócil e frágil demais. Ele sempre parecera tão... Pequeno, debilitado... Como diabos alguém como ele conseguia emitir um ruído furioso daqueles?

Mas o que eu fiz, desta vez? Camila pensou confusa. Indiferente aos olhares do grande número de curiosos que almoçavam ali e agora pareciam interessados na cena que se seguia, a bruxa estudou o cenho franzido das expressões enrugadas do dono, crucificando-a com irritação.

Isto é, era o que pensava, até que a risada sem graça de Mark soasse ao seu lado, distraindo-a.

- Heh, hei. – ele disse, e riu envergonhado mais uma vez, coçando o couro cabeludo próximo à têmpora de maneira nervosa. Camila o encarou, e depois ao dono da padaria, e então percebeu que não era ela o alvo da raiva do velho, mas o bruxo ao seu lado. – Hei, Mila, por que você não vai fazer o seu almoço enquanto eu – huh – é -.

- Você veio fazer o que desta vez, seu estúpido caloteiro? – o velho esbravejou, erguendo um dos punhos em sua direção. – Comer meus hambúrgueres e desta vez dar um tiro na minha cabeça, talvez?

- O quê? – Camila perguntou surpresa, tornando sua atenção para o homem ao seu lado. Mark a encarou, e ela se surpreendeu pela palidez em seu rosto e a mortificação que exalava diante da raiva do homem e dos holofotes que recebia de todos os presentes. – O que diabos você fez?

- Digamos que -.

- Mantenha-se longe desse tratante, menina! – o velho vociferou. – Você é boa demais para ficar ao lado de um homem perigoso como esses! Ele pode matar você, sabe, como esses pervertidos que matam as namoradas aí hoje em dia -.

- Papai! Papai! – a porta da cozinha se abriu, e dela surgiu uma jovem de cabelos escuros repleto de mechas loiras presos em um coque. Havia grande semelhança entre suas expressões e as do velho, em especial o formato do rosto e as sobrancelhas espessas. Ela se aproximou, um pano sobre um de seus ombros, e colocou a mão sobre o braço do homem. – Acalme-se, por favor! Isso não é bom para seu coração!

- Chame a polícia, isso fará bem ao meu coração, é o que digo! Ele me deve dinheiro! Ele me ameaçou de morte!

Camila boquiabriu-se.

- Você está aqui há menos de uma semana e já arrumou problemas? – perguntou estupefata a Mark. – E você ameaçou um idoso? – inquiriu, fazendo com que o bruxo franzisse o cenho.

- Não foi isso. Vá fazer sua marmita. Eu já – er, já faço a de Evelyn. – ele a dispensou, caminhando embaraçado até o velho e sua sobrinha diante dos olhares dos fregueses. Quando estava próximo o suficiente do homem e sua filha para que os outros não o escutassem, Mark pareceu dizer algo à mulher, que assentiu apesar de certo receio e afastou-se do pai para caminhar até Camila, que ainda estava parada no mesmo lugar, incapaz de registrar tudo o que acontecia e tomar alguma atitude.

Mas o que diabo é tudo isso?

- Vamos, querida, você precisa de ajuda para preparar seu almoço, certo?

Não, ela não precisava, e as duas sabiam disso. A Auror almoçava ou aparecia naquela padaria todos os dias, e a rotina de preparar seu almoço em uma bandeja, pesar o conteúdo com uma das empregadas do local e pagar para o velho e simpático dono era mais do que conhecida.

- Mas -.

- Eu sei, eu sei. Vamos lá escolher o que você quer para hoje, distrair os curiosos, e então poderemos conversar. – acrescentou, percebendo que nenhuma outra abordagem a faria cooperar.

Com um último olhar para Mark, que apesar da altura parecia pequeno diante da raiva do homem do outro lado do balcão, suas mãos enrugadas gesticulando por sobre a cabeça enquanto o ex-diretor parecia escutá-lo humildemente, a bruxa resolveu acompanhá-la até onde as refeições exalavam seus aromas maravilhosos.

Diante da correria do cotidiano, a atenção dos fregueses não se demorou muito depois que a gritaria do dono do estabelecimento diminuíra e, em pouco tempo, acabara. Logo o tédio por presenciar dois homens conversando em tons baixos, um com o queixo erguido em orgulho ferido e outro curvado em desculpas, e as duas mulheres do outro lado da padaria escolhendo o que almoçar vencera qualquer curiosidade, e todos pareciam voltar para suas próprias vidas.

