Manhã de segunda feira

Primeiramente agradeço as revirews recebidas no prólogo desta história que foi postado há tanto tempo... espero que ainda se lembrem do que leram e que a historia continue a agradar. Já mencionei que este é um yaoi Mu e Shaka? Bom... só pra constar.

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MANHÃ DE QUARTA-FEIRA.

Shaka saía do elevador pensativo. Mal adentrou a recepção do conjunto de salas que compunham o maior escritório de advocacia daquela região quando notou sua secretária carregando sua agenda de compromissos.

Ignorou o cumprimento de 'bom dia' vindo da recepcionista, que assim que ele virou as costas fuzilou-o com o olhar.

"Que sujeito mais besta. Quem ele pensa que é?" – pensou ela, enquanto voltava a sorrir amavelmente observando a entrada de um cliente que tinha uma reunião com outro sócio da firma.

Enquanto andava a passos largos pelos corredores da firma Shaka era seguido de perto pela secretária que lhe informava sua agenda para aquele dia e outros compromissos importantes que havia pedido para ser comunicado com antecedência. Apesar de jovem Shaka já era muito bem sucedido, vencendo causas grandes que atraíam mais clientes para o escritório, e em pouco tempo isso lhe rendeu uma vaga no comitê de sócios da companhia.

Aos trinta anos já era um dos sócios mais rentáveis do quadro jurídico, com direito a voto e veto nas decisões da presidência. A agenda de audiências repleta de compromissos ao ponto de poder dispensar clientes. Possuía um sem número de vitórias e outro tanto de bons acordos efetuados.

Por ser virginiano era perfeccionista por natureza. Ao extremo, na verdade. Adorava a política de forçar os acordos até o último centavo que pudesse ganhar, prolongar os processos até a última instância, através de todos os recursos disponíveis previstos na Lei.

Pessoas ligavam para o escritório procurando por ele o dia todo e cabia a sua secretária o dilema de aceitar as ofertas ou recusá-las, fazendo a triagem.

Shaka não abarrotava a agenda com excesso de ações. Sempre reservou espaço para suas atividades particulares, mas sua vida particular era um mistério até mesmo para o presidente do grupo, de quem era amigo pessoal.

Suas atitudes de chegar na empresa às 9, sair às 6, não levar trabalho pra casa, nem trabalhar nos fins de semana causava inveja em seus colegas menos afortunados.

Shaka ouvia atentamente os compromissos agendados pensando por onde deveria começar o dia. Para começar pediu à moça que lhe trouxesse a pasta de um caso que recentemente lhe fora designado pelo presidente. Pensou chateado na quantidade de volumes que compunham aquele caso e ordenou à moça que marcasse uma reunião com o promotor público responsável.

Apertou a pasta entre os dedos enquanto entrava no escritório. O local que para ele era como um santuário. Sua mesa elegantemente decorada próxima de uma grande janela panorâmica, de frente para os armários com seus arquivos, tudo prático e de fácil acesso e limpo.

Deixou a pasta em cima da mesa, tirando o paletó e colocando-o num cabide, dentro de um closet. Olhou perdido por instantes as pessoas que andavam apressadas pelas ruas abaixo de sua janela, os prédios altos. Lá longe nuvens carregadas de chuva se formavam no horizonte além das antenas de estações de rádio e TV.

Finalmente sentou-se, ligou o computador... um ritual que repetia todos os dias desde... desde sempre.

Tinha um caso novo nesta manhã, uma novidade após passar meses em busca de fechar um acordo entre duas grandes empresas. Em princípio pensou em recusar o caso. A área criminal não era seu maior interesse, mas este caso era diferente. Estava acostumado com processos por calúnia, injúria, difamação, sempre ações que geram alguma indenização de alguns milhares, ou milhões, que se converteriam em ações de cobrança na área cível, sua especialidade; além de crimes tributários como sonegação de impostos.

Homicídio era caso que ele aceitava com muito custo, mas as famílias envolvidas estavam dispostas a pagar para ver um tal de Seiya "não sei de quê" atrás das grades por um bom tempo. O valor que pagavam de honorários compensava o sacrifício de ter que dividir tempo com um promotor público relapso...

Talvez não fosse tão ruim assim... eles tem muito mais ações do que tempo para olhar cada uma delas com cuidado. Talvez o sujeito até ficasse feliz em deixar ele, como assistente, cuidasse do caso sozinho, somente assinando as petições. Era só questão de dar a ele a possibilidade.

