19:33, em alguma casa abandonada.

Havia se passado uma semana desde o escândalo no bar de strip-tease. Mello não havia tido nenhum contato com Matt desde aquele dia, dificultado pela desconfiança da gangue que tinha profundo ódio com o ruivo. Por mais que ele tenha dito para não se meterem com a vida dele e que Matt era um caso a parte, o ruivo se mostrava um ponto sensível, uma vez que ele já tinha se envolvido com gangues inimigas.

É irônico que melhores amigos se separem para formar gangues distintas, porém foi da forma mais acidental possível, e só se deram conta disso em uma confusão onde se envolveram as duas gangues. Ao perceber que matara dois caras de Mello e quase tinha atacado o próprio por acidente, Matt quebrou os laços imediatamente com sua então gangue e passou a trabalhar sozinho, com apenas visitas de amigos.

O choque foi muito grande para ambos. Terem se reencontrado depois de anos separados, desde o último dia de Mello no orfanato...Mas eles poderiam se reconhecer em qualquer idade. O loiro encarava o revólver a poucos centímetros de sua testa, Matt o olhando como se fosse uma aberração. Um sorriso, uma mão oferecida pra se levantar, assim que Mello se levantou, um abraço de saudades quase doentias da parte de ambos. O loiro, apesar de tão determinado em seus planos fora do orfanato, sentira muita falta do amigo, cúmplice de tantas coisas durante sua adolescência, e o mesmo podia se dizer de Matt...

Mello sentiu extrema afeição pelo outro ao ver que ele mudara completamente sua rotina de vida em nome da amizade de ambos. E tudo se reforçou, como nos velhos tempos. Voltaram a se encontrar regularmente, a sair juntos, só não conviviam mais juntos porquê os membros da gangue não poderiam ficar sabendo dos laços estreitos entre ambos, após a morte de dois companheiros provocadas pelo ruivo.

Mas Mello nem ligava. Eles não eram seus parceiros, eram simples subordinados que se impressionavam com uma mínima demonstração de sua inteligência vinda do orfanato. O Matt sim era seu companheiro eterno, aquele que apesar de não tão inteligente quanto Mello não se impressionava com aquilo, pelo contrário, adorava zombar dos defeitos do loiro, e apesar de sempre fazer a mesma expressão rabugenta para o outro após isso, eles se divertiam. E riam, riam sem parar, na maior parte do tempo sem motivo...

Tudo ia bem, até o dia em que Matt bagunçou completamente a mente de Mello. Naquele dia assistiam um filme, e Mello, completamente absorto, sentiu sua face virada pela mão de Matt. Já ia abrir a boca pra perguntar o que era, mas não teve tempo de reagir. Não foi um beijo na face, não foi um selinho inocente. Foi um beijo de língua, voraz, com todo o desejo possível. Sem saber ao certo porque, talvez o choque, ele retribuiu até certo ponto. Ficou completamente corado ao sentir a língua de Matt roçando a dele, brincando com a sua, como se fosse mais uma brincadeira entre amigos. Não sustentou isso por muito tempo, alguns segundos passados e ele empurrou o peito do ruivo, desejando que tivesse feito isso com mais força.

Matt afastou os lábios quando ele o fez, mas Mello ficou ainda mais constrangido ao ter que encarar aqueles olhos verdes tão próximos dele, e apesar de não ter visão total de seu rosto, podia sentir que ele sorria sinceramente...Enquanto ele se sentia tão confuso e indefeso como nunca estivera na vida. O amigo percebera isso após um tempo, mas não desmanchou o sorriso de seus lábios.

E pegou a mão de Mello, acariciando-a, parecendo apreciar o vermelho-escarlate que ele ficava a medida que fazia isso. E disse, ainda sorrindo:

- Mello...Tem algum problema? Achei que tivesse notado o que ocorria há algum tempo...

Mello tinha ficado completamente confuso. Tinha notado um Matt mais carinhoso, atencioso, e (ficou vermelho ao se lembrar), um Matt que fazia questão do mínimo contato corporal, seja um simples roçar de braços durante uma refeição.

Não tinha dado uma resposta pro ruivo naquele dia, e estava decidido a dá-la no bar, naquele dia. Mas tudo aparentemente foi água abaixo...Estava muito frustrado, odiava a perspectiva de perder Matt, mas era tão difícil pra ele entender que não era fácil aceitar as coisas assim?

Ele teria que entender. Abandonando as lembranças, sacou o telefone celular preto do seu bolso, discando um número que já havia decorado.

- ...Matt?
- Mello! – disse a voz do outro lado do celular ansiosa, como se estivesse esperando por essa ligação, mal conseguindo manter o tom magoado. - ...A que devo essa ligação?

- A muitas coisas... – murmurou, desajeitado. Mesmo não vendo a face do ruivo, sabia que naquele momento ele poderia estar sorrindo daquele jeito calmo e impassível que ele sabia sorrir.

- É, eu imagino. Mas você precisa ser mais esclarecedor...

- Desculpa pelo clube. Fui um idiota.

- Desculpado. – disse quase simultaneamente. – Mas não foi por isso que você ligou.

- É...não foi. – murmurou.

- Aquele dia ainda está incomodando, não é...?

- Sim. Essa resposta eu já sei. A que eu não sei é...o motivo do incômodo.

- O que quer fazer?

- Porra Matt, não despeje as decisões em mim. Eu queria que...sei lá, você fosse sincero. Eu não sei como reagir...

- Você não me deu um tiro, acho que já é um bom sinal.

- Não é hora pra brincadeiras! – Mello ruborizou, percebeu que deixara claro que considerava a possibilidade de ter gostado de beija-lo. – É muito difícil conversar, assim, quando eu não sei o que você pode estar achando das minhas pal...

Não tem problema. Estou indo pra aí agora. – e desligou na cara de Mello. Esse, perturbado demais pra algo, simplesmente mastigou lentamente o chocolate que guardava no outro bolso.