Capítulo Dezesseis.

Suas noites de sono talvez jamais fossem livres de pesadelos novamente.

Era com esse pensamento que Camila se erguia da cama, o suor frio escorrendo pelo meio de suas costas, as feições desprovidas de rubor. Lá fora, a chuva açoitava a janela da sacada do quarto de hotel, o murmúrio do vento deixando a Auror imaginar o frio que estaria longe do aquecedor do cômodo.

A dor de seus machucados ainda pareciam reais -.

Caminhou em silêncio até a sacada, fechando as cortinas enquanto um raio cortava os céus, iluminando todo o aposento. A claridade da rua não a incomodara ao se deitar, mas a necessidade de se mexer, de não se prender aos próprios pensamentos falava mais alto, e agora ela queria fazer alguma coisa, qualquer coisa para não dar voz a si mesma.

Ligou a televisão, acendeu as luzes, decidiu por um banho quente e relaxante. Saiu do banheiro sem olhar para a própria imagem refletida no espelho embaçado, seu olhar não registrando o cabelo cortado na altura do queixo, algo recente. Vestiu um roupão macio e branco assim que o vapor do ambiente e o calor da água não lhe traziam mais agrado, mas liberava sua imaginação para momentos que poderiam ser esquecidos, apagados de sua memória, se pudessem, e ligou para o serviço de quarto pedindo por qualquer besteira gordurosa que estivesse disponível ao sentir o estômago comprimir em fome. Se não fosse por Robert Swan e seus comentários desnecessários nos intervalos das audiências, Camila jamais saberia que os serviços do hotel eram vinte e quatro horas.

E provavelmente agora dormiria com a barriga vazia.

Ela nunca tivera isso até então. O único hotel trouxa que utilizara os serviços, por dois anos, não tinha nada além do frigobar em seu quarto.

Impaciente, recordando-se do pequeno aposento e das noites acordadas que passara ali, foi até à porta receber seu pedido e abriu um pequeno sorriso de agradecimento para o empregado do hotel. O sorriso fora forçado, algo que o doutor Schimidt tentava trabalhar com ela desde que pisara em seu consultório há dois meses, mas o jovem de cabelos espetados pareceu não perceber, ou se importar.

Camila fechou a porta inspecionando a refeição, relaxando sob o pequeno murmúrio do programa de televisão. Sentou-se na cama com o prato em seu colo e aprovou com um pequeno suspiro ao observar os camarões empanados e batatas fritas. Distraiu-se logo com o programa, um enlatado americano de comédia e entrevistas, e escapou de suas inquietações por um tempo.

Não demorou para que se entediasse com o programa. Ao terminar sua refeição nada saudável, a bruxa se enfiou em suas cobertas mais uma vez e começou a trocar de canal distraidamente, os olhos tediosos sempre que encontrava mais uma besteira. Não sentia sono, apesar do cansaço, e ao perceber que provavelmente não encontraria nada que chamasse sua atenção, considerou a hipótese de comprar um filme.

A lista do hotel informava alguns clássicos, filmes que a Auror vira com suas irmãs e que lhe traziam boas memórias, dias de risada e despreocupação, e ela cogitou a chance por alguns segundos. Por fim, desistiu, e sua atenção voltou para a televisão mais uma vez, percebendo então o programa em que deixara antes de voltar sua atenção para o panfleto com filmes.

O homem que sorriu para seu par romântico na televisão lembrou-a imediatamente de Mathias Perez.

Arregalando os olhos, sentindo o corpo gelar por debaixo dos cobertores, Camila saltou da cama e desligou o programa, a imagem do ator misturando-se ao monstro que, mesmo longe e preso, ainda era capaz de aterrorizá-la e persegui-la. Trêmula, agarrou o travesseiro de sua cama e o abraçou, uma tentativa tola de recuperar a pequena paz que sentira minutos atrás. Escondendo o rosto no tecido macio, fechou os olhos com força e tentou pensar em qualquer coisa que não fosse Perez, sem muito sucesso.

Sentiu os olhos arderem, mas não chorou. Há algumas semanas não conseguia mais chorar a respeito de tudo o que acontecera, como se estivesse enfim seca. Ficou apenas ali, escondida em seu travesseiro com as luzes acesas, sua mente ingrata repassando e revivendo momentos, revivendo o olhar enlouquecido de Perez enquanto a humilhava e a submetia às suas torturas, o prazer que homem sentia ao vê-la sangrar e implorar por sua morte -.

Estava perdida, sentia-se alheia aos acontecimentos ao seu arredor. As audiências aconteciam, o doutor Schimdt conversava com ela, assim como Swan, e ela simplesmente se sentia passar por esses momentos. Às vezes era fácil fingir atenção e se mostrar pronta para a vida, mas, em outros dias, ela não conseguia esconder o fato de querer se esconder e fugir de todos.

Quem iria lhe garantir que não existia outro homem, outro ser humano como Perez por trás de todos aqueles olhares que aparentavam altruísmo? Qualquer pessoa era capaz de se esconder atrás da fachada de um bom samaritano.


"É minha vez de questionar sua confiança"

- Merda. – Camila murmurou entre os dentes, o maxilar tenso enquanto caminhava por entre bruxos e bruxas dentro do Departamento brasileiro. Com a mão direita dentro do bolso da jaqueta, segurava com força o frasco entregue pelo ex-diretor, seu corpo se enchendo de tensão a cada passo, a cada feição que estudava.

Confiança.

Não há motivos para ficar tão paranoica, pensou, franzindo o cenho enquanto seu caminho até o próprio escritório se tornava mais e mais doloroso por conta da demora. Apesar do cheiro bom que a comida exalava e dos olhares famintos que arrancava de alguns Aurores enquanto passava, ela não conseguia mais pensar em almoço; tudo o que via era Mark e seus questionamentos sobre confiança.

Não é como se brotassem pessoas como Erick no Departamento, tentou se assegurar, sem sucesso.

Mas ele tem um ponto ao dizer que o sistema é falho, o fundo de sua mente sussurrou, um lembrete cruel que fez com que a Auror se sentisse arrepiada. Vi com meus próprios olhos o sistema falhar.

Eu provei a Mark as falhas usando o próprio irmão como exemplo.

