Mar territorial brasileiro, cerca de 232 km da capital paraense, 28 de abril de 2011.

.

A formatura é um dos momentos mais esperados na vida de um Auror. Após anos de treinamento na academia, com seus nervos levados ao limite pela quantidade de teoria e pelo número de simulações exaustivas, às quais eles são obrigados a submeterem seus corpos e suas mentes, a cerimônia se coloca como um marco entre um sonho, outrora tão distante e a realidade de realmente se tornar um agente da lei.

Profissões que lidam com vidas, em geral, trabalham muito com o emocional e com o idealismo dos que almejam estas carreiras; fala-se em vocação, paixões, viver, respirar o que você faz. Muitas vezes, são profissionais que, se não tomarem cuidado, podem negligenciar outros pontos da vida em prol de uma causa.

A recompensa, para os que genuinamente buscam servir, tanto é recompensadora quanto frustrante; nem sempre há tão grande reconhecimento quanto se gostaria, o nível de estresse é alto e, para Aurores, muitas vezes, o custo de um trabalho bem feito pode ser sua própria vida. No entanto, à época da cerimônia de formatura, com os ânimos cheios de esperança e com desejo de mudar um mundo, tudo o que os "novinhos" desejam é, justamente, entregar seu sangue pela proteção de outrem.

Enquanto o devaneio é, de certo modo, inspirador, os recrutas e os novos Aurores não fazem ideia, em geral, do que isso efetivamente significa.

Pelo menos, não até sofrer o primeiro Cruciatus, de fato - e não em ambiente simulado.

Ou ver um parceiro à beira da morte.

Ou se encontrar à beira da morte.

De todo o modo, o Auror logo aprende que, apesar de tantos sonhos, é impossível lidar com toda a carga do trabalho sem ser modificado como pessoa. A essência do ser humano agente da lei é modificado pelas experiências que ele adquire com o passar do tempo.

Encostando-se com dificuldade à parede rochosa e fria da caverna, Camila Oliveira fechou os olhos e tentou inspirar fundo. Seus pulmões e traqueia pareciam queimar a cada ensaio, como se tentasse se recuperar de uma maratona à qual não possuía qualquer preparação física.

Abrindo os olhos, tentou se ajeitar, empertigando-se. Com as mãos frias e trêmulas, endureceu o maxilar, segurou-se para não praguejar de dor e engatilhou a arma, apontando-a alguns segundos para baixo enquanto procurava por qualquer movimentação suspeita ao lado de fora da caverna. Em seguida, erguendo o revolver, inclinando ligeiramente o tronco, a bruxa se aproximou um pouco mais da entrada, trôpega.

Um Auror é treinado para resolver as mais variadas situações de risco. Isso significa dizer que, enquanto a maioria das pessoas, sabiamente, opta por fugir de bandidos, Comensais ou, em geral, qualquer episódio que possa atentar-lhes à vida, um Auror correrá em direção ao perigo, colocando de lado toda a sua individualidade e sentimento de autopreservação em prol da melhor resolução possível, com decisões firmes e tomadas em frações de segundos para garantir a segurança de todos os presentes e da própria.

Sim, da própria. Nenhum Auror faz voto de suicídio, apesar de todos os idealismos existentes na cabeça de um jovem em morrer pela pátria, afinal.

No entanto, às vezes... Bom, às vezes dava merda.

Camila sentiu mais uma fisgada no abdome que a fez se curvar um pouco mais. Fechando os olhos por breves segundos, apertando-os, deixou o ar escapar por entre os lábios junto com um pequeno gemido. Tentou se concentrar em sua tarefa e, ao perceber que ainda estavam seguras, afastou-se da entrada do mesmo modo que surgira.

Abaixando finalmente a arma, tornou a se encostar à parede. A camiseta encharcada de suor grudava fria em sua pele, seu corpo parecia mais pesado e, o pensamento, mais lento. Ela sabia que estava correndo contra o tempo – e o pior de tudo era que ela não fazia ideia de como, exatamente, chegar ao outro lado da ilha sem serem pegas no meio do caminho.. Ou escapar com vida quando chegassem lá e eles estivessem as esperando. Só de pensar em Perez a aguardando, aquele sorriso macabro em suas expressões -.

Fechou os olhos, tentando jogar para longe de si o medo que queria engolfá-la. Era como se ela fosse uma novata, toda cheia de defeitos e inexperiente em campo, congelada pela situação. Tal sensação a desconcertava ainda mais.

