Capítulo Dezessete.
Eduardo Correia.
O homem já era daquele Departamento antes mesmo que Camila decidisse ser Auror, quando suas maiores preocupações eram dias chuvosos durante jogos de Quadribol na escola, ou o quanto sua mãe brigaria com ela por conta de uma nota baixa em Transfiguração. Quando tinha onze anos, e o DICAT fora criado e estendido para certo número de países como um plano piloto, Eduardo Correia fora um dos bruxos indicados (e convidados) para participar da experiência. Contava-se que o próprio Ferreira, grande nome no Departamento brasileiro, chamara-o para participar do pequeno círculo mais importante a um diretor assim que recebera a proposta de Denis Brosseau. Ele era uma das bases da diretoria.
Merda, ela basicamente herdara Correia assim que assumiu a diretoria.
A bruxa se lembrava vagamente de ler o perfil dos indicados para os cargos nos jornais, em algum café da manhã perdido em sua adolescência. Ferreira possuía grande bagagem como Auror pelo Ministério brasileiro, reconhecido internacionalmente por sua inteligência e astúcia. Lembrava-se do perfil dele e de Correia porque quando soubera que ambos eram brasileiros, sentiu orgulho e felicidade por ter algo de seu país em um plano tão importante.
Eduardo Correia combateu um Comensal na Primeira Guerra, aquela que causara a fama de Harry Potter por ser o primeiro e único bruxo a escapar da maldição da morte. O homem estava na Inglaterra para fechar um contrato e terminara derrotando um Comensal. Por algum motivo, a história a surpreendeu, na época – fosse pelo glamour que a vida como Auror parecia mostrar, fosse pelo total desconhecimento sobre mundo que possuía naquela idade.
Também era descrito como um marido amoroso, um pai dedicado. Quaisquer que fossem as palavras, Eduardo era sempre descrito de maneira exemplar. Boa pessoa. Grande exemplo moral. Ao assumir a diretoria, Camila não duvidara disso por um segundo, enxergando nada além de eficiência e profissionalismo. Por que questionaria, afinal? Ele jamais dera mostras de que tudo poderia ser apenas frágil mentira. Não somente isso, mas Ferreira jamais tivera problemas com ele.
Seu rosto redondo estava sempre munido de um largo sorriso, exalando vivacidade, apesar dos anos que se arrastavam e levavam, de pouco em pouco, sua boa saúde e o que sobrava de seus cabelos. Sempre era educado com todos – apesar de que, com Richard, tudo era levado até certo limite. Existiam as farpas por ambas as partes, mas nunca fora algo além de desgosto mútuo. A educação, embora forçada, estivera presente sempre que se necessitava do profissionalismo de ambas as partes.
Não era como se isso fosse qualquer prova de que ele -.
De que ele -.
Agora dentro de sua sala, algumas horas depois do ocorrido, a bruxa fechou os olhos e escondeu o rosto entre as mãos, inspirando fundo. Por um longo segundo, sentiu-se mais velha do que realmente era. A soma dos últimos dias lhe parecia um borrão confuso, cheio de imagens, sons e bagunça que não lhe faziam sentido algum.
E agora?
Apesar do tamanho da raiva de Richard, sempre disposto a conseguir vingança privada sob a alcunha de "justiça", os três bruxos concordaram em não agir de modo direto, pelo menos por enquanto. Não era algo que deixava qualquer um deles satisfeito – quem conseguiria, afinal, com a imagem daquela criança molestada queimando em suas lembranças? -, mas, por ora, era o ideal a se fazer.
Qualquer coisa que envolvesse tortura e colheita de informações forçadas sobre o homem poderia resultar em histórias problemáticas quando em juízo, dependendo do jogo que o advogado de defesa fizesse; apesar da vontade de Richard de mandar tudo às favas e enfiar Veritaserum goela abaixo de Correia, Camila e Antônio não estavam inclinados em dar motivo para que aquele homem escapasse impune ou com pena reduzida; eles não estavam mais em guerra...