- Merda! – repetiu, torcendo as feições em uma careta enquanto abria a porta de sua sala com força. Queria se livrar daquela sacola de comida logo e mergulhar na lembrança que o homem disponibilizara, queria se livrar logo daquela sensação horrível o mais rápido possível.

Queria -.

- Ah, aí está você! – Eduardo Correia exclamou, distraindo-a de seus pensamentos e a assustando. Com olhos arregalados, ela fitou o sorridente secretário-geral, as bochechas redondas ainda mais proeminentes, incapaz de qualquer outra reação a não ser encará-lo. – Cooper disse que você não viria hoje, mas então Miguel comentou durante o almoço que você estava por aqui...

- O que aconteceu? – ela perguntou de maneira mecânica, sentindo-se retrair diante daquele homem. Eduardo sempre lhe parecera uma pessoa muito boa, apesar de sua implicância com Richard. Competente, gentil e educado, o homem de meia-idade ocupava aquele cargo mesmo quando Ferreira ainda era vivo, ajudando-o da mesma forma que hoje ela a auxiliava.

Ela nunca o tinha visto com um olhar além de gratidão tamanha sua eficácia, até então. Contudo, a ansiedade em seu íntimo, a desconfiança que assumia níveis extraordinários e o questionamento de Mark, a nota sutil de que algo estava errado a fazia encarar o homem mais velho com outros olhos; olhos de uma pessoa que se afundava em seus próprios medos mais uma vez, questionamentos adormecidos que a consumiram por anos a fio até àquele momento.

Confiança?

- Chegaram algumas resoluções que precisam de sua assinatura. – ele disse, seu tom agora todo profissional enquanto aproximava-se dela, que não movera um músculo desde que ele a distraíra. – Isso, e o fato de que o diretor do Departamento do México finalmente enviou o convite formal para o encontro de diretores desse ano. Você tem mais ou menos um mês para confirmar sua ida.

Camila balançou a cabeça, aturdida.

- Não acho que estamos em momento de qualquer pessoa sair e deixar tanto trabalho para trás -.

- Sim, eu concordo. – Eduardo concedeu. – Mas, por outro lado, isso a ajudaria com relação ao bom relacionamento com os outros diretores da América Latina – e você sabe como isso é importante, ainda mais depois de todo aquele fiasco na reunião. Sem contar que é sua chance de conhecer o novo diretor da França... Você sabe, depois que o anterior cometeu suicídio.

Sua voz diminuíra diante da notícia que abalara os Aurores quatro meses atrás – todos se sentiam envergonhados e condolentes diante da partida forçada de um homem que sempre parecera tão forte, tão confiante. Os homens mais fiéis dele até tentaram seguir uma investigação, provar que não, ele não se matara, mas nada fora capaz de provar seu ponto; o homem estava realmente cansado, simplesmente. Optara pelo mesmo caminho de tantos outros, o mesmo caminho que o diretor da Bulgária tomara há alguns meses.

Camila fechou os olhos, cansada. Bons modos, sorrisos gentis – diabos, ela não estava em condições de pensar em festinhas de confraternização no momento.

- É... Bem, deixe a carta sobre minha mesa, eu a vejo assim que possível. – ela dispensou, inspirando fundo enquanto largava o frasco em sua jaqueta e massageava uma das têmporas. – O que você disse que eu precisava assinar?

- Ah, sim. Você vê, há uma relação de nomes na prisão de -.

- Camila? – uma voz soou às suas costas, sobressaltando-a mais uma vez. Eduardo se calou diante da nova presença, mas parecia alheio à toda insegurança que a mulher demonstrava.

Helena, contudo, percebeu o ar inquieto da irmã, bem como a mão imediatamente sobre a varinha, como se pronta para uma batalha. Fosse a qualquer outro momento, a legista teria se assustado com a rapidez da irmã para agredir alguém – um lembrete de seu treinamento como Auror, uma recordação sempre assustadora e esquecida para Helena de que a risonha caçula estava perdida no ar analítico e no potencial que possuía para matar, assim como todos os Aurores naquele lugarmas algo nos olhos da irmã a distraíra daquele caminho de pensamentos.

A diretora, ao reconhecer Helena, inspirou fundo e tornou a guardar a varinha. A outra percebeu súbito alívio que surgiu em suas feições.

- Não surja tão quieta assim! – a mais nova ralhou, a voz dois tons mais fraca do que o necessário para o efeito de uma repreensão. – Você quase me fez-.

Ela se calou, e balançou a cabeça, enchendo a mais velha de perguntas que talvez jamais fossem respondidas. Olhou para o homem no interior do escritório, questionando-se quanto daquele incômodo que Camila sentia era causado por ele e quaisquer que fossem suas notícias, mas diante do ar inexpressivamente curioso que ele as encarava, descartou maiores opções.

- Eu disse que a avisaria sobre a autópsia, lembra? – Helena comentou com leveza, escondendo-se atrás de uma máscara de bom humor e serenidade. Não deixaria que a irmã soubesse que ela percebera algo de errado; aquilo apenas a deixaria mais agitada e fechada, e incapacitaria a legista de descobrir qualquer coisa. – Onde você estava, aliás? Antônio estava procurando por você.

- Eu... – Camila se calou, franzindo o cenho. Olhou com irritação para a sacola com comida, as expressões assumindo uma faceta amarga. - ... Deixei que o estômago falasse mais alto. – disse por fim, incapaz de acrescentar qualquer outro detalhe. – Onde Antônio está? Posso falar com ele assim que sair da sala de autópsia.

- Esqueça. – Helena a dispensou, escondendo as mãos no interior de seu jaleco. – Ele saiu há dez minutos do Departamento, mais ou menos. Disse que precisava resolver algumas coisas no Mundo Trouxa, e que voltaria em algumas horas. Algo sobre uma evidência.

Algo estava muito errado. A irmã a encarou como se...

Você está se sentindo traída? O que diabo aconteceu, Mila?

- Muito bem, então. – a Auror resolveu, entregando sua sacola de comida para Eduardo Correia enquanto inspirava fundo. – Resolvo a papelada mais tarde, Eduardo. Dê-me algumas horas e logo eu estarei em sua sala, prometo.