Retornando para o fundo da pequena caverna, olhando para o lado, observou com cansaço as três adolescentes sentadas e encolhidas ao chão, com corpos tão próximos umas das outras quanto era possível. A mais próxima pareceu sentir seu olhar e a encarou de volta; a Auror não sabia seu nome ou como aquela criança chegara ali, mas ali estavam olhos que denotavam feridas demais para uma menina que deveria, na verdade, preocupar-se com coisas banais, propícias de sua idade.

Mas ali estavam elas.

E ali estava Camila.

A menina mordeu o lábio e desviou o olhar para o abdome da bruxa, que imediatamente colocou a mão por cima de onde atraia atenção. Aquilo não era algo com que ela deveria se preocupar.

- Não podemos ficar aqui por muito tempo. – Camila disse em voz baixa à menina, atraindo sua atenção. – Vocês precisam se recuperar um pouco, porque ainda temos um trecho longo pela frente.

- Mas você -.

- Estou bem. – Ela a cortou com o tom baixo, mas firme. É claro que ela não estava, todos sabiam disso. – Vai ficar tudo bem. Eu vou tirar vocês daqui.

Ela ainda não sabia como, exatamente, mas Camila, além de Auror, sempre fora uma mulher obstinada. A temperança e a paciência, necessárias à profissão, vieram com o tempo e com a experiência, mas em nada tais características apagaram a vitalidade acirrada que a mulher possuía. Ela encontraria uma maneira, qualquer maneira, mesmo que isso lhe custasse a vida.

A menina desviou sua atenção da bruxa, tornando a se encolher junto das outras duas. Ao mesmo tempo, a Auror retirou com delicadeza a mão de seu ferimento, o cenho franzindo ao perceber sua mão completamente tingida de vermelho.

Puta merda.


São Paulo, 29 de agosto de 2010.

.

Pelo número de casos que um Auror trabalhava ao longo de sua carreira, era inevitável que, eventualmente, existissem similaridades entre um trabalho e outro - ainda mais se ambos os trabalhos fossem de áreas parecidas. Vias de captação, transporte de mercadoria, contatos escusos ou tratativas entre quadrilhas e/ou carteis eram caminhos bem documentados tanto no mundo bruxo quanto no mundo não mágico, de modo que as situações, muitas vezes, não eram tão alienígenas para um investigador.

Cada caso era um caso, mas, ao mesmo tempo, depois de tantos anos, não tão diferentes assim.

Com uma das mãos no bolso da jaqueta azul marinho, com a gola levantada, Mark recostou-se à cadeira do bar ao lado do hotel em que Heitor Silveira, seu alvo atual, estava hospedado, próximo ao Parque do Ibirapuera. Seguira o homem o dia inteiro e, agora, aguardava-o retornar ao seu quarto, há um tempo considerável, desde que ele pegara o táxi à saída de um prédio comercial em Barueri.

Sorvendo um gole de sua cerveja, escondido pelo grupo de pessoas que se reunia para o happy hour à sua frente, com uma desculpa qualquer para sua solidão, ele observou o homem descer do taxi que pedira e se dirigir rapidamente à entrada do hotel, em um comportamento rotineiro e similar ao que ocorrera nos últimos dois dias; ele visitara e representara dois grandes clientes, em um horário apertado e, honestamente, em nada relacionado com o interesse do bruxo.

Heitor Silveira, no-maj, único homem entre os quatro filhos de um casal de classe média-baixa. O homem estava com seus trinta e seis anos, bem-apessoado e impecavelmente vestido. Casado há três anos. Sua esposa possuía um pequeno negócio de doces e bolos e possuíam um filho pequeno, algo em torno de dois ou três anos, ele não conseguia se lembrar com exatidão.

Ele não era um nome de grande importância para seu trabalho; recentemente, fora promovido à advogado pleno em uma consultoria jurídica com filial em Fortaleza, onde morava, mas, fora isso, em um primeiro momento, Mark jamais se interessaria por ele.

Na verdade, à primeira vista, não existia nada de extraordinário na corporação ou nos serviços prestados pelos advogados - corporação de médio porte, vários clientes pequenos, alguns clientes extremamente rentáveis. A maior parte dos casos em que trabalhavam diziam respeito a questões de natureza contratual, como alterações de cláusulas ou pequenas querelas entre investidores, fusões e aquisições de empresas, algumas lides. A trivialidade da empresa, entretanto, não se aplicava a um de seus clientes... Especificamente, um dos clientes sob a atenção de Heitor Silveira.