Sim, se eles levassem em conta o jogo obscuro que ainda eram obrigados, às vezes, a realizar – com operações ilegais, investigações com teor subjetivo e conceitos morais muitas vezes distorcidos, o canadense não estaria de todo errado (e tampouco eles discordariam de seus métodos), mas ao mesmo tempo -.
Ao mesmo tempo, Camila queria um jogo limpo – justiça. Não era apenas sobre vingança... Marcela e Claire mereciam que o mundo soubesse sobre suas histórias, da melhor maneira possível, além de que os responsáveis pagassem em todos os termos da lei.
Além disso, manter Eduardo Correia momentaneamente às cegas, sob a falsa impressão de que tudo estava bem era positivo em face de uma problemática ainda maior: o grupo para o qual Correia trabalhava ou se utilizava dos serviços (dependendo do que descobrissem). Eles ainda não possuíam nenhuma informação sobre Marcela (se é que seu nome realmente fosse Marcela), mas Claire era uma garota desaparecida, presumida sequestrada; neste caso, existiam duas conjecturas, pelo menos em um primeiro momento: Claire fora vítima de tráfico sexual desde o início, ou algo ocorreu, ao longo do percurso de seu desaparecimento, culminando com seu trágico fim.
De qualquer modo, era seguro apontar para uma organização voltada para exploração sexual – fosse exclusivamente de crianças, fosse generalizado, ainda era muito cedo para saber, mas tudo apontava para aquele tipo de situação, até mesmo a forma como Claire fora encontrada; logo quando a menina fora encontrada, a bruxa pensou que o homicida da garota queria se mostrar, ou se aparecer, ainda que ela ainda não soubesse, exatamente, para quem.
Agora, com a ideia de uma quadrilha em mente, Camila conseguia entender o motivo de tanta crueldade e exposição daquela criança na cena do crime: era um aviso para as outras garotas, também presas, de que não havia escapatória, nunca. Isso era relativamente comum – principalmente se Claire fora assassinada às vistas de outras garotas, o que era muito provável. Eles não fariam toda aquela encenação com o corpo se não fosse para demonstrar do que eram capazes.
Assim, apesar de ser nauseante não tomar nenhuma atitude imediata, por conta da sensação de impunidade (ainda mais com aquele homem ocupando uma posição de destaque dentro do Departamento, trabalhando diretamente para ela), era ideal, no momento, que os bruxos trabalhassem em silêncio, utilizando-o como isca – talvez eles pudessem prendê-lo em flagrante, no futuro, junto com mais responsáveis.
Além da possibilidade de capturar não apenas um homem, também era necessária frieza ao admitir que tudo era muito recente, muito cedo, para que tomassem alguma atitude. Sabiam pouco sobre tudo – Correia trabalhava para eles, ou utilizava seus serviços? O tráfico era somente de crianças, ou também incluía jovens, adultos, homens e mulheres? Há quanto tempo? Correia ainda mantinha contato? As crianças foram mortas pelo grupo (o que, considerando o modus operandi do tráfico, fazia sentido), ou foram mortas por Correia, seu mandante (e, talvez, o próprio algoz de Claire), pelo medo de ser descoberto ao saber que as meninas fugiram de seu cativeiro?
Ao fundo de sua mente, ainda, um questionamento cruel criava garras em sua garganta, desesperando-a de súbito: e se não apenas Correia estivesse envolvido? E se outras pessoas, dentro do Departamento, também estivessem comprometidas em toda aquela merda? Não teria como ela saber, teria?
A batida à porta de seu escritório soou ensurdecedora aos seus ouvidos, e Camila sobressaltou em sua cadeira, assustada. Com os olhos arregalados, atenta, ela observou a porta se abrir um pouco e a imagem de Antônio surgir diante de seus olhos.