- Oh? Mas – er- tudo bem. – ele respondeu confuso, aceitando a sacola. – Mas o que eu devo fazer com isso?

Camila deu de ombros.

- É seu almoço. Faça o que quiser.


- Era seu dia de folga. – Isabel disse em voz baixa quando o marido surgiu na entrada do pequeno apartamento de dois dormitórios na zona sul de São Paulo com uma caixa considerável de papelão em mãos.

Antônio Carlos precisou erguer um pouco o rosto por sobre a caixa para visualizar a esposa – os cabelos curtos emoldurando seu rosto redondo, os olhos chateados e traídos. Ela já não vestia mais o pijama ou ostentava o ar sonolento que ele a deixara ao sair de casa pela manhã, e diante de seus braços cruzados e de sua acusação, tudo o que o bruxo pode fazer foi inspirar fundo e dizer em tom de desculpas:

- Amor, eu sei que combinamos de passar o dia em alguma cidadezinha do interior, mas -.

- Mas. – a esposa o imitou, e seus olhos pareceram estranhamente mais brilhantes. – Eu já deveria ter imaginado. Sempre há um mais.

Ele pousou a caixa de papelão sobre a mesa de jantar, tornando a encará-la após se livrar do peso nos braços. Sobre a caixa, uma fita de vídeo quebrada parecia estudá-lo silenciosamente, um lembrete silencioso do que precisava ainda ser feito.

- Bel. – ele disse baixinho. – Querida, você sabe como estamos no serviço.

- Você trabalha com os trouxas justamente para que coisas assim não acontecessem.

- Bel -.

Ela balançou uma das mãos, dispensando-o. Com os olhos cheios de lágrimas, deu-lhe as costas e rumou para o banheiro, fechando a porta em seguida.

Não demorou para que Antônio Carlos escutasse os soluços abafados. Suspirou.

- Droga, Camila. – o Auror xingou a chefe baixinho antes de balançar a cabeça, fechando os olhos enquanto sentia o peito apertar diante do choro contido de sua esposa do outro lado da porta. Isabel enfrentava uma confusão de emoções desde que se descobrira grávida, e Antônio Carlos sempre se sentia incapaz e culpado diante de qualquer reclamação que a mulher pudesse ter, mesmo sabendo que horas mais tarde ela apareceria para beijá-lo e se desculpar, dizendo que compreendia suas atitudes.

E pensar que ainda teria mais sete meses daquilo pela frente.

Prometera à mulher que viajaria com ela em seu dia de folga, para que um pudesse aproveitar a companhia do outro, mas graças a incapacidade de Oliveira de se manter parada no mesmo lugar -.

Lançou um olhar rancoroso para a fita de vídeo sobre a caixa de papelão, antes de passar a mão fios grossos de seu cabelo e inspirar fundo, como se resignado. Conseguira o videocassete com Dantas, alegando uma desculpa qualquer de assistir um vídeo de seu casamento antes de pedir para converter em DVD, por insistência de Isabel, mas aquilo ainda não resolvia todos os seus problemas.

O que ele faria com a droga daquela fita quebrada? O trouxa do conserto afirmara que a porcaria estava perdida por conta de tantas batidas e quedas...

Isabel soluçou do outro lado, distraindo-o. Sentiu-se culpado novamente pelo temperamento volátil da esposa, mas, oh, bem, ele teria que resolver o serviço primeiro antes de se redimir diante dela, não teria? Não era como se tivesse muita escolha.


Você teria sobrevivido.

A bruxa massageou o pescoço, incomodada com o que ainda surgia em sua mente. As imagens dos olhos escuros e assustados de Marcela, segundos antes de receber o segundo tiro, o que lhe tirara a vida, ainda a assombravam. Se ela desse muita vazão às emoções, tinha certeza que conseguiria pensar com exatidão sobre o peso que a garota fizera em seus braços, ao tombar sobre si, nada mais do que corpo, cadáver.

Um tiro, apenas, e você talvez ainda estivesse viva. Não só para ter o que nos dizer, não só para nos ajudar...

... Mas talvez poderíamos tê-la ajudado.

Toda a autópsia ao lado de Pedro a deixara atormentada. Ele explicava cada detalhe, expunha cada situação que antes era apenas dúvida em sua cabeça. A trajetória do projétil, as possibilidades de sobrevivência.

Um tiro, apenas...

O conhecido chiado do Espelho de Duas faces a assustou. Sobressaltada, deixou que a respiração escapasse dos lábios, pesada, enquanto ela retirava o pequeno objeto do cinto e saudava Antônio Carlos, dirigindo-se até sua sala em passos mais lentos.

- Helena disse que você tinha saído. – ela concedeu com a voz indiferente, enquanto um Auror de expressões aborrecidas.

- Foi, você não estava presente. – Antônio respondeu, a repreensão nada sutil em sua frase. Camila franziu torceu as feições levemente, incomodada com o fato. Depois de errar uma vez, sabia que ficaria marcada pelos mais próximos por um tempo, ainda.

Isso era extremamente desagradável.

- O que aconteceu? – perguntou ao invés de se deixar aprofundar no assunto.

- Havia uma fita de vídeo entre os pertences da garota. Fosse pela queda com a mochila ou por qualquer outro momento anterior, o objeto estava danificado. – o Auror concedeu. – Pedi o objeto para a perícia com a ideia de buscar algum videocassete, e algo do tipo.

- Sim? – ela inquiriu quando ele deixou de falar.

- Estou em uma loja indicada por um colega na Polícia, vendo se há conserto da maneira trouxa. Achei que gostaria de saber.

- Não acha que um simples reparo seria suficiente?

- Provavelmente... Ou não. Se há relação entre essa menina e Claire, onde foi morta em um ambiente trouxa com vestígios de bruxaria, pode ser que exista algo que destrua a evidência no caso de bruxaria.

Camila assentiu, subitamente frustrada.

- Certo. Mantenha-me atualizada.

- Mantenha-se onde eu possa encontrá-la. – Antônio a advertiu antes de desaparecer pelo espelho. Camila praguejou baixinho.