A mulher ao lado de Camila se moveu com agilidade, suas mãos logo apanhando conchas e colocando na bandeja os alimentos que a bruxa indicava. Apesar da confiança que tentava demonstrar, suas mãos ainda estavam trêmulas, e ela observava nervosamente o pai e o outro homem de tempos em tempos. Camila não saberia dizer se era por medo do suposto coração frágil do pai ou medo do suposto perigo que Mark poderia representar.

- Não sei se você viu, mas sabe de algum tiroteio no centro da cidade ontem? – ela perguntou, e a Auror sentiu o estômago embrulhar, perdendo sua curiosidade em relação ao nervosismo da outra em questão de segundos. Assentiu em silêncio, mais por não saber o que dizer do que qualquer outra coisa. – Então, de início, todos nós achamos que a vítima tinha sido você. – murmurou com certo drama diante de sua explicação. – Mas é claro que não poderia ter sido você, certo? Quero dizer, você está aqui, e os jornais anunciaram pela manhã que a moça morreu na mesa de cirurgia. – ela disse solene, e Camila sentiu o nervosismo aliviar um pouco de seu corpo. Por um segundo, achara que a mulher questionar-lhe-ia sobre o dia anterior, como se soubesse que ela era, de fato, a pessoa que recebera um dos tiros. – Erro médico, aposto. Foi o que os jornalistas também acharam. – contou.

Morta? Fora assim que Richard resolvera o problema? Ela se lembrava de escutá-lo reclamar de suas atitudes no dia anterior, e o esforço que tivera para desviar a atenção de toda a mídia trouxa, sem contar com as trocas necessárias de jurisdição na investigação que ainda precisariam ser feitas entre bruxos e trouxas e o uso de Obliviadores do Ministério para pessoas que estiveram próximas o suficiente para saber que ela não teria morrido por àquele tiro.

Ele não dera detalhes do que decidira informar à midía trouxa, no dia, ela pensou, mas agora...

Ele devia estar em um humor dos infernos, para optar logo pela minha morte para afastar os curiosos de toda a situação. Qual a melhor maneira de se livrar da raiva por colocá-lo em tanto problema? Mate-me de uma vez.

E erro médico? É, claro. A melhor desculpa para os que me viram em pé tentando salvar Marcela. Diga-lhe que erraram ao tirar a bala do meu ombro, apague a memória de quem me viu de perto, e tudo certo. Lembrou-se de Dona Maria, a dona da relojoaria, e se sentiu ligeiramente culpada. Obviamente sua memória também fora perdida pelo feitiço.

Pelo menos, assegurou-se, ela não precisará lembrar de todo o susto que passou.

- Quero um pouco de batatas também. – Camila murmurou tolamente, incapaz de dizer algo sobre o assunto, apontando para as batatas douradas.

- É claro, é claro. – ela disse, colocando mais do que a bruxa conseguiria consumir. – A questão é, no momento, todos nós pensamos que você tinha morrido... O tiro, pela televisão, mostrava como se você tinha sido atingida logo no peito.

Como alguém conseguiria confundir um ombro com peito? A bruxa ergueu uma sobrancelha, e diante de seu olhar a outra se explicou:

- A imagem estava péssima, era como se a pessoa atingida tivesse morrido na hora. – elas passaram pela lasanha, e antes que a bruxa pudesse indicar-lhe o desejo pelo o alimento, a mulher pegara um pedaço grande o suficiente para alimentar um homem com o estômago do tamanho do mundo, como Richard. Ela parecia mais interessada em fofocar-lhe as novidades do que realmente fazer seu trabalho. – A questão é, todo mundo ficou curioso quando a reportagem passou... E quando o vídeo mostrou a moça sendo atingida, aquele homem ali surtou.

Não era preciso especificar de quem ela falava.

Foi assim que ele soube, então? Camila lançou um breve olhar para o homem do outro lado, que agora conversava em voz baixa com o velho. O dono da padaria agora parecia mais calmo, as rugas de expressão não tão mais acentuadas pela raiva que sentira anteriormente. Uma reportagem enquanto ele comia qualquer coisa por aqui?