- Antônio. – Ela suspirou seu nome, sentindo-se relaxar um pouco. O homem fechou a porta atrás de si e ficou por alguns segundos em silêncio, como se pesasse suas próximas atitudes.
- Richard está pronto para seguir com a sua parte. – Ele comentou, enigmático, mas a bruxa foi capaz de compreendê-lo. Com o final do dia – e o final do turno se aproximando, os três bruxos se decidiram pelo acompanhamento dos passos de Correia. Como Camila não poderia segui-lo por todos os lados, dado sua posição - e Antônio ainda precisava se reportar à polícia trouxa, o bruxo ideal para segui-lo, pelo menos por enquanto, era Richard; o canadense trabalhara o suficiente com espionagem para ser discreto, além do fato de que Camila confiava nele (pelo menos o bastante, dado o incômodo que sentia sobre todo mundo, no momento) para tal serviço.
Ela assentiu em um leve meneio, enquanto o bruxo se aproximava de sua escrivaninha; era possível ver seu incômodo refletido em toda a postura daquele homem.
- Tente tirar Richard o mais rápido possível da liderança do caso de Claire.
Camila apoiou o queixo sobre as mãos fechadas, apoiada sobre os cotovelos em cima da escrivaninha e o observou em silêncio. Já haviam conversado sobre isso, ainda que de maneira breve, dentro da sala onde presenciara as cenas horríveis envolvendo Correia e Claire.
A maioria das missões passavam por Eduardo Correia antes de chegar à Camila. Colocar-se como a investigadora principal do caso eliminaria, em partes, o problema do quanto Correia saberia sobre a situação – ela ainda teria que passar relatórios e informações pertinentes ao caso, dado a natureza do crime e o que existia legislado no mundo bruxo em termos administrativos, mas como possuía o maior cargo em termos de hierarquia, conseguiria o aval de situações antes mesmo que Correia se desse conta, ou precisasse saber, delas.
Além disso, assumir a liderança do caso lhe daria liberdade para trabalhar um outro problema que a incomodava -.
- O que você acha de uma reestruturação de Aurores dentro do caso?
Pela forma como ele a encarou depois que ela fizera aquela pergunta, Camila percebeu que ele não parecia surpreso. Na verdade, existia até certa satisfação, como se ele compartilhasse de seu ponto de vista, quando ele comentou:
- Tenho total confiança em sua decisão, chefe.
A bruxa inspirou fundo, assentindo. Não era como se eles, necessariamente, julgassem qualquer um daqueles bruxos suspeitos ou culpados, mas considerando a sensibilidade daquela situação – considerando que um dos criminosos era um deles -.
- Preciso entrar em contato com a AMI o mais rápido possível, então.
- Você já sabe o que dizer à Correia sobre essa mudança?
- A tratativa é internacional, por conta da nacionalidade da vítima, e a AMI requisitou que eu liderasse o caso. O documento foi assinado às vistas de uma testemunha, como de praxe e costume – no caso, Richard. Correia não terá muito acesso após o caso passar para as minhas mãos.
Era verdade. A pasta estaria sob seu domínio imediato e, em momento algum, Correia teria acesso à ela para dar aval a outros pormenores que eventualmente caíssem em sua mesa.
- De qualquer modo, mesmo que atuemos com muita discrição, há uma grande possibilidade de Correia ficar... Tenso, digamos, com essas mudanças. – Camila murmurou. – Ele ficará mais cauteloso.
Até que ele fizesse contato com a quadrilha e eles pudessem detê-lo, se fizesse -.
- E os Aurores da AMI?
- Tenho ideia de alguns. – A bruxa foi vaga, franzindo o cenho. Ela sabia quem gostaria de convocar, mas o problema seria provar que seu caso era prioritário, diante de todos os outros presentes, para conseguir que eles trabalhassem para ela durante aquele período.
Além disso, pensou azeda, Mike era o responsável geral pela AMI, além de chefe direto de um dos Aurores que ela estava interessada em contratar. Não importaria se ela entrasse em contato diretamente com os Diretores de outros DICAT, tudo teria que passar pela aprovação de Mike.
