O lugar era realmente agradável, Tsunade-sama foi muito generosa ao me oferecer a reserva dela. Há meses que trabalhava muito mais que eu e mesmo assim me deixou usufruir daquele pequeno pedaço do paraíso. Nessas horas que eu percebia o amor que sempre demonstrou por mim.

O quarto era lindo, muito ensolarado e me senti satisfeita por ter ido. Cheguei no pôr-do-sol de uma quinta-feira e provavelmente ficaria até o entardecer do domingo próximo. Naquela noite não fiz outra coisa a não ser dormir. Acordei no dia seguinte com uma moça de rosto gentil batendo à porta com o café da manhã.

- Bom dia, Haruno-san. Trouxe sue café.

- Bom dia... - minha cara de sono denunciava que há alguns segundos ainda estava no mundo da fantasia - Mas eu não pedi café algum... acho que foi um engano.

- Não... de maneira alguma! Este café foi ofertado à Haruno-san.

- Ah, mas que gentileza a cortesia da estância! Por favor, aceite meus agradecimentos!

- Desculpe, mas não foi uma cortesia do hotel. Esta refeição foi oferecida pelo hóspede do quarto ao lado.

Hóspede? Uma dúvida enorme era visível em meu rosto. Cheguei ao local e não mantive contato com nenhum hóspede, muito pelo contrário, até mesmo pedi para não ser incomodada pois tiraria a noite para descansar profundamente. Estranhei a atitude, mas ainda assim, aquela refeição suculenta estava fazendo despertar meu apetite de quase um dia inteiro.

- Que seja, mais tarde irei agradecer, muito obrigada.

A mulher se foi, na certa rindo de minha ingenuidade. Mas quem seria o hóspede? Seria homem, mulher? Lembrei que ela referiu-se como "o hóspede do quarto ao lado", na certa era um homem. Entretanto, como ele sabia sequer que tinha alguém hospedado ao lado de seu quarto? Será que eu estava roncando alto? Nossa, pode ser que tenha perturbado o descanso do pobre homem. Vez ou outra tenho pesadelos que me arrancam gritos histéricos e descontrolados... seria essa uma das ocasiões?

Fiquei com muita vergonha e decidi tomar um banho antes de apreciar aquelas pequenas guloseimas. Havia uma variedade de pães e frutas, coincidentemente, as frutas que mais gostava. "Ele é uma pessoa gentil. Seja o motivo que for, preciso agradecê-lo.".

Depois de "finalizar" a maioria dos quitutes, vesti uma roupa de banho e joguei um vestido muito fino de malha branca sobre o corpo. Peguei meu chapéu de praia e óculos de sol, bem como minha bolsa com protetor solar e todas essas coisas que temos que levar para a praia e saí. Quase no corredor, lembrei-me de fazer o que tinha prometido. A porta do quarto 3B estava com o aviso "Não Perturbe" pendurado. Fiquei receosa em intrometer-me talvez num momento de descanso da pessoa e deixei para depois.

A piscina estava bem movimentada e o dia quente colaborava para que as pessoas se dispusessem a curtir o dia. Pensei em alguns momentos no meu vizinho, que estava perdendo um lindo dia. Mas talvez ele estivesse realmente cansado. Sentei o mais perto que pude da piscina e deixei o sol bronzear a minha pele que de tão branca estava apática.

Os minutos passavam tranquilamente, quase sem que percebesse. Um sono foi se abatendo sobre mim e não iria dormir ali, acordaria com as costas completamente queimadas. Ri da idéia de retornar para Konoha tão vermelha como um dos camarões que Naruto aprecia no ramén dele. Alias, como estariam todos por lá? E quando pensei nisto, vi que aquela foi a primeira vez em quase um dia que deixei minha mente ser levada para casa. e fiquei feliz com aquilo, finalmente estava tendo um momento só meu, onde não era amiga de alguém, pupila de alguém os estaria preocupada com algum de meus pacientes. Ser médica era uma atividade muito recompensadora, mas nos timos dias estava com estafa mental e física. Por mais que quisesse me enganar, percebia naquele momento o quanto precisava de um descanso. Meu corpo agradecia, satisfeito.