Richard não acreditará quando ouvir isso, pensou, um leve entretenimento surgindo em seu interior. Deus permita que seja eu a responsável por lhe informar disto.

- Ele gritava perguntas, estava desesperado. Ficou perdido no meio da padaria por alguns segundos antes de sair correndo como louco. Ah, sacudiu meu pai também exigindo o local do acidente. – acrescentou, olhando a Auror de soslaio em busca de alguma reação. Frustrada por não obter alguma além da mulher o estudando em silêncio, continuou: - Ele deve ter tentado seu celular milhares de vezes, não? Como ele descobriu que não era você?

- Uh? – Camila balançou a cabeça, tornando sua atenção para a mulher. Olhou então para sua bandeja de comida, e surpreendeu-se com a quantidade de comida. Nem Richard conseguiria comer tudo aquilo em menos que uma semana inteira! – Eu... Eu estava em reunião. Meu celular estava desligado. – explicou, a mentira escapando de seus lábios com facilidade conforme a atenção voltava-se verdadeiramente para à pergunta. – Ele contatou alguns familiares meus, e eles entraram em contato com a empresa que trabalho. Logo foi fácil descobrir que não era eu, e que foi tudo um mal entendido.

A mulher assentiu, parecendo satisfeita então com sua resposta.

- Meu pai ficou furioso quando ele saiu correndo daquela maneira, mas foi apenas porque o homem não pagou pela comida. –comentou, girando os olhos perante o comportamento do parente. Camila pareceu não escutá-la, distraída demais diante de tanta comida. Sentia-se constrangida de avisar a mulher que ela não queria tudo aquilo, que poderia se servir sozinha, ainda mais de toda aquela comoção assim que chegara.

- Hn. – murmurou, a atenção grudada na balança agora próxima às duas mulheres. Deus, ela não queria nem imaginar o quanto pagaria por tudo aquilo...

- Eu achei uma graça, se quer saber. – a filha disse em tom confidente, encarando o homem que conversava com o tio do outro lado da padaria. Suas expressões suavizaram, e ela pareceu perdida em seus pensamentos antes de continuar: – Ele mal percebeu se era você ou não, e já estava desesperado, era como se tivesse perdido o chão. Deve ser muito bom isso... Ser amada desse jeito. Há tempos não vejo meu marido ter uma atitude tão comprometida comigo.

- Ah... O quê? – Camila despertou de sua pequena indecisão sobre alimentos diante daquelas palavras, os olhos arregalados para o que ouvira. Encarou a mulher, que tinha um ar ligeiramente amargo diante de seu último comentário, e então olhou para Mark, que decidira encará-la justo naquele momento. Ele ergueu as sobrancelhas de maneira quase cômica diante do ar estupefato da mulher, mas logo tornou sua atenção para o dono do estabelecimento, atento às palavras do mais velho. Eles agora conversavam com tanta facilidade que era como se o homem jamais o tivesse acusado de nada. Entre os dois, sobre o balcão, a Auror visualizou uma carteira escura, largada displicente.

- Não seja tímida. – ela a cutucou, inutilmente tentando abafar sua risada. – Vocês já estão juntos há quanto tempo? Eu achava que você tinha um caso com aquele loiro que sempre almoça com você, mas parece que estava enganada, huh? – riu, pesando a bandeja na balança. Camila torceu as feições diante do preço sugerido pelo marcador. – Vocês formam um casal muito bonito.

Casal? Juntos? A Auror balançou a cabeça em negativa, sentindo-se em súbito pânico, mas incapaz de verbalizar sua versão. Queria corrigi-la, dizer que estava em um relacionamento com outro homem – estava, mesmo? – mas as súbitas imagens que sua mente pregara a deixaram desnorteada e com uma sensação de sufoco.

Deus, não! Um relacionamento com Mark seria tudo o que ela jamais -.

- Você vai comer tudo isso? – uma voz soou às suas costas, sobressaltando-a pelo reconhecimento da mesma. Com os olhos arregalados, voltou sua atenção para Mark, que agora se encontrava ao lado do velho e a sua frente, a sobrancelha erguida diante da bandeja gigantesca e cheia de alimento.