Isso só pode ser carma. Eu fui uma vaca com Mike, agora ele vai me devolver esse favor.
Desgostosa, recostou-se à cadeira, cruzando os braços, inspirando fundo. Havia se esquecido da briga, ocorrida apenas há algumas horas. Droga. Não era como se ela não fosse conversar com ele, mais tarde, quando as coisas se acalmassem, ou algo do tipo – não para voltar, mas ela pelo menos devia isso a ele, além de um pedido de desculpas por ter agido nada civilizada – mas não esperava que precisasse ser tão cedo.
E pedir desculpas com um pedido logo em seguida soará tudo menos sincero.
Perdida em seus pensamentos, ela não percebeu Antônio se sentar à sua frente, com a expressão preocupada. Ele parecia tão desgastado, ela pensou subitamente, observando as olheiras sob seus olhos. Por alguns segundos, questionou-se o quanto aquele homem conseguia dormir por semana, considerando o estresse do trabalho e, se ela não estivesse enganada, o estresse de garantir o máximo de conforto para o filho que estava por vir.
Antônio não deixou que ela se prendesse muito tempo àqueles pensamentos, focando sua atenção em outro ponto importante dentro de toda a situação:
- E a lembrança, Camila?
Ela o encarou por uns dois segundos, confusa, antes de esboçar alguma reação de surpresa e compreensão. Sua atenção se voltou para o pequeno tubo à frente de ambos os bruxos, carregado daquele material prata e fluido.
Mark.
- Eu ainda não vi o conteúdo. – Ela disse, pegando o tubo e segurando-o com cuidado entre suas mãos. – Mas pode ser algo relacionado com Correia ou outro Auror, não? Quero dizer, Mark mencionou na hora sobre questões de confiança dentro do Departamento...
Para o desgosto de Richard, enquanto eles se questionavam sobre qual era o melhor caminho para seguir depois daquela revelação em forma de vídeo, Camila contara sobre o episódio ocorrido entre Mark e ela, em seguida mostrando o frasco com a lembrança para os presentes.
- O problema é como ele conseguiu isso, considerando que ele não é mais Auror, e quem o está ajudando. – Antônio sussurrou, distraindo-a mais uma vez de suas lembranças. – Você confia nele, Camila?
Torceu as expressões diante daquela pergunta. Se ela confiava nele?
Mark sempre tinha uma agenda própria por trás de tudo o que acontecia – o que era inevitável pois, considerando suas posições como chefes de departamentos investigativos, ela também era bem evasiva no que se tratava às suas obrigações.
Mas ele também era mentiroso e deslizava por entre os dedos quando necessário, vide o caso Perez. Ele era ardiloso, evasivo, calculista, frio, manipulador e dissimulado. Tais pensamentos só a deixaram ainda mais incomodada.
Ela não tinha dúvidas de que ele agira daquela maneira apenas para conseguir algo em troca – o quê, exatamente, ainda não era capaz de precisar. Imaginava onde ele teria conseguido aquela lembrança – Nathan era seu amigo de infância, afinal -, mas tinha certeza que havia algo por trás do que puro altruísmo, ou resposta em troca da ajuda que ela lhe oferecera, anos atrás, em relação à traição de Erick com o caso Rostova.
Por outro lado -.
- Sim, confio nele. – Ela disse, inspirando fundo. Aquilo não era completamente verdade, mas havia certa razão para sua escolha de palavras.
Pessoalmente, não confiaria em Mark nem se o inferno congelasse; cometera esse erro uma vez, uma única vez, onde confundiu sua vida pessoal com a profissional, o Auror com o homem e o resultado fora desastroso para ela. Ela se apoiara nele como se ele fosse sua tábua de salvação e, fraca demais para reagir no momento, deixou-se receber todos os ônus possíveis dessa decisão. Sofrera muito, demorara muito, antes que conseguisse colocar sua vida de volta aos eixos para repetir a mesma baboseira.