Havia um grupo em Fortaleza que tanto atuava com investimento em empresas legitimas quanto, também, liderava alguns pequenos comércios de fachada através de laranjas - em geral, estabelecimentos de entretenimento, como agências de turismo, bares e mesmo casas noturnas. De acordo com informações passadas pelo Bola, não era o maior grupo atuante no país, mas estava conectado o suficiente com outras pessoas para que Mark encontrasse o estilo de mercadoria que interessava um suposto cliente que o bruxo dissera possuir: branca, loira, entre dez e quinze anos.

Inspirando fundo, sabendo que a parte mais agitada de seu dia estava chegando ao fim, ele chamou um dos atendentes para que trouxessem a conta. Percebeu uma das mulheres do grupo à sua frente o encarando e, sabendo que aquilo não o levaria a nada, já que não era como se ele pudesse, de fato, se distrair com alguém enquanto estivesse naquela cidade, retribuiu o sorriso que ela lhe oferecera.

Tão rápido aquele contato acontecera, também terminou; Mark logo terminou o que restava em seu copo de cerveja após pagar a conta, em dinheiro e, sem olhar para trás, saiu do espaço da calçada coberto pelo toldo, pronto para sair da Joinville rumo ao seu próprio quarto de hotel.

A região era propícia para o trabalho - a rua possuía uma quantidade considerável de bares e restaurantes, além de uma padaria, o que facilitava observar o advogado sem muitas desculpas ou mentiras sobre sua frequência em um estabelecimento. Além disso, ele percebera a movimentação curiosa de clientes naquela região: existiam muitas pessoas recém-saídas do trabalho e alguns universitários, é verdade, mas o local também atraía um número elevado de casais em atividades... Não exatamente muito honrosas.

Ninguém perguntava e queria saber de muita coisa por ali, afinal.

Próximo de atravessar a rua, em uma esquina com a Joinville, o bruxo percebeu com inicial desinteresse um casal sair de mãos dadas de um restaurante de comida italiana. Por um segundo, no entanto, confundiu a mulher com Camila, o que fez com que o ar ficasse momentaneamente preso em seus pulmões. Provavelmente apenas imaginara que fosse ela por causa da paranoia e o medo de ser descoberto - afinal, ao percebê-la melhor, reconheceu que a mulher em nada era parecida com a Auror, tanto em tamanho quanto em fisionomia; nem mesmo o corte de cabelo era igual.

Ainda assim, ao passar pelo casal, ele manteve sua cabeça baixa e o comportamento discreto o suficiente para ser ignorado pelo homem e pela mulher.

São Paulo não é um ovo, ele se lembrava de dizer à Nathan, mas, mesmo reconhecendo esse fato, Mark não deixava de se preocupar sempre que precisava pisar naquela cidade, ao longo daquele quase um mês acompanhando os movimentos de Heitor Silveira. Ao longo dos anos, como Auror, ele percebera a quase inevitabilidade de seus encontros com a bruxa - quase como se a vida fosse uma piada sem graça: sabendo de seu desafeto para com ele, o destino parecia encontrar graça em colocá-los, sempre, dentro do mesmo ambiente.

Além disso, Nathan estava certo sobre uma coisa: ela não ficaria muito feliz se soubesse o que ele estava fazendo pelas suas costas. Ele tentava dizer a si mesmo que nada do que ele fazia era ilegal - se entrasse em âmbitos além de sua capacidade de civil, era claro que ele contataria o Departamento do país onde estivesse; no caso, obviamente ele contataria Camila mais cedo ou mais tarde. Ele reuniria todas as informações que possuía, todas as lembranças acumuladas, todas as fotografias tiradas e entregaria nas mãos competentes da Auror. Por outro lado, ele não era idiota de ignorar o fato de que, sob várias circunstâncias, aquele discurso era muito, muito eufemístico. Mark reconhecia que já infringira um sem número de leis - e a previsão para as próximas semanas, considerando o cronograma de seu alvo, era de que aquela lista aumentasse. Ele também era consciente do fato que muitas de suas atitudes assemelhavam-se, na melhor das hipóteses, a de um Auror, algo que ele já não era mais.

Acima de tudo, ele também se sentia traindo a confiança de Camila mais uma vez e, depois de tudo o que ela fizera por ele nos últimos tempos, aquilo não era algo tão simples de se ignorar. Lembrou-se de Michael Stuart informando-o sobre as sanções e todo o inferno que Brosseau fizera (e ainda fazia) Camila passar e sentiu-se, além de culpado e constrangido, irritado.