- É para sua irmã. – ela respondeu com a velocidade de uma bala, o sangue subindo às feições em velocidade maldita. Embaraçada, envergonhada e assustada, percebeu-se incapaz de encará-lo nos olhos, não depois da sugestão da filha do padeiro, não depois da súbita sensação de asfixia ao pensar neles juntos. Como um casal.

- Minha irmã? – ele perguntou em descrédito.

- Bem, pensei no marido dela, também. – defendeu-se, cruzando os braços e franzindo o cenho. Sentiu-se tola e confusa, e aquilo começava a irritá-la. Isso e o fato de que agora ele a estudava com certo ar zombeteiro, o mesmo que vira em suas expressões quando seu estômago roncara no meio do corredor do Departamento.

- É mesmo? – Mark quis saber, olhando dela para a mulher que guardava a bandeja devidamente fechada em uma sacola de plástico. – Tem certeza que você não pensou no resto dos meus familiares, também?

- Cale a boca, Mark. – Camila murmurou com um bico, sentindo-se o ser mais patético de todos. – Vá pagar a sua comida sem cometer algum tipo de agressão a idosos enquanto eu escolho meu almoço.

Se aquilo fora uma tentativa de cutucá-lo, tudo o que ela conseguira fora arrancar uma risada dele.

Prefiro você quando estava sobrecarregado de trabalho, ela pensou de repente, irritada e envergonhada. Você não tinha tempo para piadinhas.


- Um bom homem, o senhor Vitor. – Mark comentou com leveza, a sacola com a pesada bandeja de comida balançando ao seu lado enquanto Camila o acompanhava em humilhado silêncio.

- Principalmente quando você paga por sua comida. – ela resmungou, o rosto contorcido em uma careta desgostosa.

- Isso é um péssimo julgamento da sua parte. – ele disse, ignorando o humor da bruxa. – Ele poderia me processar de acordo com as leis trouxas de seu país ou... Alguma coisa do tipo. – deu de ombros, e a Auror o encarou em descrédito.

- Claro, ele o processaria por você não ter pagado um cheesburguer, Mark. Isso com certeza iria até para júri popular.

- Bom, eu realmente o agredi, considerando... – ele se calou, observando-a de soslaio, e franziu o cenho. – Qual é o problema? Você está toda abalada assim por causa do susto da gritaria?

- Eu não estou abalada. – defendeu-se, empertigando-se de súbito. – Eu só estou com a cabeça cheia. É isso.

- Hn. – murmurou simplesmente, sabendo que ela logo falaria se o silêncio os engolfasse; enquanto ele ficaria confortável em não conversar, qualquer incômodo que Camila estivesse sentindo multiplicaria por dez, e logo ela não aguentaria a pressão e contaria o que fosse que estivesse a irritando. Descobrira esse detalhe em uma conversa que tinham no período em que ele estivera preso – algum assunto sem importância sobre a infância de ambos, alguma vergonha que ela passara em determinado momento, e sentiu-se constrangida demais para contar, pelo menos enquanto ele a pressionasse no assunto.

Dois minutos depois de ignorar a questão, ela expôs a dita vergonha em voz rápida e firme, como quem desejava findar logo com aquilo.

Eles pararam mais uma vez no semáforo, observando os carros passarem em alta velocidade. Surpreendera-se uma vez quando Nathan reclamara após uma das audiências sobre Camila ser uma pessoa fechada – um cara que tinha a ele como melhor amigo, vale ressaltar. Na ocasião, ainda não tinha sido encarcerado, e hospedava-se no mesmo Hotel que a Auror viria a viver durante os meses que Brosseau os pressionara até os ossos. Jantavam pizza e cerveja, com Swan os acompanhando.

- Ela é tão fechada quanto nós. – Swan dissera. – Cada tensão que passamos como Aurores nos transforma nesses pequenos problemas que somos hoje, não?

Mark discordava. Camila não era fechada – ela apenas funcionava em um passo determinado por ela, e ninguém mais. As outras pessoas eram apenas impacientes o suficiente para não perceber tal detalhe. Reservada, sim, mas não um baú quando próxima de pessoas que tinham sua confiança.