Eles poderiam estar em melhores termos, atualmente, mas Camila preferia lutar desarmada contra um Comensal da Morte antes de confiar em Mark daquela maneira novamente.
Por outro lado, ele era um Auror incrível. Escuso e mentiroso, sim, mas salvo sua jornada por vingança, ele jamais agira de modo a prejudicar alguém ou que não fosse em prol de justiça. Lembrava-se de suas expressões quando confrontados com alguma situação injusta – uma das mais marcantes e recentes sendo quando ele descobriu as atividades de seu irmão.
Profissionalmente, ela confiava nele. O resto não importava aos outros Aurores.
Antônio franziu o cenho, incomodado. Camila não o culpava por isso – era a história que conhecia de Mark que a fazia confiar nele. Sem o conhecimento do passado...
- Se você diz... – Ele enrolou, claramente contrariado.
- Ele pode ter mais informações não apenas sobre Correia, mas outros possíveis vazamentos dentro do Departamento. – Torcendo as mãos, admitiu, ainda que relutante: - Não acho que devemos descartá-lo, ainda. Mark era um ótimo Auror, ele tem um currículo incrível. Se ele tem algo que possa nos beneficiar – porque essa situação com Correia com certeza causará problemas dentro do Departamento -. – Interrompendo-se, balançou a cabeça e complementou: - Mesmo que eu não confiasse, Antônio, preciso saber o que ele sabe.
É claro que aquelas palavras não eram as que mais inspiravam confiança, de modo que a bruxa não conseguiu culpar as expressões desgostosas de seu subordinado. Balançando a cabeça, como se para afastar os próprios pensamentos, Antônio inspirou fundo e disse:
- Bom, diga quando você irá contatá-lo. Quando o encontro ocorrer, estarei por perto.
É claro que estaria. Mark não inspirava tanta confiança assim, afinal.
Vamos lá, não vá para casa e me dê um motivo para prendê-lo aqui e agora.
Richard Cooper fora um bom espião no passado; sabia ser discreto e sabia se misturar à multidão, tornando-se apenas mais um desconhecido entre tantos outros. Em uma cidade como São Paulo, então, com o número de habitantes cada vez maior, desaparecer em uma espreita era relativamente fácil.
Além disso, Polissuco e transfiguração sempre tornava tudo mais fácil.
Agir com tanta discrição, no entanto, era um saco para o canadense. O bruxo se tornara Auror pela ação, pela luta, pela explosão de raiva. Por ter se inscrito em um período de guerra, acreditava que a maioria de seus antigos colegas de Academia também entraram com a mesma convicção e vontade.
Qual não fora sua decepção quando fora designado a operações de reconhecimento e recolhida de informações? Só seria pior se ele estivesse atrás de uma escrivaninha – o que, atualmente, como braço direito de Camila, ele era obrigado a fazer com uma frequência maior do que a desejada.
Com uma das mãos na jaqueta escura e a outra segurando um cigarro, com o tronco apoiado no ponto de ônibus, Richard observou Eduardo Correia caminhar, com certo vagar, do outro lado da rua. Para alguém que era Auror – e com a bunda atolada em crimes – Correia era certamente um homem de hábitos. O homem parecia seguir quase que de maneira religiosa seus horários: cumpriu, como todos os dias (algo que sempre irritava Richard, pois ele vivia de hora extra em hora extra), o horário no serviço de maneira exata; saiu às oito, tomou um metrô até à Trianon-MASP e então caminhou pela Paulista por um tempo, até descer pela alameda Joaquim Eugênio de Lima em direção a um dos prédios antigos, onde morava.
