20:12, em alguma casa semi-abandonada.
Matt agora o encarava frente a frente, sem raiva nem mágoa da semana anterior. Somente prevalecia a cicatriz do copo estilhaçado, que Mello notou com remorso. Fez menção de toca-lo pra ver se estava tudo bem, mas e se toque no rosto desse esperanças á Matt? Ele não veria mais como amizade...por isso sua mão parou no ar e voltou. O ruivo percebeu e – para terror de Mello – abaixou seus óculos coloridos, encarando-o com uma severidade rara.
- Agora vai me ver como um bicho feroz?
- Não, é que... – as palavras do loiro morreram. Nunca esteve tão sem argumentos.
- Não vai dar pra ficar assim, Mihael. – disse, sabendo que chamá-lo pelo nome verdadeiro o afetaria. – Por favor, esqueça o que aconteceu.
- Porque tinha feito aquilo...?
- Curiosidade. Apenas isso.
Porém, Mello sabia que isso era mentira. O jeito de Matt beija-lo, suas palavras, seus toques, tudo nele indicava que o que sentia era muito mais complexo que uma simples curiosidade...e muito mais difícil de esquecer. Não bastando isso, o ruivo pegara um cigarro do maço e o fumava compulsivamente, com um olhar vazio, quase morto, para a parede rachada da pequena sala.
- Eu não sabia, Mail.
- Eu estou...
- Confuso, é, eu sei. Eu sei perfeitamente o que isso quer dizer. Que você sempre verá a nossa amizade como via a 10 anos atrás...é algo imutável. Mas...eu mudei, entende.
Voltou a por seus óculos nos seus olhos, e Mello desconfiava o motivo, ficando com mais remorso ainda. O ruivo era o único que conseguia despertar seu lado sensível e arrependido...
- Não é verdade o que você disse. Desde aquele dia entre as nossas gangues, tive uma afeição a mais por você. Não é... – e se desesperou ao ver lágrimas rolando pelo rosto de Matt – não é que nunca faria isso, mas nunca tinha pensado em acontecer, entende?
- Entendo. Mas aconteceu, e aí? – o ruivo atirou seu cigarro já totalmente tragado pela janela, e ameaçou pegar outro. Mello o impediu, segurando sua mão firmemente e olhando nos olhos úmidos do amigo.
- Agora é você que não está prestando atenção em mim...
- Mello, você nunca teve um relacionamento duradouro com ninguém, e não seria comigo a estréia. Vamos esquecer tudo. Me esqueça...
- Não seja dramático! – disse ele já com raiva do que o outro dizia – eu estou com medo do que pode acontecer se eu levar tal coisa adiante!
- ...está com medo de gostar de mim?
Mello calou-se, os olhos arregalados. Matt conseguiu entender a confusão interna de Mello melhor que o próprio. E sorriu para o loiro. Mello, apesar do gênio irredutível, era tão claro e dócil como uma criança. E era por isso que, apesar de todas as luzes e mulheres tentadoras daquele dia no bar, eles pareciam ter olhos somente para o outro...
20:49, ainda na casa.
Os óculos de Matt estavam em cima de uma mesinha com a pintura descascada. Aquele ambiente de escória, o dinheiro desonesto, a vida nas ruas, o que importava? Mello o tinha naquele momento junto á ele, e isso calava todos os poréns que sempre se manifestavam na sua vida...Incluindo o seu orgulho...
E beijavam-se, beijavam-se em uma batalha trivial de línguas, como se compensassem os tempos que mantinham os lábios próximos um ao outro sem fazer isso. Nem se quisesse Mello seria capaz de descrever o que sentia. A cada vez que a língua de Matt roçava na sua, um sentimento de euforia crescia dentro dele, seu coração se acelerava em contradição com o mundo que parecia ter congelado naquele momento. Como pode por um momento negar aquele toque tão quente de Matt?
A única coisa que experimentara desde que partira do orfanato foram ocasionais prostitutas, vulgares e efêmeras, que não proporcionavam nenhuma sensação á Mello senão o alivio. E aqueles antigos toques pareceram tao sem sentido e sujos se comparados á aquele que vivia agora...
Mello tirou a luva, sem interromper o beijo, e voltou a acariciar a nuca do ruivo, só pra sentir melhor seus cabelos...as mãos de Matt estavam completamente irriquietas, diante o seu estado de felicidade, e exploravam cada canto do rosto de Mello, como se ansiasse perde-lo a qualquer momento...
Um barulho de um revólver ajustando a munição, e uma voz grave ecoou no cômodo, fazendo Matt e Mello pararem tudo na mesma hora:
- Então é isso que o chefe faz enquanto estamos fora...