Por um segundo, questionou-se absorto se Michael Stuart a conhecia daquela maneira. Em todo aquele tempo que estavam juntos, ele sabia como se fazer presente ou a considerava, como todos os outros, alguém difícil e fechada demais para revelar seus segredos? Vira muito pouco do relacionamento dos dois durante o período do Conselho...

Ele sabia que algo a incomodava, algo que a filha do padeiro dissera. O acontecimento, embora não planejado, fora ideal para que ela se distraísse de seus mundos por algum momento, o suficiente para que suas tentativas de fazê-lo falar sobre sua família – e o que escondia deles, Mark sabia – se esvaíssem de sua mente.

Mark era grato por àquilo, por pior que pudesse parecer. Ele seria capaz de desviar o assunto ou não revelar nada para qualquer outra pessoa, mas Camila... - era diferente, simplesmente. Depois de tudo, depois de ajuda que ela concedera mesmo quando o tinha sob o pior ponto de vista possível, depois de todas as conversas e risadas que compartilharam, ele seria incapaz de negar informação. Fora por esconder e mentir que toda a raiva começara, afinal.

- A filha dele achou que nós éramos um casal. – Camila disse de repente, sua voz baixa e emburrada abafada pelo barulho dos carros. Apesar do tom e do barulho ao redor, Mark foi capaz de escutá-la, e encarou surpreso.

Era por aquilo que ela estava tão atormentada?

- É uma conclusão plausível com um ponto de vista como o dela. – ele comentou com tranquilidade, dando de ombros. – Eu não estava exatamente controlado quando a vi pela tevê.

- Não é plausível. – ela teimou, franzindo o cenho. – Nós não parecemos um casal!

- Exceto quando brigamos.

A resposta entediada a surpreendeu. Ela o encarou abertamente, e riu ao perceber o pouco de sarcasmo mal escondido em suas expressões.

- É sério, Camila. - Mark disse, seu sorriso levado pelo som da risada da Auror. Atravessaram a rua e logo passaram por um velho prédio de Bingo barrado pelo governo, o muro de concreto erguido pelos fiscais separando o mundo trouxa do bruxo. – Eles não nos conhecem, não me importa o que pensem. – não se aguentando, ao observá-la mais relaxada ao seu lado, alfinetou: - Mas é claro que teremos que deixar este nosso caso às escuras, já que seu namorado oficial é um Auror, e o que seria de mim, um pobre civil, se um Auror descobrisse que estou -.

- Ora, vá para o inferno! – Camila retrucou, fechando o cenho. – E foi por causa do pensamento similar de Michael que você perdeu o emprego, em primeiro lugar!

- Ah, não vamos voltar para este assunto. – ele reclamou entediado. – Já disse que não importa -.

- Mark!

Ambos tornaram suas atenções para a dona da voz; inconscientes do quanto já haviam andado, surpreenderam-se por se encontraram tão próximos à entrada do Departamento de Aurores, com bruxos caminhando atarefados aos seus lados. A irmã acenou uma vez, tímida embora sua voz tenha soado clara e alta, enquanto Zachary Harleigh apenas o mediu com o olhar, antes de desviar a atenção para algo que pudesse parecer mais interessante.

- Bom, preciso ir. – Camila avisou, automaticamente em sua posição de Auror, lembrando-se das tarefas que ainda precisavam ser vistas. Sentindo o peso de sua própria sacola de comida, registrou com tristeza o fato de que provavelmente sentiria o gosto de uma lasanha fria àquele dia, entre tantas coisas que ainda precisavam ser feitas. – Acredito que você e sua irmã voltam para os Estados Unidos em breve?

- Ela talvez volte amanhã cedo. – ele comentou levemente, ainda analisando a irmã daquela distância. – Talvez eu ainda fique mais um dia ou dois, quem sabe.

- Ah, bem. – empertigando-se, ela deu um passo para se distanciar dele, pronta para retornar a sua vida, incerta de quando se veriam novamente. – Faça uma boa viagem, então, caso não o veja até -.

- Camila.

O súbito tom sério a calou e a distraiu de seus pensamentos sobre o que ainda precisava ser feito. Erguendo o rosto, encarou-o nos olhos, e percebeu que o tom leve que possuíam até então havia se dissipado com a velocidade de um raio. Ele lançou um olhar nervoso para a irmã, e então para a bruxa e, ao fazer um sinal para que Evelyn Harleigh o esperasse, aproximou-se novamente de Camila.