Ao chegar no último andar do edifício, fechou a porta de seu escritório com um suave clique. Distraída, relativamente inconsciente de suas ações, deslizou os dedos suavemente pela varinha, movimentando-a em silêncio. Escutou a mágica fazer seu efeito, trancando-a em sua própria sala, mas tal atitude não a deixou mais protegida ou menos preocupada.

Inspirando fundo, a bruxa fechou os olhos e encostou as costas contra a porta. Com as palavras de Pedro ainda presas em sua cabeça, tentou sem sucesso repreender toda a sensação horrível que tinha diante da situação. Fosse o primeiro tiro, apenas, e Marcela teria sobrevivido.

A intenção não era matá-la, era? Assassinos profissionais não desperdiçavam tempo em duas tentativas; um tiro, uma única ação sempre seria mais eficaz, sempre seria o necessário. Entretanto, Marcela recebera dos tiros, onde o primeiro não atingira com o intuito de matá-la.

Eles poderiam querê-la por ter fugido, fosse quem fosse, ou queriam o que quer que estivesse com ela.

Ou eles poderiam tentar me segurar atingindo a um inocente, por quaisquer que sejam os motivos.

Percebendo aonde seus pensamentos iam, Camila franziu o cenho, ainda com os olhos fechados.

Não se comporte desta maneira, disse a si mesma mais uma vez, inutilmente, comprimindo os lábios. Esta é mais uma investigação, mais uma situação em que tudo soa desconhecido e alienígena no início.

Mas então por que tudo parecia mais pessoal do que normalmente seria?

Foi quando percebeu que suas mãos estavam mais uma vez nos bolsos de sua jaqueta, uma delas apertando com força o conteúdo recebido há quase duas horas, um lembrete horrível no fundo de sua mente apesar das outras obrigações manterem seu foco desde que chegara ao Departamento.

Ela sabia por que se sentia tão afetada, tão agredida.

Há alguém agindo pelas minhas costas.

Desencostando-se da porta, Camila caminhou em passos endurecidos até a estante cheia de livros e outros artefatos bruxos, como um caldeirão e utensílios para poções. Abrindo uma pequena porta de vidro próxima ao chão, a Auror buscou pela Penseira que guardava com o semblante irritado pela vulnerabilidade que sentia.

Há alguém brincando comigo, usando minha confiança.

Com um baque, a bruxa bateu a Penseira com força sobre a escrivaninha, o rosto agora contorcido em impaciência. Ela retirou o frasco contendo a lembrança de sua jaqueta e observou o conteúdo por meros segundos, ponderando suas próximas ações, sua mente sussurrando desconfianças por todos os lados.

Pedro, Antônio, Richard, Eduardo, qualquer Auror presente, qualquer um com um motivo qualquer...

... Mark.

Ele questionara sobre sua confiança, plantara dúvidas em sua cabeça. Camila sabia como ele trabalhava e muitos de seus princípios, sabia como ele reagia diante do que considerava errado, diante dos monstros que combatiam diariamente. Mas ainda assim, mesmo com tudo isso e a confiança que ele ia gradualmente reconquistava, mesmo com o ardor que ele a fazia defendê-lo, ainda que de forma inconsciente -.

Ainda assim, ela não o conhecia inteiramente; ver parte de seu passado, fotografias de um rapaz sorridente e alheio às desgraças que os rodeavam, de seu tratamento para com seus parentes ressaltou tal ponto, uma noção que ela tentara ignorar ou ser mais misericordiosa em seus critérios. Ainda assim, aparências enganavam, pessoas mentiam, ludibriavam. Quem garantia que ele não estaria com motivos ocultos?

Ela retirou a rolha do frasco com ferocidade, depositando o conteúdo sobre a Penseira. O brilho prateado pareceu intensificar diante de seus olhos, e com o semblante torcido em determinação, não demorou a inclinar-se diante do conteúdo, pronta para desvendar os mistérios que a lembrança disponibilizaria.

O arredor escorreu-se em alheamento, as paredes de seu escritório desapareceram de seu campo de visão conforme feixes coloridos de luz invadiam suas pupilas, mesclando-se com a escuridão de um ambiente. Camila sentiu a sensação que já lhe era conhecida sempre que vasculhava informações em lembranças, o sentimento desagradável de que caía e não possuía poder algum sobre -.

Piscou, dando-se conta da música ensurdecedora que agora ecoava em seus ouvidos. Parada no meio de inúmeras pessoas, a bruxa colidiu com um casal, as figuras extracorpóreas passando por através dela. Observou, ainda encontrando dificuldade em se situar, o número de pessoas dançando e rindo, o som rítmico que parecia embalar a maioria dos presentes...

Afastando-se um pouco da confusão humana que parecia sufocá-la, Camila percebeu sua proximidade com o bar do local, e de uma mulher de cabelos curtos e rosto angular. Aproximando-se mais um pouco, percebeu a casualidade de sua postura, de sua mão alcançando displicentemente o copo quase vazio de alguma bebida qualquer. Ela poderia vender a imagem de uma cliente regular, fossem pelos sorrisos de conhecidos aos bartenders ou pelas pequenas conversas baratas que disponibilizava aos que tentavam chamar sua atenção, mas a forma como eventualmente olhava para os lados, ou a seriedade que os olhos pintados exalavam quebravam todo o ar blasé, na opinião da bruxa.

Não apenas isso, mas crescentemente as conversas ao seu arredor pareciam diminuir, tornando-se menos importantes aos ouvidos de Camila quanto o que aquela mulher tinha para lhe oferecer de informação. Franzindo o cenho, a Auror se posicionou ao lado da mulher, encostando-se ao balcão, sabendo o que aquelas impressões significavam.

Eis a dona da lembrança.

- Mais uma, por favor. – a mulher pediu, os dedos finos colocados levemente sobre o copo, o pequeno empurrão no mesmo acompanhado de um sorriso para o bartender, que logo a atendeu. O homem a atendeu com grande atenção, os olhos correndo por toda a figura debruçada sobre o balcão.

- Você tem aparecido por aqui com certa frequência. – ele comentou com fingida leveza, o que fez Camila girar os olhos em uma careta exasperada.

- Algumas coisas me chamaram a atenção por aqui. – ela respondeu num tom suave de voz, os olhos erguendo do copo que o bartender enchera com uma calculada suavidade. O casal se encarou por breves segundos, até que a mulher sorrisse, algo comedido e ao mesmo tempo deliberado, e levasse o líquido até os lábios.