Richard o acompanhou após um tempo, tomando distância o suficiente para que não fosse percebido. O bom do horário era que, àquele dia da semana, os bares na região estavam cheios, o que o auxiliava em desaparecer por entre a multidão. Passando por entre homens e mulheres segurando copos de cerveja, música indistinguível e conversas se misturando, o bruxo jogou o resto de cigarro na sarjeta e parou próximo a um restaurante entre a Alameda mencionada e a Alameda Santos, observando Correia entrar em um dos prédios próximos à Starbucks.
Vigilância era um trabalho de formiga. Só de pensar no tédio que seria seguir Correia por horas e horas a fio ao longo desse tempo já fazia Richard morrer de tédio. Inspirando fundo, colocou as duas mãos no bolso e fez uma careta de desgosto.
- Pelo menos ele mora em uma boa região. – murmurou a si mesmo, girando os olhos. Só seria melhor se ele morasse de frente para um dos bares. Desse modo, Richard poderia ficar mais confortável, alterando sua aparência ao longo da semana com magia.
Com sorte, poderia até levar Helena, e então seu trabalho pelo menos seria menos cansativo e tedioso -.
É, claro. Camila o mataria se soubesse disso – não tanto pelo fato de ser sua irmã mais velha, mas pela mistura óbvia de trabalho com prazer.
Distraído em suas próprias obrigações e pensamentos, pediu com leveza por um café e sentou-se à janela da Starbucks, de frente para uma jovem de cabelos loiros com um livro em mãos, que mal lhe dirigiu um aceno. Daquela posição, o bruxo era capaz de até mesmo ver a janela da sala de Correia iluminada pela luz.
Ainda não conseguia acreditar no que vira horas mais cedo; a imagem nojenta de Correia, suado e animalesco, investindo contra uma menina com idade para ser sua filha – ou até menos – o deixava enjoado. Nunca gostara do homem e sabia que o sentimento era recíproco, mas é claro que isso jamais seria motivo para que suspeitasse de qualquer atividade suspeita do secretário. Talvez algum problema com tributação, sonegação, quem sabe – mas tráfico? Estupro? Um Auror respeitado como ele? Puta merda.
Sorveu um gole de seu café e fez uma careta incomodada. Eles ainda possuíam poucas informações sobre a real situação do homem e essa espera o incomodava demais. Qualquer que fosse a posição de Correia, as consequências que isso traria sobre o Departamento – e sobre ele e Camila – seriam gigantescas. Ele já conseguia se imaginar diante de Dênis Brosseau, no Canadá, devendo explicações sobre segurança e contrato de seus subordinados que tampouco ele sabia se seria capaz de algum dia fornecer.
Quer dizer, não era como se ele tivesse elaborado qualquer forma de ingresso ao Departamento. Aquela merda era padronizada! Sem contar que Correia já estava lá dentro mesmo antes dele começar a pensar em trabalho.
Richard vislumbrou uma mulher à janela da sala, fechando o vidro. Pela silhueta, à distância, aquela deveria ser a Sra. Eduardo Correia. O canadense sabia pouquíssimo sobre ela – apenas um retrato sobre a escrivaninha do crápula em todos aqueles anos trabalhando no Brasil. Ele sabia que Camila a conhecia, por outro lado; ela era obrigada a participar de confraternizações e todas aquelas porcarias de final de ano. Mas a mulher era tão insignificante às suas vidas que ele era incapaz de se lembrar de qualquer informação sobre ela.
Sentiu pena dela. Talvez ela fosse uma boa pessoa – talvez ela não fizesse ideia do porco com quem se casou. As pessoas veem apenas o que querem, afinal. Não importava se vivessem sob o mesmo teto, se convivessem há dez, vinte, cinquenta anos: Eduardo Correia seria àquela mulher o que ela quisesse que ele fosse. Infelizmente, não era assim que casamento funcionava? Vira isso em seus pais, vira isso em familiares.
Comprimindo os lábios, observou a mulher se afastar da janela. Se esse fosse o caso, era melhor que ela fosse uma pessoa forte – a decepção diante de Eduardo Correia seria grande.