Fui desperta de meus pensamentos por gritos vindos da piscina.

- Ei, tem uma criança no meio da piscina que está se afogando!

É impressionante o quão estáticas as pessoas podem ficar numa situação que envolve perigo. Estava rodeada de pelo menos outros vinte adultos, mas nenhum deles sequer mergulhou. Ficaram parados, à espera que alguém fosse salvar o garotinho. Quando dei por mim, já estava na água. Alcancei o menino em poucos instantes e vi que o rosto estava azulado e ele não respirava. Preciptei-me para a borda o mais rápido que pude e com a ajuda, finalmente, de dois homens, coloquei o pequeno deitado. Fiz o procedimento necessário para liberar a água que tinha engolido, mas nada da cor voltar. A respiração era quase inaudível. Não poderia perdê-lo ali! Passei para uma abordagem mais agressiva, dando socos encaixados em seu peito e vi aliviada quando o líquido saía de sua boca e o ar enchendo os pulmões do garotinho. Ele abriu os olhos devagar, encontrando os meus meio perdido ainda.

- Oi... que susto você deu na gente, hein amiguinho?

Ele sorriu para mim e reparei que ele era tão pequeno... não deveria ter mais que três anos... antes que pudesse falar mais alguma coisa, os pais vieram completamente assustados.

- Sasuke! O que você estava fazendo na piscina... por Kami-sama, nunca mais desapareça do nosso lado!

Não escutei mais nada... aquele nome... enquanto a mãe e o pai agradeciam-me entusiaticamente, sentia meu corpo parar em outro tempo, embalada pelo sorriso do pequeno... do pequeno...

Sasuke.

Aquele nome me perseguiria por toda a vida?

Depois de algum tempo aérea, certifiquei-me que o garotinho estava bem e voltei ao meu quarto, impressionantemente mais cansada que no momento em que o deixei. Ao chegar, reparei uma grande cesta com doces... alguns dos quais não comia desde pequena e uma pequena flor largada na cama, com um bilhete bem escrito, dizendo apenas "Para a heroína do dia". Diverti-me ao ver aquilo, o agradecimento daqueles pais era tocante. Minha missão era salvar vidas, tanto como médica, como pelo fato de ser uma shinobi. Mas ainda assim, era gratificante ver a vida nova.

E lembrando daquele garotinho... algo em mim mudou. Afinal, eu tinha realmente salvo a vida dele... daquele Sasuke. Enquanto que do outro... eu não pude fazer absolutamente nada por ele.

Odiava ficar com aquele sentimento impotente dentro de mim. Por isto trabalhava tanto... precisava manter toda a minha mente ocupada para esquecer as lembranças de um passado doloroso... de uma vida de perdas... mas o destino encarregava-se o tempo todo em me lembrar que não poderia fugir dele, ou daquilo que tivemos. Melhor dizendo, daquilo que não tivemos. Sasuke sempre meu maior sonho... mas há anos tornou-se minha maior falha... aquilo que não queria me lembrar de maneira alguma.

Mas quando olhei aquela criança, tão inocente... e feliz em me ver... meu ser ficou triste... pois aquele Sasuke direcionou-me mais carinho num único momento que o outro jamais fez.

E que droga, estava ali para ter um momento íntimo... e não compartilhá-lo com uma lembrança. Achei gentil o gesto daquele casal, mas resolvi ao importuná-los. Estavam agora cuidando de seu pequeno.

Resolvi tomar um banho relaxante na fonte termal. Vesti um roupão muito confortável e caminhei sozinha pelos corredores da estadia. O dia estava um pouco quente e a fonte estava vazia. Era uma daquelas mistas, onde homens e mulheres freqüentavam. Senti muita vergonha, mas quando percebi estar sozinha, relaxei por completo. Afinal, era aquele um lugar público, mas ainda assim estaria bem mais à vontade apenas com mulheres no local. Estando sozinha era melhor ainda... seria a tranquilidade que precisava naquele momento.