Brosseau fora um exímio filho da puta, ele pensou subitamente. Mark não estava exatamente interessado no desgosto herdado por ele, como se fosse alguma personificação de Swan ou qualquer porcaria do tipo - após todos os acontecimentos dos últimos anos, ele não poderia se importar menos com qualquer bosta jogada em seu colo... Mas Camila? Qual era o fundamento que aquele homem possuía para mandar e desmandar como fazia? Ele apenas a prejudicou para mostrar o despotismo que possuía e a inércia de todas as pessoas diante do poder daquele homem era simplesmente ridícula.

Começou a garoar no mesmo instante em que ele atingiu a entrada do pequeno hotel em que estava hospedado; passando a mão pelos cabelos, sentindo-os úmidos, cumprimentou com um breve aceno o recepcionista e caminhou em passos largos em direção ao quarto reservado para àqueles dias, encontrando-se logo no corredor amarelo e ligeiramente claustrofóbico do primeiro andar. O prédio era pequeno e velho, com dois andares apenas, mas, para Mark, o que mais importava no momento era a localização: longe o suficiente para não ser tão óbvio, perto o bastante para não perder Heitor Silveira de vista, inclusive para casos de eventualidade, como saídas fora da rotina quase espartana do homem.

Inspirou cansado enquanto trancava a porta de seu quarto, agindo de maneira automática. Dirigindo-se ao frigobar, pegou um refrigerante e uma sacola plástica, contendo sobras de uma marmita pedida à hora do almoço. Abrindo a janela da sacada, sentou-se em uma velha poltrona próximo à sacada, para manter a atenção à rua. Esticando as pernas, com um tornozelo cruzado sobre o outro, jantou a comida fria e com os pensamentos distantes.

Vigilância era um trabalho de formiga, cheio de momentos como aquele - em silêncio, sozinho em um quarto barato, esquecido do mundo. Apesar de não ser mais Auror, existia muita similaridade entre o que fazia, àquele momento, com o que executara durante anos, qualquer fosse sua posição - em black ops, foragido, como investigador ou, como no momento, desempregado, aparentemente ele sempre se colocava naquela posição; dormindo pouco, interagindo pouco, observando muito.

Não que ele exatamente se importasse; a bem da verdade, a natureza daquele tipo de trabalho condizia, muito, com a própria personalidade. Enquanto muitos recém-formados eram aliciados pela ideia fantasiosa de como funcionavam operações não autorizadas, comprando o imaginário popular do espião, fora o dia-a-dia que o seduzira, afinal. Swan se aproximara, tantos anos atrás, após o fracasso com o caso Piersanti, após a morte de Rebecca e de seu pai, com uma saída para a aparente gritaria que se fazia ao seu arredor - e Mark agarrara aquela oportunidade como se fosse sua tábua da salvação. A possibilidade de simplesmente sumir por entre um mundo de pessoas, do anonimato, de ser apenas mais um rosto entre tantos era exatamente o que ele queria, à época.

Ele não sabia mais quanto do comportamento era adquirido pelo trabalho ou próprio, mas, talvez, seu pai não estivesse tão errado sobre a história da ilha, afinal.


Notas:

Prometi, um ano atrás, que faria uma preview das histórias que atualmente escrevo (o que inclui as reescritas, como a Ninguém Como Você e a Caleidoscópio), mas por mil e um motivos, acabei não conseguindo, até agora, postar qualquer coisa.

A cena acima é um preview do prólogo e de um dos capítulos da nova Caleidoscópio. Pretendo postar algo da Ninguém até o final de semana, aproveitando o feriado e espero postar um novo capítulo da Noiva até o final do mês. Tenho escrito direto e quase que diariamente, mas são sempre cenas esparsas enquanto desenho, mais ou menos, a nova trama. A Ninguém Como Você hoje possui quatro capítulos prontos, de 30 estimados, enquanto que a Caleidoscópio atualmente está no 7 capítulo (de Jesus sabe quantos capítulos, porque é a trama que amarra as duas outras).

Peço que vocês tenham um pouquinho de paciência com essa demora em começar a publicar. Prometo que não esqueci de vocês ou do voto que fiz, mas minha rotina atual é um tanto quanto caótica, com a mudança de carreira, o início da faculdade de medicina, os trinta mil projetos de extensão que preciso desenvolver em conjunto com a faculdade e minha própria vontade de superar a barreira do "ordinário" em termos profissionais. Mas, de qualquer modo, quero reassegurá-los de que sim, continuo escrevendo e espero, de coração, postar algo de fato até o fim do ano - e não apenas em formato de preview.

Enquanto isso, aproveitem esse trechinho.

Tammie.