- Uma vez você perguntou o quão perto eu observava meus subordinados. – ele disse em voz baixa, suas palavras a aturdindo mais do que suas expressões revelaram– Talvez essa seja minha vez de perguntar o mesmo sobre você e o departamento.

- O que você quer dizer com -.

Ele se aproximou mais um pouco, e a súbita asfixia que a engolfara na padaria parecera retornar, mas tudo congelara assim que a mão livre dele buscara pela dela, encontrando-a sem reservas. Ao fundo, sabia que Zachary e Evelyn Harleigh os encaravam, mas a súbita noção da proximidade de Mark deixara-a aturdida o suficiente para que muito ao seu arredor fosse desprezado – um erro crasso por parte de um Auror, mas ela não conseguia evitar.

A mão de Mark entrelaçou-se na dela, e logo a Auror sentiu a costumeira frieza dar espaço para o conforto e o calor daquela mão maior. Empertigando-se pelo contato, pela sensação e, principalmente, pela queimação que sentia crescer em seu pescoço e rosto, Camila tentou se afastar, mas ele não permitiu.

- Você tinha descoberto o que Erick gostava de fazer nas horas vagas. – murmurou, a seriedade de seu rosto contrastando com o pasmo que marcava as expressões da bruxa. – Você descobriu algo sobre alguém do meu departamento, e depois questionou sobre minha confiança nos Aurores que trabalhavam ali. É minha vez de questionar sua confiança nas pessoas que trabalham para você.

Ela franziu o cenho.

- Você sabe a dificuldade que é para entrar no DICAT. – Camila respondeu, não registrando o fato de que sua voz saíra tão baixa quanto à dele. – Você sabe o número de testes que passamos para conseguir a confiança -.

- Isso não torna o sistema infalível. Meu irmão foi uma prova disso, nós vimos isso. – Mark a interrompeu, balançando a cabeça. – Então, o que me diz?

- O que diabo é tudo isso, Mark? – a bruxa quis saber, a confusão e a surpresa agora se diluindo em irritação. Sentia-se trilhando por caminhos incertos demais, e ela não gostava da sensação de insegurança que agora a assolava.

Camila estava pronta para exigir suas respostas mais uma vez, cutucá-lo, esconder a inquietação que ele inspirara por trás de uma máscara de dureza e obstinação, mas antes que pudesse falar o ex-diretor simplesmente soltou sua mão, afastando-se de súbito.

- Isso é um aviso: mantenha seus olhos abertos. Você sabe onde me encontrar depois que pensar a respeito em quem merece ou não sua confiança. – ele deu às costas para a Auror após dizer com vagar, como se pesasse cada palavra dita. Por um segundo, porém, voltou-se, e a Auror vislumbrou preocupação em seus olhos quando ele disse baixinho: - Tome cuidado, Mila.

Deixando-a ali, Mark seguiu até onde o casal se encontrava. Cumprimentou a irmã com um beijo carinhoso no topo da cabeça loura e um afago gentil em seus cabelos, antes de entregar a sacola com a comida. O olhar dirigido para o cunhado, em seguida, foi breve, mas Camila fora incapaz de perceber qualquer coisa além daquilo por causa da distância.

Logo o bruxo parecia incitá-los a caminhar, a saírem daquele mundo, ou assim a Auror imaginava. O casal Harleigh passou pelo portal que separava o Mundo Bruxo do Trouxa sem olhar para trás; Mark, no entanto, encarou-a brevemente antes de desaparecer por entre a ilusão de concreto.

Camila continuou com a atenção voltada para onde o bruxo estivera segundo atrás, mesmo depois de seu desaparecimento. O cheiro de seu almoço subia até seus sentidos em um agradável lembrete, mas agora seu estômago parecia comprimido demais para pensar em comida.

As imagens dos breves segundos que passaram juntos, as palavras rápidas trocadas entre eles dançaram em sua mente uma vez, depois outra, e a Auror franziu levemente o cenho. Fechando a mão que ele segurara há poucos minutos, sentiu a inquietação alastrar-se por seu corpo como veneno conforme a pele sentia o objeto frio entre seus dedos.