- É mesmo? – o homem perguntou tolamente, e Camila balançou a cabeça entediada.

Pelo amor de Deus, Mark, ela pensou. Aonde diabo você quer chegar com essa porcaria de lembrança?

- Como assim, atrasou? – uma voz soou ao fundo, atraindo a atenção da Auror. Virando-se, não encontrou a fonte do som, mas, ao encarar a mulher de cabelos encaracolados, percebeu-a estudando dois homens no andar superior do estabelecimento. Franzindo o cenho, tornou a encarar a mulher, confusa.

Que magia você usou para escutá-los?

Deixou o casal onde o bartender ainda desdobrava-se em atenção, e logo focou sua atenção nos dois homens; um deles, vestindo uma camisa branca de mangas arregaçadas, estava sentado com um copo de uísque na mão, e parecia extremamente irritado. O outro, com uma camiseta vermelha e jeans, ainda com marcas de espinha no rosto, parecia bastante incomodado com a frustração do mais velho.

Passando a mão pelos cabelos em desalinho, ele desviou o olhar do outro ao responder:

- É o que estou lhe dizendo, existiram alguns problemas na fronteira. A chefia diz que sente muito -.

- Sente muito? – o outro riu, mais um esgar cruel do que realmente uma manifestação de sorriso ou alegria. – É, imagino que ele sente. Imagine só, tenho um cliente me esperando, que tem vários outros clientes loucos graças a toda a propaganda que fizemos. Tenho uma comissão gigantesca para receber com esse negócio, o suficiente para usar este estabelecimento como entretenimento pelo resto da minha vida, sem me preocupar com impostos. Tenho pessoas ansiosas e impacientes no meu pé, filho.

- E-eu sei, é por isso que -.

- Imagino que saiba, imagino que saiba. Contudo, seu chefe não parece muito ciente, não é mesmo? – antes que o rapaz pudesse responder, o mais velho o dispensou, continuando: - Vá até a secretaria e espere por lá. Há dois de meus homens o esperando.

O garoto paralisou. Precisou que o homem repetisse a ordem para que ele finalmente se movesse, acompanhado de mais dois caras igualmente vestidos de terno e gravata. Um deles moveu a mão para o ombro do mais novo, que parecia encolher mais e mais diante da estatura dos outros dois. O homem de camisa branca observou-os partir em silêncio, nada tocado pelas expressões outrora desesperadas do menino.

- Tch. – Camila o escutou resmungar antes de sorver mais um longo gole de sua bebida. – Quem foi o idiota que os contratou, afinal?

- Rodrigues. – respondeu uma nova voz, e logo a Auror visualizou um vulto pouco atrás do que fizera a pergunta. Ele parecia ser mais esguio do que estava em seu campo de visão, mas com a escuridão, seria difícil confirmar qualquer coisa. – Disse que era um bom grupo para se negociar.

- Bons, meu rabo. – o outro debochou. – Tão bons, que foram pegos por quem? Pela polícia trouxa?

- É o que parece. Continuamos escondidos dos bruxos, por enquanto.

O quê? Os olhos de Camila se arregalaram, e ela inconscientemente apoiou o corpo sobre uma das mãos, buscando sustento no balcão do bar. Sentiu o peito apertar, o estômago comprimir, o coração acelerar. Nada bom, nada bom...

- Como diabo foi que você conseguiu esse contato dentro do departamento de Aurores, mesmo?

- Um dos caras de lá fodia uma das putas do meu antigo chefe. Só decidimos cobrar uma forma de pagamento diferente.

A mão que usara para apoio agora se fechava em punho. Sentindo a garganta fechada, a mulher sentia-se incapaz de tomar qualquer decisão, tomar qualquer ação sem que se rendesse à irritação que parecia consumi-la.

- De qualquer modo, não é como se ele reclamasse. Larga a puta gorda da esposa em casa e sempre tem o direito de trepar com alguma pirralha que conseguimos para manter o silêncio e nos deixar passar em vistorias semanais. Vou te dizer uma coisa, foi uma sorte ter um homem como -.

Ele continuou falando, mas não escapava mais som de sua boca. Ao mesmo tempo, toda a barulheira ensurdecedora de outrora se diluíra, sobrando nada mais que um silêncio crescente. O ambiente parecera derreter, e tudo parecera escapar de seus olhos, como um sonho lentamente interrompido, como se a imagem deslizasse para longe de seu alcance. Camila deu um passo em direção aos homens, o punho esquerdo se fechando conforme o rosto se contorcia em irritação, em obstinação de continuar em sua mesma posição, mas toda a situação já estava além de suas decisões.

Os homens sumiram, assim como todo o ambiente, e logo a Auror sentia a mão de alguém queimando em seu ombro direito, retirando-a da lembrança. Retornou à realidade como alguém que retornava à superfície após um longo mergulho, e com a respiração ainda descompassada escapando de seus pulmões, a bruxa se virou para que seus olhos encontrassem um par castanho conhecido e cansado que a estudava com irritação.

A raiva de Michael Stuart agravou a própria.

- Que diabos, Mike? – ela disparou a pergunta, afastando-se do toque do homem com brutalidade, a mão batendo em seu braço. A voz soara alta, enfurecida.

Antes, quando estava mergulhada em seu trabalho e recebendo notificações de Eduardo sobre as chamadas incessantes de Michael, perguntando por ela, desaparecida de suas vistas desde a última vez que terminaram ambos exaustos sob o lençol do hotel em que o bruxo se hospedara, Camila temera pelo reencontro; sabia que tudo estava terminado, não por um sussurro incoerente por parte dele, mas pela consciência que tomara a respeito do relacionamento que possuíam desde o final catastrófico no Conselho Geral.

O assunto escasso, o comportamento sempre evasivo por ambas as partes. A tentativa, inconsciente ou não, de sempre se manter afastado, sempre se manter em uma redoma protetora criada por ambos. O uso do corpo um do outro, praticamente, o coleguismo de trabalho que se mantivera e jamais passara disso... Nenhum deles estava determinado a deixar que aquilo se transformasse em algo mais do que o acordo silencioso ao qual chegaram quando começaram a sair.