Passou os olhos no resumo detalhado do caso e na peça acusatória formulada pelo promotor.

Jabu, a vítima, era lutador de artes marciais em ascensão, morto na véspera de ano novo há quase dois anos pelo primo Seiya.

"Isso explica quem é o tal Seiya." – disse para si mesmo enquanto lia. Palavras desconexas faziam relação e se fixavam em sua mente como que na formação de um quadro de quebra cabeças:

- Homicídio qualificado;

- Motivo torpe;

- Crime hediondo;

- Abuso a confiança;

- Emboscada;

- Premeditação;

- Réu confesso.

As duas últimas palavras fizeram brotar um sorriso inconsciente em seu rosto. Talvez fosse mais fácil do que pensou. O promotor havia feito um bom trabalho, sem deixar escapar nenhum ponto. Enfim, haviam raridades no serviço público.

"Réu confesso". – releu as palavras novamente. Se entregou à polícia sem qualquer resistência. – "Típico de quem tem culpa no cartório." – O único problema era ter que trabalhar com os advogados do estado: processos que nunca terminavam.

Lembrou-se de seus tempos de faculdade. O grande objetivo de muitos lá era o funcionalismo público, menos o dele, que sempre quis trabalhar em escritórios de empresas. As carreiras públicas não lhe chamavam a atenção, exceto pelo cargo de juiz. O fato de ter de visitar repartições públicas mofadas e desorganizadas lhe dava arrepios.

Recomeçava a ler recuperando a concentração. Observava fotos de perícia, laudos médicos, depoimentos. Queria estar totalmente a par daquela peça para conversar com o promotor que conheceria naquela tarde.

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Mu chegava na repartição onde funcionava a defensoria pública. Por ordem do governo tinham acabado de se mudar para aquele prédio e os departamentos ainda se adaptavam ao novo espaço, reorganizando o pessoal. Por isso andava cauteloso em meio aos fios dos computadores provisoriamente alocados, caixas de papelão guardando as cópias dos processos, armários de arquivos pelos corredores aguardando a manutenção que os levaria aos locais onde seriam guardados.

"Bom dia." – cumprimentou os funcionários da seção onde trabalhava com um aceno de cabeça e o sorriso carismático característicos dele, solícito como era todos os dias, antes de se 'esconder' na sala que lhe foi designada.

Abriu a porta desanimado ao pensar na pilha de processos que teria de encarar naquela manhã. Suspirou e deu um sorriso bobo para os processos que estavam sobre sua mesa.

"Trouxe mais um para fazer companhia para vocês". – Se sentiu um idiota em falar com a montanha de papel velho que criava raízes sobre sua escrivaninha. Abriu a janela ligou o computador, largou o terno sobre o encosto da cadeira e sentou-se.

A pilha de processos estava organizada sobe a mesa em três pilhas:

Primeiro: A urgente. Casos de recurso, habeas corpus, medidas urgentes.

Segundo: A média. Casos que precisavam de petições e requerimentos dos mais diversos e escabrosos.

Terceiro: A 'fácil'. Onde estavam todos os processo novos que ele teria que ler e peticionar.

Demorou meses até que conseguisse um sistema que funcionasse. Além do mais, em sua sala havia um escaninho, onde outras pilhas de processos aguardavam. Coisas para revisar, coisas para arquivar, coisas para requerer... entre outras 'coisas'.

Tinha sido o primeiro a chegar naquele dia. Miro, o promotor com quem dividia a sala ainda não tinha chegado e nem Shiriyu, seu estagiário ou Hiyoga – estagiário do outro promotor.

Quando pensou que teria sossego para trabalhar em paz na ausência da turba com quem dividia o espaço, Miro entrou, carregando um copo de café e um sanduíche.

"Bom dia!" – cumprimentou com a boca cheia. Mu fez uma cara de desgosto, mas respondeu o cumprimento, dando 'Adeus' ao prometido sossego.

"Processo novo?" – Perguntou Milo enquanto tirava o paletó, apontando para o novo volume sobre a terceira pilha da mesa do amigo.

Mu não respondeu. Apenas fez um grunhido afirmativo enquanto pegava um processo da pilha dos urgentes para ver qual a providência necessária. O outro se aproximou da mesa e começou a ler os autos.

"Réu confesso, Mu?!" – Questionou o outro surpreso, tratando de ler somente 'os finalmente'. – "Camus é o promotor?! Esse cara tá ferrado!"