Passando pelo corredor, a mesma jovem que me trouxe o café da manhã acenou, alegremente.

- Fiquei sabendo de seu ato heróico hoje!

- Não teve nada de heroísmo. Mas fiquei contente em estar preparada e no local certo - sorri, sinceramente.

- Ah, não diga isto... não é o que todos estão pensando por aqui... inclusive o hóspede do 3B... viu a cesta linda que ele lhe enviou?

Agora estava confusa... como assim? Jurava que a cesta tinha sido enviada pelos pais do pequeno Sasuke... mas agora... estava sem entender nada. Não me lembrava de tê-lo visto na piscina... afinal, não o tinha visto em lugar algum. Voltei pelo corredor e o aviso de "Não Perturbe" continuava pendurado na maçaneta. Apesar da curiosidade, contive minha vontade de chamá-lo e agradecer... na verdade, saber o motivo de tanta gentileza. Afinal, éramos apenas ilustres estranhos...

Fui até meu quarto e peguei papel e caneta. Escrevi um bilhete, mais ou menos assim:

" Caro hóspede vizinho,

Agradeço com sinceridade pelos presentes, mas não me considero merecedora deles. Aprecio a gentileza e gostaria de poder retribuir de alguma maneira. Estarei hospedada ainda por três dias e espero poder conhecê-lo, para agradecer de maneira adequada.

Fico no aguardo de uma resposta,

Haruno Sakura."

Passei o bilhete por debaixo da porta do quarto 3B e segui para a fonte termal.

Deixei o roupão de lado na borda, dobrado cuidadosamente e coloquei uma toalha ao lado, para me secar quando saísse. O vapor da água quente estava embriagado de cheiro doce, provavelmente algum incenso aromático... mas parecia um cheiro muito familiar... parecia cheiro de... cerejeira!

Era como estar em casa, deitada numa colina alta, vendo as cerejeiras em flor despetalarem sobre mim e embalarem meus sonhos acordados... e nestes sonhos... sempre alguém me chamava...

- Sakura...

Ai... as lembranças eram quase reais... e até mesmo a voz sofria uma metamorfose... como se em minha mente também tivesse amadurecido. Era uma loucura. Estava doente... tinha que me libertar daquilo...

- Sakura...

Nossa... realmente precisava parar de escutar essas vozes. Tinha que manter o mínimo de sanidade mental. Mas a voz continuava, os sussurros quase me enlouquecendo...

- Sakura... Sakura... Sakura... por que... desistiu... de mim...?

Não conseguia mais me segurar, precisava gritar e expulsar aquele fantasma da minha cabeça!

- Pare, isto não é real! Você tem que ir embora! Quem me abandonou foi você! Pare de assombrar a minha mente!

E no vapor eu o vi... ao menos a silhueta dele desenhada... era... Sasuke-kun? Impossível! Minha mente me dizia que não... meu coração gritava o mais alto que podia: Não é ele! Não pode ser! Não se deixe enganar novamente!

Mas meus olhos... será que agora estavam me enganando descaradamente?

A silhueta tomava forma, mas eu não conseguia sequer me mover. Estava mortificada... por mais que quisesse me iludir, o alarme gritava: não é ele!

- Vou pedir pela última vez: vá embora! Você não faz mais parte da minha vida! Por isto, suma!

Como se estivesse realmente me ouvindo, o vulto desapareceu. Me deixando sozinha com minhas lembranças...

- Ah Sasuke... preferia estar louca a ter que ser abandonada por você novamente... por mais que isto me machuque... por favor... deixe ao menos minha mente sã...

Capítulo sem grandes emoções... eu sei... mas espero que tenham gostado! Escrevi na pressa!

Reviews fazem uma autora em crise muito feliz!