Não havia propósito.

Apesar disso, a bruxa ainda se preocupara com a provável reação de Michael quando finalmente se encontrassem, e quando ela finalmente tocasse no assunto. Apesar de tudo, das certezas que pareciam corroê-la na maior parte do tempo, tinha medo de estar errada, de ser a única evasiva e desinteressada em um desenvolvimento entre os dois. Somando isso à péssima capacidade de expor com gentileza por medo de dizer demais...

Encarando-o naquele momento, contudo, Camila não conseguia sentir nada além de irritação crescente, nada além da vontade de gritar e brigar com aquele homem, descontar toda a raiva que sentia naquele rosto cansado e chateado; a preocupação com os sentimentos de Michael estavam perdidas no fundo de sua mente, enquanto a lembrança disponibilizada por Mark dançava com graça diante de seus olhos, na Penseira, um recado silencioso do quanto ainda se perturbaria -.

- Que diabos, é? – Michael perguntou, as feições assumindo um tom amargo enquanto o deboche liderava o tom de sua voz. – Eu deveria saber que você se comportaria assim, mesmo depois de dias evitando qualquer contato comigo.

Não estoure, não estoure -.

- É, você já deveria saber. – ela retrucou, erguendo-se da cadeira para que pudesse encará-lo de frente. A sensação de urgência e ansiedade a corroíam mais uma vez, agora que não podia mais ser distraída pelas informações que colhia daquela lembrança, e a vulnerabilidade que sentia diante do desconhecido a jogava para o limite mais uma vez. – Desse modo, eu não precisaria ser atrapalhada das minhas obrigações para ouvi-lo choramingar como um pobre coitado! Que inferno, você não viu que eu estava ocupada? O que custava ter esperado?

Ah, bem, ela nunca fora exatamente conhecida por seu autocontrole.

- O que custava... – ele repetiu em voz baixa, lentamente. Em seguida, balançou a cabeça, absorvendo as palavras da mulher enquanto suas feições adquiriam uma faceta ainda mais irritada. – Quanto tempo mais eu seria obrigado a esperar, Camila? Mais um mês? Um ano, talvez... Porque obviamente você já pediu por muito tempo desde que nos vimos pela última vez. Você deliberadamente me ignorou para conseguir esse tempo.

- Se você ainda não percebeu, eu estava trabalhando. – ela repetiu entredentes, apontando para a Penseira. – É o que tenho feito quase o dia inteiro, todos os dias desde que nos vimos. Com o número de homens no Departamento, não é como se eu estivesse com tempo para -.

- Claro, você nunca tem tempo para a própria vida. – Michael concedeu, sarcástico. – A menos que seja para destruí-la, não é mesmo? – ela o olhou como se ele estivesse louco, e o bruxo continuou enfurecido: - Você saiu em todos os jornais por conta de qualquer estupidez que tenha feito que lhe rendesse um tiro e uma confusão no Mundo Trouxa. Eu deveria -.

- Você sequer sabe que droga aconteceu nesse dia, não venha julgar a situação por meio de uma matéria qualquer em um jornal! – ela disparou, a mão que outrora apontara para a Penseira fechando-se em um punho.

- O que você espera que eu faça? Espere até que você ceda um segundo de seu precioso tempo para escutar a verdadeira versão? Você não me dá tempo para isso. Você não me cede tempo para nada, Camila! Tudo o que eu tenho como informação da sua vida são pelos outros, por jornais, por informações que podem ou não serem verdadeiras! E o que eu leio? – ele perguntou indignado, chateado. – Leio notícias de que minha namorada quase se mata em outro Mundo, e ninguém se digna a me dizer nada!

- Os jornais bruxos falaram o que aconteceu? - perguntou com a voz cautelosa, deixando que a irritação escapasse por um segundo. Seria muito difícil que eles conectassem o ocorrido ao caso de Claire, uma vez que jamais fora divulgado a morte da menina nos meios de comunicação bruxos, mas de qualquer modo, se o ataque e seu encontro com Marcela fossem exibidos, talvez qualquer vantagem que eles tivessem poderia desaparecer... E ela definitivamente não queria jornalistas respirando em seu pescoço em busca de informações sórdidas. - Digo, em detalhes?

- Não. – o homem retrucou, ainda soando irritado e disparado. Cruzou os braços, encarando-a de modo petulante. – E isso importa? Você quase -.

- Sim, importa. – Camila respondeu, tornando a se enfurecer com o bruxo. Ela duvidava que ele perguntaria aquilo caso fosse uma investigação dele. – Estou no meio de um caso, e quem é que gosta de informações divulgadas?

Ao perceber que a namorada estava toda negócios, Michael franziu o cenho e mostrou irritação.

- Imagine só, vim para o Brasil um dia antes de viajar até a Argentina para resolver uma papelada com o diretor de lá... Pensei "não vejo Camila há dias, e ela sequer parece preocupada em me retornar as chamadas... Por que não procurá-la para uma conversa, entender um pouco do que tem acontecido e, talvez, quem sabe, roubar alguns momentos juntos?". - ele balançou a cabeça, indignado. - Então chego aqui, encontro manchetes sobre você ter quase morrido, fico desesperado por issoe tudo o que você pode pensar no momento é em seu maldito trabalho e no quanto jornais podem atrapalhá-la em sua jornada pelo sucesso!

- Jornada pelo sucesso. – a bruxa repetiu, não sabendo mais se ria de suas palavras ou se gritava. – Jornada pelo sucesso? – balançou a cabeça, incapaz de expressar o oceano de respostas para aquelas palavras. – Depois de tanta estupidez que já o vi fazer e dizer, eu não sei por que estou surpresa por você dizer algo do tipo. – ela disse por fim, esfregando as mãos no rosto com força, um tique inútil para tentar se controlar adquirido ao longo dos anos, mas que nunca funcionava, realmente. – Eu não sei o que é pior, você se fazendo de coitado ou isso.

- O que você disse?

- Oh, você precisa que eu especifique, mesmo? – ela inquiriu, sua voz aumentando enquanto o encarava nos olhos. – Pensei que toda a babaquice que Brosseau disse e o quanto você o idolatrou depois de sua história já estivessem subentendidas.