Mu pegou o expediente das mãos do outro, recolocando-o sobre a pilha. Apoiou as mãos na mesa e disse: "Lá vamos nós de novo, né! Pode começar!" – disse sentando-se. Era sempre assim. Milo estava insatisfeito com alguma coisa.

"Você não cansa, Mu?" – perguntou, enquanto tentava ajeitar os cabelos rebeldes com os dedos.

"De que?" – perguntou. Mu já tinha se cansado de tanta coisa na vida.

"De pegar casos como esse!" – respondeu Miro, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, apontando para o processo.

"Como esse?! Não estou entendendo, Miro. Nós somos defensores públicos. Se pegamos algum caso, provavelmente é um crime e nós estamos do lado do acusado. O que tem isso demais?"

"Hello! Réu confesso. É um caso perdido! Por que você aceita!"

"Milo?! Você não acordou ainda? A gente pega os processos dependendo do número de distribuição, lembra?" – Perguntou como se falasse com uma criança.

"Eu estou cansado de ser o 'Santo Padroeiro das Causas Perdidas', você não está Mu?" – perguntou, voltando para sua mesa, ainda parecendo consternado com a passividade do outro.

"Não." – respondeu seriamente, voltando-se para o computador.

"Mu... não faz assim comigo! Vai dizer que você se formou em Direito, estudou até a bunda ficar quadrada para passar no concurso para ficar defendendo caso que não tem solução. Você não cansa de perder sempre?"

"Quem falou que eu perco sempre? Para sua informação, quase tudo o que eu requeri foi aceito, até hoje." – respondeu. Mu olhava para o outro incrédulo. Há tempos Miro desejava seguir o caminho inverso e buscar por uma carreira no ramo privado. Principalmente depois de algumas coisas que aconteceram recentemente.

"Como assim? Você pede para baixar a prisão de 20 apara 15 anos e acha isso uma vitória?" – Disse Miro debochado. Aquilo pareceu disparar um gatilho em Mu, que ficou defensivo.

"Miro, Diferente de você eu não fiz faculdade de Direito para 'ganhar' as causas. Segui a área criminal porque acredito que todo mundo merece o direito de se defender. E, sim, eu acho uma vitória baixar a pena de 20 para 15 anos se isso for o justo! Dá para parar com essa conversa por aqui?!" – perguntou encarando o outro.

Antes que Miro tivesse a chance de respondeu Camus entrou na sala. – "Bom dia. Vejo que o clima ta quente aqui desde cedo..." – respondeu observando Milo terminar de comer, respondendo seu cumprimento com um aceno de mão.

"Bom dia, Camus. Por que o Milo só fala de boca cheia comigo?" – perguntou Mu, intrigado pelo comportamento do outro.

"Por que eu te amo mais!" – respondeu Milo debochado, novamente com a boca cheia, do outro lado da sala. Mu suspirou fundo e voltou-se para o promotor.

"O que te traz aqui tão cedo, Camus? Não foi para ver essa cena dantesca, imagino." – disse Mu, apontando para o colega de sala que o olhou indignado.

"Não. E se soubesse que isso ia acontecer tinha esperado um pouco mais. Agora, falando sério. Soube que o processo contra Seiya Kawata foi distribuído para você."

"Foi sim. Por que?"

"Bom, hoje de manhã eu recebi um telefonema de um escritório de advocacia, dizendo que um advogado particular quer atuar no caso como assistente. O cara combinou um horário para falar comigo mais tarde. Então, acho que agente vai ter que cancelar aquela reunião sobre o desempenho dos estagiários e distribuição de tarefas para outro dia."

"Beleza. Mas não pode demorar muito. Tem que entregar o relatório até o final do mês."

"Eu sei... eu sei. Vamos almoçar mais tarde?" - Perguntou Camus para os outros dois.

"Desde que o Miro não escolha o lugar. Tudo bem." – respondeu Mu. Miro tinha mania de almoçar nos lugares mais inusitados. Até barraquinha de cachorro quente já foi local de almoço.

"Ei! Magoei! Tá bom." – respondeu o outro, lançando uma bola de papel contra Camus e outra contra Mu.

Miro estava atacado naquele dia. Ia ser um longo período. Onde estavam os estagiários quando se precisava deles? Na frente deles iro ficava um pouco mais contido. Voltaram ao trabalho. Ainda tinham audiências para realizar no período da tarde.

CONTINUA...

Beijos

Kika-sama.