"É minha vez de questionar sua confiança nas pessoas que trabalham para você."

Com os lábios formando uma fina linha, a mulher abaixou o rosto e abriu a mão, encarando o pequeno frasco que o ex-diretor entregara. O conteúdo prateado, sem estado definido entre líquido e gás, movia-se com leveza, uma chacota silenciosa à perturbação que apenas crescia em Camila.


Helena inspirou fundo, repousando a fronte contra o vidro gelado de sua escrivaninha. Grande parte de seu dia resumira a se comportar de modo profissional e ser o mais gentil possível com uma mulher que provavelmente não escutara metade do que dissera desde que vira a filha, seu corpo adolescente cinza e sem vida. Depois, quando a mulher começara a soluçar e beijar o topo da cabeça gelado de sua filha, a legista não conseguiu fazer nada além de desviar o olhar em vergonha, sentindo-se incapaz de ajudá-la.

A dor daquela mãe fora tão grande...

Nós deveríamos sentir pena de nós mesmos, não dos mortos, ela pensou por um segundo, lembrando-se do casal Harleigh em seu trágico reencontro com a filha. Claire está livre. Ela não sente mais dor nem sofre mais.

São os vivos que sofrem, decidiu, inspirando fundo mais uma vez, lembrando-se da briga travada entre o pai da menina e o tio.

Helena achara horrível Zachary Harleigh dizer acusações como àquela em um momento onde a família deveria estar mais unida do que nunca, mas quem era ela para falar qualquer coisa? Ela não os conhecia, não conhecia suas vidas. Conhecera Claire apenas através dos segredos horrorosos por trás de sua morte precoce, seu corpo revelando os traumas que passara nas mãos de outras pessoas – outros homens. Havia muito pouco nos relatórios que dissessem com profundidade de seus momentos felizes em vida... Apenas que fora saudável até certo período, que fora uma criança bem cuidada, de modo impecável, quase.

Helena observou o breve olhar cheio de dor que Zachary Harleigh lançou ao corpo da filha antes de beijar o topo da cabeça de sua esposa e abraçá-la com força, engolfando-a em um abraço protetor. Ali, naquela situação, era difícil vê-lo com qualquer tipo de julgamento – ele não parecia o homem que culpara o cunhado minuto atrás, cheio de rancor.

Não, ela não poderia imaginar o melhor ou o pior daquelas pessoas. Cada um tem uma reação diferente a tragédias.

- Lidar com os mortos é tão mais fácil...

Obviamente Mila discordaria disso, pensou de repente, e ergueu o rosto de sua escrivaninha para encarar a fotografia que sempre gostava de admirar, um momento de alegria compartilhado entre as quatro irmãs que ficara perdido no tempo, entre tantos compromissos, tantas responsabilidades conforme cresciam. Cada uma delas mantinha uma foto daquelas em seus escritórios, e Helena apenas observou a risonha Camila por alguns segundos. A caçula mal tinha quinze anos na época, aproveitando o máximo de sua adolescência em uma viagem com as irmãs, um presente de seus pais pela entrada de Helena no curso de Medicina.

Você encarava Harleigh como se ele tivesse ofendido você.

A menina da foto trouxa apenas continuou ali, exibindo sua risada para quem quisesse ver, seus cabelos longos úmidos por um banho de mar, deixando a legista perdida em seus próprios pensamentos. Ali, ela ainda ria e conversava de maneira quase tão escandalosa quanto Karen, aberta e receptiva para novas amizades, novos conhecidos. Ali, ainda não se existiam segredos, nem olhares reservados, algo que mudaria em tão pouco tempo...

O quanto Camila conhecia sobre aquele homem, Mark Rutherford, afinal? Helena nunca a ouvira falar sobre ele até que seu nome saísse nos jornais, considerado culpado por ser cúmplice de inúmeros assassinatos cometidos pelo irmão, até que sua irmã deixasse o Departamento nas mãos de Richard e fosse para o Canadá dedicar todo seu tempo para livrá-lo daquelas acusações.

Há quanto tempo vocês se conhecem?

- Ei, Helena. – a porta de seu pequeno escritório abriu de maneira abrupta, e a legista sobressaltou, seus olhos arregalados sobre a figura cansada de Antônio Carlos. Ele percebeu, e pareceu sem graça ao continuar: -...Huh, eu interrompi alguma coisa?