- Você vai voltar com isso, agora? – Michael perguntou, sua voz aumentando tanto quanto a dela. – Eu deveria ter imaginado que o motivo de tudo era Rutherford -.

- Pare de ficar jogando a culpa em outra pessoa, maldição! O motivo somos nós! O motivo é tudo o que nunca existiu entre a gente, e a sua exigência de eu ser alguém como Hermione Weasley, a exigência que um tem com o outro para suprir apenas necessidades pessoais e deixar se importar com o outro!

- Você não -!

A porta de seu escritório se abriu com força, revelando a imagem de um Antônio Carlos molhado pela chuva e com feições perturbadas. Camila ficou parada na mesma posição, o dedo apontado em riste para Michael, que a fuzilava com os olhos.

- Chefe, preciso que você me acompanhe. É urgente.

Ela encarou o subordinado por alguns segundos, antes de tornar sua atenção para o bruxo que agora a olhava como quem se sentia traído. Ao fundo, arrependia-se de mencionar Hermione Weasley – o murmúrio não significara nada mais do que ela já sabia, do que ela via através das atitudes de Michael, da necessidade velada dele em que ela se comportasse como a psiquiatra, mas falar sobre a mulher em voz alta a fazia se sentir como uma daquelas mulheres ressentidas, que esperavam apenas pelo momento ideal para usar de suas palavras inúteis.

Porém, tudo já estava estragado demais para que ela pudesse reparar. Pelo menos por enquanto.

Endireitando-se, ela desviou o olhar de Michael e assentiu para Antônio Carlos.

- Certo. Vamos lá.

Sentindo-se como Zachary Harleigh, um homem covarde que acusava e depois era incapaz de encarar o outro nos olhos e se desculpar, Camila deu às costas para o homem que provavelmente morreria com remorso dela e caminhou em passos endurecidos até o outro Auror. Sentiu o olhar pesado de Michael sobre suas costas, sufocando-se com o que agora se transformava em lembranças em sua mente.

- Você esperava que eu fosse como Rutherford. Você queria que eu me comportasse como ele pode ter sido um dia para você. – Michael disse por fim, quando ela já estava ao lado da porta aberta. Antônio Carlos observou com certa surpresa a bruxa fechar a mão com força sobre a maçaneta, o maxilar cerrando-se em irritação e incômodo. – Hipócrita. – acrescentou em voz baixa, carregada em veneno.

Camila fechou os olhos e comprimiu os lábios, antes de inspirar fundo e sair do escritório, mas Michael não parecia ter terminado:

- Se sair, Camila, você sabe o que vai acontecer. Você sabe o que vai terminar.

Ao escutar aquelas palavras, a bruxa finalmente se virou, o desgosto expresso em suas feições ao responder secamente:

- Você sabe onde fica a saída.


- Você não sabe aceitar uma ordem, não é mesmo? - Richard perguntou irritado ao observá-la abrir a porta da pequena sala abandonada que Antônio Carlos usara para convocá-los. As persianas impediam a passagem da luz, e o ambiente estava iluminado apenas pela lâmpada incandescente. Sobre a escrivaninha geralmente vazia, encontrava-se uma televisão antiga e, ao lado, um videocassete.

- Não estamos em posição de tirar dois ou três dias de descanso, subdiretor Cooper. - a bruxa retrucou secamente, aproximando-se dele. - Além disso, alguém precisava continuar com uma parte da investigação que você deixou de lado.

- Deixei de lado para resolver os problemas que você causou ontem! - ele a lembrou irritado, inspirando fundo em seguida para se conter. - Ou será que você já se esqueceu do alvoroço que causou entre o Ministério e os jornais? Além disso, não é como se eu estivesse completamente alheio ao que se passa com a investigação. Estive com os Harleigh e Rutherford hoje, não?

Antônio Carlos observou Camila se encolher, como se atingida fisicamente pelas palavras do bruxo. Antes que ela pudesse responder, os olhos estreitando de maneira duvidosa, no entanto, Antônio pigarreou, atraindo a atenção dos dois Aurores, distraindo-os de seus mundos. Já vira brigas demais por um dia para desejar mais uma.

- Er... Bem. - engoliu em seco ao ver os dois pares de olhos irritados em sua direção. - Como vocês sabem, entre as evidências encontradas na mochila de Marcela estava uma fita para VHS. Demorei um pouco, mas encontrei um videocassete com um dos colegas trouxas na Polícia. Vocês não vão gostar nada disso. - acrescentou, balançando a cabeça, incomodado.

- Você não disse que a fita estava danificada? - Camila perguntou com interesse, observando-o ligar a televisão e o videocassete. Aproximou-se um pouco. – Pelo o que você tinha mostrado pelo Espelho, jurava que não conseguiríamos nada dela.

- Nesse caso, um feitiço reparador funcionou para o conserto. - Antônio murmurou, soando surpreso de suas próprias palavras. - Não acho que teríamos muita sorte se isso não tivesse dado certo, e a gente precisasse de ajuda técnica trouxa, afinal...

- Muito bem, e o que temos? - Richard quis saber, colocando-se ao lado de Camila, a briga entre os dois em ligeira trégua. - Você já viu o conteúdo, não viu?

- Vi, e por isso que digo que você não vai gostar disso. - Antônio avisou pela segunda vez. - Acho até melhor vocês se sentarem, por que o que estão prestes a ver será chocante -.

- Simplesmente coloque a droga do vídeo e pare de suspense, Antônio! - Camila reclamou, sentando-se em uma das cadeiras disponíveis no aposento, observando a tela escura da televisão com impaciência. Richard assentiu com vigor, em pé ao lado da bruxa.

- Não digam que não avisei. - Antônio murmurou, apertando o play.

Uma imagem apareceu, e Camila observou uma cama velha de estrado de ferro, o design semelhante a algo que sua avó possuiria. Absorveu o quarto branco e cheio de bolor, aparentemente pequeno, o pouco visível das janelas cobertas pela cortina de tonalidade alaranjada. Franzindo o cenho, trocou um olhar com Richard, que assistia ao seu lado em pé e de braços cruzados, antes de tornar sua atenção ao vídeo.