Não fora difícil saber que Mark ainda estava no país, como dissera a Richard e a Antônio – ele deixara o nome do hotel e o quarto onde estava hospedado para que Richard pudesse encontrá-lo, no dia em que fora interrogado, e depois deixara claro para ela que permaneceria no país por mais alguns dias, quaisquer fossem os motivos. Camila não dera importância àquelas palavras, naquele momento, tamanha era a confusão que sentira quando ele enfiara o tubo com as lembranças em sua mão e criara uma sensação de conspiração sem limites em sua cabeça, dois dias atrás. Esquecera-se completamente dele quando Antônio chegara com toda aquela notícia sobre Eduardo Correia.
No entanto, agora, parecia claro o porquê ele ficaria mais alguns dias no Brasil.
Apesar do desejo de parecer calma e controlada, ela sabia o quanto falhava miseravelmente em sua tarefa cada vez que seus pés afundavam com força no corredor com carpete, cada vez que a porta daquele quarto parecia mais próxima. Estava furiosa e compreendia a força de sua emoção a cada passo, a cada realização do quanto estava ereta e endurecida. Gesticulava com força, desligando as câmeras do corredor com mágica; sua respiração, entrecortada.
Sua mente girava, ruídos furiosos e frases desconexas expressando o quanto se sentia indignada e encolhida diante de todo o desconhecido, diante da compreensão de que ela jogara perfeitamente o seu jogo, ainda que não entendesse a imensidão de onde poderia ter se metido. Quanto mais os dias passavam, mais a sensação de sufoco aumentava.
Não era capaz de afirmar que Richard talvez estivesse certo, a ideia de que ele estivesse envolvido na morte da própria sobrinha soava repugnante demais, e fora demais de todo o julgamento que fizera sobre o homem – Mark não era Erick! -, mas também não poderia dizer que aquele babaca não tinha nenhum tipo de intenção ao disponibilizar a lembrança – aliás, lembrança dele? Lembrança de quem? – falando justamente sobre um cara que, dias atrás, ela visualizara estuprando Claire. Será que ele sabia sobre Correia, o que ele fizera a Claire?
Ela estava com falta de ar, basicamente, quando se encontrou de frente para o quarto 307, e não desperdiçou tempo em fechar a mão direita e bater com força contra a porta, três vezes seguidas, chamando-o entre os dentes, ainda tentando manter a voz baixa:
- Mark? Mark.
Mark não demorou em atendê-la, ainda que o mínimo de espera tenha sido insuportável para a bruxa. Ao abrir a porta e encará-la, ele parecia tão preguiçoso e desgrenhado quanto na casa dos Harleigh. Estreitava os olhos para encará-la, enquadrado no perfil de alguém que já estava ferrado no sono dos inocentes. Além disso, a tranquilidade que ele parecia possuir contrastava tanto com a inquietação dela que, no momento, tudo o que Camila desejava fazer era esganá-lo.
Por que ela não podia dormir?
- Camila? São três e meia da manhã. – Ele murmurou, sua voz rouca pelo sono, mas a bruxa não lhe deu tempo:
- Eu vi a lembrança. – Ela disparou, zangando-se ainda mais quando não o viu esboçar nenhuma reação imediata diante de sua revelação. Sentindo o rosto queimando, tirou o tubo com a lembrança do bolso de sua jaqueta e o ergueu, de modo que o material dançasse diante dos olhos do homem. - Sobre Eduardo Correia. – Acrescentou, esperando que o tom enfático fosse suficiente para que ele finalmente acordasse.
Ele demorou em responder. Por fim, franziu o cenho, como se esforçasse para criar atenção, e abriu mais a porta do quarto, dando-lhe passagem.
- Entre.
Após fechar a porta, surpreendeu-se quando Camila o empurrou contra a parede, o braço em seu pescoço e a outra varinha apontada para a sua cabeça.
- Mas que -.
Ela forçou mais o braço em seu pescoço.
