Sirenes ecoavam por todos os lados. Soro e mais soro. Cirurgia. Estancar sangramento. Remover projétil. Sutura. Arranjar um leito. Salvar uma vida.

Misa olhava para a janela de seu quarto. O resto era agoniante. Parede branca, cortinas brancas, lençóis brancos, porta branca, mesa branca. Até mesmo a TV era branca:

-Como se sente senhorita...Kamisaka?-Perguntou a enfermeira olhando seu nome na ficha.

-Como se tivesse tomado um tiro.

-Ok, se precisar de algo me chame-Disse a enfermeira saindo as pressas.

Os pensamentos de Misa eram diversos. Mas o principal era enforcar a enfermeira. Não sabia o seu nome e ainda fugiu quando era pra ter ouvido ela. Não seria tão ruim ela não lembrar o nome se não fosse o fato de Misa estar ali há três semanas:

-Dane-se ela. Dane-se todo mundo. Estou a três semanas nessa cama e não recebi uma visita sequer.-Resmungou ela com tristeza e amargura.

-Não devia falar assim.

O susto de Misa foi imenso. Ela olho ao seu lado e lá estava um rapaz de cabelos negros, vestindo um casaco preto escrito "Adidas" no peito e uma jeans rasgada.Sua face não passava nenhuma emoção, como se lhe faltasse um coração:

-Quem é você!?Como entrou?

-Pela janela.-Respondeu ele apontando para a janela aberta.

-Eu vou chamar a enfermeira!-Misa estava em desespero apertando o botão.

-Não vai funcionar senhorita Kamisaka. Sua força é nada comparada a minha nesse instante. Olhe para o quarto.

Ela não havia reparado, mas o quarto passou de branco doentio a um negro como sombra, não se podia ter qualquer noção de distância, como se o quarto não tivesse paredes:

-Eu ainda sou gentil Kamisaka, mas tem gente que quer sua cabeça a qualquer custo. Eu realmente não queria estar no seu lugar.

-Do que você está falando!?

-Você ainda acha que aquele tiro foi sem querer?Que você estar dentro daquela loja na hora do assalto foi mera coincidência?Não seja tola, está enganando somente a você mesma. Matsuo foi um tolo a me impedir de te matar. Teria poupado muito sofrimento de você.

-Pare com isso!Isso é tudo mentira!Mentira!

O jovem se moveu em uma velocidade inacreditável e agarrou o pescoço de Misa.Seus olhos haviam passado de negro opaco a um olho similar ao de uma cobra, de cor vermelho-sangue:

-Me escute agora, você tem que acordar. Pare de se enganar, seu Shinigami está adormecido a tempo demais. Acorde!

-Senhorita Kamisaka, fale comigo!-A enfemeira berrava no ouvido de Misa, que subtamente percebeu a presença da enfermeira. O quarto estava todo branco novamente e a janela, fechada-Estou chamando você a alguns minutos, mas você estava em transe. Está tudo bem?

-Sim, por favor, pode me deixar um pouco só?

-Claro, como quiser.

O que havia acontecido? Misa não conseguia explicar o que havia acontecido, se era verdade ou apenas um sono. O que é um Shinigami?Ele não podia estar se referindo ao sentido "deus da morte" que é atribuído a palavra Shinigami.

Não parou de pensar naquilo durante mais uma semana, até que foi liberada e voltou para seu apartamento. Havia faltado há quatro semanas de aula, e também a semana de provas. Teria que estudar muito para recuperar o que perdeu:

-Saco.

A primeira noite em sua casa foi longa. Não conseguia pregar os olhos e a face do garoto estava estampada em sua mente e não iria sair tão fácil. Ele parecia estar sedento por morte, seus olhos borbulhavam raiva. Medo descrevia o estado de Misa.

As aulas continuavam iguais. As pessoas iguais. Mas Misa se sentia muito diferente e deslocada:

-Misa-chan, você está entendendo o que ele está falando?

-Yumi, eu estou sem vir para a aula a quatro semanas. Não faço a mínima idéia do que ele está falando.

-Ahm...Obrigado por me ouvir.

Misa sorriu de volta. Saiu extremamente forçado, e não conseguia explicar porque. Sempre gostou de sorrir, desde criança achava sorrisos a coisa mais divertida da vida.

Chegou a hora do almoço e Misa foi almoçar no terraço. Era bom lá encima, o vento na sua face e seu cabelo balançando. Queria almoçar sozinha, mas de repente uma outra pessoa subiu lá e a avistou.

Ele era enorme, parecia ter mais de 1,90 de altura, possuía cabelos negros extremamente bagunçados e olhos castanhos. Estava com uma face de preocupação no rosto:

-Desculpe o incomodo mas, se importa se eu almoçar aqui?-Perguntou ele com uma voz suave.

-Claro, sem problemas-Misa não queria contrariar alguém daquele tamanho que além de tudo, era forte.

-Puxa, obrigado!Eu sempre quis almoçar aqui encima, mas não gosto de ficar sozinho. Que bom que você está aqui.

Ele era incrivelmente simpático e não parecia capaz de causar qualquer dano a uma mosca sequer. Misa se sentiu feliz pelo fato de ele ser tão diferente, e começou a conversar com ele:

-Você é de que turma?

-Primeiro ano, entrei hoje no colégio.

-Ah, bem que nunca tinha te visto antes.

-Eu entrei para a sua sala. Você estava dormindo quando o professor me apresentou-Disse ele sem parar de sorrir.

-Ah, me desculpe!

-Ah, não precisa!Não é nada demais, só chamo atenção pelo tamanho. Já estou acostumado.

-Não fale assim!Você é tão simpático!-Disse ela brava. Odiava quando as pessoas faziam o que ele fez.

A conversa parou por alguns segundos, ele olhou para ela e deu um sorriso lindo. Era tão despreocupado e puro que o sol brilhava nele:

-Obrigado.-Disse ele.

Não acreditava naquilo. Os outros garotos era preciso dizer que eram lindos, perfeitos, os melhores, demais para que dissessem "legal", e ele com um simples elogio, abriu um sorriso enorme.

-Ah, o sinal tocou, tenho que ir copiar os deveres de física antes da aula começar!-Disse ele correndo-Prazer em te conhecer Misa!

-Também...Pera, qual o seu...!

Era tarde demais. Ele havia descido as escadas correndo para a aula:

-Droga!Pergunto na aula!

Misa foi começar a caminhar mas de repente, sentiu uma tontura e caiu no chão, enquanto tudo ficava negro.