Então, passos surgiram ao fundo aliados às risadas. Escutaram o barulho de uma porta se fechando, e então um homem e uma mulher entrou em cena. Os Aurores foram capazes de ver seus rostos apenas quando se deitaram na cama - até então, visualizavam apenas do peito até os joelhos.

Ela o despia com destreza enquanto seus cabelos negros dançavam em suas costas conforme se movia, sua face parcialmente escondida da câmera graças à franja longa solta ao lado de seu rosto. O homem, por sua vez, exibia suas feições atordoadas, unidas ao sorriso largo e malicioso.

Quando ela abaixou suas calças, exibindo o membro ereto do homem, Camila virou o rosto e ergueu uma sobrancelha para Antônio, que estudava suas expressões, alheio aos acontecimentos do vídeo. Ele parecia nervoso, impaciente até, esperando pela explosão dos dois bruxos, seja lá qual fosse o motivo.

- Por que estamos vendo um vídeo pornô, mesmo? - quis saber desgostosa, cruzando os braços e as pernas. Ao seu lado, Richard permaneceu em silêncio, e ela foi incapaz de saber sua expressão por não encará-lo.

Surpreso com a pergunta, o Auror desviou sua atenção para o vídeo e corou vivamente.

- Oh. Espere, não é essa. - balbuciou.

O homem suspirou quando a mulher tomou seu membro em mãos, e então Antônio apertou o botão do controle para adiantar a fita. Foram mãos e bocas se movendo em rápida eficiência, e Richard se mexeu ao seu lado, tão incomodado quanto ela. A tela tornou a ficar preta por alguns segundos, e Camila estava pronta para questionar o subordinado mais uma vez quando o quarto apareceu mais uma vez em seu campo de visão.

Silenciosos, os bruxos escutaram a porta bater mais uma vez, com mais passos em seguida.

Lá vamos nós, ela pensou ligeiramente exasperada. Outro homem surgiu na tela, de costas, e sua mão parecia firme sobre o pulso de outra pessoa, outra mulher. Quando uma garota apareceu, revelando seus cabelos escuros e feições infantis torcidas em receio e nojo, Camila arregalou os olhos em reconhecimento.

Claire!

- Espere. - Antônio a instruiu quando ela o chamou em voz baixa. Sua atenção agora também estava focada na cena que se seguia. - Há mais.

- Você sabe o que fazer. - o homem disse em inglês à tela, seu tom barítono semelhante à de qualquer outro homem comum, e Camila desejou que o infeliz estivesse longe da câmera para que pudesse flagrar suas feições. Mas ele estava de pé, de costas a eles e segurando a menina com força, que era visível a eles apenas pelo seu tamanho e relativa distância de quem a segurava.

Claire balançou a cabeça, seu rosto agora se contorcendo em terror e incompreensão. Camila se inclinou levemente para frente, as mãos agora em seu colo e as pernas descruzadas.

Ela parece mais nova... Isso foi bem antes de a encontrarmos naquele apartamento...

Um golpe forte alcançou o rosto da menina, e ela cambaleou, seu rosto voltando-se para o homem tão surpresa quanto a Auror se sentia. Claire continuou parada no mesmo lugar, com seus olhos arregalados e mão na bochecha.

Ao fundo, o homem perguntava com irritação:

- Você não escutou, sua puta?

Camila cerrou os punhos sobre o colo. Richard ao seu lado continuava em silêncio e, conforme sua raiva crescia, não conseguia mais se importar com as reações e pensamentos do Auror.

As feições de Claire mostraram lenta compreensão, e a menina abaixou o rosto - fosse pela humilhação ou qualquer outro sentimento, ninguém saberia dizer. Um segundo se passou, e Camila a escutou falar pela primeira vez, um sussurro derrotado:

- Eu me comportei mal.

- E então? Do que você precisa? - ao ver que ela não respondia, rosnou ameaçador: - Diga!

- E-eu preciso ser punida.

- Sim, é disso que você precisa.

Não faça isso... Não diga isso...

- Tire a roupa.

A voz então lhe parecera assustadoramente conhecida, mas Camila não conseguiu associá-la a alguém. Inconformada, irritada e enojada, a Auror observou a menina retirar sua camisa xadrez de botões timidamente, revelando um corpo pequeno e infantil, livre da qualquer resultado de puberdade. Retirou a saia jeans e as calcinhas enquanto o desgraçado que a obrigara passar por aquele momento a assistia em silêncio.

- Abra bem essas pernas ao se deitar. - ele ordenou.

A menina seguiu até a cama, e Camila segurou a respiração enquanto a garota respondia às ordens em submissão.

Quando o homem pareceu satisfeito, com ela deitada e aberta para ele, aproximou-se da cama e colocou-se de lado, retirando suas calças e cuecas de maneira apressada. A barriga flácida e branca dobrava a pele, e por parecer alheio à gravação, mostrava aos presentes o quanto estava excitado com a cena sem parecer sentir o menor pudor.

Não faça isso -!

- Antônio... - Camila o chamou com voz estrangulada, não sabendo quanto mais daquilo conseguiria ver. Ao mesmo tempo, não conseguia desgrudar os olhos da tela, horrorizada por tudo que presenciava.

- Espere. - o bruxo respondeu - Em qualquer momento, agora...

Ela não o compreendeu, pelo menos até que o homem se inclinasse e deitasse sobre a menina. Camila cobriu a boca com as duas mãos, o corpo ereto os olhos arregalados em indignação.

- Filho da puta! - Richard exclamou pela primeira vez, enlouquecido quando o rosto do homem entrou em foco - Esse... Desgraçado filho de uma -.

Qualquer desejo de falar ou questionar o subordinado desapareceu quando a visão de Eduardo Correia surgiu, o corpo enorme sobre a menina trazendo uma imagem que ela desejaria jamais ter visto. Observou em silêncio o homem, escutando seus grunhidos animais e o ranger da cama contra o chão, horrorizada demais para qualquer reação.

Antônio parou o vídeo, desligando-o em seguida. Apesar da tela agora escura, a Auror ainda conseguia visualizar o movimento dos corpos com perfeição assustadora em sua mente.

- Isso era o que estava dentro da mochila da menina que você encontrou. - ele disse em voz baixa para Camila - Isso era o que ela tinha para mostrar.

Continua.