- Você pode ser mais rápido e mais forte, mas mova um dedo errado e eu não vou me arrepender de amaldiçoá-lo. – A bruxa o avisou. – Além disso, Richard Cooper sabe onde estou. Se você se atrever a fazer qualquer coisa -.
- Fazer alguma coisa – qual é a porra do seu problema -.
- Vá à minha frente, assim que eu o soltar. – Ela o instruiu. – E sente-se... Naquela cadeira. Não brinque comigo, Mark.
- Tch. – Ele inspirou fundo, irritado quando ela o soltou. No entanto, obedeceu-a, não sem antes girar os olhos quando ela não podia mais ver suas expressões. Sentou-se onde ela o instruíra, não escondendo o sarcasmo ao dizer: - Muito bem, estou onde você queria. O que vai fazer agora, Camila?
Não o respondendo, ela ergueu a varinha e com um aceno, algo semelhante a uma brisa preencheu o ambiente. Mark sabia o que ela estava fazendo – procurando por qualquer coisa que estivesse escondida e pudesse ameaçá-la, qualquer magia oculta que ele pudesse usar contra ela. Maldições, escutas, qualquer coisa que pudesse encurralá-la.
Ele franziu o cenho, estudando-a.
Nathan tinha razão, afinal?
Ela não baixou a guarda mesmo quando não recebeu nenhuma resposta pelo perigo que procurava. Virando-se na direção do bruxo, que permaneceu sentado, relaxado, na poltrona, Camila se aproximou e colocou o frasco com a lembrança sobre o rack que o quarto possuía.
- Onde conseguiu a lembrança?
- Com um informante.
- Quem?
- Isso não importa. O importante -.
- Quem?
Mark a encarou como se ela fosse idiota.
- Você não espera, mesmo, que eu vá lhe dizer, certo?
- Você claramente esperava por algo ao me dar a lembrança. – Ela contrapôs. Apesar de baixo e controlado, seu tom de voz não deixava dúvidas para a irritação que sentia. – Este é o momento ideal para que você faça seu jogo, antes que eu o amarre aqui e agora, enfie-lhe o Veritaserum goela abaixo e o prenda por mais tipos penais que você seja capaz de identificar agora. Eu quero suas respostas, Mark, e eu as quero agora.
Seu tom não deixava espaço para quaisquer brincadeiras ou jogos, ou pelo menos era isso que achava. Qualquer pessoa que não fosse habituada a lidar com aquele nível de estresse e raiva cederia, assustada, àquele jogo de dominação. Mark, no entanto, pouco pareceu abalado. Na verdade, ele encarou para a bruxa como se seu comportamento fosse esperado, o que a deixou ainda mais enfurecida.
É claro, ele estava preocupado que, quando começasse a dar suas cartas, Camila explodiria tudo em sua cara. Agora começava a se questionar sobre quão certo ele estava sobre seus passos e o quanto Nathan estava errado, afinal, mas ele jamais deixaria isso transparecer à Camila – principalmente quando ela estava com aquela postura de quem queria queimar o mundo inteiro.
Recostando-se à cadeira, cruzando os braços, ele a encarou de maneira quase que entediada, antes de soltar o ar com força pelo nariz e dizer com certo tom blasè:
- É um pouco óbvio o que quero, você não acha? – Ele perguntou, e Camila apenas ficou parada na mesma posição, encarando-o. Mark sabia que ela nada diria enquanto ele não fosse claro, mas ele deixou a pergunta retórica por alguns segundos no ar mesmo assim, antes de continuar: - Eu quero ajudá-la.
- Porque você é tão samaritano, obviamente -.
- É claro que não.
- Pare com esta merda toda, Mark. – Ela o ameaçou, os dentes cerrados. – Desembuche logo ou -.
- Eu quero minha vida de volta. Você concorda comigo que Brosseau agiu injustamente, não é mesmo? – Ele pontuou, interrompendo-a. – Então me ajude a voltar ao Departamento.
Continua