- Não, não. – ela rapidamente o acalmou, balançando a cabeça de modo frenético, buscando toda linguagem corporal possível para enfatizar suas palavras. – Eu só estava... Aconteceu alguma coisa?

O Auror passou a mão pelo pescoço, parecendo agitado.

- Não realmente... Estava pensando, você sabe onde sua irmã está? Preciso sair por alguns instantes, por ter encontrado algumas coisas na mochila da menina, e queria conversar com ela sobre isso.

Helena piscou, estudando-o. A última vez que vira sua irmã, ela estava segurando a porta, seus olhos acusadores sobre a figura alta de Zachary Harleigh.

"Eu sei que eles foram mortos por causa das suas escolhas, não por um acidente."

Balançou a cabeça.

- Ela disse que precisava buscar algo no escritório, mas não sei se ela realmente chegou a fazê-lo. – disse a última frase em voz baixa, mais para si do que para o bruxo. – Por que você não tenta Richard?

- Ele ainda está em reunião com o pessoal do Ministério. – Antônio Carlos respondeu, e depois pareceu hesitante alguns segundos, antes de continuar: - Ele sequer sabe que estamos aqui, também. Hoje deveria ser meu dia de folga e Camila, bem... Você sabe.

É claro que ela sabia. Ela presenciara toda a revolta de Richard para com a caçula na noite anterior. Surpreendera-se quando a irmã surgiu do outro lado da janela, com algumas feições ainda sob o efeito de um provável Polissuco, acompanhada de um corpo e alguns peritos, distribuindo ordens como se o dia anterior não passasse de um sonho, um delírio. Por mais teimosa que Camila fosse, Helena não imaginara que a bruxa fosse desobedecer a uma ordem – não enquanto o subdiretor parecesse tão assustador e raivoso, pelo menos.

- Bem, eu não a vi. – a legista deu de ombros. – Mas não acho que ela sairia sozinha sem avisar ninguém depois de ontem.

Antônio Carlos praguejou, inspirando fundo em seguida.

- Ah, aos diabos com isso, então. Diga a ela que encontrei algo importante, e vou até o Mundo Trouxa resolver alguns problemas.

Continua


NOTAS: Minha Nossa! VINTE E CINCO PÁGINAS! Acho que não fazia um capítulo com esse tamanho desde os tempos da Na Sombra do Inimigo, ou em uma época próxima à NC HG na Ninguém Como Você (E nem ela na época chegou a essa marca). Mas infelizmente (ou felizmente para quem gosta de tanta coisa), era necessário. Para vocês terem uma ideia, eu ainda tive que dividir o capítulo em dois (o capítulo dezesseis inteiro era inicialmente parte do capítulo quinze, e não teria nem lembrança, porque o capítulo seria um "divisor de águas" para a história).

Bom, agora vamos considerar que são dois capítulos "divisores de águas", então.

Alguns podem achar um pouco inútil toda a interação entre o Mark e a Camila, do tipo "tirasse essa parte da padaria e colocasse o que precisava ser feito!", e eu tentei - sério, eu tentei, por mais que cedo ou tarde precise e vá falar sobre o verdadeiro lance entre os dois - mas no final era necessário. Parte porque tem muito do pensamento de Mark sobre a Camila e sobre como ele a considera, como ele pensa sobre os dois (um pouco) depois de todo o lance do Conselho, parte porque não tinha encaixe melhor. E também é bom, porque em quinze capítulos eles não tiveram uma participação juntas digna.

(E ele achando que ela deixará o assunto "você...?" de lado por muito tempo? Ele que vá achando)

E preparem-se para o dezesseis, que seria o quinze: o quinze atual foi apenas um prenúncio, a preparação de campo para o inferno de descobertas que será o dezesseis em diante.

próximo capítulo: descobrimentos, desconfianças e decisões para Camila, que terá um pequeno surto dentro de sua própria diretoria.

Agradecimentos às reviews! É difícil alguém ler/gostar de uma história com OCs, mesmo ela sendo uma sequência e contendo informações importantes para a outra parte da trilogia, então fico muito feliz quando vocês aparecem dizendo o que estão achando da história como um todo. Muito obrigada! :)

Tammie.